21.7.19
25.6.19
Viva a poesia
Viva a poesia de nossas vidas:
A que deixamos para nossos filhos,
A que recebemos de nossos pais,
A que projetamos lá pra frente,
A que trazemos sempre pro presente,
E a que deixamos pra trás...
A poesia
Bendita seja, nesses dias, a poesia,
Que não tem cor, que é sempre qualquer cor,
Que é ao mesmo tempo quente e fria,
E, ao mesmo tempo, causa e cura a dor,
Bendita seja, Santa companhia,
A poesia, do jeito que for,
Nunca limita, separa, não segrega ou tria,
Nunca tem mais valor, menos valor...
A poesia é palavra ilimitada,
Ao mesmo tempo, enquanto é tudo, é nada,
Ao mesmo tempo, enquanto é morte, é vida
Querer impor limites ao poema,
E ver problema onde não há problema,
É obstruir a porta de saida.
19.6.19
As cinco mil extra-sistoles
Eu leio o laudo e tento me acalmar.
Cinco mil, meu Deus! E eu nem sabia,
Tantas, que somente o holter pra contar...
Cinco mil. Sem sudorese nem taquicardia.
Eu leio de novo. Não quero acreditar.
Faz tempo já não to mais na garantia,
Acho que Deus tá querendo me trocar.
Cinco mil. Até cai bem na poesia,
Mas é procurar a cardiologia
Pra ver se eu devo logo ir me internar...
Eis que o meu medico e amigo, em calmaria,
Responde meu zap (bendita tecnologia):
Resolve fácil, não precisa se preocupar...
18.6.19
Poesias
Você os guarda num blog ou numa folha A4?
Digita ou escreve com uma lapiseira?
Saem de primeira ou depois você dá um trato?
Posta sempre ou mostra só pra companheira?
Dá pra montar com elas seu retrato?
Vem em pedaços ou sempre vem inteira?
São próprias pra platéia de um teatro
Ou para usar numa espreguiçadeira?
A poesia, dona de segredos,
Livrando o poeta de seus medos
E atirando o poeta seus abismos,
A poesia, que sempre encanta,
Silenciosa as vezes como um mantra,
A poesia e seus preciosismos.
13.6.19
O quibe da vovó Maria
Quem comeu o quibe da vovó Maria,
Frito, de forno, de peixe ou com coalhada,
Nunca mais come outro igual. É covardia.
Bastava o cheirinho e a boca ficava aguada.
Será que era o tempero que ela fazia?
A quantidade de trigo misturada
Naquele bolinho que ela esculpia?
Qual era a receita? Onde ficou guardada?
No coração da gente, na saudade,
Porque falar de vovó dá uma vontade
De um dia voltar a tocar a sua mão...
Ah, os seus quibes... quando novamente?
Vovó Maria, sempre presente
No melhor lugar do nosso coração...
10.6.19
As cinco mulheres
Cinco mulheres empoderadas,
Cinco mulheres amamentando
Suas cinco crianças internadas
E ao lado delas, pouco a pouco, melhorando,
Cinco mulheres determinadas,
Diariamente, a seus filhos, se entregando,
Não desistem, não ficam tristes nem cansadas,
Mas se acaso ficam, vão se superando,
Cinco mulheres que nos representam,
São corações assim que nos sustentam,
Um amor assim é a nossa única saída...
Que Deus abençoe essas cinco mães extremas,
Merecedoras de todos os poemas
E de "todo amor que houver nessa vida"...
9.6.19
Bom dia
Bom dia. E que seja mesmo um bom dia
Com muitas coisas por acontecer,
Algumas delas, motivo pra poesia,
Outras, a gente nem vai perceber:
O vento, o sol nascendo, a chuva fria,
O cachorro na rua, o coração bater,
Milagres diários que ninguém copia
Mas que o dia guarda em seu poder,
Então bom dia. Mais um pra gente,
Porque cada dia é um dia diferente
Ainda que sejam dias quase iguais,
Aproveitemos. É nossa chance.
Bom dia. Gostoso como um romance,
E como as coisas boas que ele faz.
5.6.19
Preciso da tua ética
2.6.19
Amor de mãe
Amor de mãe é o melhor da vida,
Nada substitui, nunca termina,
Começa muito antes da dor comprida,
Amor de mãe é pura ocitocina,
Não tem tempo ruim, nem despedida,
Amor que é como se fosse uma vacina
Protegendo de toda a dor, toda ferida,
Desafiando a própria medicina...
Amor de mãe não respeita idade,
É o grande legado das mães para a humanidade,
Por tão sublime que é, tão sem pecado,
Tão doce, tão intenso, tão diário,
Não cabe inteiro em nenhum dicionário,
Amor acima de qualquer significado.
30.5.19
A discussão
Um diz que sabe. O outro, que tem certeza.
Um afirma. Outro nega. Os dois se estranham.
E entre o sim e o não, essa estranheza
Onde os dois pensam que batem, mas apanham.
Sobra arrogância. Carece delicadeza.
Quanto mais perdem, mais pensam que ganham.
É verbo solto o que sai da alma presa
De um e de outro, enquanto se arranham.
A discussão, que não vai levar a nada,
Além de deixar a alma mais cansada
Nessa busca obsessiva por ter razão,
Vale como um atestado da estupidez humana
Que morre desgastada em luta insana
E não consegue escutar seu coração.
28.5.19
Poesia
Chegaram até mim,
Feito poemas,
Suas palavras,
Mas eu sabia
Que era amor
Cada cor que iluminava
Cada pedaço
De cada poesia.
Chegaram até mim
Versos sem rimas,
Palavras livres
De metrificação,
Mas deu pra perceber
Que dentro delas
Havia um pedaço
Do seu coração...
Bendita a mão que semeia
Versos livres a mão cheia,
Pro poema se espalhar...
Um verso, caindo n'alma,
Envolve a alma com calma,
Fazendo a alma cantar...
24.5.19
João Gilberto
Adorei o jeito do João tocar violão,
Eu nunca vi João Gilberto de perto
Mas ninguém chegou mais perto do meu coração,
E a Bahia não tem comparação,
Ninguém escutou, nem meu avô nem meu neto
Um violão como o violão de João,
Lembro até hoje da primeira vez que escutei:
Ninguém no mundo toca violão assim
Afinado ensinando a cantar desafinado,
João tão genial quanto Jobim...
Memórias
Memórias da família que ficaram,
O que nos contaram sobre o que viveram,
Memórias que os anos não apagaram
E que nossos corações não esqueceram,
Como um legado que nos deixaram,
Como fotografias que não envelheceram,
Gestos gentis que nunca amarelaram,
Carinhos bons que nunca se perderam,
Histórias que nossos antepassados nos contaram,
Daqueles dias desde que aqui chegaram,
Do que enfrentaram, de como cresceram,
E da saudade da pátria amada que deixaram,
E do amor dessa nova pátria que encontraram,
Do tanto de amor que entregaram e receberam...
Marthinha
Marthinha aparece,
Não esquece da gente,
Eu sei que somos um grupo as vezes displicente,
Somos uma multiplicidade de pensamentos,
A incrível turma de mil e novecentos
E oitenta e três,
Falamos muitos assuntos, todos de uma vez,
Mas quando uma voz
Como a sua, amiguinha,
Fica escondidinha,
Sem dizer nada,
Faz uma falta danada,
Porque você é como chicabom:
É tudo de bom.
Por isso, fala alguma coisa
Pra gente saber
Como foi seu dia,
Como está sua filha,
Como estão seus netos,
Seus projetos,
Como está seu coração,
Fala de maconha,
De Chico,
De chikungunya,
Fala da cor do seu esmalte de unha,
Fala de amor,
Mas fala,
Porque quando você se cala,
O que todo o resto fala
Parece não dizer nada,
Você faz uma falta danada,
Você faz uma falta, danada,
Antenada,
Descolada,
Que adora uma pedalada,
E uma discussão bem temperada,
Fala,
Estala os dedos,
Diz dos seus medos,
Conta da solidão,
Fala do seu novo apartamento,
Desse fogão rabugento
Que só esquenta as panelas que ele quer,
As outras não,
Fala mulher,
A gente escuta,
Pode chamar Lula de filho da puta,
Bolsonaro de jumento bem intencionado,
Eu vou ler e vou gostar
Porque melhor que concordar
Ou discordar,
É aceitar
Você aqui do nosso lado.
