13.7.20

Mudança de planos

Não possuímos nada que dizemos que temos,
Porque na verdade não temos, apenas usamos,
Até um dia, quando devolvemos
O que não era nosso, o que emprestamos...

Difícil, mas lá no fundo percebemos,
Ou fácil, mas geralmente complicamos,
Trazemos nada, um dia, de onde viemos,
E na despedida, outro dia, nada levamos,

E tudo que cerca esse pedaço de tempo que vivemos,
Diferentemente do modo como aprendemos,
Não nos pertence... Essa é a tralha que arrastamos,

A vida melhora, então, quando aprendemos
Que podemos ser bem mais, tendo bem menos,
E assim, mais leves, mudamos nossos planos...

Conversando sobre a vida em tempos de pandemia

Conversando sobre vida em tempos de pandemia 
Com ex-alunas da Casa do Cuidar,
Ciência temperada com poesia,
Porque a vida precisa continuar,

Então, conversar sobre a vida, que nos espia,
Compreendendo a vida sob um novo olhar,
Sob um olhar de quem cuida como quem cria
Uma nova história que a vida precisa contar...

Clarissa, Franciele, Milena e Rita,
Uma conversa com vocês possibilita 
A vida ser vista na sua versão mais inteira,

Em tempos de pandemia, ganha a vida
A chance de ser falada e compreendida
Na sua significação mais verdadeira...

11.7.20

Gotas que importam

(Ao leite materno)


Gotas que importam. Por vezes, em enxurradas,
Outras vezes, complicadas, que teimam em não descer,
Gotas que escapam de mães esgotadas,
Gotas que jorram sem ninguém perceber,

Gotas que importam. Por vezes, apressadas,
Outras vezes, gotas que custam a aparecer,
Nascendo de mães que precisam ser cuidadas,
Mães que merecem compreender o seu poder,

Gotas que importam. Para as mamães, para os pais,
Para os bebês, para os profissionais,
E para a humanidade, que sobrevive, assim, às intempéries,

Gotas que importam, porque salvam vidas,
Vidas que importam, e seguem, engrandecidas
Por gotas que brotam do amor dessas mulheres...

10.7.20

Soneto pra minha cidade

Pensa num governo sem competência,
Multiplica isso por falta de qualidade,
Adiciona intolerância, prepotência,
E soma desprezo pela nossa cidade,

Cerca esse governo de gente sem experiência,
Escolhida por coleguismo e amizade, 
Cobre o mandato com falta de transparência 
E ausência de lisura e de verdade,

Pensa num governo em decadência,
Um governo mergulhado em inadimplência,
Um governo com gostinho de já vai tarde,

Que trata o servidor com displicência, 
Depois me conta se é penitência, 
Se é coincidência ou se é fatalidade. 

5.7.20

Minha cidade

Fim de um governo que nem devia ter começado,  
Fim de um governo que acabou antes do fim,
Governo fraco e mal intencionado, 
E inexperiente, e insensato e ruim,

Venceu com apoio de um servidor enganado, 
Que não fazia ideia que seria assim,
Acabou mal, sozinho e mal amado, 
Governo fraco, completamente chinfrim, 

E mesmo ainda falando quase nada,
Continua, essa administração atrapalhada,
A se perder em atos sem lisura. 

Vai morrer sem velório, esse governo, 
Sem alma, abandonado, frio, ermo,
Sem flores, sem pesar, sem sepultura...

29.6.20

O currículo

Um currículo mal elaborado 
Não diz quem você realmente é:
Se é graduado, se é pós graduado, 
Se só deu o primeiro pontapé, 

Porque um currículo precisa ser provado,
Não é sair dizendo o que quiser,
Senão o samba sai desafinado 
E isso acaba com o arrasta-pé...

Então tome cuidado com seu Lattes,
Não chame carambolas de abacates,
Se quis fazer mas não fez, conte a verdade,

Porque um dia, quando você virar Ministro,
Vão descobrir que você não tem registro,
Ou, bem pior, que lhe falta honestidade.

21.6.20

Cincoenta mil mortos

Cincoenta mil mortos. Difícil imaginar
Meio Maracanã hoje sem vida.
Cincoenta mil que não irão mais acordar.
Cincoenta mil mortos. Que nação sofrida.

Cincoenta mil. A gente custa a acreditar 
Na profundeza do corte dessa ferida. 
Uma ferida que não para de sangrar,
Uma nação que cai, subtraída.

Cincoenta mil mortos. Quem ousaria supor
O tamanho e a agressividade dessa dor,
Que às vezes se assemelha à indignidade.

Cincoenta mil. E virão muitos mil mais. 
Cincoenta mil mortos. Descansem em paz. 
E assim caminha, desfalcada, a humanidade...

A prorrogação dos mandatos

Se em quatro anos quase foi tudo destruido,
Mais dois e vai estar tudo acabado,
Um município completamente falido
Por um governo completamente abestado,

Seis anos de mandato. Isso não faz sentido.
Esse corona deixou o mundo aloprado.
É tempo demais prum governo tão descomprometido, 
Tempo demais prum governo tão mal intencionado,

São mais dois anos de um mandato fouxo,
Sao mais dois anos de um mandato mocho,
Um povo triste, sem rumo e maltratado, 

Se essa regra passar vai ser o fim da picada.
Os abutres famintos não vão deixar sobrar nada.
É o fim dos tempos, fato consumado. 

Feliz aniversário

Para Chico Buarque pelo seu aniversário (19 de junho)

Feliz aniversário, Chico Buarque de Hollanda,
Francisco soberano, artista brasileiro,
Hoje é seu dia, hoje você é quem manda,
Chico Buarque do Rio de Janeiro,

A sua poesia, desde lá de A Banda
Ganhou o coração do mundo inteiro,
Por conta disso é que a minha gente hoje anda
Cantando suas canções, meu poeta primeiro,

Pra escapar do mal tempo e do nevoeiro,
Pra viajar no samba verdadeiro,
E pra ver a banda passar

Falando de amor e esbanjando poesia...
Feliz aniversário poeta, hoje é seu dia,
Por isso a barra do dia pedindo pra gente cantar...

Sumiço

Para meu grupo de poesia que anda meio silencioso 

Saudades das poesias que brincavam aqui...
Será que elas desistiram brincar?
Poesias, eu sei, gostam de escapulir, 
Por conta disso, me perdoem confessar,

Mas sinto falta de poesias pra sentir, 
Ainda mais nesses tempos de falta de ar,
Poesias de respirar e abstrair 
O coração, mesmo o que não parece se cansar...

Saudade das poesias. Eu gostava de vir 
E ler, e descobrir, e traduzir,
E às vezes, muitas, me impressionar,

Com aquelas poesias, que hoje andam distantes,
Mas que se comportam, às vezes, como amantes 
Que não conseguem por muito tempo se afastar...

19.6.20

Chico Buarque de Hollanda faz 76

Feliz aniversário, Chico Buarque de Hollanda,
Francisco soberano, artista brasileiro,
Hoje é seu dia, hoje você é quem manda,
Chico Buarque do Rio de Janeiro,

A sua poesia, desde lá de A Banda
Ganhou o coração do mundo inteiro,
Por conta disso é que a minha gente hoje anda
Cantando suas canções, meu poeta primeiro,

Pra escapar do mal tempo e do nevoeiro,
Pra viajar no samba verdadeiro,
E pra ver a banda passar

Falando de amor e derramando poesia...
Feliz aniversário poeta, hoje é seu dia,
Por isso a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar...

17.6.20

A poesia, como a madrugada

Se um dia você acordar de madrugada 
E perceber que não tem nada pra fazer:
Casa arrumada, gaveta arrumada, 
Na geladeira, nada pra beber,

No celular, nenhuma alma acordada,
Nenhuma live pra você ver,
Se acontecer de não estar acontecendo nada 
Que você esperava que fosse acontecer, 

Tente uma poesia, pode ser usada,
Uma daqueles livros de página amarelada,
Porque o poema não costuma envelhecer,

E leia, depois releia. E olha que ue coisa engraçada:
A poesia, como a madrugada, 
Acontecem sem a gente perceber...

15.6.20

Vidas importam

Nem pretos. Nem brancos. Dividos,
Somos menores do que podemos ser:
Humanos. O resto são vestidos. 
É a embalagem que temos pra viver. 

Judeus. Cristãos. Hindus. Somos parecidos:
Nascemos. Vivemos. Vamos morrer. 
Temos fome. Ficamos aborrecidos. 
Gastamos das coisas que nos dão prazer. 

Vidas importam. Brancas. Pretas. Amarelas.
Não faz sentido dividir em aquarelas
As coisas que pertencem ao coração.

Vidas importam. O resto não interessa. 
Somos todos iguais, pra começo de conversa. 
O resto é o banho de cal no paredão.

13.6.20

Teremos

Teremos impeachment. Teremos vacina.
Teremos de volta nossa felicidade.
Vamos voltar a produzir ocitocina,
Esquecer esse tempo de obscuridade.

Teremos a vida de volta. E a vida ensina
Que a noite nunca vence a claridade.
Será como achar o mapa da mina
A vida livre de brutalidade.

Teremos poesia. Música. Mesa posta.
É disso que a gente gosta.
É disso que tá todo mundo precisando.

Teremos pão e circo. E consciência.
O tempo da delicadeza e da decência.
É isso que a gente anda tramando...

Mortos

Meus mortos versus seus mortos.
Tantos mortos. De quem são?
Depende de quanto pagam:
Duzentos mil? Um milhão?

Meus mortos versus seus mortos.
Quem se importa aonde estão?
Depende de quanto custam 
Nesse ano de eleição. 

Milhares. Não conseguiram,
Lutaram, até que cairam,
Tornando-se projeção,

Estatísticas e curvas,
Deixando as águas mais turvas...
Quem vai lhes pedir perdão?

Vamos passear no shopping?

