Terceiro dia. E o país vai mudando.
Aquele cheiro azedo, aquele fedor,
Devagarinho vai se dissipando,
E a paisagem cinzenta ganha cor:
Decretos, atos e medidas vão brotando,
O Brasil já pode respirar sem sentir dor,
Escuta-se ao fundo indígenas cantando:
Terceiro dia apenas. Mal começou.
A sombra, o atraso e o obscurantismo
Vão se esconder no fundo do abismo
Que é o lugar de onde não deveriam ter saído,
Terceiro dia ainda. E já ressuscitamos.
Estávamos morrendo. Mas já não estamos.
Valeu a pena não ter esmorecido.
3.1.23
1.1.23
2023
Começar 2023 com um sonetinho,
Coisinha simples, nada espetacular,
Desses que a gente lê devagarinho,
E depois esquece, pra nunca mais lembrar,
Coisinha simples, como respirar,
Mas verdadeira, como um carinho,
Um sonetinho pra começar
O ano novo assim, desse jeitinho,
Então lá vai, já quase terminando,
Pro ano novo que tá começando,
Um sonetinho sem nenhuma pretensão,
Mas todo escrito com sinceridade,
Que é uma forma de felicidade
Que torna bem mais leve o coração.
Feliz ano novo para todos.
31.12.22
Último dia
O último dia do ano. O último dia.
Já não dá tempo de fazer mais nada.
Mas ainda há tempo de uma última poesia,
Discreta, comedida, simplificada,
Porque a poesia nunca se esvazia,
Acaba o ano e ela permanece intocada,
Como se guardasse em si uma magia
Que o ano não guarda, mas que a poesia guarda.
Então poesia para esse dia derradeiro,
Mas poesia pra durar o ano inteiro,
Porque poesia para nunca se acabar,
Poesia, como um amor verdadeiro,
Poesia livre, como um veleiro,
Que brinca de escrever versos no mar...
30.12.22
Pelé
O menino, uma bola e um gramado,
O menino, mas que parecia um gigante,
Que deixou o mundo inteiro impressionado
Com seu jeito de jogar desconcertante,
Falava com a bola o menino, esse encantado,
E a bola respondia, confiante,
E o menino matava a bola no peito, e, com gingado,
Mandava a bola pra rede, radiante,
Uma, dez, cem, mais de mil vezes assim,
O menino e a bola, talvez pra mim
A mais linda parceria de toda a história,
O menino camisa dez e a sua bola,
Um amor que ganhou o mundo e fez escola,
E viverá para sempre na memória...
O menino, mas que parecia um gigante,
Que deixou o mundo inteiro impressionado
Com seu jeito de jogar desconcertante,
Falava com a bola o menino, esse encantado,
E a bola respondia, confiante,
E o menino matava a bola no peito, e, com gingado,
Mandava a bola pra rede, radiante,
Uma, dez, cem, mais de mil vezes assim,
O menino e a bola, talvez pra mim
A mais linda parceria de toda a história,
O menino camisa dez e a sua bola,
Um amor que ganhou o mundo e fez escola,
E viverá para sempre na memória...
26.12.22
A última semana
Essa semana podia passar em um dia,
E esse dia podia logo acabar,
Daí esse governo atual se escafedia,
E dava lugar pro outro que vai entrar,
Porque foram quatro anos de grosseria
Que a gente precisou aguentar,
Mas nada é para sempre. Nem a tirana.
E tudo tem o seu tempo de passar.
Então passou. Mas o tempo não termina.
Um dia. Depois outro dia. A vida ensina.
Então é preciso saber onde pisar,
Porque a sombra que aparentemente foi embora,
Fica na espreita, aguardando a melhor hora
De um dia ser sua hora de voltar...
Canção de quase ano novo
O fim de um ano que nem deveria ter existido,
Mas que se existiu, trouxe lições de se tirar,
Que serão importantes termos aprendido,
Pra não repetirmos o que pode nos machucar,
Um ano que acaba, outro que chega bem vestido,
Mas cheio de marcas que ele não pode apagar,
E apesar dessas marcas, não chega desmilinguido,
Chega arretado, prontinho para enfrentar,
E pra cansar, e também pra dar canseira,
E pra se repartir em 52 segundas feiras,
Todo adubado em sonhos por acontecer,
Um ano novo revigorado,
Que vai aproveitar as lições do ano passado,
Um ano novo que vai valer a pena viver...
13.12.22
Maus perdedores
Maus perdedores em desalinho,
Levando caos e desordem por onde vão,
Deixando um rastro de ódio pelo caminho,
E um cheiro azedo de devastação,
Levando caos e desordem por onde vão,
Deixando um rastro de ódio pelo caminho,
E um cheiro azedo de devastação,
Maus perdedores, de coração mesquinho,
Alguns, eu arriscaria, até sem coração,
Sem lenço, sem documento, sem vizinho,
Sem nada mesmo que defina um cidadão,
Maus perdedores, gente ruim,
Gente de um tempo que já chegou ao fim,
E que fazem questão de não aceitar,
Mas hão de aceitar, certamente, ainda, um dia,
Porque ninguém sobrevive à própria asfixia,
Nem os maus perdedores, pode acreditar...
Alguns, eu arriscaria, até sem coração,
Sem lenço, sem documento, sem vizinho,
Sem nada mesmo que defina um cidadão,
Maus perdedores, gente ruim,
Gente de um tempo que já chegou ao fim,
E que fazem questão de não aceitar,
Mas hão de aceitar, certamente, ainda, um dia,
Porque ninguém sobrevive à própria asfixia,
Nem os maus perdedores, pode acreditar...
27.11.22
Apelo à Excelentíssima Juíza
Excelentissima Juíza, faça-me o favor:
Respeite a Música Popular Brasileira,
Roda Viva é um clássico. E tem autor:
Chico Buarque de Hollanda. Para de brincadeira.
Dê a sentença do jeito que for,
Mas não duvide de uma verdade verdadeira:
Chico Buarque é o seu compositor,
Vai no Google e confere. É a melhor maneira.
Ninguém pode duvidar da autoria
De uma música escrita com tanta poesia
Que poucos poetas no mundo tem capacidade de oferecer,
E Chico Buarque um deles, Excelentissima Juíza,
Não sabe quem é o autor de Roda Viva? Nem precisa.
Porque ninguém além de Chico seria capaz de escrever...
Respeite a Música Popular Brasileira,
Roda Viva é um clássico. E tem autor:
Chico Buarque de Hollanda. Para de brincadeira.
Dê a sentença do jeito que for,
Mas não duvide de uma verdade verdadeira:
Chico Buarque é o seu compositor,
Vai no Google e confere. É a melhor maneira.
Ninguém pode duvidar da autoria
De uma música escrita com tanta poesia
Que poucos poetas no mundo tem capacidade de oferecer,
E Chico Buarque um deles, Excelentissima Juíza,
Não sabe quem é o autor de Roda Viva? Nem precisa.
Porque ninguém além de Chico seria capaz de escrever...
24.11.22
Copa do Mundo
Hoje tem jogo da seleção,
Hoje o Brasil inteiro vai parar,
Como diz o Galvão: haja coração!
Seremos hoje todos o Neymar,
Porque hoje tem jogo da seleção,
E por isso o coração vai disparar,
A pátria de chuteiras, uma só nação,
Estamos todos hoje no Qatar,
Porque hoje tem jogo da seleção,
Todo mundo diante da televisão,
A Copa do Mundo vai começar,
Porque hoje tem jogo da seleção,
Uma pausa prum Brasil sem divisão,
Coisa que só o futebol pode explicar.
15.11.22
Poesia
Poesia, boa pra cuidar do sofrimento,
Poesia, boa pra tombar o ditador,
Pra estancar a mágoa, pra cuidar do ferimento,
Poesia, boa pra passar a dor,
Pra cuidar do coração em desalento,
Pra cuidar do coração em desamor,
Poesia, boa pra passar o tempo,
Poesia, boa pros tempos de horror,
Pra guardar no coração, poesia boa,
Pra espalhar-se por aí feito garoa,
Poesia boa, sem explicação,
Poesia boa, que nasce não sei onde,
Que cresce na palavra e então se esconde
Silenciosa, no coração...
7.11.22
Imbrochavel
Imbrochavel, Imbrochavel, Imbrochavel,
Bastou uma ventania, e o imbrochavel brochou,
O que parecia inacreditável
Aconteceu, e viralizou,
Passou vergonha em público. Imperdoável.
Perdeu, imbrochavel. Reconhece: vacilou,
E o pior é quando não se assume. Lamentável.
Deve ter sido por conta do susto que tomou.
Falou demais. Falou antes da hora.
Na hora H acabou levando um fora
Morreu do próprio veneno que exalou.
Imbrochavel, Imbrochavel, Imbrochavel,
Melhor sorte da próxima, miserável,
Vai colher o fruto azedo que plantou...
31.10.22
Logo assim que saíram os resultados
E o presidente, acovardado, foi dormir,
Dissimulado, não quis se pronunciar,
Voltou mais cedo pra casa, triste Jair,
Disse que ia dormir, e foi chorar...
Desligou o celular, não quis ouvir
As notícias que acabavam de chegar:
Lula venceu, você acaba de cair,
E o presidente, desorientado, foi deitar.
Mas o que é que tem um derrotazinha?
Metade de uma nação inteirinha
Está chamando você pra tentar outro lugar pra trabalhar,
Mas o presidente foi dormir, muito soninho,
E quando acordar e ver que está sozinho,
A choradeira não vai passar...
Dissimulado, não quis se pronunciar,
Voltou mais cedo pra casa, triste Jair,
Disse que ia dormir, e foi chorar...
Desligou o celular, não quis ouvir
As notícias que acabavam de chegar:
Lula venceu, você acaba de cair,
E o presidente, desorientado, foi deitar.
Mas o que é que tem um derrotazinha?
