12.10.26

O menino

"Há um menino, há um moleque
Morando sempre no meu coração,
Toda vez que o adulto balança
O menino me dá a mão..."
Milton Nascimento/Fernando Brant


O menino ainda brinca de vez em quando,
E vez por outra o menino ainda acorda assustado,
Às vezes fala sério quando está brincando,
Outras vezes finge que brinca quando está zangado,

O menino ainda gosta de ver o tempo passando,
Tem dias que até parece que vai parar no passado,
O tempo passou, e o menino foi mudando,
Mas o menino cresceu permanecendo guardado.

E hoje, sempre que os dias ficam difíceis,
E a saudade aperta o seu coração,
O homem crescido cutuca o menino e se recria,

E o menino, que ainda brinca de vez em quando,
Ajuda o homem crescido, já um velho, a ir levando,
E fica sempre em sua companhia...

11.10.26

A poesia

Eu gosto muito de escrever poesia,
Porque apesar de eu saber o que quero dizer,
A poesia possui seu próprio fio guia
Que eu vou tentando acompanhar e ler,

Então, no instante que o poema se inicia
Eu nunca sei bem o que vai acontecer,
Geralmente um soneto, mas tem dia
Que um verso livre escapole sem querer.

E dessa forma a poesia se completa
Muito menos por conta do poeta,
Muito mais por conta da sua própria vontade.

Sempre gostei muito de escrever, mas eu aceito
Que cada poema possui seu próprio jeito
De traduzir pra mim a sua verdade.

O meu avô

Ficou gravado na fotografia,
Ficou guardado no meu coração,
Vovô na cadeira de balanço aquele dia, 
Vovô e seu jeitinho bonachão,

Dali da cadeira de balanço ele sorria,
E a fotografia registrava sua impressão: 
Vovô Nagib, nossa alegria,
Na sua cadeira de balanço, no verão.

Ficou gravado. E o tempo não consome. 
Saudade, dito assim, parece ser só um nome,
Mas a saudade, pra quem sabe ler,

É um outro coração que a gente tem
Que cuida do amor da gente assim tão bem,
Que faz o coração que a gente tem bater.

5.10.26

Os anos de chumbo

A gente sobreviveu aos anos de chumbo,
A gente vai sobreviver aos tempos de escuridão,
Nada dura pra sempre: nem o frio,
Nem o novo tempo mais sombrio,
Alguém tem sempre a chave da prisão,

Porque a gente ja sobreviveu à ditadura,
À censura à nossa cultura, à podridão,
Mantém a calma. Respira. Tudo passa.
Maior desgraça é imaginar que a desgraça
É como uma eterna condenação.

E não é. É coisa passageira.
Como a tempestade que assusta.
Como a fogueira.
Como a ventania.
Como o trovão.

Segue portanto em frente. Não desanima.
Faz como o passarinho: passa por cima,
E esses que estão atravancando seu caminho não passarão...

1.10.26

O café

O café me acompanha desde cedinho,
Mal acordo, ja coloco água pra esquentar,
Pão torrado, requeijão, café quentinho,
O dia tá pronto pra começar.

O gole de café tem um gosto de carinho,
Das memórias que pra sempre vão morar
No coração da gente. Um cafezinho
É como um colo que ninguém pode negar.

Contém, desde o coador, muitas memórias,
Conhece nossas histórias
Que ele escuta a gente contar todos os dias,

Podem acabar no mundo o chocolate, o vinho,
Até a cerveja, mas se acabar o cafezinho
Eu juro que vou precisar de terapia.

10.9.26

A foto da poesia sob a colagem
No instantâneo da fotografia,
A arte tomando conta da imagem,
Criando, com a colagem, a própria poesia,

São duas formas ricas de linguagem
Unidas pela arte suave que as recria:
A poesia e sua palavra sem frenagem,
E a colagem analógica por guia,

Quando aquele poema foi imaginado,
Era só a palavra e seu significado,
Era somente a imaginação. E era mais nada.

Agora é arte. Poesia que se enxerga.
Que se fotografa. Que se enquadra. Que se pega.
Poesia que habita entre nós, hoje encarnada.

9.9.26

A escrita

Não me lembro desde quando eu percebi que escrever
Era colocar meu coração na minha frente,
Pedir a ele respostas que eu precisava entender,
Não me lembro desde quando, mas acho que desde sempre,

Não foi uma aptidão que eu precisei escolher,
Quando notei eu já estava escrevendo, e de repente
Era o meu coração ali na minha frente, sem eu perceber
Que a palavra ia me tornando um sobrevivente.

É como se eu não soubesse daquilo, mas desconfiasse
Que se eu não escrevesse, talvez eu não suportasse,
E que a palavra que eu escrevia, ela cuidava de mim,

Desde quando eu não me lembro, vez e dia,
Que eu me salvava enquanto eu escrevia,
Mas eu desconfio que desde sempre foi assim...

3.9.26

A tipoia

Muito obrigado por ter me cuidado,
Por não ter deixado meu ombro piorar,
Desculpa às vezes eu ter reclamado:
O tempo às vezes demora a passar,

Cinco semanas com o braço imobilizado
E o outro braço tendo que se virar,
Mas não fosse isso, eu teria piorado,
Não fosse você aqui pra me ajudar,

"Tá tudo bem pode tirar a tipoia.
Excelente evolução. Tá tudo joia.
Vamos encaminhar você pra fisioterapia."

Então por isso, tipoia, muito obrigado,
Por ter me cuidado, por ter me suportado,
Por não ter desistido de mim nem por um dia.