Vamos passear no shopping? Sem juízo?
Vamos perder a vergonha e a proteção?
Vamos desobedecer aquele aviso
Que dizia "fique em casa"? Partiu aglomeração?

Vamos passear no paraíso?
Vamos comprar a morte no cartão?
Vamos? Ou tem alguém que ainda tá indeciso?
Isolamento? Já deu. Não dá mais não.

Enquanto passeamos, nas UTIs lotadas,
Entre famílias inteiras, desesperadas,
O número de mortes não para de aumentar...

Vamos perder a vergonha? Quem se importa?
A era do bom senso já está morta.
O último a sair encoste a porta. Vamos passear. 

10.6.20

A casa do meu pai

As pessoas tem andado muito chatas,
Exigindo muitas coisas que nem são,
Apostando na lisura que nem tem,
Não confiando em ninguém,
E sem distribuir seu coração.

Talvez por isso, tem andado mal humoradas, 
Acusando o mundo inteiro, sem notar 
Que o mau humor que vivem espalhando 
Faz a vida ir aos poucos se azedando,
Até a hora que ninguém mais puder provar.

Se isso não bastasse, sem esperanças:
O mundo é hoje. Agora é o que interessa.
E perdem, assim, a chance da semente 
Que vive seu hoje enquanto olha pra frente,
Porque sabe que a felicidade não tem pressa.

E já não param pra escrever poesia, 
E já não gostam mais de olhar o mar,
E ja não tem tempo, porque gastam seu tempo
Nas coisas que asfixiam o pensamento,
E não deixam o pensamento respirar.

Mas não são todas assim. Ainda existem 
As pessoas que se importam, que se dão,
Que sofrem, e apesar disso, se superam,
Que tentam, e não desistem enquanto esperam,
Que vivem sempre em constante reinvenção.

E assim segue a vida, seus azares
E as suas causas. Vida que vai.
Na casa do meu pai há muitas moradas...
Sigamos, sabendo que todas as estradas 
No final vão nos levar para uma das casas do pai. 

8.6.20

O contracheque

O contracheque vale como recibo 
Do mes corretamente trabalhado.
É a prova do que não pode mais ser esquecido.
Não é o valor. É o trabalho registrado. 

É o registro impresso do dever cumprido. 
É a tradução do empenho demonstrado. 
Não é o valor do salário recebido,
Mas o sinal do compromisso honrado.

Mas quando o contracheque é omitido, 
É como se o trabalhador fosse ofendido,
E seu trabalho desprestigiado.

O contracheque não pode ser retido. 
Deixar de disponibilizá-lo não faz sentido, 
A não ser para o patrão mal intencionado.

3.6.20

Soneto completamente amedrontado


Inspirado no relato de um colega de plantão 




Será que o dia vai ser tumultuado?
Será que vai ter vaga se precisar internar?
Será que o paciente já chegou parado?
Será que adianta tentar reanimar?

Será que dessa vez eu fui contaminado?
Será que hoje vai ter máscara para usar?
Será que o plantão ainda vai estar desfalcado?
Será que a ambulância vai demorar pra voltar?

Será que ainda tem adrenalina?
Será que isso que eu faço é fazer medicina?
Isolamento? Será que tem?

Será que adianta usar capote reaproveitado?
Será que adianta eu dizer, amedrontado,
Que eu só quero que o plantão acabe bem?

26.5.20

Alguma poesia

Alguma poesia para adoçar o dia,
Mesmo que o dia seja ameaçador,
Porque é mais leve a dor sempre que alguma poesia 
Abraça a dor que aperta o sofredor,

A dor, sem nenhuma poesia, asfixia,
É como os céus arrancados ao condor,
O cobertor roubado à pele fria,
A palavra censurada ao cantador,

Então algum poema adocicado,
Como um pouquinho de açúcar colocado
No chá, qualquer que seja seu sabor,

Então alguma poesia, quase nada, 
Para que para sempre, quando essa dor for lembrada,
Haja alguma poesia amortecendo a dor.

25.5.20

Soneto para Clarissa

Clarissa, por onde andam seus poemas?
Adoeceram

Clarissa, a poesia não adoece,
Às vezes, sim, ela se afasta um pouco pra crescer, 
E é nesse tempo silencioso que ela cresce, 
E volta, toda querendo se escrever, 

A gente acha que ela desaparece
Todas as vezes que ela dá de se esconder,
Mas a poesia, Clarissa, é como a prece:
Não precisa usar palavras para ser...

Então espera, porque a poesia, 
Mesmo quando vai bem longe, nos espia,
E acompanha bem de perto o nosso coração,

Até que quando gente menos espera, chega um dia 
Que ela se escreve, leve de alegria, 
Como quem faz a revolução...

23.5.20

A lição

É  todo mundo com medo. É todo mundo assustado.
E lá no fundo, todo mundo tem razão.
Pandemia. E ninguém estava preparado. 
Pandemia. Ninguém trazia a solução.

Parece que está todo mundo deslocado,
Ninguém muito à vontade no plantão,
Todo mundo trabalhando desconfiado,
Todo mundo procurando proteção,

Um dia, quando essa dor tiver passado,
Quem não tiver desistido nem tombado 
Vai precisar aprender uma lição:

É todo mundo junto. Ninguém separado.
Porque se um dá errado todo mundo dá errado. 
Ninguém chega sozinho à salvação

21.5.20

A hora mais escura

O morto segue só. Sem despedida.
É isolada a sua ultima jornada.
Uma oração é a possibilidade permitida,
E pensamentos, mais nada.

E essa hora, a mais escura que há da vida,
Precisa ser desacompanhada.
O funeral, como uma prática escondida,
Somente silêncio nessa ultima caminhada.

O derradeiro adeus. Tampa lacrada.
Como se a última cena precisasse ser cortada.
A hora mais cruel. A solidão.

E no silêncio dessa hora mais escura,
O corpo desce, em silêncio, à sepultura,
Como o ponto final da narração.









17.5.20

Vê se eu entendi direito

Você é de esquerda, não usa cloroquina,
Você é de direita não faz isolamento,
Será que a ivermectina
É pra você que é do centro?

Porque há um tempo atrás quem fazia medicina
É quem conhecia diagnóstico e tratamento,
Mas hoje em dia em qualquer esquina
Tem um especialista. Nem sei se comento...

A direita. A esquerda. E no meio o corona.
E por trás do corona, uma nação na lona.
E no fundo ninguém sabe o que fazer.

Dá cloroquina ou põe blitz nas ruas?
É uma coisa ou outra? Ou pode ser as duas?
Quem tem coragem de pagar pra ver?

16.5.20

Lockdown


Comer biscoito pode,
Ver TV também pode,
Ler livro de mistério,
Aprender a fazer pão,
Mas fazer barba cabelo e bigode
Pode não,
Também não pode
Passear no calçadão,
Mas pode telefonar,
Sentir saudade,
Falar à vontade pode,
Já tomar um táxi,
Depende da sua intenção:
Se for pra ir ao médico pode,
Se for pra comprar um caderno, pode não,
Pra ir no supermercado comprar Toddy,
Pode,
Pra ir na academia?
Amigo, presta atenção:
A vida pode melhorar,
Ou pode ser
Que o caos avance
Como acontece numa inundação,
E pode ser que leve tempo
Pra que tudo se acomode,
Até chegar o tempo do que pode ser,
E daquilo que não pode,
E é isso que vai fazer
A gente sobreviver
Ou não.
Mas se ter bons amigos sempre pode,
Trocar ideias,
E marcar encontros pra depois do apagão,
Então pode viver,
Mesmo distantes
Dois corpos podem ocupar
O mesmo pedaço do coração,
O mundo muda,
A gente muda,
Façamos com que esse tempo seja então
Assim como uma mudança de estação,
Onde a ameaça que nos ameaça
Passa e cansa
E vai sumindo até virar fumaça,
E quem pode garantir, com precisão,
Qual é seu tempo de duração?
Então,
Enquanto o lockdown estiver valendo,
Vamos aprendendo o que interessa:
Esquece a pressa,
Acalma esse seu coração cheio de medo,
E faz dormir essa sua inquietação,
Aproveita o tempo crescendo,
A dica é essa,
Um dia essa ameaça cansa e passa
E depois do seu fim vem a nossa continuação,
E até lá,
Fazer planos pode,
Poesia pode,
Brincar com o filho,
Viver uma paixão,
Então
Não deixa o tempo passar, porque ele foge,
Aproveita o tempo, porque o tempo urge,
E sorrir pode,
E pode ser feliz,
O que não pode é ficar com medo
De ficar com medo do bicho papão.







15.5.20

O Ministério da Saúde (versão pandemia)

O Ministério da Saúde não denuncia,
Mas o egoismo mata mais que a septicemia,
A antipatia causa mais dano que a infecção,
A empáfia não tem transplante,
A prepotência é altamente contagiosa,
E já está provado que é bastante perigosa,
Assim como a arrogância que uma vez identificada
Não sai com água e sabão.
O Ministério da Saúde não proclama,
Mas quem não ama
Não cria anticorpos contra a solidão,
Amar funciona como uma vacina
Quando o coração cansado desanima,
Quando se tem amor desistir deixa de ser uma opção.
E pena que o Ministério da Saúde não assina
A distribuição gratuita de ocitocina,
E não adota, em grande escala, a produção
De máscaras de proteção contra o egoismo,
De face shieds contra a agressividade sem sentido,
E de ternura em gel, pra sempre que a maldade
Tentar tocar, em sua imbecilidade,
O coração mal intencionado, ou distraído,
Essa ternura deixar o coração mais protegido,
Nem determine o uso de capotes contra esmorecimento,
Filtros contendo solidariedade dentro,
Protocolos prevenindo a intolerância,
Lives patrocinadas por complacência,
Atos institucionais contra a imprudência,
Um lockdown contra a depressão,
Unidades de saúde distribuindo abraços,
Daqueles que não necessitam usar braços,
Mas nem por isso menos eficientes em criar laços,
Essenciais, como a respiração.
O Ministério da Saúde não admite:
Mas o mau humor é mais contagioso que a meningite,
A negligência, mais inoperável que o tumor,
A displicência deixa mais sequelas que o derrame,
A tsunami é menos perigosa que o cinismo,
O alpinismo é menos arriscado que que a mentira,
A ira é a felicidade com defeito,
Bebê contente mama mais peito,
A ingratidão invariavelmente vira dor...
O Ministério da Saúde não divulga,
Mas passar o tempo todo reclamando causa ruga,
E o consumismo, está provado, é uma fuga,
O auto vitimismo, um mal sem solução,
O pessimismo causa grande sofrimento,
A impaciência necessita tratamento,
Antibiótico não cura um coração rabugento,
E morrer não machuca, quando existe gratidão.
O Ministério da Saúde adianta:
Ninguém colhe o que não planta,
Ninguém planta o que não traz no coração...
O Ministério da Saúde não discute:
O bom humor é mais delicioso que o iogurte,
O amor é a tábua da salvação...

