20.4.03

Os caminhos do coração

Aos pediatras do Brasil
Vai, menino,
Fazer Pediatria. 
Vai tratar tosse,
Calcular hidratação,
Vai conferir as doses de vacina,
Prescrever Penicilina,
Ou escolher alguma Cefalosporina
De terceira geração.
Vai, meu amigo,
Trabalhar muito e sempre e todo dia,
Vai dar consulta,
Vai fazer plantão,
Passar a noite acordado,
Atendendo resfriado,
Não custa nada,
Ou quase nada, acredite,
Pelo menos pro bolso do seu patrão.
Vai, garoto,
Vai dar duro,
Vai cuidar de prematuro,
Falar de amamentação.
Vai, menino,
Com persistência,
Com paciência,
Com overdose de abnegação,
Sem esperar reconhecimento,
Vai trabalhar só pro teu sustento
E pra tua própria satisfação.
Vai, tonto,
Fazer Pediatria,
Vai diagnosticar apendicite,
Reconhecer rapidamente a difteria,
Vai aprender a tratar infecção.
Cuidar de criança com febre,
Cuidar de criança com gastrenterite,
Cuidar de criança com convulsão.
Vai pra batalha,
Mas vai preparado:
Um pequeno deslize,
Tudo errado...
Qualquer engano,
Grande confusão...
Não há lugar para falha ou distração.
Vai, teimoso,
Fazer Pediatria,
O teu destino está na tua mão.
Voce poderia
Ter feito Endoscopia,
Neurocirurgia,
Ir cuidar dos males do coração.
Ou porque não
Ter tentado Nutrologia,
Dermato, Fisiatria,
Ter se especializado em Doenças do Pulmão.
Mas por descuido do seu anjo guia,
Ou por defeito de fabricação,
Por insistência, por teimosia,
Por desacerto ou por distração
Você escolheu fazer Pediatria.
Vai em frente.
Honra com fé a sua decisão.
Leva o bom senso como companhia.
Faz do trabalho a sua obrigação.
Mas não se assuste
Se qualquer dia,
Por arrogância,
Por prepotência,
Ou por qualquer outra disritmia,
Ameaçarem você com Ordem de Prisão.
Custa um leão por dia a sua liberdade.
Não abre mão, porém, da sua dignidade.
Não cede um palmo da sua convicção.
Esquece o dano.
Lembra sempre do soldado iraquiano
Lutando contra um gigante,
E segue adiante,
Sempre radiante,
Sempre na mão.
E ainda que a febre não abaixe,
E o dado clínico não se encaixe,
E o resultado do exame só aumente a indecisão,
E ainda que o cliente nunca volte,
E ainda que o cinismo nunca falte,
E ainda que você se ofenda
Quando um dia sem motivo chamarem você de furão,
Não desanime.
A fibra e a persistência não são crimes.
Não é pecado a obstinação.
Vai menino.
A tua vocação é sua chave. É sua escolta.
Segue portanto a fazer Pediatria.
Mas segue sempre adiante.
Vai.
Não volta.
Porque não há retorno
Para os Caminhos
Do Coração.

8 comentários:

Leonardo disse...

Uma poesia bem pediatria, da puericultura a coprocultura. Fertilidade mental pura. Curti :).

José C L Filho disse...

Olá, boa noite. Neste dia do Pediatra de 2015, deparei-me com este poema e elel me trouxe até aqui. Poderia me confirmar a autoria?
Grato,
José Carneiro Leão

Quasepoesia disse...

Sim, Jose.
Vi que é pediatra também.
Este poema é meu.
Publicado em livro e tudo.
Escrito em 2002.
Entre em contato: lamtavares@uol.com.br

Roberto Kamei disse...

Vim aqui da mesma forma que José C L Filho, vi o texto, curti e cheguei aqui no autor, graças ao Google!
Gostaria de sugerir que assinasse logo abaixo do poema, e o nome do livro.
Tem que assumir a autoria, cara!
Parabéns pela profissão e pelo belo texto!

Dra. Charlotte Voigt Bissegger disse...

Adorei sua poesia sobre nós, os pediatras, mas gostaria que o senhor assinasse a mesma, para que pudesse ser compartilhada com muito orgulho.
Parabens pelo texto,
Abraços,
Charlotte

Quasepoesia disse...

Prezados Charlotte, Roberto, José.
Este blog é meu guardador de poemas há mais de 10 anos.
São quase 900 poemas publicados (a contagem é do blog, não minha)
Eu não deixo de assumir nenhum deles.
São meus versos.
Tenho um outro site www.alemdauti.com.br que permite o download gratuito de um outro livro de poesias: poemas para almas apressadas.
Fala da prematuridade em versos.
O "Caminhos do Coração" foi escrito há 12 anos.
Estão "assinados", portanto devidamente assumidos.
O livro?
A palavra dada
Editora Scortecci
E sabe porque Palavra dada?
Porque palavra depois de escrita não tem dono.
Do mesmo modo que escrevi em 2012:

A palavra compartilhada

A palavra, depois de escrita, não tem dono,
Se fica guardada, não tem serventia,
Guardar a palavra é condena-la ao abandono,
Guardar a palavra é subtrair-lhe a poesia...

A palavra, se guardada, é um Rei sem trono,
É Pedro Alvares Cabral sem a Bahia.
A palavra espalhada perde o sono,
Disseminada, cai na folia...

Compartilhar a palavra é um mandamento
Que permite à palavra o livramento,
Que tempera a palavra com alegria...

Compartilhar a palavra, incondicionalmente,
É permitir-lhe a liberdade inconsequente,
É entregar-lhe a sua carta de alforria...

Percebi que Os Caminhos do Coração seguiram rumo próprio
Não me importo em me transformar em autor desconhecido.
Sou médico pediatra graduado em 1983 pela UFRJ.
Esse blog é minha assinatura.
Se essas informações forem insuficientes para seu convencimento de minha autoria, acreditem: os poemas seguirão nascendo e isso, ser reconhecido como autor ou não, não me fará diferença.
Deixei meu mail para contato.
Um abraço.
Luis Tavares (é assim que assino meu perfil no facebook)

Roberto Kamei disse...

Agora virei fã, mesmo!
De carteirinha, livro, álbum e tudo o mais!!
É que fico indignado quando vejo textos assim, em faces e twitts da vida, sem o merecido crédito!
Mas valeu a pena garimpar no Google e encontrar o verdadeiro autor desconhecido!
Parabéns, Luís!!
Grande abraço!

Roberto Kamei disse...

Ah… em nunhum momento, nós dissemos que que texto não era de sua autoria :!
Paz