26.5.20

Alguma poesia

Alguma poesia para adoçar o dia,
Mesmo que o dia seja ameaçador,
Porque é mais leve a dor sempre que alguma poesia 
Abraça a dor que aperta o sofredor,

A dor, sem nenhuma poesia, asfixia,
É como os céus arrancados ao condor,
O cobertor roubado à pele fria,
A palavra censurada ao cantador,

Então algum poema adocicado,
Como um pouquinho de açúcar colocado
No chá, qualquer que seja seu sabor,

Então alguma poesia, quase nada, 
Para que para sempre, quando essa dor for lembrada,
Haja alguma poesia amortecendo a dor.

25.5.20

Soneto para Clarissa

Clarissa, por onde andam seus poemas?
Adoeceram

Clarissa, a poesia não adoece,
Às vezes, sim, ela se afasta um pouco pra crescer, 
E é nesse tempo silencioso que ela cresce, 
E volta, toda querendo se escrever, 

A gente acha que ela desaparece
Todas as vezes que ela dá de se esconder,
Mas a poesia, Clarissa, é como a prece:
Não precisa usar palavras para ser...

Então espera, porque a poesia, 
Mesmo quando vai bem longe, nos espia,
E acompanha bem de perto o nosso coração,

Até que quando gente menos espera, chega um dia 
Que ela se escreve, leve de alegria, 
Como quem faz a revolução...

23.5.20

A lição

É  todo mundo com medo. É todo mundo assustado.
E lá no fundo, todo mundo tem razão.
Pandemia. E ninguém estava preparado. 
Pandemia. Ninguém trazia a solução.

Parece que está todo mundo deslocado,
Ninguém muito à vontade no plantão,
Todo mundo trabalhando desconfiado,
Todo mundo procurando proteção,

Um dia, quando essa dor tiver passado,
Quem não tiver desistido nem tombado 
Vai precisar aprender uma lição:

É todo mundo junto. Ninguém separado.
Porque se um dá errado todo mundo dá errado. 
Ninguém chega sozinho à salvação

21.5.20

A hora mais escura

O morto segue só. Sem despedida.
É isolada a sua ultima jornada.
Uma oração é a possibilidade permitida,
E pensamentos, mais nada.

E essa hora, a mais escura que há da vida,
Precisa ser desacompanhada.
O funeral, como uma prática escondida,
Somente silêncio nessa ultima caminhada.

O derradeiro adeus. Tampa lacrada.
Como se a última cena precisasse ser cortada.
A hora mais cruel. A solidão.

E no silêncio dessa hora mais escura,
O corpo desce, em silêncio, à sepultura,
Como o ponto final da narração.









17.5.20

Vê se eu entendi direito

Você é de esquerda, não usa cloroquina,
Você é de direita não faz isolamento,
Será que a ivermectina
É pra você que é do centro?

Porque há um tempo atrás quem fazia medicina
É quem conhecia diagnóstico e tratamento,
Mas hoje em dia em qualquer esquina
Tem um especialista. Nem sei se comento...

A direita. A esquerda. E no meio o corona.
E por trás do corona, uma nação na lona.
E no fundo ninguém sabe o que fazer.

Dá cloroquina ou põe blitz nas ruas?
É uma coisa ou outra? Ou pode ser as duas?
Quem tem coragem de pagar pra ver?

16.5.20

Lockdown


Comer biscoito pode,
Ver TV também pode,
Ler livro de mistério,
Aprender a fazer pão,
Mas fazer barba cabelo e bigode
Pode não,
Também não pode
Passear no calçadão,
Mas pode telefonar,
Sentir saudade,
Falar à vontade pode,
Já tomar um táxi,
Depende da sua intenção:
Se for pra ir ao médico pode,
Se for pra comprar um caderno, pode não,
Pra ir no supermercado comprar Toddy,
Pode,
Pra ir na academia?
Amigo, presta atenção:
A vida pode melhorar,
Ou pode ser
Que o caos avance
Como acontece numa inundação,
E pode ser que leve tempo
Pra que tudo se acomode,
Até chegar o tempo do que pode ser,
E daquilo que não pode,
E é isso que vai fazer
A gente sobreviver
Ou não.
Mas se ter bons amigos sempre pode,
Trocar ideias,
E marcar encontros pra depois do apagão,
Então pode viver,
Mesmo distantes
Dois corpos podem ocupar
O mesmo pedaço do coração,
O mundo muda,
A gente muda,
Façamos com que esse tempo seja então
Assim como uma mudança de estação,
Onde a ameaça que nos ameaça
Passa e cansa
E vai sumindo até virar fumaça,
E quem pode garantir, com precisão,
Qual é seu tempo de duração?
Então,
Enquanto o lockdown estiver valendo,
Vamos aprendendo o que interessa:
Esquece a pressa,
Acalma esse seu coração cheio de medo,
E faz dormir essa sua inquietação,
Aproveita o tempo crescendo,
A dica é essa,
Um dia essa ameaça cansa e passa
E depois do seu fim vem a nossa continuação,
E até lá,
Fazer planos pode,
Poesia pode,
Brincar com o filho,
Viver uma paixão,
Então
Não deixa o tempo passar, porque ele foge,
Aproveita o tempo, porque o tempo urge,
E sorrir pode,
E pode ser feliz,
O que não pode é ficar com medo
De ficar com medo do bicho papão.







