29.10.02

Outro soneto imperfeito para passarinha...

Passarinha carioca de alma livre
Que não se assusta com tempestade...
Absoluta na forma como vive
E soberana em sua liberdade...

Passarinha carioca. Toda inteira.
De loura cabeleira e pele clara.
Faz sexta parecer segunda feira.
Faz água parecer bebida rara...

Passarinha carioca. Soberana.
Gostosa feito Copacabana.
Dona de Campo Grande e de Ipanema...

Passarinha carioca. Toda fibra.
Deliciosa feito Guaratiba.
Toma esse beijo em forma de poema...

23.10.02

O Medo

Tem gente que tem medo de Lula...
Tem gente que tem medo de coice de mula...
Tem gente que tem medo de mula-sem-cabeça...
Eu tenho medo é de que a nossa capacidade de indignação desapareça...

Tem gente que tem medo do castigo...
Tem gente que tem medo de perder o abrigo...
Tem gente que tem medo do exílio, do degredo...
Eu tenho medo é de ficar com medo...

Tem gente que tem medo de dormir no escuro...
Tem gente que tem medo de pular o muro...
Tem gente que tem medo da ameaça à bala...
Eu tenho medo é de ter medo da mão que me apunhala...

Tem gente que tem medo de poesia...
Tem gente que tem medo de encarar a luz do dia...
Tem gente que tem medo do que escreve e diz...
Eu tenho medo é de um dia ter medo de ser feliz...

Tem gente que tem medo de levar um tiro...
Tem gente que tem medo do beijo do vampiro...
Tem gente que tem medo só de imaginar...
Eu tenho medo é de um dia eu ter medo de sonhar...

Tem gente que tem medo de encarar o tapa...
Tem gente que tem medo de sair na capa...
Tem gente que tem medo do próprio retrato...
Eu tenho medo é de deixar barato...

Tem gente que tem medo da arbitrariedade...
Tem gente que tem medo da verdade...
Tem gente que tem medo da perseguição...
Eu tenho medo é de acordar com medo de escutar a voz que vem do coração.

Tem gente que tem medo da Primeira Dama...
Tem gente que tem medo da segunda cesariana...
Tem gente que tem medo da Terceira Guerra...
Eu tenho medo é do medo que me emperra...

Tem gente que tem medo de lutar. E morre.
Tem gente que tem medo de enfrentar. E corre...
Tem gente que tem medo de cumprir a pena...
Eu tenho medo é de qualquer dia amanhecer com medo de escrever poema...

9.10.02

A Lição da Estrada

Ninguém é dono da tua vontade.
Não há remédio prá não se matar.
A Pílula de Vida de verdade
É ter algum motivo para amar...

Ninguém estabelece o teu caminho
Ou vive em teu lugar a tua vida.
Não é feliz quem é feliz sozinho.
Há sempre alguma fresta de saida.

Portanto toma conta do teu rumo.
Segura em tuas mãos teu próprio prumo.
O Sol não morre após a tempestade.

Não te disperses nas correntezas.
Jamais te asfixies em tuas tristezas.
Este é o sabor da tua Felicidade.
A Estrela
A Luis Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil

“Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel”
O Cio da Terra - Chico Buarque/Milton Nascimento.

" Só faltava o mel, só faltava o mel
Mas o mel chegou!
Pingava mel, da parede escorria mel
Eu passava o dedo
E provava sem medo e sem temor"
Na Casa Dela - Gilberto Gil