Por isso esse poeminha improvisado.
Volta, Marthinha,
Sem você esse grupo parece abandonado,
Adoro você,
Adoramos você,
Tenta aparecer...
Marthinha,
Cadê você ?
Eu vim aqui só pra te ver...
Um beijo no seu coração
Bom dia
Que seja um dia bom demais pra gente,
Notícias boas pra nos alegrar,
Que comece com pão com queijo, café quente,
E o amor, porque o amor não pode faltar,
Que o Whatsapp mande posts diferentes
Dessas más notícias que nos costuma mandar,
Que Deus esteja, também, sempre presente
Em cada decisão que a gente tomar,
Seja pra esquerda, seja pra direita,
Que a gente faça da forma mais bem feita,
Que é o unico jeito da gente escapar
De arrependimentos que doem tanto...
Bom dia, sem maldade, sem quebranto,
E com a luz divina sempre a nos guiar.
23.5.19
Blanca
Eu bem que tentaria, se eu soubesse,
Um sonetinho lindo que homenageasse
O seu aniversário, você merece,
Ah, se eu tivesse essa classe...
A prova de que Deus nunca nos esquece,
É ter permitido que você estreasse
Nesse planeta como uma rosa que floresce,
E torna feliz o mundo quando nasce.
E foi exatamente assim naquele mês de maio:
Você nascia, forte como um raio,
E doce, pra uma doce encarnação,
A filha, a mãe, a avó e a médica, misturadas,
Que sintam-se nesse soneto homenageadas,
Que é quase nada, mas que vem do coração.
O relógio de ponto
O relógio de ponto está instalado,
Vai preparando sua digital,
Estrategicamente bem instalado
Na pequena varanda, perto do quintal,
Olhando de pertinho, o desgraçado
Até que não parece ser assim tão mau,
Mas não se engane: chegou atrasado,
Vai se entender com o poder municipal.
Não foi de graça, muito pelo contrário,
Mas pra vigiar esse bando de proletário
Não custa nada gastar um dinheirinho,
E eu que nunca sonhei com a aposentadoria,
Já tô desde agora imaginando o dia
Em que eu não precisar mais enfiar no relógio o meu dedinho.
Um poema pra Bia
Pra escrever um poema para Bia
Escolha uma palavra delicada,
Tempere com pitadas de alegria
E um aroma de coisa perfumada,
Tome o cuidado para que a poesia
Seja na medida para a homenageada,
De forma que, ao receber, ela sorria,
E quando ela sorrir se sinta amada,
Então, para escrever um poema assim,
Como uma amizade que não tem fim
Porque se faz diariamente conquistada,
Envolva-o com laços de sinceridade,
E avise pra sua amiga da faculdade
Que a poesia dela já pode ser usada.
Quinta feira
Amanhece nublada a quinta feira,
Jeito de chuva, cinzenta, dia frio,
Calor parece que só na agua da chaleira
Que quando ferve solta um assobio,
Quinta com frio. Não tá de brincadeira.
Sair de debaixo do cobertor causa arrepio.
Coitado de quem toma banho de banheira.
Castelo da Frozen, esse estado do Rio.
As articulações enferrujadas
Me dizem que preferem continuar deitadas
Sem perceber que há muito o que fazer,
Então, movimentando as minhas juntas,
Eu finjo que não escuto as suas perguntas,
E assim a quinta começa a acontecer.
A ingratidão
Eu trago aquele poema aqui guardado,
Poema que nunca mais libertou meu pensamento,
Que foi como um vírus quando inoculado
Mudando quase tudo aqui por dentro,
E sempre que o leio, confesso-me assustado,
E cada vez que o faço, eu sou quem tento
Compreender o que há por trás do seu significado
E me repito a todo momento:
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja
A ingratidão, o nome dessa pantera
Matando o último sonho, a última quimera,
Como uma larva venenosa que rasteja...
22.5.19
Bom dia
Bom dia meu povo forte e destemido,
Povo que não dá mole e nem vacila,
O bicho tá pegando, mas tá bem vestido,
Uns de scarpin outros de mochila,
E que já chega no trabalho decidido
A sentar no consultório e comer fila,
Bom dia meu povo comprometido,
Povo valente, como o Sansāo de Dalila.
Bom dia porque hoje é mais um dia
De misturar a fé com a correria
E não perder o prumo da empreitada,
E porque somos valentes o bastante,
Por isso chegamos aqui e vamos adiante,
Sempre com Deus, porque sem Deus não somos nada.
21.5.19
Triste Rio
Que Rio triste de Janeiro a Janeiro,
Que Rio cheio de tiroteio,
Que Rio triste terra de pistoleiro,
Que Rio triste, nunca vi mais feio,
E eu que gostava tanto do Rio inteiro:
Flamengo, Copacabana, Catete, Recreio,
Mas hoje, "o que é isso, companheiro ?"
Diria Gabeira, cheio de receio...
E o tiroteio diário que não para,
Acaba com a baía da Guanabara
Deixando triste nosso coração...
Ah, Cristo Redentor que nos redime,
Livra nosso Rio de tanto crime,
E cobre o Rio com sua proteção...
1.5.19
Dia do trabalho
Acordar cedo. Diariamente.
Obedecer às ordens do patrão.
Salário não compra tudo. Provavelmente
Ou vai faltar manteiga ou faltar pão
E a cada dia tudo novamente
O relógio de ponto é o olho do patrão
Faça calor ou chova torrencialmente
Vale o que ele marca. O resto não.
É finalmente hoje é dia do trabalhador
Não tem relógio de ponto. Nem sim senhor.
Nem tem conversa fiada pra escutar.
Dia de casa. De festa. Um lindo dia
Tão lindo que mesmo com a panela vazia
A gente sai pra comemorar
26.4.19
Lastro
As vezes a palavra é como o lastro
Dificultando o vôo do balão,
É como usar um alfabeto gasto
Pra definir o que vai no coração,
O coração, esse horizonte vasto,
Por mais que a palavra lhe tente tradução,
É como um navio que perde o mastro
E busca se manter na direção.
Então a palavra, insuficiente,
Traduz bem o coração tão raramente
Que às vezes o faz melhor quando se cala,
E o silêncio, mais que a verborragia,
Transforma estupidez em poesia
Sem precisar da palavra torta e rala.
Sonetos
Ora direis, fazer sonetos,
Certo perdeste o censo, eu vos direi, no entanto,
Que para combinar quartetos e tercetos
É necessário descobrir algum encanto,
Direis: escritos de formatos obsoletos,
Não têm modernidade e pesam tanto...
Quanta sandice, tolos preconceitos,
Nem sei por conta de que ainda me espanto.
Não vês a arquitetura que há entre as rimas,
Irmãs que são como se fossem primas,
E, mesmo separadas, permanecem
Tecendo versos, tramas sonetadas,
Seguindo juntas, mesmo separadas,
Como dois corações que não se esquecem...
8.4.19
A espécie humana
6.4.19
A madrugada
Porque será que Deus criou a madrugada,
Esse intervalo entre acontecimentos,
Tempo quase todo feito só de nada,
Celeiro bom de se guardar pensamentos,
Espaço onde a melhor decisão é planejada,
Oportunidade única para arrependimentos,
Porque será que a madrugada foi criada,
Esse dia visto pelo seu lado de dentro?
Quem sabe sobraram algumas caixas vazias,
E no finalzinho daqueles sete dias,
Faltando pouco para o criador descansar,
Deus resolveu dar a elas utilidade,
Daí a madrugada e sua capacidade
De guardar o que não caberia em nenhum outro lugar
5.4.19
O soneto
Tentei um soneto. Não aconteceu.
Tentei mais um outro. Não consegui.