15.5.20

O Ministério da Saúde (versão pandemia)

O Ministério da Saúde não denuncia,
Mas o egoismo mata mais que a septicemia,
A antipatia causa mais dano que a infecção,
A empáfia não tem transplante,
A prepotência é altamente contagiosa,
E já está provado que é bastante perigosa,
Assim como a arrogância que uma vez identificada
Não sai com água e sabão.
O Ministério da Saúde não proclama,
Mas quem não ama
Não cria anticorpos contra a solidão,
Amar funciona como uma vacina
Quando o coração cansado desanima,
Quando se tem amor desistir deixa de ser uma opção.
E pena que o Ministério da Saúde não assina
A distribuição gratuita de ocitocina,
E não adota, em grande escala, a produção
De máscaras de proteção contra o egoismo,
De face shieds contra a agressividade sem sentido,
E de ternura em gel, pra sempre que a maldade
Tentar tocar, em sua imbecilidade,
O coração mal intencionado, ou distraído,
Essa ternura deixar o coração mais protegido,
Nem determine o uso de capotes contra esmorecimento,
Filtros contendo solidariedade dentro,
Protocolos prevenindo a intolerância,
Lives patrocinadas por complacência,
Atos institucionais contra a imprudência,
Um lockdown contra a depressão,
Unidades de saúde distribuindo abraços,
Daqueles que não necessitam usar braços,
Mas nem por isso menos eficientes em criar laços,
Essenciais, como a respiração.
O Ministério da Saúde não admite:
Mas o mau humor é mais contagioso que a meningite,
A negligência, mais inoperável que o tumor,
A displicência deixa mais sequelas que o derrame,
A tsunami é menos perigosa que o cinismo,
O alpinismo é menos arriscado que que a mentira,
A ira é a felicidade com defeito,
Bebê contente mama mais peito,
A ingratidão invariavelmente vira dor...
O Ministério da Saúde não divulga,
Mas passar o tempo todo reclamando causa ruga,
E o consumismo, está provado, é uma fuga,
O auto vitimismo, um mal sem solução,
O pessimismo causa grande sofrimento,
A impaciência necessita tratamento,
Antibiótico não cura um coração rabugento,
E morrer não machuca, quando existe gratidão.
O Ministério da Saúde adianta:
Ninguém colhe o que não planta,
Ninguém planta o que não traz no coração...
O Ministério da Saúde não discute:
O bom humor é mais delicioso que o iogurte,
O amor é a tábua da salvação...

9.5.20

Quarentena

Eu vou de livros. Não tenho lareira.
Eu tenho poesia por luar.
Meu vinho é a "Estrela da vida inteira".
Minha cerveja artesanal é ouvir Chico cantar.

E assim, ao som de Manuel Bandeira,
Eu me sinto como se estivesse num pomar
Colhendo Drummond, de alma cantareira,
Ouvindo Vinicius e seus poemas de amar,

E desse jeito eu passo minha quarentena,
Ouvindo música, lendo poema,
E quando vejo, o dia já passou,

E a lareira do meu coração, se ardendo em rimas,
Espalha poesias pequeninas
Que eu colho e guardo por onde eu vou.

Dead people

Eu vejo ainda alguns. Mais inibidos.
Faz pouco tempo eram bem mais abusados,
Falavam mais alto, eram mais atrevidos,
Faziam gestos mais descomportados.

Eu os vejo ainda, mas andam meio sumidos, 
Parece que alguns estão envergonhados,
Ouvi, de alguns, que estão arrependidos,
E, muitos deles, desorientados...

