13.2.20

O trio

Uma nunca prescreveu uma Dipirona,
Outra não faz ideia do que seja a ondansetrona,
E a outra nunca entrou numa emergência,

Uma nunca viu correr um plasma,
Outra, nunca tratou uma crise de asma,
E a outra nunca ouviu falar de multiresistencia,

Uma não sabe o que é penicilina,
Outra não conhece a dose da insulina,
E a outra nunca atendeu um infartado,

Uma não imagina onde fica a veia cava,
Outra nem sabia que existia essa palavra,
E a outra nao tem ideia de como tratar um resfriado,

Uma não sabe como age o antibiótico,
Outra nunca presenciou um surto psicótico,
E a outra nunca viu ninguém morrer,

Uma não sabe o que significa epilepsia,
Outra sequer ouviu falar de disfagia,
E a outra nunca viu um parto acontecer,

Uma nunca tratou de escabiose,
Outra não sabe explicar o que é cirrose,
E a outra nunca ouviu falar de dislalia,

Uma nunca viu uma mielomeningocele,
Outra nunca tratou nenhuma doença de pele,
E a outra não imagina o que seja uma artralgia,

Nenhuma das tres tem pratica ou vivência,
Foram nomeadas, sem nenhuma experiência, 
Para fazerem o que não sabem como fazer

Mas fazem. E, prepotentes, não pedem ajuda,
Por isso que a saúde está um Deus nos acuda.
Quem são elas? Alguém sabe responder?

28.1.20

A lista

São muitos nomes que vão aparecendo,
Que eu deveria, mas não sei quem são,
Que não vi nascerem, não vi crescendo,
Que não pularam carniça comigo também não,

São muitos nomes, e eu vou aprendendo
De quem são netos, sobrinhos ou irmãos,
São muitos nomes, e enquanto eu vou lendo,
Me passa um filme dentro do coração:

Um navio, um Líbano, um Rio de Janeiro,
Um 1920, um século inteiro,
E uma família, geração a geração

Seguindo, e, dessa forma, permanecendo
Família, que mesmo sem se conhecendo,
Segue, a seu modo, na mesma direção...

19.1.20

Conjugando o verbo ter medo

Eu tenho medo 
De ser relotado,
De perder o emprego,
De ficar sem receber,
De ser perseguido,
De ser processado,
De não saber como fazer se eu perder,
Tu tens medo 
Porque, como eu,
És concursado
E precisas do salário pra viver,
Porque uma coisa é escrever no Whatsapp 
Outra coisa é fazer greve:
Pode doer.
Ele tem medo
Porque é mimado,
Porque pensa que pode tudo 
E que a cidade vive conforme seu bel prazer,
Porque é prefeito
E quer ser reeleito,
E a gente pode fazer ele não ser.
Nós temos medo 
Porque somos humanos,
Temos família,
Mulher,
Marido,
Filhos a crescer,
E compromissos,
Contas a pagar,
E um juramento do qual não podemos nos esquecer.
Vós tem medo
Porque, como nós, sabeis 
Como é dificil o mundo das leis:
No pain, no gain,
E vós ireis sofrer,
Mas eles tem medo
Porque lá no fundo 
Sabem que querem, mas não são os donos do mundo,
E nossa verdade faz o coração deles tremer.
Eles têm medo porque são covardes 
E porque sabem que não vão vencer
Porque com "todos os tristes 
Querendo juntos,
toda tristeza vai desaparecer"

12.1.20

Afinação

Como eu posso discordar 
Do que quer essa mulher:
Se quer ir, se quer voltar,
Ou se não sabe o que quer,

Se é ela meu esteio,
Se mora em meu coração, 
Razão pra tudo que eu creio 
Se ela é minha inspiração?

Como eu posso me meter
Nas decisões que ela faz:
Quer vender? Não quer vender?
Queria, mas não quer mais?

Quer ou não quer ir a praia?
Quer coca ou quer guaraná?
Quer que sandália? Que saia?
Tão cedo e já quer voltar?

Que direitos eu teria
Se ela sempre me apoiou,
Cuidou da minha alegria,
Minha tristeza assustou, 

Me alimentou, me vestiu, 
Me divertiu, me ensinou, 
Nas crises, me distraiu,
Nas perdas me sustentou?

Como eu posso ir contra ela
Que nunca foi contra mim?
Como, se ela é tão bela?
Como, se eu sou tão ruim?

Como não estar do seu lado 
Seja de que lado for,
Seja um bife mal passado,
Seja um remédio pra dor,

Se não quer se vacinar,
Nem ir ao aniversário,
Se prefere se calar,
Se conta tudo ao contrário,

Não me importa, que assim seja
Quando ela diz, eu aceito, 
Ela é a luz da minha igreja,
Meu modelo mais perfeito,

To nem ai pro que pensam,
Pro que acham que ela é, 
Minha mãe é minha bênção,
Meu exemplo de mulher,

É #lulalivre? Perfeito. 
Apoio o que ela pedir.
A mãe que me deu o peito 
Que me deixou existir

É a mãe que me trouxe à vida 
Me mostrou a direção 
Enfrentou a dor comprida 
Nunca soltou minha mão 

Então ela que decida
E saibam vou concordar 
Não existe outra saída 
Não adianta tentar 

Se ela pede, não importa, 
Torno minha obrigação 
Minha viagem sem volta 
Minha mão sem contramão 

Não há como não fazer
Cada coisa que ela pede
Se ela sempre foi ceder
Carinho que não se mede

Sacrifício sem medida 
Sofrer que não faz sofrer 
Dor que é sempre convertida 
Em fé, como deve ser

Então como posso, diga,
Contestar se ela é diz não?
Se ela é dona da minha vida
E é dela meu coração?

25.12.19

Mãezinha, tu sabias?

Livre adaptação do poema "Mary, did you know?" de Mark Lowry, dedicado aqui às mães de UTI do mundo inteiro

Mãezinha, tu sabias
Que o teu bebê venceria tantas lutas?
Será que tu sabias
Que ele modificaria tantas vidas?
Tu sabias que o teu bebê
Traria no coração a força de um gigante
E que o filho a quem tu deste à luz
Te faria uma mulher tão imensamente forte?
Mãezinha, tu sabias
Que o teu bebê inspiraria o dia a dia de tantas pessoas?
Será que tu sabias
Que o teu bebê veio ao mundo
Para fortalecer teu coração,
E que ao beijar teu bebezinho
Tu beijavas a quem Jesus chamou "a luz do mundo "?
Mãezinha, tu sabias?
Acaso tu sabias?
Será que tu sabias?
A ciência um dia compreenderá
Que o teu colo cuidará
E que nenhum poder irá se comparar
Ao poder do teu abraço,
Mãezinha, tu sabias
Que é teu bebê quem nos dá lições diariamente?
Acaso tu sabias
Que é ele o verdadeiro herdeiro do amanhã,
Que o teu filho é a imagem e semelhança de nosso Pai que está no céu,
E que que a criança em teus braços é uma grande promessa de amor para nosso planeta?
Mãezinha, tu sabias?
Acaso tu sabias?
Será que tu sabias?

29.10.19

Medicina baseada no que tem

Se tem Dipirona faz, e se não tem
Dá um banho de água fria demorado,
Levanta o travesseiro, faz um bem
Se o oxigênio tiver terminado,

No corredor sempre cabe mais alguém
Quando o repouso já está lotado,
A tomo já marcou pro ano que vem
Quando ele não vai mais precisar ser operado,

É a medicina baseada no que tem:
Se tem bem, e se não tem, amém,
Não sai curado mas sai remendado,

É a medicina da terra brasilis:
Em vez de uma Hillux, uma Rural Willis,
É o país pobre cuidando do esfarrapado.

27.10.19

Desgoverno

Esse governo precisa ser estudado,
Esse governo precisa ser demitido,
Esse governo precisa ser boicotado,
Esse governo precisa ser proibido,

Esse governo precisa ser deportado,
Esse governo precisa de ser impedido,
Esse governo precisa ser condenado,
Esse governo precisa ser destituído,

Esse governo precisa ser desligado,
Esse governo precisa ser bloqueado,
Esse governo precisa ser esquecido,

Esse governo precisa ser enterrado,
Esse governo precisa ser acusado,
Esse governo precisa ser dissolvido...

20.10.19

O fim

Mas isso é trágico, querida poetisa
Um grande amor não vai morrer assim
Às vezes a única coisa de que ele precisa 
É de um soneto prevendo seu fim

Terminar é trágico demais quando se avisa
Um grande amor não pode ser tão ruim 
Às vezes é assim mesmo, desestabiliza
Depois volta ao normal. E diz que sim

Na verdade nem sei se isso é verdade 
Se um grande amor existe na realidade 
Ou se é só coisa própria da poesia 

Mas se for só por poesia, imaginada 
Que lave a alma da pessoa amada
E sobreviva, por teimosia

20.9.19

João

Impressionante o que o João faz com o violão,
Que nas mãos de João parece outro instrumento,
E a voz de João, conversando com sua mão,
Faz a música brotar outra música por dentro...

João não precisa de usar diapasão
Porque a alma de João é feita de afinamento
Impressionante, não tem explicação,
João e o violão... que casamento ...

