Voce tem fome de que?
* Porque alguns relacionamentos dão certo outros não?
* Escutando os Titãs, atentei: voce tem fome de que?
* Nem nome, telefone, idade, gosto,
Mania, opinião, sexo, lazer,
Altura, profissão, cabelo, rosto,
Cidade, tendencia politica, prazer,
Nem time, religião, desodorante,
Familia, condição, jeito de ser...
Somente uma pergunta é importante:
Voce tem fome de que?
Voce tem fome de que?
Voce tem fome de quem?
Voce tem fome de sentir prazer?
Voce tem fome de fazer o bem?
Voce tem fome de beijar na boca?
Voce tem fome de comer comida?
Voce tem fome de tirar a roupa?
Voce tem fome de pensar na vida?
Voce tem fome de queijo?
Voce tem fome de pão?
Voce tem fome de beijo?
Voce tem fome de passar a mão?
Voce tem fome de fazer poesia?
Voce tem fome toda noite a fora?
Voce tem fome de lamber a cria?
Voce tem fome de tudo agora?
Voce tem fome de bife?
Voce tem fome de bofe?
Voce tem fome de comer rosbife?
Voce tem fome de strogonoff?
Voce tem fome dificil?
Voce tem fome de fã?
Voce tem fome de engolir um edificio?
Voce tem fome só pela manhã?
Voce tem fome de Chico? De Caetano?
Voce tem fome de Elis?
Voce tem fome de um ritmo pernambucano?
Voce tem fome das luzes de Paris?
Voce tem fome de loura?
Voce tem fome de mel?
Voce tem fome devastadora?
Voce tem fome de ceu?
Voce tem fome de que? Fome de gente?
Voce tem fome de Carlos Drummond?
Voce tem fome de queijo quente?
Voce tem fome de fazer um som?
Voce tem fome de que? Ser desejado?
Voce tem fome de desejar?
Voce tem fome de ser vingado?
Voce tem fome de querer amar?
Voce tem fome de que? De uma aventura?
Voce tem fome de orgia?
Voce tem fome da noite escura?
Voce tem fome do dia?
Voce tem fome de ficar na sua?
Voce tem fome de cair no mundo?
Voce tem fome de sair na rua?
Voce tem fome de que, no fundo?
Voce tem fome do que alimenta...
Voce tem fome daquilo que faz bem...
Voce tem fome da coisa que sustenta...
Voce tem fome do que inda não tem...
Voce tem fome do que necessita...
Voce tem fome do que procura...
Voce tem fome daquilo que possibilita
A sua cura...
E essa fome que voce sente
É a que conduz seu pensamento. É o guia.
É essa fome que é o seu gerente
E é a foz da sua energia...
E é essa fome que é o seu caminho...
E é essa fome que é o seu senão...
É nela que convivem seu carinho
E o seu pecado e a sua absolvição...
22.6.02
12.6.02
Sonetos imperfeitos para passarinhas...
Primeiro Soneto
Pássara morena de alma açucareira,
De voo esguio, rumo decidido,
Voz delicada, palavra certeira,
Iluminada e cheia de sentido...
Pássara campesina e carioquesa...
Quando delicadeza, é distraida...
Quando desabalada, é sem surpresa...
E quando dor, é intima e contida...
Cariocana em sua natureza,
Não sabe o significado da incerteza
Nem gasta o tempo com lamentação...
Ah, leve e campesina passarinha
Que nunca foi nem deixou de ser minha
E nunca abandonou meu coração...
Segundo Soneto
Passarinha de alma fazendeira..
Cantadeira de alma improvisada...
Moça levada de boas maneiras,
De pele branca e voz metalizada...
Fazendeira de alma passarinha...
Por tão sozinha, tão agitada,
Tão dificultadeira, tão facinha,
Tão verdadeira, tão disfarçada...
Passageira de alma linharinha...
Por tão acompanhada, tão sozinha...
De onde é que vem tão leve, tão levada,
Tão delicada, tão delicinha?
Cidade grande de alma fazendinha...
Não cre no amor mas vive apaixonada...
Terceiro Soneto
Pássara branca de alma mineira...
Manhuaçúcar de voz dolente...
De alma com sabor e cor de pera
E um cheiro bom de pão de queijo quente...
Ah, mineirinha de alma impaciente,
Desabalada e contida...
Às vezes é cruel como a serpente...
Às vezes deliciosa como a vida...
Gole de mel de algum manhuaçúde...
Água da Fonte da Juventude...
Lua de ouro toda prateada...
E quando tudo que há em torno é rude
Ela disfarça e vence. É sua virtude.
Mineira branca de alma iluminada.
Primeiro Soneto
Pássara morena de alma açucareira,
De voo esguio, rumo decidido,
Voz delicada, palavra certeira,
Iluminada e cheia de sentido...
Pássara campesina e carioquesa...
Quando delicadeza, é distraida...
Quando desabalada, é sem surpresa...
E quando dor, é intima e contida...
Cariocana em sua natureza,
Não sabe o significado da incerteza
Nem gasta o tempo com lamentação...
Ah, leve e campesina passarinha
Que nunca foi nem deixou de ser minha
E nunca abandonou meu coração...
Segundo Soneto
Passarinha de alma fazendeira..
Cantadeira de alma improvisada...
Moça levada de boas maneiras,
De pele branca e voz metalizada...
Fazendeira de alma passarinha...
Por tão sozinha, tão agitada,
Tão dificultadeira, tão facinha,
Tão verdadeira, tão disfarçada...
Passageira de alma linharinha...
Por tão acompanhada, tão sozinha...
De onde é que vem tão leve, tão levada,
Tão delicada, tão delicinha?
Cidade grande de alma fazendinha...
Não cre no amor mas vive apaixonada...
Terceiro Soneto
Pássara branca de alma mineira...
Manhuaçúcar de voz dolente...
De alma com sabor e cor de pera
E um cheiro bom de pão de queijo quente...
Ah, mineirinha de alma impaciente,
Desabalada e contida...
Às vezes é cruel como a serpente...
Às vezes deliciosa como a vida...