9.5.20

Quarentena

Eu vou de livros. Não tenho lareira.
Eu tenho poesia por luar.
Meu vinho é a "Estrela da vida inteira".
Minha cerveja artesanal é ouvir Chico cantar.

E assim, ao som de Manuel Bandeira,
Eu me sinto como se estivesse num pomar
Colhendo Drummond, de alma cantareira,
Ouvindo Vinicius e seus poemas de amar,

E desse jeito eu passo minha quarentena,
Ouvindo música, lendo poema,
E quando vejo, o dia já passou,

E a lareira do meu coração, se ardendo em rimas,
Espalha poesias pequeninas
Que eu colho e guardo por onde eu vou.

Dead people

Eu vejo ainda alguns. Mais inibidos.
Faz pouco tempo eram bem mais abusados,
Falavam mais alto, eram mais atrevidos,
Faziam gestos mais descomportados.

Eu os vejo ainda, mas andam meio sumidos, 
Parece que alguns estão envergonhados,
Ouvi, de alguns, que estão arrependidos,
E, muitos deles, desorientados...

Eu vejo ainda alguns, mas muito menos,
E já não fazem mais gestos obscenos,
Tentando, com isso, se regenerar,

Eu ainda vejo alguns. Os resistentes.
Mas hoje já não há mais inocentes, 
E nem é mais preciso se justificar.

3.5.20

Calma

Mantenha-se calmo. Antes de mais nada
A calma faz a gente não travar.
É longo o dia. Longa a caminhada.
Calma. Nada deixa de passar:

A chuva, o vento, o raio, a trovoada,
A ansiedade de querer ver tudo acabar.
Nada é pra sempre. Cada página virada
É só o prenúncio para a próxima virar.

Então mantenha-se calmo. A vida é assim.
Somente o universo é que é sem fim.
As coisas vem e vão, até que vão embora.

Mantenha-se confiante. A tempestade
Não dura mais do que uma eternidade.
Resumo: muita calma nessa hora. 

29.4.20

A era do cuidado

Estamos vivendo a era do cuidado,
Cuidado com a dose,
Cuidado com as mãos,
Cuidado com o bebê contaminado,
Com o antibiótico aplicado,
Com a técnica correta de intubação,
Cuidado com a admissão 
E com a alta,
Com os dados da anamnese,
Com o risco de infecção, 
E mesmo depois do plantão ter terminado, 
Ao sair à rua, cuidado, 
Ao abrir o portão, 
Ao beijar seu filho,
Ao deixar seu celular conectado,
Ao servir o leite, 
Ao pegar o pão, 
Ao tomar um táxi, 
E mesmo ao colocar uma máscara para a sua proteção, 
Cuidado, 
Nosso descuido fez com que o planeta fosse penalizado 
Por isso chegamos à era do cuidado, 
A era do cuidado de quem cuida,
E de quem recebe atenção,
Um pequeno tropeço, tudo errado,
Um deslise quase imperceptível, grande confusão, 
Uma era, essa era do cuidado,
Que será levada, já está provado, 
Para além da nossa próxima geração,
Quando o homem descuidado 
Terá aprendido 
A tomar cuidado,
E essa será a única condição 
Que guardará respeito com o passado construído,
E com o futuro, como maior construção,
Porque foi dolorido,
E com o coração apertado,
Que o mundo chegou a essa conclusão, 
A nossa dor foi ter desrespeitado 
Essa regra básica para qual não existe exceção: 
Cuidado com o que é dito,
Cuidado com o que é feito
E registrado,
Desde a avaliação dos resultados 
De um eletroencefalograma ampliado,
Aos primeiros passos do estímulo à amamentação,
E até o que não era questionado,
E mesmo o que não estava sendo percebido,
Não ficou de lado,
Porque tudo passou a ser tratado com cuidado,
E a vida do planeta passou a depender 
Dessa tomada de decisão. 
Estamos vivendo a era do cuidado,
Cuidado com o pensamento,
Cuidado com a palavra, 
Cuidado com a ação,
Construindo um planeta mais respeitador,
Mais respeitado,
Cuidando com cuidado
Pra que nunca mais o gesto descuidado,
E alimentado de desatenção, 
Possa tornar o futuro ameaçado,
Fazendo sangrar da vida o coração,
Então cuidado,
Redobrado, 
Não a palavra,
Mas o compromisso,
Não o assinado no papel,
Mas na convicção,
Para que esse cuidado possa ser multiplicado, 
E dessa forma, assim, disseminado,
Como se fosse a cura,
Ou como se fosse um pedido de perdão.

23.4.20

Os dois lados

Após escutar uma fala da Dra Ana Claudia Quintana Arantes


Você pode escolher o lado dos que ajudam,
Você pode escolher o lado dos que pedem ajuda,
Você só não pode escolher o lado dos que falham
Porque nem ajudam nem pedem ajuda, só atrapalham,

E você pode escolher o lado dos que precisam
Como também escolher o lado dos que doam,
Mas acredite, você perde tempo quando escolhe ficar 
Ao lado daqueles outros que só fazem reclamar, 

E ao invés de tentar socorrer  os que pedem socorro 
Ou de pedir socorro com medo de se afogar
Tornar-se vítima das suas dores íntimas 
E odiar o mundo ao se vitimizar,

Porque você pode escolher o lado dos que apoiam,
Ou escolher o lado dos que pedem apoio,
O único lado que você não pode escolher
É o lado dos que nem vive nem deixam ninguém viver.

Escolhe o lado dos que preparam a sopa,
Escolhe o lado dos que seguram o prato,
Foge do lado dos que só se doem,
Foge do lado dos que só se destroem,

Escolhe o lado dos que escrevem oesia,
Escolhe o lado dos que aprendem a escrever,
Mas deixa de lado os que não procuram ensinar,
E dos que não tentam, por outro lado, aprender,

Fica do lado dos que procuram fazer,
Ou dos que pedem ajuda se não conseguem acertar,
Mas toma cuidado com os que não tentam crescer,
Toma cuidado com os que não saem do lugar,

Porque você pode escolher o lado dos que dão força,
Ou ficar do lado dos que precisam de força pra lutar,
Mas quando escolher o seu lado, toma cuidado:
Basta um furinho no barco pro barco inteiro afundar 

19.4.20

Antes que chegue ao fim a pandemia

Antes que chegue ao fim a pandemia,
Eu precisava dizer aqui que eu não sabia
Que um dia o dia de hoje chegaria,
E a gente ia precisar tanto um do outro
Pra contar coisas que nunca contaria,
Pra ficar da janela escutando cantoria,
Pra sentir saudade de quem nunca sentiria,
E que esse tempo seria assim tão duradouro...

Porque antes que chegue ao fim a pandemia,
E volte a ter fila na padaria,
E ambulatórios de pediatria,
E gente a balde circulando por ai,
Foi necessário esse tempo, quem diria,
Que desarrumasse a nossa economia,
E deixasse a piscina do prédio mais vazia,
E o mundo inteiro tentando descobrir

Um tratamento que termine essa agonia
De dor, e morte, e caos, e hipoxemia,
Porque ninguém no mundo sabia que cabia
Tanto medo e tristeza na televisão,
Tanta perda sem nenhuma garantia,
Tanta força junta contra a ventania,
Tanta necessidade de alegria,
Tanta necessidade de uma solução,

Por isso, antes que chegue ao fim a pandemia,
Que está durando mais do que deveria,
Matando mais do que a previsão mais sombria,
Como se estivesse tentando provocar
Mudanças que a gente nunca mudaria,
Sentimentos que a gente nunca sentiria,
Dores que a gente nem sabia o quanto doiam,
E músicas que a gente nem sabia mais cantar,

Por isso mesmo, antes que chegue ao fim a pandemia,
Antes que a gente volte pra churrascaria,
Ou pro plantão cansativo que a gente torcia
Pra dar logo oito horas e acabar,
Por isso, antes que chegue ao fim, uma poesia,
Que não é uma face shield, mas com sabedoria,
Se bem usada, ela bem que serviria
Pra ajudar o coração da gente se acalmar...

7.4.20

As meninas

Para Yasmin e Moana, prematurinhas crescidas 

Eu vi miudinhas. Hoje já não estão. 
Eu vi quando não eram quase nada.
Eu vi as duas no começo da estrada.
Eu vi sua força e determinação.

Desde meninas. Uma luta danada.
Sonda. CPAP. Saturação. 
Cada graminha a mais valorizada 
Como um sinal de libertação.

Eu vi desde aqueles dias que choravam 
Quando sua mãe e seu pai não estavam 
E elas ficavam sem chão. 

Eu vi bebês ainda. E hoje, crescidas,
Tornam felizes demais as nossas vidas, 
E fazem mais forte nosso coração.