Nada sai da forma que a gente esperava escutar,
João muda tudo quando começa a cantar,
João refaz o samba do seu jeito,

Eu nunca ouvi ninguém tocar violão assim,
Só mente quando diz que tristeza não tem fim,
João, como se fosse um sinônimo de perfeito.

12.9.19

Todo mundo precisa de saude

Todo mundo precisa de saude:
Tem gente que precisa de uma cirurgia,
Tem gente que precisa de uma nebulização,
Tem gente que precisa de fisioterapia,
Tem gente que precisa de antibióticoterapia, Tem gente que precisa de vacinação,

Mas todo mundo precisa de saude,
Ninguém precisa de uma ambulância estragada, Ninguém precisa de uma farmácia vazia, Ninguém precisa de uma cadeira quebrada, Ninguém precisa de uma emergência lotada, Ninguém precisa de falta de assepsia,

E porque todo mundo precisa de saude,
Cabe ao governo cuidar da nossa gente,
Mais atitude, menos falação
Porque uma cidade tão doente,
Precisa de uma solução urgentemente,
E alguém tem que aprender essa lição:

Todo mundo precisa de saude
Porque a saúde de um povo é seu direito, Ninguém precisa de passar humilhação,
Todo mundo precisa de respeito,
Não ser tratado de qualquer jeito,
E é bom que seja sempre assim, senão...

Reflexão

A gente era feliz e não sabia, E reclamava de barriga cheia, Um tipo feliz que achava que sofria, Uma cidade bonita que se achava feia, E a vida foi seguindo até o dia Em que a sombra, numa reação em cadeia, Foi sequestrando nossa alegria Como um veneno injetado em nossa veia... A gente era feliz, e agora tenta Reagir, porque ninguém mais aguenta, Respirar, pra tentar sobreviver, E quando um dia a sombra tiver passado, Vai ser preciso tomar muito cuidado: A sombra não sabe perder... Vai ser preciso a força dos gigantes Pra gente voltar a ser feliz como antes Sem ter motivos pra se arrepender...

6.9.19

Querido professor

Querido professor

Ao professor Hector Gomez Martinez 

Querido professor de alma serena,
De olhar atento e humano sobre a vida,
Recebe nosso abraço nesse poema,
Uma homenagem, ainda que pequena
Escrita de palavra agradecida,

Muito obrigado pelas lições diárias
Que sua metodologia nos ensina,
Alimentando nossas teses sedentárias 
Com novas conclusões extraordinárias 
De amor, calor e pura ocitocina.

Agradecemos, querido professor,
Por essa guinada da neonatologia,
Que passou a ver o colo como fonte de calor,
Tratar a mãe como um manancial de amor, 
E o leite materno como a grande garantia.

A sua história, a de um desbravador,
É o retrato fiel de um visionário 
Que não cedeu ao inquisidor,
Que não negociou com o impostor,
Que não esmoreceu, pelo contrário,

Desarmou resistências discordantes,
Trazendo luz aos clássicos tratados,
Tornando a vida melhor do que era antes,
Modificando o significado de gigantes,
E brindando a vida com novos significados.

Obrigado professor, por sua coerência,
Pela não cooperação com a coisa errada,
Desafiando com coragem e competência 
A incompetência engessada da ciência,
Que nunca mais foi a mesma,  envergonhada,

Por seu legado para a espécie humana,
Pela força incansável do seu coração,
Obrigado, professor, pela sua gana,
Pela  sua sabedoria soberana, 
E por nunca ter cedido na sua convicção,

Querido professor, iluminado,
Que se tornou nossa fonte de inspiração,
Professor Hector, nosso homenageado,
Professor Hector, muito obrigado
Por sua história de amor, nossa lição...

3.9.19

Medicina baseada no que tem

Se tem Dipirona faz, e se não tem
Dá um banho de água fria demorado,
Levanta o travesseiro, faz um bem
Se o oxigênio tiver terminado,

No corredor sempre cabe mais alguém
Quando o repouso já está lotado,
A tomo já marcou pro ano que vem
Quando ele não vai mais precisar ser operado,

É a medicina baseada no que tem:
Se tem bem, e se não tem, amém,
Não sai curado mas sai remendado,

É a medicina da terra brasilis:
Em vez de uma hillux uma rural willis,
É o país pobre cuidando do esfarrapado.

Campos, formosa

Campos, formosa, cidade iluminada,
Mas com sua saúde sucateada...
Tão sem dinheiro, tão dadivosa,
Acorda, minha cidade preguiçosa,
Formosa, mas que vai sendo tapeada

Cidade feita de luz e madrigais,
E de gente abarrotando seus hospitais
Oh, Paraíba, oh, mágica torrente,
Porque maltratam tanto a sua gente
E a cada dia uma maldade a mais?

Nada se iguala a seus dons e seus primores,
O que ainda falta é acordar os seus gestores
Pra que seus passos, como os de um rei do Oriente,
Não sejam os de um povo pobre e doente
Que agoniza em hospitais, nos corredores.

Campos, formosa, pérola querida,
Predileta do luar, acorda pra vida
Clama por sua gente, val de delicias,
Que espera ansiosa por boas notícias
Como quem espera uma felicidade prometida...

13.8.19

A biometria


Que biometria é o problema que nada
O problema é o teto do hospital desabando
O problema é a cadeira da mesa enferrujada
O problema é o chuveiro que não está esquentando

Biometria um problema? Que piada.
A gente vive mesmo trabalhando.
Dizer que a gente é contra biometria é coisa armada
Porque a nossa luta está incomodando

Porque o que a gente quer é mais respeito
É trabalhar o que a gente sabe, é trabalhar direito
É não ser tratado como o grande culpado.

Que biometria que nada. Dignidade.
O que a gente quer é trabalhar com qualidade.
Dizer que o problema é a biometria tá errado.


28.7.19

As redes

Bastante cansado dessas redes sociais,
Dessa necessidade de postar
As coisas diárias que a gente faz
Como se só as fizesse pra mostrar,

Como se não houvesse nada mais,
Como se a vida fosse compartilhar
O amor, a solidão, a hipocrisia e a paz,
As redes sociais... deu pra cansar...

E vou pro meu cantinho reservado
Como um marzinho nunca dantes navegado
E fico ali sem ninguém me perceber

E nesse silêncio aparentemente solitário
Eu vivo meu planeta imaginário
Que não precisa de flashes pra viver

As sete camadas

Sete camadas, ordenadamente,
Guardando o bebê como quem guarda um diamante,
E que se integram perfeitamente,
Fisiologia absolutamente impressionante,

Sete camadas, até que o bisturi, de repente,
Invade uma a uma através do corpo da gestante,
O bisturi, como um poder onipotente,
Atravessando tudo quanto encontra adiante,

Sete camadas, mas que quase ninguém nota
E que protegem o bebê como uma escolta,
E sabem, cada uma delas, o que fazer...

Sete camadas essenciais, tão esquecidas
Mas sempre atentas e bem resolvidas,
As sete cascas do bebê que vai nascer...

25.6.19

Viva a poesia

Viva a poesia de nossas vidas:
A que deixamos para nossos filhos,
A que recebemos de nossos pais,
A que projetamos lá pra frente,
A que trazemos sempre pro presente,
E a que deixamos pra trás...

A poesia

Bendita seja, nesses dias, a poesia,
Que não tem cor, que é sempre qualquer cor,
Que é ao mesmo tempo quente e fria,
E, ao mesmo tempo, causa e cura a dor,

Bendita seja, Santa companhia,
A poesia, do jeito que for,
Nunca limita, separa, não segrega ou tria,
Nunca tem mais valor, menos valor...

A poesia é palavra ilimitada,
Ao mesmo tempo, enquanto é tudo, é nada,
Ao mesmo tempo, enquanto é morte, é vida

Querer impor limites ao poema,
E ver problema onde não há problema,
É obstruir a porta de saida.

19.6.19

As cinco mil extra-sistoles

Cinco mil extra-sistoles num dia.
Eu leio o laudo e tento me acalmar.
Cinco mil, meu Deus! E eu nem sabia,
Tantas, que somente o holter pra contar...

Cinco mil. Sem sudorese nem taquicardia.
Eu leio de novo. Não quero acreditar.
Faz tempo já não to mais na garantia,
Acho que Deus tá querendo me trocar.

Cinco mil. Até cai bem na poesia,
Mas é procurar a cardiologia
Pra ver se eu devo logo ir me internar...

Eis que o meu medico e amigo, em calmaria,
Responde meu zap (bendita tecnologia):
Resolve fácil, não precisa se preocupar...

18.6.19

Poesias

Você os guarda num blog ou numa folha A4?
Digita ou escreve com uma lapiseira?
Saem de primeira ou depois você dá um trato?
Posta sempre ou mostra só pra companheira?

Dá pra montar com elas seu retrato?
Vem em pedaços ou sempre vem inteira?
São próprias pra platéia de um teatro
Ou para usar numa espreguiçadeira?

A poesia, dona de segredos, 
Livrando o poeta de seus medos
E atirando o poeta seus abismos,

A poesia, que sempre encanta,
Silenciosa as vezes como um mantra,
A poesia e seus preciosismos.