Gole de mel de algum manhuaçúde...
Água da Fonte da Juventude...
Lua de ouro toda prateada...
E quando tudo que há em torno é rude
Ela disfarça e vence. É sua virtude.
Mineira branca de alma iluminada.
5.6.02
Sem Compromisso
Um poeminha de palavra leve.
Um meio termo entre o sim e o não.
Feito da letra que não se escreve
Formando frases sem pontuação...
Que nada signifique o poeminha
Feito de sons sem significação
Como os barulhos feitos na cozinha
Por notas que não eram prá canção...
Um poeminha de não dizer nada...
Cochilo. Insight. Recordação.
Como quem sonha de madrugada.
Como quem ama. Como paixão.
Um poeminha sem muita certeza.
Nem obedece nem manda.
Como se fosse o som da natureza
Que dá prá ouvir da varanda...
Um poeminha prá passar o tempo.
Um poeminha prá passar a dor.
Um poeminha prá passar o nome desse sofrimento
Que se chama amor.
Um poeminha prá perder o medo.
Um poeminha prá passar o feitiço.
Um poeminha de manhã bem cedo.
Um poeminha sem compromisso.
Um poeminha de palavra leve.
Um meio termo entre o sim e o não.
Feito da letra que não se escreve
Formando frases sem pontuação...
Que nada signifique o poeminha
Feito de sons sem significação
Como os barulhos feitos na cozinha
Por notas que não eram prá canção...
Um poeminha de não dizer nada...
Cochilo. Insight. Recordação.
Como quem sonha de madrugada.
Como quem ama. Como paixão.
Um poeminha sem muita certeza.
Nem obedece nem manda.
Como se fosse o som da natureza
Que dá prá ouvir da varanda...
Um poeminha prá passar o tempo.
Um poeminha prá passar a dor.
Um poeminha prá passar o nome desse sofrimento
Que se chama amor.
Um poeminha prá perder o medo.
Um poeminha prá passar o feitiço.
Um poeminha de manhã bem cedo.
Um poeminha sem compromisso.
28.5.02
Bazar
Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
(A moça do sonho - Edu Lobo/Chico Buarque)
E tudo que eu tentei, tudo que eu quis,
Todas as tantas coisas que eu sonhei,
E as que eu nem consegui imaginar,
E as musicas de amor que eu quase fiz,
E as letras em que eu quase me arrisquei,
E as gentilezas que eu quase quis falar,
E as mentiras que um dia eu quis dizer
Mas quando foi a hora eu me enganei,
E as que eu nunca tentei nem quis tentar,
E as coisas que eu não vi acontecer,
E as que eu ia dizer, mas não lembrei,
E as outras que eu não consegui olhar,
E as tais castas de amor que eu nunca li,
E as tais cartas de amor que eu nunca ousei,
E as tais que eu nunca soube terminar,
E as tais cartas que eu quase que escrevi,
E as tais cartas de amor que eu nem tentei,
E as que eu nem tive alguém para mandar,
E as coisas que eu só fiz pela metade,
E as outras que eu não fui nem convidado,
E as coisas que eu não quis experimentar,
E as que eu queria, mas faltou vontade,
Outras que não, por ter encabulado,
Outras que eu nunca soube completar,
Deve haver um lugar, deve existir,
Por trás do sonho, após o pensamento,
Além da serra, bem depois do mar,
Antes do sol nascer, do céu abrir,
Entre a vontade e o sonho e o esquecimento,
Certamente há de existir algum lugar
Para onde vão desacontecimentos,
Coisas não ditas, fatos por um fio,
Promessas, sonhos, contas a pagar,
Letras não lidas, esquecimentos,
Desejos que ficaram no vazio,
Fatos que ninguém viu nem vai lembrar,
Deve haver um lugar chamado lenda,
Inspiração, arquétipo, delirio ,
Idéia, devaneio, divagar,
Um sitio, uma pousada, uma fazenda,
Maior que o mar, menor que um grão de milho,
Prá onde os sonhos extraviados vão parar.
E lá desembocando, os estravios
Irão formar novíssimas lagoas
Onde poetas bons vão mergulhar
E assim, novos delirios, desvarios,
Outras inteligencias e pessoas
Novos versos e rimas vão formar
Colhendo o que foi quase e de fininho,
Pescando o que era resto e desperdicio,
Bebendo o que não era, até formar
Um outro pensamento, outro caminho,
Como se o fim de tudo fosse o inicio
E tudo fosse um grande começar.
Um lugar deve existir, em qualquer tempo,
Ainda que só de anti-matéria crua,
Ainda que inadmissível de rimar.
Um lugar onde os sonhos extraviados
E os pensamentos nunca imaginados
Inapelavelmente vão parar...
Uma espécie buarquiana de bazar...
Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
(A moça do sonho - Edu Lobo/Chico Buarque)
E tudo que eu tentei, tudo que eu quis,
Todas as tantas coisas que eu sonhei,
E as que eu nem consegui imaginar,
E as musicas de amor que eu quase fiz,
E as letras em que eu quase me arrisquei,
E as gentilezas que eu quase quis falar,
E as mentiras que um dia eu quis dizer
Mas quando foi a hora eu me enganei,
E as que eu nunca tentei nem quis tentar,
E as coisas que eu não vi acontecer,
E as que eu ia dizer, mas não lembrei,
E as outras que eu não consegui olhar,
E as tais castas de amor que eu nunca li,
E as tais cartas de amor que eu nunca ousei,
E as tais que eu nunca soube terminar,
E as tais cartas que eu quase que escrevi,
E as tais cartas de amor que eu nem tentei,
E as que eu nem tive alguém para mandar,
E as coisas que eu só fiz pela metade,
E as outras que eu não fui nem convidado,
E as coisas que eu não quis experimentar,
E as que eu queria, mas faltou vontade,
Outras que não, por ter encabulado,
Outras que eu nunca soube completar,
Deve haver um lugar, deve existir,
Por trás do sonho, após o pensamento,
Além da serra, bem depois do mar,
Antes do sol nascer, do céu abrir,
Entre a vontade e o sonho e o esquecimento,
Certamente há de existir algum lugar
Para onde vão desacontecimentos,
Coisas não ditas, fatos por um fio,
Promessas, sonhos, contas a pagar,
Letras não lidas, esquecimentos,
Desejos que ficaram no vazio,
Fatos que ninguém viu nem vai lembrar,
Deve haver um lugar chamado lenda,
Inspiração, arquétipo, delirio ,
Idéia, devaneio, divagar,
Um sitio, uma pousada, uma fazenda,
Maior que o mar, menor que um grão de milho,
Prá onde os sonhos extraviados vão parar.
