22.12.23

A poesia

A poesia é viagem garantida 
Que o coração faz, mesmo sem perceber, 
Desvendando a paisagem distraída
Que os versos combinaram de trazer,

E o coração de quem lê, sente a batida,
Porque agitado, começa a responder 
Cada verso uma emoção, não tem saída,
É assim que a poesia tem que ser,

E a gente termina, dá uma outra lida,
Mas poesia é régua sem medida,
O coração não dá fim a seu tremer,

Porque a poesia é esculpida
Na mesma matéria prima de que é feita a vida,
Quem é de poesia vai entender...

10.7.23

Dez de julho

10 de julho. O tempo não para. 
A vida segue em frente e nos desafia.
E não disfarça. E olha na nossa cara
E chama logo pra enfrentar o dia.

Que hoje é 10 de julho. Praia clara. 
Ainda decidindo ou não se esfria.
Mas a vida já decidiu ser joia rara,
Não façamos por menos. É o que diz a poesia. 

10 de julho. Dia de intensidade 
Contém emoções de fazer parar uma cidade,
Ou capazes de mobilizar uma nação.

10 de julho. Bem vindos ao planeta. 
Tirem os seus planos tímidos da gaveta.
Viver é nossa única opção.

8.7.23

Chico Buarque, o cancioneiro

Um cancioneiro. Acordes geniais.
E letras de mexer com o coração. 
De um jeito que na vida ninguém faz,
A arte do poeta e de seu violão 

Um cancioneiro que desde lá de trás 
Constrói canção por canção com perfeição,
Um cantador meticuloso e audaz,
Um homem que construiu uma nação 

De gente simples, de gente apaixonada, 
De gente oprimida, gente libertada,
Do amor da forma como o amor nasceu pra ser.

Chico Buarque de Hollanda, um cancioneiro 
Que descobriu o coração inteiro 
E colocou acordes pra todo mundo aprender.

4.7.23

A poesia

A poesia é a alegria da palavra,
É o som quando o som brinca de escrever,
É ser feliz em uma outra oitava
Que só a poesia sabe ser,

E enquanto a poesia se destrava,
E vai tornando-se o que deseja ser,
Um mundo que ninguém imaginava
Ganha vida e essa vida tem poder...

A poesia, palavra empoderada,
Capaz de transformar em tudo o nada,
E de desintegrar a solidão,

E silenciosa, segue a poesia,
E o poeta era o único que ouvia
A poesia em seu coração. 

2.7.23

Vida

Siga corretamente o modo de usar,
Desobedecer essa regra pode trazer sofrimento,
Da mesma forma, todo exagero pode acarretar
Tristeza, dor e algum arrependimento,

Às vezes também é bom saber pausar,
Porque a pausa faz parte do movimento,
Há regras cujo melhor é não quebrar,
A vida não perdoa. Fique atento.

Viver é muito mais do que estar vivo,
É escrever e assinar o próprio livro,
É assumir publicamente sua autoria,

Viver é ser autor da própria vida,
Da porta de entrada à porta de saída,
A vida é seu grande dia.





28.6.23

A poesia

Desde que eu comecei a escrever poesia, 
A vida ficou um pouco mais fácil de inventar, 
Se havia sofrimento, a poesia ria,
Se havia sono, ela ia repousar,

As coisas que eu não sabia, ela resolvia,
E não sumia quando eu precisava conversar, 
Quando todo mundo se ia, ela não se ia,
E ao seu lado eu sempre soube qual era o meu lugar, 

Então, quando eu comecei, eu nem sabia 
Que a poesia me salvaria
Do redemoinho que tentaria me afogar, 

Por isso é que talvez, desde aquele dia,
Eu veja a poesia como a companhia 
Da qual eu nunca vá me separar...

19.6.23

O poeta faz setenta e nove

A poesia absolutamente enternecida,
O coração escrito em notas musicais,
Chico Buarque, setenta e nove anos de vida,
E o poeta, que não se cansa, quer bem mais,

Porque é preciso cantar a nossa gente tão sofrida,
Porque é preciso cantar tanto amor entre os casais,
Ainda é preciso romper tanta dor tão reprimida,
Deixar tanto medo de viver pra trás,

O poeta quer bem mais, e o poeta merece,
Porque quanto mais o tempo passa, mais o poeta cresce,
E vai se tornando Chico Buarque Gigante de Hollanda,

E aos setenta e nove é um menino ainda,
Com a mesma poesia linda, e a mesma voz linda
Que arrebatou o coração da gente cantando "A Banda".

10.6.23

Sábado

Sábado de frio, dia abençoado,
A poesia, do nada, veio me ver,
E me encontrou com dor nas costas, e acordado,
E trouxe algumas palavras para eu escrever,

Que me diziam para eu não ficar desanimado,
Remoendo as lutas que eu tive que vencer,
E me lembrou que o passado ficou lá no passado,
E que o futuro é o que ainda vai acontecer,

E também me lembrou que a mágoa é o grande impeditivo
Da gente se sentir definitivamente vivo,
Porque a mágoa é a morte vivendo dentro da gente,

E naquele sábado de frio abençoado,
A poesia se despediu, com um abraço apertado,
Tornando aquele meu dia mais potente...

4.6.23

Para Ana Michelle Soares

Ana Michelle, você segue entre a gente 
Trazendo vida para nossas vidas,
Por isso é sempre possível perceber você presente, 
Sua palavra certeira é como um Midas

Transformando esse mundo como a gente o sente, 
Acordando nossa gente pras coisas despercebidas,
Seus olhos, Ana, enxergam o mundo com outras lentes,
Seu coração encontra sempre novas saídas,

Então, é como falar de você sempre por perto,
O olhar sincero, o coração aberto, 
O sorriso doce, a palavra sã,

Você segue entre a gente como uma madrinha, 
Como uma revolucionária passarinha,
Voce segue entre a gente como uma irmã...

O tempo

O engraçado é que ontem a gente dizia 
Que hoje seria o amanhã que iria chegar, 
E fazia planos, e como fazia,
Só era preciso esperar, 

Mas então chega hoje, exatamente o dia
Que é o mesmo amanhã noutro lugar,
Porque a roda do tempo rodopia
E muda o tempo todo, sem parar,

Por isso não é sensato perder tempo,
O tempo está em constante movimento, 
O ontem e o amanhã são a mesma dimensão, 

O tempo não para, como já disse o poeta, 
Por isso, se o amanhã é a sua meta,
O hoje é a sua única opção.

3.6.23

Férias

Estou de férias. Eis um bom motivo
Pra dar um tempo de tudo e descansar, 
Ver uma série, sair um pouco, ler um livro,
Viver sem pressa, porque tudo vai voltar,

Então é necessário estar sensível 
Pra ver o tempo passar sem me estressar,
Um meio termo, um ponto de equilíbrio,
As minhas mitocondrias vão adorar.

Mas não são férias de tudo, só de uma parte.
Alguém já disse: a medicina é uma arte.
A vida do médico precisa ser estudada. 

Sendo assim, de férias, sigo trabalhando,
Mas com mais tempo livre, e a gente vai levando,
E a semana termina mais aliviada. 

27.5.23

A palavra que cuida

Bendita seja a palavra que alivia
O sofrimento humano que se alastra,
Bendita a fonte que nunca se esvazia,
Bendita a luz que nunca se desgasta,

E no meio de tanta desarmonia, 
A humanidade e sua coloração nefasta,
Bendita seja a palavra que abrevia 
A dor do coração da coisa amarga e gasta,

Bendito o abraço acolhedor que cura
Da treva densa, por mais escura,
A dor tamanha, por mais dorida...

Bendito seja o gesto sereno e verdadeiro,
Que é como uma esperança em meio ao nevoeiro,
Um sopro de vida renascendo a vida...

23.5.23

Vinicius Junior

Um estádio lotado, eu não acreditava,
E um jogador, um gênio da bola, e a sua ira,
Uma torcida inteira racista que o xingava,
Era verdade, mas parecia que era mentira...

O odio gratuito de uma Europa que se mostrava 
Pré-histórica, como a turba que delira,
E perde a civilidade conquistada,
E grita, e se revela estúpida, e pira,

E o gênio da bola ainda promete continuar,
Ali ou longe dali, não vai parar,
E a Europa, mais uma vez, dessa vez vai perceber 

Que a estupidez humana, por maior que seja,
Não é maior que o coração que não fraqueja,
E não possui no fundo, assim, tanto poder...