Tocar a mão na Estrela...
Banhar o coração na claridade...
Houve um período feito de maldade,
Da noite em meu País, da impunidade,
E ao mesmo tempo
Um tempo de delírio, fantasia,
De encantamento...
A poesia da ingenuidade...
Tocar a Estrela, quase uma heresia...
Tocá-la, quase a impossibilidade...
E, como se desejos impossíveis
Teassem fios inimagináveis,
Delírios que eram quase inatingíveis
Tornaram-se, aos poucos, permissíveis,
E, por assim dizer, realizáveis...
Tocar a Estrela com o Coração
Como se fosse a Voz de uma Nação,
Como se fosse o seu Hino...
E, mais do que tocar, pegar na mão...
A Estrela foi tornando uma opção...
Foi deixando de ser um desatino...
E foi assim:
João Desempregado disse sim,
Pedro Desiludido se animou,
Chico do Contra, embora achando ruim,
Quase no fim concordou, depois sorriu,
Juca Indeciso se decidiu,
Zé Otimista se convenceu,
Paulo Maluco esse dia nem surtou,
O Pecador porque se arrependeu,
O Filho Pródigo porque voltou,
O Guarda Noturno porque o sol nasceu,
A bela Atriz porque a noite chegou,
O Estudante por falta de medo,
O Apressado por um segundo,
O Encabulado quase em segredo,
O Profeta pra tentar salvar o mundo,
Tião Fazendeiro por distração,
Zeca Pedreiro por querer demais,
O Metalúrgico por opinião,
O Metaleiro porque tanto faz,
O Padre por amor à sua batina
E o Pastor por não ter que se confessar,
E o menino por causa da menina,
E o Pescador por causa do mar,
Cada um a seu modo e do seu jeito
Imaginou ser digno do direito,
Merecedor, por conceito,
De ver a Estrela brilhar...
Paolinha mandou fazer um vestido,
Geórgia convenceu o namorado,
Fernanda com seu jeito distraído,
Renata com seu modo comportado,
Simone fez questão de acordar cedo,
Andréya passou lendo a noite inteira,
Francine cruzou o dedo,
Cartola foi lembrado na Mangueira,
Flávia Cristina voltou da França,
Dra. Francis faltou plantão,
A Bárbara parecia uma criança
Passeando de avião,
A Poesia ficou toda prosa,
A luz do dia, cheia de si,
Copacabana amanheceu maravilhosa
De tanto rir
Porque de repente
Toda essa gente
Crioula, branca, pálida, amarela,
Foi desejando completamente
A Luz da Estrela...
Tocar a mão suada na Estrela...
Banhar o suor em sua claridade...
Como quem passa livre da maldade...
Como quem desrespeita a impunidade...
Como quem desafia o próprio tempo...
Como quem vive a própria fantasia...
Como quem faz o próprio encantamento...
Como quem canta a própria ingenuidade...
Como quem legaliza uma heresia
E desconhece a impossibilidade...
Daquela Estrela jorrava mel...
Brotava mel de dentro do chão...
E das paredes das casas e dos rios
E dos espaços vazios e das ruas
O mel suava, jorrava
E escorria...
Era a Estrela que se aproximava...
Era a Estrela que permitia
A toda gente, naquele instante,
Uma aproximação impressionante
Como uma Boa Nova que chegava,
Como se fosse um banho de alegria...
E toda gente
Sedenta, lúcida, leve e em paz radiante,
Tocou a Estrela imensa feito o Céu...
Bebeu da Estrela a doçura do mel...
Se lambuzou de mel...
E se fartou de mel...
E, pelo que se soube,
Até onde se diz,
A gente brasileira
Pela primeira vez e derradeira
Pegou na mão, tomou a sua Estrela,
E desse dia em diante
Foi feliz...

1.10.02

Caminho curlo...
Após escutar o novo CD do Paralamas...

Eu vou morar em Milton Nascimento
Mas uma vez por semana
Eu vou brincar em Herbert Vianna...