2.4.20

Vai passar

Para Ana Michelle Soares e Ana Claudia Quintana Arantes

Vai passar.
Não vai durar pra sempre,
É só um tempo,
Custa caro,
Dói,
E as vezes a gente sente até vontade de chorar,
Mas não é pra vida inteira, acredite:
Vai passar,
Às vezes o tempo
Dura muito tempo,
E muitas vezes esse tempo
É capaz de castigar,
Mas na medida em que o tempo passa,
O tempo mostra
Que a gente não deve se desesperar,
Porque mesmo que custe uma eternidade,
Vamos ter outra eternidade pra gente se encontrar,
O nome disso é saudade,
E pra sentir saudade
A gente precisa antes de tudo se gostar,
Então, por mais que a vida se apresente
Dessa forma ameaçadora, aparentemente,
Não tenha medo:
Mais dia menos dia
A tempestade vai se transformar em calmaria,
Por isso, se a calmaria um dia vai chegar,
Não gaste seu tempo durante a tempestade
Fazendo alarde,
Seja feliz com o que você pode aproveitar:
Escreva uma carta,
Envie uma foto,
Faça uma live falando dessa saudade,
Ou, ao invés disso, tente decorar
Uma poesia de Carlos Drummond de Andrade,
Ou de Manoel de Barros,
Sinceridade?
Definitivamente você vai gostar...
Assista um vídeo de Ana Claudia Quintana Arantes,
Descubra coisas emocionantes
Nas quais você nunca tinha parado pra pensar,
E lembre-se de levar no seu coração quem você ama,
Porque a gente só se afasta
De quem o coração da gente já  não quer mais carregar...
Porque  se “longe é um lugar que não existe”,
Se “é melhor ser alegre que ser triste”,
E se “todos os tristes querendo juntos, toda tristeza vai se acabar”,
Então prepare-se pros dias que virão
Depois dos raios,
Passado o trovão,
Pros dias do coração poder brincar
De dar abraços,
Retomar laços,
E de mandar a saudade ir passear,
Porque a única certeza que hoje temos
É a certeza de que esse tempo que vivemos,
E que uns acham que vai durar mais, outros que menos,
Mas pelo que lemos,
E pelo que vemos,
A única coisa certa que sabemos
É que esse dia
Um dia
Vai passar...

26.3.20

Morte e vida

Morrer ja era certo: mais dia, menos dia,
De alguma forma isso iria acontecer,
Mas viver? Isso nos pertencia,
E ia ser da gente até se desfazer...

A gente já nasceu sabendo que morreria,
Ouvindo estórias, tentando absorver, 
Mas nunca imaginou que viveria 
Como se estivesse deixando de viver:

Antes do coração entrar em assistolia,
Deixar esvaziar-se sua energia,
E ver a vida, ainda em vida, se perder...

Já era certo morrer, mas quem diria
Que chegaria um dia em que a poesia 
Perderia poesia sem perceber...

Atletas

Atletas não ficam gripados
Porque tem muitos anticorpos pra gastar,
Atletas são indivíduos preparados,
E são treinados diariamente pra ganhar,

Por serem atletas, estão imunizados,
Atletas não costumam se assustar,
Não passam o dia em casa, confinados,
Atletas precisam se exercitar:

Jogar bola, mergulhar, atirar dardos,
Surfar por mares nunca dantes navegados,
Procurar recordes pra quebrar,

Atletas jamais serão contaminados 
Porque são sempre muito bem cuidados...
Atletas só não deveriam governar.

24.3.20

Esperança

Não a palavra, mas seu significado,
Não o do dicionário, mas o do coração,
Não aquele  que mora no peito, trancado,
Mas o que se espalha livre, sem prisão,

Não a esperança presa ao passado,
Mas aquela outra: a que resiste ao não,
A que é da alma o maior legado,
A que é da vida a maior lição,

A que não precisa de provas e evidências,
A que desafia as hipóteses das ciências,
A que não necessita tradução,

Não a palavra, mas o alimento
Da poesia de que é feita o pensamento.
Não a palavra. A convicção. 

23.3.20

Poesia enquanto a peste...

Poesia enquanto a peste 
Insiste e teima em chegar
Do norte, sul, leste, oeste,
Vinda de todo lugar,
Trazendo ansiedade, dor,
Dificuldade de respirar,
Mas lembrando que boa vontade 
Às vezes pode ajudar,
A peste, ninguém sabia,
Ninguém notou ela entrar,
Quando foi ver era tarde,
Não dava mais pra avisar,
Chegou fazendo miséria
E antes do mundo acordar
Muita gente foi embora 
Sem tempo de se arrumar,
Muita gente perdeu tempo
E não conseguiu viajar,
E muita gente viajou 
Pra nunca mais retornar,
Algumas seguem tentando 
Outras não podem tentar, 
Porque umas acreditando 
E outras sem acreditar, 
Mundo, mundo, vasto mundo, 
Parece Drummond a falar...
Poesia enquanto a peste
Não desiste de espalhar 
As novas regras pra vida
Que a gente deve acatar:
O tempo sem desperdício,
A importância do lar,
O cuidado como escudo,
E fé pra nunca faltar...

22.3.20

O dia

O dia vai começando. Deus permita
Que ele traga coisas boas pra contar:
Um homem bom, uma mulher bonita, 
Uma chuva que começa a dissipar,

Uma lembrança da música favorita, 
O cheiro de café ao acordar,
Uma verdade em que todo mundo acredita, 
Uma notícia dizendo que vai passar

O medo, a dor, o desespero, a febre,
E que esse dia traga uma criança alegre 
Pedindo colo, querendo brincar,

Um pouco de calma, outro pouco de poesia,
E, porque não, um milagre nesse dia
Pra gente ganhar forças pra continuar...

21.3.20

A casa

A casa, como descanso, proteção,
Como canteiro onde se planta vida,
Melhor lugar para guardar o coração,
Melhor lembrança para a memória adormecida,

A casa, identidade desde o portão 
Que é sempre mais entrada que saida,
Brinquedo, colo de mãe, gosto de pão,
Antídoto para toda despedida,

Fermento para conversas e poemas,
Tornando grandes as coisas mais pequenas:
Brincar, crescer, se proteger, amar...

A casa, nunca foi tão necessária,
Vacina insubstituível, de dose diaria,
Cuidado que a gente recebe sem notar...

Poema futuro

O povo quer saber se o presidente tá infectado 
O presidente diz que não é  uma gripezinha que vai atrapalhar 
O governador que não tem medo de ninguém tá assustado 
O médico não tem EPI pra se cuidar

O prefeito anuncia um plano equivocado 
Pensando nos votos que ele precisa pra continuar 
O cidadão que amanhece resfriado
Não sabe se fica em casa ou sai pra trabalhar 

A TV mostra números do estrago 
O Eduardo aponta o dedo pro culpado 
As farmácias não tem álcool em gel para entregar 

Um dia, quando o dia de hoje virar passado 
O mundo vai precisar ser reformatado
Pra quando a próxima peste for chegar

20.3.20

Corona

Pronto socorro. Quase nenhum atendimento 
O mundo inteiro com medo do corona 
Ninguém lá fora. Ninguém aqui dentro. 
Ninguém vomitando. Zero ondansetrona. 

Um dia calmo. Suave e lento. 
Mas basta ligar a TV e a gente se emociona.
O mundo morre. Muito sofrimento. 
Parece que nenhuma medida funciona 

Pronto socorro vazio. Ninguém veio. 
Porque  será que tem dias que é tão cheio
E em outros dias não tem ninguém?

Quem é que explica esses plantões assim?
Conta pra mim
Quem tá mais com medo de quem?

13.2.20

A gestão e o dinheiro

O que falta é gestão e não dinheiro,
Mas isso foi antes de ganhar a eleição,
Agora, pra sair desse lameiro,
O problema é ter dinheiro pra gestão.

Reclama do governo passado o tempo inteiro,
Parece um menino mimado e chorão,
Transformou a cidade num pardieiro
Mas a culpa é só dos outros. Dele não. 

Parece mentira que o seu mandato está acabando,
E a cidade continua respirando 
Apesar de tanta coisa fora do lugar,

Era uma vez um prefeito catapora
Que foi prefeito uma vez e foi embora,
Mas dessa vez pra nunca mais voltar.

O trio

Uma nunca prescreveu uma Dipirona,
Outra não faz ideia do que seja a ondansetrona,
E a outra nunca entrou numa emergência,

Uma nunca viu correr um plasma,
Outra, nunca tratou uma crise de asma,
E a outra nunca ouviu falar de multiresistencia,

Uma não sabe o que é penicilina,
Outra não conhece a dose da insulina,
E a outra nunca atendeu um infartado,

Uma não imagina onde fica a veia cava,
Outra nem sabia que existia essa palavra,
E a outra nao tem ideia de como tratar um resfriado,

Uma não sabe como age o antibiótico,
Outra nunca presenciou um surto psicótico,
E a outra nunca viu ninguém morrer,

Uma não sabe o que significa epilepsia,
Outra sequer ouviu falar de disfagia,
E a outra nunca viu um parto acontecer,

Uma nunca tratou de escabiose,
Outra não sabe explicar o que é cirrose,
E a outra nunca ouviu falar de dislalia,

Uma nunca viu uma mielomeningocele,
Outra nunca tratou nenhuma doença de pele,
E a outra não imagina o que seja uma artralgia,

Nenhuma das tres tem pratica ou vivência,
Foram nomeadas, sem nenhuma experiência, 
Para fazerem o que não sabem como fazer

Mas fazem. E, prepotentes, não pedem ajuda,
Por isso que a saúde está um Deus nos acuda.
Quem são elas? Alguém sabe responder?