E lá desembocando, os estravios
Irão formar novíssimas lagoas
Onde poetas bons vão mergulhar
E assim, novos delirios, desvarios,
Outras inteligencias e pessoas
Novos versos e rimas vão formar
Colhendo o que foi quase e de fininho,
Pescando o que era resto e desperdicio,
Bebendo o que não era, até formar
Um outro pensamento, outro caminho,
Como se o fim de tudo fosse o inicio
E tudo fosse um grande começar.
Um lugar deve existir, em qualquer tempo,
Ainda que só de anti-matéria crua,
Ainda que inadmissível de rimar.
Um lugar onde os sonhos extraviados
E os pensamentos nunca imaginados
Inapelavelmente vão parar...
Uma espécie buarquiana de bazar...
20.5.02
A Lágrima
A lágrima é a tristeza liquefeita
Quando ela mesma não se contém...
É a dor que tenta ser a dor desfeita
Porque é do mal das dores que ela vem...
É mista: cerebral e cardiológica...
Confusa: emocional e programada...
Às vezes natural. Outras ilógica.
Por vezes culpa de tudo. Outras de nada.
A lágrima é a tristeza em caldo...
É a fiadora da dor. E o seu respaldo.
É a vontade de mudar tudo...
A lágrima é a constatação do dano...
É farta e imensa assim como o oceano...
É a defesa da dor. E o seu escudo.
A lágrima é a tristeza liquefeita
Quando ela mesma não se contém...
É a dor que tenta ser a dor desfeita
Porque é do mal das dores que ela vem...
É mista: cerebral e cardiológica...
Confusa: emocional e programada...
Às vezes natural. Outras ilógica.
Por vezes culpa de tudo. Outras de nada.
A lágrima é a tristeza em caldo...
É a fiadora da dor. E o seu respaldo.
É a vontade de mudar tudo...
A lágrima é a constatação do dano...
É farta e imensa assim como o oceano...
É a defesa da dor. E o seu escudo.
14.5.02
A Glória
A glória do astronauta é estar no espaço
E a do compositor, criar o tema...
A do vaqueiro é acertar o laço...
A do poeta é a rima e é o poema...
A do cirurgião é o ponto exato...
A do alpinista é atingir o topo...
A do fotografo, clicar o fato...
A do escultor, mimetizar o corpo...
Não é o aplauso nem a faixa a glória...
Lançar o nome nos anais da História...
A fama é o esquecimento travestido...
Não é o sucesso ou o reconhecimento
Mas a fração singela de um momento:
A glória e ter tentado e conseguido...
A glória do astronauta é estar no espaço
E a do compositor, criar o tema...
A do vaqueiro é acertar o laço...
A do poeta é a rima e é o poema...
A do cirurgião é o ponto exato...
A do alpinista é atingir o topo...
A do fotografo, clicar o fato...
A do escultor, mimetizar o corpo...
Não é o aplauso nem a faixa a glória...
Lançar o nome nos anais da História...
A fama é o esquecimento travestido...
Não é o sucesso ou o reconhecimento
Mas a fração singela de um momento:
A glória e ter tentado e conseguido...
8.5.02
A Escrita
Repouso a mão na folha, levemente...
Suavemente a mão na folha cai...
A letra sai da mão. A mão não sente...
Sem que eu perceba uma outra letra sai...
E letra vai, então, seguindo letra...
Palavra após palavra... A frase inteira...
O pensamento jorra da caneta...
Manhã nublada. Chove. É quinta-feira...
Verso ritmado... Malpensado verso...
A mão fantasiada de funil...
De um lado a idéia, o vasto, o desconexo...
Do outro lado a letra... O verso vil...
De um lado a fonte que não se permite
Secar, mudar de rumo, esvaziar-se...
Do outro a ponta seca da grafite
Como se a fonte nela se espelhasse...
De um lado o Universo, o Vasto, o Inteiro...
Rio Amazonas todo em pensamento...
Terra sem fim que ninguém viu primeiro...
Pote que ninguem sabe o que tem dentro...
Do outro o pescador e a sua linha
Tentando o que ele não conhece bem...
Palavra que se esforça pra, sozinha,
Dizer tudo que sabe e pode e tem...
Leio a palavra feita, a letra escrita...
Quem pode compreender a inspiração?
Se o verso é calmo e a alma é tão aflita
Como é que o verso vem do coração?
Imenso é escrever. Buscar, do nada,
A forma, o conteudo, a paz, o Deus...
Ler a palavra... A frase terminada...
Supor que os versos que escrevi são meus...
Repouso a mão na folha, abstraido,
E, sem que eu interfira, o verso acaba...
Quem há de compreender cada sentido
Que há na escrita crua da palavra?
Repouso a mão na folha, levemente...
Suavemente a mão na folha cai...
A letra sai da mão. A mão não sente...
Sem que eu perceba uma outra letra sai...
E letra vai, então, seguindo letra...
Palavra após palavra... A frase inteira...
O pensamento jorra da caneta...
Manhã nublada. Chove. É quinta-feira...
Verso ritmado... Malpensado verso...
A mão fantasiada de funil...
De um lado a idéia, o vasto, o desconexo...
Do outro lado a letra... O verso vil...
De um lado a fonte que não se permite
Secar, mudar de rumo, esvaziar-se...
Do outro a ponta seca da grafite
Como se a fonte nela se espelhasse...
De um lado o Universo, o Vasto, o Inteiro...
Rio Amazonas todo em pensamento...
Terra sem fim que ninguém viu primeiro...
Pote que ninguem sabe o que tem dentro...