Metade de uma nação inteirinha
Está chamando você pra tentar outro lugar pra trabalhar,
Mas o presidente foi dormir, muito soninho,
E quando acordar e ver que está sozinho,
A choradeira não vai passar...
30 de outubro
E as coisas vão se acalmando, lentamente,
Cada coisa caminhando pro seu lugar:
Luis Inácio novamente presidente,
Jair Bolsonaro saindo de cena sem falar,
Porque a história atropela, indiferente,
Todo aquele que acha que pode negar
Seu carro alegre, cheio de gente contente,
É a roda da vida que não para de rodar,
E dessa forma, desde essa data em diante,
O futuro já não se chama mais beligerante,
Nem negacionista, nem homofobia,
Estamos de volta aos trilhos novamente,
Agora precisamos em paz seguir pra frente,
Porque hoje é o amanhã do lindo dia...
29.10.22
Esperança
Foi esperança esse tempo inteiro,
Nenhuma certeza de conseguir chegar,
Foi só o coração, como o de um estrangeiro,
Buscando forças para navegar,
Foi esperança, como um marinheiro,
Que não tem medo de enfrentar o mar,
O coração, sempre verdadeiro,
Foi esperança, do verbo esperançar
E a esperança foi sempre esse alimento
Desse tempo tão barulhento
Que a gente não sabe ao certo onde vai dar,
E ainda assim a esperança segue viva,
Como uma força definitiva
Que insiste em nos renovar...
24.10.22
Não passarão
Não passarão o medo, a intolerância,
A homofobia, a discriminação,
A agressividade deslavada, a ignorância,
Os novos bárbaros não passarão,
A fome, o caos, o atraso, a prepotência,
O negacionismo, a radicalização,
O retrocesso, a beligerância,
A volta do regime de opressão,
Não passarão, porque não há de haver espaço
Para o pais continuar nesse descompasso,
A treva bruta precisa dissipar,
Não passarão, ao nascer do novo dia,
As pedras no meio do caminho da poesia,
Porque há um povo feliz que quer passar...
17.10.22
No dia em que eu me for
Pra mim bastava alguma poesia,
Alguns amigos, uma oração,
Uns recordando coisas que eu dizia,
Algumas rimas de recordação,
Não muito mais do que isso nesse dia,
Uma despedida sem ostentação,
Partir em paz, era só o que eu queria,
Levando paz no meu coração,
E a música que cada um sentisse
Enquanto em silêncio eu me despedisse,
Que fosse uma melodia interior
Feita de aceitação e de saudade,
Era só isso que eu queria de verdade
No dia em que eu me for...
14.10.22
O livro novo de poesia da Ana
Para Ana Claudia Quintana Arantes
Um livro novo de poesia da Ana,
Um livro novo de poesia pra alegrar
O dia inteiro, o fim de semana,
O ano todo, o tempo que durar,
Um livro novo de poesia sobre-humana,
Palavra escrita pra nos inspirar,
Um livro novo de poesia da Ana,
Porque a moça da poesia quer falar,
E quando a moça da poesia fala,
A gente se senta no cantinho da sala
E faz silêncio só pra escutar
A poesia, o livro novo, a letra,
O voo livre dessa borboleta
Que vive por aí a se espalhar...
2.10.22
Dois de outubro
Foi tempo demais, porém chegou o dia,
E a gente sabia que esse dia ia chegar,
Depois de um tempo de horror e grosseria,
Chegou o dia bom pra esperançar.
Bom pra plantar sementes de alegria
Que as sombras fizeram questão de desplantar,
Deixando nossa alma mais triste e mais vazia,
Como se de tristeza fossemos nos acabar
Mas nada é permanente. E de repente,
Porque nessa vida nada é permanente,
A gente tem finalmente a chance de mudar,
E mandar de volta pro pântano o inominado,
De uma forma que ele nunca mais seja lembrado,
E nunca mais nos de motivos pra chorar...
E a gente sabia que esse dia ia chegar,
Depois de um tempo de horror e grosseria,
Chegou o dia bom pra esperançar.
Bom pra plantar sementes de alegria
Que as sombras fizeram questão de desplantar,
Deixando nossa alma mais triste e mais vazia,
Como se de tristeza fossemos nos acabar
Mas nada é permanente. E de repente,
Porque nessa vida nada é permanente,
A gente tem finalmente a chance de mudar,
E mandar de volta pro pântano o inominado,
De uma forma que ele nunca mais seja lembrado,
E nunca mais nos de motivos pra chorar...
11.9.22
A Rainha omissa
Assistiu em silêncio o arruinamento
Daqueles a quem chamou de suditos, a tirana,
Viveu sem culpa e sem arrependimento,
Por quase um século, sempre soberana,
Viu dor e morte em seu reinado sangrento,
Enriqueceu às custas da miséria humana,
Trocou a família por um trono modorrento
Onde não há lugar para quem ama,
Até que um dia morreu e tornou-se venerada,
Teve a chance de fazer tanto e não fez nada
Além de cumprir o regulamento...
Que história triste, que legado sombrio,
Um reinado tão longo e tão vazio,
Construido à base de tanto sofrimento
Daqueles a quem chamou de suditos, a tirana,
Viveu sem culpa e sem arrependimento,
Por quase um século, sempre soberana,
Viu dor e morte em seu reinado sangrento,
Enriqueceu às custas da miséria humana,
Trocou a família por um trono modorrento
Onde não há lugar para quem ama,
Até que um dia morreu e tornou-se venerada,
Teve a chance de fazer tanto e não fez nada
Além de cumprir o regulamento...
Que história triste, que legado sombrio,
Um reinado tão longo e tão vazio,
Construido à base de tanto sofrimento
8.9.22
Poeminha cheio de otimismo
Para Paulo Feijó
Quando tudo parece complicado,
E sobretudo o céu parece desabar,
E surge daí um nó tão apertado
Que pouca gente sabe desatar,
É nessa hora de tudo tão pesado,
É justamente aí nesse lugar,
Que a vida que seguia um rumo errado,
Começa finalmente a se acertar,
E então os dados clínicos e as ressonâncias,
E as coronárias, só por implicância,
Retomam seu caminho original.
Milagre! Dirão os idiotas da objetividade,
Mas no fundo, no fundo, a gente sabe
Que Deus não faz todo dia tudo igual.
7.9.22
O imbrochavel
O que se autodenomina o imbrochavel,
O que não se percebe um desprezível,
Um imbrochavel, mas um insuportável,
E bem que podia se tornar um inelegível,
Porque um imbrochavel intragável,
Não perde uma oportunidade pra baixar o nível,
Um imbrochavel totalmente descartável,
Um lixo absolutamente previsível,
Um imbrochavel e seus apoiadores,
Um imbrochavel e seus adoradores,
Levando o país a andar pra trás,
Um imbrochavel até chegar o dia
Do imbrochavel tomar umbanho de água fria
Pra depois desse dia nunca mais...
O que não se percebe um desprezível,
Um imbrochavel, mas um insuportável,
E bem que podia se tornar um inelegível,
Porque um imbrochavel intragável,
Não perde uma oportunidade pra baixar o nível,
Um imbrochavel totalmente descartável,
Um lixo absolutamente previsível,
Um imbrochavel e seus apoiadores,
Um imbrochavel e seus adoradores,
Levando o país a andar pra trás,
Um imbrochavel até chegar o dia
Do imbrochavel tomar umbanho de água fria
Pra depois desse dia nunca mais...
5.9.22
Para Flávio e Luís
O tempo passa. A idade avança.
A idade passa. O afeto não.
Tem sido assim desde os tempos de criança:
O tempo não passa para o coração.
E no entanto o calendário não descansa,
Insiste anualmente em sua repetição,
A gente finge que não dá importância,
Mas o importante é não perder a direção.
Então, ao perceber o tempo passando,
E esse afeto permanecendo,
Nada mais justo que comemorar:
Feliz aniversário! E vamos brindando,
Porque parece que estamos crescendo,
Mas estamos mesmo é aprendendo a nos respeitar.
Em 05 e 06 de setembro de 2022
14.8.22
As poesias de Rodrigo Ladeira.
Eu adoraria escrever como o Rodrigo,
Mas o máximo que eu consigo
É rabiscar algumas rimas previsíveis,
Como se a poesia precisasse de rimas
Da mesma forma que a digestão precisa de enzimas...
As poesias de Rodrigo são incríveis...
Eu adoraria escrever desse jeitinho:
Um poema que faz sentido de mansinho,
E aos poucos toma todo o coração,
Como uma chuva quando desce a ladeira,
E vai aos poucos, em sua corredeira,
Transformando tudo numa inundação...
Eu queria, um dia, escrever também assim,
Ter a poesia dentro de mim,
De vez em quando, poesia extravasar
Como Rodrigo faz, mas enquanto isso,
Eu vou brincando de fazer meu verso quebradiço,
Que faz questão de me acompanhar..
12.8.22
11 de agosto
Grita o Brasil pela democracia,
Grita o Brasil seu grito mais verdadeiro,
Um grito único, como há muito não se ouvia,
Capaz de se fazer escutado pelo mundo inteiro,
Grita o Brasil, e era uma voz a que se fazia,
Como se nós fossemos todos um único brasileiro
Gritando: aqui sobre nós nunca mais tirania,
A ditadura aqui sobre nós não faz mais paradeiro,
11 de agosto, e o Brasil inteiro lia
Uma carta, que era como mais uma de alforria,
E que bradava: Ditadura nunca mais...
11 de agosto, e ali eu percebia
Que a sombra, pelo menos naquela hora, se recolhia
E voltava assustada pros umbrais...