Silêncio, bando de lixo pseudocivilizado,
Seu continente se cala, envergonhado...
É a idade da pedra querendo renascer...

21.5.23

O tempo

A maioria de nós ganhou, de mãos beijadas,
Para gastar como bem entender,
24 horas, já depositadas,
Um dia inteirinho na conta. Vai lá ver.

24 horas. Sem descontos. Dadas.
Sem a gente  pedir nem perceber. 
E quase sempre desperdiçadas,
Até o dia em que acabamos por perder,

E o crédito chegar pela metade, 
E faltar tempo pra tanta necessidade,
E já não houver chance de contestação,

Então, enquanto é tempo, usemos nosso tempo
Sem jogar fora, porque a qualquer momento, 
Vai faltar tempo pras coisas do coração.

16.5.23

Terça-feira

Acorda, terça-feira, irmã querida,
E mostra o que você trouxe pra nos dar:
Um dia inteiro? Meio? Um fim de vida?
Terça querida, vamos aproveitar,

Entrega expressa, encomenda recebida,
Não há porque abrir e não usar,
Até porque foi preparado sob-medida 
O que tínhamos exatamente pra ganhar,

Então, agradecidos, terça-feira,
Foi a primeira vez que eu pensei dessa maneira:
Eu ganho da vida o que eu posso ter,

O resto eu completo, mas não me pertence, 
Pertence ao tempo que sempre vence
E volta sempre para reaver...

14.5.23

Mãe

Desde o coração do bebê que já pulsava,
Desde o pequeno quando ele já se remexia,
Já era mãe a mulher que ali estava,
A mesma mãe a que sempre ali estaria,

Ou desde o seu coração que já sonhava
Com o bebê que ela talvez tivesse um dia,
Já era a mãe que ali se desenhava,
E que jamais dali se apagaria,

Mãe, nome que habita o espírito da palavra,
O mundo ainda mal se povoava,
E ela já sabia amar a sua cria,

Mãe, porque Deus, no instante em que nos criava,
Nos deu a mãe, como prova que nos dava
Que nunca mais nos abandonaria...

12.5.23

Dia do Enfermeiro


12 de maio. Dia do Enfermeiro.
O dia certo pra homenagear
Aquele que está ao lado da dor o tempo inteiro,
E acolhe quem sofre com a voz e com o olhar,

Porque onde chega a dor ele chega primeiro,
E só vai embora quando a dor dá de passar,
É mais que um bom profissional. É um bom companheiro.
Sabe os segredos de fazer a dor sarar.

Sabe escutar quando a gente está sofrendo.
Sabe fazer a dor ir desaparecendo,
Mesmo quando ela insiste em retornar.

O Enfermeiro. Nome que alivia.
Que Deus lhe abençoe nesse seu dia,
Uma data pra gente sempre se lembrar 

9.5.23

Rita Lee

31/12/1947
09/05/2023

A poesia que ela habitava
Era do tamanho do seu coração,
Ora falava baixinho, ora gritava,
Ora tocava guitarra, ora violão,

Mas era sempre fiel ao que ela acreditava, 
Se era sim, era sim, ou era não e era não,
Era Rainha, e, no reino que reinava,
Não havia espaço para hesitação,

Fazia música e letra, dissonava,
De Mutantes a Beatles, encantava,
E foi, assim, cultivando uma legião 

De fãs de Rita. Mulher doce e brava,
Que a partir de agora a eternidade grava
Seu nome na imensidão...

8.5.23

Convite

Quem vier mais tarde pra conversar 
Traga no coração sinceridade,
Não precisa ter muitas coisas pra falar,
Fale o que o seu coração tiver vontade,

Muita gente passa aqui só pra escutar,
E vai embora em silêncio. É que a verdade 
Não precisa se dizer pra se mostrar,
Estar presente é exercer sua liberdade.

Quem chegar mais tarde não traga nada 
Além da alma despida da vida atribulada,
E do coração esvaziado de medos e exaustão,

Para comer traga apenas uma sopinha de esperança 
Desses que a nossa mãe dava a gente quando criança,
Pra alimentar aos poucos nosso coração. 

7.5.23

Bom dia

Bom dia pra toda gente, com poesia, 
Que nosso coração sorria ao acordar, 
Que seja um dia tranquilo o nosso dia,
Que a gente encontre forças pra enfrentar 

O desânimo, a falta de fé, a hipocrisia, 
E as mentiras que se espalham pelo ar,
Que o coração, diante da dor, sorria,
Porque sabe que a noite mais densa vai passar,

Então bom dia, com fé e galhardia, 
Nós não vamos permitir que a covardia 
E o medo nos impeçam de lutar,

Bom dia, porque acordamos. E isso é tudo.
Estarmos vivo é nossa força e nosso escudo.
E Deus, na hora certa, não há de nos faltar.

1.5.23

Poesia

Escrevo poesia como quem perdoa,
Escrevo poesia como quem pede perdão, 
Como a liberdade que tem a alma que voa,
Como a segurança que tem os pés que pisam o chão,

Escrevo poesia como quem chora à toa,
Como quem sonha um dia ir pro Japão, 
Como quem não possui nada e mesmo assim se doa,
E como quem só ganha com essa doação, 

Escrevo poesia sem saber direito 
Se é por necessidade, mania ou por defeito, 
Ou por alguma espécie de perturbação, 

Escrevo sem saber qual a resposta, 
Ou se me preocupar se alguém não gosta,
Escrevo pra obedecer meu coração...

29.4.23

Feriadão

Bom dia de começo de feriadão,
Tempo de olhar com calma as coisas pra fazer,
E de sentir as batidas do coração,
E de entender o que elas querem nos dizer:

Vai por ali, não vai por ali não, 
Olha bem por onde você está querendo se meter, 
Silencioso, mas cheio de atenção,
É o coração o tempo inteiro a nos dizer:

Cuidado, avança, recua, ataca, estica,
Por aí de novo não, não se complica, 
O coração, supremo e sábio conselheiro, 

Então é justo que nesse feriado 
A gente possa ter um tempinho lado a lado, 
Mas sempre deixando o coração falar primeiro.

28.4.23

O caminho

Era um caminho que eu não sabia que existia 
Mas que agora não sei mais como escapar 
Tanta coisa mudou e eu não sabia
Como era possível tanta coisa mudar

Conceitos, práticas, e quanto mais eu lia
Mais coisa aparecia pra me mostrar 
Como era grande o mundo e como cabia
Mais coisa do que eu podia imaginar 

Eu hoje sigo aprendendo dia a dia
E cada vez em melhor companhia 
Já sei que não consigo mais voltar 

Navegar é preciso, já dizia 
O poeta em sua justa poesia 
Que nunca para de navegar

22.4.23

Feliz aniversário Juliana

Hoje tem aniversário de Juliana,
Motivo de festa pro nosso coração,
Inaugurando o fim de semana 
Com idade nova. Que presentão.

Eu vi nascer. Como um anjo a paisana.
Cresceu. Ganhou a força de um vulcão. 
Mas leva a poesia de Quintana
Enquanto apronta a revolução. 

É festa no céu. É festa na família. 
Boa menina. Boa mãe e boa filha.
Tem um coração acolhedor essa menina,

Que hoje faz aniversário e comemora.
É festa. E se tem festa ela adora.
Esses anjo bom que é pura adrenalina.

21.4.23

O violão e o cavaquinho

São dois: um violão e um cavaquinho,
Uma duplinha na mesma fina afinação,
Um é grandão, o outro é pequenininho,
Mas é impressionante como se dão,

O som de um é sempre mais fininho, 
O do outro às vezes esbarra num bordão, 
E vão desfilando de um Brasileirinho
A um samba de roda, brincando de samba canção, 

São dois irmãos, quase inseparáveis,
De sonoridades inimitáveis,
Que vivem por aí colorindo as batucadas,

Violão e cavaquinho, companheiros,
Alegrias dos ritmos brasileiros,
A melhor companhia para as nossas madrugadas...