Do outro o pescador e a sua linha
Tentando o que ele não conhece bem...
Palavra que se esforça pra, sozinha,
Dizer tudo que sabe e pode e tem...
Leio a palavra feita, a letra escrita...
Quem pode compreender a inspiração?
Se o verso é calmo e a alma é tão aflita
Como é que o verso vem do coração?
Imenso é escrever. Buscar, do nada,
A forma, o conteudo, a paz, o Deus...
Ler a palavra... A frase terminada...
Supor que os versos que escrevi são meus...
Repouso a mão na folha, abstraido,
E, sem que eu interfira, o verso acaba...
Quem há de compreender cada sentido
Que há na escrita crua da palavra?
5.5.02
A pena
Não há delito nenhum na pena,
Na piedade, na consternação...
Não há nenhum senão, nenhum problema...
Nada que indique reprovação...
A piedade nunca te condena...
Não é delito a comiseração...
Jesus se apiedou de Madalena
E Castro Alves da Escravidão...
A pena é a empatia ante a crueldade...
A indignação ante a indignidade...
A asfixia diante do enforcado...
A pena é o germen da solidariedade...
O amor contém pedaços de piedade...
Não é deslise a pena. Nem pecado...
Não há delito nenhum na pena,
Na piedade, na consternação...
Não há nenhum senão, nenhum problema...
Nada que indique reprovação...
A piedade nunca te condena...
Não é delito a comiseração...
Jesus se apiedou de Madalena
E Castro Alves da Escravidão...
A pena é a empatia ante a crueldade...
A indignação ante a indignidade...
A asfixia diante do enforcado...
A pena é o germen da solidariedade...
O amor contém pedaços de piedade...
Não é deslise a pena. Nem pecado...
22.4.02
A forma leve da solidão
Não há limites para a poesia.
Nenhuma absolvição para quem escreve.
Nem mérito nenhum. Nem companhia.
O poema é a solidão na forma leve.
Não há descuido nem desarmonia.
Nem diferenças entre o Sol e a Neve...
Não há fidelidade. Não há guia.
A letra nunca diz o que não deve.
Não há disfarce. Tudo é permitido.
O dar. A dor. A dança. O doido. O dia.
A voz escancarada e a voz discreta.
Na poesia tudo faz sentido.
Não há limites para a poesia
Nem há perdão nenhum para o poeta...
Não há limites para a poesia.
Nenhuma absolvição para quem escreve.
Nem mérito nenhum. Nem companhia.
O poema é a solidão na forma leve.
Não há descuido nem desarmonia.
Nem diferenças entre o Sol e a Neve...
Não há fidelidade. Não há guia.
A letra nunca diz o que não deve.
Não há disfarce. Tudo é permitido.
O dar. A dor. A dança. O doido. O dia.
A voz escancarada e a voz discreta.
Na poesia tudo faz sentido.
Não há limites para a poesia
Nem há perdão nenhum para o poeta...
A Ingratidão
"O beijo, amigo, é a véspera do escarro...
A mão que afaga é a mesma que apedreja"...
Augusto dos Anjos
Não deixa a ingratidão, essa vadia,
Fazer morada no teu coração...
Contaminar a tua poesia...
Sair despedaçando a tua razão...
E mesmo quando, por hipocrisia,
O beijo de carinho for traição
E a mão gentil que afaga e acaricia
Apedrejar-te sem explicação,
Não deixa a ingratidão, coisa pequena,
Fazer morada no teu poema
Contaminando a tua emoção...
Supera a ingratidão. Não vale á pena.
A ingratidão é como uma gangrena...
Lança teu vôo e alcança a imensidão...
"O beijo, amigo, é a véspera do escarro...
A mão que afaga é a mesma que apedreja"...
Augusto dos Anjos
Não deixa a ingratidão, essa vadia,
Fazer morada no teu coração...
Contaminar a tua poesia...
Sair despedaçando a tua razão...
E mesmo quando, por hipocrisia,
O beijo de carinho for traição
E a mão gentil que afaga e acaricia
Apedrejar-te sem explicação,
Não deixa a ingratidão, coisa pequena,
Fazer morada no teu poema
Contaminando a tua emoção...
Supera a ingratidão. Não vale á pena.
A ingratidão é como uma gangrena...
Lança teu vôo e alcança a imensidão...
15.4.02
A lágrima
Não há vergonha alguma na tristeza
Nem desacerto, desmerecimento...
A lágrima é o balde da limpeza
Do coração lavando o pensamento...
A lágrima é, talvez, na Natureza,
A gota mais suave e mais ousada:
Faz parte do olhar triste da Princesa
E da feição da moça favelada...
Há os que são tristes por muito tempo...
Os que entristecem e depois melhoram...
E os que a tristeza ainda há de encontrar...
A lágrima é a voz do pensamento...
Não há tolice alguma nos que choram...
Nenhum motivo de se envergonhar...
Não há vergonha alguma na tristeza
Nem desacerto, desmerecimento...
A lágrima é o balde da limpeza
Do coração lavando o pensamento...
A lágrima é, talvez, na Natureza,
A gota mais suave e mais ousada:
Faz parte do olhar triste da Princesa
E da feição da moça favelada...
Há os que são tristes por muito tempo...
Os que entristecem e depois melhoram...
E os que a tristeza ainda há de encontrar...
A lágrima é a voz do pensamento...
Não há tolice alguma nos que choram...
Nenhum motivo de se envergonhar...
8.4.02
A Gratidão
Não há demérito algum no agradecer,
Nem há vergonha na gentileza...
Nenhuma impropriedade em receber
Nem desacerto na delicadeza...
Não há nenhuma contra-indicação
No bem-estar do favorecimento...
Nem há sinal de inadequação
Na comoção do agradecimento...
Reconhecer o gesto de carinho,
Compreender o ato de favor,
Saber ficar feliz na boa ação,
Não é vergonha. Não é desalinho.
Não é humilhação. Não causa dor.
É a divida do amor. É a gratidão.
Não há demérito algum no agradecer,
Nem há vergonha na gentileza...