24.9.02

Por Amor

Por amor eu deixei minha vida de lado,
Fui julgado e acabei condenado no fim.
Por amor me entreguei e fui abandonado.
Por amor eu cheguei até o fundo de mim.
Por amor eu errei onde não poderia.
Escrevi poesias sem nenhum valor.
E por noites a fio bebi chuva fria
E o que não deveria, isso eu fiz por amor.
E nos dias cinzentos, por horas a fio,
Cantarolei canções dissonantes demais.
Eu vazei minha vida. Vivi meu vazio.
Por amor fiz o que nunca e nem ninguém faz.
Por amor transformei água em pão, pão em vinho,
E os olhos de Medusa tornei mãos de Midas.
Por amor eu vivi muitas vezes sozinho
Outras vezes eu multipliquei minhas vidas.
Por amor rabisquei rimas muito idiotas...
Frases que certamente jamais foram lidas...
Fiz um sambinha feito com todas as notas
Que um dia eu cantei, mas não foram ouvidas.
Sufoquei, por amor, minhas próprias revoltas,
Escondi meus segredos no fundo do Mar...
Eu dei voltas e voltas e voltas e voltas
E acabei quase sempre no mesmo lugar.
Esperei por respostas que nunca chegaram.
Fui atrás de razões que fugiram de mim.
Não cansei quando todos em volta cansaram.
Continuei quando todos diziam: “É o fim”.
Por amor viajei por lugares distantes.
Eu neguei os meus medos. Matei minha dor.
Destruí, por amor, coisas interessantes.
Eu troquei minha vida e vivi por amor.
Desprezei aventuras e dias mesquinhos.
E carinhos idiotas. E beijos levianos.
Eu lutei com ternura por novos caminhos.
E dos planos que eu tinha eu tracei novos planos.
Eu mudei as palavras que o verso pedia.
Eu planejei Cidades de ninguém morar...
Tentei poesia. Escrevi poesia.
E tudo que eu fiz eu só fiz por amar:
Poemas, projetos, e-mails, cantigas,
Viagens, estórias, segredos, palpites,
Segredos, presságios, delírios, intrigas,
E as festas, e as fotos, e os loucos convites,
Palavras, pretextos, desculpas, acenos,
Discursos, desenhos, sonetos de dor,
E as coisas enormes, e os gestos pequenos,
E todas as coisas eu fiz por amor...
Criei e vivi novecentas estórias...
Tratei inocências com penas perpétuas.
Neguei as medalhas. Recusei as glórias.
Fiquei com as letras e as formas discretas.
Segui por riachos distantes dos rios,
Quebradas e atalhos além das estradas,
Passei por lugares desertos, vazios,
Recantos sombrios e águas paradas,
E assim, por amor, sem cansar, fui seguindo
Caminhos sem ver onde é que iam dar...
Por amor, como as águas de um rio fluindo...
Por amor, como um rio a caminho do mar...
Por amor eu sonhei e morei nos meus sonhos.
Segui por caminhos da imaginação.
Eu me apavorei... Pesadelos medonhos...
E acabei me escondendo no meu coração.
Por amor eu neguei as três vezes que pude.
Perdoei sete vezes setenta e bem mais.
Eu fui fraco. Fui seco. Fui grosso. Fui rude.
Eu crucifiquei Jesus e soltei Barrabás.
Por amor muitas vezes fui tolo. Outras, bravo.
Outras triste demais. Outras mais que feliz.
Muitas vezes Senhor. Outras vezes escravo.
Outras, ao mesmo tempo Doutor e aprendiz.
Muitas vezes estúpido. Frio. Mesquinho.
Fui, por vezes, carinho, outras vezes rancor.
Tantas vezes fui junto. Fui tantas sozinho.
Fui do Céu ao Inferno e fugi por amor.
Percebi filigranas. Ignorei cordilheiras.
Muitas vezes não soube dizer Sim ou Não.
Cometi, por amor, as mais tolas besteiras
E gestos mais cheios de erudição.
Desvendei os caminhos por dentro das matas
E os ventos eu soube dizer de onde vinham.
E as contas confusas tratei como exatas.
E os enigmas imensos eu vi o que continham.
Por amor eu deixei meus pudores de lado.
E as dores que eu tinha eu tratei, por amor.
Por amor eu pequei. Abusei do pecado.
Completamente errado. Infeliz pecador.
Eu gritei por socorro como um afogado.
Supliquei por clemência na condenação.
Eu clamei por perdão quando fui condenado.
Fiz das mortes que eu tive a minha absolvição.
Por amor eu cantei canções que eu nunca havia...
Eu varei por caminhos que nunca pensei...
Experimentei gostos que eu não sabia...
Disse muitas palavras que nunca escutei...
Eu pensei que eram noites coisas que eram dias
Coisas muito terríveis percebi tão belas...