Eu vejo ainda alguns, mas muito menos,
E já não fazem mais gestos obscenos,
Tentando, com isso, se regenerar,

Eu ainda vejo alguns. Os resistentes.
Mas hoje já não há mais inocentes, 
E nem é mais preciso se justificar.

3.5.20

Calma

Mantenha-se calmo. Antes de mais nada
A calma faz a gente não travar.
É longo o dia. Longa a caminhada.
Calma. Nada deixa de passar:

A chuva, o vento, o raio, a trovoada,
A ansiedade de querer ver tudo acabar.
Nada é pra sempre. Cada página virada
É só o prenúncio para a próxima virar.

Então mantenha-se calmo. A vida é assim.
Somente o universo é que é sem fim.
As coisas vem e vão, até que vão embora.

Mantenha-se confiante. A tempestade
Não dura mais do que uma eternidade.
Resumo: muita calma nessa hora. 

29.4.20

A era do cuidado

Estamos vivendo a era do cuidado,
Cuidado com a dose,
Cuidado com as mãos,
Cuidado com o bebê contaminado,
Com o antibiótico aplicado,
Com a técnica correta de intubação,
Cuidado com a admissão 
E com a alta,
Com os dados da anamnese,
Com o risco de infecção, 
E mesmo depois do plantão ter terminado, 
Ao sair à rua, cuidado, 
Ao abrir o portão, 
Ao beijar seu filho,
Ao deixar seu celular conectado,
Ao servir o leite, 
Ao pegar o pão, 
Ao tomar um táxi, 
E mesmo ao colocar uma máscara para a sua proteção, 
Cuidado, 
Nosso descuido fez com que o planeta fosse penalizado 
Por isso chegamos à era do cuidado, 
A era do cuidado de quem cuida,
E de quem recebe atenção,
Um pequeno tropeço, tudo errado,
Um deslise quase imperceptível, grande confusão, 
Uma era, essa era do cuidado,
Que será levada, já está provado, 
Para além da nossa próxima geração,
Quando o homem descuidado 
Terá aprendido 
A tomar cuidado,
E essa será a única condição 
Que guardará respeito com o passado construído,
E com o futuro, como maior construção,
Porque foi dolorido,
E com o coração apertado,
Que o mundo chegou a essa conclusão, 
A nossa dor foi ter desrespeitado 
Essa regra básica para qual não existe exceção: 
Cuidado com o que é dito,
Cuidado com o que é feito
E registrado,
Desde a avaliação dos resultados 
De um eletroencefalograma ampliado,
Aos primeiros passos do estímulo à amamentação,
E até o que não era questionado,
E mesmo o que não estava sendo percebido,
Não ficou de lado,
Porque tudo passou a ser tratado com cuidado,
E a vida do planeta passou a depender 
Dessa tomada de decisão. 
Estamos vivendo a era do cuidado,
Cuidado com o pensamento,
Cuidado com a palavra, 
Cuidado com a ação,
Construindo um planeta mais respeitador,
Mais respeitado,
Cuidando com cuidado
Pra que nunca mais o gesto descuidado,
E alimentado de desatenção, 
Possa tornar o futuro ameaçado,
Fazendo sangrar da vida o coração,
Então cuidado,
Redobrado, 
Não a palavra,
Mas o compromisso,
Não o assinado no papel,
Mas na convicção,
Para que esse cuidado possa ser multiplicado, 
E dessa forma, assim, disseminado,
Como se fosse a cura,
Ou como se fosse um pedido de perdão.

23.4.20

Os dois lados

Após escutar uma fala da Dra Ana Claudia Quintana Arantes


Você pode escolher o lado dos que ajudam,
Você pode escolher o lado dos que pedem ajuda,
Você só não pode escolher o lado dos que falham
Porque nem ajudam nem pedem ajuda, só atrapalham,

E você pode escolher o lado dos que precisam
Como também escolher o lado dos que doam,
Mas acredite, você perde tempo quando escolhe ficar 
Ao lado daqueles outros que só fazem reclamar, 

E ao invés de tentar socorrer  os que pedem socorro 
Ou de pedir socorro com medo de se afogar
Tornar-se vítima das suas dores íntimas 
E odiar o mundo ao se vitimizar,

Porque você pode escolher o lado dos que apoiam,
Ou escolher o lado dos que pedem apoio,
O único lado que você não pode escolher
É o lado dos que nem vive nem deixam ninguém viver.