28.1.20

A lista

São muitos nomes que vão aparecendo,
Que eu deveria, mas não sei quem são,
Que não vi nascerem, não vi crescendo,
Que não pularam carniça comigo também não,

São muitos nomes, e eu vou aprendendo
De quem são netos, sobrinhos ou irmãos,
São muitos nomes, e enquanto eu vou lendo,
Me passa um filme dentro do coração:

Um navio, um Líbano, um Rio de Janeiro,
Um 1920, um século inteiro,
E uma família, geração a geração

Seguindo, e, dessa forma, permanecendo
Família, que mesmo sem se conhecendo,
Segue, a seu modo, na mesma direção...

19.1.20

Conjugando o verbo ter medo

Eu tenho medo 
De ser relotado,
De perder o emprego,
De ficar sem receber,
De ser perseguido,
De ser processado,
De não saber como fazer se eu perder,
Tu tens medo 
Porque, como eu,
És concursado
E precisas do salário pra viver,
Porque uma coisa é escrever no Whatsapp 
Outra coisa é fazer greve:
Pode doer.
Ele tem medo
Porque é mimado,
Porque pensa que pode tudo 
E que a cidade vive conforme seu bel prazer,
Porque é prefeito
E quer ser reeleito,
E a gente pode fazer ele não ser.
Nós temos medo 
Porque somos humanos,
Temos família,
Mulher,
Marido,
Filhos a crescer,
E compromissos,
Contas a pagar,
E um juramento do qual não podemos nos esquecer.
Vós tem medo
Porque, como nós, sabeis 
Como é dificil o mundo das leis:
No pain, no gain,
E vós ireis sofrer,
Mas eles tem medo
Porque lá no fundo 
Sabem que querem, mas não são os donos do mundo,
E nossa verdade faz o coração deles tremer.
Eles têm medo porque são covardes 
E porque sabem que não vão vencer
Porque com "todos os tristes 
Querendo juntos,
toda tristeza vai desaparecer"

12.1.20

Afinação

Como eu posso discordar 
Do que quer essa mulher:
Se quer ir, se quer voltar,
Ou se não sabe o que quer,

Se é ela meu esteio,
Se mora em meu coração, 
Razão pra tudo que eu creio 
Se ela é minha inspiração?

Como eu posso me meter
Nas decisões que ela faz:
Quer vender? Não quer vender?
Queria, mas não quer mais?

Quer ou não quer ir a praia?
Quer coca ou quer guaraná?
Quer que sandália? Que saia?
Tão cedo e já quer voltar?

Que direitos eu teria
Se ela sempre me apoiou,
Cuidou da minha alegria,
Minha tristeza assustou, 

Me alimentou, me vestiu, 
Me divertiu, me ensinou, 
Nas crises, me distraiu,
Nas perdas me sustentou?

Como eu posso ir contra ela
Que nunca foi contra mim?
Como, se ela é tão bela?
Como, se eu sou tão ruim?

Como não estar do seu lado 
Seja de que lado for,
Seja um bife mal passado,
Seja um remédio pra dor,

Se não quer se vacinar,
Nem ir ao aniversário,
Se prefere se calar,
Se conta tudo ao contrário,

Não me importa, que assim seja
Quando ela diz, eu aceito, 
Ela é a luz da minha igreja,
Meu modelo mais perfeito,

To nem ai pro que pensam,
Pro que acham que ela é, 
Minha mãe é minha bênção,
Meu exemplo de mulher,

É #lulalivre? Perfeito. 
Apoio o que ela pedir.
A mãe que me deu o peito 
Que me deixou existir

É a mãe que me trouxe à vida 
Me mostrou a direção 
Enfrentou a dor comprida 
Nunca soltou minha mão 

Então ela que decida
E saibam vou concordar 
Não existe outra saída 
Não adianta tentar 

Se ela pede, não importa, 
Torno minha obrigação 
Minha viagem sem volta 
Minha mão sem contramão 

Não há como não fazer
Cada coisa que ela pede
Se ela sempre foi ceder
Carinho que não se mede

Sacrifício sem medida 
Sofrer que não faz sofrer 
Dor que é sempre convertida 
Em fé, como deve ser

Então como posso, diga,
Contestar se ela é diz não?
Se ela é dona da minha vida
E é dela meu coração?

25.12.19

Mãezinha, tu sabias?

Livre adaptação do poema "Mary, did you know?" de Mark Lowry, dedicado aqui às mães de UTI do mundo inteiro

Mãezinha, tu sabias
Que o teu bebê venceria tantas lutas?
Será que tu sabias
Que ele modificaria tantas vidas?
Tu sabias que o teu bebê
Traria no coração a força de um gigante
E que o filho a quem tu deste à luz
Te faria uma mulher tão imensamente forte?
Mãezinha, tu sabias
Que o teu bebê inspiraria o dia a dia de tantas pessoas?
Será que tu sabias
Que o teu bebê veio ao mundo
Para fortalecer teu coração,
E que ao beijar teu bebezinho
Tu beijavas a quem Jesus chamou "a luz do mundo "?
Mãezinha, tu sabias?
Acaso tu sabias?
Será que tu sabias?
A ciência um dia compreenderá
Que o teu colo cuidará
E que nenhum poder irá se comparar
Ao poder do teu abraço,
Mãezinha, tu sabias
Que é teu bebê quem nos dá lições diariamente?
Acaso tu sabias
Que é ele o verdadeiro herdeiro do amanhã,
Que o teu filho é a imagem e semelhança de nosso Pai que está no céu,
E que que a criança em teus braços é uma grande promessa de amor para nosso planeta?
Mãezinha, tu sabias?
Acaso tu sabias?
Será que tu sabias?

29.10.19

Medicina baseada no que tem

Se tem Dipirona faz, e se não tem
Dá um banho de água fria demorado,
Levanta o travesseiro, faz um bem
Se o oxigênio tiver terminado,

No corredor sempre cabe mais alguém
Quando o repouso já está lotado,
A tomo já marcou pro ano que vem
Quando ele não vai mais precisar ser operado,

É a medicina baseada no que tem:
Se tem bem, e se não tem, amém,
Não sai curado mas sai remendado,

É a medicina da terra brasilis:
Em vez de uma Hillux, uma Rural Willis,
É o país pobre cuidando do esfarrapado.

27.10.19

Desgoverno

Esse governo precisa ser estudado,
Esse governo precisa ser demitido,
Esse governo precisa ser boicotado,
Esse governo precisa ser proibido,

Esse governo precisa ser deportado,
Esse governo precisa de ser impedido,
Esse governo precisa ser condenado,
Esse governo precisa ser destituído,

Esse governo precisa ser desligado,
Esse governo precisa ser bloqueado,
Esse governo precisa ser esquecido,

Esse governo precisa ser enterrado,
Esse governo precisa ser acusado,
Esse governo precisa ser dissolvido...

20.10.19

O fim

Mas isso é trágico, querida poetisa
Um grande amor não vai morrer assim
Às vezes a única coisa de que ele precisa 
É de um soneto prevendo seu fim

Terminar é trágico demais quando se avisa
Um grande amor não pode ser tão ruim 
Às vezes é assim mesmo, desestabiliza
Depois volta ao normal. E diz que sim

Na verdade nem sei se isso é verdade 
Se um grande amor existe na realidade 
Ou se é só coisa própria da poesia 

Mas se for só por poesia, imaginada 
Que lave a alma da pessoa amada
E sobreviva, por teimosia

20.9.19

João

Impressionante o que o João faz com o violão,
Que nas mãos de João parece outro instrumento,
E a voz de João, conversando com sua mão,
Faz a música brotar outra música por dentro...

João não precisa de usar diapasão
Porque a alma de João é feita de afinamento
Impressionante, não tem explicação,
João e o violão... que casamento ...

Nada sai da forma que a gente esperava escutar,
João muda tudo quando começa a cantar,
João refaz o samba do seu jeito,

Eu nunca ouvi ninguém tocar violão assim,
Só mente quando diz que tristeza não tem fim,
João, como se fosse um sinônimo de perfeito.

12.9.19

Todo mundo precisa de saude

Todo mundo precisa de saude:
Tem gente que precisa de uma cirurgia,
Tem gente que precisa de uma nebulização,
Tem gente que precisa de fisioterapia,
Tem gente que precisa de antibióticoterapia, Tem gente que precisa de vacinação,

Mas todo mundo precisa de saude,
Ninguém precisa de uma ambulância estragada, Ninguém precisa de uma farmácia vazia, Ninguém precisa de uma cadeira quebrada, Ninguém precisa de uma emergência lotada, Ninguém precisa de falta de assepsia,

E porque todo mundo precisa de saude,
Cabe ao governo cuidar da nossa gente,
Mais atitude, menos falação
Porque uma cidade tão doente,
Precisa de uma solução urgentemente,
E alguém tem que aprender essa lição:

Todo mundo precisa de saude
Porque a saúde de um povo é seu direito, Ninguém precisa de passar humilhação,
Todo mundo precisa de respeito,
Não ser tratado de qualquer jeito,
E é bom que seja sempre assim, senão...

Reflexão

A gente era feliz e não sabia, E reclamava de barriga cheia, Um tipo feliz que achava que sofria, Uma cidade bonita que se achava feia, E a vida foi seguindo até o dia Em que a sombra, numa reação em cadeia, Foi sequestrando nossa alegria Como um veneno injetado em nossa veia... A gente era feliz, e agora tenta Reagir, porque ninguém mais aguenta, Respirar, pra tentar sobreviver, E quando um dia a sombra tiver passado, Vai ser preciso tomar muito cuidado: A sombra não sabe perder... Vai ser preciso a força dos gigantes Pra gente voltar a ser feliz como antes Sem ter motivos pra se arrepender...

6.9.19

Querido professor

Querido professor

Ao professor Hector Gomez Martinez 

Querido professor de alma serena,
De olhar atento e humano sobre a vida,
Recebe nosso abraço nesse poema,
Uma homenagem, ainda que pequena
Escrita de palavra agradecida,

Muito obrigado pelas lições diárias
Que sua metodologia nos ensina,
Alimentando nossas teses sedentárias 
Com novas conclusões extraordinárias 
De amor, calor e pura ocitocina.