13.6.19

O quibe da vovó Maria

Quem comeu o quibe da vovó Maria,
Frito, de forno, de peixe ou com coalhada,
Nunca mais come outro igual. É covardia.
Bastava o cheirinho e a boca ficava aguada.

Será que era o tempero que ela fazia?
A quantidade de trigo misturada
Naquele bolinho que ela esculpia?
Qual era a receita? Onde ficou guardada?

No coração da gente, na saudade,
Porque falar de vovó dá uma vontade
De um dia voltar a tocar a sua mão...

Ah, os seus quibes... quando novamente?
Vovó Maria, sempre presente
No melhor lugar do nosso coração...

10.6.19

As cinco mulheres

Cinco mulheres empoderadas,
Cinco mulheres amamentando
Suas cinco crianças internadas
E ao lado delas, pouco a pouco, melhorando,

Cinco mulheres determinadas,
Diariamente, a seus filhos, se entregando,
Não desistem, não ficam tristes nem cansadas,
Mas se acaso ficam, vão se superando,

Cinco mulheres que nos representam,
São corações assim que nos sustentam,
Um amor assim é a nossa única saída...

Que Deus abençoe essas cinco mães extremas,
Merecedoras de todos os poemas
E de "todo amor que houver nessa vida"...

9.6.19

Bom dia

Bom dia. E que seja mesmo um bom dia
Com muitas coisas por acontecer,
Algumas delas, motivo pra poesia,
Outras, a gente nem vai perceber:

O vento, o sol nascendo, a chuva fria,
O cachorro na rua, o coração bater,
Milagres diários que ninguém copia
Mas que o dia guarda em seu poder,

Então bom dia. Mais um pra gente,
Porque cada dia é um dia diferente
Ainda que sejam dias quase iguais,

Aproveitemos. É nossa chance.
Bom dia. Gostoso como um romance,
E como as coisas boas que ele faz.

5.6.19

Preciso da tua ética


Preciso da tua ética pra continuar acreditando,
Da tua postura pra continuar te defendendo,
Preciso que não te lembres de mim só de vez em quando
Ou só quando tu estás precisando, ta entendendo?

Preciso que pares de continuar emporcalhando
Nossa cidade assim como tu andas fazendo.
Dessa forma, tu acabas me decepcionando
Enquanto pensas que estás me convencendo...

Preciso que tu permaneças te empenhando,
E que respeites aqueles que, votando,
Vão acabar um dia te elegendo...

Precisas do meu voto pra continuar lutando?
Eu dou. Mas se eu perceber que estás me usando,
Um dia tu acabarás te arrependendo...


2.6.19

Amor de mãe

Amor de mãe é o melhor da vida,
Nada substitui, nunca termina,
Começa muito antes da dor comprida,
Amor de mãe é pura ocitocina,

Não tem tempo ruim, nem despedida,
Amor que é como se fosse uma vacina
Protegendo de toda a dor, toda ferida,
Desafiando a própria medicina...

Amor de mãe não respeita idade,
É o grande legado das mães para a humanidade,
Por tão sublime que é, tão sem pecado,

Tão doce, tão intenso, tão diário,
Não cabe inteiro em nenhum dicionário,
Amor acima de qualquer significado.

30.5.19

A discussão

Um diz que sabe. O outro, que tem certeza.
Um afirma. Outro nega. Os dois se estranham.
E entre o sim e o não, essa estranheza
Onde os dois pensam que batem, mas apanham.

Sobra arrogância. Carece delicadeza.
Quanto mais perdem, mais pensam que ganham.
É verbo solto o que sai da alma presa
De um e de outro, enquanto se arranham.

A discussão, que não vai levar a nada,
Além de deixar a alma mais cansada
Nessa busca obsessiva por ter razão,

Vale como um atestado da estupidez humana
Que morre desgastada em luta insana
E não consegue escutar seu coração.



28.5.19

Poesia

Chegaram até mim,
Feito poemas,
Suas palavras,
Mas eu sabia
Que era amor
Cada cor que iluminava
Cada pedaço
De cada poesia.

Chegaram até mim
Versos sem rimas,
Palavras livres
De metrificação,
Mas deu pra perceber
Que dentro delas
Havia um pedaço
Do seu coração...

Bendita a mão que semeia
Versos livres a mão cheia,
Pro poema se espalhar...
Um verso, caindo n'alma,
Envolve a alma com calma,
Fazendo a alma cantar...

24.5.19

João Gilberto


A primeira vez que escutei João Gilberto
Adorei o jeito do João tocar violão,
Eu nunca vi João Gilberto de perto
Mas ninguém chegou mais perto do meu coração,

Eu vim da Bahia, ele cantava, e estava certo,
E a Bahia não tem comparação,
Ninguém escutou, nem meu avô nem meu neto
Um violão como o violão de João,

A primeira vez que escutei me apaixonei,
Lembro até hoje da primeira vez que escutei:
Ninguém no mundo toca violão assim

Cadenciado, desencontrado,
Afinado ensinando a cantar desafinado,
João tão genial quanto Jobim...

Memórias

Memórias da família que ficaram,
O que nos contaram sobre o que viveram,
Memórias que os anos não apagaram
E que nossos corações não esqueceram,

Como um legado que nos deixaram,
Como fotografias que não envelheceram,
Gestos gentis que nunca amarelaram,
Carinhos bons que nunca se perderam,

Histórias que nossos antepassados nos contaram,
Daqueles dias desde que aqui chegaram,
Do que enfrentaram, de como cresceram,

E da saudade da pátria amada que deixaram,
E do amor dessa nova pátria que encontraram,
Do tanto de amor que entregaram e receberam...

Marthinha

Marthinha aparece,
Não esquece da gente,
Eu sei que somos um grupo as vezes displicente,
Somos uma multiplicidade de pensamentos,
A incrível turma de mil e novecentos
E oitenta e três,
Falamos muitos assuntos, todos de uma vez,
Mas quando uma voz
Como a sua, amiguinha,
Fica escondidinha,
Sem dizer nada,
Faz uma falta danada,
Porque você é como chicabom:
É tudo de bom.
Por isso, fala alguma coisa
Pra gente saber
Como foi seu dia,
Como está sua filha,
Como estão seus netos,
Seus projetos,
Como está seu coração,
Fala de maconha,
De Chico,
De chikungunya,
Fala da cor do seu esmalte de unha,
Fala de amor,
Mas fala,
Porque quando você se cala,
O que todo o resto fala
Parece não dizer nada,
Você faz uma falta danada,
Você faz uma falta, danada,
Antenada,
Descolada,
Que adora uma pedalada,
E uma discussão bem temperada,
Fala,
Estala os dedos,
Diz dos seus medos,
Conta da solidão,
Fala do seu novo apartamento,
Desse fogão rabugento
Que só esquenta as panelas que ele quer,
As outras não,
Fala mulher,
A gente escuta,
Pode chamar Lula de filho da puta,
Bolsonaro de jumento bem intencionado,
Eu vou ler e vou gostar
Porque melhor que concordar
Ou discordar,
É aceitar
Você aqui do nosso lado.
Por isso esse poeminha improvisado.
Volta, Marthinha,
Sem você esse grupo parece abandonado,
Adoro você,
Adoramos você,
Tenta aparecer...
Marthinha,
Cadê você ?
Eu vim aqui só pra te ver...

Um beijo no seu coração

Bom dia

Que seja um dia bom demais pra gente,
Notícias boas pra nos alegrar,
Que comece com pão com queijo, café quente,
E o amor, porque o amor não pode faltar,

Que o Whatsapp mande posts diferentes 
Dessas más notícias que nos  costuma mandar,
Que Deus esteja, também, sempre presente 
Em cada decisão que a gente tomar,

Seja pra esquerda, seja pra direita,
Que a gente faça da forma mais bem feita,
Que é o unico jeito da gente escapar

De arrependimentos que doem tanto...
Bom dia, sem maldade, sem quebranto,
E com a luz divina sempre a nos guiar.

23.5.19

Blanca

Eu bem que tentaria, se eu soubesse,
Um sonetinho lindo que homenageasse
O seu aniversário, você merece,
Ah, se eu tivesse essa classe...

A prova de que Deus nunca nos esquece,
É ter permitido que você estreasse
Nesse planeta como uma rosa que floresce,
E torna feliz o mundo quando nasce.

E foi exatamente assim naquele mês de maio:
Você nascia, forte como um raio,
E doce, pra uma doce encarnação,

A filha, a mãe, a avó e a médica, misturadas,
Que sintam-se nesse soneto homenageadas,
Que é quase nada, mas que vem do coração.

O relógio de ponto

O relógio de ponto está instalado,
Vai preparando sua digital,
Estrategicamente bem instalado
Na pequena varanda, perto do quintal,

Olhando de pertinho, o desgraçado
Até que não parece ser assim tão mau,
Mas não se engane: chegou atrasado,
Vai se entender com o poder municipal.

Não foi de graça, muito pelo contrário,
Mas pra vigiar esse bando de proletário
Não custa nada gastar um dinheirinho,

E eu que nunca sonhei com a aposentadoria,
Já tô desde agora imaginando o dia
Em que eu não precisar mais enfiar no relógio o meu dedinho.

