22.12.04

Poema de Natal XII

A Gruta

Cavada em pedra
Irregular e fria,
Parede desenhada
Em pedra bruta,
Quem olha
Nem repara
A suavidade
E singeleza
Que ela oculta:
Recebeu o Nazareno,
Protegeu Nosso Senhor,
Do vento frio,
Da noite alta,
Da escuridão sinistra
E absoluta,
Guardando-o
Em seu seio
Do mesmo modo
Que a casca
guarda a fruta.
A gruta.
De atrio cavado
Em rocha fria
E bruta.
Delicadeza
Inaparente
E oculta.
Berço da Boa Nova
Absoluta...
A gruta...

21.12.04

Poema de Natal XI

O burrinho

Pela estrada até Belém
Caminhou, por todo o dia,
Acompanhando, em silêncio,
Jesus, José e Maria.

Por que fora o escolhido
Para tão nobre hornaria?
Não tinha pelos de seda,
Não tinha pele macia.

Não era de raça pura,
Nem muito o quanto valia.
Não tinha o casco impecável,
Nem pasto, nem boa cria.

Não tinha sela aprumada,
Nem lugar na estrebaria.
Não tinha torte, nem nada,
Nem preço, nem garantia.

Nem porte altivo, o coitado,
Seu relinchar nem se ouvia,
Não tinha o couro escovado,
Nem era pra montaria...

Era um burrinho de carga
E só pra isso servia.
Mas que não fosse pesada,
Além do que ele podia.

Não reclamou da distância,
Do cansaço que sentia.
Cumpriu somente o papel
Que a vida lhe oferecia.

Era um burrinho, mais nada.
Seu nome, ninguém sabia,
Mas que, em silêncio, levava
Para Belém o Messias...

Talvez, por isso, o burrinho
Tenha tido a primazia
De acompanhar, em silêncio,
Jesus, José e Maria.

20.12.04

Poema de Natal X

As criancinhas de Belém
Dedicado a Francisco Candido Xavier

Mt. 2, 16
“Percebendo Herodes que tinha sido enganado pelos Magos, ficou irritadíssimo e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e nas redondezas, de dois anos para baixo, de acordo com o tempo exato que os Magos lhe haviam indicado”.


Meninos e meninas sacrificados
Pela crueldade de mãos assassinas.
Bebes ainda de colo assassinados,
Tão sem pecados, meninos e meninas...

Tão pequeninos tão sem pecados,
Morrer tão cedo assim, trágica sina...
Impiedosamente massacrados...
O pavor disseminando a dor e a ruína...

Meninos e meninas, Deus vos guarde.
A morte vos tocou com tanto alarde,
Com tanta dor, com tanto inconformismo...

Que Deus vos tenha em Sua companhia
E cale o horror que vos tornou um dia
Os primeiros Mártires do Cristianismo...

19.12.04

Poema de Natal IX

Maria vai ter com Isabel

E se encontraram,
E se abraçaram,
E conversaram
A respeito do que haviam
Ouvido
E visto...
Naquela hora
Daquele dia
Sem que ninguém reparasse ou percebesse
Um outro grande encontro acontecia:
Isabel preparando João Batista...
Maria preparando Jesus Cristo...

9.12.04

Poema de Natal VIII
A Estrela de Belém.

A Estrela de Belém
Há dois milênios
Indicou à Humanidade a direção.
A Humanidade se perdeu na usura
Como quem nega a cura
E cospe o pão.
A Humanidade se vestiu da ira,
E se perdeu inteira,
E se afogou num mar
De tenebroso não...

E esse mar de tormenta e desengano
Levou o homem a um caminho insano
Onde não há respeito.
Não há segurança,
Ninguém confia em ninguém.

Resta somente à Humanidade atordoada
Que vem tomando a direção errada
Seguir, usando a fé que ainda tem,
A mesma direção anunciada
Há dois mil anos pela luz imaculada
Da estrela de Belém...

8.12.04

Poema de Natal VII

José e Maria

Nenhum dos dois duvidou
Das coisas que o Anjo dizia.
Maria honrou a José,
José dignificou Maria.

Nenhum dos dois recusou
A missão que lhes cabia.
Maria ficou com José,
José ficou com Maria.

Nenhum sinal de fraqueza,
Nenhuma indelicadeza,
Nenhuma descortesia...

Somente bondade e fé:
Maria inteira em José,
José completo em Maria...

7.12.04

Poema de Natal VI

Maria, Mãe de Jesus


_Salve, Maria! O Senhor é contigo!
E assim o Anjo se Anunciou.
O Senhor é contigo, Maria!
O Senhor, por sua graça, te tocou.