Tentei um terceiro que no meio se perdeu
Foi nessa hora que eu quase desisti
Mas nesse instante o soneto percebeu
Que se eu desistisse ele deixava de existir
Sua insistência me convenceu
Por isso esse soneto escrito aqui
Não de improviso, mas de insistente,
A poesia as vezes se parece com.essa gente
Que não sossega enquanto não consegue
Tentei um soneto e o soneto atentado
Me atentou até ser digitalizado
Pra no final não saber nem pra quê que serve
17.3.19
Conversas com mães
Conversas com mães são aprendizado,
São como beber água direto da nascente,
Tesouro precioso e delicado,
E único, e doce, e diferente...
Tem sempre um grande significado,
Mãe é palavra que motiva a gente,
Conversas com mães são como um grão semeado,
Uma floresta em estado latente...
Conversas com mães nunca são conversas à toa,
Tem uma sonoridade que ressoa
Musicalizando o ambiente,
Conversas com mães são fontes de experiência,
E não importa o nível de evidência:
Nada é mais claro, nada é mais evidente.
4.3.19
Deus
Enquanto a gente se descuida e se destrata,
E se desentende e se machuca e se maltrata,
É lindo saber que Deus cuida da gente,
Seus filhos as vezes desajuizados,
Nem sempre bons ou bem intencionados,
Mas de quem Deus cuida de modo incontinenti.
3.3.19
Super heróis
Nós somos super heróis,
Nós temos super poderes,
Nós somos os seres mais incríveis do planeta,
Não temos medo de mascarado,
Não temos medo do boi da cara preta,
E o que nos faz invencíveis
É o amor,
E é tanto amor o amor que recebemos,
E tanto amor o amor que que respiramos,
Que foi por isso que nós vencemos,
Por tanto amor envolvido,
E foi por conta desse amor que transformamos
Saudade em vontade de ficar logo bom,
Medo em vontade de ser feliz,
Enfrentar a dor é o nosso grande dom,
Somos incríveis,
Somos os super heróis mais fortes do país,
Somos princesas e príncipes vencedores,
Nossas famílias são nossos amores,
E através delas passamos a entender
Que o amor é o nosso super poder,
Nós somos super heróis,
Vivemos grandes histórias,
Nós temos pra contar grandes vitórias
Muitas lutas ainda pela frente,
Certamente,
Mas vamos vencer,
Porque somos super heróis,
Nós temos super poderes,
Nós somos seres mais guerreiros que conhecemos,
Por amor aqui chegamos,
Por amor lutamos,
Por amor vencemos,
Nós somos super heróis,
E o amor é o maior poder de todos os poderes que nós temos.
Homenagem da UTI Nicola Albano a seus pequenos grandes super heróis
17.2.19
A hora a mais
Ganhei uma hora a mais, nem esperava,
Chegou ao fim do horário de verão,
Exatamente a uma hora a mais que eu precisava
Pra descansar mais um pouco do plantão.
Coisa boa quando a gente nem contava
E vem pra gente sem contra indicação:
Aquela uma hora a mais que eu procurava
E já tava achando que não ia achar mais não.
Ganhei uma hora a mais. Que coisa boa.
Melhor que ouvir samba dos Demônios da Garoa,
Melhor que melhorar de um resfriado,
Uma hora que eu estou agora aproveitando
Pra escrever um poeminha e ir descansando
Enquanto acerto o relógio adiantado.
11.2.19
Dez meninos
Sem que ninguém assuma a culpa do que os matou,
Como se houvesse crime sem culpados,
Assassinados que ninguém assassinou,
Ninguém confessa publicamente que errou,
Por trás de meninos mortos, homens errados,
Dez meninos com quem ninguém se importou,
Dez inocentes vítimas de armadilhas,
Dez mães que já não podem mais ninar
Indo dormir sem perceber que dormiram
Um sono do qual não mais iam acordar...
30.1.19
Morte
Pedaço da minha vida que eu não conheço,
E faço de conta que nunca vou conhecer,
Pedaço que começou lá no começo,
O que toda gente chama de nascer,
Pedaço sem rota, sem data, sem endereço,
Como uma palavra que a gente evita escrever,
É vida, escrita pelo lado avesso,
Como o dia esperando o amanhecer,
Uma palavra, não outra, definitiva,
Talvez de todas elas a mais viva,
A mais presente em nós pela vida inteira,
Morte, mas não precisa chama-la assim,
Porque embora aparentemente seja o fim,
Segue vivendo à sua própria maneira...
27.1.19
Blogs
Guarde poemas no blog. Funciona
Como um caderno aberto para a vida,
E tanto faz se em Tóquio ou em Atafona,
Toda poesia é universalmente lida.
O blog é poderoso como a prednisolona,
Nele a palavra brinca distraída,
Tem gente que acha cafona,
Eu acho um must, coisa mais querida...
Experimente um blog. Poste um poema,
Ou, se preferir, mais de um, não tem problema:
O blog aceita todos com ternura,
Poemas fazem os blogs mais felizes,
E blogs fazem poemas criarem raízes,
E aí começa a semeadura...
6.1.19
A palavra
A mesma palavra pode possuir força pequena
Ou, se a gente permitir, grande demais,
Pode ter o cheiro acre de uma ozena
Ou o sabor doce dos dias de paz
A mesma palavra pode ser gangrena
Ou divertidos balões de gás,
A mesma, ser a rima de um poema
Ou a escolha por Barrabas,
A palavra pode possuir todas as formas,
Obedecer ou transgredir todas as normas,
Dependendo do terreno onde é plantada,
Carregada de ódio, torna se morte,
Temperada de amor, torna se forte,
A mesma palavra significa tudo ou nada.
5.1.19
O coração
O coração às vezes exagera,
E fala coisas que não era pra falar,
O coração às vezes perde a linha,
É como se uma extra sistole daninha
Fizesse o coração extrapolar,
O coração às vezes perde o ponto
E se torna vítima da própria taquicardia,
Desanda a dizer palavras sem sentido,
E quando vê, não era pra ter sido,
E quando vê, já fez o que não queria,
Aí é tarde demais. Se fez tá feito.
Não tem conserto pro leite derramado.
E como um parto. Não tem mão dupla.
Nem adianta depois pedir desculpa,
Melhor seria não ter exagerado...
E necessário muita calma nessa hora,
E alimentar o coração diariamente
Com doses homeopáticas de alegria.
Um coração feliz não gasta o dia
Com atitudes inconsequentes.
Alegria, alegria. Sem azedume.
Alegria, alegria. Como na canção.
Alegria, alegria, sem arrependimento.
Sem taquicardia, saturando cem por cento.
A vida é bem melhor sem confusão.
1.1.19
Poeminha de ano novo
Finalmente acabou o ano passado,
Chegamos até que enfim no ano que vem,
Estou me sentindo completamente renovado,
Como se fosse um neném,
As coisas ruins que eu vivi deixei de lado,
Trouxe comigo só lembranças de bem,
Daqui pra frente mais nada errado:
Nem querer nem fazer mal a ninguém,
Ah, bem que poderia ser assim:
Um ano novo sem nada de ruim,
O ano que passou virar poeira...
Mas vai depender mais de mim que da virada
Ter minha vida modificada,
Porque não dá pra ser de outra maneira...
28.12.18
Feliz ano passado
Feliz ano passado porque você cresceu
Quando você sofreu e quando você sorriu,
Feliz ano passado por tudo que aconteceu
E ainda assim você não desistiu,
Feliz ano passado pelo que você perdeu,
Mas bem mais que isso, pelo que você reconstruiu,
Porque o que você perdeu nem era seu,
Mas ao se reconstruir você se permitiu
Ser mais feliz, ainda que sem sorrisos,
Porque corais de anjos são mais que só guizos,
E as coisas em que a gente acredita são as que há,
Então, por isso, feliz ano passado,
Não há colheita do que não foi semeado,
E é isso que se chama caminhar...
24.12.18
A canção no leito de morte da menina
A canção no leito de morte da menina
Era como se fosse uma oração,
Era uma canção como se fosse um lamento,
Uma canção cheia de luz por dentro,
Era uma canção de aceitação...
