5.5.21

Saudades


Uma cidade chamada Saudades,
Uma dor de nunca mais a gente se esquecer,
Sangue inocente jorrando, mãos covardes,
Uma cidade inteira sem entender,

Três pequeninos sem culpas, sem maldades,
Duas professoras tentando proteger,
Um dia para ficar na eternidade,
Um dia que era para nunca acontecer,

Chora Saudades sua dor dilacerada,
Chora Saudades e não quer ser consolada,
Chora Saudades sua dor que não tem paz,

Chora Saudades seus mortos sem pecados,
Chora Saudades seus filhos assassinados,
Chora seus olhos para nunca mais...

Paulo Gustavo


Terá, no fim de tudo algum significado
Partir do mundo assim, banhado em dor?
Esperança... E no fim: a morte! Que pecado!
É sem sentido. É cruel. Devastador.

Tanta oração a Deus sem resultado.
Tanta suplica empenhada com fervor.
A cura! A cura! E no fim tudo é negado.
Tudo. Menos o seu ultimo estertor... 

Mas, uma voz da luz dos grandes mundos,
Em conceitos sublimes e profundos,
Respondeu-me em acentos colossais:

— “Verme que volves dos esterquilínios,
Cessa a miséria de teus raciocínios,
Não insultes as leis universais.”

Os dos tercetos finais do soneto são do soneto A LEI de Augusto dos Anjos , psicografados por Francisco Candido Xavier no Parnaso de Além Tumulo.

Ao ator Paulo Gustavo, com carinho.

3.5.21

Por tras de toda dor existe dor


A displicência esconde sofrimento,
A falta de cuidado, inquietação, 
O coração que não sara seu sangramento 
Não cuida bem de um outro coração, 

Não é uma decisão, é um desabamento,
O caminho de quem já não domina outra opção,
O sofrimento por trás de um comportamento,
A negligência, e por trás, a autodestruição,

Por trás de toda dor, por mais violenta,
Há uma outra dor de quem não se sustenta 
E não percebe o tamanho da própria dor,

Por trás de toda dor, por mais cruenta,
Há uma outra dor que não se aguenta,
E um coração que nem se percebe sofredor

2.5.21

Sala de parto


Quatro da manhã. Um nascimento. 
O parto normal está virando rotina. 
Cercado da família, esse momento 
É um banho de segurança e ocitocina.

Quatro da manhã. Chora o rebento. 
Toma a primeira dose de vitamina. 
Minutos depois, já tira o seu sustento
Do seio materno. Coisa mais fina.

E dai em diante é só tomar cuidado. 
Viver é evitar o rumo errado
E não apressar o rio, porque ele corre sozinho...

Quatro da manhã. Domingo frio. 
Eu não me esqueço: não apresse o rio,
E vou colhendo amor pelo caminho.

1.5.21

Primeiro de maio


Trabalhador, o primeiro a ser chamado,
E também o primeiro a ser esquecido,
Sempre o primeiro a ser encaminhado, 
Estranhamente o último a ser reconhecido,
Sempre o primeiro, quando tudo dá errado,
A ser culpado e também a ser punido,
A ver seu salario, que deveria ser sagrado,
Ser bloqueado, ser reduzido,
Ou a ter seu dia de pagamento adiado,
Como se isso fosse permitido,
Trabalhador,
O primeiro a ser listado,
E o ultimo da lista a ser ouvido, 
Porque o último a ser valorizado, 
Embora seja o mais comprometido,
O primeiro, quando o patrão está quebrado, 
A ser avisado que está despedido,
O primeiro a ficar desesperado 
Enquanto o patrão segue em frente, garantido,
Trabalhador, 
O primeiro a ser enganado,
O primeiro na conta a ser subtraído,
Sempre o primeiro a ser sacrificado,
Sempre o primeiro a ser substituído,
Como se fosse um pacote no mercado,
Um contratado só pra ser demitido,
E quando o lucro da empresa tiver multiplicado,
É o primeiro no papel do ilustre desconhecido.
Primeiro de maio. Trabalhador comemorado,
Mas a essa altura, quase nenhum iludido,
Porque o que o trabalhador precisa é ser vacinado,
E ser bem remunerado, e ser ouvido,
E não de flores para ser homenageado,
E nem de churrascos para ser iludido,
Precisa é de um ambiente de trabalho bem cuidado,
E de um plano de cargos reconhecido,
De um calendário de pagamento aprovado, 
Com reajuste real e merecido, 
Trabalhador precisa ser bem tratado,
Não é só servir bem, precisa ser bem servido,
Porque seu coração já está esgotado,
E não aguenta mais no seu ouvido 
Promessas de patrão mal intencionado,
Papinhos de político fingido, 
Projetos de um futuro do passado 
Sobre coisas que já deveriam ter acontecido,
Porque na hora em que o desafio é apresentado,
E nessa hora é preciso um esforço desmedido, 
O trabalhador é o primeiro a ser chamado,
O primeiro a ser escolhido, 
O primeiro imediatamente a ser escalado,
Mas o último a ser verdadeiramente reconhecido. 
Trabalhador, trabalhador, muito obrigado,
Recebe esse poema agradecido,
E lembre-se: trabalhador unido, como está gravado,
Jamais e em tempo nenhum será vencido. 

30.4.21

A minha irmã morte


Ela me observa pela minha vida inteira,
Se aproxima e se vai logo em seguida,
É minha irmã, mas como gata borralheira,
Nunca se mostra, vive escondida...

De vez em quando me toca, sorrateira,
Sorri, mas ao ver que não é correspondida,
Afasta-se de mim, de tal maneira 
Que eu volto à minha vida distraída...

Porém a minha irmã morte, eu sei que um dia
Vai precisar da minha companhia, 
Porque nós somos filhos da mesma criação,

E nesse dia, em seu abraço derradeiro,
Ela me dirá, de modo desinteresseiro:
Fica comigo, eu te amo, meu irmão...

Os escotomas

Ah, essas luzinhas malditas que me cegam,
Que chegam antes da dor aparecer, 
Que vem do nada e de repente me pegam,
E brilham ao notar que vou sofrer.

Escotomas. Só eu enxergo. Os outros não enxergam,
Por isso ficam sem entender.
Eu tento, mas os meus gestos não negam:
Alguma coisa de mal vai acontecer.

Dai eles passam. Em minutos vão embora.
E antes que eu comemore, chega a hora
Da dor de cabeça, inimiga insuportável...

Lá se vão 40 anos com essas crises...
_Tem cura doutor?  O que me dizes? 
_Pergunta difici não. Seja razoável.


Kkkkk

27.4.21

A alegria empática


Não é a minha alegria. Nem é a sua alegria. 
Não fui eu e tampouco foi você quem a recebeu. 
Porque se você ficar feliz me faz ganhar meu dia,
Então seu coração feliz torna feliz o meu.

É como uma conexão que nos recria
E a gente não percebe como aconteceu. 
Alegria empática. Não a teoria. 
A prática. O que torna um só você e eu.

