19.6.22

Setenta e oito anos

Setenta e oito anos de poesia,
De acordes dissonantes, encadeados, 
Setenta e oito anos de harmonia,
Como se o tempo não tivesse passado,

E segue intacta e perfeita a melodia,
Setenta e oito anos afinados 
Com a mais humana das ideologias,
Com o mais perfeito verbo conjugado,

Chico Buarque de Hollanda, brasileiro, 
Sua poesia germinou no mundo inteiro,
É irreversível, por isso, a revolução,

Porque revolução escrita com poesia, 
Transforma até o inferno na Utopia,
E também por isso o poeta não tem perdão.

22.5.22

Poema noturno

E eu aqui. Imaginando uma poesia 
Que faça meu coração adormecer 
Que o deixe descansar na noite fria 
Que o sono chegue sem ele perceber 

Uma poesia que tenha essa magia 
Que algumas delas conseguem ter
Banhar, como se fosse anestesia,
O coração cansado de sofrer 

Então a poesia disfarçada
De anestesia, aos poucos gotejada, 
Vai mergulhando o coração no esquecimento 

Um esquecimento que se chama sono, e assim
A dor do dia vai chegando ao fim, 
Ainda que por um lapso de tempo

16.5.22

Segunda-feira

Respira um pouco. Hoje é segunda feira. 
Cansado? Usa um pouquinho sua respiração,  
E tenta descansar dessa maneira:
Respira e pensa. E usa seu pulmão. 

E bota um pouco de água na chaleira.
E passa manteiga no pão. 
Respira. Vai transformando essa canseira 
Em energia para movimentação.

E assim, descobrindo novos ares,
E tantos, que se somarem chegam aos milhares, 
E que bastavam apenas serem descobertos...

Numa segunda-feira respirável,
Esse tempo eternamente retornável,
Tempo através do qual somos libertos...

12.5.22

A emergência

A emergência e o corredor lotado,
O município inteiro resolveu se resfriar,
E vir ao mesmo tempo, e assustado, 
Tentando se consultar,

E aí é criança pra todo lado,
E criança que não para de chegar,
E criança que já tinha melhorado 
E volta porque começou a vomitar, 

A emergência e o corredor abarrotado 
De criança no colo de mãe de olhar cansado,
E você olha isso tudo e não pode se cansar,

A emergência e o corredor sobrecarregado, 
A emergência e esse sonetinho assustado 
Que vai lá fora tomar um ar..

28.4.22

Um poeminha

Um poeminha antes de dormir,
Um poeminha pra deixar sonhar,
Depois de um dia de quase desistir,
Um poeminha para descansar,

Feito de rimas para distrair
O coração até o sono chegar,
E ver o dia assim se despedir,
E ver a noite em versos me chamar,

Um poeminha sem querer ser nada 
Além de um bilhetinho de entrada
Pra noite que dessa forma se anuncia, 

Um poeminha feito um bilhetinho 
Pra receber o sono de mansinho 
E misturar o sonho com poesia.

25.4.22

Cuidando de quem cuida

Cuidando de quem cuida, e cuidando com cuidado,
Porque quem cuida merece ser cuidado com atenção, 
Não custa nada oferecer carinho redobrado
Porque carinho é coisa que não desgasta o cidadão, 

Então, cuidando de quem cuida é um delicado 
Trabalho de cuidar do próprio coração,
Não deixar o coração bater descompassado,
Nem peder o rumo em plena contramão.

Cuidando de quem cuida é a única saída 
Pra quem cuida da vida e tem amor à vida
E sabe que o amor é um grande aprendizado. 

Cuidando de quem cuida é o único caminho,
É o segredo de nunca se sentir sozinho 
E o elixir de você nunca se sentir desanimado.

16.4.22

Plantão de sobreaviso

Um sábado inteirinho pra pensar,
E enquanto não tem criança pra nascer,
Invento um poeminha para rimar 
No instante em que o sábado já começa a entardecer.

O frio hoje veio me visitar,
O sábado esfriou, e eu pude reler
Alguns versos antigos de Ferreira Gullar
Que o frio de sábado me deixou viver,

E assim, como se fosse um feriado, 
Mesmo não sendo, fui sendo levado
Pela poesia de um sábado frio,

E enquanto a sala de parto não me chama 
Eu me mudo para a poesia de Quintana 
De onde o mundo nunca está vazio...