Nenhuma impropriedade em receber
Nem desacerto na delicadeza...
Não há nenhuma contra-indicação
No bem-estar do favorecimento...
Nem há sinal de inadequação
Na comoção do agradecimento...
Reconhecer o gesto de carinho,
Compreender o ato de favor,
Saber ficar feliz na boa ação,
Não é vergonha. Não é desalinho.
Não é humilhação. Não causa dor.
É a divida do amor. É a gratidão.
2.4.02
Estupidez
Não há delicadeza na agressão
Nem gentileza na palavra má...
Não há leveza na desatenção...
Nenhuma educação em maltratar...
E na palavra farta de mentira,
E na atitude desrespeitosa,
E no sarcasmo, e no rancor, na ira,
E na traição, na frase maliciosa,
Não há carinho. Só mediocridade.
Não há nenhuma forma de beleza.
Só dano, desacerto, insensatez...
Somente quase sempre impropriedade.
Palavra fluindo contra a correnteza.
Pecado sem perdão. Estupidez.
Não há delicadeza na agressão
Nem gentileza na palavra má...
Não há leveza na desatenção...
Nenhuma educação em maltratar...
E na palavra farta de mentira,
E na atitude desrespeitosa,
E no sarcasmo, e no rancor, na ira,
E na traição, na frase maliciosa,
Não há carinho. Só mediocridade.
Não há nenhuma forma de beleza.
Só dano, desacerto, insensatez...
Somente quase sempre impropriedade.
Palavra fluindo contra a correnteza.
Pecado sem perdão. Estupidez.
22.3.02
19.3.02
Explicação
Eu necessito descansar se eu canso...
Ou escrever, se estou incomodado...
É no meu verso que o leão é manso...
No meu descanso é que o meu verso é bravo...
É no meu verso que o cansaço encontra
Repouso, proteção, refazimento...
O que era contra vira faz de conta...
O que era eterno acaba em pensamento...
Eu necessito descansar se eu canso...
Ou escrever, se estou incomodado...
É no meu verso que o leão é manso...
No meu descanso é que o meu verso é bravo...
É no meu verso que o cansaço encontra
Repouso, proteção, refazimento...
O que era contra vira faz de conta...
O que era eterno acaba em pensamento...
6.3.02
Receita de Bem Estar
Para quando as coisas parecerem muito complicadas,
A simplicidade da Mulher...
Para quando as decisões parecerem muito difíceis,
A intuição da Mulher...
Para quando as coisas estiverem em completa desordem,
A organização da Mulher...
Para os momentos de aflição,
A paciência da Mulher...
Para quando a dor parecer insuportável,
A resistência da Mulher...
Para as c falta de perspectivas,
A criatividade da Mulher...
Para quando as coisas parecerem não ter mais jeito,
O jeitinho da Mulher...
Para quando as coisas apresentarem odor azedo,
O perfume da Mulher...
Para as horas de delicadeza,
A voz da Mulher...
Para os momentos de duvida,
A certeza da Mulher...
Para quando as coisas parecerem muito ásperas,
O rosto da Mulher...
Para quando as coisas parecerem confusas,
A clareza da Mulher...
Para quando as coisas parecerem sem rumo,
A decisão da Mulher...
Para as horas tristes de solidão,
A mão da Mulher...
Para a continuidade da Raça Humana,
A existência da Mulher...
Para quando as coisas parecerem muito complicadas,
A simplicidade da Mulher...
Para quando as decisões parecerem muito difíceis,
A intuição da Mulher...
Para quando as coisas estiverem em completa desordem,
A organização da Mulher...
Para os momentos de aflição,
A paciência da Mulher...
Para quando a dor parecer insuportável,
A resistência da Mulher...
Para as c falta de perspectivas,
A criatividade da Mulher...
Para quando as coisas parecerem não ter mais jeito,
O jeitinho da Mulher...
Para quando as coisas apresentarem odor azedo,
O perfume da Mulher...
Para as horas de delicadeza,
A voz da Mulher...
Para os momentos de duvida,
A certeza da Mulher...
Para quando as coisas parecerem muito ásperas,
O rosto da Mulher...
Para quando as coisas parecerem confusas,
A clareza da Mulher...
Para quando as coisas parecerem sem rumo,
A decisão da Mulher...
Para as horas tristes de solidão,
A mão da Mulher...
Para a continuidade da Raça Humana,
A existência da Mulher...
Disfarça Bem...
Deus emprestou à Mulher, e somente à ela, seu atributo mais nobre: o da Criação.
A isso se deve a continuação da Raça Humana através dos séculos.
Embora possua esse atributo Divino, a Mulher disfarça bem...
A sua voz é delicada...
A sua pele é como a sua voz...
O rosto quase sempre é feito o de criança...
Chuta mais fraco, corre menos e as suas mãos não agüentam muito peso...
Disfarça bem...
Sua fragilidade aparente alimenta e sustenta a improvável força dos Homens...
Disputa, com a Lua, a letra dos poetas e a voz dos cantadores...
Gera, amamenta, educa e cria filhos...
Ensina amar...
E trabalha...
Em casa, no trabalho e novamente em casa...
Como um operário indispensável...
Quando Deus emprestou a Mulher seu atributo mais nobre, o de Criar, sabia bem o que estava fazendo...
Conhecia bem a quem estava emprestando...
A você, Mulher,
A nossa Homenagem...
8 de Março de 2002
Dia Internacional da Mulher
Deus emprestou à Mulher, e somente à ela, seu atributo mais nobre: o da Criação.
A isso se deve a continuação da Raça Humana através dos séculos.
Embora possua esse atributo Divino, a Mulher disfarça bem...
A sua voz é delicada...
A sua pele é como a sua voz...
O rosto quase sempre é feito o de criança...
Chuta mais fraco, corre menos e as suas mãos não agüentam muito peso...
Disfarça bem...
Sua fragilidade aparente alimenta e sustenta a improvável força dos Homens...
Disputa, com a Lua, a letra dos poetas e a voz dos cantadores...
Gera, amamenta, educa e cria filhos...
Ensina amar...
E trabalha...
Em casa, no trabalho e novamente em casa...