E as quase completas julguei tão vazias
E as cores azuis tomei como amarelas...
As coisas distantes eu vi tão de perto,
As muito difíceis eu facilitei...
E da mesma maneira que faz o Arquiteto
Criei ruas sem fim onde nunca pisei...
Eu suei minha própria camisa pisando
As uvas que um dia transformei em vinho.
E fui pouco a pouco me embriagando
E assim desenhando meu próprio caminho,
Traçando meu carma, bebendo meu copo,
Dizendo meu nome, criando meu eu.
Meu jeito de ser que eu não mudo, não troco.
Meu modo de dar luz ao meu próprio breu.
Nunca tive razão. Nunca quis. Nunca pude.
Cada coisa que eu fiz foi só pela emoção.
Nunca soube se era defeito ou virtude...
Era a voz que gritava no meu coração...
Ofereci meu nome pra morrer primeiro
E segui caminhando na linha de tiro.
Eu fiz do silencio meu bom companheiro
Recusei respirar o ultimo suspiro.
E por isso, assim como os Rabinos e os Magos,
E os Navegadores de tempos atrás,
E os Padres e os Monges e os Abençoados,
E assim como as Mães que não cansam jamais,
E assim como os Náufragos desesperados,
E os Abandonados que não tem ninguém,
E bem como a determinação dos Soldados
Que lutam sem saber por que nem com quem,
E assim como a garra dos Sobreviventes,
E a força invisível que há nos Prematuros,
E assim como a aura que envolve os Videntes
E o arrependimento dos atos impuros,
E assim como a força que move os suicidas
E a fé dos Romeiros, dos Crentes em Deus,
E as Mães das crianças desaparecidas
Que esperam pela volta dos filhos seus,
E a sede da Moça que espera no Porto
O retorno do amado que sumiu no Mar,
E assim como o filho perante o Pai morto,
E a dor da Viúva, em silencio, a chorar,
Eu guardei em mim, sem que eu compreendesse,
Sem que eu pelo menos soubesse explicar,
Sem que eu controlasse, sem que eu escolhesse,
Em mim sem que eu fosse capaz de notar,
Tomei como se não houvesse mentira,
Ou como se eu não soubesse negar,
Do modo que é o ar quando a gente respira,
Do jeito que é o rio correndo pro mar,
Guardei, como se fosse um rio correndo,
Guardei sem que eu fosse capaz de evitar,
Ainda que às vezes não compreendendo,
Ainda que às vezes tentando ocultar,
Mais certo que o Rio que passa correndo,
Mais forte que o vento, mais farto que o ar,
Mais vivo que a vida que foi me vivendo,
Mais definitivo que a morte ao chegar,
Conservei comigo, carreguei comigo,
Tal como se fosse a minha confissão,
E, mesmo sabendo que corri perigo,
E, mesmo sabendo não haver perdão,
Eu tomei pra mim como fosse meu marco,
Eu tomei pra mim como fosse o meu lar,
Eu tomei pra mim como fosse meu barco,
E como se houvesse mais nada a tomar,
Tomei o amor como meu companheiro,
Tomei o amor como único par,
Tomei como se eu fosse o seu passageiro,
Tomei como se fosse o meu despertar,
O Amor, esse às vezes tão mau conselheiro,
O Amor, esse às vezes tão cheio de dor,
O Amor, esse às vezes que é tão sorrateiro,
O Amor, que por vezes nem parece Amor.
E assim eu vivi os meus dias inteiros,
As minhas viagens, as minhas paixões,
E assim foi que eu descobri meus paradeiros,
E assim foi que eu criei as minhas canções...
E nunca nem coisa nenhuma nem nada,
Nem pedra, nem chuva, nem desilusão,
Nem Contos de medo, nem Contos de Fada,
Nem Contos de Sonhos, de Imaginação,
Nem nada me fez separar dessa força
Que eu trouxe em segredo no meu coração
E como se fosse uma peça de louça,
E como se fosse um desenho num grão,
Guardei essa força comigo em segredo,
Guardei em silencio aqui dentro de mim,
Como uma criança carrega um brinquedo
Ou como um segredo carrega o seu fim,
O Amor, absoluto, e sempre primeiro,
O Amor, verdadeiro, e sempre estrondoso,
O Amor, poderoso, e sempre por inteiro,
O Amor, companheiro, e sempre carinhoso.
Por amor eu larguei minha vida de lado,
Fui julgado e cheguei bem no fundo de mim.
Por amor eu fui Rei. Eu vivi meu Reinado.
Por amor eu tentei escapar do meu fim...
Por amor, como as cartas de amor do passado...
Por amor, como o beijo da moça que vai...
Por amor, como um verso de amor delicado...
Por amor, como era o amor do meu Pai...

