13.2.20

A gestão e o dinheiro

O que falta é gestão e não dinheiro,
Mas isso foi antes de ganhar a eleição,
Agora, pra sair desse lameiro,
O problema é ter dinheiro pra gestão.

Reclama do governo passado o tempo inteiro,
Parece um menino mimado e chorão,
Transformou a cidade num pardieiro
Mas a culpa é só dos outros. Dele não. 

Parece mentira que o seu mandato está acabando,
E a cidade continua respirando 
Apesar de tanta coisa fora do lugar,

Era uma vez um prefeito catapora
Que foi prefeito uma vez e foi embora,
Mas dessa vez pra nunca mais voltar.

O trio

Uma nunca prescreveu uma Dipirona,
Outra não faz ideia do que seja a ondansetrona,
E a outra nunca entrou numa emergência,

Uma nunca viu correr um plasma,
Outra, nunca tratou uma crise de asma,
E a outra nunca ouviu falar de multiresistencia,

Uma não sabe o que é penicilina,
Outra não conhece a dose da insulina,
E a outra nunca atendeu um infartado,

Uma não imagina onde fica a veia cava,
Outra nem sabia que existia essa palavra,
E a outra nao tem ideia de como tratar um resfriado,

Uma não sabe como age o antibiótico,
Outra nunca presenciou um surto psicótico,
E a outra nunca viu ninguém morrer,

Uma não sabe o que significa epilepsia,
Outra sequer ouviu falar de disfagia,
E a outra nunca viu um parto acontecer,

Uma nunca tratou de escabiose,
Outra não sabe explicar o que é cirrose,
E a outra nunca ouviu falar de dislalia,

Uma nunca viu uma mielomeningocele,
Outra nunca tratou nenhuma doença de pele,
E a outra não imagina o que seja uma artralgia,

Nenhuma das tres tem pratica ou vivência,
Foram nomeadas, sem nenhuma experiência, 
Para fazerem o que não sabem como fazer

Mas fazem. E, prepotentes, não pedem ajuda,
Por isso que a saúde está um Deus nos acuda.
Quem são elas? Alguém sabe responder?

28.1.20

A lista

São muitos nomes que vão aparecendo,
Que eu deveria, mas não sei quem são,
Que não vi nascerem, não vi crescendo,
Que não pularam carniça comigo também não,

São muitos nomes, e eu vou aprendendo
De quem são netos, sobrinhos ou irmãos,
São muitos nomes, e enquanto eu vou lendo,
Me passa um filme dentro do coração:

Um navio, um Líbano, um Rio de Janeiro,
Um 1920, um século inteiro,
E uma família, geração a geração

Seguindo, e, dessa forma, permanecendo
Família, que mesmo sem se conhecendo,
Segue, a seu modo, na mesma direção...

19.1.20

Conjugando o verbo ter medo

Eu tenho medo 
De ser relotado,
De perder o emprego,
De ficar sem receber,
De ser perseguido,
De ser processado,
De não saber como fazer se eu perder,
Tu tens medo 
Porque, como eu,
És concursado
E precisas do salário pra viver,
Porque uma coisa é escrever no Whatsapp 
Outra coisa é fazer greve:
Pode doer.
Ele tem medo
Porque é mimado,
Porque pensa que pode tudo 
E que a cidade vive conforme seu bel prazer,
Porque é prefeito
E quer ser reeleito,
E a gente pode fazer ele não ser.
Nós temos medo 
Porque somos humanos,
Temos família,
Mulher,
Marido,
Filhos a crescer,
E compromissos,
Contas a pagar,
E um juramento do qual não podemos nos esquecer.
Vós tem medo
Porque, como nós, sabeis 
Como é dificil o mundo das leis:
No pain, no gain,
E vós ireis sofrer,
Mas eles tem medo
Porque lá no fundo 
Sabem que querem, mas não são os donos do mundo,
E nossa verdade faz o coração deles tremer.
Eles têm medo porque são covardes 
E porque sabem que não vão vencer
Porque com "todos os tristes 
Querendo juntos,
toda tristeza vai desaparecer"

12.1.20

Afinação

Como eu posso discordar 
Do que quer essa mulher:
Se quer ir, se quer voltar,
Ou se não sabe o que quer,

Se é ela meu esteio,
Se mora em meu coração, 
Razão pra tudo que eu creio 
Se ela é minha inspiração?