14.7.22
A poesia e a dor
A dor, quando acompanhada da poesia,
Não faz doer menos o coração,
A poesia não estanca uma sangria,
A poesia mal cura um arranhão,
Por isso a dor, em sua companhia,
Continua doendo, como uma inflamação
Que faz parecer que a alma se esvazia,
E o mundo inteiro vai perdendo o chão
Mas a poesia quando abraça a dor
É como um sopro que disfarça a cor
Dos dias mais cinzentos e sombrios
A poesia é como um caldo quente
Da palavra que nos quer sobreviventes
Principalmente nesses dias frios
11.7.22
Poesia pra depois de um plantão
Depois de um plantão, uma leitura,
Alguma poesia pra relaxar,
A rima descontrai a musculatura.
Melhor remédio. Pode tentar.
E nem precisa de ter grande cultura,
Academia nessas horas pode até atrapalhar.
É melhor aquela poesia pura
Que desde criança você aprendeu a gostar.
Então depois de um plantão uma rima
É mais eficiente que a penicilina,
É mais curativa que um emplastro,
E mesmo que seja poesia improvisada,
Você sente sua alma medicada,
E livre pra voar em campo vasto.
A palavra
Quando a palavra se transforma em poesia,
Ela se veste da capacidade de encantar,
É como o sol quando chega o meio dia,
É como o raio prateado do luar,
Porque a palavra poematizada se recria,
Criando uma nova palavra em seu lugar,
Que nasce livre como a vida que a espia
Através dos significados que ela usar,
Então a palavra, quando transformada
Em poesia, é alma reencarnada,
A mesma palavra morando em outra vida,
Por isso não tente traduzir poesia,
Palavra escrita em outra sintonia,
Tentando a própria porta de saída.
19.6.22
Setenta e oito anos
Setenta e oito anos de poesia,
De acordes dissonantes, encadeados,
Setenta e oito anos de harmonia,
Como se o tempo não tivesse passado,
E segue intacta e perfeita a melodia,
Setenta e oito anos afinados
Com a mais humana das ideologias,
Com o mais perfeito verbo conjugado,
Chico Buarque de Hollanda, brasileiro,
Sua poesia germinou no mundo inteiro,
É irreversível, por isso, a revolução,
Porque revolução escrita com poesia,
Transforma até o inferno na Utopia,
E também por isso o poeta não tem perdão.
22.5.22
Poema noturno
E eu aqui. Imaginando uma poesia
Que faça meu coração adormecer
Que o deixe descansar na noite fria
Que o sono chegue sem ele perceber
Uma poesia que tenha essa magia
Que algumas delas conseguem ter
Banhar, como se fosse anestesia,
O coração cansado de sofrer
Então a poesia disfarçada
De anestesia, aos poucos gotejada,
Vai mergulhando o coração no esquecimento
Um esquecimento que se chama sono, e assim
A dor do dia vai chegando ao fim,
Ainda que por um lapso de tempo
16.5.22
Segunda-feira
Respira um pouco. Hoje é segunda feira.
Cansado? Usa um pouquinho sua respiração,
E tenta descansar dessa maneira:
Respira e pensa. E usa seu pulmão.
E bota um pouco de água na chaleira.
E passa manteiga no pão.
Respira. Vai transformando essa canseira
Em energia para movimentação.
E assim, descobrindo novos ares,
E tantos, que se somarem chegam aos milhares,
E que bastavam apenas serem descobertos...
Numa segunda-feira respirável,
Esse tempo eternamente retornável,
Tempo através do qual somos libertos...
12.5.22
A emergência
A emergência e o corredor lotado,
O município inteiro resolveu se resfriar,
E vir ao mesmo tempo, e assustado,
Tentando se consultar,
E aí é criança pra todo lado,
E criança que não para de chegar,
E criança que já tinha melhorado
E volta porque começou a vomitar,
A emergência e o corredor abarrotado
De criança no colo de mãe de olhar cansado,
E você olha isso tudo e não pode se cansar,
A emergência e o corredor sobrecarregado,
A emergência e esse sonetinho assustado
Que vai lá fora tomar um ar..
28.4.22
Um poeminha
Um poeminha antes de dormir,
Um poeminha pra deixar sonhar,
Depois de um dia de quase desistir,
Um poeminha para descansar,
Feito de rimas para distrair
O coração até o sono chegar,
E ver o dia assim se despedir,
E ver a noite em versos me chamar,
Um poeminha sem querer ser nada
Além de um bilhetinho de entrada
Pra noite que dessa forma se anuncia,
Um poeminha feito um bilhetinho
Pra receber o sono de mansinho
E misturar o sonho com poesia.
25.4.22
Cuidando de quem cuida
Cuidando de quem cuida, e cuidando com cuidado,
Porque quem cuida merece ser cuidado com atenção,
Não custa nada oferecer carinho redobrado
Porque carinho é coisa que não desgasta o cidadão,
Então, cuidando de quem cuida é um delicado
Trabalho de cuidar do próprio coração,
Não deixar o coração bater descompassado,
Nem peder o rumo em plena contramão.
Cuidando de quem cuida é a única saída
Pra quem cuida da vida e tem amor à vida
E sabe que o amor é um grande aprendizado.
Cuidando de quem cuida é o único caminho,
É o segredo de nunca se sentir sozinho
E o elixir de você nunca se sentir desanimado.
16.4.22
Plantão de sobreaviso
Um sábado inteirinho pra pensar,
E enquanto não tem criança pra nascer,
Invento um poeminha para rimar
No instante em que o sábado já começa a entardecer.
O frio hoje veio me visitar,
O sábado esfriou, e eu pude reler
Alguns versos antigos de Ferreira Gullar
Que o frio de sábado me deixou viver,
E assim, como se fosse um feriado,
Mesmo não sendo, fui sendo levado
Pela poesia de um sábado frio,
E enquanto a sala de parto não me chama
Eu me mudo para a poesia de Quintana
De onde o mundo nunca está vazio...
13.4.22
Os novos médicos
Aos acadêmicos da Universidade Redentor
Os novos médicos que estão chegando
Cheios de sonhos no coração,
Depois de longos anos se preparando,
Esse é o início de uma nova construção,
São os novos médicos se formando,
Cheios de novas ideias, cheios de opção,
São a mudança de um mundo que está mudando,
E mal dá tempo de parar para reflexão,
Novos médicos que amanhã serão os gestores
De um mundo em que os alunos viram professores
Que continuam o aprendizado dia a dia...
Novos médicos... Que coloram a humanidade
Com mais compaixão e mais humanidade,
E mais ciência, e arte, e poesia...
9.4.22
A poesia
Nem todo mundo gosta de poesia,
Tem outros que preferem viajar,
Ou que preferem estudar cardiologia
Ou ir a roça para descansar,
Mas mesmo assim tem gente que escreve poesia,
Mesmo sem saber pra quem mostrar,
Se joga na gaveta, se mostra pra tia,
Ou se deixa preparada pra postar...
Mas se tem gente que não gosta de poesia,
Tem quem ache que sem ela a vida é tão vazia
Que vale a pena arriscar,
Por isso, apesar dos que não gostam de poesia,
Eu brinco de escrever poesia quase todo dia,
Esse é o jeito que eu achei de me salvar.
4.4.22
Segunda-feira
Hoje é segunda-feira, e já cedinho
Acordo animado pra trabalhar.
Viver merece ser tratado com carinho,
Viver não pode esperar.
Então, aproveito e rabisco um sonetinho,
Porque hoje a segunda está no ar,
Segunda, livre como um passarinho
Que sabe voar e que gosta de cantar,
Segunda para começar a semana,
Como um convite para a raça humana
Saber que pode recomeçar...
Hoje é segunda, amanhã é terça,
Que a nossa capacidade de indignação não desapareça,
E a gente possa, assim, continuar...
12.3.22
Meu violão
Às vezes meu violão, sem perceber,
É como uma espécie de anestesia,
Capaz de fazer minha dor parar de doer
Sob o efeito de música e de poesia,
E basta um dedilhado pra fazer
Minha solidão descobrir-se mais vazia,
Suas cordas fazem meu coração bater,
Minha vida é mais feliz com melodia,
Às vezes meu violão, sem eu notar,
Não me deixa desistir nem reclamar,
E nem me deixa eu me sentir sozinho,
Às vezes meu violão, meu companheiro,
Me faz viajar cantando o mundo inteiro
Num acorde dissonante bem baixinho...
Maria Clara
Maria Clara já vai crescendo,
Adolescendo pra vida,
O tempo passa e a gente não percebendo,
Mas Clara não passa a vida distraída,
Vai ensinando enquanto vai aprendendo
Lições de uma vida comprometida:
Há um poema dentro dela florescendo,
De rima rica, de música embutida,
Dezessete anos de idade, quem diria,
Um bebezinho que se transformou em poesia,
E uma poesia que quer se multiplicar
Em outros mil novos poemas delicados,
Que serão pelos seus gestos recitados,
E que o seu coração há de espalhar...
A humanidade
E como se não bastasse o sofrimento diário
Que a humanidade não faz questão de disfarçar,
A guerra e seu instinto sanguinário
Surge de vez em quando pra lembrar
Como é cruel esse mundo, e ordinário,
Pouco a pouco nos especializamos em matar,
Reviramos esse planeta ao contrario,
Correndo o risco de capotar...
Porque, como se não bastasse o sofrimento humano,
Fomos nos especializando em sofrimento desumano,
Esse que somente um abraço é incapaz de confortar,
Como foi se tornando insensível a humanidade,
Vítima da própria teia de rivalidades
Que ela já não consegue superar...
26.2.22
A guerra
Acordo cedo. Mais um bombardeio.
Os tanques não se cansam de atirar.
O povo tenta fugir, mas eu não creio
Que o bombardeio vai ceder ou vai parar.
A estupidez humana não tem freio.
A barbaridade humana não tem par.
Não existe um meio termo nesse meio:
A guerra não conhece se poupar.
Acordo cedo. E é só morte o que eu leio,
Dessa vez frente a frente, sem rodeios,
Como se fosse pra me intimidar...
Acordo cedo. Outro bombardeio.