17.9.02

A Tempestade
(Na madrugada de 7 de setembro, do apartamento na Praia do Flamengo, eu pude observar o Rio amanhecendo sob forte temporal...)

Da janela do apartamento,
Protegido,
Eu pude observar o temporal.
Eram rajadas de um vento
Ensandecido...
A Natureza em seu Carnaval:
Raios cruzando o céu a todo instante,
A chuva em sua força impressionante,
Os estrondos do trovão...
O apartamento me protegia
E, enquanto eu observava a ventania,
Quem protegia o meu coração
Da chuva forte da indiferença,
Da trovoada da intolerancia,
Da ventania da solidão?
De tantos raios da inimizade,
E dos destroços da iniqüidade,
Das tempestades de Não?
Da janela, protegido, eu vi o tempo
Como se fosse um tormento...
Como se fosse um tufão...
Talvez, por me encontrar tão protegido,
Por isso é que eu nem tenha percebido
O coração assustado e contraido
Clamando por proteção..

13.9.02

O lugar bom de viver

Segue o poeta, rabiscando linhas,
Cecilizando idéias indiscretas,
Gullarizando frases Manoelinas
Do modo como fazem os poetas...
Vai revolvendo novos sentidos,
Reinventando as coisas corriqueiras,
Teando ritimos parecidos
Como se as rimas fossem parceiras.
E vai, tendencia Marioandradina,
Criando seu estilo pessoal...
Redescobrindo a forma Guilhermina
Na perfeição do verso Buarquial...
Vai traduzindo a rima Caetana
Que se escondeu nos versos de Drummond,
Se misturou na letra Catulana,
E evaporou na música de Tom...
E, costurando sua Bandeira
Como fez Castro Alves nos seus dias,
Segue, como quem tece a sua esteira
Ou como quem protege as próprias crias...
Segue o poeta, imaginando frases...
Pescando idéias que não tem som...
Como quem sai em busca de um Oásis
Onde viver é bom...
O Mel e a Espada

O Mel adquirido pela Espada
Não serve como alimento...
Quando muito, como água envenenada...
Quando muito, como excremento...

O Mel adquirido pela Espada
E pelo signo do constrangimento
É feito a imponencia da fachada
Minutos antes do desabamento...

Como se fosse a morte anunciada,
O Mel adquirido pela Espada
É a condenação de quem o toma...

É como a pele suave e bronzeada
Que não percebe o detalhe da chegada
Do carcinoma...

4.9.02

Desabafo...

Eu me recuso a viver num mundo onde o meu sorriso seja feito da desconfiança do sorriso do meu vizinho...
Eu me recuso a viver num mundo onde eu não possa acreditar nas pessoas...
Em que eu precise desconfiar das pessoas...
Num mundo em que quem crê é um idiota...
Onde quem confia é um tolo...
A mentira não pode ser a regra e a verdade um crime...
A falsidade não pode ser o lema
E a decencia uma estupidez...
Eu me recuso a viver num mundo onde quem confia é portanto um delinquente e quem mente apenas se protege...
Eu não condeno Forrest Gump...
Eu acredito na água cristalina...
Eu quero o sol e me recuso a acreditar na sombra, na noite, no frio...
Até que
Quando um dia
Finalmente
Ciencia
Leis
Tratados
Fórmulas
Sabios
Entendedores
Antropólogos
Filósofos e
Bispos
Me convencerem
Do contrario
Entao
Nesse dia
Exatamente nesse dia
Certamente
Eu ainda assim
Definitivamente me recusarei
A acreditar na farsa como verdade
No erro como principio
No mal como fundamento
Porque dentro de mim
Acreditar
Será sempre
Ver a verdade
Onde ela deveria estar
Antes de ter sido
Violada...