Agradecemos, querido professor,
Por essa guinada da neonatologia,
Que passou a ver o colo como fonte de calor,
Tratar a mãe como um manancial de amor, 
E o leite materno como a grande garantia.

A sua história, a de um desbravador,
É o retrato fiel de um visionário 
Que não cedeu ao inquisidor,
Que não negociou com o impostor,
Que não esmoreceu, pelo contrário,

Desarmou resistências discordantes,
Trazendo luz aos clássicos tratados,
Tornando a vida melhor do que era antes,
Modificando o significado de gigantes,
E brindando a vida com novos significados.

Obrigado professor, por sua coerência,
Pela não cooperação com a coisa errada,
Desafiando com coragem e competência 
A incompetência engessada da ciência,
Que nunca mais foi a mesma,  envergonhada,

Por seu legado para a espécie humana,
Pela força incansável do seu coração,
Obrigado, professor, pela sua gana,
Pela  sua sabedoria soberana, 
E por nunca ter cedido na sua convicção,

Querido professor, iluminado,
Que se tornou nossa fonte de inspiração,
Professor Hector, nosso homenageado,
Professor Hector, muito obrigado
Por sua história de amor, nossa lição...

3.9.19

Medicina baseada no que tem

Se tem Dipirona faz, e se não tem
Dá um banho de água fria demorado,
Levanta o travesseiro, faz um bem
Se o oxigênio tiver terminado,

No corredor sempre cabe mais alguém
Quando o repouso já está lotado,
A tomo já marcou pro ano que vem
Quando ele não vai mais precisar ser operado,

É a medicina baseada no que tem:
Se tem bem, e se não tem, amém,
Não sai curado mas sai remendado,

É a medicina da terra brasilis:
Em vez de uma hillux uma rural willis,
É o país pobre cuidando do esfarrapado.

Campos, formosa

Campos, formosa, cidade iluminada,
Mas com sua saúde sucateada...
Tão sem dinheiro, tão dadivosa,
Acorda, minha cidade preguiçosa,
Formosa, mas que vai sendo tapeada

Cidade feita de luz e madrigais,
E de gente abarrotando seus hospitais
Oh, Paraíba, oh, mágica torrente,
Porque maltratam tanto a sua gente
E a cada dia uma maldade a mais?

Nada se iguala a seus dons e seus primores,
O que ainda falta é acordar os seus gestores
Pra que seus passos, como os de um rei do Oriente,
Não sejam os de um povo pobre e doente
Que agoniza em hospitais, nos corredores.

Campos, formosa, pérola querida,
Predileta do luar, acorda pra vida
Clama por sua gente, val de delicias,
Que espera ansiosa por boas notícias
Como quem espera uma felicidade prometida...

13.8.19

A biometria


Que biometria é o problema que nada
O problema é o teto do hospital desabando
O problema é a cadeira da mesa enferrujada
O problema é o chuveiro que não está esquentando

Biometria um problema? Que piada.
A gente vive mesmo trabalhando.
Dizer que a gente é contra biometria é coisa armada
Porque a nossa luta está incomodando

Porque o que a gente quer é mais respeito
É trabalhar o que a gente sabe, é trabalhar direito
É não ser tratado como o grande culpado.

Que biometria que nada. Dignidade.
O que a gente quer é trabalhar com qualidade.
Dizer que o problema é a biometria tá errado.


28.7.19

As redes

Bastante cansado dessas redes sociais,
Dessa necessidade de postar
As coisas diárias que a gente faz
Como se só as fizesse pra mostrar,

Como se não houvesse nada mais,
Como se a vida fosse compartilhar
O amor, a solidão, a hipocrisia e a paz,
As redes sociais... deu pra cansar...

E vou pro meu cantinho reservado
Como um marzinho nunca dantes navegado
E fico ali sem ninguém me perceber

E nesse silêncio aparentemente solitário
Eu vivo meu planeta imaginário
Que não precisa de flashes pra viver

As sete camadas

Sete camadas, ordenadamente,
Guardando o bebê como quem guarda um diamante,
E que se integram perfeitamente,
Fisiologia absolutamente impressionante,

Sete camadas, até que o bisturi, de repente,
Invade uma a uma através do corpo da gestante,
O bisturi, como um poder onipotente,
Atravessando tudo quanto encontra adiante,

Sete camadas, mas que quase ninguém nota
E que protegem o bebê como uma escolta,
E sabem, cada uma delas, o que fazer...

Sete camadas essenciais, tão esquecidas
Mas sempre atentas e bem resolvidas,
As sete cascas do bebê que vai nascer...

25.6.19

Viva a poesia

Viva a poesia de nossas vidas:
A que deixamos para nossos filhos,
A que recebemos de nossos pais,
A que projetamos lá pra frente,
A que trazemos sempre pro presente,
E a que deixamos pra trás...

A poesia

Bendita seja, nesses dias, a poesia,
Que não tem cor, que é sempre qualquer cor,
Que é ao mesmo tempo quente e fria,
E, ao mesmo tempo, causa e cura a dor,

Bendita seja, Santa companhia,
A poesia, do jeito que for,
Nunca limita, separa, não segrega ou tria,
Nunca tem mais valor, menos valor...

A poesia é palavra ilimitada,
Ao mesmo tempo, enquanto é tudo, é nada,
Ao mesmo tempo, enquanto é morte, é vida

Querer impor limites ao poema,
E ver problema onde não há problema,
É obstruir a porta de saida.

19.6.19

As cinco mil extra-sistoles

Cinco mil extra-sistoles num dia.
Eu leio o laudo e tento me acalmar.
Cinco mil, meu Deus! E eu nem sabia,
Tantas, que somente o holter pra contar...

Cinco mil. Sem sudorese nem taquicardia.
Eu leio de novo. Não quero acreditar.
Faz tempo já não to mais na garantia,
Acho que Deus tá querendo me trocar.

Cinco mil. Até cai bem na poesia,
Mas é procurar a cardiologia
Pra ver se eu devo logo ir me internar...

Eis que o meu medico e amigo, em calmaria,
Responde meu zap (bendita tecnologia):
Resolve fácil, não precisa se preocupar...

18.6.19

Poesias

Você os guarda num blog ou numa folha A4?
Digita ou escreve com uma lapiseira?
Saem de primeira ou depois você dá um trato?
Posta sempre ou mostra só pra companheira?

Dá pra montar com elas seu retrato?
Vem em pedaços ou sempre vem inteira?
São próprias pra platéia de um teatro
Ou para usar numa espreguiçadeira?

A poesia, dona de segredos, 
Livrando o poeta de seus medos
E atirando o poeta seus abismos,

A poesia, que sempre encanta,
Silenciosa as vezes como um mantra,
A poesia e seus preciosismos.

13.6.19

O quibe da vovó Maria

Quem comeu o quibe da vovó Maria,
Frito, de forno, de peixe ou com coalhada,
Nunca mais come outro igual. É covardia.
Bastava o cheirinho e a boca ficava aguada.

Será que era o tempero que ela fazia?
A quantidade de trigo misturada
Naquele bolinho que ela esculpia?
Qual era a receita? Onde ficou guardada?

No coração da gente, na saudade,
Porque falar de vovó dá uma vontade
De um dia voltar a tocar a sua mão...

Ah, os seus quibes... quando novamente?
Vovó Maria, sempre presente
No melhor lugar do nosso coração...

10.6.19

As cinco mulheres

Cinco mulheres empoderadas,
Cinco mulheres amamentando
Suas cinco crianças internadas
E ao lado delas, pouco a pouco, melhorando,

Cinco mulheres determinadas,
Diariamente, a seus filhos, se entregando,
Não desistem, não ficam tristes nem cansadas,
Mas se acaso ficam, vão se superando,

Cinco mulheres que nos representam,
São corações assim que nos sustentam,
Um amor assim é a nossa única saída...

Que Deus abençoe essas cinco mães extremas,
Merecedoras de todos os poemas
E de "todo amor que houver nessa vida"...

9.6.19

Bom dia

Bom dia. E que seja mesmo um bom dia
Com muitas coisas por acontecer,
Algumas delas, motivo pra poesia,
Outras, a gente nem vai perceber:

O vento, o sol nascendo, a chuva fria,
O cachorro na rua, o coração bater,
Milagres diários que ninguém copia
Mas que o dia guarda em seu poder,

Então bom dia. Mais um pra gente,
Porque cada dia é um dia diferente
Ainda que sejam dias quase iguais,

Aproveitemos. É nossa chance.
Bom dia. Gostoso como um romance,
E como as coisas boas que ele faz.

5.6.19

Preciso da tua ética


Preciso da tua ética pra continuar acreditando,
Da tua postura pra continuar te defendendo,
Preciso que não te lembres de mim só de vez em quando
Ou só quando tu estás precisando, ta entendendo?

Preciso que pares de continuar emporcalhando
Nossa cidade assim como tu andas fazendo.
Dessa forma, tu acabas me decepcionando
Enquanto pensas que estás me convencendo...

Preciso que tu permaneças te empenhando,
E que respeites aqueles que, votando,
Vão acabar um dia te elegendo...

Precisas do meu voto pra continuar lutando?
Eu dou. Mas se eu perceber que estás me usando,
Um dia tu acabarás te arrependendo...


2.6.19

Amor de mãe

Amor de mãe é o melhor da vida,
Nada substitui, nunca termina,
Começa muito antes da dor comprida,
Amor de mãe é pura ocitocina,

Não tem tempo ruim, nem despedida,
Amor que é como se fosse uma vacina
Protegendo de toda a dor, toda ferida,
Desafiando a própria medicina...

