31.7.20

A fotografia

O amor gosta de ser fotografado,
O amor combina com fotografias,
Porque só o amor torna leve o que é pesado,
E como precisamos de leveza nesses dias,

Somente o amor dá outro significado 
Aos dias tristes, às noites frias,
E é capaz de moldar um sorriso iluminado 
Ressignificando nossas alegrias...

Fotografar o amor que a gente sente 
Faz bem demais pro coração da gente 
E torna eternos os momentos delicados,

Fotografias do amor, multiplicadas,
Tornam mais leves nossas caminhadas,
Fotografias do amor não tem pecados...

30.7.20

Música cuida do coração da gente

Música cuida do coração da gente,
Musica diverte nossa alegria, 
Música empurra a gente sempre pra frente,
Música é quase sempre a melhor companhia,

Música barulhenta, feito uma enchente, 
Música leve, feito ler poesia, 
Desesperada, feito um sol quente, 
Descontraída, feito chuva fria,

Musica que quando acaba continua,
Música que quando não diz insinua,
Música que ensina como se pode voar,

Música melhor que a psiquiatria,
Música que nunca se copia,
Música que não tem hora nem lugar...

29.7.20

Noventa mil mortos

Somos noventa mil mortos desde o inicio,
Noventa mil que não mais irão voltar,
Um silêncio que é cada vez mais difícil
De imaginar, de entender, de acreditar...

Noventa mil, descaso e sacrifício,
Noventa mil, porque não aguentaram esperar,
Noventa mil condenados ao suplício,
Que não aprenderam como escapar...

Noventa mil mortos. E muitos nem perceberam 
A forma como se contaminaram e morreram,
Ou como se tornaram parte dessa conta:

Noventa mil mortos. E ainda não terminamos...
Como chegamos até aqui onde chegamos?
Por que esse futuro nos amedronta?

27.7.20

A compaixão dá conta de tudo

Ao professor José Carlos Safi


A compaixão dá conta de tudo:
Do que não tem remédio nem descanso,
Da morte, do desespero, da solidão,
Das noite sem esperanças e desses dias
Contaminados por notícias frias,
Não importa, dá conta de tudo a compaixão...

A compaixão dá conta de tudo:
Do que não tem conserto nem saída,
Da pena eterna, para a qual não tem perdão,
A compaixão dá conta do aconchego
Para o coração sem norte e sem sossego,
Porque dá conta de tudo a compaixão...

A compaixão dá conta de tudo:
Do medo, da saudade, da descrença,
Da crueldade, da ingratidão,
Da dor do corte, do sangramento,
E, mais do que da dor, do sofrimento,
Ela dá conta de tudo, a compaixão...

A compaixão dá conta de tudo,
Cuidando da dor que há por trás de toda dor,
E mesmo quando não se encontra explicação,
Como se fosse um manto, mais que a cura,
É como se fosse a mão firme que segura
O coração que sofre, a compaixão 

26.7.20

O tempo lá fora

Nada mais nesse mundo me apavora,
O ser humano perdeu o seu sentido,
E a cada dia que passa só piora,
Definitivamente, o bom senso anda esquecido,

Se havia algum pudor, jogou-se fora,
Um novo normal já está estabelecido,
Alguém abriu a Caixa de Pandora,
Não tem mais jeito, o mundo está perdido,

E ai de quem contestar os novos dias:
Vai ser massacrado por teorias 
Que não aceitam contestação...

É desse jeito. Ponto. E está acabado. 
Novos conceitos de certo e errado 
Vida que segue. Não tem solução.

23.7.20

Autobiografia

Um pediatra em fim de carreira,
Mas com o coração está nascendo agora...
Foi preciso durar uma vida quase inteira
Para finalmente ver chegada a hora

De ver a vida de uma outra maneira,
(Durar uma vida inteira, quanta demora)
Mas quando uma percepção é verdadeira,
A caminhada do tempo só melhora,

E nunca é tarde demais quando acontece,
Pois muitas vezes o atraso que parece
Uma falha, é como o pequeno grão e a plantação:

O tempo que passa inaparente e escondido
É o tempo necessário para o grão, amadurecido,
Brotar em folha, flor e fruto desde o chão...