Acho que o inferno anda bem cheio,
E o demônio veio nos visitar...
2.2.22
O candidato
Procura-se um candidato socialista
Disposto a governar essa nação,
Que tenha um coração idealista,
E muita força no seu coração,
Que saiba expor o seu ponto de vista,
Que saiba ouvir o outro lado da questão,
Que seja racional e progressista,
Um candidato, não um fanfarrão,
Procura-se um candidato com urgência,
Antes que o país abra falência,
Antes que não se saiba em quem confiar,
Um candidato socialista, de preferência,
E vacinado, pra ocupar a presidência,
Porque tá difícil de aguentar...
Disposto a governar essa nação,
Que tenha um coração idealista,
E muita força no seu coração,
Que saiba expor o seu ponto de vista,
Que saiba ouvir o outro lado da questão,
Que seja racional e progressista,
Um candidato, não um fanfarrão,
Procura-se um candidato com urgência,
Antes que o país abra falência,
Antes que não se saiba em quem confiar,
Um candidato socialista, de preferência,
E vacinado, pra ocupar a presidência,
Porque tá difícil de aguentar...
31.1.22
A palavra
Eu só preciso de uma palavra emprestado
Para escrever um poema distraído,
Uma palavra qualquer, com qualquer significado,
Que qualquer um de nós tenha esquecido,
Qualquer palavra, como um número sorteado,
Quem sabe alguma que tenha se perdido,
Eu só preciso dessa palavra ao meu lado,
Eu já me sentiria agradecido,
E a poesia, porque nasce da palavra,
Tendo a palavra por perto, ela brotava
Em rima e ritmo e frases de improviso...
Uma palavra apenas, como um gen,
E depois dela, algumas mais além...
Uma palavra... Tudo que eu preciso...
Para escrever um poema distraído,
Uma palavra qualquer, com qualquer significado,
Que qualquer um de nós tenha esquecido,
Qualquer palavra, como um número sorteado,
Quem sabe alguma que tenha se perdido,
Eu só preciso dessa palavra ao meu lado,
Eu já me sentiria agradecido,
E a poesia, porque nasce da palavra,
Tendo a palavra por perto, ela brotava
Em rima e ritmo e frases de improviso...
Uma palavra apenas, como um gen,
E depois dela, algumas mais além...
Uma palavra... Tudo que eu preciso...
27.1.22
Ninho
As vezes, quando eu me sinto sozinho,
Eu passo por aqui pra conversar,
Às vezes pra postar um sonetinho,
Outras pra ler o que alguém veio postar,
E aí, sem perceber, devagarinho,
Eu me sinto melhor, e apesar
Da gente não morar no mesmo ninho,
Aqui é o melhor lugar para morar,
Porque as vezes, quando eu me sinto cansado,
E parece que tá tudo em volta dando errado,
Vocês são como um copo d'água de alegrias,
Que quando eu bebo, meus dias cinzentos
Desaparecem, feito espumas aos ventos,
E dão lugar a rabiscos de poesias...
Pátria amada
Um governo completamente equivocado,
Extremamente mal conduzido,
Onde era pra avançar, tem recuado,
Onde era pra crescer, diminuído,
Um governo absolutamente desgovernado,
Conduzido por políticos sem sentido,
Preocupado com o que não era para estar preocupado,
Deixando livre o que era pra ser contido,
Ainda assim, um governo legitimado
Pelo voto escolhido e confirmado,
Um governo que é, mas não era pra ter sido,
Um mau exemplo, como um fruto estragado,
Que deveria ter sido descartado,
Mas que foi exatamente o escolhido...
21.1.22
A poesia
Não se incomoda quando estou aborrecido,
E não se afasta quando estou incomodado,
Não se perde de mim quando sou vencido,
Porque ainda assim permanece do meu lado,
E eu nem preciso pedir, vem sem pedido,
E me perdoa, mesmo quando sou condenado,
A poesia, não conheço nada parecido,
Nada mais delicado,
A poesia que me visita
Sem se importar com a minha vida esquisita,
E o meu destino, sem se incomodar,
A poesia, como quem perdoa,
Planta em meu dia palavra boa,
Que eu não encontro aqui no meu pomar,
Sem se importar com meus gestos mesquinhos,
A poesia me enche de carinhos,
Que eu preciso aprender a espalhar...
9.1.22
Poema para Karina
Toda vez que o seu coração se sentir cansado,
E cansado, sentir vontade de chorar,
Lembre-se de que estamos do seu lado,
Procure a gente pra conversar,
E toda vez que o seu coração se sentir desanimado,
E desanimado, perder a vontade de caminhar,
Lembre-se que o coração é sempre sustentado
Pelos amigos, e isso é o que a gente chama lar,
Então, toda vez que seu coração se sentir sozinho,
A gente vai estar pelo caminho,
A gente espera, se você demorar,
Cantando uma velha canção que já dizia
Que "todos os tristes querendo juntos", quem diria,
"Toda tristeza vai se acabar"...
5.1.22
O poema
Eu gosto de escrever poesia sem sentido,
E sem saber direito o que dizer,
Rimar sem perceber faz bem ao ouvido,
Faz bem aos olhos o poema acontecer,
Eu gosto, e o poema, convencido,
Percebo que também gosta de saber
Que eu gosto de ver o verso bem vestido
De rimas improvisadas sem querer.
E porque eu gosto, o poema distraído
Vai se aproximando, aos poucos, e, sem ruído,
Verso por verso começa a se escrever,
E de repente, antes que eu tenha percebido,
O poema que não era para ter acontecido,
Termina, enfim, por acontecer...
25.12.21
A esperança
E enquanto tudo não estiver consumado,
E o esperado não tiver acontecido,
O fio de esperança, ainda guardado,
Vai iluminar o coração enfraquecido,
Mudando o rumo do que tiver programado,
Trazendo vida ao coração adormecido,
Jorrando luz no coração quase apagado,
E esperança no coração distraído,
Enquanto tudo não estiver findado,
Como a assinatura final num atestado,
Como o cumprimento do ato prometido,
A esperança, como um cajado,
Como um lampejo mudando o resultado,
Como o alívio para o coração ferido...
2.12.21
Homenagem
Ao Professor Hector Gomez Martinez
Mas era preciso seguir pela eternidade,
Era preciso tornar-se inspiração,
Habitar o coração da humanidade,
Modificando assim seu coração,
Era preciso testemunhar outra verdade
E entregar-se a ela sem contestação,
Partir, mas sem perder a integridade,
E ir-se, mas permanecendo, como não?
E sendo assim, seguiu o professor,
Deixando inconfundíveis rastros de amor,
Que para sempre serão aqueles seus
Rastros de amor, o Professor, que desde então
Segue nos conduzindo por sua mão
Abençoada pelas mãos de Deus...
13.10.21
A poesia
Às vezes a poesia me alimenta
Mais do que o arroz com feijão, sem perceber,
Mais do que o arroz com feijão, sem perceber,
E, me alimentando, me reinventa,
E me reinventando, me faz sobreviver,
A poesia, a que às vezes me sustenta,
Quando tudo em volta parece ceder,
Ela não cede, não me solta, e me aguenta,
E a sua força me faz permanecer,
Porque a poesia não são só rimas entrelaçadas,
São muito mais que palavras combinadas,
A poesia para mim é como uma embarcação
Que me salva no instante exato do naufrágio,
E que cuida de mim e do meu pensamento frágil,
E toma conta do meu coração.
E me reinventando, me faz sobreviver,
A poesia, a que às vezes me sustenta,
Quando tudo em volta parece ceder,
Ela não cede, não me solta, e me aguenta,
E a sua força me faz permanecer,
Porque a poesia não são só rimas entrelaçadas,
São muito mais que palavras combinadas,
A poesia para mim é como uma embarcação
Que me salva no instante exato do naufrágio,
E que cuida de mim e do meu pensamento frágil,
E toma conta do meu coração.
7.10.21
Pra vida toda valer a pena viver
Tem livro novo da Ana anunciado.
Tem coisa nova pra gente conhecer.
Ainda nem li, mas já estou impressionado:
Onde Ana arruma tempo pra escrever?
Tempo? Acho que no seu coração exagerado,
Que por amar demais, possui esse poder:
Multiplica o tempo, e o tempo multiplicado
Faz Ana nunca parar de acontecer.
Tem livro novo da Ana, como um presente,
Que vai fazer emocionar a gente,
E provocar na gente mais vontade de aprender...
Um livro novo da Ana. Como poesia.
Como um roteiro. Um caminho. Como um guia.
Pra vida toda valer a pena viver.
Tem coisa nova pra gente conhecer.
Ainda nem li, mas já estou impressionado:
Onde Ana arruma tempo pra escrever?
Tempo? Acho que no seu coração exagerado,
Que por amar demais, possui esse poder:
Multiplica o tempo, e o tempo multiplicado
Faz Ana nunca parar de acontecer.
Tem livro novo da Ana, como um presente,
Que vai fazer emocionar a gente,
E provocar na gente mais vontade de aprender...
Um livro novo da Ana. Como poesia.
Como um roteiro. Um caminho. Como um guia.
Pra vida toda valer a pena viver.
4.10.21
O dia do poeta
Dia do poeta? Mas o poeta tem dia?
E o que o poeta tem de especial?
A estranha propriedade de escrever poesia?
Mas pro poeta isso é coisa tão normal...
Dia do poeta? Eu não sabia
Que o poeta tinha um dia oficial...
O poeta, o fingidor, quanta ironia,
Ganhou um dia, coisa mais formal...
E enquanto isso, passa os outros dias
Preenchendo páginas vazias,
Porque com elas ele pode conversar...
Felizes dias, poetas do mundo inteiro,
Que de Jerusalém ao Rio de Janeiro,
Emprestam asas de fazer o coração voar
2.10.21
Preferimos feijão
Preferimos feijão a fuzil. Preferimos vacina
A medicamentos que só causam enganação.