Como eu posso me meter
Nas decisões que ela faz:
Quer vender? Não quer vender?
Queria, mas não quer mais?

Quer ou não quer ir a praia?
Quer coca ou quer guaraná?
Quer que sandália? Que saia?
Tão cedo e já quer voltar?

Que direitos eu teria
Se ela sempre me apoiou,
Cuidou da minha alegria,
Minha tristeza assustou, 

Me alimentou, me vestiu, 
Me divertiu, me ensinou, 
Nas crises, me distraiu,
Nas perdas me sustentou?

Como eu posso ir contra ela
Que nunca foi contra mim?
Como, se ela é tão bela?
Como, se eu sou tão ruim?

Como não estar do seu lado 
Seja de que lado for,
Seja um bife mal passado,
Seja um remédio pra dor,

Se não quer se vacinar,
Nem ir ao aniversário,
Se prefere se calar,
Se conta tudo ao contrário,

Não me importa, que assim seja
Quando ela diz, eu aceito, 
Ela é a luz da minha igreja,
Meu modelo mais perfeito,

To nem ai pro que pensam,
Pro que acham que ela é, 
Minha mãe é minha bênção,
Meu exemplo de mulher,

É #lulalivre? Perfeito. 
Apoio o que ela pedir.
A mãe que me deu o peito 
Que me deixou existir

É a mãe que me trouxe à vida 
Me mostrou a direção 
Enfrentou a dor comprida 
Nunca soltou minha mão 

Então ela que decida
E saibam vou concordar 
Não existe outra saída 
Não adianta tentar 

Se ela pede, não importa, 
Torno minha obrigação 
Minha viagem sem volta 
Minha mão sem contramão 

Não há como não fazer
Cada coisa que ela pede
Se ela sempre foi ceder
Carinho que não se mede

Sacrifício sem medida 
Sofrer que não faz sofrer 
Dor que é sempre convertida 
Em fé, como deve ser

Então como posso, diga,
Contestar se ela é diz não?
Se ela é dona da minha vida
E é dela meu coração?

25.12.19

Mãezinha, tu sabias?

Livre adaptação do poema "Mary, did you know?" de Mark Lowry, dedicado aqui às mães de UTI do mundo inteiro

Mãezinha, tu sabias
Que o teu bebê venceria tantas lutas?
Será que tu sabias
Que ele modificaria tantas vidas?
Tu sabias que o teu bebê
Traria no coração a força de um gigante
E que o filho a quem tu deste à luz
Te faria uma mulher tão imensamente forte?
Mãezinha, tu sabias
Que o teu bebê inspiraria o dia a dia de tantas pessoas?
Será que tu sabias
Que o teu bebê veio ao mundo
Para fortalecer teu coração,
E que ao beijar teu bebezinho
Tu beijavas a quem Jesus chamou "a luz do mundo "?
Mãezinha, tu sabias?
Acaso tu sabias?
Será que tu sabias?
A ciência um dia compreenderá
Que o teu colo cuidará
E que nenhum poder irá se comparar
Ao poder do teu abraço,
Mãezinha, tu sabias
Que é teu bebê quem nos dá lições diariamente?
Acaso tu sabias
Que é ele o verdadeiro herdeiro do amanhã,
Que o teu filho é a imagem e semelhança de nosso Pai que está no céu,
E que que a criança em teus braços é uma grande promessa de amor para nosso planeta?
Mãezinha, tu sabias?
Acaso tu sabias?
Será que tu sabias?

29.10.19

Medicina baseada no que tem

Se tem Dipirona faz, e se não tem
Dá um banho de água fria demorado,
Levanta o travesseiro, faz um bem
Se o oxigênio tiver terminado,

No corredor sempre cabe mais alguém
Quando o repouso já está lotado,
A tomo já marcou pro ano que vem
Quando ele não vai mais precisar ser operado,

É a medicina baseada no que tem:
Se tem bem, e se não tem, amém,
Não sai curado mas sai remendado,

É a medicina da terra brasilis:
Em vez de uma Hillux, uma Rural Willis,
É o país pobre cuidando do esfarrapado.