A canção no leito de morte da menina
Como se fosse a prece derradeira,
Diante de um anjo, uma canção de dor,
Vestida das costuras de um amor
Emocionando a UTI inteira...
A canção no leito de morte da menina,
Num idioma sem necessidade palavra,
Era uma canção sem culpa, sem pecados,
Canção de pai e mãe emocionados
Para a menina que se libertava...
A canção no leito de morte da menina,
Um acalanto prum bebê que já não ouvia,
Uma canção, como um agradecimento,
Canção de fé abrandando o sofrimento,
Canção de amor como poesia...
A canção no leito de morte da menina
Terá para sempre um sabor de eternidade,
Diante daquela vida que se ia,
O voz dos pais fazia lembrar Maria:
"Cumpra se em mim conforme a tua vontade"
16.12.18
Catarina e Alice
Alice e Catarina,
Quanta energia,
Quanta levadice,
Que jeito bom de viver:
Um corre corre que nunca termina,
Quanta adrenalina,
Que coisa doce
Catarina e Alice,
Tão pequeninas,
Tanto poder,
O dia inteiro pra baixo e pra cima
Como se o resto do mundo não existisse,
Além do que elas fazem acontecer...
São duas almas gêmeas essas primas,
Alice e Catarina
Como um imã,
Como se uma sem a outra não pudesse ser,
Na hora em que uma da outra se aproxima
Pode apostar: é pura peraltice
Alguma coisa elas combinam fazer
Se você visse
O sorriso que Alice dá pra Catarina
Quando Catarina resolve aparecer
Ia ficar mais fácil entender
Que Alice e Catarina
São como a rima
Que faz a poesia acontecer,
Quanta ternura, quanta meninice
Quanta breijerice
Catarina e Alice
A coisa mais bonita de se ver
15.12.18
As palavras de Deus
Mas minhas palavras não passarão"
Passarão os dias,
Dia após dia,
Passarão as noites
Em sua repetição,
Passará o tempo
Que desafia tudo,
Passará a vida,
Suas palavras não,
Passará a dor,
O desespero,
O medo,
A fome,
A culpa,
A sombra,
A danação,
Passará o outono, a primavera, o inverno,
Passarão os dias leves de verão,
Os dias de seca,
Os de ventania,
Os de calor e os de inundação,
Os dias seguirão o seu destino,
Mas Suas palavras permanecerão
Como um pastor que protege seu rebanho,
Como um vigia,
Como um guardião,
Ou como um manto para as horas de fraqueza
Em que a alma necessita de proteção,
Como alimento,
Como descanso,
Como água da fonte,
Ou como consolação
Para os tempos de tristeza
E de agonia,
E para os dias de angústia e solidão,
Para as horas mais pesadas
Quando a alma se percebe mais vazia,
E os para os dias vazios
Quando os pensamentos já não sabem pra onde vão,
Passarão metástases e Titanics,
Impérios imbatíveis ruirão,
Legisladores, senhores, escritores,
Doutores da lei, todos desaparecerão,
Mas Suas palavras
Cheias de vida eterna,
Depois que tudo se for
Elas não irão,
Por isso,
Quando todas as esperanças se esgotarem,
E tudo em volta for só medo e aflição,
Ainda nesse tempo sem esperança
As Suas palavras não cederão,
E ainda que andemos pelo vale da sombra,
Pelo caminho sombrio da morte e da desolação,
Não temeremos mal algum,
Porque a Sua presença
Com seu cajado
Será sempre a nossa consolação...
Por isso o céu passará,
E ainda a terra,
Mas Suas palavras
Sempre serão
Caminho,
Verdade,
Vida,
Alívio,
Bálsamo,
Consolo,
Bússola,
Orientação,
Por isso passará o céu e a terra,
Mas Suas palavras não passarão.
A poesia
A poesia como contentamento,
Como se inconformar com a solidão,
Como um reflexo de encantamento,
Como um moço feliz na multidão,
Como desabafo, como lamento,
A poesia com uma única condição:
Que não deixe de ser nenhum momento
A caligrafia do coração,
A poesia como fio guia,
Como os primeiros raios de sol trazendo o dia
E anunciando o fim da escuridão,
A felicidade possível, a poesia,
A possibilidade acessavel de alegria,
A porta do Reino da abstração...
9.12.18
A morte é um dia que vale a pena viver
Para Ana Claudia Quintana Arantes
A morte é um dia que vale a pena viver
Porque viver vale a pena enquanto a vida pulsar,
E se a vida tem um pedaço que a gente chama morrer,
A morte tem outro pedaço que significa acordar,
Por isso a morte e um dia que vale a pena pra ser
Vivido de modo completo até o tempo apagar,
Um dia sem necessidade de máscaras pra se esconder,
Um dia sem necessidade de razões pra se argumentar,
A morte é um dia em que vale a pena crescer,
Pedir perdão e perdoar, pois não há tempo a perder,
Um dia que vale a pena porque não vai mais voltar,
A morte é a última chance que a gente tem de aprender
Que o amor é a única coisa capaz de permanecer
Quando o relógio de todas as outras coisas parar...
4.12.18
Era
Era pra ser poesia mas foi prosa,
Pra ser leveza, mas foi solidão,
A vida às vezes é meio preguiçosa
E teima caminhar na contramão
E o que era pra ser farta e generosa
Vira farelo de rosca, pó de pão,
A vida às vezes é meio desastrosa
E vai seguindo sem prestar muita atenção
Então o que era pra ser, quando nasceu, poesia
Vira um monocórdio, uma monotonia,
Descartável, como um pedaço de papelão
Era pra ser poesia, que ironia,
Tornou se um canto de melancolia
Provavelmente por falta de opção.
3.12.18
O significado
Cada palavra um significado,
Cada significado uma explicação,
Se você entende o significado errado
Acaba entendendo não,
Entende para um lado o que é para outro lado,
Se é para o céu entende que é pro chão,
Se é leve você toma como pesado,
Quem entende errado perde a razão,
Saber o que cada palavra significa
Descomplica, e ao que tudo indica, simplifica,
Saber o significado é o mapa do caminho,
É como nadar e não morrer afogado,
É como marcar e não chegar atrasado,
Mesmo em se caminhando devagarinho...
24.11.18
O otimismo e a esperança
I
23.11.18
Encontro de poesia
Imagina um encontro
Rimas e faltas de rimas
Com faltas de métricas
E métricas se falando
Como uma máquina de fiar versos tecendo
Um caldeirão de onde poemas vão brotando
Um encontro físico
Com endereço
Portão e porta
Mesa e cadeira pra cada um Ir sentando
Café com broa
Uísque não
(A poesia pode acabar se assustando)
Eu leio
Você lê
Ela lê
Aquele outro ali prefere ficar em silêncio escutando
Uma rodada de chá de morangos com kiwi
Alguém declama Gullar
(E eu daqui fico só imaginando):
"Sua voz quando ela canta
Me lembra um pássaro, mas
Não um pássaro cantando.
Me lembra um pássaro voando"...
22.11.18
O tamanho do amor
17.11.18
A comunicação contingente
Você me posiciona confortavelmente
E eu melhoro consideravelmente a minha saturação,
Você percebe que eu estou impaciente,
Reduz a luz ambiente e me dá contenção,
Eu regurgito, regurgito novamente,
E então você pede silêncio no salão,
Você me pega no colo, eu fico contente,
E pego no sono nessa posição.
A gente dialoga diariamente,
E apesar de falarmos em línguas diferentes
Você me entende com perfeição,
Porque cada pedido meu você atende,
E se eu agradeço a você, você me entende,
Não precisamos de tradução...
O toque
Você também vai estar tocando meu coração,
Você me assusta ou você me acolhe
Quando você me toca, você escolhe
O que vai me causar com a sua mão.
Suavemente, como quem tenta me acalmar,
Percebe só: meu choro vai passando,
Você consegue, apenas me tocando,
Fazer meu coração desacelerar...
E faz isso sem me dar a mínima atenção,
Eu estranho você, e sinto medo,
O toque é meu idioma desde cedo,
E eu conheço, através dele, a sua intenção...