Escolhe o lado dos que preparam a sopa,
Escolhe o lado dos que seguram o prato,
Foge do lado dos que só se doem,
Foge do lado dos que só se destroem,

Escolhe o lado dos que escrevem oesia,
Escolhe o lado dos que aprendem a escrever,
Mas deixa de lado os que não procuram ensinar,
E dos que não tentam, por outro lado, aprender,

Fica do lado dos que procuram fazer,
Ou dos que pedem ajuda se não conseguem acertar,
Mas toma cuidado com os que não tentam crescer,
Toma cuidado com os que não saem do lugar,

Porque você pode escolher o lado dos que dão força,
Ou ficar do lado dos que precisam de força pra lutar,
Mas quando escolher o seu lado, toma cuidado:
Basta um furinho no barco pro barco inteiro afundar 

19.4.20

Antes que chegue ao fim a pandemia

Antes que chegue ao fim a pandemia,
Eu precisava dizer aqui que eu não sabia
Que um dia o dia de hoje chegaria,
E a gente ia precisar tanto um do outro
Pra contar coisas que nunca contaria,
Pra ficar da janela escutando cantoria,
Pra sentir saudade de quem nunca sentiria,
E que esse tempo seria assim tão duradouro...

Porque antes que chegue ao fim a pandemia,
E volte a ter fila na padaria,
E ambulatórios de pediatria,
E gente a balde circulando por ai,
Foi necessário esse tempo, quem diria,
Que desarrumasse a nossa economia,
E deixasse a piscina do prédio mais vazia,
E o mundo inteiro tentando descobrir

Um tratamento que termine essa agonia
De dor, e morte, e caos, e hipoxemia,
Porque ninguém no mundo sabia que cabia
Tanto medo e tristeza na televisão,
Tanta perda sem nenhuma garantia,
Tanta força junta contra a ventania,
Tanta necessidade de alegria,
Tanta necessidade de uma solução,

Por isso, antes que chegue ao fim a pandemia,
Que está durando mais do que deveria,
Matando mais do que a previsão mais sombria,
Como se estivesse tentando provocar
Mudanças que a gente nunca mudaria,
Sentimentos que a gente nunca sentiria,
Dores que a gente nem sabia o quanto doiam,
E músicas que a gente nem sabia mais cantar,

Por isso mesmo, antes que chegue ao fim a pandemia,
Antes que a gente volte pra churrascaria,
Ou pro plantão cansativo que a gente torcia
Pra dar logo oito horas e acabar,
Por isso, antes que chegue ao fim, uma poesia,
Que não é uma face shield, mas com sabedoria,
Se bem usada, ela bem que serviria
Pra ajudar o coração da gente se acalmar...

7.4.20

As meninas

Para Yasmin e Moana, prematurinhas crescidas 

Eu vi miudinhas. Hoje já não estão. 
Eu vi quando não eram quase nada.
Eu vi as duas no começo da estrada.
Eu vi sua força e determinação.

Desde meninas. Uma luta danada.
Sonda. CPAP. Saturação. 
Cada graminha a mais valorizada 
Como um sinal de libertação.

Eu vi desde aqueles dias que choravam 
Quando sua mãe e seu pai não estavam 
E elas ficavam sem chão. 

Eu vi bebês ainda. E hoje, crescidas,
Tornam felizes demais as nossas vidas, 
E fazem mais forte nosso coração.

2.4.20

Vai passar

Para Ana Michelle Soares e Ana Claudia Quintana Arantes

Vai passar.
Não vai durar pra sempre,
É só um tempo,
Custa caro,
Dói,
E as vezes a gente sente até vontade de chorar,
Mas não é pra vida inteira, acredite:
Vai passar,
Às vezes o tempo
Dura muito tempo,
E muitas vezes esse tempo
É capaz de castigar,
Mas na medida em que o tempo passa,
O tempo mostra
Que a gente não deve se desesperar,
Porque mesmo que custe uma eternidade,
Vamos ter outra eternidade pra gente se encontrar,
O nome disso é saudade,
E pra sentir saudade
A gente precisa antes de tudo se gostar,
Então, por mais que a vida se apresente
Dessa forma ameaçadora, aparentemente,
Não tenha medo:
Mais dia menos dia
A tempestade vai se transformar em calmaria,
Por isso, se a calmaria um dia vai chegar,
Não gaste seu tempo durante a tempestade
Fazendo alarde,
Seja feliz com o que você pode aproveitar:
Escreva uma carta,
Envie uma foto,
Faça uma live falando dessa saudade,
Ou, ao invés disso, tente decorar
Uma poesia de Carlos Drummond de Andrade,
Ou de Manoel de Barros,
Sinceridade?
Definitivamente você vai gostar...
Assista um vídeo de Ana Claudia Quintana Arantes,
Descubra coisas emocionantes
Nas quais você nunca tinha parado pra pensar,
E lembre-se de levar no seu coração quem você ama,
Porque a gente só se afasta
De quem o coração da gente já  não quer mais carregar...
Porque  se “longe é um lugar que não existe”,
Se “é melhor ser alegre que ser triste”,
E se “todos os tristes querendo juntos, toda tristeza vai se acabar”,
Então prepare-se pros dias que virão
Depois dos raios,
Passado o trovão,
Pros dias do coração poder brincar
De dar abraços,
Retomar laços,
E de mandar a saudade ir passear,
Porque a única certeza que hoje temos
É a certeza de que esse tempo que vivemos,
E que uns acham que vai durar mais, outros que menos,
Mas pelo que lemos,
E pelo que vemos,
A única coisa certa que sabemos
É que esse dia
Um dia
Vai passar...

