9.10.02

A Estrela
A Luis Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil

“Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel”
O Cio da Terra - Chico Buarque/Milton Nascimento.

" Só faltava o mel, só faltava o mel
Mas o mel chegou!
Pingava mel, da parede escorria mel
Eu passava o dedo
E provava sem medo e sem temor"
Na Casa Dela - Gilberto Gil




Tocar a mão na Estrela...
Banhar o coração na claridade...
Houve um período feito de maldade,
Da noite em meu País, da impunidade,
E ao mesmo tempo
Um tempo de delírio, fantasia,
De encantamento...
A poesia da ingenuidade...
Tocar a Estrela, quase uma heresia...
Tocá-la, quase a impossibilidade...
E, como se desejos impossíveis
Teassem fios inimagináveis,
Delírios que eram quase inatingíveis
Tornaram-se, aos poucos, permissíveis,
E, por assim dizer, realizáveis...
Tocar a Estrela com o Coração
Como se fosse a Voz de uma Nação,
Como se fosse o seu Hino...
E, mais do que tocar, pegar na mão...
A Estrela foi tornando uma opção...
Foi deixando de ser um desatino...
E foi assim:
João Desempregado disse sim,
Pedro Desiludido se animou,
Chico do Contra, embora achando ruim,
Quase no fim concordou, depois sorriu,
Juca Indeciso se decidiu,
Zé Otimista se convenceu,
Paulo Maluco esse dia nem surtou,
O Pecador porque se arrependeu,
O Filho Pródigo porque voltou,
O Guarda Noturno porque o sol nasceu,
A bela Atriz porque a noite chegou,
O Estudante por falta de medo,
O Apressado por um segundo,
O Encabulado quase em segredo,
O Profeta pra tentar salvar o mundo,
Tião Fazendeiro por distração,
Zeca Pedreiro por querer demais,
O Metalúrgico por opinião,
O Metaleiro porque tanto faz,
O Padre por amor à sua batina
E o Pastor por não ter que se confessar,
E o menino por causa da menina,
E o Pescador por causa do mar,
Cada um a seu modo e do seu jeito
Imaginou ser digno do direito,
Merecedor, por conceito,
De ver a Estrela brilhar...
Paolinha mandou fazer um vestido,
Geórgia convenceu o namorado,
Fernanda com seu jeito distraído,
Renata com seu modo comportado,
Simone fez questão de acordar cedo,
Andréya passou lendo a noite inteira,
Francine cruzou o dedo,
Cartola foi lembrado na Mangueira,
Flávia Cristina voltou da França,
Dra. Francis faltou plantão,
A Bárbara parecia uma criança
Passeando de avião,
A Poesia ficou toda prosa,
A luz do dia, cheia de si,
Copacabana amanheceu maravilhosa
De tanto rir
Porque de repente
Toda essa gente
Crioula, branca, pálida, amarela,
Foi desejando completamente
A Luz da Estrela...
Tocar a mão suada na Estrela...
Banhar o suor em sua claridade...
Como quem passa livre da maldade...
Como quem desrespeita a impunidade...
Como quem desafia o próprio tempo...
Como quem vive a própria fantasia...
Como quem faz o próprio encantamento...
Como quem canta a própria ingenuidade...
Como quem legaliza uma heresia
E desconhece a impossibilidade...
Daquela Estrela jorrava mel...
Brotava mel de dentro do chão...
E das paredes das casas e dos rios
E dos espaços vazios e das ruas
O mel suava, jorrava
E escorria...
Era a Estrela que se aproximava...
Era a Estrela que permitia
A toda gente, naquele instante,
Uma aproximação impressionante
Como uma Boa Nova que chegava,
Como se fosse um banho de alegria...
E toda gente
Sedenta, lúcida, leve e em paz radiante,
Tocou a Estrela imensa feito o Céu...
Bebeu da Estrela a doçura do mel...
Se lambuzou de mel...
E se fartou de mel...
E, pelo que se soube,
Até onde se diz,
A gente brasileira
Pela primeira vez e derradeira
Pegou na mão, tomou a sua Estrela,
E desse dia em diante
Foi feliz...

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