Nessa hora nós dois vamos estar dialogando,
Pense nisso quando você for colocar as mãos em mim,
Porque eu posso responder ou não ou sim,
E desse jeito a gente vai se comunicando.
15.11.18
Manhã republicana
Manhã republicana, cidade vazia,
Parece que sou o único, voltando do plantão,
Que para, avança, acelera, freia, espia,
E para na padaria e compra pão...
Escuto Chico: "E a cidade em romaria
Vem beijar a sua mão"...
Chico merece. É pura poesia.
Tua cantiga, Chico, minha canção...
Manhã republicana silenciosa,
A República que era pra ser poderosa
Virou um álbum de patifaria...
Manhã republicana e anestesiada,
Parece que a cidade "se quedou paralisada"
Esperando pela chegada do Messias*...
8.11.18
As escolhas sagradas
7.11.18
Eu acredito em segundas chances
Para Gisele Gomes
Eu acredito em segundas chances,
Eu creio em novas possibilidades,
Em nomes novos, em novas cores,
Em novos cheiros, novos sabores,
Eu acredito em novas verdades,
Eu acredito em novos futuros,
Em novos dias, novas descobertas,
Eu acredito em novas etapas,
Em novas caminhadas, novos mapas,
Novos alentos, novos alertas,
Eu acredito em segundos dias,
Segundas opções, segundas formas,
Eu acredito em segundas tentativas,
Em possibilidades paliativas,
Eu acredito em desconstruir as normas,
Eu acredito num jardim de flores,
Eu acredito num céu de brigadeiro,
Eu acredito em botes salva vidas,
Eu acredito em preces atendidas,
Eu acredito no amor verdadeiro,
Por isso mesmo quando tempestade,
Frio, abandono, desolação,
Saudade, desconcerto, dissonância,
Desesperança, dissabor, distância,
Dúvida, desamparo, danação,
Ainda assim eu sigo acreditando,
Mesmo nos dias feitos de não,
Porque eu acredito em segundas vias,
E em segundas vozes trazendo alegrias
E mudando quase tudo na canção...
3.11.18
Os pezinhos
Um pezinho,
Dois pezinhos,
Três pezinhos,
Quantos são?
São quinze milhões de pezinhos,
Uma grande multidão...
Sobram nas meias,
E os sapatinhos
Dificilmente tem a sua numeração,
Nascem diariamente
Pelo mundo inteiro,
São do tamanho de uma nação...
Um pezinho,
Dois pezinhos,
Três pezinhos,
Quinze milhões de pezinhos:
Pra onde vão?
Quem cuida deles?
Com que carinho?
Com que dose desdobrada de atenção?
Até onde alcançarão nesse caminho
Que é de incertezas
E superação?
Um pezinho,
Dois pezinhos,
Três pezinhos,
Quinze milhões de pezinhos
E um só coração:
A mãe que espera
Com seu colo pronto
A hora de toma-los pela mão,
A hora de envolve-los com a alma,
A hora de trazê-los
Livres de tanto não...
Um pezinho,
Dois pezinhos,
Três pezinhos,
Quinze milhões de pezinhos...
E, quase como disse o astronauta,
Uma verdade:
Um pequeno pezinho para o homem, Mas um grande salto para a humanidade...
31.10.18
O que tinha de ser
Aconteceu aquilo que era pra ser,
O que tinha permissão pra ter acontecido,
Somente o que era pra acontecer,
Somente aquilo que estava permitido,
As vezes, como quem não sabe ler,
A gente pensa ter sido um mal entendido,
E nessa hora tenta interceder,
Tentando que fosse o que não era pra ter sido,
Até que o tempo, que esclarece tudo,
Coloca legendas no que foi dito absurdo
E faz a gente entender
Que nada acontece sem antes ter sido
Considerado fazer todo sentido
Que um dia a gente vai acabar por conhecer.
29.10.18
O coração
Eu trago dentro do meu peito, aprisionado,
Um coração que nunca se compreendeu,
As vezes que tem tentado, tem errado,
Quase nunca acerta o lado que escolheu,
Aqui dentro do meu peito, escravizado,
Um coração que nunca se convenceu,
Nasceu com o tempo de validade carimbado
Numa nota fiscal do céu que se perdeu...
Depois de dois bilhões de sistoles, cansado
De interpretar mal e de ser mal interpretado,
Já não pretende convencer ninguém,
Segue sozinho, não busca companhia,
Passageiro lunático de um trem da alegria
Desvendando o significado desse trem.
28.10.18
O amor
Porque o amor, e só o amor, mais nada,
É o que é capaz de curar nosso coração,
Corar nossa alma, deixa-la hidratada,
O amor, somente o amor, mais nada não,
O amor, essa anti-sepse generalizada,
Antídoto para qualquer infecção,
Regeneração para nossa alma sequelada,
Mesmo a sem chance de recuperação,
O amor, somente o amor, como uma enxurrada,
Com sua forma imensa e nunca exagerada,
É o que é capaz de curar nossa cegueira,
Alívio, mas mais que alívio, o amor é a cura
Da solidão e do medo que tortura
Como uma pandemia a humanidade inteira.
20.10.18
Bom dia
Bom dia pra você Bolsonarista,
Bom dia pra você que quer Haddad,
Que o dia, pra todos os da lista,
Traga bons ventos de felicidade,
Se você gosta de Chico, se é fascista,
O que no fim importa, de verdade,
É que o nosso coração nunca desista
Da poesia e da serenidade,
Sejamos pro e contra, mas sejamos
Antes de tudo cordiais e humanos,
Bons moços que sabem se respeitar,
Bom dia, independente do seu voto,
Sorria. E ame. E fique bem na foto.
O que importa é todo mundo se aceitar.
18.10.18
Quando eu crescer
Quando eu crescer vou querer ser médico,
Tratar diarréia, curar anemia,
Cuidar de um monte de gente doente,
E da dor ruim que machuca tanta gente,
Roubando sua vida e sua alegria...
Quando eu crescer vou querer ser médico...
Eram os xaropes que a minha mãe fazia
Que iam alimentando meus pensamentos
De aprender a utilizar medicamentos
Pra tratar a dor que eu sabia que doia...
Quando eu crescer vou querer ser médico...
Mas o que o menino em verdade não sabia
É que uma dor que não passa com comprimido
Às vezes some com um abraço comprido,
Porque o afeto distrai a dor, que se esvazia...
Quando eu crescer vou querer ser médico,
E essa ideia me persegue desde então...
E nesse dia, entre abraços e receitas,
Eu terei confirmado minhas suspeitas:
A dor é o que machuca o coração...
Quando eu crescer vou querer ser médico,
Quem sabe ainda nessa encarnação...
A todos os meus colegas que como eu, um dia, quando crescerem, querem também ser médicos...
18 de outubro. Dia do médico.
15.10.18
Meus professores
Meu pai foi na vida meu grande professor,
A minha mãe minha doce professora,
Cuidaram de meu coração perguntador
Usando de uma delicadeza benfeitora,
E temperaram cada lição com amor,
Cada queda, com nova lição motivadora,
Fui aprendendo que coração não tem cor,
E que aprender é que torna a alma sonhadora,
Meu pai e minha mãe, meus professores,
Ganhei de presente ao nascer estes amores
Que permanecem comigo desde então,
E não se cansam desse aluno descuidado,
E desatento e nem sempre bem comportado,
Meus professores, meus pais, meu coração.
A nova inquisição
Você votou em quem pra presidente?
Qual é a sua religião?
Você é civil ou militar? Qual a patente?
Você é a favor do aborto ou não?
Você é rico, pobre ou indigente?
Você acredita em reencarnação?
Você gosta mais de Pinochet ou de Allende?
Você é a favor da corrupção?
E a cada pergunta dessas, todo dia
Tem alguém investigando sua ideologia
Só pra saber se o seu caso tem perdão...