Acreditamos na ciência. E usamos a cloroquina
Nos casos em que ela tem adequada indicação.
Mas prefirimos feijão. Fuzil não elimina
A fome que devora grande parte da nação.
Feijão, ciência, democracia, e fluoxetina
Para tentar não entrar em depressão...
Um dia a história retoma seus caminhos,
Afinal não estamos sozinhos,
Somos milhões de brasileiros pensando assim:
Preferimos feijão. E mais que comida,
Preferimos distribuir amor à vida
Para que esse imenso amor não tenha fim...
6.9.21
Sessenta e dois
Sessenta e dois anos em boa companhia:
Família, alguns poucos amigos, boas canções,
Filmes que encantam, e sempre a poesia,
Sessenta e dois anos muito bons,
Nem sempre sorrindo, nem sempre em agonia,
Até aqui foi uma canção em muitos tons,
Mas que aprendi a dedilhar em harmonia,
Misturando as primas e os bordões...
E a partir de agora é seguir daqui pra diante,
A estrada é um chamariz pro caminhante,
Não importa quanto tempo a caminhada vai durar,
Sigamos. O que passou fica guardado na memória.
O hoje é o ano zero de uma nova história
Que só o tempo conhece onde vai dar...
21.8.21
A alma humana
Eu li vários livros, não encontrei nada
Do que eu encontrei no seu coração,
Tem mais significado a sua risada,
Tem mais sentido o aperto da sua mão,
Fui pra biblioteca, dei uma pesquisada,
Sai dali todo indefinição,
Palavra querendo ser mais que outra palavra,
Perdi meu tempo buscando explicação,
Mas quando percebi o seu sorriso,
Descobri que a pergunta que eu preciso
Fazer, não devo fazer aos manuais da academia,
A alma humana responde, em suas linhas,
Das perguntas mais complexas às mais mesquinhas,
A alma humana, como a poesia...
5.8.21
Minha mãe faz aniversário dia 5 de agosto
Eu nunca soube ao certo a sua idade,
O ano exato do seu nascimento,
Sempre me bastou saber o dia daquela felicidade,
O ano? Esse era só um fragmento...
Mas mesmo não sabendo ao certo a sua idade,
Eu pude ver como era a luz que havia dentro
Daquele coração que cabia a humanidade,
E do amor que escapava do seu pensamento...
Eu nunca soube exatamente a sua idade,
Mas nunca tive nenhuma dificuldade
De entender a voz do seu coração,
E de compreender os sinais da sua vida,
Por isso a sua idade me passou despercebida,
Mas só a sua idade, a sua vida não...
15.7.21
Vida própria
Às vezes a poesia desaparece,
E eu fico com a impressão de que ela não vai voltar,
Parece pra mim, daqui, que ela adormece,
Ou que se cansa às vezes de conversar,
Então é assim: a poesia como uma espécie
De pensamento que não pensa em retornar,
Desaparece. De vez em quando acontece.
E quando acontece, não adianta forçar.
A poesia tem seu próprio roteiro.
Tem dias que quer falar o dia inteiro.
Tem vezes que passa o ano inteiro sem falar.
A poesia, eu desconfio, tem vida própria.
E uma única vida. Não tem cópia.
Eu desconfio. Mas não tenho como provar.
E eu fico com a impressão de que ela não vai voltar,
Parece pra mim, daqui, que ela adormece,
Ou que se cansa às vezes de conversar,
Então é assim: a poesia como uma espécie
De pensamento que não pensa em retornar,
Desaparece. De vez em quando acontece.
E quando acontece, não adianta forçar.
A poesia tem seu próprio roteiro.
Tem dias que quer falar o dia inteiro.
Tem vezes que passa o ano inteiro sem falar.
A poesia, eu desconfio, tem vida própria.
E uma única vida. Não tem cópia.
Eu desconfio. Mas não tenho como provar.
16.6.21
Eu precisava dizer eu te amo
Para ACQA após escutar sua apresentação no TEDX
Eu precisava dizer "eu te amo", eu já sabia,
Mas era preciso não desistir,
Bastava dizer, mas era grande a teimosia,
Mostrando outros caminhos a seguir,
Era absolutamente necessário, eu entendia,
Só não sabia como escapulir
Das garras da ignorância, que me diminuia,
E do medo, que tentava me destruir...
Até o dia em que dizer "eu te amo" foi libertador,
Capaz de caber nele tanto amor,
E amor de seguir durando a vida inteira ,
E libertar corações escravizados,
Que ao dizer que amam, se descobrem amados,
Porque não haveria como ser de outra maneira...
12.6.21
Não tire a máscara
Não tire a máscara. Tire o genocida.
Tire o desassossego da nação.
Tire. Porque não adianta germicida.
Mas não tire com ódio. Tire com eleição.
E não tire a máscara. Você não é suicida.
Nem imbecil. Não faça esse papelão.
Tire o capitão. É a única saida.
Mas não tire a máscara. Tire o bufão.
Proteja-se. Proteja a vida.
Nenhuma outra coisa precisa ser mais protegida
A vida. Sem ela de que vale tudo mais?
A máscara fica. O capitão sai fora.
Uma dia a gente ainda comemora,
E nesse dia a gente dorme em paz.
Tire o desassossego da nação.
Tire. Porque não adianta germicida.
Mas não tire com ódio. Tire com eleição.
E não tire a máscara. Você não é suicida.
Nem imbecil. Não faça esse papelão.
Tire o capitão. É a única saida.
Mas não tire a máscara. Tire o bufão.
Proteja-se. Proteja a vida.
Nenhuma outra coisa precisa ser mais protegida
A vida. Sem ela de que vale tudo mais?
A máscara fica. O capitão sai fora.
Uma dia a gente ainda comemora,
E nesse dia a gente dorme em paz.
5.6.21
Comunhão
Depois de 72 horas de plantão,
Aqui estou de volta ao meu cantinho,
72 horas parecia um turbilhão,
Mas era só o começo do caminho,
Respira, atende o próximo: _Pois não...
Febre alta, vomito, começou ontem todo vermelhinho,
Pausa prum café. Tem bolo e pão.
Meia hora de sono. _Doutor, tem um bebezinho.
72 horas. O tempo vai passando,
E enquanto eu vejo dores desfilando,
Eu me aproximo da dor, eu toco a dor com a mão
72 horas. E eu vejo como dói a vida.
E o analgésico sabe que não tem saída:
A dor só se dissolve em comunhão...
Aqui estou de volta ao meu cantinho,
72 horas parecia um turbilhão,
Mas era só o começo do caminho,
Respira, atende o próximo: _Pois não...
Febre alta, vomito, começou ontem todo vermelhinho,
Pausa prum café. Tem bolo e pão.
Meia hora de sono. _Doutor, tem um bebezinho.
72 horas. O tempo vai passando,
E enquanto eu vejo dores desfilando,
Eu me aproximo da dor, eu toco a dor com a mão
72 horas. E eu vejo como dói a vida.
E o analgésico sabe que não tem saída:
A dor só se dissolve em comunhão...
1.6.21
A morte não tem a última palavra
A morte não tem a última palavra,
E por mais impressionante que possa parecer,
Tanta coisa continua quando a vida acaba,
Que fica difícil definir o que é morrer,
É que para além do pulmão que respirava,
E do coração que já não consegue mais bater,
Uma outra semente de vida germinava
Ainda que quase ninguém conseguisse perceber,
Porque as pessoas, mesmo após as despedidas,
Continuam a fazer parte das nossas vidas,
Por isso a morte definitivamente não é o fim,
Ou se é o fim, é um fim que não termina,
Como o manuscrito de uma obra prima,
Eu penso às vezes na morte assim...
22.5.21
As manhãs de sábado
As manhãs de sábado de pandemia
São manhãs propicias para, ao acordar,
Escutar poesia, ler poesia, escrever poesia,
Pois nesses dias só a poesia pode nos salvar
Do desespero e da melancolia,
E da ausência de um motivo pra perseverar,
Uma unica rima pode salvar seu dia,
Sonetos não deixam você se afogar,
Então, passar um Drummondzinho na chaleira,
Um Castro Alves pulando da torradeira,
E o dia pode finalmente começar...
É pandemia, mas eu conto com Quintana,
E uma dose de Vinicius por semana,
O mau humor não consegue nem me olhar...
16.5.21
A sua voz
A sua voz fala ao coração da gente,
E diz o que o coração da gente quer escutar,
Parece que sabe o que o coração da gente sente,
Parece que grita quando era mais fácil se calar,
Porque a sua voz nunca é a voz indiferente
Diante da dor que insiste em se espalhar,
Sua voz é como o manto protetor urgente,
Porque o sofrimento machuca e não pode esperar.
Por isso a sua voz será sempre a nossa voz,
Sua indignação, a indignação de todos nós,
Sua luta, nossa luta, estamos do mesmo lado,
Por isso a sua voz nunca será silenciada,
Já somos muitos seguindo a mesma estrada
Por onde a sua voz nos tem guiado...
12.5.21
A psicologia
Os psicólogos, em sua caminhada,
Espalham claridade por onde vão,
Iluminando, dessa forma, a estrada
Como um farol cortando a escuridão,
E há tanta gente desconsolada,
Tanta gente precisando de uma mão,
Há tanta gente quase afogada,
À espera de uma tábua de salvação,
E estamos quase todos precisados,
Filhos frágeis precisando ser ajudados,
Bendita seja a psicologia
Sempre que funciona como a mão que adormece
A dor do coração de quem padece,
E isso às vezes me faz lembrar poesia...
11.5.21
Histórias lindas de morrer
Para Ana Claudia
Com carinho.
Lindas histórias, mas histórias de morrer,
Porém histórias de morrer encantadoras,
Dessas que raramente costumam acontecer,
Mas que quando acontecem, são avassaladoras,
Histórias lindas de ler e de reler,
Histórias de mortes, mas não histórias sofredoras,
Porque se a morte é um dia que vale a pena viver,
Morrer pode ser uma oportunidade benfeitora...