E a partir dai, alegrias misturadas,
Como se estivessem, de alguma forma, costuradas,
Geram mais luz aliadas que sozinhas,

Alegria empática. Esta na literatura. 
Mas ao vivo e à cores tem muito mais belezura
E mais poesia que essas pobres linhas

🌹

O medo


Bom dia. Mas eu vou logo avisando:
Às vezes o dia não sai como planejado,
A única saída é ir tentando,
E assim, tentar não ficar apavorado,

Afinal de contas, não é se apavorando 
Que o dia se torna menos complicado.
Respira fundo. Vai se conectando.
E escuta seu coração, seu aliado. 

É nessa hora que o coração vai se mostrando,
E ai convém fazer silêncio sempre quando 
O coração tiver sido convocado...

E na medida em que o dia vai passando,
Você aprende, simplesmente caminhando,
Que o medo não precisa deixar você paralisado.

25.4.21

Mãe


Mãe não tem limite. É tempo sem hora.
Tem mais poesia que Drummond e que Bandeira,
Carinho de mãe? Quem é que não adora?
Quem é que não quer ter pra vida inteira? 

Que outra palavra existe mais sonora,
Capaz de deixar o coração dessa maneira? 
Porque perto dela tudo melhora? 
Por que é que ela encara qualquer tranqueira?

Quando Deus criou o mundo em sete dias,
Mandou as mães para serem nossos guias,
E deu a elas, como missão,

Amar de um amor com toda intensidade,
Viver para sempre, por toda a eternidade,
E morar dentro do nosso coração.

A sala de parto

4 da manhã. Cesariana. 
Quem dormiu, dormiu. Quem não dormiu não dorme mais.
Madrugada. Domingo. Fim de semana. 
Mas pra quem está de sobreaviso, tanto faz.

4 da manhã. O hospital chama. 
Tomo um cafezinho e vou atrás. 
Sou o primeiro a chegar. O coração nem reclama. 
Com o tempo, qualquer prazer já satisfaz.

O tempo passa. A equipe vai chegando. 
O pai, assustado, me conta, quase chorando,
Que o seu primeiro filho daqui a pouquinho vai nascer...

6 da manhã agora, de volta pra minha cama,
Rabisco esse poema, de pijama,
Enquanto observo o dia amanhecer...

Bom dia...

22.4.21

O sono

Meu sono viajou. Foi pro Japão. 
Mas talvez tenha ido pro Pará. 
Fez as malas. Pegou o primeiro avião 
E avisou que não ia mais voltar 

Deixou pra mim de presente a televisão 
E alguns comprimidinhos pra eu tomar,
Mas ele sabia que não era solução,
Sabia e preferiu não me contar...

De vez em quando eu lembro do meu sono
Que foi morar nos braços de outro dono 
E me deixou nessa melancolia,

Mas graças a Deus ainda existe o vinho,
E alguns amigos bons pelo caminho,
Mas graças a Deus existe a poesia...

Alberto Mussa

Parece que sou eu, mas não sou eu,
É um primo meu, e isso é muito divertido:
Alberto foi o nome que o meu pai me deu
Quando meu primo não tinha nem nascido,

Daí, depois, quando meu primo nasceu,
Não sei por que motivo isso teria acontecido,
Seus pais lhe deram um nome igual ao meu,
Aliás, igual não, só muito parecido,

E foi assim que tudo aconteceu,
Nenhuma das duas famílias recorreu,
E o Alberto Mussa pros dois foi decidido. 

Passou o tempo. A gente cresceu. 
E cada um carregou consigo o Alberto seu,
Espero que todos tenham compreendido...

19.4.21

O meu poema

Um pouco falar, um pouco ser escutado,
Um pouco escrevê-lo sem ser interrompido,
Ou ser interrompido sem ser prejudicado,
Ou ser prejudicado pra depois fortalecido,

Um pouco mostrá-lo, um pouco deixá-lo guardado,
Um pouco depois saber que foi distribuído,
Um pouco para ser perdido, um pouco para ser plantado,
Um pouco para ser lembrado, outro para ser esquecido,

O meu poema, sempre um significado,
Pedacinho que mostro do que há em mim sagrado,
Lugares em que eu nunca imaginei ter ido,

Mas eis que quando o poema está gravado,
Eu fico imaginando: de onde foi tirado?
E nenhuma resposta, pra mim, me faz sentido...

13.4.21

Hoje contém esperança

O dia de hoje contém esperança 
Porque nele tudo pode acontecer:
Amar e pedir perdão e, na mesma dança,
O sol nascer, e em seguida se esconder,

Unidos, numa legítima aliança,
A dor e o alivio quando a dor doer,
Por isso contém esperança: se o mal avança 
O bem sabe bem como nos defender.

Contém esperança os dias nublados,
Quando os dias de sol ficam guardados
Porque a natureza sabe economizar... 

Hoje contém esperança, use a vontade,
Como um escudo contra o frio e a insanidade,
Como um tesouro que cabe em qualquer lugar...

11.4.21

Comunhão

Dividir é quase o mesmo que somar,
Doar é um dos sinônimos de receber,
Receber tem o mesmo sentido de entregar,
E guardar é quase a mesms coisa que não ter,

Viver é bom quando a palavra compartilhar 
É dita mais vezes do que a palavra reter,
Porque o melhor do rio é se dar ao mar 
E o mar se dar às ondas com prazer...

As mãos abertas, durante a jornada,
São a possibilidade da semente ser semeada,
E ao mesmo tempo a chance de colher o pão,

As mãos fechadas não semeiam nada,
Fazem perder o melhor da caminhada,
E o que há de bom na vida em comunhão

10.4.21

O chaveiro

Algumas portas muito bem trancadas,
Outras empoeiradas, esquecidas,
Umas com fechaduras enferrujadas,
Outras com dobradiças enrijecidas,

Portas estrategicamente localizadas
Em corredores e áreas proibidas,
Bem escondidas e mal iluminadas,
Portas fechadas, obstruidas,

Então a compaixão, como um chaveiro,
Como quem desmantela um cativeiro,
Permite que elas se abram, sem doer,

A compaixão, mostrando suas chaves,
Abrindo portas, desfazendo traves,
A compaixão mostrando seu poder...

9.4.21

As notícias difíceis

Aa notícias difíceis só são noticias difíceis
Porque são noticias complicadas de se dar,
Como uma carta escrita em letras ilegíveis
Que a gente precisa entender e entregar...

Notícias difíceis de efeitos irreversíveis,
Não há como ler para depois apagar,
Noticias difíceis, porque os caminhos não são fáceis,
Nem fácil é o jeito de caminhar...

Noticias difíceis, mas porque necessárias,
É necessário compreender as várias
Formas de transmiti-las com leveza...

Noticias difíceis, como são os enigmas,
Notícias difíceis, como são os estigmas,
Um exercício improvável de delicadeza...