15.4.23

O legado

Para Ana Michelle

Suave e lentamente preparado,
E docemente nos oferecido,
Para ser para o resto das nossas vidas aproveitado, 
Foi desse jeito o legado recebido,

E antes que a dor o tivesse silenciado, 
E a exaustão o tivesse consumido,
Ele foi até o fim, e, após finalizado, 
Chegou a nós sem alarde e sem ruído,

Um legado recebido assim dessa maneira, 
Guarda o sabor de uma vida inteira,
E muda o sentido da vida como a conhecemos,

Porque tem a vida eterna em suas letras,
E agora mora em todos os planetas,
E foi entregue a nós. Aproveitemos.

Sábado de sobreaviso

Sábado. Como se fosse um dia de descanso,
Mas é pra mim um dia como outro qualquer:
Levantar cedo. Ficar preparado.
Um bebê nasce quase sempre sem mandar recado.
Sábado é um dia pro que der e vier.

Pode passar inteirinho como um feriado,
Ou movimentado, como um dia de carnaval:
Cesariana, parto normal, parto humanizado,
Parto prematuro, bebê reanimado,
Parto que evolui bem, parto que evolui mal.

Sábado. E quem diria. Um dia tão discreto, 
Ser capaz de ser um dia intenso assim,
Que vai de zero a cem em dez segundos,
Como se guardasse dentro de si dois mundos,
E não fizesse questão de esconder isso de mim.

Sábado de sobreaviso. Alerta ligado.
Banho tomado. Pronto pro serviço. 
Nunca é igual o mesmo nascimento. 
Cada chamado possui seu encantamento. 
Plantão de sobreaviso é sobre isso.

14.4.23

Coragem

Coragem. É o que a vida quer da gente,
Mesmo que o medo aperte o coração. 
Coragem. Porque é preciso seguir em frente. 
É o que a vida quer da gente. O resto não. 

E mesmo que a ameaça seja evidente,
E o risco seja a única opção,  
Coragem, como se fossemos o Príncipe Valente 
Numa aventura da nossa imaginação,

Vencendo medos, enfrentando espinhos,
Fugindo dos perigos dos caminhos, 
Como quem ignora as tempestades,

Coragem, como a última força que nos sustenta, 
É o modo como a vida nos alimenta 
E como disfarçamos nossas fragilidades.

Treze de Abril

Há 39 anos, na data de hoje,  meu pai partia desta morada para outras esferas
Com o coração cheio de incertezas e inseguranças demorei a entender os limites da vida
Dedico hoje no aniversário de sua partida esse poema

Treze de abril. A hora mais temida.
A despedida. O tempo da saudade. 
Evapora-se a respiração, sopro da vida, 
Ilumina-se a nova condição para a eternidade.

Treze de abril. A vida interrompida,
Como se ainda faltasse mais do que a metade.
_” Que juiz interfere assim numa partida”?
_” Por que se vão tão cedo os homens de boa vontade”?

E, no entanto, a Lei de Deus, absoluta, 
Silenciosamente, em sua escuta,
Foi acalmando meu coração,

Que compreendeu, chamada impermanência, 
Essa lei inquebrantável da ciência,
E desde aquele dia, nunca mais inquietação...

4.4.23

Poesia

Era pra ser só mais uma poesia,
Mas eu não sei no que isso vai se transformar,
A palavra tem vida própria, e não se guia
Pelos caminhos que eu pedir pra ela pousar,

Por isso não sei o final do que eu sabia
Ser um soneto sem destino ao começar,
Palavra tem vida própria e sempre se recria,
Fazendo o soneto sozinho continuar...

E o soneto continua, é terça feira, 
Um belo dia para um soneto, de primeira,
Como num improviso, vir me visitar,

E a mim, que nunca achei que merecia, 
Só me resta conviver com essa alegria:
A de ter um soneto que surge pra me alegrar...

3.4.23

Súplica ao dia

Inunde-se de esperança esse meu dia,
De uma esperança maior do que o desamor,
Capaz de fazer brotar em mim alguma poesia 
Sem medo, sem maldade, sem rancor, 

Então inunde-se de coragem esse meu dia,
Para que eu enfrente meu fantasma interior, 
Que me perturba o tempo inteiro, e me desvia
Com seu poder quase intimidador,

Cerca-me então de boa companhia,
Para me afastar da condição sombria,
Que é para onde seguem os que caminham sós,

Inunde-se meu dia com um amor sem pedir nada,
Como é o perdão, para que a alma toda errada 
Retorne um dia perdoada ao pó.

2.4.23

Suplica ao poema

Afasta-me, poesia, da maldade,
Da que me cerca e da que habita em mim,
Da falta de paciencia e de verdade,
Da mão danosa e má, do tempo ruim,

Do mal-me-quer desata-me, poesia,
Das grandes unhas da solidão,
Das vozes do ócio, da má companhia,
E dessa dor que arranha o coração,

E da mediocridade, e do desprezo,
Afasta-me, poesia, desse peso,
Afasta-me, poesia, dessa treva,

E, para que eu não fique mais sozinho,
Transforma-te, poesia, em meu caminho,
Como se fosses um rio que me leva...

28.3.23

O segredo escondido

Tem dias em que é mais fácil se entregar,
É menos doloroso desistir,
É quando a gente já não vê como lutar,
E nada aponta um caminho pra seguir,

Nesses dias, em que o coração quer fraquejar,
E o pensamento parece que vai ruir,
Alguma coisa, sem a gente planejar, 
Do nada parece surgir,

Alguma força guardada no escondido,
Do fundo do coração bem protegido, 
Para ser usada em caso de emergência, 

E essa força que vem do desconhecido,
É a que transforma tudo e dá sentido
À esperança, à fé e à persistência.

27.3.23

Tartitine

Toda vez que a minha avó Maria dizia: tartitine,
O meu avô Nagib definitivamente não gostava,
Tem gestos que o olhar da gente já define,
Tartitine era uma palavra que o vovô não falava,

Mas a vovó falava o tempo todo, imagine
Com que naturalidade, ninguém imitava,
_Tartitine, menino! Como a sentença prum crime, 
E a gente corria, mas ria, e também gostava...

Mas o vovô, não gostava: _Não fala isso, é feio,
E a gente perto do vovô ficava com receio, 
E não falava tartitine nem por brincadeira,

Só perto da vovó, que não ligava,
E, sorridente, nos ensinava,
Que tartitine significa: vai pra debaixo da figueira.

26.3.23

Domingo

Chegou domingo. O que estamos esperando?
Amanheceu. É hora de acordar. 
O mundo lá fora inteiro nos chamando. 
Quem foi que disse que é dia de descansar?

Repousar o coração de vez em quando, 
Mas não no domingo em particular,
A vida é assim mesmo, vamos nos acostumando, 
É como um coração sempre a pulsar.

Então nada de desculpas domingueiras,
Domingos são como segundas-feiras,
Há gente precisando do que a gente pode fazer,

Então respirar e seguir, Deus no comando, 
Fazendo uma pausa de vez em quando, 
Mas onde há sofrimento não há pra onde correr.

25.3.23

Sábado de sol

Sábado de sol. Eu de plantão. 
No sobreaviso tudo pode acontecer:
Passar 24 horas vendo televisão 
Ou trabalhar até o domingo amanhecer.

Mas eu gosto. Não é uma pena. É uma opção. 
Pior seria não ter o que fazer.
Cansaço é natural. Porém quem não?
Sábado de sol. O que vai ser?

E lá se vai uma vida toda inteira.
A gente tem que viver de uma maneira.
A minha vida eu vivi assim:

Recebendo bebês em sua chegada,
Pegá-los nos braços no início da jornada,
E deixá-los ir com Deus até o fim.

21.3.23

Dia mundial da poesia

Hoje é o dia mundial da poesia,
Sonetos espalhados pelo ar
Anunciam a boa nova: é hoje o dia,
Há poesia de toda forma pra cantar: 

Rima pobre, rima rica, rima fria,
Rima sem rima porque não precisa rimar,
Só precisa ser a alma em cantoria,
Hoje é o dia de se extravasar,

Poesia pro Pedro, pra lua, pra Maria, 
Poesia pra vida, pra viagem pra Bahia, 
Pra brincar, pra ser feliz, pra amar,

Porque hoje é o dia mundial, eu nem sabia,
Mas me contaram, por isso essa alegria, 
E esse sonetinho pra comemorar...