E se você tiver culpa comprovada
Vai ter sua identidade metralhada
Nas redes pelos tribunais da nova inquisição
14.10.18
A poesia
A poesia sopra onde quer,
A poesia não pertence a nenhum lugar,
As vezes cabe inteira numa colher,
Outras vezes transborda parecendo o mar,
E modifica tudo que você disser,
E discorda de tudo que você pensar,
As vezes é mal, outras vezes bem me quer,
Uns dias perdoa, outros dias quer culpar,
A poesia, depois de terminada,
É como neblina espraiada
Que não se contém por sobre a pradaria,
Espalha portanto a poesia que encontrares,
A poesia pertence aos ares,
Inútil acorrenta-la a uma autoria..
Bom dia
Bom dia pro meu amigo sessentao,
Bom dia pra minha amiga sessentona,
Pra você que quer conhecer o Azerbaijão,
Pra você que ainda quer completar uma maratona,
Bom dia pra vc, café com pão,
Bom dia pra você, pão com azeitona,
Pra você que ainda se sente um garotão,
Pra você que escuta essa música cafona,
Bom dia desse jeito, e esse soneto
É tipo uma fotografia em branco e preto:
Fora de moda, mas feito pro coração...
Então pra todo mundo meu bom dia,
Se vocês fossem pra praia eu também ia,
Mas não, eu também não vou não.
13.10.18
Tristeza
Minha tristeza foi se diluindo,
E foi, com o tempo, se transformando,
Sempre que ela chega me encontra dormindo,
Ou lendo poesia, ou poetando,
Não é que eu viva o tempo todo sorrindo:
Eu choro as vezes, bem de vez em quando,
Mas tem espinho que mesmo me ferindo
Acaba no final nem me machucando,
Por que minha tristeza, ultimamente,
Tem se misturado com a dor de toda gente,
Lembrando uma canção que há muito ouvi cantar
Que dizia "o amor mais lindo vai ensinar
Que todos os tristes querendo juntos
Toda a tristeza vai se acabar"
6.10.18
Trigêmeos
Três brasileirinhos. Três vencedores.
Tres delicadezas para o coração.
Três de uma vez. Mamãe merece flores
E música no Fantástico. Por que não?
Três brasileirinhos. Três amores.
Três alegrias em uma única gestação.
Os anjos armaram nos bastidores:
Felicidade sem explicação.
Três de uma vez. Três brasileirinhos
Que nunca mais se sentirão sozinhos
E como os três mosqueteiros, viverão
Pra sempre todos por um a vida inteira,
E um por todos, os três dessa maneira,
Três pedacinhos de uma mesma construção.
Confissão
Às vezes me assusta o dia a dia,
As vezes me faz bem a solidão,
Às vezes só me escuta a poesia,
Às vezes nem ela, só o coração...
Perdemos
A corrupção no Brasil não tem culpados,
Não há criminosos, somente inocentes,
Centenas de milhares de dólares desviados
E negação de provas contundentes...
Não há culpados entre os acusados,
A verdade encoberta a panos quentes,
Mentirosos contumazes, deslavados,
Bandidos absolutamente inconsequentes,
Ninguém assume as responsabilidades que tem,
As impressões digitais não são de ninguém,
Extratos bancários não tem nenhum valor,
Gravações telefônicas, filmagens,
Não passam de fantasmaticas montagens,
Mentiras inventadas pelo delator...
Mas eis que um dia, quando ninguém esperava,
Percebendo a bagunça que crescia
Entre o que defendia e o que acusava,
Entre o que denunciava e o que não sabia,
Mas eis que um dia, quando ninguém contava
Com seu discurso que a todos convencia,
O capitão linha dura se anunciava
E a nação passava a escutar tudo o que queria...
Tivessem, antes, os culpados assumido,
Se desculpado pelo erro cometido,
Tivessem se entregado sem resistir,
Tarde demais. Já não há tempo. Perdemos.
A esperança é a única coisa que ainda temos,
E a fé em Deus no novo tempo que há de vir.
29.9.18
Colinho de mãe
Colinho de mãe é a casa do bebê,
É lugar de descanso e proteção,
É o melhor lugar pra se viver
Porque fica perto do coração...
Bebê no colinho ajuda o leite a descer
E é bom pra espantar a solidão,
Colinho de mãe é pra jamais se esquecer
Mesmo depois que o bebê fica grandão...
Bebê no colinho da mãe fica calminho,
E mesmo pra um bebê pequenininho
Ou no CPAP, colinho não faz mal não...
Colinho de mãe é tudo de bom,
Colinho de mãe é melhor que bombom,
É muito além de qualquer explicação...
23.9.18
O autogolpe
A esquerda e a direita, frente a frente:
E tem início uma grande discussão.
Está em jogo uma vaga pra Presidente.
Mas não de um grêmio. De uma nação.
Então acusam se mutuamente,
Assumindo se como donas da razão:
Uma garante que a outra mente,
A outra assegura que não.
Mas enquanto jogam seu joguinho intolerante,
Das trevas surge um cavaleiro andante
E se apresenta como a solução...
E a esquerda e a direita não percebem
Que enquanto se desmoralizam e não cedem,
Conduzem o país de volta pro porão...
21.9.18
O motivo...
Eu canto porque o instante insiste
E a minha vida nunca se aquieta,
Não sou alegre nem sou triste
Nem poeta...
Eu canto uma canção que não existe,
Improvisada, inédita, incompleta,
Ao som do Poema Sinfônico de Lizt,
Para uma plateia surda e analfabeta,
Eu sei que canto e a canção é meu escudo,
Protege meu coração do mal de tudo
Como se fosse a única escapada,
E algum dia, de um modo agudo,
Eu sei que nesse dia estarei mudo,
Mais nada...
18.9.18
Crescidinho
Tá bonitinho. Quase um rapaz.
O pequeno Artur como cresceu.
Os primeiros espinhos deixou pra trás.
O pequenino prematurinho floresceu.
Rostinho de quem pode dormir em paz.
A pança certamente já encheu.
Que diferença uma preguicinha faz.
Como são gostosos os braços de morfeu.
Dorme menininho, aproveita bem,
Descansa pro seu tempo que já vem
Cheios de coisas pra você resolver,
Até que Deus, um dia, nos responda
O que esse Artur, sem tavola redonda,
Guardou em seu coração pra nos trazer...
13.9.18
A poesia
Para marthinha
Poesia. Palavra que agrada.
Diálogo que dispensa conclusão.
Funciona às vezes como uma porta de entrada,
Outras vezes, como a única opção...
Absolutamente desregrada,
Exatamente por isso sem perdão,
Parece estar sempre desesperada,
Provavelmente porque não possui tradução.
Poesia. Palavra que surpreende.
Nem sempre o que ela diz é o que se entende,
Tudo depende da interpretação.
Poesia. Sempre poesia.
Taça de vida que nunca se esvazia.
Espiga que alimenta o coração.
10.9.18
Poeminha presidencial
Escrito logo depois da divulgação do resultado da pesquisa Datafolha para presidente, primeira após o atentado sofrido pelo candidato de direita
Não basta apenas levar uma facada
Se você quer ganhar uma eleição,
Tentar comover uma nação emocionada
Confundindo voto com comoção,
E nem vai ser uma agressão desembestada
Que vai gerar um presidente pra nação,
Até mesmo uma população despreparada
Sabe se desvencilhar de um falastrão...
Então, pra quem pensou que bastaria
Uma facada e tudo mudaria,
Taí a primeira grande decepção:
Pode até ganhar no primeiro turno,
Mas Deus é pai, e pelas barbas de Netuno
No segundo turno perde até pro tal de João...
6.9.18
O poeta faz concoenta e nove
06/09/1959 -06/09/2018
Cincoenta e nove anos não são sessenta,
São quase sessenta, mas ainda não são,
Nem tudo é, apenas porque aparenta,
Por isso cincoenta e nove, sessenta não.
É quase chegar aonde tanta gente tenta,
Como a vida é generosa, alguns dirão,
Fazer cincoenta e nove mantendo a alma lenta
Faz parte de uma complexa equação:
É preciso alguma dose de poesia,
E de amar também, mesmo sem garantia,
E aprender a não transformar tudo em problema...
Então a idade vem, mas pouca gente nota
Que o tempo é um grande bem que não se esgota,
E é desse jeito que a vida vale a pena...
Pai e filho
Para William e João
Pai e filho. E muito amor envolvido.