5.4.21

A cidade asfixiada

Hoje minha cidade deveria estar parada
E o virus impedido de ter por onde andar,
Aqui ninguém, naquela esquina nada,
Porque ninguém mais pode se contaminar,

O médico está cansado, a UTI lotada,
E a enfermeira com vontade de chorar,
Pára, cidade, sua saude está quebrada,
Seu oxigênio já começa a escassear...

Silencio, cidade. Mais de trezentos mil mortos.
Não há sepultura para tantos corpos.
A esperança precisa dar um jeito de voltar,

Porque hoje, minha cidade asfixiada,
Ou você para, ou acaba sepultada,
Não há nenhuma outra forma de escapar...

28.3.21

As fotografias

Eu precisava tanto
Ver as fotografias
Das UTIs vazias 
E dos vários monitores ociosos,
Dos medicos e enfermeiros não fazendo nada,
Da maca desocupada,
Da maleta de reanimação fechada,
E das cadeiras sobrando na recepção,
Eu precisava tanto
Ver as fotografias
Das balas de oxigênio ainda lacradas,
Das quipes nas emergências contando piadas,
E das bombas infusoras desligadas por ninguém precisar de bombas de infusão,
Ampolas de pancuronio engavetadas
E faceshields descansando no balcão,
Ver funerárias de portas cerradas,
Precisava ver gentes sorrindo
E contando seus causos de recuperação...
Eu precisava tanto ver fotografias
Que desmentissem as notícias que passam na televisão,
Ver ambulâncias paradas nas garagens,
E não em remoções de vida ou morte,
Cortando caminho pela contramão...
Brava gente brasileira,
Queridissimos irmãos,
Obedeçam as ordens do chefe da nação:
Invadam postos e hospitais vazios,
E mostrem para mim médicos sadios
E de braços cruzados,
Porque eu quero ver leitos desocupados,
E preciso muito acreditar nessa versão:
É tudo mentira,
Coisa de jornalista esquerdinha e traira
Pra meter medo na população...
Não deixem que eles continuem espalhando isso não,
Enviem fotos
De nossa pátria amada,
Idolatrada,
E bem cuidada,
Mostrem pra mim que não está acontecendo nada,
Porque eu preciso ter certeza de que tudo isso não passa de invenção,
Deixem o número de óbitos pros pessimistas,
Sejamos imperialistas,
Sigamos o exemplo do capitão,
Contem pra mim que essa dor nunca existiu,
São fantasias
De alguns filhos desvairados
De seu solo, oh, mãe gentil,
Patria amada,
Brasil,
Por isso eu precisava muito ver essas fotografias,
Mostrem pra mim,
Porque já não cabe tanto medo
E tanta dor
No que restou
Do meu cansado coração...

23.3.21

A balada

Na balada sempre cabe mais um. Na UTI não. 
O som que rola na UTI é diferente:
Na balada, o som que agrada é o batidão,
Na UTI é o respirador que embala a gente. 

Na balada tem sempre lugar prum valentão, 
Na UTI é bem mais difícil ser valente:
Aminas, cateteres, intubação,
A morte gritando bem ali na sua frente...

É muito bom passar a noite na balada,
Mas lembre-se de que prudência desprezada
É uma armadilha de onde é difícil escapar,

Então, se você quer fugir dessa ratoeira,
Apascenta essa sua alma baladeira, 
E espera em casa o temporal passar...

22.3.21

A minha cidade

Minha cidade amanheceu fechada,
Decretos limitando a circulação,
Capacidade de atendimento nos hospitais saturada,
Fila de espera por internação,

Cidade adoecida, circulação limitada 
Tentando retardadar a disseminação 
De um mal que não poupa nem ninguém nem nada,
Como um pecado para o qual não há perdão,

E aqui em Campos, exatamente como na China, 
Enquanto não fartarem-se as vacinas,
Vai ser desse jeito, é a única solução:

Ou aceitamos essa medida dura,
Ou nos tornamos uma imensa sepultura
E implodimos nossa geração...

19.3.21

O Rio de Janeiro

Fecharam as praias do Rio de Janeiro,
A orla mais linda do planeta está parada,
Antes que o Rio inteiro se torne um covideiro,
E a praia de Copacabana não sirva mais pra nada...

Um Rio sem praias, sinal de desespero,
Ipanema com a sua beira mar abandonada,
A morte tocando o terror no rio inteiro:
Fecharam a praia pra salvar a moçada...

Tempos difíceis, decisões difíceis,
Como se estivéssemos caminhando entre mísseis
Prestes a detonar...

Fecharam as praias do Rio, que pecado,
Pra ver se o Rio fechado
Ainda tem chance de se salvar...

16.3.21

O Ministro da Saúde

Estou aqui para dar continuidade,
Seguir fazendo o que meu antecessor fazia:
Aumentar os índices de mortalidade, 
Fazer pouco caso da pandemia...

Quem manda é o presidente. Essa é a verdade.
Eu ocupo um cargo de fantasia. 
O mestre manda e eu faço. Questão de fidelidade. 
Eu tenho o currículo imenso e a alma vazia.

Agora que me tornei Ministro da Saúde,
Minha única esperança é que Deus nos ajude,
Porque eu não vou fazer nada pra ajudar...

Eu sou Ministro, mas pode me chamar de fantoche,
Eu sou Ministro, mas pode acreditar que é deboche,
Esse desastre está longe de acabar...

Tudo errado

"O Brasil está fazendo tudo errado"
Um presidente e seu governo devastador, 
Um capitão arrogante e equivocado
Guiando um pais mergulhado em dor...

E tudo feito de modo atrapalhado,
Na contramão do planeta, e sem pudor,
Escapar dessa vai ser complicado 
Tendo na presidência esse senhor...

E a cada número novo de mortos anunciado,
Ao invés de mover-se pra outro lado,
O presidente toca o terror:

"Parem de mimimi",  diz o abestado, 
Enquanto o pais vai sendo dizimado.
Um ogro imbecil. Sem tirar nem por.

14.3.21

Poema para Ana

Quem é que faz do domingo um dia de graça,
Transformando o domingo num dia acolhedor,
E de uma alegria que nunca passa,
E de um encantamento encantador?

E não importa o tempo ruim, a ameaça,
O desespero, a insensatez, a dor,
Ana aos domingos é o melhor da raça 
Humana. Ler Ana aos domingos é libertador. 

Ana Claudia que é Quintana, como o poeta,
Possui, com Deus, uma conexão direta,
Por isso esse seu dom que é de acalmar,

Eu tenho pra mim uma coisa como certa:
Lá do céu, vovó, feliz com sua neta,
Guarda os domingos para vir lhe visitar...

O silencio

Tem dias em que é melhor ficar calado
Do que seguir falando por falar:
Palavra é como um bem quase sagrado
Que não se pode desperdiçar...

Falar, às vezes, é um gesto exagerado
Nesses dias, quando o coração quer se calar,
O silencio quase sempre é menos complicado,
E bem mais fácil de se pronunciar,

Até que um dia chega o tempo apropriado,
E a palavra, que parecia ter se abandonado,
Volta, provando que continua a respirar,

E tudo segue no seu tempo, bem alinhado,
A palavra e o silencio, lado a lado,
Pra nós, de resto, só nos resta respeitar...