20.3.23

A esperança

Deus escreve certo por suas próprias linhas
Que a gente às vezes não consegue ler,
Mas a palavra de Deus nos adivinha
Antes da gente escrever,

E quando em volta tudo é erva daninha,
E a vida dá a impressão de que vai morrer,
A palavra de Deus acende uma luzinha
Chamada esperança que começa a florescer,

Então, quando tudo for deserto e frio,
Não permita que seu coração fique vazio,
Plante esperança, ainda que discreta,

A esperança é a palavra de Deus em forma de semente
Que mora no coração da gente,
E isso foi dito em sonho pro poeta.

19.3.23

Domingo

Mais um domingo pra gente pensar
Em quanta coisa boa a gente pode fazer,
Não é o suficiente, mas se a gente não tentar, 
Absolutamente nada vai acontecer, 

E calhou de domingo ter esse ar
De novas possibilidades, novo querer,
De semana nova para começar,
De não ter tempo a perder,

Então não dá pra ver o tempo passar,
Esperando a vida mudar,
Porque o nome disso é envelhecer,

Domingo convida a gente pra não desanimar,
Pra recomeçar, pra continuar,
E o nome disso aposto que é viver.

17.3.23

17 de março

Parabéns prá você, irmã querida, 
A musa da nossa constelação, 
Sua vida torna melhor a nossa vida
E dá mais coragem ao nosso coração, 

Parabéns prá você, irmã que lida
Com tantas coisas com tanta mansidão, 
Como se passasse pela vida distraída,
Como se fosse um soneto, uma canção, 

Parabéns pra você por esse dia
Que você aprendeu em transformar em poesia 
Fazendo luz das pedras da estrada, 

Parabéns pra você, muitas felicidades, você traz no coração a melhor das idades, 
E as melhores inspirações pra caminhada...

11.3.23

Voa, vai ser anjo na vida

Voa, AnaMi, vai ser anjo na vida,
Vai ser anjo, AnaMi, na eternidade,
Vai, alma leve, de missão cumprida, 
Vai ser inspiração para a humanidade, 

Anjo da vida inteira, não há despedida, 
Seu caminho agora é de luz e liberdade, 
Sua nova dimensão é sem medida, 
Vai, que a gente se entende com a saudade, 

Às vezes, quando Deus quer conversar com a gente, 
Envia seus anjos de frente, 
E as vozes dos anjos traduzem o que Deus quer,

E a sua voz era a voz de Deus o tempo inteiro, 
Esse coração livre como um canoeiro, 
Esse anjo de Deus em forma de mulher...

Voa, AnaMi, vai ser anjo na vida, 
Segue tomando conta do nosso coração, 
Abre suas asas e voa, decidida,
Vai AnaMi, ser anjo n'amplidão.

5.3.23

Domingos

Domingos são dias propícios para a empatia,
A empatia mora perto da compaixão, 
A compaixão é  matéria prima da alegria,
Logo, o domingo é um dia próximo da perfeição... 

Desperdiçar o domingo com quinquilharia,
É desperdiçar uma oportunidade que você traz na sua mão 
De se despir do peso que você arrasta dia a dia
E conseguir alçar voo, livre dessa prisão,

Então cada domingo é sua oportunidade 
De de trocar o calabouço pela felicidade,
De trocar o medo pela entrega plena,

Uma oportunidade que se repete semanalmente,
E a cada vez de um modo diferente, 
É sobre isso o que diz esse poema

27.2.23

A semana

Começa a semana, desimpedida,
Mais uma vez tudo pode acontecer,
Inevitável, assim é a vida,
Imprevisível, como deve ser.

Impermanente, por isso tão temida,
Que coisa não vai mais permanecer?
Por que precisa ser tão sem saída?
Começa a semana, é pagar pra ver. 

E o homem, na sua ingenuidade,
Por vezes se achando o dono da verdade, 
Não se percebe dono de nada,

Nem de seu próprio destino, e, quem diria,
Começa seu dia sem saber o fim do seu dia...
Quem há de ser seu guia nessa caminhada?

26.2.23

Seu pai

Para Teresinha 

Seu pai nunca estará em qualquer outro lugar 
Além daquele bem dentro do seu coração, 
Nenhuma cidade daqui ou de além mar,
Nenhum pedaço de areia, morro ou chão, 

Seu pai nunca estará em qualquer lugar 
Onde ele precise se soltar da sua mão,
Onde ele tenha que se perder do seu olhar,
Onde ele não possa mais escutar a sua canção, 

Seu pai nunca estará em qualquer outro lugar 
Onde você não o consiga escutar,
Onde você e ele não estejam em comunhão,

Porque seu pai nunca estará em qualquer outro lugar,
Nem precisa procurar,
Porque seu pai estará sempre dentro do seu coração..

O domingo

Chegou o domingo, o sol está avisando,
Domingo, um dia diferenciado:
Para muitos, um dia de ficar descansando, 
Para outros, um dia de trabalho pesado,

Chegou o domingo e, como de vez em quando, 
Um poeminha vem com ele acompanhado, 
A vida passa, e enquanto ela vai passando, 
O poema é o pedacinho que fica guardado 

Chegou o domingo, guardado nesse soneto,
Que apesar de seu formato obsoleto,
Foi escrito sem nenhuma pretensão

Além da de guardar em si o domingo,
Que ficará para sempre resistindo,
Morando dentro do meu coração.

25.2.23

Tradução

Para AnaMi 

Eu nunca percebi nela sinais de fragilidade,
Nem de cansaço, nem de desânimo ou desesperação,
Ela tinha um olhar especial de encarar a realidade,
Vivia a vida com seu coração,

Por isso eu nunca percebi nela medo de tempestade,
Nem de enfrentar o olho do furacão,
Era somente ternura e graça, doçura e suavidade,
E mesmo durante o mau tempo, prontidão,

Eu nunca consegui perceber nela impaciência,
Era sempre delicada sua aparência,
Fortaleza esculpida com mansidão,

Eu nunca percebi nela nada além da sua coerência,
Uma mulher vivendo o amor com grande urgência,
Um poema de amor ainda sem tradução...


18.2.23

Os anjos de Deus

Quando Deus quer conversar com a humanidade
Muitas vezes manda seus anjos pra falar em seu lugar,
Porque os homens escutam anjos com mais facilidade,
E os anjos geralmente gostam de falar,

Então os anjos de Deus com sua sinceridade,
Misturados nos homens, vem conversar,
Escutam os anjos os homens de boa vontade,
E as vozes dos anjos começam a se espalhar,

E era a voz de Deus a que AnaMi falava,
Porque onde AnaMi estava Deus estava,
E também era quase impossível não notar...

Quando Deus quer conversar com a sua gente,
Manda seus anjos de frente,
Ah... os anjos de Deus bem sabem nos encantar...

11.2.23

Para Ana Michelle. 21 dias de sua partida

Ela dizia que não entendia de poesia,
Mas foi só poesia o que disse e o que deixou,
Posto que eram rimas ricas a sua companhia,
E sonetos parnasianos o seu amor, 

Era como odes gigantes quando defendia
A vida, ainda que submersa em grande dor,
Redondilhas jorravam do seu olhar quando sorria,
E versos livres eram seu exemplo inspirador, 

Ela dizia que não entendia de poesia,
Mas ninguém fazia poesia como ela fazia,
E seus poemas eram de um poder avassalador, 

Ela dizia que não entendia de poesia,
Mas o que ela possivelmente não entendia
Era como ela conseguia fazer poesia de um modo definitivamente tão encantador...

7.2.23

As gerações futuras

Vai ser necessário uma dose de paciência,
Um olhar a mais como o de quem estende a mão,
Para vencer a ignorância, a imprudência, 
A palavra mal colocada na oração, 

Vai ser necessário desistir da urgência, 
Desapegar-se um pouco da exatidão,
E exercer a tolerância com excelência, 
Para apostar numa próxima versão,

E dessa forma, suave e lentamente, 
Podermos caminhar juntos em frente, 
Mestres e aprendizes, lado a lado, sem ranhuras,

E pouco a pouco, a sociedade inteira 
Será capaz de dar frutos, como uma videira,
Para acolher as gerações futuras...