26.8.02

Aonde eu vou morar

Eu vou morar em Milton Nascimento,
Na voz que vem de Milton Nascimento.
Gira, girar em Milton Nascimento,
E adormecer em Milton Nascimento.
Eu quero um pé de sonho prá plantar.
(Quem planta sonho colhe cantar)
Quero viver sossegado
Mas pra ficar sossegado
Eu não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal.
Uma nascente. Um olho dágua.
Ouvindo Canção do Sal.
Brincar nos bailes da vida
Cantando Canção Amiga.
Quero ficar à vontade.
Do coração doer de tanta felicidade.
Quero tocar minha mão no Cálix Bento.
Eu, Cavaleiro Solitário, ao vento,
De vez, morar em Milton Nascimento,
Em comunhão com Milton Nascimento,
E me perder em Milton Nascimento,
E me encontrar em Milton Nascimento.
No seu sorriso
Que é qualquer coisa a haver com o paraiso.
Certas canções de modo tão perfeito:
Amigo é coisa pra se guardar
Do lado esquerdo do peito.
Por isso, quando eu me encontrar sozinho,
Vou viajar no som do cuitelinho,
E se eu tiver algum mercecimento
Eu vou morar em Milton Nascimento,
Beber da vida em Milton Nascimento.
Nenhuma dor em Milton Nascimento.
E ser feliz em Milton Nascimento.
O Amor Insensato
A todos os amores que não trazem paz

Se o amor que tu amas é proibido
E amar assim te mata de vergonha,
E se é imenso o amor, mas escondido,
E é dentro do escondido que ele sonha,

E se o Padre não o abençoa,
E se o Pastor não o bendiz,
E se o Rabino não o tem por coisa boa
E apesar disso esse amor te faz feliz,

Vive esse amor insensato até o fim
Como se nada nele houvesse de ruim
E ali estivesse a tua felicidade.

Quem sabe um dia, desse amor cansada,
Por tanto amares sejas libertada
E, uma vez livre, tu ames de verdade.

Quem sabe um dia o coração sofrido
Por tanto amor, enfim, seja absolvido
E possa então amar com dignidade.

20.8.02

Não contem comigo
Argumento final

Este texto compõe o argumento final da ação que movi junto às minhas entidades de classe contra o autoritarismo e a truculencia das ações de que fui vitima no ultimo dia 13 e cujo relato fiz em outra mensagem para esse blog...

Amigos,
Antes que perguntem, saibam...
Antes que se enganem comigo, conheçam...
Antes que se iludam com meu modo se ser, tomem fé:
Não contem comigo
Quando for para o susto calar a nossa voz,
Quando for para a covardia e o medo determinarem nosso silencio
Ou nos intimidarem diante do nefasto
E nos curvarem diante do erro...
Não contem comigo.
Ahimsa, eu aprendi.
Preparem minha demissão imediata,
Transfiram-me,
Retirem meu nome,
Cassem meus direitos...
Mas não me peçam para ficar calado diante do abuso...
Não me implorem para mudar uma letra sequer da minha palavra...
Não esperem de mim o medo de quem nem é Deus...
Esqueçam...
Não contem comigo...
Antes não tivessem me permitido conhecer Milton, Chico, Gullar, Brecht, Maiakovsky, Castro Alves...
Porque não me deixaram só com Rapunzel, O Gato de Botas, A Bela Adormecida?
Talvez assim eu tivesse mais medo da palavra que se acompanha da bala...
Talvez assim eu me curvasse mais rapidamente diante da estupidez e da força...
Mas alguma coisa deu errado comigo...
Vi, li, aprendi, vivi dias intensos que me impedem hoje de ceder quando ceder é mais fácil...
Ou de morrer de medo do que não tem remédio nem nunca terá...
Amigos...
Não me chamem para acordos com o abuso...
Não me mostrem os conchavos com o medo...
Não me falem sobre segredinhos com a força armada...
Não me digam para temer a lei que não se sustenta em si mesma...
Trago em mim a grande culpa de ser como sou...
Não me peçam para ser de outro modo. Desistam.
Não contem comigo.