10.3.21

Grupo de cuidados paliativos

Gente linda, onde é que vocês estavam?
Porque demoraram tanto a aparecer? 
Eu chamava, vocês não escutavam? 
Eram vocês que eu queria conhecer,

Eu já tinha ouvido falar do que vocês falavam, 
Mas confesso que nunca parei para entender,
A vida passava, os dias passavam,
E um dia finalmente eu pude ver 

Que os meus conhecimentos me cegavam,
Que meus medicamentos não cuidavam,
Que eu nunca aprendi o significado de sofrer,

Mas os dias são como as águas quando lavam
As sujidades e os trastes que nos travam,
E finalmente nos permitem ver o sol nascer...

8.3.21

Dia internacional das mulheres

São tão únicas e tão numerosas,
Que eu nem sei por onde começar:
Pelas inspiradoras, pelas corajosas
Ou pelas com as quais adoro trabalhar?

Pelas carentes, pelas vaidosas,
Pelas que me fizeram um dia despertar? 
Pelas que transbordam poesias e prosas? 
Por aquelas com o coração maior que o mar?

E hoje é o dia delas estarem orgulhosas:
O mundo não seria tão lindo sem as rosas
Que cada uma delas sabe representar,

Umas mais tímidas, outras mais perigosas,
Mas todas absolutamente maravilhosas,
Difíceis de compreender, fáceis de amar...

7.3.21

Madrugada

Madrugada de domingo. Eu, acordado,
Imaginando um poeminha pra escrever,
E dou de cara com algum verso improvisado 
Que nem sei se alguém vai parar pra ler,

Um poeminha sem significado 
Na madrugada quando não sei o que fazer,
É como ter um deslise perdoado,
Achar uma moeda que acabou de perder,

Um poeminha domingueiro, sem sentido,
Horas assim, me sinto meio perdido,
E um poeminha é meu jeito de encontrar 

Se não o tesouro, o mapa do caminho 
Que eu sei que vou precisar seguir sozinho,
Mas tendo com quem conversar...

21.2.21

Domingo

Porque hoje é domingo, uma poesia,
Porque domingo as rimas gostam de brincar,
Vivem seu mundo de gostosa fantasia
Criando sonetos pra gente desenhar,

Porque hoje é domingo, hoje é dia
De falar mesmo sem ter o que falar,
Como numa embolada, ou numa cantoria,
Como num partido alto na roda de improvisar,

Porque hoje é domingo, me perdoem,
E se perdoem, e, se puderem, voem,
Porque domingo é um belo dia pra voar,

Porque hoje é domingo, descontraia,
Como disse Gilberto Gil, a fé não faia,
Porque a Lei de Deus não costuma descansar...

19.2.21

Aposta errada

Quem apostou no fim da baixaria 
Ja descobriu que apostou errado,
É um mar de lixo que nunca se esvazia,
Cumprindo exatamente o que foi pregado:

Um discurso de odio, de causar azia,
Uma prepotência de deixar o estômago embrulhado,
Negativismo, terraplanismo, e, quem diria,
Um extremismo que deixa o pais isolado,

Quem apostou que o mal submergia,
Bastou viver o dia a dia da pandemia 
Pra perceber que um país foi sepultado,

Um país de brava gente, que ironia,
Que vai morrendo a cada grosseria,
E que vai sendo a cada dia assassinado...

10.2.21

Poesia compassiva

Poemas compassivos para almas necessitadas,
Palavra usada como acolhimento,
Lugar de descanso para as dores cansadas,
Lugar de pausa para o sofrimento,

Poemas compassivos, de mãos dadas,
Como se nada atrapalhasse o seu momento,
O medo, o frio, as opiniões desastradas,
Nada contasse, somente a paz de dentro...

Poemas compassivos, feito curas,
Transformando em esperanças, amarguras,
Em dias de sol, as tardes mais nubladas...

Poemas compassivos, como abraços,
O amor se multiplicando em mil pedaços,
Como alimento para almas precisadas...

25.1.21

Falar de amor

Precisamos continuar a falar de amor,
Porque o amor precisa continuar 
A amenizar a dor de quem sente dor,
E o sofrimento que precisa se curar,

Por isso precisamos nos dispor 
A falar de amor, e, mais do que falar,
A espalhar amor por onde a gente for,
Porque o amor adora se espalhar, 

E amor que se espalha se multiplica,
De alguma forma que ninguém explica,
Porque faltam palavras pra explicar,

Precisamos falar de amor, então falemos,
O amor é o que faz o sofrimento doer menos,
O amor é o que faz a alma respirar...

19.1.21

Contém esperança...

Um dia abençoado pela frente,
Contém esperança o que está por acontecer:
Gente com esperança auxiliando gente
Com esperança de parar de sofrer...

Um dia abençoado, um dia potente,
O cansaço e o desanimo não vão vencer,
Uma formiguinha, outra formiguinha, e, de repente,
Um formigueiro. E formigueiros tem poder

De carregar esperança por onde vão,
Porque a esperança do seu coração
Se espalha mais rapidamente que a pandemia...

Por isso um dia cheio de esperança,
A dor dói menos onde a mão do amor alcança,
E onde há amor, o sofrimento se esvazia...


16.1.21

A Lei de Deus

Eu não me importo com a sua ideologia, 
Nem com seu time, nem com sua cor,
Nem com seu tique, nem com sua mania
De ficar me zoando porque eu sou tricolor...

Eu não me importo se você confia
Nesse presidente avassalador,
O mundo é uma gigantesca confraria,
Ninguém vive feliz sem ter amor,

E para amar é preciso misturar-se,
Imagina o mundo se todo mundo se amasse:
Semitas, anti semitas, cristãos, ateus...

Não sobraria razão pras diferenças,
O amor, acima de nossas crenças,
Ou do que quer que chamemos a Lei de Deus.

15.1.21

Sartreana

Você não é, definitivamente,
O que a vida, continuadamente,
E sem pudor nenhum, faz com você...
A verdade,
Mesmo quando você não consegue ver,
É que você é sempre, ao invés disso,
Exatamente 
Aquilo que você faz
Das coisas boas e más 
Que a roda da vida traz 
E a vida segue a fazer...
Você é sempre o que você escolhe ser...

13.1.21

Gael

Deus receba em seu Reino esse recém-nascido 
Que deixa o mundo sob mínimo sofrimento,
Partiu do modo como era pra ter sido,
Viveu com dignidade o seu momento,

A mãe o tomou no colo e ele, aquecido,
Foi preenchido de uma paz por dentro,
E foi assim que apesar de ter sofrido 
Cobriu com um manto de amor seu sofrimento...

O pequeno Gael agora já não chora,
O corpo já não faz Gael sofrer agora, 
Gael agora é luz e oração,

Saudade e vida, e será sempre o filho 
Que mesmo "pequenino feito grão de milho"
Viverá imenso em nosso coração...