27.10.19

Desgoverno

Esse governo precisa ser estudado,
Esse governo precisa ser demitido,
Esse governo precisa ser boicotado,
Esse governo precisa ser proibido,

Esse governo precisa ser deportado,
Esse governo precisa de ser impedido,
Esse governo precisa ser condenado,
Esse governo precisa ser destituído,

Esse governo precisa ser desligado,
Esse governo precisa ser bloqueado,
Esse governo precisa ser esquecido,

Esse governo precisa ser enterrado,
Esse governo precisa ser acusado,
Esse governo precisa ser dissolvido...

20.10.19

O fim

Mas isso é trágico, querida poetisa
Um grande amor não vai morrer assim
Às vezes a única coisa de que ele precisa 
É de um soneto prevendo seu fim

Terminar é trágico demais quando se avisa
Um grande amor não pode ser tão ruim 
Às vezes é assim mesmo, desestabiliza
Depois volta ao normal. E diz que sim

Na verdade nem sei se isso é verdade 
Se um grande amor existe na realidade 
Ou se é só coisa própria da poesia 

Mas se for só por poesia, imaginada 
Que lave a alma da pessoa amada
E sobreviva, por teimosia

20.9.19

João

Impressionante o que o João faz com o violão,
Que nas mãos de João parece outro instrumento,
E a voz de João, conversando com sua mão,
Faz a música brotar outra música por dentro...

João não precisa de usar diapasão
Porque a alma de João é feita de afinamento
Impressionante, não tem explicação,
João e o violão... que casamento ...

Nada sai da forma que a gente esperava escutar,
João muda tudo quando começa a cantar,
João refaz o samba do seu jeito,

Eu nunca ouvi ninguém tocar violão assim,
Só mente quando diz que tristeza não tem fim,
João, como se fosse um sinônimo de perfeito.

12.9.19

Todo mundo precisa de saude

Todo mundo precisa de saude:
Tem gente que precisa de uma cirurgia,
Tem gente que precisa de uma nebulização,
Tem gente que precisa de fisioterapia,
Tem gente que precisa de antibióticoterapia, Tem gente que precisa de vacinação,

Mas todo mundo precisa de saude,
Ninguém precisa de uma ambulância estragada, Ninguém precisa de uma farmácia vazia, Ninguém precisa de uma cadeira quebrada, Ninguém precisa de uma emergência lotada, Ninguém precisa de falta de assepsia,

E porque todo mundo precisa de saude,
Cabe ao governo cuidar da nossa gente,
Mais atitude, menos falação
Porque uma cidade tão doente,
Precisa de uma solução urgentemente,
E alguém tem que aprender essa lição:

Todo mundo precisa de saude
Porque a saúde de um povo é seu direito, Ninguém precisa de passar humilhação,
Todo mundo precisa de respeito,
Não ser tratado de qualquer jeito,
E é bom que seja sempre assim, senão...

Reflexão

A gente era feliz e não sabia, E reclamava de barriga cheia, Um tipo feliz que achava que sofria, Uma cidade bonita que se achava feia, E a vida foi seguindo até o dia Em que a sombra, numa reação em cadeia, Foi sequestrando nossa alegria Como um veneno injetado em nossa veia... A gente era feliz, e agora tenta Reagir, porque ninguém mais aguenta, Respirar, pra tentar sobreviver, E quando um dia a sombra tiver passado, Vai ser preciso tomar muito cuidado: A sombra não sabe perder... Vai ser preciso a força dos gigantes Pra gente voltar a ser feliz como antes Sem ter motivos pra se arrepender...

6.9.19

Querido professor

Querido professor

Ao professor Hector Gomez Martinez 

Querido professor de alma serena,
De olhar atento e humano sobre a vida,
Recebe nosso abraço nesse poema,
Uma homenagem, ainda que pequena
Escrita de palavra agradecida,

Muito obrigado pelas lições diárias
Que sua metodologia nos ensina,
Alimentando nossas teses sedentárias 
Com novas conclusões extraordinárias 
De amor, calor e pura ocitocina.

Agradecemos, querido professor,
Por essa guinada da neonatologia,
Que passou a ver o colo como fonte de calor,
Tratar a mãe como um manancial de amor, 
E o leite materno como a grande garantia.