_Maria, tu darás a luz a um filho.
Assim o Nosso Pai determinou.
_Será chamadi Filho do Altissimo.
Falou o Anjo à Maria, que aceitou.

Não discutiu, não temeu, não foi emborta.
Cumpriu, serena e suave, a sua hora,
Santa Maria, Mãe de Jesus...

Maria, noiva, por Deus escolhida
Para ser Mãe do Senhor, a Luz da Vida,
Maria, Mãe de Cristo, Anjo de Luz...
Poema de Natal V

José, o Pai de Jesus.

Não reagiu. Não temeu. Não foi embora.
Assegurou a honra de Maria.
E como quem sustenta, como escora,
Como o calor que dissipa a névoa fria,

Não teve duvidas naquela hora,
Permanecendo, como quem confia.
Como um andor para Nossa Senhora.
Como uma luz para a Estrela Guia.

José, o carpinteiro. Homem de bem.
O escolhido para, em Belém,
Seguir Maria e sustentar sua luz.

José, que amou com honra a virgem concebida.
José. Um gesto nobre por toda a vida.
José. O Pai do Menino Jesus.

2.12.04

Poema de Natal IV

O dinheiro que temos
Guardamos em local seguro:
No Banco, ou escondido
Em cantos reservados.
Também nossos metais
São sempre bem guardados
Em caixas fechadas
Com bons cadeados.
As terras que possuímos,
Nós as temos
Em papéis sempre
Bem documentados.
E assim como as terras,
A nossa casa,
A nossa safra de cana,
Os nossos gados...

Mas porque fomos tão rudes
Ao receber
Com gestos e modos
Tão desleixados
Justo o Cordeiro de Deus
Que veio ao mundo
Pra tirar nossos pecados?


Poema de Natal III

Um homem,
Uma mulher
E um burrinho
Seguindo no caminho
De Belém.
Um homem,
Uma mulher
E um burrinho
Acompanhados
De mais ninguém.
Nada demais, a principio,
E, no entanto,
Quem há de contestar
A realidade:
Um homem,
Uma mulher
E um burrinho...
E o futuro
Da Humanidade...

30.11.04

Poema de Natal II
(O Dono da Estalagem nega um quarto)

Sem Anjos anunciando a sua chegada,
Bem antes da Estrela aparecer,
Sem Reis Magos, sem árvore enfeitada,
Sem nada, assim, pra me convencer...

Um homem... Uma mulher embarrigada...
Nada que me deixasse perceber...
Tomei por gente comum dessas, mais nada...
Como é que eu ia reconhecer?

Se musica tocasse, acompanhada
De sinos, guizos, anjos... Mas que nada...
Somente um bebe prestes a nascer...

Eu tinha até lugar na minha pousada,
Mas, acredite, vaga reservada...
Como é que eu ia saber?
Poema de Natal I

No coxo frio de uma estrebaria
Sem luz, sem água ou fonte de calor,
Há dois mil anos Jesus nascia
Para se tornar nosso Salvador.

Não trouxe ouro por garantia,
Nem desobedeceu o seu Imperador,
Mas pelas coisas que ele fazia
Ganhou o nome de Nosso Senhor.

No coxo frio que já nem servia,
Na escuridão da noite que caia,
Nesse cenário sem luz nem cor,

Ali, naquela noite, quem diria,
Era assim que a Humanidade recebia
Nosso Senhor Jesus, o Redentor.

29.11.04

Bilaquiana III
(Resposta a um Clinico)

Ora, dirás: fazer Pediatria?
Certo não sabes Clinica Geral.
Só amamentação, fraldinha, o dia a dia,
Gotinha e Sais de Rehidratação Oral.

Ao invés das grandes sindromes, quem diria,
Receitinhas de ensinar fazer mingau,
Sopinha de legumes em banho-maria,
E as doses do calendário vacinal.

Ora, dirás: consulta sem valia,
Receita igual à receita da titia,
Assim até eu quero ser pediatra...

E eu te direi, no entanto: Que ironia!
Salvas o mundo com tua sabedoria
Mas não percebes a empáfia que te mata...

23.11.04

Bilaquiana II
(Fazer poesia)

Ora, dirás: tentar fazer poesia...
Certo perdeste o senso que há na prosa
Valorizando o ritmo e a harmonia,
Secando a idéia, fonte preciosa...