Um poema pra Bia

Pra escrever um poema para Bia
Escolha uma palavra delicada,
Tempere com pitadas de alegria
E um aroma de coisa perfumada,

Tome o cuidado para que a poesia
Seja na medida para a homenageada,
De forma que, ao receber, ela sorria,
E quando ela sorrir se sinta amada,

Então, para escrever um poema assim,
Como uma amizade que não tem fim
Porque se faz diariamente conquistada,

Envolva-o com laços de sinceridade,
E avise pra sua amiga da faculdade
Que a poesia dela já pode ser usada.

Quinta feira

Amanhece nublada a quinta feira,
Jeito de chuva, cinzenta, dia frio,
Calor parece que só na agua da chaleira
Que quando ferve solta um assobio,

Quinta com frio. Não tá de brincadeira.
Sair de debaixo do cobertor causa arrepio.
Coitado de quem toma banho de banheira.
Castelo da Frozen, esse estado do Rio.

As articulações enferrujadas 
Me dizem que preferem continuar deitadas
Sem perceber que há muito o que fazer,

Então, movimentando as minhas juntas,
Eu finjo que não escuto as suas perguntas,
E assim a quinta começa a acontecer.

A ingratidão

Eu trago aquele poema aqui guardado,
Poema que nunca mais libertou meu pensamento,
Que foi como um vírus quando inoculado
Mudando quase tudo aqui por dentro,

E sempre que o leio, confesso-me assustado,
E cada vez que o faço, eu sou quem tento
Compreender o que há por trás do seu significado
E me repito a todo momento:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja

A ingratidão, o nome dessa pantera
Matando o último sonho, a última quimera,
Como uma larva venenosa que rasteja...

22.5.19

Bom dia

Bom dia meu povo forte e destemido,
Povo que não dá mole e nem vacila,
O bicho tá pegando, mas tá bem vestido,
Uns de scarpin outros de mochila,

E que já chega no trabalho decidido
A sentar no consultório e comer fila,
Bom dia meu povo comprometido,
Povo valente, como o Sansāo de Dalila.

Bom dia porque hoje é mais um dia
De misturar a fé com a correria
E não perder o prumo da empreitada,

E porque somos valentes o bastante,
Por isso chegamos aqui e vamos adiante,
Sempre com Deus, porque sem Deus não somos nada.

21.5.19

Triste Rio

Que Rio triste de Janeiro a Janeiro,
Que Rio cheio de tiroteio,
Que Rio triste terra de pistoleiro,
Que Rio triste, nunca vi mais feio,

E eu que gostava tanto do Rio inteiro:
Flamengo, Copacabana, Catete, Recreio,
Mas hoje, "o que é isso, companheiro ?"
Diria Gabeira, cheio de receio...

E o tiroteio diário que não para,
Acaba com a baía da Guanabara
Deixando triste nosso coração...

Ah, Cristo Redentor que nos redime,
Livra nosso Rio de tanto crime,
E cobre o Rio com sua proteção...

1.5.19

Dia do trabalho

Acordar cedo. Diariamente.
Obedecer às ordens do patrão.
Salário não compra tudo. Provavelmente
Ou vai faltar manteiga ou faltar pão

E a cada dia tudo novamente
O relógio de ponto é o olho do patrão
Faça calor ou chova torrencialmente
Vale o que ele marca. O resto não.

É finalmente hoje é dia do trabalhador
Não tem relógio de ponto. Nem sim senhor.
Nem tem conversa fiada pra escutar.

Dia de casa. De festa. Um lindo dia
Tão lindo que mesmo com a panela vazia
A gente sai pra comemorar

26.4.19

Lastro

As vezes a palavra é como o lastro
Dificultando o vôo do balão,
É como usar um alfabeto gasto
Pra definir o que vai no coração,

O coração, esse horizonte vasto,
Por mais que a palavra lhe tente tradução,
É como um navio que perde o mastro
E busca se manter na direção.

Então a palavra, insuficiente,
Traduz bem o coração tão raramente
Que às vezes o faz melhor quando se cala,

E o silêncio, mais que a verborragia,
Transforma estupidez em poesia
Sem precisar da palavra torta e rala.

Sonetos

Ora direis, fazer sonetos,
Certo perdeste o censo, eu vos direi, no entanto,
Que para combinar quartetos e tercetos
É necessário descobrir algum encanto,

Direis: escritos de formatos obsoletos,
Não têm modernidade e pesam tanto...
Quanta sandice, tolos preconceitos,
Nem sei por conta de que ainda me espanto.

Não vês a arquitetura que há entre as rimas,
Irmãs que são como se fossem primas,
E, mesmo separadas, permanecem

Tecendo versos, tramas sonetadas,
Seguindo juntas, mesmo separadas,
Como dois corações que não se esquecem...

8.4.19

A espécie humana

Eu sigo preocupado, descrente, desiludido,
A especie humana não se protege, leviana,
Enquanto se imagina engrandecido
O homem, esse idiota, só se engana,

Eu sigo preocupado, e já não ligo
Quando chamam de desumana a espécie humana,
Que vive em torno do seu próprio umbigo
E não percebe seu fim que assim se trama,

Eu sigo preocupado. Mundo estranho.
Mesmo quando um só perde, não há ganho,
Porque seguimos na mesma embarcação,

Eu sigo preocupado, e a cada dia
Só me resta conversar com a poesia
Pra tentar acalmar meu coração.

6.4.19

A madrugada

Porque será que Deus criou a madrugada,
Esse intervalo entre acontecimentos,
Tempo quase todo feito só de nada,
Celeiro bom de se guardar pensamentos,

Espaço onde a melhor decisão é planejada,
Oportunidade única para arrependimentos,
Porque será que a madrugada foi criada,
Esse dia visto pelo seu lado de dentro?

Quem sabe sobraram algumas caixas vazias,
E no finalzinho daqueles sete dias,
Faltando pouco para o criador descansar,

Deus resolveu dar a elas utilidade,
Daí a madrugada e sua capacidade
De guardar o que não caberia em nenhum outro lugar

5.4.19

O soneto

Tentei um soneto. Não aconteceu.
Tentei mais um outro. Não consegui.
Tentei um terceiro que no meio se perdeu
Foi nessa hora que eu quase desisti

Mas nesse instante o soneto percebeu
Que se eu desistisse ele deixava de existir
Sua insistência me convenceu
Por isso esse soneto escrito aqui

Não de improviso, mas de insistente,
A poesia as vezes se parece com.essa gente
Que não sossega enquanto não consegue

Tentei um soneto e o soneto atentado
Me atentou até ser digitalizado
Pra no final não saber nem pra quê que serve

17.3.19

Conversas com mães

Conversas com mães são aprendizado,
São como beber água direto da nascente,
Tesouro precioso e delicado,
E único, e doce, e diferente...

Tem sempre um grande significado,
Mãe é palavra que motiva a gente,
Conversas com mães são como um grão semeado,
Uma floresta em estado latente...

Conversas com mães nunca são conversas à toa,
Tem uma sonoridade que ressoa
Musicalizando o ambiente,

Conversas com mães são fontes de experiência,
E não importa o nível de evidência:
Nada é mais claro,  nada é mais evidente.

4.3.19

Deus

Enquanto a gente se descuida e se destrata,
E se desentende e se machuca e se maltrata,
É lindo saber que Deus cuida da gente,
Seus filhos as vezes desajuizados,
Nem sempre bons ou bem intencionados,
Mas de quem Deus cuida de modo incontinenti.

3.3.19

Super heróis

Nós somos super heróis,
Nós temos super poderes,
Nós somos os seres mais incríveis do planeta,
Não temos medo de mascarado,
Não temos medo do boi da cara preta,
E o que nos faz invencíveis
É o amor,
E é tanto amor o amor que recebemos,
E tanto amor o amor que que respiramos,
Que foi por isso que nós vencemos,
Por tanto amor envolvido,
E foi por conta desse amor que transformamos
Saudade em vontade de ficar logo bom,
Medo em vontade de ser feliz,
Enfrentar a dor é o nosso grande dom,
Somos incríveis,
Somos os super heróis mais fortes do país,
Somos princesas e príncipes vencedores,
Nossas famílias são nossos amores,
E através delas passamos a entender
Que o amor é o nosso super poder,
Nós somos super heróis,
Vivemos grandes histórias,
Nós temos pra contar grandes vitórias
Muitas lutas ainda pela frente,
Certamente,
Mas vamos vencer,
Porque somos super heróis,
Nós temos super poderes,
Nós somos seres mais guerreiros que conhecemos,
Por amor aqui chegamos,
Por amor lutamos,
Por amor vencemos,
Nós somos super heróis,
E o amor é o maior poder de todos os poderes que nós temos.

Homenagem da UTI Nicola Albano a seus pequenos grandes super heróis

17.2.19

A hora a mais

Ganhei uma hora a mais, nem esperava,
Chegou ao fim do horário de verão,
Exatamente a uma hora a mais que eu precisava
Pra descansar mais um pouco do plantão.

Coisa boa quando a gente nem contava
E vem pra gente sem contra indicação:
Aquela uma hora a mais que eu procurava
E já tava achando que não ia achar mais não.

Ganhei uma hora a mais. Que coisa boa.
Melhor que ouvir samba dos Demônios da Garoa,
Melhor que melhorar de um resfriado,

Uma hora que eu estou agora aproveitando
Pra escrever um poeminha e ir descansando
Enquanto acerto o relógio adiantado.