4.2.23

Ciência e amor

Ciência baseada em evidência,
Comunicação baseada em compaixão,
Saber equilibrar exatidão e inteligência,
Ciência e boa comunicação,

Porque uma coisa é o conhecimento em sua essência,
E outra coisa é sua transmissão,
Saber dosar com amor sua transferência
É o xis da questão,

Então conhecimento e teoria
Não são suficientes sem o fio guia
Que leva a gente pela caminhada,

Sem compaixão o conhecimento não ajuda,
É como fita adesiva que não gruda,
Ciência sem amor é pilha usada...



A tua luz

Para Ana Michelle no 14 dia de sua partida 

A tua luz não permaneceu guardada,
Foi distribuída com gentileza e discrição,
E da tua luz tu não retiraste nada
Além do que deste, de todo coração,

Porque a tua luz não era coisa maquiada,
Nem era mídia, nem encenação,
Era teu coração, tua alma escancarada,
Era mais que uma luz, era um clarão,

E permanece, única e intocada
Em cada palavra que deixaste registrada,
Em cada gesto, em cada opinião,

A tua luz, inspiradora e inspirada,
Por teu poder há de ser multiplicada,
Em duas, em dez, em mil, em um milhão...

30.1.23

Chico Buarque de Hollanda

Nasceu com a alma banhada em poesia 
E com alguns acordes dissonantes no coração,
Aprendeu desde cedo a enfrentar a tirania,
E a usar a sua música pra lutar contra a opressão,

E fez também as melhores canções de amor que a gente ouvia
Enquanto o mundo se devorava em discriminação,
Nasceu carioca, da gema, um belo dia,
Mas virou cidadão do mundo por opção, 

Sempre soube dosar elegância com firmeza,
Nunca escreveu um verso sem sentido,
Nunca exagerou uma nota da canção,

Poeta maior da música brasileira,
Vai ser assim pela eternidade inteira,
Que tal um samba como condecoração?

28.1.23

Para Ana Michelle no sétimo dia de sua partida

E no sétimo dia, já livre de sua dor,
Já podia mergulhar na eternidade, 
Provar da vida, degustando seu sabor,
De uma outra forma de realidade,

No sétimo dia, já livre do monitor, 
Ela mesma monitorava sua liberdade, 
Não havia mais febre naquele seu calor,
Ela era amor, e seu nome era felicidade, 

E naquele sétimo dia ela dançou,
De um jeitinho que ninguém jamais imaginou,
A dança mais bonita da cidade,

Porque naquele sétimo dia ela voou,
Voou como o anjo em que ela se tornou,
Um anjo de luz na sua simplicidade...

21.1.23

Os povos originários

Deus proteja os povos originários dessa terra 
De toda desassistencia e mal que tem sofrido, 
Que lhes seja devolvida a terra e a dignidade, 
E a vida volte a viver em sua diversidade,
Do modo como era pra sempre ter sido,

Que Deus proteja os povos originários dessa terra
De toda usura e de toda perseguição, 
Que seja recontada a sua história, 
Recuperada para os povos futuros sua memória, 
Redescoberta sua tradição,

Que Deus proteja os povos originários dessa terra, 
Donos dessas matas, desses rios, e desse chão,
Que permita a sua cultura uma vez preservada 
Possa mudar nossa história, hoje manchada 
De covardia, extermínio e opressão,

Que Deus proteja os povos originários dessa terra, 
Que Deus aceite nosso pedido de perdão,
Que possa haver um Brasil se refazendo,
E se aceitando e se protegendo,
E se reconstruindo como nação...

20.1.23

Sebastião Clóvis Tavares

O menino vai se chamar Sebastião,
Vai ter um coração diferenciado, 
O olhar, com poesia e compaixão,
A voz, com um timbre especialmente afinado,

Capaz de  tocar tanto uma multidão 
Quanto um filho ou a esposa do seu lado
Sebastião Clovis, será como um clarão,
Ou como um poema enquanto é declamado,

Vai dividir com os seus a sua vida,
Por isso não conhecerá a despedida,
E doar-se em vida para ele será coisa natural,

Chegará ao mundo no dia 20 de janeiro,
E em seu coração caberá o mundo inteiro,
Porque terá a "coragem de saber que é imortal".

Viva o 20 de janeiro de 1915
Viva o professor Sebastião Clovis Tavares.

17.1.23

Poeminha pra AnaMi

A gente gosta muito de você,
Porque você sabe pegar pela nossa mão,
E dizer coisas de uma forma de dizer
Que não permitem contestação, 

Ao invés disso, fazem a gente aprender
O que já era pra gente saber, mas ainda não...
E lendo você, fica mais fácil entender 
Que a gente pode participar da sua revolução,

Por isso a gente gosta muito de você,
Porque você deixa a gente compreender 
Que viver a verdade jamais é viver em vão,

A gente gosta muito de você,
Sem nenhum motivo pra se arrepender, 
Você mora dentro do nosso coração.

15.1.23

Bom domingo

Um bom domingo, cheio de alegrias,
E coisas boas, fáceis de fazer,
Dessas que a gente faz todos os dias,
E fica feliz, mesmo sem perceber,

De uma felicidade que se cria,
E que se multiplica sem querer,
Um domingo assim, lindo como a Bahia,
O resto é só deixar acontecer,

Não dê ouvidos pra quem não te quer bem.
O mal-me-quer não faz bem a ninguém,
Além daquele que o traz no coração,

Então se inspira, respira, e vê se não pira,
E viva o mundo em que você se inspira,
E esse bom domingo não vai ter expiração...

7.1.23

Para AnaMi

Ana que vem de luz. De paz. De um lugar de onde os anjos vem.
De resistência. De autonomia. De liberdade de opinião.
Ana que vem da força imensa que está nas gentes de bem.
Ana que vem da palavra capaz de arrebatar uma multidão.

Ao mesmo tempo que consegue enxergar mais longe do que ninguém,
E conta o que vê com delicadeza e exatidão,
E diz o que é preciso mudar para seguir além,
Ana que vem da luz e faz a revolução,

Por isso nunca mais nada será o mesmo depois de Ana,
A blogueirinha do final do corredor à paisana,
Tão gigante que nem precisava ser tão maravilhosa assim,

Mas é, e será sempre, porque tornou-se imortal 
Uma vez que decidiu viver para além do bem e do mal,
E pessoinhas assim como Ana são mitos que não tem fim...






Sábado

O sábado amanheceu encabulado,
Nublado, chuvas querendo cair,
E o sábado assim, calmo e nublado,
Me fez lembrar um poeminha pra AnaMi,

Que às vezes para mim é como um sábado
Cercado de chuvas que não se tem como impedir, 
E por trás delas, poemas, um bocado,
E vida, e um sentido de existir...

O sábado amanheceu ensimesmado,
Mas me lembrei de AnaMi e de seu legado,
E o sábado nublado me fez sentir um gigante,

Por tudo que o céu nublado traz guardado, 
Por tudo que a AnaMi tem nos ensinado
Com sua poesia de vida impressionante.

Querida AnaMi,
Amamos você de todo coração.

6.1.23

Ana Michelle

Ana Michelle, mas que poderia se chamar um amor absurdo, 
Desses capazes de contagiar toda uma geração, 
Um amor de superar a própria dor, amor como adubo,
Que soube se multiplicar em profusão, 

Denunciando, orientando, criando conteúdo, 
Apontando falhas, fomentando a discussão, 
Não deixando nada passar, tocando em tudo,
Ana Michelle, mas que poderia se chamar um furacão, 

Mas um furacão de amor que contagia,
Uma revolução adoçada de poesia, 
Uma poesia fervilhando de calor,

Ana Michelle, mas que poderia ser chamada inspiração, 
Uma vida eterna dentro do nosso coração,
Ana Michele, mas que poderia se chamar o nosso amor...

3.1.23

Terceiro dia

Terceiro dia. E o país vai mudando.
Aquele cheiro azedo, aquele fedor,
Devagarinho vai se dissipando,
E a paisagem cinzenta ganha cor:

Decretos, atos e medidas vão brotando,
O Brasil já pode respirar sem sentir dor,
Escuta-se ao fundo indígenas cantando:
Terceiro dia apenas. Mal começou.

A sombra, o atraso e o obscurantismo
Vão se esconder no fundo do abismo
Que é o lugar de onde não deveriam ter saído,

Terceiro dia ainda. E já ressuscitamos.
Estávamos morrendo. Mas já não estamos.
Valeu a pena não ter esmorecido.