14.8.02

A Injustiça Cega
Ontem durante meu plantão médico recebi a visita de duas Assistentes Sociais que me traziam quatro crianças sem queixas para receberem um Atestado Médico de liberação para creche. Tentei sem sucesso explicar que aquele Hospital se destinava ao atendimento de urgencias. Encaminhei as crianças ao atendimento em outra unidade. Duas horas depois uma oficial de justiça acompanhada de tres policiais armados me entregou um documento assinado por um juiz ordenando o atendimento das crianças ou a prisão. Sob ameaça da força, constrangido pelo abuso do poder, atendi as crianças, que não apresentavam problemas.

Não há mérito algum na força armada,
Na coação, no constrangimento.
O mel, quando obtido pela espada
Não presta como alimento.

Não há vitória nem merecimento
Na arma apontada para o coração.
A estupidez é o único argumento
De quem perdeu-se e perdeu a razão.

Por isso não há luz quando a vitória
Inclui a estupidez na sua estória.
A força é o selo da mediocridade.

É o vinho acre que cheira a azedume.
É a natureza morta e sem perfume.
É o elogio à imbecilidade.

13.8.02

O Desafio Poético

O desafio
Da poesia
Não é escreve-la
Com magistreza
Ou com maestria...
Mas é, ao lê-la,
Compreende-la
Em sua multiplicidade
E em sua magia...
A Muralha

I
Era uma construção rochosa, fria,
Um obstáculo à luz do dia.
Inalcançável. Imensa. Inatingível.
Era de uma grandeza incomparável
E de uma complexidade incompreensível.
Era uma construção rochosa, imensa,
Escura, impressionante, enorme, densa,
Assustadora construção rochosa,
Estupida, complexa, pavorosa,
Incompreensivel em sua soberania...
Um obstáculo à luz do dia...

II
A força bruta esmerou-se em derrubá-la
A golpes de ferro, impactos de bala,
A violentos tiros de canhão...
Tentou, a força bruta, sem perdão,
Sem culpa, a força bruta, sem sossêgo,
Sem falha, sem porém, sem dó, sem medo...
A força bruta esmerou-se, sem sucesso...
A imensidão sombria não se abala...
E toda força bruta do Universo
Não foi capaz de vencer A Muralha...

III
E os Poderosos, e os Prepotentes,
E os Chanceleres, e os Presidentes,
E os Principes, e os Reis e os Marechais,
E os Arcebispos, e os Almirantes,
E os Sheiks, e os Xás, e os Comandantes,
E os Prefeitos, e os Generais,
E os Imortais, e os representantes
Dos militares da Alta Patente
Uniram-se em Tribunas Permanentes
E após as preleções mais estridentes
Mostraram-se improváveis, impotentes...
Nenhum poder no mundo foi capaz
De destruir A Muralha. Impressionante.
Um obstáculo à Luz. Desconcertante.
Um obstáculo à Paz.

IV
Nem toda pedra. Todo brilhante,
Toda fortuna, toda riqueza,
Toda Esmeralda, todo Diamante,
Todo dinheiro da natureza,

Tampouco toda gema do garimpo
Ou todo Ouro de Midas,
Ou nem toda riqueza que há no Olimpo
Ou jóias que há nas Arcas escondidas,

Nenhum anel de brilhante...
Nenhum valor mostrou-se suficiente
Para vencer A Muralha

Absoluta, desconcertante,
Permanecia completamente
Intacta, compacta e sem falha...

V
Passava noite,
Passava dia
E A Muralha permanecia...
A Luz do Sol não passava...
O amanhecer não nascia...
Passava noite cinzenta,
Passava nuvem sombria,
E A Muralha,
Feito uma praga quando se espalha,
Sobrevivia...

VI
Foi quando o Amor tocou, suavemente,
A Muralha imponente
De grandiosidade impressionante...
Nesse instante,
Subitamente,
A Muralha cedeu completamente,
E como quem se acaba simplesmente
Ou como quem se vai e vai distante
A Muralha gigante
Estúpida, complexa, impressionante
Quedou-se ao toque suave e transparente
Do amor silente...
E feito um Novo Tempo quando se inicia,
Daquele instante em diante não havia
Obstáculo nenhum à Luz do Dia...