Histórias lindas para se guardar na memória,
Para perceber quanta luz em cada história,
Para sentir o coração quase parar de respirar,
Histórias lindas de morrer... Sorria,
Quem sabe a gente morre assim um dia,
E pode ter então muitas histórias pra contar...
9.5.21
A música de Guinga
E você acaba seguindo pra outro lado?
De onde esse acorde que transforma essa harmonia
De um modo completamente inesperado?
A mesma canção que segue por uma via,
Pra de repente fingir que escolhe o caminho errado,
Alguns minutos depois retoma sua melodia,
Criando um acorde novo, nunca dantes dedilhado...
Guinga completamente extraordinário,
Não existe tradução no dicionário,
Mas se existisse, ele certamente o reinventaria,
Porque Guinga é o espírito da música encarnado,
O violão de João reinventado,
A única música capaz de declamar poesia...
Guinga completamente extraordinário,
Não existe tradução no dicionário,
Mas se existisse, ele certamente o reinventaria,
Porque Guinga é o espírito da música encarnado,
O violão de João reinventado,
A única música capaz de declamar poesia...
5.5.21
Saudades
Uma dor de nunca mais a gente se esquecer,
Sangue inocente jorrando, mãos covardes,
Uma cidade inteira sem entender,
Três pequeninos sem culpas, sem maldades,
Duas professoras tentando proteger,
Um dia para ficar na eternidade,
Um dia que era para nunca acontecer,
Chora Saudades sua dor dilacerada,
Chora Saudades e não quer ser consolada,
Chora Saudades sua dor que não tem paz,
Chora Saudades seus mortos sem pecados,
Chora Saudades seus filhos assassinados,
Chora seus olhos para nunca mais...
Paulo Gustavo
Partir do mundo assim, banhado em dor?
Esperança... E no fim: a morte! Que pecado!
É sem sentido. É cruel. Devastador.
Tanta oração a Deus sem resultado.
Tanta suplica empenhada com fervor.
A cura! A cura! E no fim tudo é negado.
Tudo. Menos o seu ultimo estertor...
Em conceitos sublimes e profundos,
Respondeu-me em acentos colossais:
— “Verme que volves dos esterquilínios,
Cessa a miséria de teus raciocínios,
Não insultes as leis universais.”
Os dos tercetos finais do soneto são do soneto A LEI de Augusto dos Anjos , psicografados por Francisco Candido Xavier no Parnaso de Além Tumulo.
Ao ator Paulo Gustavo, com carinho.
3.5.21
Por tras de toda dor existe dor
A falta de cuidado, inquietação,
O coração que não sara seu sangramento
Não cuida bem de um outro coração,
Não é uma decisão, é um desabamento,
O caminho de quem já não domina outra opção,
O sofrimento por trás de um comportamento,
A negligência, e por trás, a autodestruição,
Por trás de toda dor, por mais violenta,
Há uma outra dor de quem não se sustenta
E não percebe o tamanho da própria dor,
Por trás de toda dor, por mais cruenta,
Há uma outra dor que não se aguenta,
E um coração que nem se percebe sofredor
2.5.21
Sala de parto
O parto normal está virando rotina.
Cercado da família, esse momento
É um banho de segurança e ocitocina.
Quatro da manhã. Chora o rebento.
Toma a primeira dose de vitamina.
Minutos depois, já tira o seu sustento
Do seio materno. Coisa mais fina.
E dai em diante é só tomar cuidado.
Viver é evitar o rumo errado
E não apressar o rio, porque ele corre sozinho...
Quatro da manhã. Domingo frio.
Eu não me esqueço: não apresse o rio,
E vou colhendo amor pelo caminho.
1.5.21
Primeiro de maio
E também o primeiro a ser esquecido,
Sempre o primeiro a ser encaminhado,
Estranhamente o último a ser reconhecido,
Sempre o primeiro, quando tudo dá errado,
A ser culpado e também a ser punido,
A ver seu salario, que deveria ser sagrado,
Ser bloqueado, ser reduzido,
Ou a ter seu dia de pagamento adiado,
Como se isso fosse permitido,
Trabalhador,
O primeiro a ser listado,
E o ultimo da lista a ser ouvido,
Porque o último a ser valorizado,
Embora seja o mais comprometido,
O primeiro, quando o patrão está quebrado,
A ser avisado que está despedido,
O primeiro a ficar desesperado
Enquanto o patrão segue em frente, garantido,
Trabalhador,
O primeiro a ser enganado,
O primeiro na conta a ser subtraído,
Sempre o primeiro a ser sacrificado,
Sempre o primeiro a ser substituído,
Como se fosse um pacote no mercado,
Um contratado só pra ser demitido,
E quando o lucro da empresa tiver multiplicado,
É o primeiro no papel do ilustre desconhecido.
Primeiro de maio. Trabalhador comemorado,
Mas a essa altura, quase nenhum iludido,
Porque o que o trabalhador precisa é ser vacinado,
E ser bem remunerado, e ser ouvido,
E não de flores para ser homenageado,
E nem de churrascos para ser iludido,
Precisa é de um ambiente de trabalho bem cuidado,
E de um plano de cargos reconhecido,
De um calendário de pagamento aprovado,
Com reajuste real e merecido,
Trabalhador precisa ser bem tratado,
Não é só servir bem, precisa ser bem servido,
Porque seu coração já está esgotado,
E não aguenta mais no seu ouvido
Promessas de patrão mal intencionado,
Papinhos de político fingido,
Projetos de um futuro do passado
Sobre coisas que já deveriam ter acontecido,
Porque na hora em que o desafio é apresentado,
E nessa hora é preciso um esforço desmedido,
O trabalhador é o primeiro a ser chamado,
O primeiro a ser escolhido,
O primeiro imediatamente a ser escalado,
Mas o último a ser verdadeiramente reconhecido.
Trabalhador, trabalhador, muito obrigado,
Recebe esse poema agradecido,
E lembre-se: trabalhador unido, como está gravado,
Jamais e em tempo nenhum será vencido.
30.4.21
A minha irmã morte
Se aproxima e se vai logo em seguida,
É minha irmã, mas como gata borralheira,
Nunca se mostra, vive escondida...
De vez em quando me toca, sorrateira,
Sorri, mas ao ver que não é correspondida,
Afasta-se de mim, de tal maneira
Que eu volto à minha vida distraída...
Porém a minha irmã morte, eu sei que um dia
Vai precisar da minha companhia,
Porque nós somos filhos da mesma criação,
E nesse dia, em seu abraço derradeiro,
Ela me dirá, de modo desinteresseiro:
Fica comigo, eu te amo, meu irmão...
Os escotomas
Ah, essas luzinhas malditas que me cegam,
Que chegam antes da dor aparecer,
Que vem do nada e de repente me pegam,
E brilham ao notar que vou sofrer.
Escotomas. Só eu enxergo. Os outros não enxergam,
Por isso ficam sem entender.
Eu tento, mas os meus gestos não negam:
Alguma coisa de mal vai acontecer.
Dai eles passam. Em minutos vão embora.
E antes que eu comemore, chega a hora
Da dor de cabeça, inimiga insuportável...
Lá se vão 40 anos com essas crises...
_Tem cura doutor? O que me dizes?
_Pergunta difici não. Seja razoável.
Kkkkk
27.4.21
A alegria empática
Não fui eu e tampouco foi você quem a recebeu.
Porque se você ficar feliz me faz ganhar meu dia,
Então seu coração feliz torna feliz o meu.
É como uma conexão que nos recria
E a gente não percebe como aconteceu.
Alegria empática. Não a teoria.
A prática. O que torna um só você e eu.
E a partir dai, alegrias misturadas,
Como se estivessem, de alguma forma, costuradas,
Geram mais luz aliadas que sozinhas,
Alegria empática. Esta na literatura.
Mas ao vivo e à cores tem muito mais belezura
E mais poesia que essas pobres linhas
🌹
O medo
Às vezes o dia não sai como planejado,
A única saída é ir tentando,
E assim, tentar não ficar apavorado,
Afinal de contas, não é se apavorando
Que o dia se torna menos complicado.
Respira fundo. Vai se conectando.
E escuta seu coração, seu aliado.
É nessa hora que o coração vai se mostrando,
E ai convém fazer silêncio sempre quando
O coração tiver sido convocado...
E na medida em que o dia vai passando,
Você aprende, simplesmente caminhando,
Que o medo não precisa deixar você paralisado.
25.4.21
Mãe
Tem mais poesia que Drummond e que Bandeira,
Carinho de mãe? Quem é que não adora?
Quem é que não quer ter pra vida inteira?
Que outra palavra existe mais sonora,
Capaz de deixar o coração dessa maneira?
Porque perto dela tudo melhora?
Por que é que ela encara qualquer tranqueira?
Quando Deus criou o mundo em sete dias,
Mandou as mães para serem nossos guias,
E deu a elas, como missão,
Amar de um amor com toda intensidade,
Viver para sempre, por toda a eternidade,
E morar dentro do nosso coração.
A sala de parto
4 da manhã. Cesariana.
Quem dormiu, dormiu. Quem não dormiu não dorme mais.
Madrugada. Domingo. Fim de semana.
Mas pra quem está de sobreaviso, tanto faz.
4 da manhã. O hospital chama.
Tomo um cafezinho e vou atrás.
Sou o primeiro a chegar. O coração nem reclama.
Com o tempo, qualquer prazer já satisfaz.
O tempo passa. A equipe vai chegando.
O pai, assustado, me conta, quase chorando,
Que o seu primeiro filho daqui a pouquinho vai nascer...
6 da manhã agora, de volta pra minha cama,
Rabisco esse poema, de pijama,
Enquanto observo o dia amanhecer...
Bom dia...
22.4.21
O sono
Meu sono viajou. Foi pro Japão.