19.7.20

As imprescindíveis

Inspirado num pensamento de Brecht 

Há mães que lutam por seus filhos um dia,
E estas são mães suficientemente boas, 
Há outras que lutam um ano por seus filhos, 
E são melhores, 
Há as que lutam muitos anos por seus filhos 
E são mães muito boas, 
Mas há aquelas lutam por eles durante toda a sua vida, 
E estas são as mães imprescindíveis.

16.7.20

O Prefeito

Era pra ser o melhor. Não conseguiu. 
Eleito prá governar, não governou.
O que era pra ter consertado, destruiu,
O que era pra ter arrumado, bagunçou.

Se recebeu bom conselho, não seguiu,
Ficou desorientado quando entrou,
Se era bem intencionado, desistiu, 
Achou muito complicado, se entregou,

Suas promessas de campanha, ele traiu,
Vovô fez praça. O que ele fez? Ninguém viu.
Em quatro anos o município afundou...

Se foi piada, uma pena, ninguém riu,
Só pode ter sido um primeiro de abril 
Que essa tal de fatalidade nos pregou.

13.7.20

Mudança de planos

Não possuímos nada que dizemos que temos,
Porque na verdade não temos, apenas usamos,
Até um dia, quando devolvemos
O que não era nosso, o que emprestamos...

Difícil, mas lá no fundo percebemos,
Ou fácil, mas geralmente complicamos,
Trazemos nada, um dia, de onde viemos,
E na despedida, outro dia, nada levamos,

E tudo que cerca esse pedaço de tempo que vivemos,
Diferentemente do modo como aprendemos,
Não nos pertence... Essa é a tralha que arrastamos,

A vida melhora, então, quando aprendemos
Que podemos ser bem mais, tendo bem menos,
E assim, mais leves, mudamos nossos planos...

Conversando sobre a vida em tempos de pandemia

Conversando sobre vida em tempos de pandemia 
Com ex-alunas da Casa do Cuidar,
Ciência temperada com poesia,
Porque a vida precisa continuar,

Então, conversar sobre a vida, que nos espia,
Compreendendo a vida sob um novo olhar,
Sob um olhar de quem cuida como quem cria
Uma nova história que a vida precisa contar...

Clarissa, Franciele, Milena e Rita,
Uma conversa com vocês possibilita 
A vida ser vista na sua versão mais inteira,

Em tempos de pandemia, ganha a vida
A chance de ser falada e compreendida
Na sua significação mais verdadeira...

11.7.20

Gotas que importam

(Ao leite materno)


Gotas que importam. Por vezes, em enxurradas,
Outras vezes, complicadas, que teimam em não descer,
Gotas que escapam de mães esgotadas,
Gotas que jorram sem ninguém perceber,

Gotas que importam. Por vezes, apressadas,
Outras vezes, gotas que custam a aparecer,
Nascendo de mães que precisam ser cuidadas,
Mães que merecem compreender o seu poder,

Gotas que importam. Para as mamães, para os pais,
Para os bebês, para os profissionais,
E para a humanidade, que sobrevive, assim, às intempéries,

Gotas que importam, porque salvam vidas,
Vidas que importam, e seguem, engrandecidas
Por gotas que brotam do amor dessas mulheres...

10.7.20

Soneto pra minha cidade

Pensa num governo sem competência,
Multiplica isso por falta de qualidade,
Adiciona intolerância, prepotência,
E soma desprezo pela nossa cidade,

Cerca esse governo de gente sem experiência,
Escolhida por coleguismo e amizade, 
Cobre o mandato com falta de transparência 
E ausência de lisura e de verdade,

Pensa num governo em decadência,
Um governo mergulhado em inadimplência,
Um governo com gostinho de já vai tarde,

Que trata o servidor com displicência, 
Depois me conta se é penitência, 
Se é coincidência ou se é fatalidade. 

5.7.20

Minha cidade

Fim de um governo que nem devia ter começado,  
Fim de um governo que acabou antes do fim,
Governo fraco e mal intencionado, 
E inexperiente, e insensato e ruim,

Venceu com apoio de um servidor enganado, 
Que não fazia ideia que seria assim,
Acabou mal, sozinho e mal amado, 
Governo fraco, completamente chinfrim, 

E mesmo ainda falando quase nada,
Continua, essa administração atrapalhada,
A se perder em atos sem lisura. 

Vai morrer sem velório, esse governo, 
Sem alma, abandonado, frio, ermo,
Sem flores, sem pesar, sem sepultura...