1.1.23

2023

Começar 2023 com um sonetinho, 
Coisinha simples, nada espetacular, 
Desses que a gente lê devagarinho,
E depois esquece, pra nunca mais lembrar,

Coisinha simples, como respirar,
Mas verdadeira, como um carinho, 
Um sonetinho pra começar 
O ano novo assim, desse jeitinho, 

Então lá vai, já quase terminando, 
Pro ano novo que tá começando, 
Um sonetinho sem nenhuma pretensão,

Mas todo escrito com sinceridade,
Que é uma forma de felicidade 
Que torna bem mais leve o coração. 

Feliz ano novo para todos.

31.12.22

Último dia

O último dia do ano. O último dia.
Já não dá tempo de fazer mais nada.
Mas ainda há tempo de uma última poesia, 
Discreta, comedida, simplificada,

Porque a poesia nunca se esvazia,
Acaba o ano e ela permanece intocada,
Como se guardasse em si uma magia
Que o ano não guarda, mas que a poesia guarda.

Então poesia para esse dia derradeiro,
Mas poesia pra durar o ano inteiro, 
Porque poesia para nunca se acabar,

Poesia, como um amor verdadeiro,
Poesia livre, como um veleiro, 
Que brinca de escrever versos no mar...

30.12.22

Pelé

O menino, uma bola e um gramado,
O menino, mas que parecia um gigante,
Que deixou o mundo inteiro impressionado
Com seu jeito de jogar desconcertante,

Falava com a bola o menino, esse encantado,
E a bola respondia, confiante,
E o menino matava a bola no peito, e, com gingado,
Mandava a bola pra rede, radiante,

Uma, dez, cem, mais de mil vezes assim,
O menino e a bola, talvez pra mim
A mais linda parceria de toda a história,

O menino camisa dez e a sua bola,
Um amor que ganhou o mundo e fez escola,
E viverá para sempre na memória...

26.12.22

A última semana

Essa semana podia passar em um dia,
E esse dia podia logo acabar,
Daí esse governo atual se escafedia,
E dava lugar pro outro que vai entrar, 

Porque foram quatro anos de grosseria
Que a gente precisou aguentar,
Mas nada é para sempre. Nem a tirana. 
E tudo tem o seu tempo de passar. 

Então passou. Mas o tempo não termina. 
Um dia. Depois outro dia. A vida ensina. 
Então é preciso saber onde pisar,

Porque a sombra que aparentemente foi embora,
Fica na espreita, aguardando a melhor hora
De um dia ser sua hora de voltar...

Canção de quase ano novo

O fim de um ano que nem deveria ter existido, 
Mas que se existiu, trouxe lições de se tirar,
Que serão importantes termos aprendido,
Pra não repetirmos o que pode nos machucar,

Um ano que acaba, outro que chega bem vestido,
Mas cheio de marcas que ele não pode apagar,
E apesar dessas marcas, não chega desmilinguido,
Chega arretado, prontinho para enfrentar, 

E pra cansar, e também pra dar canseira, 
E pra se repartir em 52 segundas feiras,
Todo adubado em sonhos por acontecer,

Um ano novo revigorado,
Que vai aproveitar as lições do ano passado,
Um ano novo que vai valer a pena viver...

13.12.22

Maus perdedores

Maus perdedores em desalinho, 
Levando caos e desordem por onde vão,
Deixando um rastro de ódio pelo caminho,
E um cheiro azedo de devastação, 

Maus perdedores, de coração mesquinho,
Alguns, eu arriscaria, até sem coração,
Sem lenço, sem documento, sem vizinho,
Sem nada mesmo que defina um cidadão,

Maus perdedores, gente ruim,
Gente de um tempo que já chegou ao fim,
E que fazem questão de não aceitar,

Mas hão de aceitar, certamente, ainda, um dia,
Porque ninguém sobrevive à própria asfixia,
Nem os maus perdedores, pode acreditar...

27.11.22

Apelo à Excelentíssima Juíza

Excelentissima Juíza, faça-me o favor:
Respeite a Música Popular Brasileira,
Roda Viva é um clássico. E tem autor:
Chico Buarque de Hollanda. Para de brincadeira.

Dê a sentença do jeito que for,
Mas não duvide de uma verdade verdadeira:
Chico Buarque é o seu compositor,
Vai no Google e confere. É a melhor maneira.

Ninguém pode duvidar da autoria
De uma música escrita com tanta poesia
Que poucos poetas no mundo tem capacidade de oferecer,

E Chico Buarque um deles, Excelentissima Juíza,
Não sabe quem é o autor de Roda Viva? Nem precisa.
Porque ninguém além de Chico seria capaz de escrever...

24.11.22

Copa do Mundo

Hoje tem jogo da seleção, 
Hoje o Brasil inteiro vai parar,
Como diz o Galvão: haja coração!
Seremos hoje todos o Neymar, 

Porque hoje tem jogo da seleção, 
E por isso o coração vai disparar,
A pátria de chuteiras, uma só nação, 
Estamos todos hoje no Qatar, 

Porque hoje tem jogo da seleção, 
Todo mundo diante da televisão, 
A Copa do Mundo vai começar, 

Porque hoje tem jogo da seleção, 
Uma pausa prum Brasil sem divisão, 
Coisa que só o futebol pode explicar.

15.11.22

Poesia

Poesia, boa pra cuidar do sofrimento,
Poesia, boa pra tombar o ditador,
Pra estancar a mágoa, pra cuidar do ferimento, 
Poesia, boa pra passar a dor,

Pra cuidar do coração em desalento, 
Pra cuidar do coração em desamor, 
Poesia, boa pra passar o tempo,
Poesia, boa pros tempos de horror, 

Pra guardar no coração, poesia boa,
Pra espalhar-se por aí feito garoa,
Poesia boa, sem explicação, 

Poesia boa, que nasce não sei onde,
Que cresce na palavra e então se esconde 
Silenciosa, no coração...

7.11.22

Imbrochavel

Imbrochavel, Imbrochavel, Imbrochavel,
Bastou uma ventania, e o imbrochavel brochou, 
O que parecia inacreditável 
Aconteceu, e viralizou,

Passou vergonha em público. Imperdoável. 
Perdeu, imbrochavel. Reconhece: vacilou,
E o pior é quando não se assume. Lamentável. 
Deve ter sido por conta do susto que tomou. 

Falou demais. Falou antes da hora. 
Na hora H acabou levando um fora 
Morreu do próprio veneno que exalou.

Imbrochavel, Imbrochavel, Imbrochavel, 
Melhor sorte da próxima, miserável, 
Vai colher o fruto azedo que plantou...

31.10.22

Logo assim que saíram os resultados

E o presidente, acovardado, foi dormir,
Dissimulado, não quis se pronunciar, 
Voltou mais cedo pra casa, triste Jair, 
Disse que ia dormir, e foi chorar...

Desligou o celular, não quis ouvir
As notícias que acabavam de chegar:
Lula venceu, você acaba de cair,
E o presidente, desorientado, foi deitar.

Mas o que é que tem um derrotazinha?
Metade de uma nação inteirinha
Está chamando você pra tentar outro lugar pra trabalhar,

Mas o presidente foi dormir, muito soninho,
E quando acordar e ver que está sozinho,
A choradeira não vai passar...

30 de outubro

E as coisas vão se acalmando, lentamente, 
Cada coisa caminhando pro seu lugar:
Luis Inácio novamente presidente, 
Jair Bolsonaro saindo de cena sem falar,

Porque a história atropela, indiferente, 
Todo aquele que acha que pode negar
Seu carro alegre, cheio de gente contente,
É a roda da vida que não para de rodar, 

E dessa forma, desde essa data em diante, 
O futuro já não se chama mais beligerante,
Nem negacionista, nem homofobia,  

Estamos de volta aos trilhos novamente,
Agora precisamos em paz seguir pra frente,
Porque hoje é o amanhã do lindo dia...

29.10.22

Esperança

Foi esperança esse tempo inteiro,
Nenhuma certeza de conseguir chegar,
Foi só o coração, como o de um estrangeiro, 
Buscando forças para navegar,

Foi esperança, como um marinheiro,
Que não tem medo de enfrentar o mar,
O coração, sempre verdadeiro, 
Foi esperança, do verbo esperançar 

E a esperança foi sempre esse alimento 
Desse tempo tão barulhento 
Que a gente não sabe ao certo onde vai dar,

E ainda assim a esperança segue viva,
Como uma força definitiva 
Que insiste em nos renovar...