11.2.19

Dez meninos


Dez meninos inocentes assassinados,
Sem que ninguém assuma a culpa do que os matou,
Como se houvesse crime sem culpados,
Assassinados que ninguém assassinou,

Dez meninos queimados vivos, violentados,
Ninguém confessa publicamente que errou,
Por trás de meninos mortos, homens errados,
Dez meninos com quem ninguém se importou,

Dez meninos, dez sonhos, dez famílias,
Dez inocentes vítimas de armadilhas,
Dez mães que já não podem mais ninar

Seus dez filhos, meninos que partiram,
Indo dormir sem perceber que dormiram
Um sono do qual não mais iam acordar...

30.1.19

Morte

Pedaço da minha vida que eu não conheço,
E faço de conta que nunca vou conhecer,
Pedaço que começou lá no começo,
O que toda gente chama de nascer,

Pedaço sem rota, sem data, sem endereço,
Como uma palavra que a gente evita escrever,
É vida, escrita pelo lado avesso,
Como o dia esperando o amanhecer,

Uma palavra, não outra, definitiva,
Talvez de todas elas a mais viva,
A mais presente em nós pela vida inteira,

Morte, mas não precisa chama-la assim,
Porque embora aparentemente seja o fim,
Segue vivendo à sua própria maneira...

27.1.19

Blogs

Guarde poemas no blog. Funciona
Como um caderno aberto para a vida,
E tanto faz se em Tóquio ou em Atafona,
Toda poesia é universalmente lida.

O blog é poderoso como a prednisolona,
Nele a palavra brinca distraída,
Tem gente que acha cafona,
Eu acho um must, coisa mais querida...

Experimente um blog. Poste um poema,
Ou, se preferir, mais de um, não tem problema:
O blog aceita todos com ternura,

Poemas fazem os blogs mais felizes,
E blogs fazem poemas criarem raízes,
E aí começa a semeadura...

6.1.19

A palavra

A mesma palavra pode possuir força pequena
Ou, se a gente permitir, grande demais,
Pode ter o cheiro acre de uma ozena
Ou o sabor doce dos dias de paz

A mesma palavra pode ser gangrena
Ou divertidos balões de gás,
A mesma, ser a rima de um poema
Ou a escolha por Barrabas,

A palavra pode possuir todas as formas,
Obedecer ou transgredir todas as normas,
Dependendo do terreno onde é plantada,

Carregada de ódio, torna se morte,
Temperada de amor, torna se forte,
A mesma palavra significa tudo ou nada.

5.1.19

O coração

O coração às vezes exagera,
E fala coisas que não era pra falar,
O coração às vezes perde a linha,
É como se uma extra sistole daninha
Fizesse o coração extrapolar,

O coração às vezes perde o ponto
E se torna vítima da própria taquicardia,
Desanda a dizer palavras sem sentido,
E quando vê, não era pra ter sido,
E quando vê, já fez o que não queria,

Aí é tarde demais. Se fez tá feito.
Não tem conserto pro leite derramado.
E como um parto. Não tem mão dupla.
Nem adianta depois pedir desculpa,
Melhor seria não ter exagerado...

E necessário muita calma nessa hora,
E alimentar o coração diariamente
Com doses homeopáticas de alegria.
Um coração feliz não gasta o dia
Com atitudes inconsequentes.

Alegria, alegria. Sem azedume.
Alegria, alegria. Como na canção.
Alegria, alegria, sem arrependimento.
Sem taquicardia, saturando cem por cento.
A vida é bem melhor sem confusão.

1.1.19

Poeminha de ano novo

Finalmente acabou o ano passado,
Chegamos até que enfim no ano que vem,
Estou me sentindo completamente renovado,
Como se fosse um neném,

As coisas ruins que eu vivi deixei de lado,
Trouxe comigo só lembranças de bem,
Daqui pra frente mais nada errado:
Nem querer nem fazer mal a ninguém,

Ah, bem que poderia ser assim:
Um ano novo sem nada de ruim,
O ano que passou virar poeira...

Mas vai depender mais de mim que da virada
Ter minha vida modificada,
Porque não dá pra ser de outra maneira...

28.12.18

Feliz ano passado

Feliz ano passado porque você cresceu
Quando você sofreu e quando você sorriu,
Feliz ano passado por tudo que aconteceu
E ainda assim você não desistiu,

Feliz ano passado pelo que você perdeu,
Mas bem mais que isso, pelo que você reconstruiu,
Porque o que você perdeu nem era seu,
Mas ao se reconstruir você se permitiu

Ser mais feliz, ainda que sem sorrisos,
Porque corais de anjos são mais que só guizos,
E as coisas em que a gente acredita são as que há,

Então, por isso, feliz ano passado,
Não há colheita do que não foi semeado,
E é isso que se chama caminhar...

24.12.18

A canção no leito de morte da menina

A canção no leito de morte da menina
Era como se fosse uma oração,
Era uma canção como se fosse um lamento,
Uma canção cheia de luz por dentro,
Era uma canção de aceitação...

A canção no leito de morte da menina
Como se fosse a prece derradeira,
Diante de um anjo, uma canção de dor,
Vestida das costuras de um amor
Emocionando a UTI inteira...

A canção no leito de morte da menina,
Num idioma sem necessidade palavra,
Era uma canção sem culpa, sem pecados,
Canção de pai e mãe emocionados
Para a menina que se libertava...

A canção no leito de morte da menina,
Um acalanto prum bebê que já não ouvia,
Uma canção, como um agradecimento,
Canção de fé abrandando o sofrimento,
Canção de amor como poesia...

A canção no leito de morte da menina
Terá para sempre um sabor de eternidade,
Diante daquela vida que se ia,
O voz dos pais fazia lembrar Maria:
"Cumpra se em mim conforme a tua vontade"

16.12.18

Catarina e Alice



Quanta meiguice
Alice e Catarina,
Quanta energia,
Quanta levadice,
Que jeito bom de viver:
Um corre corre que nunca termina,
Quanta adrenalina,
Que coisa doce
Catarina e Alice,
Tão pequeninas,
Tanto poder,
O dia inteiro pra baixo e pra cima
Como se o resto do mundo não existisse,
Além do que elas fazem acontecer...
São duas almas gêmeas essas primas,
Alice e Catarina
Como um imã,
Como se uma sem a outra não pudesse ser,
Na hora em que uma da outra se aproxima
Pode apostar: é pura peraltice
Alguma coisa elas combinam fazer
Se você visse
O sorriso que Alice dá pra Catarina
Quando Catarina resolve aparecer
Ia ficar mais fácil entender
Que Alice e Catarina
São como a rima
Que faz a poesia acontecer,
Quanta ternura, quanta meninice
Quanta breijerice
Catarina e Alice
A coisa mais bonita de se ver

15.12.18

As palavras de Deus

Para o pequeno Miguel em 15 de dezembro de 2018
"Passará o ceu e a terra
Mas minhas palavras não passarão"
Passarão os dias,
Dia após dia,
Passarão as noites
Em sua repetição,
Passará o tempo
Que desafia tudo,
Passará a vida,
Suas palavras não,
Passará a dor,
O desespero,
O medo,
A fome,
A culpa,
A sombra,
A danação,
Passará o outono, a primavera, o inverno,
Passarão os dias leves de verão,
Os dias de seca,
Os de ventania,
Os de calor e os de inundação,
Os dias seguirão o seu destino,
Mas Suas palavras permanecerão
Como um pastor que protege seu rebanho,
Como um vigia,
Como um guardião,
Ou como um manto para as horas de fraqueza
Em que a alma necessita de proteção,
Como alimento,
Como descanso,
Como água da fonte,
Ou como consolação
Para os tempos de tristeza
E de agonia,
E para os dias de angústia e solidão,
Para as horas mais pesadas
Quando a alma se percebe mais vazia,
E os para os dias vazios
Quando os pensamentos já não sabem pra onde vão,
Passarão metástases e Titanics,
Impérios imbatíveis ruirão,
Legisladores, senhores, escritores,
Doutores da lei, todos desaparecerão,
Mas Suas palavras
Cheias de vida eterna,
Depois que tudo se for
Elas não irão,
Por isso,
Quando todas as esperanças se esgotarem,
E tudo em volta for só medo e aflição,
Ainda nesse tempo sem esperança
As Suas palavras não cederão,
E ainda que andemos pelo vale da sombra,
Pelo caminho sombrio da morte e da desolação,
Não temeremos mal algum,
Porque a Sua presença
Com seu cajado
Será sempre a nossa consolação...
Por isso o céu passará,
E ainda a terra,
Mas Suas palavras
Sempre serão
Caminho,
Verdade,
Vida,
Alívio,
Bálsamo,
Consolo,
Bússola,
Orientação,
Por isso passará o céu e a terra,
Mas Suas palavras não passarão.

A poesia

A poesia como contentamento,
Como se inconformar com a solidão,
Como um reflexo de encantamento,
Como um moço feliz na multidão,

Como desabafo, como lamento,
A poesia com uma única condição:
Que não deixe de ser nenhum momento
A caligrafia do coração,

A poesia como fio guia,
Como os primeiros raios de sol trazendo o dia
E anunciando o fim da escuridão,

A felicidade possível, a poesia,
A possibilidade acessavel de alegria,
A porta do Reino da abstração...