O tempo

Para a amiga Ivani

O tempo, enquanto pensamos que nós temos,
Por quase todo o tempo desperdiçamos,
Somente lá na frente percebemos 
Que já não temos, porque gastamos

Com grandes brigas por ganhos bem pequenos, 
Por outras que nem sabemos porque brigamos,
Por ideologias que aprendemos 
E por comportamentos que ensinamos...

Mas o tempo, que inapelavelmente não espera,
Atravessa rapidamente a nossa primavera,
E quando a gente menos espera, já é o outono,

E dentre as coisas que a gente recupera,
O tempo é a única coisa que quando zera
A gente tenta recuperar, mas não há como...

6.1.21

A democracia


Hoje a democracia sai ferida,

Subtraida, esbofeteada,
E tenta, desesperada, uma saida,
Procura ainda respirar, desesperada,

E levantar-se, mesmo enfraquecida,
Resistindo em se confessar desanimada,
Como de outras vezes, quando quase foi vencida,
Como de outras vezes, quando quase foi executada...

A democracia, covardemente agredida
Por uma multidão enfurecida,
Por uma multidão desembestada...

A democracia, quase interrompida,
Que tenta se refazer, fortalecida,
Que não aceita morrer silenciada...



1.1.21

Ano Novo

Seja bem-vindo. A gente já estava aguardando.
Falamos de você o ano passado inteiro.
Parece que já estávamos adivinhando
Sua chegada em janeiro.

Foi muito bom ver você vir se chegando,
O ano que acabou foi um desespero.
Mas acabou. Já você tá começando
Exatamente no dia primeiro.

Então pode entrar. A casa é sua.
E com você, a luta continua,
Não vai ser o ano passado que vai nos derrubar.

Chega com tudo, ano novo, seu lindo.
A gente estava mesmo precisando de um dindo,
E era isso que a gente estava doido pra contar...



13.12.20

Vacina

Assim que chegar a vacina há tanto tempo esperada 
Vou procurar uma fila pra poder me vacinar,
Passar o dia inteiro em pezinho, sem sair dela pra nada,
Nem beber água ou comer um sanduíche e voltar,

Vou sair de casa cedo, vou chegar de madrugada,
Levar um pão com salame e um chiclete pra mascar,
Um livro de Mário Quintana pra dar uma aliviada,
Um Chico Buarque de Holanda pra ver a banda passar,

E assim que essa boa notícia for finalmente anunciada 
Eu falto o plantão, deixo a conta do condomínio atrasada,
Eu só não saio da fila, que é prá poder me curar 

Da pandemia, do medo, dessa rotina assustada,
Quero sorrir novamente com risada vacinada,
E só então nesse dia vou poder comemorar...

12.12.20

Diretivas

Eu na verdade, preferia não morrer,
Mas já que tenho que morrer, eu gostaria
De não sofrer, mas se eu tiver de sofrer,
Que eu sofra em paz, como sofre quem confia...

E entre escolher ser reanimado ou escolher
Não deixar interferir no coração em assistolia,
Eu escolho deixar o médico livre para fazer
O que estiver ao seu alcance nesse dia...

Porque eu já passei a vida inteira fazendo escolhas,
A maioria delas delas sob óticas caolhas,
Para tempos depois, desescolher, arrependido...

Então, pelo menos para morrer, não escolho nada,
Já ganhei a vida de mão beijada,
Por conta disso, um ultimo adeus agradecido...

7.12.20

Impermanência

Dias difíceis. Tristes esses dias,
Quando tudo parece desabar,
Dias pesados de atitudes frias,
Um pesadelo que se recusa a acordar,

Dias difíceis: chuva, ventania,
Parece que está tudo fora do lugar,
Expectativas secas e sombrias,
A impressão é de que pouca coisa vai sobrar,

Mas eis que a vida, com sua impermanência,
Aproxima-se, terá sido coincidencia?,
E me abraça, procurando me acalmar,

E me convence: tudo é passageiro,
A liberdade, o algoz e o cativeiro,
Respira fundo e acredite: vai passar...

28.11.20

O poema novo

Eu, desejando escrever uma poesia,
Mas sem motivo nenhum para escrever,
Tendo um computador por companhia,
E ao lado uns livros que comprei pra ler,

Tentei um verso, vi que cabia
No poema novo que eu desejava fazer,
E, ao trazer o verso do mundo da fantasia
Para o poema foi que eu pude ver

Que a poesia é ela mesma que se escreve,
Sempre na hora que ela acha que deve,
E não depende de ninguém querer,

Porque um poema novo, quando brota,
É como a agua da chuva que se solta
Das nuvens sem a gente perceber...


17.11.20

Gigantes

Aos bebês prematuros do mundo inteiro neste dia 17 de novembro, dia mundial da prematuridade 

Gigantes de poucos centímetros de comprimento,
De peso quase nenhum, e ainda assim gigantes,
Almas que enfrentam grandes desafios,
Vencendo tempos sombrios,
Vivendo histórias impressionantes...

Gigantes que deixam transparecer fragilidade, 
Que dependem de cuidado redobrado,
Mas com uma garra de sobrevivência que impressiona,
E comove, e inspira, e transforma, e emociona,
Mesmo o profissional mais experimentado...

Gigantes que precisam cercar-se de assistência,
Que muitas vezes respiram com dificuldade,
Mas que possuem poderes incríveis, 
E, acreditem, quase imbatíveis,
Disfarçados sob sua prematuridade...

Gigantes que desafiam a ciência,
Que movimentam profissionais mundo inteiro:
Estudos, cuidados, tecnologia,
Protocolos, dissertações e alguma poesia 
Para acalentar o coração desse  guerreiro...

Gigantes, mas não precisa chamá-los assim,
Pode chamá-los de heróis da resistência...
E por conta disso nunca desistam, mesmo nas horas mais pesadas,
Dessas pequeninas almas apressadas,
Que desafiam as letras da ciência...

Gigantes, porque é o que são desde que nascem,
Gigantes porque é o que nunca deixarão de ser,
Por isso essa homenagem nesse dia 
17 de novembro, com alegria,
Pelo que cada um deles nos diz, sem perceber...

