15.12.09

O Amor
Para Helder e Silvana em seus 25 anos de casado


Que seja de longe a palavra mais vivida,
A mais falada, cantada e declamada,
E porque mais falada, a mais sentida,
E porque mais sentida, a mais usada.

Que seja a palavra mais permitida,
Que nunca seja a palavra protelada,
Como fonte de luz, a mais bebida,
Como fonte da vida, a mais sonhada,

Que não se perca nunca distraida,
Que não se encontre nunca dividida,
Que não se esqueça nunca abandonada,

Que seja sempre e para toda a vida
Redesenhada, fortalecida,
A presença de Deus multiplicada...

Que dure para além da eternidade,
Que viva muito mais que a vida inteira,
Que não se contenha, como é a calamidade,
Que não se limite, como é a cachoeira,

E que transforme com facilidade
A vida comezinha e corriqueira
Como um poema descreve a eternidade,
Como um falcão sobrevoa a cordilheira...

Que esteja acima da felicidade,
Que não se curve ante a dificuldade,
Que não se renda às horas mais vazias,

Que seja para sempre então lembrada
Como era um dia quando foi provocada,
Doce como era nos primeiros dias...

11.12.09

Mais da lágrima

Não tome a lágrima por coisa corriqueira,
Patética talvez, sem significancia,
Jamais a trate de qualquer maneira
Como coisinha assim, sem importancia.

Não caia, entretanto, dela, prisioneira,
Julgada e condenada em ultima instancia,
Não sofra dela a dor mais derradeira,
A que provoca a mágoa e atiça a ansia...

Aprenda dela as oportunidades
Como quem olha as próprias qualidades,
Como quem cava as portas de saida...

A lágrima assim, como reengenharia,
Acesso, senha, passe, vale, guia,
Caligrafia para a própria vida...

1.12.09

A lágrima

Cuida da sua lágrima com carinho...
Nunca trate-a como coisa sem valor...
Seja simpática... Trate-a com jeitinho...
Aproxime-se dela se preciso for...

Converse com ela pelo caminho
Sobre sua insatisfação, sobre sua dor,
Sobre as vezes em que seu coração sofreu sozinho,
Sobre as vezes em que ele caiu por tanto amor...

Não a despreze, nunca a recrimine,
Cuidar da própria lágrima não é crime,
É aprender a própria evolução...

A lágrima de dor, se bem cuidada
É como um bálsamo para a alma cansada,
É como um alívio para o coração...

4.11.09

Cantoria II

Escrevo por um instante... Quase um cantico...
E a minha vida, nesse cantico, se completa...
Nem bem alegre nem triste nem romantico...
Quase uma senha secreta...

As vezes como um arqueólogo semantico,
As vezes igual, como uma linha reta...
As vezes básico demais, as vezes tantrico,
As vezes prosador, as vezes poeta...

E no instante em que escrevo, silencioso,
Esse silencio se assume poderoso
E desarruma meu coração.

E desse coração desarrumado
Vejo nascer o poema alinhavado
E não consigo encontrar explicação...

3.11.09

Cantoria

Eu canto porque o instante silencia
E a minha vida nessa hora se incomoda...
Não sou alegre nem sou triste, todavia
Eu canto sambas de roda...

Eu canto porque o instante, como um guia,
Me pede pra cantar, e não me poda...
Faço da musica agradável companhia,
Da voz, minha orquestra de cordas...

Eu canto: Chico, Zeca Pagodinho,
Misturo Bach com uns sambas de Paulinho
E assim a musica livre se completa...

Meu reino por uma cantoria, é o que eu diria...
Meu reino por uma cantoria,
Batuca meu coração de poeta...

20.10.09

A corredeira

Dize-me com que versos tu caminhas
E eu te direi o poeta que tu és...
A forma como tu rimas tuas linhas,
Os versos com que tu desenhas teus papéis...

Como tu tratas as coisas comezinhas,
De que maneira tu contas de um a dez,
Com que argumentos tu agradas as Rainhas,
Com que argumentos tu agradas as ralés...

Dize-me com que versos poemeias,
Espalhando poemas a mancheias
Como quem trama a revolução

E eu te direi o poeta em que te tornas
Cada vez que em palavras tu transformas
A corredeira de teu coração...

18.10.09

18 de outubro
(Dia do Médico)

Gastrenterite aguda, pneumonia,
Abcesso, febre, vomitos, convulsão...
Palavras doentes por companhia,
Palavras pálidas por intima opção...

E desde o inicio quem arriscaria
De cada uma delas a significação?
Ptose, penfigo, hidrocefalia,
Apnéia, linfoma, decorticação...

Palavras doloridas e diárias,
Muitas vezes cruéis, como a urticária,
Outras tantas, gentis, como a amamentação...

Palavras que desenham seu caminho...
Quem dera escritas com o branco de seu linho...
Quem dera guardassem todas solução...