Uma vida pela frente pra aprender.
Amor desde o início comprometido,
Não tinha nunca como se perder.
Parece que Deus já tinha se decidido
Bem antes desse dia acontecer:
O pai, profissional reconhecido,
O filho, com tanta vida pra viver.
E vendo esses dois meninos abraçados,
Transbordados de um amor tão sem pecados,
Essa alegria dispensa explicação,
Seja feliz, papai bem humorado,
Seja feliz, filhinho bem amado,
Nossa família é o nosso coração...
1.9.18
Trilhas
Prefiro um passeio por Ferreira Gullar,
Depois uma imersão por Tom Jobim,
Uma pausa pro Chico poder cantar
O chato dum querubim...
Augusto dos Anjos é de assustar:
Como é que conseguia escrever assim?
Vinicius, poemas para amar,
Prefiro trilhas desse amor sem fim...
Passo por estrofes deslumbrantes,
Sonetos desconcertantes,
E a poesia me inunda o coração...
Depois descanso um pouco da viagem,
Poesia muda sempre de paisagem,
Descanso o corpo. O pensamento não...
28.8.18
A velha rede
E se o Whatsapp não existisse
E a internet não tivesse sido criada,
Se pensar em rede social fosse sandice,
E se o diário fosse a coisa mais guardada,
Ou se de repente o sinal do Wifi sumisse,
E o Android, que coisa, desse uma travada,
E o IOs caisse e ninguém visse,
E a vida subitamente desconectada?
A gente ia ter que marcar um encontro,
Desses que a gente escolhe a hora e o ponto,
E nesse encontro ia começar a conversar,
E a nova velha rede social recuperada,
Feita de abraço, de voz alta e de risada,
Talvez fizesse a gente despertar...
A poesia
No dia a dia
Que nos atordoa
Arruma um tempo pra poesia:
Drummond,
Bandeira,
Gullar,
Pessoa,
A poesia
Cura taquicardia
E causa mais bem a São Paulo
Que a garoa,
Arruma um tempo
Ao ir na padaria,
Ao voltar do trabalho
Ao comer broa,
A poesia,
Na falta de um guia,
É justo ela
Que nos abençoa...
26.8.18
Onipresença
Nada escapa aos olhos da poesia:
O nascimento, a morte, a invalidez,
A tristeza profunda, a alegria,
Num mesmo verso, súditos e Reis,
Ninguém escapa ao poder da sua magia,
A poesia não respeita leis,
O amor, o desamor, a homofobia,
Para a poesia tudo tem vez...
Por isso a poesia alcança tudo,
É como a flexa que atravessa o escudo
E chega livre ao coração do guerreiro...
Ah, poesia, íntima da vida,
Atenta à alma humana, distraída,
Iluminada poesia o tempo inteiro...
Arturzinho
Como e que já tá todo crescidinho,
Como é que tá ficando bochechudo,
Como tá gostoso esse Arturzinho,
De pele clara e nariz pontudo,
Já nem parece aquele menininho
Prematurinho, precisando de tudo,
Já sabe por a mão no seu rostinho,
Fechar os olhinhos e ficar mudo...
Ta muito esperto, todo gostoso,
Ta se sentindo todo poderoso,
Daqui a pouco tá pedindo pra ir embora,
Calma Arturzinho. Daqui a alguns gramas
Você já vai poder comer bananas...
Que bom acompanhar a sua história
21.8.18
Duas da madrugada
Já passa das 2 da madrugada,
Vômitos, calafrios, resfriados,
Nariz entupido, garganta inflamada,
Escabiose, gânglios aumentados,
Já passa das duas. Café. Água gelada.
Um pacote de biscoitos recheados.
Uma criança chega toda vomitada.
Um pai vem conversar embriagado
2 da manhã. Plantão de emergência.
Tudo tão básico. Sem muita ciência.
O homem sofre da dor comum.
2 da madrugada. A vida dorme.
O silêncio faz tudo parecer enorme.
Parece que só eu sem sono algum.
19.8.18
O menino
Ao meu irmão Celso
De onde ele veio não havia muita gente,
Não foi difícil reconhecer,
Sempre foi um menino diferente,
Seus olhos nunca foram olhos comuns de ver.
Sempre foi assim: calma aparente
Cobrindo um coração sempre a ferver.
O menino para os seus pais foi um presente,
Para os irmãos foi o melhor que ele podia ser...
1961. 21 de março.
Seus pais o envolveram num abraço
Que até hoje permanece assim...
O irmão querido. O filho querido.
O menino como um anjo renascido.
O menino e seu amor que não tem fim...
A noite
Tudo parece em volta adormecido
A rua. A temperatura. O movimento.
Silêncio. Não existe nada parecido.
A noite é uma casca com nada dentro.
Tudo aparentemente diluído.
Nenhuma voz. Somente a voz do vento.
A noite. Pedaço de tempo esquecido.
A noite. Como um apagão do tempo.
E nada que atrapalhe a poesia.
A noite mesmo a de calor é fria
Mesmo o ruído na noite não tem som.
A noite. Som que não se pronuncia
A noite. Como a gravidez do dia.
A noite. Semente do sonho bom.
O Artur imaginário
O pequenino Artur já vem chegando,
Se aproximando devagarinho,
Artur significa amor se costurando,
Artur, amor fortalecendo o ninho,
Tão pequenino e já significando
Tanta transformação, tanto carinho,
O pequenino Artur modificando
O que todos esperavam do caminho...
Já vem chegando, tão pequenino,
Gigante disfarçado de menino,
Um raiozinho de luz silencioso,
Tão silencioso e já tão amado,
Artur, bem vindo, moço abençoado,
E fruto de um amor maravilhoso..
Abelardo e Alexandra
32 anos. Abelardo e Alexandra.
Ah, como é bom estudar neurologia...
O coração é terra em quem ninguém manda,
E assim como o coração, a poesia...
32 anos. Como o tempo anda.
E com 2 filhos. Quem é que adivinharia?
Já da pra formar uma banda
Ou tomar conta de uma enfermaria.
Abelardo e Alexandra. Que bom saber
Que a vida é mestra em nos surpreender,
Que a vida gosta de ver a gente sonhar...
32 anos de boas histórias,
Casal retumbante de glórias
Que esse soneto torto vem brindar...
Nicodemos e jalao
Não é nada fácil ser pediatra hoje em dia:
É vocação pela sobrevivência.
Tentar ser feliz por teimosia.
Dosar conhecimento com paciência.
Os títulos tem pouca serventia,
O bom resultado é fruto da experiência.
Tratados não ensinam empatia.
Protocolos não facilitam a convivência.
Não é nada fácil, mas não tem jeito:
O prematurinho, o leite de peito,
Ver de perto um bebê tornar se um rapaz...
Não é nada fácil, mas é o que podemos.
Um brinde ao Jalao e ao Nicodemos
E aos bons tempos que não voltam mais...
O leite materno
Não some durante a greve dos caminhoneiros
Não precisa ir comprar nos supermercados
Faz bem para os bebezinhos brasileiros
Crescerem fortes e bem alimentados
E faz economizar muitos dinheiro
Que pode ser melhor utilizado
Para o bebê é como um bom companheiro
Para a mamãe é o amor reafirmado
O leite materno permitiu a humanidade
Sobreviver a toda sorte de calamidade
Chegando inteira aos dias atuais
O leite materno. Celebração da vida.
Maternidade que se faz engrandecida
Vida que torna a vida muito mais...
Artur
Nasceu Artur. Tarde de quarta feira.
Quando ninguém esperava, Artur nasceu.
Nasceu chorando, criança bagunceira,
Foi 8 a nota que recebeu.
Nasceu Artur. O peso tá na pulseira.
1150 gramas. A enfermeira escreveu.
Nasceu chutando tudo, e sem chuteira,
Como se o mundo inteiro fosse seu...
Nasceu Artur. Primeiro de agosto.
E já ganhou as primeiras gotas de colostro.
E já mostrou quanta vida quer viver.
Nasceu Artur. Pequenina alma apressada,
Que Deus ilumine, Artur, sua caminhada
Que já começa agora pra valer...