Amor de mãe não respeita idade,
É o grande legado das mães para a humanidade,
Por tão sublime que é, tão sem pecado,

Tão doce, tão intenso, tão diário,
Não cabe inteiro em nenhum dicionário,
Amor acima de qualquer significado.

30.5.19

A discussão

Um diz que sabe. O outro, que tem certeza.
Um afirma. Outro nega. Os dois se estranham.
E entre o sim e o não, essa estranheza
Onde os dois pensam que batem, mas apanham.

Sobra arrogância. Carece delicadeza.
Quanto mais perdem, mais pensam que ganham.
É verbo solto o que sai da alma presa
De um e de outro, enquanto se arranham.

A discussão, que não vai levar a nada,
Além de deixar a alma mais cansada
Nessa busca obsessiva por ter razão,

Vale como um atestado da estupidez humana
Que morre desgastada em luta insana
E não consegue escutar seu coração.



28.5.19

Poesia

Chegaram até mim,
Feito poemas,
Suas palavras,
Mas eu sabia
Que era amor
Cada cor que iluminava
Cada pedaço
De cada poesia.

Chegaram até mim
Versos sem rimas,
Palavras livres
De metrificação,
Mas deu pra perceber
Que dentro delas
Havia um pedaço
Do seu coração...

Bendita a mão que semeia
Versos livres a mão cheia,
Pro poema se espalhar...
Um verso, caindo n'alma,
Envolve a alma com calma,
Fazendo a alma cantar...

24.5.19

João Gilberto


A primeira vez que escutei João Gilberto
Adorei o jeito do João tocar violão,
Eu nunca vi João Gilberto de perto
Mas ninguém chegou mais perto do meu coração,

Eu vim da Bahia, ele cantava, e estava certo,
E a Bahia não tem comparação,
Ninguém escutou, nem meu avô nem meu neto
Um violão como o violão de João,

A primeira vez que escutei me apaixonei,
Lembro até hoje da primeira vez que escutei:
Ninguém no mundo toca violão assim

Cadenciado, desencontrado,
Afinado ensinando a cantar desafinado,
João tão genial quanto Jobim...

Memórias

Memórias da família que ficaram,
O que nos contaram sobre o que viveram,
Memórias que os anos não apagaram
E que nossos corações não esqueceram,

Como um legado que nos deixaram,
Como fotografias que não envelheceram,
Gestos gentis que nunca amarelaram,
Carinhos bons que nunca se perderam,

Histórias que nossos antepassados nos contaram,
Daqueles dias desde que aqui chegaram,
Do que enfrentaram, de como cresceram,

E da saudade da pátria amada que deixaram,
E do amor dessa nova pátria que encontraram,
Do tanto de amor que entregaram e receberam...

Marthinha

Marthinha aparece,
Não esquece da gente,
Eu sei que somos um grupo as vezes displicente,
Somos uma multiplicidade de pensamentos,
A incrível turma de mil e novecentos
E oitenta e três,
Falamos muitos assuntos, todos de uma vez,
Mas quando uma voz
Como a sua, amiguinha,
Fica escondidinha,
Sem dizer nada,
Faz uma falta danada,
Porque você é como chicabom:
É tudo de bom.
Por isso, fala alguma coisa
Pra gente saber
Como foi seu dia,
Como está sua filha,
Como estão seus netos,
Seus projetos,
Como está seu coração,
Fala de maconha,
De Chico,
De chikungunya,
Fala da cor do seu esmalte de unha,
Fala de amor,
Mas fala,
Porque quando você se cala,
O que todo o resto fala
Parece não dizer nada,
Você faz uma falta danada,
Você faz uma falta, danada,
Antenada,
Descolada,
Que adora uma pedalada,
E uma discussão bem temperada,
Fala,
Estala os dedos,
Diz dos seus medos,
Conta da solidão,
Fala do seu novo apartamento,
Desse fogão rabugento
Que só esquenta as panelas que ele quer,
As outras não,
Fala mulher,
A gente escuta,
Pode chamar Lula de filho da puta,
Bolsonaro de jumento bem intencionado,
Eu vou ler e vou gostar
Porque melhor que concordar
Ou discordar,
É aceitar
Você aqui do nosso lado.
Por isso esse poeminha improvisado.
Volta, Marthinha,
Sem você esse grupo parece abandonado,
Adoro você,
Adoramos você,
Tenta aparecer...
Marthinha,
Cadê você ?
Eu vim aqui só pra te ver...

Um beijo no seu coração

Bom dia

Que seja um dia bom demais pra gente,
Notícias boas pra nos alegrar,
Que comece com pão com queijo, café quente,
E o amor, porque o amor não pode faltar,

Que o Whatsapp mande posts diferentes 
Dessas más notícias que nos  costuma mandar,
Que Deus esteja, também, sempre presente 
Em cada decisão que a gente tomar,

Seja pra esquerda, seja pra direita,
Que a gente faça da forma mais bem feita,
Que é o unico jeito da gente escapar

De arrependimentos que doem tanto...
Bom dia, sem maldade, sem quebranto,
E com a luz divina sempre a nos guiar.

23.5.19

Blanca

Eu bem que tentaria, se eu soubesse,
Um sonetinho lindo que homenageasse
O seu aniversário, você merece,
Ah, se eu tivesse essa classe...

A prova de que Deus nunca nos esquece,
É ter permitido que você estreasse
Nesse planeta como uma rosa que floresce,
E torna feliz o mundo quando nasce.

E foi exatamente assim naquele mês de maio:
Você nascia, forte como um raio,
E doce, pra uma doce encarnação,

A filha, a mãe, a avó e a médica, misturadas,
Que sintam-se nesse soneto homenageadas,
Que é quase nada, mas que vem do coração.

O relógio de ponto

O relógio de ponto está instalado,
Vai preparando sua digital,
Estrategicamente bem instalado
Na pequena varanda, perto do quintal,

Olhando de pertinho, o desgraçado
Até que não parece ser assim tão mau,
Mas não se engane: chegou atrasado,
Vai se entender com o poder municipal.

Não foi de graça, muito pelo contrário,
Mas pra vigiar esse bando de proletário
Não custa nada gastar um dinheirinho,

E eu que nunca sonhei com a aposentadoria,
Já tô desde agora imaginando o dia
Em que eu não precisar mais enfiar no relógio o meu dedinho.

Um poema pra Bia

Pra escrever um poema para Bia
Escolha uma palavra delicada,
Tempere com pitadas de alegria
E um aroma de coisa perfumada,

Tome o cuidado para que a poesia
Seja na medida para a homenageada,
De forma que, ao receber, ela sorria,
E quando ela sorrir se sinta amada,

Então, para escrever um poema assim,
Como uma amizade que não tem fim
Porque se faz diariamente conquistada,

Envolva-o com laços de sinceridade,
E avise pra sua amiga da faculdade
Que a poesia dela já pode ser usada.

Quinta feira

Amanhece nublada a quinta feira,
Jeito de chuva, cinzenta, dia frio,
Calor parece que só na agua da chaleira
Que quando ferve solta um assobio,

Quinta com frio. Não tá de brincadeira.
Sair de debaixo do cobertor causa arrepio.
Coitado de quem toma banho de banheira.
Castelo da Frozen, esse estado do Rio.

As articulações enferrujadas 
Me dizem que preferem continuar deitadas
Sem perceber que há muito o que fazer,

Então, movimentando as minhas juntas,
Eu finjo que não escuto as suas perguntas,
E assim a quinta começa a acontecer.

A ingratidão

Eu trago aquele poema aqui guardado,
Poema que nunca mais libertou meu pensamento,
Que foi como um vírus quando inoculado
Mudando quase tudo aqui por dentro,

E sempre que o leio, confesso-me assustado,
E cada vez que o faço, eu sou quem tento
Compreender o que há por trás do seu significado
E me repito a todo momento:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja

A ingratidão, o nome dessa pantera
Matando o último sonho, a última quimera,
Como uma larva venenosa que rasteja...

22.5.19

Bom dia

Bom dia meu povo forte e destemido,
Povo que não dá mole e nem vacila,
O bicho tá pegando, mas tá bem vestido,
Uns de scarpin outros de mochila,

E que já chega no trabalho decidido
A sentar no consultório e comer fila,
Bom dia meu povo comprometido,
Povo valente, como o Sansāo de Dalila.

Bom dia porque hoje é mais um dia
De misturar a fé com a correria
E não perder o prumo da empreitada,

E porque somos valentes o bastante,
Por isso chegamos aqui e vamos adiante,
Sempre com Deus, porque sem Deus não somos nada.

21.5.19

Triste Rio

Que Rio triste de Janeiro a Janeiro,
Que Rio cheio de tiroteio,
Que Rio triste terra de pistoleiro,
Que Rio triste, nunca vi mais feio,

E eu que gostava tanto do Rio inteiro:
Flamengo, Copacabana, Catete, Recreio,
Mas hoje, "o que é isso, companheiro ?"
Diria Gabeira, cheio de receio...

E o tiroteio diário que não para,
Acaba com a baía da Guanabara
Deixando triste nosso coração...

Ah, Cristo Redentor que nos redime,
Livra nosso Rio de tanto crime,
E cobre o Rio com sua proteção...

1.5.19

Dia do trabalho

Acordar cedo. Diariamente.
Obedecer às ordens do patrão.
Salário não compra tudo. Provavelmente
Ou vai faltar manteiga ou faltar pão

E a cada dia tudo novamente
O relógio de ponto é o olho do patrão
Faça calor ou chova torrencialmente
Vale o que ele marca. O resto não.

É finalmente hoje é dia do trabalhador
Não tem relógio de ponto. Nem sim senhor.
Nem tem conversa fiada pra escutar.

Dia de casa. De festa. Um lindo dia
Tão lindo que mesmo com a panela vazia
A gente sai pra comemorar

26.4.19

Lastro

As vezes a palavra é como o lastro
Dificultando o vôo do balão,
É como usar um alfabeto gasto
Pra definir o que vai no coração,

O coração, esse horizonte vasto,
Por mais que a palavra lhe tente tradução,
É como um navio que perde o mastro
E busca se manter na direção.