9.12.18

A morte é um dia que vale a pena viver

Para Ana Claudia Quintana Arantes

A morte é um dia que vale a pena viver
Porque viver vale a pena enquanto a vida pulsar,
E se a vida tem um pedaço que a gente chama morrer,
A morte tem outro pedaço que significa acordar,

Por isso a morte e um dia que vale a pena pra ser
Vivido de modo completo até o tempo apagar,
Um dia sem necessidade de máscaras pra se esconder,
Um dia sem necessidade de razões pra se argumentar,

A morte é um dia em que vale a pena crescer,
Pedir perdão e perdoar, pois não há tempo a perder,
Um dia que vale a pena porque não vai mais voltar,

A morte é a última chance que a gente tem de aprender
Que o amor é a única coisa capaz de permanecer
Quando o relógio de todas as outras coisas parar...

4.12.18

Era

Era pra ser poesia mas foi prosa,
Pra ser leveza, mas foi solidão,
A vida às vezes é meio preguiçosa
E teima caminhar na contramão

E o que era pra ser farta e generosa
Vira farelo de rosca, pó de pão,
A vida às vezes é meio desastrosa
E vai seguindo sem prestar muita atenção

Então o que era pra ser, quando nasceu, poesia
Vira um monocórdio, uma monotonia,
Descartável, como um pedaço de papelão

Era pra ser poesia, que ironia,
Tornou se um canto de melancolia
Provavelmente por falta de opção.

3.12.18

O significado

Cada palavra um significado,
Cada significado uma explicação,
Se você entende o significado errado
Acaba entendendo não,

Entende para um lado o que é para outro lado,
Se é para o céu entende que é pro chão,
Se é leve você toma como pesado,
Quem entende errado perde a razão,

Saber o que cada palavra significa
Descomplica, e ao que tudo indica, simplifica,
Saber o significado é o mapa do caminho,

É como nadar e não morrer afogado,
É como marcar e não chegar atrasado,
Mesmo em se caminhando devagarinho...

24.11.18

O otimismo e a esperança





"Otimismo é quando sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro.
Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração"
Rubem Alves

I
Quando do lado de fora é primavera,
E a vida se espalha, imensa como um mar,
Disseminando delicadeza e alegria,
Como se fosse luz a transbordar,

E quando tudo em volta inspira vida,
E a vida dá sinais de se encantar,
É nessas horas que o lado de dentro
Também começa a se modificar,

E contagia o coração com essa alegria,
E o coração reescreve sua harmonia
Com elegância e preciosismo...

Nessas horas em que o lado de fora se ilumina,
E lado de dentro se contamina,
O nome, quando isso acontece, é otimismo.



II
Mas quando do lado de fora é tempestade
E tudo em volta parece desabar,
Disseminando desassossego
Como se toda luz fosse apagar,

E quando o caminho em torno é sol e seca,
E as nascentes perdem sua força de brotar,
E o lado de dentro, mesmo nessas horas,
Não mostra sinais de desanimar,

E as fontes borbulham do lado de dentro
Que enfrenta com força e gana o sofrimento,
E dilui a amargura com bonança,

Nessas horas em que o lado de fora é todo ameaça,
E o lado de dentro se acende em luz e graça,
O nome, quando isso acontece, é esperança.


III
Então os dias de medo e desespero
E os momentos de cansaço e dor,
Quando tudo em volta magoa, assombra e fere,
E o horizonte é desalentador,

Nem esses dias de desassossego
Tem poder que possa ser tão devastador,
Porque o coração tem segredos bem guardados
E cada um deles têm um nome: amor,

Segredos capazes de reinventar a primavera
Quando lá fora a seca desespera,
E o mar insiste em se tornar sertão,

Segredos, como suas duas fontes borbulhantes:
O otimismo e a esperança, dois gigantes,
Que moram dentro do coração...

23.11.18

Encontro de poesia

Imagina um encontro
Rimas e faltas de rimas
Com faltas de métricas
E métricas se falando
Como uma máquina de fiar versos tecendo
Um caldeirão de onde poemas vão brotando
Um encontro físico
Com endereço
Portão e porta
Mesa e cadeira pra cada um Ir sentando
Café com broa
Uísque não
(A poesia pode acabar se assustando)
Eu leio
Você lê
Ela lê
Aquele outro ali prefere ficar em silêncio escutando
Uma rodada de chá de morangos com kiwi
Alguém declama Gullar
(E eu daqui fico só imaginando):
"Sua voz quando ela canta
Me lembra um pássaro, mas
Não um pássaro cantando. 
Me lembra um pássaro voando"...

22.11.18

O tamanho do amor



Para Gylsinha

Quem é capar de explicar,
Quem é capaz de entender,
Quem é capaz de intuir
O tamanho do amor de uma mãe de UTI?
Existe medida no mundo
Que seja capaz de exprimir?
Que estudioso escondido
Pelas bandas de Aghâdir,
Com que cálculos, que instrumentos,
Com que ábaco há de conseguir?
Haverá sextante,
Telêmetro,
Ou régua capaz de abstrair?
Se fosse um novelo de lã,
Desenrolado,
Até onde dava pra ir?
Será que uma volta inteira,
Ou duas em volta da Terra
Pra depois parar aqui?
Em quantos mares caberia
Se a gente pudesse medir?
Qual o tamanho
Desse amor imenso,
Capaz de fazer essa mãe não desistir?
Que fortaleza ela veste,
Intransponível,
Que nada a consegue ferir,
E ainda nas tempestades e tormentas
Não a deixa não sorrir,
E não há medo que a faça estagnar,
E não há dor que a faça sucumbir?
E se a mais ninguém é dada
A permissão pra sentir,
Como é possível entender
Esse amor sem se confundir,
Que é fácil identificar
E impossível definir?
Amor que é maior que a dor
Que esse tanto amor faz sentir,
Amor incondicional,
Incapaz de se distrair,
Quem é capaz de explicar,
Quem é capaz de entender,
Quem é capaz de intuir
O tamanho do amor de uma mãe de UTI?

Esse amor, que de tão grande,
Maior que a imaginação,
Não cabe em canto nenhum
A não ser nesse cantinho
Que chamamos coração.

17.11.18

A comunicação contingente

Você me posiciona confortavelmente
E eu melhoro consideravelmente a minha saturação,
Você percebe que eu estou impaciente,
Reduz a luz ambiente e me dá contenção,

Eu regurgito, regurgito novamente,
E então você pede silêncio no salão,
Você me pega no colo, eu fico contente,
E pego no sono nessa posição.

A gente dialoga diariamente,
E apesar de falarmos em línguas diferentes
Você me entende com perfeição,

Porque cada pedido meu você atende,
E se eu agradeço a você, você me entende,
Não precisamos de tradução...

O toque

Quando você tocar a minha pele
Você também vai estar tocando meu coração,
Você me assusta ou você me acolhe
Quando você me toca, você escolhe
O que vai me causar com a sua mão.

Então, quando você toca a minha pele
Suavemente, como quem tenta me acalmar,
Percebe só: meu choro vai passando,
Você consegue, apenas me tocando,
Fazer meu coração desacelerar...

Mas quando você toca a minha pele,
E faz isso sem me dar a mínima atenção,
Eu estranho você, e sinto medo,
O toque é meu idioma desde cedo,
E eu conheço, através dele, a sua intenção...

Por isso quando você tocar a minha pele,
Nessa hora nós dois vamos estar dialogando,
Pense nisso quando você for colocar as mãos em mim,
Porque eu posso responder ou não ou sim,
E desse jeito a gente vai se comunicando.

15.11.18

Manhã republicana

Manhã republicana, cidade vazia,
Parece que sou o único, voltando do plantão,
Que para, avança, acelera, freia, espia,
E para na padaria e compra pão...

Escuto Chico: "E a cidade em romaria
Vem beijar a sua mão"...
Chico merece. É pura poesia.
Tua cantiga, Chico, minha canção...

Manhã republicana silenciosa,
A República que era pra ser poderosa
Virou um álbum de patifaria...

Manhã republicana e anestesiada,
Parece que a cidade "se quedou paralisada"
Esperando pela chegada do Messias*...

8.11.18

As escolhas sagradas

Cada um de nós tem escolhas sagradas
Guardadas dentro do nosso coração,
Permanecem, essas escolhas, intocadas,
Até o momento da grande decisão:

Escolhas que não podem ser trocadas,
Não são passiveis de negociação,
Tem uma hora em que não são mais adiadas
Porque se tornam nossa unica proteção...

Escolhas que nos cobrem como mantos,
Suavizando a dor com seus encantos,
Transformando turbilhão em calmaria,

Escolhas sagradas, definitivas,
Bem aventuradas, compassivas,
Antídotos para as horas de agonia...