24.10.22

Não passarão

Não passarão o medo, a intolerância, 
A homofobia, a discriminação, 
A agressividade deslavada, a ignorância, 
Os novos bárbaros não passarão,

A fome, o caos, o atraso, a prepotência, 
O negacionismo, a radicalização,
O retrocesso, a beligerância,
A volta do regime de opressão, 

Não passarão, porque não há de haver espaço 
Para o pais continuar nesse descompasso, 
A treva bruta precisa dissipar,

Não passarão, ao nascer do novo dia,
As pedras no meio do caminho da poesia,
Porque há um povo feliz que quer passar...

17.10.22

No dia em que eu me for

Pra mim bastava alguma poesia, 
Alguns amigos, uma oração, 
Uns recordando coisas que eu dizia,
Algumas rimas de recordação,

Não muito mais do que isso nesse dia,
Uma despedida sem ostentação, 
Partir em paz, era só o que eu queria, 
Levando paz no meu coração,

E a música que cada um sentisse
Enquanto em silêncio eu me despedisse,
Que fosse uma melodia interior

Feita de aceitação e de saudade,
Era só isso que eu queria de verdade 
No dia em que eu me for...

14.10.22

O livro novo de poesia da Ana

Para Ana Claudia Quintana Arantes 

Um livro novo de poesia da Ana,
Um livro novo de poesia pra alegrar
O dia inteiro, o fim de semana, 
O ano todo, o tempo que durar, 

Um livro novo de poesia sobre-humana, 
Palavra escrita pra nos inspirar,
Um livro novo de poesia da Ana,
Porque a moça da poesia quer falar, 

E quando a moça da poesia fala,
A gente se senta no cantinho da sala 
E faz silêncio só pra escutar 

A poesia, o livro novo, a letra,
O voo livre dessa borboleta 
Que vive por aí a se espalhar...

2.10.22

Dois de outubro

Foi tempo demais, porém chegou o dia,
E a gente sabia que esse dia ia chegar,
Depois de um tempo de horror e grosseria,
Chegou o dia bom pra esperançar.

Bom pra plantar sementes de alegria
Que as sombras fizeram questão de desplantar,
Deixando nossa alma mais triste e mais vazia,
Como se de tristeza fossemos nos acabar

Mas nada é permanente. E de repente,
Porque nessa vida nada é permanente,
A gente tem finalmente a chance de mudar,

E mandar de volta pro pântano o inominado,
De uma forma que ele nunca mais seja lembrado,
E nunca mais nos de motivos pra chorar...

11.9.22

A Rainha omissa

Assistiu em silêncio o arruinamento
Daqueles a quem chamou de suditos, a tirana,
Viveu sem culpa e sem arrependimento,
Por quase um século, sempre soberana,

Viu dor e morte em seu reinado sangrento,
Enriqueceu às custas da miséria humana,
Trocou a família por um trono modorrento
Onde não há lugar para quem ama,

Até que um dia morreu e tornou-se venerada,
Teve a chance de fazer tanto e não fez nada
Além de cumprir o regulamento...

Que história triste, que legado sombrio,
Um reinado tão longo e tão vazio,
Construido à base de tanto sofrimento





8.9.22

Poeminha cheio de otimismo

Para Paulo Feijó 

Quando tudo parece complicado,
E sobretudo o céu parece desabar,
E surge daí um nó tão apertado 
Que pouca gente sabe desatar,

É nessa hora de tudo tão pesado,
É justamente aí nesse lugar,
Que a vida que seguia um rumo errado,
Começa finalmente a se acertar,

E então os dados clínicos e as ressonâncias,
E as coronárias, só por implicância, 
Retomam seu caminho original.

Milagre! Dirão os idiotas da objetividade, 
Mas no fundo, no fundo, a gente sabe
Que Deus não faz todo dia tudo igual.

7.9.22

O imbrochavel

O que se autodenomina o imbrochavel,
O que não se percebe um desprezível,
Um imbrochavel, mas um insuportável,
E bem que podia se tornar um inelegível,

Porque um imbrochavel intragável,
Não perde uma oportunidade pra baixar o nível,
Um imbrochavel totalmente descartável,
Um lixo absolutamente previsível,

Um imbrochavel e seus apoiadores,
Um imbrochavel e seus adoradores,
Levando o país a andar pra trás,

Um imbrochavel até chegar o dia
Do imbrochavel tomar umbanho de água fria
Pra depois desse dia nunca mais...

5.9.22

Para Flávio e Luís

O tempo passa. A idade avança.
A idade passa. O afeto não. 
Tem sido assim desde os tempos de criança: 
O tempo não passa para o coração.

E no entanto o calendário não descansa,
Insiste anualmente em sua repetição, 
A gente finge que não dá importância, 
Mas o importante é não perder a direção.

Então, ao perceber o tempo passando, 
E esse afeto permanecendo,
Nada mais justo que comemorar:

Feliz aniversário! E vamos brindando,
Porque parece que estamos crescendo, 
Mas estamos mesmo é aprendendo a nos respeitar.

Em 05 e 06 de setembro de 2022

14.8.22

As poesias de Rodrigo Ladeira.

Eu adoraria escrever como o Rodrigo,  
Mas o máximo que eu consigo 
É rabiscar algumas rimas previsíveis, 
Como se a poesia precisasse de rimas
Da mesma forma que a digestão precisa de enzimas...
As poesias de Rodrigo são incríveis... 

Eu adoraria escrever desse jeitinho:
Um poema que faz sentido de mansinho,
E aos poucos toma todo o coração,
Como uma chuva quando desce a ladeira,
E vai aos poucos, em sua corredeira,
Transformando tudo numa inundação...

Eu queria, um dia, escrever também assim,
Ter a poesia dentro de mim,
De vez em quando, poesia extravasar
Como Rodrigo faz, mas enquanto isso,
Eu vou brincando de fazer meu verso quebradiço,
Que faz questão de me acompanhar.. 

12.8.22

11 de agosto

Grita o Brasil pela democracia,
Grita o Brasil seu grito mais verdadeiro,
Um grito único, como há muito não se ouvia,
Capaz de se fazer escutado pelo mundo inteiro, 

Grita o Brasil, e era uma voz a que se fazia,
Como se nós fossemos todos um único brasileiro 
Gritando: aqui sobre nós nunca mais tirania,
A ditadura aqui sobre nós não faz mais paradeiro, 

11 de agosto, e o Brasil inteiro lia
Uma carta, que era como mais uma de alforria,
E que bradava: Ditadura nunca mais...

11 de agosto, e ali eu percebia
Que a sombra, pelo menos naquela hora, se recolhia
E voltava assustada pros umbrais...

14.7.22

A poesia e a dor

A dor, quando acompanhada da poesia, 
Não faz doer menos o coração, 
A poesia não estanca uma sangria,
A poesia mal cura um arranhão, 

Por isso a dor, em sua companhia, 
Continua doendo, como uma inflamação 
Que faz parecer que a alma se esvazia,
E o mundo inteiro vai perdendo o chão 

Mas a poesia quando abraça a dor
É como um sopro que disfarça a cor
Dos dias mais cinzentos e sombrios

A poesia é como um caldo quente
Da palavra que nos quer sobreviventes 
Principalmente nesses dias frios

11.7.22

Poesia pra depois de um plantão

Depois de um plantão, uma leitura,
Alguma poesia pra relaxar,
A rima descontrai a musculatura.
Melhor remédio. Pode tentar.

E nem precisa de ter grande cultura,
Academia nessas horas pode até atrapalhar. 
É melhor aquela poesia pura
Que desde criança você aprendeu a gostar.

Então depois de um plantão uma rima
É mais eficiente que a penicilina,
É mais curativa que um emplastro,

E mesmo que seja poesia improvisada,
Você sente sua alma medicada,
E livre pra voar em campo vasto.

A palavra

Quando a palavra se transforma em poesia,
Ela se veste da capacidade de encantar,
É como o sol quando chega o meio dia,
É como o raio prateado do luar,

Porque a palavra poematizada se recria,
Criando uma nova palavra em seu lugar, 
Que nasce livre como a vida que a espia
Através dos significados que ela usar,

Então a palavra, quando transformada
Em poesia, é alma reencarnada,
A mesma palavra morando em outra vida,

Por isso não tente traduzir poesia, 
Palavra escrita em outra sintonia,
Tentando a própria porta de saída.