A sua história, a de um desbravador,
É o retrato fiel de um visionário 
Que não cedeu ao inquisidor,
Que não negociou com o impostor,
Que não esmoreceu, pelo contrário,

Desarmou resistências discordantes,
Trazendo luz aos clássicos tratados,
Tornando a vida melhor do que era antes,
Modificando o significado de gigantes,
E brindando a vida com novos significados.

Obrigado professor, por sua coerência,
Pela não cooperação com a coisa errada,
Desafiando com coragem e competência 
A incompetência engessada da ciência,
Que nunca mais foi a mesma,  envergonhada,

Por seu legado para a espécie humana,
Pela força incansável do seu coração,
Obrigado, professor, pela sua gana,
Pela  sua sabedoria soberana, 
E por nunca ter cedido na sua convicção,

Querido professor, iluminado,
Que se tornou nossa fonte de inspiração,
Professor Hector, nosso homenageado,
Professor Hector, muito obrigado
Por sua história de amor, nossa lição...

3.9.19

Medicina baseada no que tem

Se tem Dipirona faz, e se não tem
Dá um banho de água fria demorado,
Levanta o travesseiro, faz um bem
Se o oxigênio tiver terminado,

No corredor sempre cabe mais alguém
Quando o repouso já está lotado,
A tomo já marcou pro ano que vem
Quando ele não vai mais precisar ser operado,

É a medicina baseada no que tem:
Se tem bem, e se não tem, amém,
Não sai curado mas sai remendado,

É a medicina da terra brasilis:
Em vez de uma hillux uma rural willis,
É o país pobre cuidando do esfarrapado.

Campos, formosa

Campos, formosa, cidade iluminada,
Mas com sua saúde sucateada...
Tão sem dinheiro, tão dadivosa,
Acorda, minha cidade preguiçosa,
Formosa, mas que vai sendo tapeada

Cidade feita de luz e madrigais,
E de gente abarrotando seus hospitais
Oh, Paraíba, oh, mágica torrente,
Porque maltratam tanto a sua gente
E a cada dia uma maldade a mais?

Nada se iguala a seus dons e seus primores,
O que ainda falta é acordar os seus gestores
Pra que seus passos, como os de um rei do Oriente,
Não sejam os de um povo pobre e doente
Que agoniza em hospitais, nos corredores.

Campos, formosa, pérola querida,
Predileta do luar, acorda pra vida
Clama por sua gente, val de delicias,
Que espera ansiosa por boas notícias
Como quem espera uma felicidade prometida...

13.8.19

A biometria


Que biometria é o problema que nada
O problema é o teto do hospital desabando
O problema é a cadeira da mesa enferrujada
O problema é o chuveiro que não está esquentando

Biometria um problema? Que piada.
A gente vive mesmo trabalhando.
Dizer que a gente é contra biometria é coisa armada
Porque a nossa luta está incomodando

Porque o que a gente quer é mais respeito
É trabalhar o que a gente sabe, é trabalhar direito
É não ser tratado como o grande culpado.

Que biometria que nada. Dignidade.
O que a gente quer é trabalhar com qualidade.
Dizer que o problema é a biometria tá errado.


28.7.19

As redes

Bastante cansado dessas redes sociais,
Dessa necessidade de postar
As coisas diárias que a gente faz
Como se só as fizesse pra mostrar,

Como se não houvesse nada mais,
Como se a vida fosse compartilhar
O amor, a solidão, a hipocrisia e a paz,
As redes sociais... deu pra cansar...

E vou pro meu cantinho reservado
Como um marzinho nunca dantes navegado
E fico ali sem ninguém me perceber

E nesse silêncio aparentemente solitário
Eu vivo meu planeta imaginário
Que não precisa de flashes pra viver

As sete camadas

Sete camadas, ordenadamente,
Guardando o bebê como quem guarda um diamante,
E que se integram perfeitamente,
Fisiologia absolutamente impressionante,

Sete camadas, até que o bisturi, de repente,
Invade uma a uma através do corpo da gestante,
O bisturi, como um poder onipotente,
Atravessando tudo quanto encontra adiante,

Sete camadas, mas que quase ninguém nota
E que protegem o bebê como uma escolta,
E sabem, cada uma delas, o que fazer...

Sete camadas essenciais, tão esquecidas
Mas sempre atentas e bem resolvidas,
As sete cascas do bebê que vai nascer...