8.4.12

A trangressão

I
A gente se acostuma com o silencio,
A gente se acostuma com a solidão,
A gente só não se acostuma com a maldade,
A gente só não se acostuma com a ingratidão,

A gente se acostuma com a falta de festa,
A gente se acostuma com a falta de pão,
A gente só não se acostuma com o veneno,
A gente só não se acostuma com a falsa acusação,

A gente se acostuma com a morte,
A gente se acostuma com o tumor maligno,
A gente se acostuma com a convulsão,

A gente só não se acostuma com o ódio barato,
A gente só não se acostuma com a prepotencia,
A gente só não se acostuma com a pedra no lugar do coração

II
Porque a morte, a dor de dente, a hipocondria,
A azia, a barriga vazia, a hipertensão,
A asma, a cegueira e a fratura da bacia
São parte da vida, não fazem mal não,

Mas, de outro modo, a frieza, a covardia,
A arrogancia, a perseguição,
A estupidez, a raiva e a antipatia
São como sinais de decomposição...

Uma coisa é o que é comum a toda gente,
A vida diária, aparentemente,
A vida e suas dores com ou sem solução,

Outra coisa é a vida morta e doentia,
O que se torna e nunca deveria,
A dor causada pela trangressão...

III
Por isso a gente se acostuma com a tristeza,
Com a enxaqueca e com a depressao...
Com o ódio ou com a intolerancia? Nunca...
Nem toda dor merece aceitação...

A gente se acostuma com o afogamento,
Com a morte causada pela infecção,
Mas com a dor resultante da calunia? Nunca...
Tem dor que não é digna de consideração...

Não causam mal as dores inevitáveis,
Dessas que não nos tornam miseráveis,
Nem nos transformam em montes de podridão...

Deus nos proteja das dores sem sentido,
As dores que não deveriam ter nascido,
As dores do mal sem nome e sem perdão...

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