Então a palavra, insuficiente,
Traduz bem o coração tão raramente
Que às vezes o faz melhor quando se cala,

E o silêncio, mais que a verborragia,
Transforma estupidez em poesia
Sem precisar da palavra torta e rala.

Sonetos

Ora direis, fazer sonetos,
Certo perdeste o censo, eu vos direi, no entanto,
Que para combinar quartetos e tercetos
É necessário descobrir algum encanto,

Direis: escritos de formatos obsoletos,
Não têm modernidade e pesam tanto...
Quanta sandice, tolos preconceitos,
Nem sei por conta de que ainda me espanto.

Não vês a arquitetura que há entre as rimas,
Irmãs que são como se fossem primas,
E, mesmo separadas, permanecem

Tecendo versos, tramas sonetadas,
Seguindo juntas, mesmo separadas,
Como dois corações que não se esquecem...

8.4.19

A espécie humana

Eu sigo preocupado, descrente, desiludido,
A especie humana não se protege, leviana,
Enquanto se imagina engrandecido
O homem, esse idiota, só se engana,

Eu sigo preocupado, e já não ligo
Quando chamam de desumana a espécie humana,
Que vive em torno do seu próprio umbigo
E não percebe seu fim que assim se trama,

Eu sigo preocupado. Mundo estranho.
Mesmo quando um só perde, não há ganho,
Porque seguimos na mesma embarcação,

Eu sigo preocupado, e a cada dia
Só me resta conversar com a poesia
Pra tentar acalmar meu coração.

6.4.19

A madrugada

Porque será que Deus criou a madrugada,
Esse intervalo entre acontecimentos,
Tempo quase todo feito só de nada,
Celeiro bom de se guardar pensamentos,

Espaço onde a melhor decisão é planejada,
Oportunidade única para arrependimentos,
Porque será que a madrugada foi criada,
Esse dia visto pelo seu lado de dentro?

Quem sabe sobraram algumas caixas vazias,
E no finalzinho daqueles sete dias,
Faltando pouco para o criador descansar,

Deus resolveu dar a elas utilidade,
Daí a madrugada e sua capacidade
De guardar o que não caberia em nenhum outro lugar

5.4.19

O soneto

Tentei um soneto. Não aconteceu.
Tentei mais um outro. Não consegui.
Tentei um terceiro que no meio se perdeu
Foi nessa hora que eu quase desisti

Mas nesse instante o soneto percebeu
Que se eu desistisse ele deixava de existir
Sua insistência me convenceu
Por isso esse soneto escrito aqui

Não de improviso, mas de insistente,
A poesia as vezes se parece com.essa gente
Que não sossega enquanto não consegue

Tentei um soneto e o soneto atentado
Me atentou até ser digitalizado
Pra no final não saber nem pra quê que serve

17.3.19

Conversas com mães

Conversas com mães são aprendizado,
São como beber água direto da nascente,
Tesouro precioso e delicado,
E único, e doce, e diferente...

Tem sempre um grande significado,
Mãe é palavra que motiva a gente,
Conversas com mães são como um grão semeado,
Uma floresta em estado latente...

Conversas com mães nunca são conversas à toa,
Tem uma sonoridade que ressoa
Musicalizando o ambiente,

Conversas com mães são fontes de experiência,
E não importa o nível de evidência:
Nada é mais claro,  nada é mais evidente.

4.3.19

Deus

Enquanto a gente se descuida e se destrata,
E se desentende e se machuca e se maltrata,
É lindo saber que Deus cuida da gente,
Seus filhos as vezes desajuizados,
Nem sempre bons ou bem intencionados,
Mas de quem Deus cuida de modo incontinenti.

3.3.19

Super heróis

Nós somos super heróis,
Nós temos super poderes,
Nós somos os seres mais incríveis do planeta,
Não temos medo de mascarado,
Não temos medo do boi da cara preta,
E o que nos faz invencíveis
É o amor,
E é tanto amor o amor que recebemos,
E tanto amor o amor que que respiramos,
Que foi por isso que nós vencemos,
Por tanto amor envolvido,
E foi por conta desse amor que transformamos
Saudade em vontade de ficar logo bom,
Medo em vontade de ser feliz,
Enfrentar a dor é o nosso grande dom,
Somos incríveis,
Somos os super heróis mais fortes do país,
Somos princesas e príncipes vencedores,
Nossas famílias são nossos amores,
E através delas passamos a entender
Que o amor é o nosso super poder,
Nós somos super heróis,
Vivemos grandes histórias,
Nós temos pra contar grandes vitórias
Muitas lutas ainda pela frente,
Certamente,
Mas vamos vencer,
Porque somos super heróis,
Nós temos super poderes,
Nós somos seres mais guerreiros que conhecemos,
Por amor aqui chegamos,
Por amor lutamos,
Por amor vencemos,
Nós somos super heróis,
E o amor é o maior poder de todos os poderes que nós temos.

Homenagem da UTI Nicola Albano a seus pequenos grandes super heróis

17.2.19

A hora a mais

Ganhei uma hora a mais, nem esperava,
Chegou ao fim do horário de verão,
Exatamente a uma hora a mais que eu precisava
Pra descansar mais um pouco do plantão.

Coisa boa quando a gente nem contava
E vem pra gente sem contra indicação:
Aquela uma hora a mais que eu procurava
E já tava achando que não ia achar mais não.

Ganhei uma hora a mais. Que coisa boa.
Melhor que ouvir samba dos Demônios da Garoa,
Melhor que melhorar de um resfriado,

Uma hora que eu estou agora aproveitando
Pra escrever um poeminha e ir descansando
Enquanto acerto o relógio adiantado.

11.2.19

Dez meninos


Dez meninos inocentes assassinados,
Sem que ninguém assuma a culpa do que os matou,
Como se houvesse crime sem culpados,
Assassinados que ninguém assassinou,

Dez meninos queimados vivos, violentados,
Ninguém confessa publicamente que errou,
Por trás de meninos mortos, homens errados,
Dez meninos com quem ninguém se importou,

Dez meninos, dez sonhos, dez famílias,
Dez inocentes vítimas de armadilhas,
Dez mães que já não podem mais ninar

Seus dez filhos, meninos que partiram,
Indo dormir sem perceber que dormiram
Um sono do qual não mais iam acordar...

30.1.19

Morte

Pedaço da minha vida que eu não conheço,
E faço de conta que nunca vou conhecer,
Pedaço que começou lá no começo,
O que toda gente chama de nascer,

Pedaço sem rota, sem data, sem endereço,
Como uma palavra que a gente evita escrever,
É vida, escrita pelo lado avesso,
Como o dia esperando o amanhecer,

Uma palavra, não outra, definitiva,
Talvez de todas elas a mais viva,
A mais presente em nós pela vida inteira,

Morte, mas não precisa chama-la assim,
Porque embora aparentemente seja o fim,
Segue vivendo à sua própria maneira...

27.1.19

Blogs

Guarde poemas no blog. Funciona
Como um caderno aberto para a vida,
E tanto faz se em Tóquio ou em Atafona,
Toda poesia é universalmente lida.

O blog é poderoso como a prednisolona,
Nele a palavra brinca distraída,
Tem gente que acha cafona,
Eu acho um must, coisa mais querida...

Experimente um blog. Poste um poema,
Ou, se preferir, mais de um, não tem problema:
O blog aceita todos com ternura,

Poemas fazem os blogs mais felizes,
E blogs fazem poemas criarem raízes,
E aí começa a semeadura...

6.1.19

A palavra

A mesma palavra pode possuir força pequena
Ou, se a gente permitir, grande demais,
Pode ter o cheiro acre de uma ozena
Ou o sabor doce dos dias de paz

A mesma palavra pode ser gangrena
Ou divertidos balões de gás,
A mesma, ser a rima de um poema
Ou a escolha por Barrabas,

A palavra pode possuir todas as formas,
Obedecer ou transgredir todas as normas,
Dependendo do terreno onde é plantada,

Carregada de ódio, torna se morte,
Temperada de amor, torna se forte,
A mesma palavra significa tudo ou nada.

5.1.19

O coração

O coração às vezes exagera,
E fala coisas que não era pra falar,
O coração às vezes perde a linha,
É como se uma extra sistole daninha
Fizesse o coração extrapolar,

O coração às vezes perde o ponto
E se torna vítima da própria taquicardia,
Desanda a dizer palavras sem sentido,
E quando vê, não era pra ter sido,
E quando vê, já fez o que não queria,

Aí é tarde demais. Se fez tá feito.
Não tem conserto pro leite derramado.
E como um parto. Não tem mão dupla.
Nem adianta depois pedir desculpa,
Melhor seria não ter exagerado...

E necessário muita calma nessa hora,
E alimentar o coração diariamente
Com doses homeopáticas de alegria.
Um coração feliz não gasta o dia
Com atitudes inconsequentes.

Alegria, alegria. Sem azedume.
Alegria, alegria. Como na canção.
Alegria, alegria, sem arrependimento.
Sem taquicardia, saturando cem por cento.
A vida é bem melhor sem confusão.

1.1.19

Poeminha de ano novo

Finalmente acabou o ano passado,
Chegamos até que enfim no ano que vem,
Estou me sentindo completamente renovado,
Como se fosse um neném,

As coisas ruins que eu vivi deixei de lado,
Trouxe comigo só lembranças de bem,
Daqui pra frente mais nada errado:
Nem querer nem fazer mal a ninguém,

Ah, bem que poderia ser assim:
Um ano novo sem nada de ruim,
O ano que passou virar poeira...

Mas vai depender mais de mim que da virada
Ter minha vida modificada,
Porque não dá pra ser de outra maneira...