4.11.20

Obrigado

Obrigado 
Por terem permanecido do meu lado,
Por não terem deixado eu me apavorar,
Pelas visitas,
Pelas mensagens,
Pelas chamadas de vídeo,
Pelas orações, pelos livros, obrigado,
Porque isso foi quase melhor que respirar,
Foi o que me manteve acordado 
Quando o corpo pedia pra desligar,
Bilhetes,
Até mesmo um pedaço de pizza com refrigerante gelado,
Um brownie,
Coisas diárias que eu nunca poderia imaginar 
O significado,
Porque a gente chega assustado,
Intimidado,
O virus faz questão de mostrar o seu lugar:
Ataca o pulmão,
Deixa o pulmão inflamado,
A vida dói,
Você não consegue evitar,
E sente medo, 
Um medo com o qual você não está acostumado,
Um medo de quem chega e não sabe se vai voltar:
Antibióticos, 
Tromboliticos,
Diuréticos,
Anti-inflamatórios,
Tudo em dose absurdamente cavalar...
O corpo cede:
Acessos venosos,
Exames seriados,
A ciência tentando tudo pra se safar,
Mas no meio  disso tudo,
Articulando calado
O tempo acabou se revelando meu principal aliado,
Desafiando aquilo que mais ninguém 
Teve capacidade de desafiar,
E a partir dai, a inflamação,
E a trombogenicidade,
E a febre,
E o medo,
E a falta de ar,
Sob a ação do tempo foram cedendo,
E perdendo sua capacidade de estragar 
A fisiologia,
O ânimo, 
A esperança,
E a vida foi retomando seu lugar, 
A dor foi se dirigindo pro passado, 
Da mesma forma que a dificuldade de respirar,
A inflamação,
O corpo cansado,
As coisas comuns que insistiam em incomodar,
Por isso é necessário deixar aqui registrado 
Meu muito obrigado,
Porque sozinho 
Eu não teria como lutar,
Vencer com o coração algemado,
Amordaçado seria impossível gritar,
Olhar pro alto com os olhos vendados,
Pedir ajuda sem ter com quem falar,
Então,
Cada carinho enviado 
Foi uma boia de não me deixar afundar,
Foi como uma ordem judicial: liberado,
Foi como um par de asas pra quem precisava voar,
O que passei vai permanecer arquivado,
São marcas que ninguém conseguirá apagar,
Mas cada vez que o coração 
Viver seu muito obrigado, 
A alma ficará mais leve
E seguirá pronta 
Pra recomeçar...

1.11.20

O remédio

O remédio 

Às vezes o nome dele é carinho,
Carinho que muita gente chama de atenção,
Outras vezes o remédio é um bilhetinho,
De vez em quando, uma ligação,

Quase sempre muito mais do que um sorinho,
O verdadeiro remédio é uma oração,
Que chega, gota a gota, de mansinho,
Numa outra espécie de bomba de infusão,

Por isso o remédio, muito mais que a cura,
É o alimento invisível que segura 
O pensamento, mais que a saturação... 

O remédio, que é para além dos prontuários,
Cujo significado escapa aos dicionários,
E faz morada no coração...

27.10.20

Oração

Papai do céu 

Livrai-nos das futilidades terapêuticas,
Dos tratamentos sem nenhuma serventia,
Das decisões protocolares e antiéticas,
Da negligência, da descortesia, 

Das técnicas desnecessárias e antipáticas,
Da comunicação vazia e fria, 
Que engessa e banaliza as nossas práticas,
E torna turvos nosso dia a dia... 

Protegei nosso bom senso da imprudência,
Nosso coração, da falta de paciência,
Livrai-nos do medo de aprender a amar, 

Cuidai dos nossos dias e dos dias
Daqueles que nos estendem as mãos vazias
Como um abraço, quando já não podem dar...

19.10.20

A dor

A dor. E seus vários significados. 
Da dor neurológica à dor social, 
A dor dos muitos sitios machucados,
O sofrimento, que é sempre individual.

Analgésicos, para corações despedaçados,
Não são o ponto final, 
Corações dolorosos precisam ser cuidados, 
Porque o cuidado é o que modifica todo o mal.

A dor e seus tentáculos perigosos,
Precisa de cuidados amorosos 
Para perder seu poder de maltratar,

E, no momento em que a dor tenta e não maltrata,
Ela evanesce, torna-se abstrata,
E segue, mas não consegue mais causar...

13.10.20

A poesia

É como um cobertor na noite fria,
É como um copo d'água no calor,
Um pão com queijo pra barriga vazia,
É como um machado pro lenhador,

Um pires de leite pro gato que mia,
Uma pista para o cão farejador,
É como o burrinho que levava José e Maria
Sem perceber que também levava o Salvador...

É hora estelar. Não se atrasa. Não se adia.
E quando você menos desconfia,
Ela se mostra com seu dom confortador.

Com poesia, o bom dia é mais bom dia,
E até a noite escura, com poesia,
É a nossa chance de escutar o criador...

Farmácia de poesia

Para a Casa do Cuidar

_Bom dia Doutor
_Bom dia, como passou a semana?
_Estou melhor, sim senhor,
Depois de Mário Quintana,

_Doutor, me ajuda,
Estou triste,
As vezes penso besteira
Eu não queria me sentir assim dessa maneira...
_Vou te passar um Thiago de Melo,
E antes de dormir, um Bandeira.

_Como vai?
_Melhor.
_ Maravilha.
_Pois é. Só notícia boa.
Não tem como ser diferente
Depois de Fernando Pessoa...

_Passou o enjoo?
_Mas claro, Doutor
Já estou bom.
Estou me sentindo mais leve
Depois de Carlos Drummond.

_Muito obrigado, Doutor,
Não uso mais fluoxetina,
Troquei aquelas caixinhas
Pela Cora Coralina.

_E Cecilia, tem usado
Pra aquela angústia que você sentia?
_Diariamente, Doutor,
Fiquei bom com poesia.

Vinicius me fez mais leve,
Manoel de Barros
Me devolveu a razão,
Mas foi com Augusto dos Anjos
Que eu consegui consertar meu coração...

Farmácia de poesia,
Todo dia
Poesia deixa a gente se curar.
Porque o verso, “caindo na alma,
É germe que faz a palma
É gota que faz o mar”

10.10.20

Um bebê que se vai

Um bebê que se vai é o amor de alguém, 
De uma mãe, de um irmão, de um avô, de um pai,
Não torna-se depois que se vai, um nada, um sem,
Segue como o amor de alguém, um bebê que se vai,

Um bebê, um amor, não importa de quem,
Que não se perde depois que a vida se desvai,
Nem se desfaz, de tanto amor que tem,
E de tanta vida que tem, não se desfaz,

É isso que as estatísticas não entendem, 
Os significados que transcendem
A esse amor que sobrevive às despedidas,

Um bebê, um amor, a eternidade, 
Essa outra face da maternidade
Ressignificando as nossas vidas...

9.10.20

Tradução

E não se engane: a vida vale à pena, 
E nem engane ninguém. Desnecessário. 
A vida é um grande e íntimo poema 
Da primeira à última página do nosso diário. 

Por isso não se engane,  adote o lema:
Viver sem necessitar de dicionário,
Porque o amor entende tudo, sem problema,
E não duvide, porque isso é extraordinário. 

E nem engane ninguém. Desenganado
É quem não precisa mais ser enganado, 
É quem aprendeu a mágica da vida, 

E a grande recompensa da procura 
É o outro significado que há na cura,
E a vida pode então ser traduzida.

4.10.20

Waze (meu coração)

Aonde eu quero chegar?
Por onde eu devo seguir?
Por quais esquinas eu não posso cruzar?
De que rotatórias é necessário fugir?

Em que momentos eu preciso acelerar?
Em que momentos eu preciso reduzir?
Como ter certeza de que eu não vou me atrasar
Ou chegar antes do portão abrir?

Como saber se alguém vai me esperar?
Como pedir se alguém pode me ensinar
A perder o medo de não conseguir?