Como um operário indispensável...
Quando Deus emprestou a Mulher seu atributo mais nobre, o de Criar, sabia bem o que estava fazendo...
Conhecia bem a quem estava emprestando...
A você, Mulher,
A nossa Homenagem...
8 de Março de 2002
Dia Internacional da Mulher
26.2.02
O Coração
Poema virtual em quatro partes
1. Do Nome do Nick.
Eu não me lembro: era Rosa...
Ou Azulzinha... ou Grená...
Ou Caladinha... ou Dengosa...
M a fim de namorar...
Era Diabinha? Era Santa?
Pecadora? Bruxa? Má?
Era Só Minha? Só Sua?
Ou era Estrela do Mar?
Talvez fosse Namorada...
Moça querendo casar...
Moreninha... Apaixonada...
Como é que eu vou me lembrar?
Polyana? Ju? Marina?
Dany? Camila? Pilar?
Cíntia? Flávia? Carolina?
Paty? Paula? Norimar?
Forrozeira? Patricinha?
Fazendeira? Professora?
Saideira? Saidinha?
Saradinha? Salvadora?
Eu não me lembro direito
Do nick que o nome usava,
Do nick que o nome tinha,
De como se apresentava...
Sei que era maior que o nome
Que no nick se ocultava:
O nome sentia a fome
E o nick se alimentava,
O nome queria ver
Mas era o nick que olhava,
O nick sentia o cheiro
Sempre que o nome cheirava,
Porque o nome adormecia
Sempre que o nick acordava,
Como quando nasce o dia
Assim que a noite se acaba.
O nome que usava o nick
Por certo se aproveitava
De tudo que o nick era,
Das coisas que o nick usava,
O nome que usava o nick
No nick se transformava.
Agora o nome era o nome
Do nick que o nome usava.
2. Das coisas que o nick dizia
Enquanto teclava
Contava:
Era loura, era alta, era posuda,
Sozinha por opção,
Tinha uma boca carnuda,
E uns olhos claros,
Tinha cabelos longos e cacheados,
E alguns desenhos estranhos pintados
Nas unhas da mão...
Ou talvez tenha dito:
Morena,
Com quase um metro e oitenta,
Dançarina,
Extrovertida...
Cabelos longos e lisos,
Namoradeira demais,
Levada feito pimenta,
Moleca feito menina,
E outras vezes atrevida,
Muitas vezes sem juizo,
Mas sempre com muito gás...
Tinha vinte ou qualquer coisa parecida,
Fazia curso pré-vestibular,
Planejou cursar biologia,
Namorou a engenharia,
Ela só não pensava em se casar...
Falava inglês,
Algumas coisas em russo,
Outras tantas palavras em alemão...
Conheceu a Patagônia,
Já fez planos de viajar pra Cisjordania,
Conhecer a Amazônia,
E dançar reggae ao sol do Maranhão...
Ou talvez tenha dito: quase trinta...
Ou mesmo quase quarenta?
Pantera sedutora que se pinta...
Loba devoradora piruenta...
Extravagante
Muito caprichosa
Sofisticada
Farta de perfumes
E ouros espalhados pela mão...
Exuberante
Ar de poderosa
E desejada
Por nicks e nomes
De homens...
Ela era assim: total satisfação...
E enquanto teclava,
Contava:
Dinheiro tinha, mas nem precisava...
Amores muitos, mas não se detinha...
Fazia só as coisas que gostava...
E tudo quanto ela queria, tinha...
Maliciosa sempre que teclava,
Era desajuizada, irreverente...
Às vezes não dizia... insinuava...
E sempre assim... convidativamente...
E me dizia
Que não gostava de poesia
Não escutava samba e nem pagode,
Preferia os homens altos, tipos Lord...
E quase se derretia
Por outros fortes, louros, de bigode...
Era capaz de fazer quase tudo
Mesmo que fosse só por quase nada...
Entrava nos canais mais absurdos...
Adorava teclar de madrugada...
Usava sempre o mesmo sexy nick,
Mas muitas vezes criava algum na hora...
Mantinha sempre a coerência e o pique...
Não conhecia a hora de ir embora...
Carla? Cristal? Cristininha?
Carismática? Coroa?
Popozuda? Tchutchuquinha?
Delicinha de Pessoa?
Delicada? Sapequinha?
Moça linda e muito boa ?
Era Soraya? Sereia?
Era Serena? Era Liz?
Deusa Maia? Lua Cheia?
Escorpiana feliz?
Era Sagitariana?
Virginiana indecisa?
Aline? Lana? Luana?
Fogo? Brasa? Vento? Brisa?
Era Loura gostosinha?
Toda pura? Toda boa?
Toda sua? To facinha?
To sozinha? To à toa?
Pepita? Dita? Paquita?
Nikita? Rabo de Saia?
Silvana? Sarita? Rita?
Catita? Rata de Praia?
Psicóloga? Miudinha?
Fisiogatinha? Pantera?
Encantada? Malukinha?
Megera? A Bela da Fera?
O nick dela qual era?
Gostava de praia.
De vodcka.
De misturar champagne com coca-cola...
Ela era pura ousadia...
E enquanto ela teclava me dizia:
Fumava muito...
(Ou detestava o cheiro do cigarro?)
As vezes me dava assunto...
Outras vezes só queria tirar sarro...
Dizia, quase abusada,
Que era atrevida, atirada,
Desaforada, sacana...
Às vezes escancarada...
As vezes muito mais do que escrachada...
Outras, a Gata Dengosa da semana...
Não se apegava aos gatos que atraia...
Gostava de seduzir, e se gabava
De conquistar os homens que queria
E de curtir quando ela os desprezava...
Não se envolvia jamais quando teclava.
Jurava que ali no chat não mentia.
Mas ela também não acreditava
Em nenhuma palavra do que lia.
E o que dizia, enquanto chatiava,
Era somente a coisa que sentia.
Não percebia e nem se incomodava
Quando ela magoava ou ofendia.
Quando ela seduzia e desprezava,
Quando ela machucava. E garantia
Que nem ligava
Se alguém sofria
Com a displicência com que ela magoava...