Mas talvez tenha ido pro Pará.
Fez as malas. Pegou o primeiro avião
E avisou que não ia mais voltar
Deixou pra mim de presente a televisão
E alguns comprimidinhos pra eu tomar,
Mas ele sabia que não era solução,
Sabia e preferiu não me contar...
De vez em quando eu lembro do meu sono
Que foi morar nos braços de outro dono
E me deixou nessa melancolia,
Mas graças a Deus ainda existe o vinho,
E alguns amigos bons pelo caminho,
Mas graças a Deus existe a poesia...
Alberto Mussa
Parece que sou eu, mas não sou eu,
É um primo meu, e isso é muito divertido:
Alberto foi o nome que o meu pai me deu
Quando meu primo não tinha nem nascido,
Daí, depois, quando meu primo nasceu,
Não sei por que motivo isso teria acontecido,
Seus pais lhe deram um nome igual ao meu,
Aliás, igual não, só muito parecido,
E foi assim que tudo aconteceu,
Nenhuma das duas famílias recorreu,
E o Alberto Mussa pros dois foi decidido.
Passou o tempo. A gente cresceu.
E cada um carregou consigo o Alberto seu,
Espero que todos tenham compreendido...
19.4.21
O meu poema
Um pouco falar, um pouco ser escutado,
Um pouco escrevê-lo sem ser interrompido,
Ou ser interrompido sem ser prejudicado,
Ou ser prejudicado pra depois fortalecido,
Um pouco mostrá-lo, um pouco deixá-lo guardado,
Um pouco depois saber que foi distribuído,
Um pouco para ser perdido, um pouco para ser plantado,
Um pouco para ser lembrado, outro para ser esquecido,
O meu poema, sempre um significado,
Pedacinho que mostro do que há em mim sagrado,
Lugares em que eu nunca imaginei ter ido,
Mas eis que quando o poema está gravado,
Eu fico imaginando: de onde foi tirado?
E nenhuma resposta, pra mim, me faz sentido...
13.4.21
Hoje contém esperança
O dia de hoje contém esperança
Porque nele tudo pode acontecer:
Amar e pedir perdão e, na mesma dança,
O sol nascer, e em seguida se esconder,
Unidos, numa legítima aliança,
A dor e o alivio quando a dor doer,
Por isso contém esperança: se o mal avança
O bem sabe bem como nos defender.
Contém esperança os dias nublados,
Quando os dias de sol ficam guardados
Porque a natureza sabe economizar...
Hoje contém esperança, use a vontade,
Como um escudo contra o frio e a insanidade,
Como um tesouro que cabe em qualquer lugar...
11.4.21
Comunhão
Dividir é quase o mesmo que somar,
Doar é um dos sinônimos de receber,
Receber tem o mesmo sentido de entregar,
E guardar é quase a mesms coisa que não ter,
Viver é bom quando a palavra compartilhar
É dita mais vezes do que a palavra reter,
Porque o melhor do rio é se dar ao mar
E o mar se dar às ondas com prazer...
As mãos abertas, durante a jornada,
São a possibilidade da semente ser semeada,
E ao mesmo tempo a chance de colher o pão,
As mãos fechadas não semeiam nada,
Fazem perder o melhor da caminhada,
E o que há de bom na vida em comunhão
10.4.21
O chaveiro
Algumas portas muito bem trancadas,
Outras empoeiradas, esquecidas,
Umas com fechaduras enferrujadas,
Outras com dobradiças enrijecidas,
Portas estrategicamente localizadas
Em corredores e áreas proibidas,
Bem escondidas e mal iluminadas,
Portas fechadas, obstruidas,
Então a compaixão, como um chaveiro,
Como quem desmantela um cativeiro,
Permite que elas se abram, sem doer,
A compaixão, mostrando suas chaves,
Abrindo portas, desfazendo traves,
A compaixão mostrando seu poder...
9.4.21
As notícias difíceis
Aa notícias difíceis só são noticias difíceis
Porque são noticias complicadas de se dar,
Como uma carta escrita em letras ilegíveis
Que a gente precisa entender e entregar...
Notícias difíceis de efeitos irreversíveis,
Não há como ler para depois apagar,
Noticias difíceis, porque os caminhos não são fáceis,
Nem fácil é o jeito de caminhar...
Noticias difíceis, mas porque necessárias,
É necessário compreender as várias
Formas de transmiti-las com leveza...
Noticias difíceis, como são os enigmas,
Notícias difíceis, como são os estigmas,
Um exercício improvável de delicadeza...
Porque são noticias complicadas de se dar,
Como uma carta escrita em letras ilegíveis
Que a gente precisa entender e entregar...
Notícias difíceis de efeitos irreversíveis,
Não há como ler para depois apagar,
Noticias difíceis, porque os caminhos não são fáceis,
Nem fácil é o jeito de caminhar...
Noticias difíceis, mas porque necessárias,
É necessário compreender as várias
Formas de transmiti-las com leveza...
Noticias difíceis, como são os enigmas,
Notícias difíceis, como são os estigmas,
Um exercício improvável de delicadeza...
5.4.21
A cidade asfixiada
Hoje minha cidade deveria estar parada
E o virus impedido de ter por onde andar,
Aqui ninguém, naquela esquina nada,
Porque ninguém mais pode se contaminar,
O médico está cansado, a UTI lotada,
E a enfermeira com vontade de chorar,
Pára, cidade, sua saude está quebrada,
Seu oxigênio já começa a escassear...
Silencio, cidade. Mais de trezentos mil mortos.
Não há sepultura para tantos corpos.
A esperança precisa dar um jeito de voltar,
Porque hoje, minha cidade asfixiada,
Ou você para, ou acaba sepultada,
Não há nenhuma outra forma de escapar...
E o virus impedido de ter por onde andar,
Aqui ninguém, naquela esquina nada,
Porque ninguém mais pode se contaminar,
O médico está cansado, a UTI lotada,
E a enfermeira com vontade de chorar,
Pára, cidade, sua saude está quebrada,
Seu oxigênio já começa a escassear...
Silencio, cidade. Mais de trezentos mil mortos.
Não há sepultura para tantos corpos.
A esperança precisa dar um jeito de voltar,
Porque hoje, minha cidade asfixiada,
Ou você para, ou acaba sepultada,
Não há nenhuma outra forma de escapar...
28.3.21
As fotografias
Eu precisava tanto
Ver as fotografias
Das UTIs vazias
E dos vários monitores ociosos,
Dos medicos e enfermeiros não fazendo nada,
Da maca desocupada,
Da maleta de reanimação fechada,
E das cadeiras sobrando na recepção,
Eu precisava tanto
Ver as fotografias
Das balas de oxigênio ainda lacradas,
Das quipes nas emergências contando piadas,
E das bombas infusoras desligadas por ninguém precisar de bombas de infusão,
Ampolas de pancuronio engavetadas
E faceshields descansando no balcão,
Ver funerárias de portas cerradas,
Precisava ver gentes sorrindo
E contando seus causos de recuperação...
Eu precisava tanto ver fotografias
Que desmentissem as notícias que passam na televisão,
Ver ambulâncias paradas nas garagens,
E não em remoções de vida ou morte,
Cortando caminho pela contramão...
Brava gente brasileira,
Queridissimos irmãos,
Obedeçam as ordens do chefe da nação:
Invadam postos e hospitais vazios,
E mostrem para mim médicos sadios
E de braços cruzados,
Porque eu quero ver leitos desocupados,
E preciso muito acreditar nessa versão:
É tudo mentira,
Coisa de jornalista esquerdinha e traira
Pra meter medo na população...
Não deixem que eles continuem espalhando isso não,
Enviem fotos
De nossa pátria amada,
Idolatrada,
E bem cuidada,
Mostrem pra mim que não está acontecendo nada,
Porque eu preciso ter certeza de que tudo isso não passa de invenção,
Deixem o número de óbitos pros pessimistas,
Sejamos imperialistas,
Sigamos o exemplo do capitão,
Contem pra mim que essa dor nunca existiu,
São fantasias
De alguns filhos desvairados
De seu solo, oh, mãe gentil,
Patria amada,
Brasil,
Por isso eu precisava muito ver essas fotografias,
Mostrem pra mim,
Porque já não cabe tanto medo
E tanta dor
No que restou
Do meu cansado coração...
Ver as fotografias
Das UTIs vazias
E dos vários monitores ociosos,
Dos medicos e enfermeiros não fazendo nada,
Da maca desocupada,
Da maleta de reanimação fechada,
E das cadeiras sobrando na recepção,
Eu precisava tanto
Ver as fotografias
Das balas de oxigênio ainda lacradas,
Das quipes nas emergências contando piadas,
E das bombas infusoras desligadas por ninguém precisar de bombas de infusão,
Ampolas de pancuronio engavetadas
E faceshields descansando no balcão,
Ver funerárias de portas cerradas,
Precisava ver gentes sorrindo
E contando seus causos de recuperação...
Eu precisava tanto ver fotografias
Que desmentissem as notícias que passam na televisão,
Ver ambulâncias paradas nas garagens,
E não em remoções de vida ou morte,
Cortando caminho pela contramão...
Brava gente brasileira,
Queridissimos irmãos,
Obedeçam as ordens do chefe da nação:
Invadam postos e hospitais vazios,
E mostrem para mim médicos sadios
E de braços cruzados,
Porque eu quero ver leitos desocupados,
E preciso muito acreditar nessa versão:
É tudo mentira,
Coisa de jornalista esquerdinha e traira
Pra meter medo na população...