3.8.02

As Fomes
Revisado

Ele tinha fome de boca, fome de mão...
Ela, só fome de coração...
Ele tinha fome de pele, de caricia...
Ela, de ser tratada com delicia...
Ele, de perna, joelho, tornozelo...
Ela, de ser cuidada com desvelo...
Ele era a fome da voz a sussurrar...
Ela, a da delicadeza de um olhar...
Ele era a fome de um lençol de linho...
Ela, a de ser tratada com carinho...
Mas, como suas fomes muito diferentes,
Parecessem, porque fomes, muito iguais,
Eles se deram, com fome, um ao outro,
E se entregaram,
Como se dão, uns aos outros, os casais...
E enquanto ele se contentava
Ela tentava...
Ele gostava, sorria...
Ela arriscava ver se descobria...
Ele se deliciava, se fartava de euforia,
Ela buscava obter o que queria...
Às vezes ela até acreditava...
Às vezes ele quase convencia...
E enquanto ela procurava,
Se dava, se oferecia,
Ele, sozinho, se alimentava
Da fome que ela sentia...
Ate que um dia
As suas fomes mostraram-se evidentes:
A dele, fome de dentes,
A dela, fome de sentir saudades...
A dele, fome de beijos ardentes,
A dela fome de infantilidades...
A dele, a fome do corpo quente,
A dela, a fome de companhia...
A dele, a fome aguardente...
A dela, fome poesia...
Eram fomes diferentes:
Céu e chão,
Pecadores e inocentes,
Sim e não,
Meia noite,
Meio dia,
Quando então,
Eles se compreenderam desiguais...
E desde aí, nunca mais
Quando ele pele, ela vida,
Ele mordida, ela olhar.
Ele querendo comida...
Ela querendo sonhar...
Ele a paixão desmedida...
Ela a vontade de amar...
Ele a voz quase gemida...
Ela a voz quase a cantar...
Nunca mais ele a mordida
Nos sonhos dela sonhar...
Ele era fora, ela, dentro...
Ele o momento, ela mais...
Ela, como o pensamento...
Ele, como os animais...
Ele era o gás, ela a luz,
E desde então, nunca mais...
Porque ela era a fome que o verso não traduz
E ele era a fome fugaz...
E ela pode então viver em paz...
Senha
Revisado

A poesia por companhia...
Musica boa por testemunha...
Ser poeta é meu brinquedo e minha fantasia
E minha alcunha...

A poesia por teimosia...
Musica boa por manha...
Escrever é minha crença, minha cura, minha cria
E única façanha...

A poesia por estrela guia...
Musica boa, de onde quer que venha...
Ser assim é minha sabedoria
E minha senha...

1.8.02

Poema diastólico

E como quem aguarda uma visita
E arruma a casa, e prepara a mesa,
E escolhe o vinho, e recheia o pão,
E escolhe a musica mais bonita,
Também a dástole, com sutileza,
Prepara a espera do coração...
Se eu faço poesia...
Revisado

Se eu faço poesia, penso em nada...
É como escorregar num tobogã...
Então, quando eu percebo, é madrugada...
Eu continuo. É quase de manhã...
Eu trago a poesia bem guardada
Como quem traz guardado um talismã...


Se eu faço poesia eu perco o rumo...
Eu sigo por atalhos e quebradas...
Eu perco a coerencia, esqueço o prumo,
Eu piso firme sem deixar pegadas,
E nesse desacerto é que eu me arrumo
E assim eu passo as minhas madrugadas...

Se eu faço poesia ritimada
E rimo por questão de opinião,
É como olhar a lua prateada
E, olhando, assoviar uma canção...
É como se a palavra preparada
Saisse pronta do coração...

Se eu faço poesia, penso mudo...
É como a fantasia improvisada...
Às vezes o poema é meu escudo...
Às vezes o poema é minha estrada...
Meu cálice de vinho... Meu veludo...
Meu tudo... Meu porque... Meu não... Meu nada...

Por isso é que se eu faço poesia
Diária, intuitiva, ritimada,
É como quem descobre o fio guia,
A senha, a chave, o mote, o abracadabra...
E encontra a própria carta de alforria
E a trilha da caverna abandonada...