18.8.18
Faz de conta
Eu gosto de brincar de faz de conta
Que eu sei usar as palavras como deveria,
Criar frases que a gente inventa e monta
Como um quebra cabeça que se chama poesia...
Eu gosto de brincar. A vida apronta
E a gente usa a palavra como carta de alforria.
A dívida é nossa, mas o verso paga a conta,
E a liberdade... ainda que tardia...
Eu gosto de brincar. Nunca conheço
Como vai terminar cada começo,
E acabo sempre me surpreendendo
Porque a palavra que eu não imaginava
Vai completando o poema que brincava
Com meu coração enquanto eu ia escrevendo
Somos
Somos todos iguais. Braços dados ou não.
Somos filhos da mesma frágil consistência.
Da mesma fome. Do mesmo coração.
Da mesma sede de sobrevivência.
Braços dados ou não pisamos o mesmo chão
Vivemos sob a mesma dependência da ciência
Somos todos iguais. Sem exceção.
Iguais. Não há nenhuma diferença.
É sem sentido nenhum a divisão.
Somos todos iguais, como cantou a canção,
Somos os filhos da mesma essência,
Viemos da mesma forma de concepção
E a morte vai nos reduzir à mesma condição...
O que nos divide é nossa demência.
O time
O Brasil amanheceu desclassificado,
Havia um goleiro no caminho da seleção,
Perdeu a copa, mas foi bem remunerado
O time inteiro de Tite, o povo não...
O brasileiro amanheceu envergonhado,
Sem esperança no coração,
O time pode seguir despreocupado,
O time, não a população
Porque o país vai continuar sendo assaltado
Por um bando de delatores e delatados
Envergonhando a nação...
Ê povo ê, violentado,
Sem perceber que já tinha sido goleado
Enquanto sonhava em ser hexacampeão
Palavras de ordem
Saudades dos tempos em que eu acreditava
Nos atos públicos que quando moço eu ia,
E repetia palavras de ordem, e gritava,
E toda gente gritava. Parecia
Que ali na praça a gente revolucionava,
Tombava a ditadura, criava a democracia,
Eu não tinha medo nenhum, nem duvidava,
Eu era feliz assim mas nem sabia...
O tempo passou, e com o tempo a vida
Foi me tornando o homem que duvida
Do que há por trás de toda boa intenção,
E já não crê mais em palavras de ordem,
Nem na força das coisas que elas pensam que podem,
Nem nas promessas da revolução...
João
Hoje a primeira foto de João,
Em preto e branco como se fosse colorida,
Joãozinho que cabe na palma da mão,
Mas que nada toca tão forte a nossa vida,
A primeira foto, sem definição,
Mas quem é que precisa de imagem definida?
Qualquer borradinho já mexe com o coração...
A primeira foto, a foto mais curtida...
A primeira imagem ultrassonografada:
João na barriga da mamãe, mais nada,
E a família de João vibrando,
Um tempo novo cheio de alegria,
João. Mas poderia se chamar poesia,
Que bom saber que João está chegando...
Dias de plantão
Se eu soubesse cantarolar como um cantor,
Se eu entendesse de assar e cozinhar,
Tivesse o dom que tem um escritor,
Ou a habilidade de saber sapatear,
Se meu olhar fosse como o de um pintor,
Minha coragem a de um capitão do mar,
Meu preparo físico o de um corredor,
Se eu soubesse jogar como um Neymar...
Mas não... O que eu sei é tratar caganeira,
Não fico estressado com choradeira,
Nem com criança correndo de injeção...
Então meus dias assim são mais felizes:
Meu coração, minhas expertises,
Por isso eu não me importo em dar plantão...
Netos
A sobremesa da vida degustada
Em cada minimo movimento,
Criada para ser saboreada,
Fartando a vida desse alimento,
A sobremesa da vida, abençoada,
Quanta energia os netos carregam dentro,
Capaz de fazer nossa alma iluminada,
E clarear nosso pensamento...
A sobremesa da vida, cada neto,
Nenhuma tradução pra tanto afeto,
Pra tanta alegria, pra tanta emoção,
A sobremesa da vida. E o coração inquieto
Só se aquieta quando eles estão por perto,
Netos, pedaços do nosso coração...
Para Blanca
Qualquer coisa pode se transformar em poesia
Desde um programa de televisão
À morte lenta por asfixia,
Uma pedrada, uma roda de caminhão,
Um vento forte numa praia da Bahia,
Um buraco no chão
Até o moço que praticava pedofilia,
Nada escapa a ela, na minha opinião
Qualquer coisa pode se transformar em poesia
As vezes causa incômodo em quem lê,
As vezes tem tudo a ver,
As vezes não tem nenhuma motivação
Qualquer coisa com vida ou sem vida pode ser
Poesia e pronto. Basta escrever
E o resto pra mim é pura discussão
25.3.18
Somos todos iguais
Somos filhos da mesma frágil consistência,
Da mesma fome, do mesmo coração,
Da mesma sede de sobrevivência,
Braços dados ou não, pisamos o mesmo chão,
Vivemos sob a mesma dependência da ciência,
Somos todos iguais, sem exceção...
Iguais. Não há nenhuma diferença.
É sem sentido nenhum qualquer divisão,
Somos todos iguais, como cantou a canção,
Somos os filhos da mesma essência,
Viemos da mesma forma de concepção
E a morte vai nos reduzir à mesma condição...
O que nos divide é nossa demência.
27.2.18
Não façam mal ao Sofia
O Sofia é o que nos resta de esperança,
O Sofia é o que nos farta de ousadia
Ferir o Sofia
É ferir no coração nossa alegria...
O Sofia é ua usina
De ocitocina,
Sofia,
Mas poderia se chamar
Cidadania
Porque o Sofia
É um hospital que tem alma
E coração.
A história do nascimento do Sofia é uma lição
De doação quando não havia garantia
E de uma ideologia a favor do cidadão.
Nasceu como exercico de uma confraria
De diferentes credo, raça e religião...
Nas Minas onde a liberdade ainda que tardia,
Nas Minas do Clube de Esquina em cantoria,
Nas Minas de Carlos em forma de poesia
Nasceu o Sofia
E é por isso que o Sofia é uma paixão.
Nascer no Sofia
É um pouco experimentar a calmaria
Mesmo no olho do furacão.
Não faça mal ao Sofia, senhor Prefeito,
Senhor Secretário de Saude, não faça não,
Porque o Sofia é como o leite de peito:
Precisa de apoio e proteção.
Sabemos que vivemos num país de péssima gestão:
Transporte,
Segurança ,
Educação,
Riquezas naturais,
Planejamento,
Governo,
Economia,
Mas o Sofia não...
O Sofia significa garantia
De bom atendimento,
Um atendimento do melhor padrão
Que se inicia na portaria
E segue até o fim da internação.
Em que outro hospital voce encontraria
Sentados à mesma mesa
Na hora da refeição
A gestante,
Seu cuidador,
A moça da portatia,
O médico visitante,
Os academicos de psicologia,
A Direção
E a Vice-Direção?
O Sofia é assim mesmo:
Uma harmonia
Que resiste a qualquer auditoria
E que ultrapassa qualquer explicação.
Sofia
É joia rara, e não bijouteria,
Sinonimo de boa companhia,
Quem há de lhe acusar de má gestão?
Sofia é uma referencia para os nossos dias,
Para nossos profissionais,
Nossas familias,
Nossas crianças,
Nossa nação...
O Sofia é a materialização
De sonhos que muitas vezes muitos de nós sonhamos,
É um pouco nosso sonho
Com os pés no chão.
Não façam mal ao Sofia
Porque é do Sofia que precisamos
Para continuar acreditando,
Para seguir aprendendo,
Porque o Sofia não tem nem lugar nem quando...
Quem não conhece o Sofia está perdendo...
Sofia Feldman
Já quase que não é mais só um Hospital,
Já é um mito.
Recebe entao,
Esse poema, Sofia,
Como um grito:
Não façam mal ao Sofia
Porque maldade assim
Não tem perdão.