Não deixem que eles continuem espalhando isso não,
Enviem fotos
De nossa pátria amada,
Idolatrada,
E bem cuidada,
Mostrem pra mim que não está acontecendo nada,
Porque eu preciso ter certeza de que tudo isso não passa de invenção,
Deixem o número de óbitos pros pessimistas,
Sejamos imperialistas,
Sigamos o exemplo do capitão,
Contem pra mim que essa dor nunca existiu,
São fantasias
De alguns filhos desvairados
De seu solo, oh, mãe gentil,
Patria amada,
Brasil,
Por isso eu precisava muito ver essas fotografias,
Mostrem pra mim,
Porque já não cabe tanto medo
E tanta dor
No que restou
Do meu cansado coração...
23.3.21
A balada
Na balada sempre cabe mais um. Na UTI não.
O som que rola na UTI é diferente:
Na balada, o som que agrada é o batidão,
Na UTI é o respirador que embala a gente.
Na balada tem sempre lugar prum valentão,
Na UTI é bem mais difícil ser valente:
Aminas, cateteres, intubação,
A morte gritando bem ali na sua frente...
É muito bom passar a noite na balada,
Mas lembre-se de que prudência desprezada
É uma armadilha de onde é difícil escapar,
Então, se você quer fugir dessa ratoeira,
Apascenta essa sua alma baladeira,
E espera em casa o temporal passar...
22.3.21
A minha cidade
Minha cidade amanheceu fechada,
Decretos limitando a circulação,
Capacidade de atendimento nos hospitais saturada,
Fila de espera por internação,
Cidade adoecida, circulação limitada
Tentando retardadar a disseminação
De um mal que não poupa nem ninguém nem nada,
Como um pecado para o qual não há perdão,
E aqui em Campos, exatamente como na China,
Enquanto não fartarem-se as vacinas,
Vai ser desse jeito, é a única solução:
Ou aceitamos essa medida dura,
Ou nos tornamos uma imensa sepultura
E implodimos nossa geração...
19.3.21
O Rio de Janeiro
Fecharam as praias do Rio de Janeiro,
A orla mais linda do planeta está parada,
Antes que o Rio inteiro se torne um covideiro,
E a praia de Copacabana não sirva mais pra nada...
Um Rio sem praias, sinal de desespero,
Ipanema com a sua beira mar abandonada,
A morte tocando o terror no rio inteiro:
Fecharam a praia pra salvar a moçada...
Tempos difíceis, decisões difíceis,
Como se estivéssemos caminhando entre mísseis
Prestes a detonar...
Fecharam as praias do Rio, que pecado,
Pra ver se o Rio fechado
Ainda tem chance de se salvar...
A orla mais linda do planeta está parada,
Antes que o Rio inteiro se torne um covideiro,
E a praia de Copacabana não sirva mais pra nada...
Um Rio sem praias, sinal de desespero,
Ipanema com a sua beira mar abandonada,
A morte tocando o terror no rio inteiro:
Fecharam a praia pra salvar a moçada...
Tempos difíceis, decisões difíceis,
Como se estivéssemos caminhando entre mísseis
Prestes a detonar...
Fecharam as praias do Rio, que pecado,
Pra ver se o Rio fechado
Ainda tem chance de se salvar...
16.3.21
O Ministro da Saúde
Estou aqui para dar continuidade,
Seguir fazendo o que meu antecessor fazia:
Aumentar os índices de mortalidade,
Fazer pouco caso da pandemia...
Quem manda é o presidente. Essa é a verdade.
Eu ocupo um cargo de fantasia.
O mestre manda e eu faço. Questão de fidelidade.
Eu tenho o currículo imenso e a alma vazia.
Agora que me tornei Ministro da Saúde,
Minha única esperança é que Deus nos ajude,
Porque eu não vou fazer nada pra ajudar...
Eu sou Ministro, mas pode me chamar de fantoche,
Eu sou Ministro, mas pode acreditar que é deboche,
Esse desastre está longe de acabar...
Tudo errado
"O Brasil está fazendo tudo errado"
Um presidente e seu governo devastador,
Um capitão arrogante e equivocado
Guiando um pais mergulhado em dor...
E tudo feito de modo atrapalhado,
Na contramão do planeta, e sem pudor,
Escapar dessa vai ser complicado
Tendo na presidência esse senhor...
E a cada número novo de mortos anunciado,
Ao invés de mover-se pra outro lado,
O presidente toca o terror:
"Parem de mimimi", diz o abestado,
Enquanto o pais vai sendo dizimado.
Um ogro imbecil. Sem tirar nem por.
14.3.21
Poema para Ana
Quem é que faz do domingo um dia de graça,
Transformando o domingo num dia acolhedor,
E de uma alegria que nunca passa,
E de um encantamento encantador?
E não importa o tempo ruim, a ameaça,
O desespero, a insensatez, a dor,
Ana aos domingos é o melhor da raça
Humana. Ler Ana aos domingos é libertador.
Ana Claudia que é Quintana, como o poeta,
Possui, com Deus, uma conexão direta,
Por isso esse seu dom que é de acalmar,
Eu tenho pra mim uma coisa como certa:
Lá do céu, vovó, feliz com sua neta,
Guarda os domingos para vir lhe visitar...
O silencio
Tem dias em que é melhor ficar calado
Do que seguir falando por falar:
Palavra é como um bem quase sagrado
Que não se pode desperdiçar...
Falar, às vezes, é um gesto exagerado
Nesses dias, quando o coração quer se calar,
O silencio quase sempre é menos complicado,
E bem mais fácil de se pronunciar,
Até que um dia chega o tempo apropriado,
E a palavra, que parecia ter se abandonado,
Volta, provando que continua a respirar,
E tudo segue no seu tempo, bem alinhado,
A palavra e o silencio, lado a lado,
Pra nós, de resto, só nos resta respeitar...
Do que seguir falando por falar:
Palavra é como um bem quase sagrado
Que não se pode desperdiçar...
Falar, às vezes, é um gesto exagerado
Nesses dias, quando o coração quer se calar,
O silencio quase sempre é menos complicado,
E bem mais fácil de se pronunciar,
Até que um dia chega o tempo apropriado,
E a palavra, que parecia ter se abandonado,
Volta, provando que continua a respirar,
E tudo segue no seu tempo, bem alinhado,
A palavra e o silencio, lado a lado,
Pra nós, de resto, só nos resta respeitar...
10.3.21
Grupo de cuidados paliativos
Gente linda, onde é que vocês estavam?
Porque demoraram tanto a aparecer?
Eu chamava, vocês não escutavam?
Eram vocês que eu queria conhecer,
Eu já tinha ouvido falar do que vocês falavam,
Mas confesso que nunca parei para entender,
A vida passava, os dias passavam,
E um dia finalmente eu pude ver
Que os meus conhecimentos me cegavam,
Que meus medicamentos não cuidavam,
Que eu nunca aprendi o significado de sofrer,
Mas os dias são como as águas quando lavam
As sujidades e os trastes que nos travam,
E finalmente nos permitem ver o sol nascer...
8.3.21
Dia internacional das mulheres
São tão únicas e tão numerosas,
Que eu nem sei por onde começar:
Pelas inspiradoras, pelas corajosas
Ou pelas com as quais adoro trabalhar?
Pelas carentes, pelas vaidosas,
Pelas que me fizeram um dia despertar?
Pelas que transbordam poesias e prosas?
Por aquelas com o coração maior que o mar?
E hoje é o dia delas estarem orgulhosas:
O mundo não seria tão lindo sem as rosas
Que cada uma delas sabe representar,
Umas mais tímidas, outras mais perigosas,
Mas todas absolutamente maravilhosas,
Difíceis de compreender, fáceis de amar...
7.3.21
Madrugada
Madrugada de domingo. Eu, acordado,
Imaginando um poeminha pra escrever,
E dou de cara com algum verso improvisado
Que nem sei se alguém vai parar pra ler,
Um poeminha sem significado
Na madrugada quando não sei o que fazer,
É como ter um deslise perdoado,
Achar uma moeda que acabou de perder,
Um poeminha domingueiro, sem sentido,
Horas assim, me sinto meio perdido,
E um poeminha é meu jeito de encontrar
Se não o tesouro, o mapa do caminho
Que eu sei que vou precisar seguir sozinho,
Mas tendo com quem conversar...
21.2.21
Domingo
Porque hoje é domingo, uma poesia,
Porque domingo as rimas gostam de brincar,
Vivem seu mundo de gostosa fantasia
Criando sonetos pra gente desenhar,
Porque hoje é domingo, hoje é dia
De falar mesmo sem ter o que falar,
Como numa embolada, ou numa cantoria,
Como num partido alto na roda de improvisar,
Porque hoje é domingo, me perdoem,
E se perdoem, e, se puderem, voem,
Porque domingo é um belo dia pra voar,
Porque hoje é domingo, descontraia,
Como disse Gilberto Gil, a fé não faia,
Porque a Lei de Deus não costuma descansar...
19.2.21
Aposta errada
Quem apostou no fim da baixaria
Ja descobriu que apostou errado,
É um mar de lixo que nunca se esvazia,
Cumprindo exatamente o que foi pregado:
Um discurso de odio, de causar azia,
Uma prepotência de deixar o estômago embrulhado,
Negativismo, terraplanismo, e, quem diria,
Um extremismo que deixa o pais isolado,
Quem apostou que o mal submergia,
Bastou viver o dia a dia da pandemia
Pra perceber que um país foi sepultado,
Um país de brava gente, que ironia,
Que vai morrendo a cada grosseria,
E que vai sendo a cada dia assassinado...
10.2.21
Poesia compassiva
Poemas compassivos para almas necessitadas,
Palavra usada como acolhimento,
Lugar de descanso para as dores cansadas,
Lugar de pausa para o sofrimento,
Poemas compassivos, de mãos dadas,
Como se nada atrapalhasse o seu momento,
O medo, o frio, as opiniões desastradas,
Nada contasse, somente a paz de dentro...
Poemas compassivos, feito curas,
Transformando em esperanças, amarguras,
Em dias de sol, as tardes mais nubladas...
Poemas compassivos, como abraços,
O amor se multiplicando em mil pedaços,
Como alimento para almas precisadas...
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