E enquanto, distraída, ela teclava,
Ela dizia
Que ela era assim:
Absoluta,
Única,
Exuberante,
Quase encantadora,
Incompreensível,
Misteriosa,
Bela,
O equilíbrio entre a boa
E a pecadora...
Pantera,
Fera,
Mulher sedutora,
Cheia de dengo e malicia e muita manha...
Potranca,
Lânguida,
Avassaladora,
E a voz feito a de um aço quando arranha...
E enquanto teclava,
Contava...
E enquanto contava
Jurava que não mentia...
Pena que ela não gostava
De poesia...
3. Das coisas que o nick era
I
Era silencio. As luzes apagadas.
Somente a tela do PC acesa...
Um gosto de sereno nas calçadas...
Biscoito e café frio sobre a mesa.
Ana Maria, só, ali, teclava...
Reinventava os tristes dias seus...
Fugia da vidinha que levava...
Brincava, na telinha, que era Deus...
Faria dezessete em fevereiro...
Ela trazia desde o nascimento
Alguma coisa ruim que ela escondia...
Brincava de estar bem o tempo inteiro.
Fazendo desfazer seu sofrimento
E a dor que devorava Ana Maria...
II
Faria dezessete em fevereiro...
Trazia um coração descompensado...
Que quase era maior que o peito inteiro...
Seu caso era bastante complicado.
Fariam dezessete essa menina
E a bala de oxigênio do seu lado...
E os comprimidos de Digoxina...
E o coração tão grande e delicado...
E a longa espera, quase que absurda,
Da cura que não vinha, e tão sonhada,
Da dor que parecia não ter fim...
E a longa espera, silenciosa e muda,
E a longa espera, tímida e calada
É que fazia Ana Maria assim:
III
Brincando de inventar felicidades...
Criando as suas próprias fantasias...
Podendo refazer facilidades
Que a vida seqüestrava dos seus dias...
Fugindo de encarar realidades...
Tentando a contramão das corredeiras...
Tomando um banho de banalidades...
E se fartando em suas brincadeiras...
Ana Maria, lúcida, lutava,
Sobrevivia a si, quando teclava,
E assim dessa maneira, resistia...
Ana Maria, em sua dor imensa,
Seguia, leve, em meio à noite densa,
Sem perceber a dor que a consumia...
4. Do nick que o nome usava...
Não era Carol, Carina,
Carolina, Cora, Cris,
Nem Kalu, nem Kelly, Keila,
Nem Luisa, nem Lais,
Nem Boazuda, Boazinha,
Mariinha, Marilu,
Nem era Kátia, nem Candy,
Nem Corina, nem Caru,
Não era Mara, Mariana,
Nem Camila, nem Cassinha,
Eu quase posso lembrar-me do nome que o nick tinha...
Era pequeno,
Suave,
Era feito assoviar uma canção,
Tinha um brilho delicado,
Um bom-bocado
Todo feito de pedaços variados de emoção...
Era todo suavezinho,
Feito o voz de passarinho...
Feito rastros de paixão...
Era silencio,
Barulho,
Pecado,
Absolvição...
O nome que o nick usava
(Porque o nick precisava
De um nome enquanto teclava)
Era apenas
Nada mais que
Coração...
Poema virtual em quatro partes
1. Do Nome do Nick.
Eu não me lembro: era Rosa...
Ou Azulzinha... ou Grená...
Ou Caladinha... ou Dengosa...
M a fim de namorar...
Era Diabinha? Era Santa?
Pecadora? Bruxa? Má?
Era Só Minha? Só Sua?
Ou era Estrela do Mar?
Talvez fosse Namorada...
Moça querendo casar...
Moreninha... Apaixonada...
Como é que eu vou me lembrar?
Polyana? Ju? Marina?
Dany? Camila? Pilar?
Cíntia? Flávia? Carolina?
Paty? Paula? Norimar?
Forrozeira? Patricinha?
Fazendeira? Professora?
Saideira? Saidinha?
Saradinha? Salvadora?
Eu não me lembro direito
Do nick que o nome usava,
Do nick que o nome tinha,
De como se apresentava...
Sei que era maior que o nome
Que no nick se ocultava:
O nome sentia a fome
E o nick se alimentava,
O nome queria ver
Mas era o nick que olhava,
O nick sentia o cheiro
Sempre que o nome cheirava,
Porque o nome adormecia
Sempre que o nick acordava,
Como quando nasce o dia
Assim que a noite se acaba.
O nome que usava o nick
Por certo se aproveitava
De tudo que o nick era,
Das coisas que o nick usava,
O nome que usava o nick
No nick se transformava.
Agora o nome era o nome
Do nick que o nome usava.
2. Das coisas que o nick dizia
Enquanto teclava
Contava:
Era loura, era alta, era posuda,
Sozinha por opção,
Tinha uma boca carnuda,
E uns olhos claros,
Tinha cabelos longos e cacheados,
E alguns desenhos estranhos pintados
Nas unhas da mão...
Ou talvez tenha dito:
Morena,
Com quase um metro e oitenta,
Dançarina,
Extrovertida...
Cabelos longos e lisos,
Namoradeira demais,
Levada feito pimenta,
Moleca feito menina,
E outras vezes atrevida,
Muitas vezes sem juizo,
Mas sempre com muito gás...
Tinha vinte ou qualquer coisa parecida,
Fazia curso pré-vestibular,
Planejou cursar biologia,
Namorou a engenharia,
Ela só não pensava em se casar...
Falava inglês,
Algumas coisas em russo,
Outras tantas palavras em alemão...
Conheceu a Patagônia,
Já fez planos de viajar pra Cisjordania,
Conhecer a Amazônia,
E dançar reggae ao sol do Maranhão...
Ou talvez tenha dito: quase trinta...
Ou mesmo quase quarenta?
Pantera sedutora que se pinta...
Loba devoradora piruenta...
Extravagante
Muito caprichosa
Sofisticada
Farta de perfumes
E ouros espalhados pela mão...
Exuberante
Ar de poderosa
E desejada
Por nicks e nomes
De homens...