E se eu decidir parar prá descansar?
E se a bateria acabar?
E se no meio do caminho eu desistir?

A esperança

A esperança é a última que vai embora,
E quase sempre volta logo em seguida,
Cutuca o coração da gente toda hora,
Acompanha a gente durante toda a vida,

Fica escondida quando a gente chora,
Mas, fingindo-se de desentendida,
Espera a gente do lado de fora,
E não desiste da gente, decidida,

A esperança, como um sobrenome,
Indisfarçável sempre, como a fome,
Como um documento de identidade, 

Insubstituível, a esperança,
A gente se cansa, mas ela não se cansa,
E segue com a gente para além da eternidade...

3.10.20

O ruído desnecessário

A portinhola fechada de forma descuidada,
O tom de voz desmedido da pessoa,
O volume desrespeitoso da risada,
A palavra. sem sentido e dita à toa,

A cuba sobre a incubadora, quase nada
Além do som excessivo que ressoa,
A pequena bebê, dessaturada,
Não tendo como lutar, então perdoa...

Desnecessário,
Mais que excessivo, cruel e solitário,
O ruído, castigo análogo à tortura...

_Silencio!! Cantam os anjos e os poemas,
Silencio, apenas,
E, de algum modo, é por ai a cura...

2.10.20

A esperança


Vamos falar de esperança,
Vamos plantar esperança,
A esperança é toda feita
De pedacinhos de amor,
Sem esperança
O coração se cansa,
E o coração, cansado,
Sente dor...
Por isso, espalhar esperança
E dividir esperança,
Porque a esperança espalhada
Frutifica,
A esperança
É uma bem-aventurança,
E não custa nada a esperança,
Fica a dica...
O tempo é hoje,
Vamos cuidar da esperança,
Vamos tratar a esperança,
Como se fosse um poema autografado
De Chico Buarque,
De Carlos Drummond,
De Cecília,
De Mário,
De Vinicius,
De Adélia Prado,
Vamos seguir a esperança,
Compartilhar a esperança,
A esperança é assim:
Nunca se gasta,
Você entrega, ela sobra,
Você oferece, ela volta,
Como um perfume que é bom
Quando se alastra,
Vamos olhar com esperança,
Vamos viver com esperança,
Qualquer semelhança com a luz
É a pura realidade,
Não há nada mais doce
Em toda vizinhança,
A esperança é o que existe de melhor
Na humanidade...

24.9.20

Paliativas

Ana Michelle,
Mas não precisa chamá-la assim, 
Pode chamá-la de amor, se desejar, 
Amor que não se esgota, amor sem fim,
Amor como é o amor que sabe amar, 

E porque para ela não existe tempo ruim,
Espalha luz dizendo: "enquanto eu respirar"...
Ana Michelle, mas que se parece um Querubim
Desses com que Deus costuma nos presentear.

Ana Michelle, que é como um passarinho 
Sobrevoando as pedras do caminho 
Como se fosse o próprio poema de Quintana, 

Ana Michelle, e já não preciso de mais nada,
Inspiradora sua caminhada, 
Ah, como é grande o amor que habita em Ana.

17.9.20

As aulas da Ana

Parece uma melodia buarquiana,
Uma letra de Vinicius, de Gullar, 
Jobim passeando por Copacabana,
É quase como o Baden a dedilhar, 

É bom, como um poema de Quintana,
Alegre omo uma cantata de Bach,
É leve como é leve a voz da Nana, 
É livre, como um pássaro a voar,

E desafiador, como uma esfinge, 
Que lança, atiça, acende, mas não finge,
É como um rio que mais parece um mar, 

É como um veredito, é como um grito, 
É como o silêncio diante de um mito,
Ouvir Ana Cláudia falar...

8.9.20

A compaixão

A compaixão dá conta de tudo:
Do que se pode fazer, 
Do que se tenta,
E do que a gente tenta conseguir,
Não tem limites, a compaixão,
É sempre atenta,
Ela é caminho mais certo pra seguir,  
Às vezes a gente é fraco,
Quase não aguenta,
E nessas horas ela vem nos acudir,
Cuidando de quem cuida
De quem está mergulhado na tormenta,
A compaixão dá conta,
Sem desistir.
A compaixão dá conta de tudo, 
Até da lágrima,
Da saudade,
E do cair,
Mesmo da morte a compaixão dá conta,
Receita pronta:
Compaixão.
Não tem melhor remédio pra dormir.

O mapa do caminho

Para Rafaella Aquino 

Será como encontrar o mapa do caminho,
E o melhor jeito de caminhar,
Às vezes mais depressa, às vezes devagarinho, 
Às vezes parando um pouco pra descansar, 

Algumas vezes será preciso descobrir sozinho, 
Outras, haverá pessoas para ajudar, 
Muitas vezes um atalho, ali pertinho, 
Outras vezes, inalcançavel, feito o mar...

O mapa, mesmo escondido, disfarçado, 
Traz um tesouro guardado, 
E é por isso que nem todo mundo pode ver, 

Mas lembra que a compaixão dá conta de tudo?
E de repente, o mapa, o conteúdo, 
Na hora em que você menos perceber..

Receita para quem pensa que não gosta de poesia

Para Sandra Soler

Experimente um Castro Alves, da Bahia,
Tome um golinho de Mário Quintana,
Um Mário de Andrade, depois do meio dia,
Um Augusto dos Anjos, no fim de semana,

Ou um Ferreira Gullar, quando estiver com taquicardia, 
Um Drummond, sempre que ouvir dizerbque a terra é plana,
Sempre Cecília, durante a chuva fria,
Adélia Prado, misture com um pouco de doce de banana... 

Experimente poesia, devagarinho, 
A poesia, acredite, é como um novelinho
Que faz um ninho no seu coração, 

E vai retirando as pedras do caminho,
Até que um dia você se sente um passarinho, 
E, depois desse dia, os atravancos passarão...

6.9.20

22265 dias

Foi há 22265 dias,
Faz tanto tempo que eu nem me lembro, 
Era 1959, e entre boas energias,
Eu cheguei ao mundo, num dia 6 de setembro,

Trazendo comigo centenas de poesias 
Que eu transcreveria com o passar do tempo, 
E um coração que me conduziria
Até aqui, de alguma forma, atento...

E foram dias de grandes aprendizados,
Muitos eu trago comigo guardados,
Alguns outros, a vida às vezes vem me relembrar,

E o maior resultado disso é a consciência 
Desse tempo nosso como a grande experiência 
Que a gente precisa saber aproveitar.

5.9.20

Preciso do seu voto

Precisa do meu voto pra continuar lutando,
Mas o meu voto você não vai levar,
Espere sentado, continue esperando,
Porque em pé você pode se cansar,

Precisa do meu voto. A eleição ta chegando. 
Capaz até de você me telefonar, 
Me prometendo, me bajulando, 
Será que está querendo me comprar?

Precisa do meu voto? Tas brincando...
Meu voto você não leva nem sonhando:
Eu sou capaz de acordar pra não votar...