7.11.18

Eu acredito em segundas chances

Para Gisele Gomes

Eu acredito em segundas chances,
Eu creio em novas possibilidades,
Em nomes novos, em novas cores,
Em novos cheiros, novos sabores,
Eu acredito em novas verdades,

Eu acredito em novos futuros,
Em novos dias, novas descobertas,
Eu acredito em novas etapas,
Em novas caminhadas, novos mapas,
Novos alentos, novos alertas,

Eu acredito em segundos dias,
Segundas opções, segundas formas,
Eu acredito em segundas tentativas,
Em possibilidades paliativas,
Eu acredito em desconstruir as normas,

Eu acredito num jardim de flores,
Eu acredito num céu de brigadeiro,
Eu acredito em botes salva vidas,
Eu acredito em preces atendidas,
Eu acredito no amor verdadeiro,

Por isso mesmo quando tempestade,
Frio, abandono, desolação,
Saudade, desconcerto, dissonância,
Desesperança, dissabor, distância,
Dúvida, desamparo, danação,

Ainda assim eu sigo acreditando,
Mesmo nos dias feitos de não,
Porque eu acredito em segundas vias,
E em segundas vozes trazendo alegrias
E mudando quase tudo na canção...

3.11.18

Os pezinhos

Um pezinho,
Dois pezinhos,
Três pezinhos,
Quantos são?
São quinze milhões de pezinhos,
Uma grande multidão...
Sobram nas meias,
E os sapatinhos
Dificilmente tem a sua numeração,
Nascem diariamente
Pelo mundo inteiro,
São do tamanho de uma nação...
Um pezinho,
Dois pezinhos,
Três pezinhos,
Quinze milhões de pezinhos:
Pra onde vão?
Quem cuida deles?
Com que carinho?
Com que dose desdobrada de atenção?
Até onde alcançarão nesse caminho
Que é de incertezas
E superação?
Um pezinho,
Dois pezinhos,
Três pezinhos,
Quinze milhões de pezinhos
E um só coração:
A mãe que espera
Com seu colo pronto
A hora de toma-los pela mão,
A hora de envolve-los com a alma,
A hora de trazê-los
Livres de tanto não...
Um pezinho,
Dois pezinhos,
Três pezinhos,
Quinze milhões de pezinhos...
E, quase como disse o astronauta,
Uma verdade:
Um pequeno pezinho para o homem, Mas um grande salto para a humanidade...

31.10.18

O que tinha de ser

Aconteceu aquilo que era pra ser,
O que tinha permissão pra ter acontecido,
Somente o que era pra acontecer,
Somente aquilo que estava permitido,

As vezes, como quem não sabe ler,
A gente pensa ter sido um mal entendido,
E nessa hora tenta interceder,
Tentando que fosse o que não era pra ter sido,

Até que o tempo, que esclarece tudo,
Coloca legendas no que foi dito absurdo
E faz a gente entender

Que nada acontece sem antes ter sido
Considerado fazer todo sentido
Que um dia a gente vai acabar por conhecer.

29.10.18

O coração

Eu trago dentro do meu peito, aprisionado,
Um coração que nunca se compreendeu,
As vezes que tem tentado, tem errado,
Quase nunca acerta o lado que escolheu,

Aqui dentro do meu peito, escravizado,
Um coração que nunca se convenceu,
Nasceu com o tempo de validade carimbado
Numa nota fiscal do céu que se perdeu...

Depois de dois bilhões de sistoles, cansado
De interpretar mal e de ser mal interpretado,
Já não pretende convencer ninguém,

Segue sozinho, não busca companhia,
Passageiro lunático de um trem da alegria
Desvendando o significado desse trem.

28.10.18

O amor

Porque o amor, e só o amor, mais nada,
É o que é capaz de curar nosso coração,
Corar nossa alma, deixa-la hidratada,
O amor, somente o amor, mais nada não,

O amor, essa anti-sepse generalizada,
Antídoto para qualquer infecção,
Regeneração para nossa alma sequelada,
Mesmo a sem chance de recuperação,

O amor, somente o amor, como uma enxurrada,
Com sua forma imensa e nunca exagerada,
É o que é capaz de curar nossa cegueira,

Alívio, mas mais que alívio, o amor é a cura
Da solidão e do medo que tortura
Como uma pandemia a humanidade inteira.

20.10.18

Bom dia

Bom dia pra você Bolsonarista,
Bom dia pra você que quer Haddad,
Que o dia, pra todos os da lista,
Traga bons ventos de felicidade,

Se você gosta de Chico, se é fascista,
O que no fim importa, de verdade,
É que o nosso coração nunca desista
Da poesia e da serenidade,

Sejamos pro e contra, mas sejamos
Antes de tudo cordiais e humanos,
Bons moços que sabem se respeitar,

Bom dia, independente do seu voto,
Sorria. E ame. E fique bem na foto.
O que importa é todo mundo se aceitar.

18.10.18

Quando eu crescer

Quando eu crescer vou querer ser médico,
Tratar diarréia, curar anemia,
Cuidar de um monte de gente doente,
E da dor ruim que machuca tanta gente,
Roubando sua vida e sua alegria...

Quando eu crescer vou querer ser médico...
Eram os xaropes que a minha mãe fazia
Que iam alimentando meus pensamentos
De aprender a utilizar medicamentos
Pra tratar a dor que eu sabia que doia...

Quando eu crescer vou querer ser médico...
Mas o que o menino em verdade não sabia
É que uma dor que não passa com comprimido
Às vezes some com um abraço comprido,
Porque o afeto distrai a dor, que se esvazia...

Quando eu crescer vou querer ser médico,
E essa ideia me persegue desde então...
E nesse dia, entre abraços e receitas,
Eu terei confirmado minhas suspeitas:
A dor é o que machuca o coração...

Quando eu crescer vou querer ser médico,
Quem sabe ainda nessa encarnação...

A todos os meus colegas que como eu, um dia, quando crescerem, querem também ser médicos...
18 de outubro. Dia do médico.

15.10.18

Meus professores

Meu pai foi na vida meu grande professor,
A minha mãe minha doce professora,
Cuidaram de meu coração perguntador
Usando de uma delicadeza benfeitora,

E temperaram cada lição com amor,
Cada queda, com nova lição motivadora,
Fui aprendendo que coração não tem cor,
E que aprender é que torna a alma sonhadora,

Meu pai e minha mãe, meus professores,
Ganhei de presente ao nascer estes amores
Que permanecem comigo desde então,

E não se cansam desse aluno descuidado,
E desatento e nem sempre bem comportado,
Meus professores, meus pais, meu coração.

A nova inquisição

Você votou em quem pra presidente?
Qual é a sua religião?
Você é civil ou militar? Qual a patente?
Você é a favor do aborto ou não?

Você é rico, pobre ou indigente?
Você acredita em reencarnação?
Você gosta mais de Pinochet ou de Allende?
Você é a favor da corrupção?

E a cada pergunta dessas, todo dia
Tem alguém investigando sua ideologia
Só pra saber se o seu caso tem perdão...

E se você tiver culpa comprovada
Vai ter sua identidade metralhada
Nas redes pelos tribunais da nova inquisição

14.10.18

A poesia

A poesia sopra onde quer,
A poesia não pertence a nenhum lugar,
As vezes cabe inteira numa colher,
Outras vezes transborda parecendo o mar,

E modifica tudo que você disser,
E discorda de tudo que você pensar,
As vezes é mal, outras vezes bem me quer,
Uns dias perdoa, outros dias quer culpar,

A poesia, depois de terminada,
É como neblina espraiada
Que não se contém por sobre a pradaria,

Espalha portanto a poesia que encontrares,
A poesia pertence aos ares,
Inútil acorrenta-la a uma autoria..

Bom dia

Bom dia pro meu amigo sessentao,
Bom dia pra minha amiga sessentona,
Pra você que quer conhecer o Azerbaijão,
Pra você que ainda quer completar uma maratona,

Bom dia pra vc, café com pão,
Bom dia pra você, pão com azeitona,
Pra você que ainda se sente um garotão,
Pra você que escuta essa música cafona,

Bom dia desse jeito, e esse soneto
É tipo uma fotografia em branco e preto:
Fora de moda, mas feito pro coração...

Então pra todo mundo meu bom dia,
Se vocês fossem pra praia eu também ia,
Mas não, eu também não vou não.

13.10.18

Tristeza

Minha tristeza foi se diluindo,
E foi, com o tempo, se transformando,
Sempre que ela chega me encontra dormindo,
Ou lendo poesia, ou poetando,

Não é que eu viva o tempo todo sorrindo:
Eu choro as vezes, bem de vez em quando,
Mas tem espinho que mesmo me ferindo
Acaba no final nem me machucando,

Por que minha tristeza, ultimamente,
Tem se misturado com a dor de toda gente,
Lembrando uma canção que há muito ouvi cantar

Que dizia "o amor mais lindo vai ensinar
Que todos os tristes querendo juntos
Toda a tristeza vai se acabar"

6.10.18

Trigêmeos

Três brasileirinhos. Três vencedores.
Tres delicadezas para o coração.
Três de uma vez. Mamãe merece flores
E música no Fantástico. Por que não?

Três brasileirinhos. Três amores.
Três alegrias em uma única gestação.
Os anjos armaram nos bastidores:
Felicidade sem explicação.

Três de uma vez. Três brasileirinhos
Que nunca mais se sentirão sozinhos
E como os três mosqueteiros, viverão

Pra sempre todos por um a vida inteira,
E um por todos, os três dessa maneira,
Três pedacinhos de uma mesma construção.