19.6.22

Setenta e oito anos

Setenta e oito anos de poesia,
De acordes dissonantes, encadeados, 
Setenta e oito anos de harmonia,
Como se o tempo não tivesse passado,

E segue intacta e perfeita a melodia,
Setenta e oito anos afinados 
Com a mais humana das ideologias,
Com o mais perfeito verbo conjugado,

Chico Buarque de Hollanda, brasileiro, 
Sua poesia germinou no mundo inteiro,
É irreversível, por isso, a revolução,

Porque revolução escrita com poesia, 
Transforma até o inferno na Utopia,
E também por isso o poeta não tem perdão.

22.5.22

Poema noturno

E eu aqui. Imaginando uma poesia 
Que faça meu coração adormecer 
Que o deixe descansar na noite fria 
Que o sono chegue sem ele perceber 

Uma poesia que tenha essa magia 
Que algumas delas conseguem ter
Banhar, como se fosse anestesia,
O coração cansado de sofrer 

Então a poesia disfarçada
De anestesia, aos poucos gotejada, 
Vai mergulhando o coração no esquecimento 

Um esquecimento que se chama sono, e assim
A dor do dia vai chegando ao fim, 
Ainda que por um lapso de tempo

16.5.22

Segunda-feira

Respira um pouco. Hoje é segunda feira. 
Cansado? Usa um pouquinho sua respiração,  
E tenta descansar dessa maneira:
Respira e pensa. E usa seu pulmão. 

E bota um pouco de água na chaleira.
E passa manteiga no pão. 
Respira. Vai transformando essa canseira 
Em energia para movimentação.

E assim, descobrindo novos ares,
E tantos, que se somarem chegam aos milhares, 
E que bastavam apenas serem descobertos...

Numa segunda-feira respirável,
Esse tempo eternamente retornável,
Tempo através do qual somos libertos...

12.5.22

A emergência

A emergência e o corredor lotado,
O município inteiro resolveu se resfriar,
E vir ao mesmo tempo, e assustado, 
Tentando se consultar,

E aí é criança pra todo lado,
E criança que não para de chegar,
E criança que já tinha melhorado 
E volta porque começou a vomitar, 

A emergência e o corredor abarrotado 
De criança no colo de mãe de olhar cansado,
E você olha isso tudo e não pode se cansar,

A emergência e o corredor sobrecarregado, 
A emergência e esse sonetinho assustado 
Que vai lá fora tomar um ar..

28.4.22

Um poeminha

Um poeminha antes de dormir,
Um poeminha pra deixar sonhar,
Depois de um dia de quase desistir,
Um poeminha para descansar,

Feito de rimas para distrair
O coração até o sono chegar,
E ver o dia assim se despedir,
E ver a noite em versos me chamar,

Um poeminha sem querer ser nada 
Além de um bilhetinho de entrada
Pra noite que dessa forma se anuncia, 

Um poeminha feito um bilhetinho 
Pra receber o sono de mansinho 
E misturar o sonho com poesia.

25.4.22

Cuidando de quem cuida

Cuidando de quem cuida, e cuidando com cuidado,
Porque quem cuida merece ser cuidado com atenção, 
Não custa nada oferecer carinho redobrado
Porque carinho é coisa que não desgasta o cidadão, 

Então, cuidando de quem cuida é um delicado 
Trabalho de cuidar do próprio coração,
Não deixar o coração bater descompassado,
Nem peder o rumo em plena contramão.

Cuidando de quem cuida é a única saída 
Pra quem cuida da vida e tem amor à vida
E sabe que o amor é um grande aprendizado. 

Cuidando de quem cuida é o único caminho,
É o segredo de nunca se sentir sozinho 
E o elixir de você nunca se sentir desanimado.

16.4.22

Plantão de sobreaviso

Um sábado inteirinho pra pensar,
E enquanto não tem criança pra nascer,
Invento um poeminha para rimar 
No instante em que o sábado já começa a entardecer.

O frio hoje veio me visitar,
O sábado esfriou, e eu pude reler
Alguns versos antigos de Ferreira Gullar
Que o frio de sábado me deixou viver,

E assim, como se fosse um feriado, 
Mesmo não sendo, fui sendo levado
Pela poesia de um sábado frio,

E enquanto a sala de parto não me chama 
Eu me mudo para a poesia de Quintana 
De onde o mundo nunca está vazio...

13.4.22

Os novos médicos

Aos acadêmicos da Universidade Redentor 

Os novos médicos que estão chegando
Cheios de sonhos no coração, 
Depois de longos anos se preparando,
Esse é o início de uma nova construção, 

São os novos médicos se formando,
Cheios de novas ideias, cheios de opção,
São a mudança de um mundo que está mudando,
E mal dá tempo de parar para reflexão,

Novos médicos que amanhã serão os gestores
De um mundo em que os alunos viram professores 
Que continuam o aprendizado dia a dia...

Novos médicos... Que coloram a humanidade 
Com mais compaixão e mais humanidade,
E mais ciência, e arte, e poesia...

9.4.22

A poesia

Nem todo mundo gosta de poesia,
Tem outros que preferem viajar,
Ou que preferem estudar cardiologia 
Ou ir a roça para descansar,

Mas mesmo assim tem gente que escreve poesia,
Mesmo sem saber pra quem mostrar, 
Se joga na gaveta, se mostra pra tia,
Ou se deixa preparada pra postar...

Mas se tem gente que não gosta de poesia,
Tem quem ache que sem ela a vida é tão vazia 
Que vale a pena arriscar,

Por isso, apesar dos que não gostam de poesia,
Eu brinco de escrever poesia quase todo dia,
Esse é o jeito que eu achei de me salvar.

4.4.22

Segunda-feira

Hoje é segunda-feira, e já cedinho 
Acordo animado pra trabalhar.
Viver merece ser tratado com carinho, 
Viver não pode esperar. 

Então, aproveito e rabisco um sonetinho,
Porque hoje a segunda está no ar,
Segunda, livre como um passarinho 
Que sabe voar e que gosta de cantar,

Segunda para começar a semana, 
Como um convite para a raça humana 
Saber que pode recomeçar...

Hoje é segunda, amanhã é terça,
Que a nossa capacidade de indignação não desapareça,
E a gente possa, assim, continuar...

12.3.22

Meu violão

Às vezes meu violão, sem perceber, 
É como uma espécie de anestesia, 
Capaz de fazer minha dor parar de doer
Sob o efeito de música e de poesia, 

E basta um dedilhado pra fazer
Minha solidão descobrir-se mais vazia, 
Suas cordas fazem meu coração bater,
Minha vida é mais feliz com melodia,

Às vezes meu violão, sem eu notar,
Não me deixa desistir nem reclamar, 
E nem me deixa eu me sentir sozinho, 

Às vezes meu violão, meu companheiro, 
Me faz viajar cantando o mundo inteiro 
Num acorde dissonante bem baixinho...

Maria Clara

Maria Clara já vai crescendo, 
Adolescendo pra vida,
O tempo passa e a gente não percebendo,
Mas Clara não passa a vida distraída,

Vai ensinando enquanto vai aprendendo 
Lições de uma vida comprometida:
Há um poema dentro dela florescendo,
De rima rica, de música embutida,

Dezessete anos de idade, quem diria,
Um bebezinho que se transformou em poesia, 
E uma poesia que quer se multiplicar

Em outros mil novos poemas delicados,
Que serão pelos seus gestos recitados, 
E que o seu coração há de espalhar...

A humanidade

E como se não bastasse o sofrimento diário
Que a humanidade não faz questão de disfarçar, 
A guerra e seu instinto sanguinário 
Surge de vez em quando pra lembrar 

Como é cruel esse mundo, e ordinário, 
Pouco a pouco nos especializamos em matar, 
Reviramos esse planeta ao contrario,
Correndo o risco de capotar...

Porque, como se não bastasse o sofrimento humano,
Fomos nos especializando em sofrimento desumano, 
Esse que somente um abraço é incapaz de confortar,

Como foi se tornando insensível a humanidade, 
Vítima da própria teia de rivalidades
Que ela já não consegue superar...