Ela era assim: total satisfação...
E enquanto teclava,
Contava:
Dinheiro tinha, mas nem precisava...
Amores muitos, mas não se detinha...
Fazia só as coisas que gostava...
E tudo quanto ela queria, tinha...
Maliciosa sempre que teclava,
Era desajuizada, irreverente...
Às vezes não dizia... insinuava...
E sempre assim... convidativamente...
E me dizia
Que não gostava de poesia
Não escutava samba e nem pagode,
Preferia os homens altos, tipos Lord...
E quase se derretia
Por outros fortes, louros, de bigode...
Era capaz de fazer quase tudo
Mesmo que fosse só por quase nada...
Entrava nos canais mais absurdos...
Adorava teclar de madrugada...
Usava sempre o mesmo sexy nick,
Mas muitas vezes criava algum na hora...
Mantinha sempre a coerência e o pique...
Não conhecia a hora de ir embora...
Carla? Cristal? Cristininha?
Carismática? Coroa?
Popozuda? Tchutchuquinha?
Delicinha de Pessoa?
Delicada? Sapequinha?
Moça linda e muito boa ?
Era Soraya? Sereia?
Era Serena? Era Liz?
Deusa Maia? Lua Cheia?
Escorpiana feliz?
Era Sagitariana?
Virginiana indecisa?
Aline? Lana? Luana?
Fogo? Brasa? Vento? Brisa?
Era Loura gostosinha?
Toda pura? Toda boa?
Toda sua? To facinha?
To sozinha? To à toa?
Pepita? Dita? Paquita?
Nikita? Rabo de Saia?
Silvana? Sarita? Rita?
Catita? Rata de Praia?
Psicóloga? Miudinha?
Fisiogatinha? Pantera?
Encantada? Malukinha?
Megera? A Bela da Fera?
O nick dela qual era?
Gostava de praia.
De vodcka.
De misturar champagne com coca-cola...
Ela era pura ousadia...
E enquanto ela teclava me dizia:
Fumava muito...
(Ou detestava o cheiro do cigarro?)
As vezes me dava assunto...
Outras vezes só queria tirar sarro...
Dizia, quase abusada,
Que era atrevida, atirada,
Desaforada, sacana...
Às vezes escancarada...
As vezes muito mais do que escrachada...
Outras, a Gata Dengosa da semana...
Não se apegava aos gatos que atraia...
Gostava de seduzir, e se gabava
De conquistar os homens que queria
E de curtir quando ela os desprezava...
Não se envolvia jamais quando teclava.
Jurava que ali no chat não mentia.
Mas ela também não acreditava
Em nenhuma palavra do que lia.
E o que dizia, enquanto chatiava,
Era somente a coisa que sentia.
Não percebia e nem se incomodava
Quando ela magoava ou ofendia.
Quando ela seduzia e desprezava,
Quando ela machucava. E garantia
Que nem ligava
Se alguém sofria
Com a displicência com que ela magoava...
E enquanto, distraída, ela teclava,
Ela dizia
Que ela era assim:
Absoluta,
Única,
Exuberante,
Quase encantadora,
Incompreensível,
Misteriosa,
Bela,
O equilíbrio entre a boa
E a pecadora...
Pantera,
Fera,
Mulher sedutora,
Cheia de dengo e malicia e muita manha...
Potranca,
Lânguida,
Avassaladora,
E a voz feito a de um aço quando arranha...
E enquanto teclava,
Contava...
E enquanto contava
Jurava que não mentia...
Pena que ela não gostava
De poesia...
3. Das coisas que o nick era
I
Era silencio. As luzes apagadas.
Somente a tela do PC acesa...
Um gosto de sereno nas calçadas...
Biscoito e café frio sobre a mesa.
Ana Maria, só, ali, teclava...
Reinventava os tristes dias seus...
Fugia da vidinha que levava...
Brincava, na telinha, que era Deus...
Faria dezessete em fevereiro...
Ela trazia desde o nascimento
Alguma coisa ruim que ela escondia...
Brincava de estar bem o tempo inteiro.
Fazendo desfazer seu sofrimento
E a dor que devorava Ana Maria...
II
Faria dezessete em fevereiro...
Trazia um coração descompensado...
Que quase era maior que o peito inteiro...
Seu caso era bastante complicado.
Fariam dezessete essa menina
E a bala de oxigênio do seu lado...
E os comprimidos de Digoxina...
E o coração tão grande e delicado...
E a longa espera, quase que absurda,
Da cura que não vinha, e tão sonhada,
Da dor que parecia não ter fim...
E a longa espera, silenciosa e muda,
E a longa espera, tímida e calada
É que fazia Ana Maria assim:
III
Brincando de inventar felicidades...
Criando as suas próprias fantasias...
Podendo refazer facilidades
Que a vida seqüestrava dos seus dias...
Fugindo de encarar realidades...
Tentando a contramão das corredeiras...
Tomando um banho de banalidades...
E se fartando em suas brincadeiras...
Ana Maria, lúcida, lutava,
Sobrevivia a si, quando teclava,
E assim dessa maneira, resistia...
Ana Maria, em sua dor imensa,
Seguia, leve, em meio à noite densa,
Sem perceber a dor que a consumia...
4. Do nick que o nome usava...
Não era Carol, Carina,
Carolina, Cora, Cris,
Nem Kalu, nem Kelly, Keila,
Nem Luisa, nem Lais,
Nem Boazuda, Boazinha,
Mariinha, Marilu,
Nem era Kátia, nem Candy,
Nem Corina, nem Caru,
Não era Mara, Mariana,
Nem Camila, nem Cassinha,
Eu quase posso lembrar-me do nome que o nick tinha...
Era pequeno,
Suave,
Era feito assoviar uma canção,
Tinha um brilho delicado,
Um bom-bocado
Todo feito de pedaços variados de emoção...
Era todo suavezinho,
Feito o voz de passarinho...
Feito rastros de paixão...
Era silencio,
Barulho,
Pecado,
Absolvição...
O nome que o nick usava
(Porque o nick precisava
De um nome enquanto teclava)
Era apenas
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