Confissão


Às vezes me assusta o dia a dia,
As vezes me faz bem a solidão,
Às vezes só me escuta a poesia,
Às vezes nem ela, só o coração...

Perdemos

A corrupção no Brasil não tem culpados,
Não há criminosos, somente inocentes,
Centenas de milhares de dólares desviados
E negação de provas contundentes...

Não há culpados entre os acusados,
A verdade encoberta a panos quentes,
Mentirosos contumazes, deslavados,
Bandidos absolutamente inconsequentes,

Ninguém assume as responsabilidades que tem,
As impressões digitais não são de ninguém,
Extratos bancários não tem nenhum valor,

Gravações telefônicas, filmagens,
Não passam de fantasmaticas montagens,
Mentiras inventadas pelo delator...

Mas eis que um dia, quando ninguém esperava,
Percebendo a bagunça que crescia
Entre o que defendia e o que acusava,
Entre o que denunciava e o que não sabia,

Mas eis que um dia, quando ninguém contava
Com seu discurso que a todos convencia,
O capitão linha dura se anunciava
E a nação passava a escutar tudo o que queria...

Tivessem, antes, os culpados assumido,
Se desculpado pelo erro cometido,
Tivessem se entregado sem resistir,

Tarde demais. Já não há tempo. Perdemos.
A esperança é a única coisa que ainda temos,
E a fé em Deus no novo tempo que há de vir.

29.9.18

Colinho de mãe

Colinho de mãe é a casa do bebê,
É lugar de descanso e proteção,
É o melhor lugar pra se viver
Porque fica perto do coração...

Bebê no colinho ajuda o leite a descer
E é bom pra espantar a solidão,
Colinho de mãe é pra jamais se esquecer
Mesmo depois que o bebê fica grandão...

Bebê no colinho da mãe fica calminho,
E mesmo pra um bebê pequenininho
Ou no CPAP, colinho não faz mal não...

Colinho de mãe é tudo de bom,
Colinho de mãe é melhor que bombom,
É muito além de qualquer explicação...

23.9.18

O autogolpe

A esquerda e a direita, frente a frente:
E tem início uma grande discussão.
Está em jogo uma vaga pra Presidente.
Mas não de um grêmio. De uma nação.

Então acusam se mutuamente,
Assumindo se como donas da razão:
Uma garante que a outra mente,
A outra assegura que não.

Mas enquanto jogam seu joguinho intolerante,
Das trevas surge um cavaleiro andante
E se apresenta como a solução...

E a esquerda e a direita não percebem
Que enquanto se desmoralizam e não cedem,
Conduzem o país de volta pro porão...

21.9.18

O motivo...

Eu canto porque o instante insiste
E a minha vida nunca se aquieta,
Não sou alegre nem sou triste
Nem poeta...

Eu canto uma canção que não existe,
Improvisada, inédita, incompleta,
Ao som do Poema Sinfônico de Lizt,
Para uma plateia surda e analfabeta,

Eu sei que canto e a canção é meu escudo,
Protege meu coração do mal de tudo
Como se fosse a única escapada,

E algum dia, de um modo agudo,
Eu sei que nesse dia estarei mudo,
Mais nada...

18.9.18

Crescidinho

Tá bonitinho. Quase um rapaz.
O pequeno Artur como cresceu.
Os primeiros espinhos deixou pra trás.
O pequenino prematurinho floresceu.

Rostinho de quem pode dormir em paz.
A pança certamente já encheu.
Que diferença uma preguicinha faz.
Como são gostosos os braços de morfeu.

Dorme menininho, aproveita bem,
Descansa pro seu tempo que já vem
Cheios de coisas pra você resolver,

Até que Deus, um dia, nos responda
O que esse Artur, sem tavola redonda,
Guardou em seu coração pra nos trazer...

13.9.18

A poesia

Para marthinha

Poesia. Palavra que agrada.
Diálogo que dispensa conclusão.
Funciona às vezes como uma porta de entrada,
Outras vezes, como a única opção...

Absolutamente desregrada,
Exatamente por isso sem perdão,
Parece estar sempre desesperada,
Provavelmente porque não possui tradução.

Poesia. Palavra que surpreende.
Nem sempre o que ela diz é o que se entende,
Tudo depende da interpretação.

Poesia. Sempre poesia.
Taça de vida que nunca se esvazia.
Espiga que alimenta o coração.










10.9.18

Poeminha presidencial

Escrito logo depois da divulgação do resultado da pesquisa Datafolha para presidente, primeira após o atentado sofrido pelo candidato de direita

Não basta apenas levar uma facada
Se você quer ganhar uma eleição,
Tentar comover uma nação emocionada
Confundindo voto com comoção,

E nem vai ser uma agressão desembestada
Que vai gerar um presidente pra nação,
Até mesmo uma população despreparada
Sabe se desvencilhar de um falastrão...

Então, pra quem pensou que bastaria
Uma facada e tudo mudaria,
Taí a primeira grande decepção:

Pode até ganhar no primeiro turno,
Mas Deus é pai, e pelas barbas de Netuno
No segundo turno perde até pro tal de João...

6.9.18

O poeta faz concoenta e nove

06/09/1959 -06/09/2018

Cincoenta e nove anos não são sessenta,
São quase sessenta, mas ainda não são,
Nem tudo é, apenas porque aparenta,
Por isso cincoenta e nove, sessenta não.

É quase chegar aonde tanta gente tenta,
Como a vida é generosa, alguns dirão,
Fazer cincoenta e nove mantendo a alma lenta
Faz parte de uma complexa equação:

É preciso alguma dose de poesia,
E de amar também, mesmo sem garantia,
E aprender a não transformar tudo em problema...

Então a idade vem, mas pouca gente nota
Que o tempo é um grande bem que não se esgota,
E é desse jeito que a vida vale a pena...

Pai e filho

Para William e João

Pai e filho. E muito amor envolvido.
Uma vida pela frente pra aprender.
Amor desde o início comprometido,
Não tinha nunca como se perder.

Parece que Deus já tinha se decidido
Bem antes desse dia acontecer:
O pai, profissional reconhecido,
O filho, com tanta vida pra viver.

E vendo esses dois meninos abraçados,
Transbordados de um amor tão sem pecados,
Essa alegria dispensa explicação,

Seja feliz, papai bem humorado,
Seja feliz, filhinho bem amado,
Nossa família é o nosso coração...

1.9.18

Trilhas

Prefiro um passeio por Ferreira Gullar,
Depois uma imersão por Tom Jobim,
Uma pausa pro Chico poder cantar
O chato dum querubim...

Augusto dos Anjos é de assustar:
Como é que conseguia escrever assim?
Vinicius, poemas para amar,
Prefiro trilhas desse amor sem fim...

Passo por estrofes deslumbrantes,
Sonetos desconcertantes,
E a poesia me inunda o coração...

Depois descanso um pouco da viagem,
Poesia muda sempre de paisagem,
Descanso o corpo.  O pensamento não...

28.8.18

A velha rede

E se o Whatsapp não existisse
E a internet não tivesse sido criada,
Se pensar em rede social fosse sandice,
E se o diário fosse a coisa mais guardada,

Ou se de repente o sinal do Wifi sumisse,
E o Android, que coisa, desse uma travada,
E o IOs caisse e ninguém visse,
E a vida subitamente desconectada?

A gente ia ter que marcar um encontro,
Desses que a gente escolhe a hora e o ponto,
E nesse encontro ia começar a conversar,

E a nova velha rede social recuperada,
Feita de abraço, de voz alta e de risada,
Talvez fizesse a gente despertar...

A poesia

No dia a dia
Que nos atordoa
Arruma um tempo pra poesia:
Drummond,
Bandeira,
Gullar,
Pessoa,
A poesia
Cura taquicardia
E causa mais bem a São Paulo
Que a garoa,
Arruma um tempo
Ao ir na padaria,
Ao voltar do trabalho
Ao comer broa,
A poesia,
Na falta de um guia,
É justo ela
Que nos abençoa...

26.8.18

Onipresença

Nada escapa aos olhos da poesia:
O nascimento, a morte, a invalidez,
A tristeza profunda, a alegria,
Num mesmo verso, súditos e Reis,

Ninguém escapa ao poder da sua magia,
A poesia não respeita leis,
O amor, o desamor,  a homofobia,
Para a poesia tudo tem vez...

Por isso a poesia alcança tudo,
É como a flexa que atravessa o escudo
E chega livre ao coração do guerreiro...

Ah, poesia, íntima da vida,
Atenta à alma humana, distraída,
Iluminada poesia o tempo inteiro...

Arturzinho

Como e que já tá todo crescidinho,
Como é que tá ficando bochechudo,
Como tá gostoso esse Arturzinho,
De pele clara e nariz pontudo,

Já nem parece aquele menininho
Prematurinho, precisando de tudo,
Já sabe por a mão no seu rostinho,
Fechar os olhinhos e ficar mudo...

Ta muito esperto, todo gostoso,
Ta se sentindo todo poderoso,
Daqui a pouco tá pedindo pra ir embora,

Calma Arturzinho. Daqui a alguns gramas
Você já vai poder comer bananas...
Que bom acompanhar a sua história