26.3.20

Morte e vida

Morrer ja era certo: mais dia, menos dia,
De alguma forma isso iria acontecer,
Mas viver? Isso nos pertencia,
E ia ser da gente até se desfazer...

A gente já nasceu sabendo que morreria,
Ouvindo estórias, tentando absorver, 
Mas nunca imaginou que viveria 
Como se estivesse deixando de viver:

Antes do coração entrar em assistolia,
Deixar esvaziar-se sua energia,
E ver a vida, ainda em vida, se perder...

Já era certo morrer, mas quem diria
Que chegaria um dia em que a poesia 
Perderia poesia sem perceber...

Atletas

Atletas não ficam gripados
Porque tem muitos anticorpos pra gastar,
Atletas são indivíduos preparados,
E são treinados diariamente pra ganhar,

Por serem atletas, estão imunizados,
Atletas não costumam se assustar,
Não passam o dia em casa, confinados,
Atletas precisam se exercitar:

Jogar bola, mergulhar, atirar dardos,
Surfar por mares nunca dantes navegados,
Procurar recordes pra quebrar,

Atletas jamais serão contaminados 
Porque são sempre muito bem cuidados...
Atletas só não deveriam governar.

24.3.20

Esperança

Não a palavra, mas seu significado,
Não o do dicionário, mas o do coração,
Não aquele  que mora no peito, trancado,
Mas o que se espalha livre, sem prisão,

Não a esperança presa ao passado,
Mas aquela outra: a que resiste ao não,
A que é da alma o maior legado,
A que é da vida a maior lição,

A que não precisa de provas e evidências,
A que desafia as hipóteses das ciências,
A que não necessita tradução,

Não a palavra, mas o alimento
Da poesia de que é feita o pensamento.
Não a palavra. A convicção. 

23.3.20

Poesia enquanto a peste...

Poesia enquanto a peste 
Insiste e teima em chegar
Do norte, sul, leste, oeste,
Vinda de todo lugar,
Trazendo ansiedade, dor,
Dificuldade de respirar,
Mas lembrando que boa vontade 
Às vezes pode ajudar,
A peste, ninguém sabia,
Ninguém notou ela entrar,
Quando foi ver era tarde,
Não dava mais pra avisar,
Chegou fazendo miséria
E antes do mundo acordar
Muita gente foi embora 
Sem tempo de se arrumar,
Muita gente perdeu tempo
E não conseguiu viajar,
E muita gente viajou 
Pra nunca mais retornar,
Algumas seguem tentando 
Outras não podem tentar, 
Porque umas acreditando 
E outras sem acreditar, 
Mundo, mundo, vasto mundo, 
Parece Drummond a falar...
Poesia enquanto a peste
Não desiste de espalhar 
As novas regras pra vida
Que a gente deve acatar:
O tempo sem desperdício,
A importância do lar,
O cuidado como escudo,
E fé pra nunca faltar...

22.3.20

O dia

O dia vai começando. Deus permita
Que ele traga coisas boas pra contar:
Um homem bom, uma mulher bonita, 
Uma chuva que começa a dissipar,

Uma lembrança da música favorita, 
O cheiro de café ao acordar,
Uma verdade em que todo mundo acredita, 
Uma notícia dizendo que vai passar

O medo, a dor, o desespero, a febre,
E que esse dia traga uma criança alegre 
Pedindo colo, querendo brincar,

Um pouco de calma, outro pouco de poesia,
E, porque não, um milagre nesse dia
Pra gente ganhar forças pra continuar...