Ora, dirás: papel sem serventia,
Mania sem sentido e viciosa...
Enquanto a prosa transmite sabedoria,
A poesia morre de melosa...

E eu te direi, no entanto: _Que tolice!
O verso é feito a prosa sem mesmice,
Dita de forma amena e perfumada...

Por isso eu sigo o ritmo e vou adiante
Fazendo versos, habito interessante...
O verso é a minha prosa temperada.
Bilaquiana I
(O pensamento)

Ora, dirás: pensar dialogando...
Viver conforme a coisa imaginada...
Como quem, acordado, vai sonhando...
Como quem mora na casa assim sonhada...

Ora, dirás: lunático delirando...
Mania própria de alma perturbada...
Quem há de compreender a alma quando
Fala sozinha, voz ensimesmada?

E eu te direi, no entanto: experimenta
Olhar por trás do casca que aparenta,
Falar alem do ouvido que te escuta,

E compreender o mundo alem do mundo,
O infinito dentro de um segundo,
E o diamante que há na pedra bruta...

16.11.04

Os Quatro Cavaleiros da Harmonia
Escrito apos escutar/assistir o DVD Outros Doces Barbaros, com Gil, Cae, Gal e Beta. Há algo de divino em suas canções. Para eles, meu breve poema.


Os outros Doces Bárbaros. Bethânia
Gilberto Gil. Gal Costa. Caetano.
Os quatro Cavaleiros da Harmonia.
Canção bonita. Musica de baiano.

Os outros Doces Bárbaros. Gal Costa.
Bethânia. Caetano. Sr. Gilberto.
Quatro baianos. Viramundos. Um índio.
Uma invasão que desde então deu certo.

Os outros Bárbaros. Gilberto Gil.
Cada palavra escrita com Brasil.
Quatro esotéricos. Lindos astrais.

Os outros Doces Bárbaros. Caetano.
Nenhuma frase posta por engano.
Incompreensíveis? Ah! Meu Deus é mais.

9.11.04

A palavra lapidada

Redescobrir a palavra encabulada,
Reaprender da palavra o seu sentido,
Redefinir a palavra utilizada,
Remixar a palavra para o ouvido,

E a palavra, uma vez reformatada,
Fazer com que pareça ter nascido
Para ser dita e para ser falada
Do modo como foi redefinido.

Reescrever a palavra intimidada,
Compreendendo a palavra abandonada
Na esquina escura, no fim do gueto,

Porque a palavra realimentada
Renasce, transformando o quase nada
Na forma inesperada de um soneto...

2.11.04

Carinho de Mãe
Para Natty apos ver a homenagem que ela dedicou à sua mãe em www.fotolog.net/nattygreff

Carinho de mãe nada/ninguém copia...
Carinho de mãe faz pegar no sono...
Carinho de mãe é feito poesia
Espantando a tristeza e o abandono...

Carinho de mãe é boa companhia.
É feito a luz do sol tocando a pele:
A gente nem percebe, mas vicia,
Ainda que não confesse nem revele...

Carinho de mãe é mais que o infinito.
É muito mais gostoso e mais bonito
Que o por do sol avermelhando o céu...

Carinho de mãe é tudo. Nada é mais.
É leve e poderoso. Feito o gás...
É consistente e doce. Feito o mel...
2 de novembro
Versos incidentais de Curuminha, de Chico Buarque e de Essa Rua, domínio publico.

Cantos de ontem que os dias levaram
Prum tempo que se chama nunca mais...
Vozes que eram e que se calaram,
Lembranças de ontem que o dia traz...

Vozes que, serenas, cantarolaram,
Que nos mostraram como é que se faz,
Vozes que partiram, vozes que deixaram
O coração com essa dor sem paz,

Cenas que o tempo fez tornar saudade,
Que deram de morar na eternidade,
Num bosque que se chama solidão...

Se fosse permitido, eu revertia o tempo,
Mudava as cores do pensamento
Pra não deixar mais doer o coração...
Seu coração
Para minha amiga Carla (www.fotolog.net/anginhaa)


Seu coração é o sol ao meio dia,
Água que brota da fonte de água boa,
Você e mais certeira que poesia
De Chico, de Bandeira, de Pessoa...

É livre, como a lua quando brilha,
É leve, como um pássaro quando voa,
É soberana, feito a Estrela-guia,
É suave, como a mão quando abençoa,

Prudente, porque sabe aonde é que pisa,
Você possui a discrição da brisa
E a estabilidade da canoa...

A sua elegância desestabiliza...
Você me desarruma e me organiza,
Por isso, às vezes, sonho, rindo a toa...