A última coisa que a cidade ta precisando
É ver você se recandidatando...
Devia ter vergonha de tentar...

1.9.20

A caminhada

Por onde eu devo ir? Para que lado?
Depende. Aonde você quer chegar?
Ainda não sei
Então não se preocupe. Qualquer caminho que você pegue leva você para esse lugar
Mas devo ir devagar ou apressado?
Depende. Quando você quer chegar?
Ainda não sei.
Ah, se é desse jeito pode ir do jeito e na velocidade que você imaginar. Todo tempo é qualquer tempo se a gente não sabe contar. 
Mas devo ir só ou melhor acompanhado?
Depende. Você já sabe com quem você pretende se encontrar?
Não sei ainda.
Então vá despreocupado. Você vai descobrir ao caminhar. Nada melhor do que seguir o caminho. E isso livro nenhum vai revelar. 
Mas parto agora? Já estou preparado?
Depende. Você vai querer voltar?
Não sei ainda.
Entao fique tranquilo. Esse é o melhor jeito de não sair do lugar.
Nenhum caminho é tão complicado 
Se você sabe os atalhos a tomar,
Se sabe onde quer ir,
Como quer ir,
Se sabe a hora de retornar,
Se sabe quem você leva do seu lado,
Se sabe o tempo que você pode levar,
Se o seu relógio não está atrasado 
Nem adiantado,
Não se preocupe, 
Pode começar,
Dificilmente você vai dar no tempo errado,
Dificilmente você vai se desgovernar,
Se essa luz que você traz em você for o seu cajado,
E se você aprendeu a respirar, 
Seu coração sabe indicar o traçado,
Embora a caminhada você terá de traçar,
E ai o frio, a chuvarada, a terra encharcada,
A pedra no meio do caminho, nada 
Conseguirá ser mais forte que a sua decisão:
Chegar. Essa palavra encantada.
Chegar. Mas se quiser pode chamar de vocação. 
Então você quer ir?
Sabe pra onde?
Já tem ideia do que você pode encontrar?
Do tempo que leva?
Do tamanho da estrada?
Do que você vai dizer quando você chegar?
Então não se preocupe: 
Não será fácil, mas certamente você vai suportar.
Não será longe, porque até hoje ninguém foi capaz de medir. 
Vai ter atalhos, mas você vai saber decidir quando tomar.
Por isso é que ir mais depressa ou devagar,
Você só vai perceber ao caminhar, 
E nesse dia,
Não se preocupe em voltar:
Seu lugar passará a ser qualquer lugar,
E por onde você for
Você  há de encontrar 
A coisa certa a fazer, 
O tempo certo a usar,
As rotas a percorrer,
As sandálias pra gastar, 
E desse dia em diante,
Você viverá histórias interessantes 
Como as de Ana,
Como as de Safi,
E como as de Alexandre,
E, porque um anjo,
Você terá histórias de anjos pra contar...

29.8.20

O Rio de Janeiro

E a cada dia novos denunciados 
Garantem inocência, sem pestanejar,
Milhares de dólares em desvios sem culpados,
Sou inocente, meu advogado vai provar,

Não vi o processo, dizem os advogados,
Formação de quadrilha, diz o delegado titular,
Enquanto isso, cofres esvaziados
E hospitais de campanha feitos pra não funcionar...

Esquema de lavagem de dinheiro
Pela primeira dama do governo do Rio de Janeiro?
Meu Deus!!! Em quem a gente pode confiar?

No próximo? No depois do próximo? No terceiro?
Quem dará jeito nesse pardieiro?
Nacional Kid, onde é que você tá?

26.8.20

Espero

Espero que tudo caminhe bem,
Que tudo dê certo quando chegar ao fim,
Que esse ano não se repita ano que vem,
Nem passe o tempo todo ecoando em mim,

Espero que haja esperança para além,
Como se fosse um pó de pirlimpimpim,
A esperança é o maior bem que a gente tem,
A principal nota do boletim,

E um dia, quando o dia de hoje for passado, 
Que a gente possa seguir contaminado,
Mas dessa vez por outra pandemia,

Que será feita de retalhos de esperança,
Formando uma nova aliança,
Onde o medo cede espaço pra alegria...

24.8.20

Desafinado

Meu coração, violão desafinado,
Tentando o acompanhamento da canção...
A vida, com seus acordes dissonantes,
Percebe minhas cordas discordantes,
E às vezes me chama atenção:

_Acerta a sexta corda, a quinta, a quarta!
_Um pouco mais de sol! _Não, assim não!
E eu sigo, distraído, procurando
Seguir as pistas que a vida vai me dando, 
Sem pressa, como quem dita a lição,

E tento um dó menor, quase consigo,
Não fosse essa terrível desconcentração, 
Aperto as cordas, afrouxo, desafino,
E sigo tentando assim, desde menino,
Sem desistência e sem reclamação,

Meu coração, desafinado, leve,
Tentando um samba, como o de João,
Segue apertando e afrouxando, corda a corda,
Às vezes dorme, outras vezes acorda,
E só poucas vezes consegue, rara inspiração,

Meu coração, esse violão desafinado,
Já sabe o ritmo, o toque, a marcação,
Mas se distrai quando não deveria...
Ainda bem que existe a poesia...
Ainda bem que existe o perdão...

22.8.20

Poesia

Folheie Drummond,
Decore Bandeira,
Escolha um verso de Mário Quintana,
Estrela da vida,
Poesia inteira,
Inunde de poesia seu fim de semana,
Castro Alves,
Cecília,
Vinicius, 
Ferreira,
Cora Coralina,
É bom pra quem ama,
Disfarça e recorda algum Augusto dos Anjos,
Declame poesia,
É quase um Nirvana,
Olavo Bilac,
Manoel de Barros,
Augusto e Haroldo de Campos 
E tem mais:
Catulo,
Pessoa,
Conhece o Cornélio?
Antero,
E esses poetas atuais,
Invente poesia,
Misture poesia,
Na sua salada,
No seu sakê,
Na hora de dormir,
Depois do banho, 
Durante as baboseiras da TV,
Faz bem pro fígado, 
Pras mitocondrias,
O seu Complexo de Golgi vai agradecer,
Capturar poesia,
Metabolizar poesia,
Fazer poesia enternecer...

16.8.20

Escrevo

Como um medicamento anti-hipertensivo,
Como um recurso contra a depressão,
Como um motivo que não precisa de motivo,
Como quem erra e não precisa de perdão,

Como quem sonha com a página de um livro,
Como quem pula da página pra canção,
Como quem depois do fim, segue o caminho, vivo,
Depois da festa, cadeado no portão,

Como quem olha, como quem espera,
Como quem nega, como quem pondera,
Como quem não sabe como continuar

O verso que acabou de ser escrito,
Como quem voa do zero ao infinito
Sem precisar sair do seu lugar...

8.8.20

Cem mil mortos

Somos cem mil a menos. E os que sobramos
Não fazemos ideia de quantos vamos restar,
Muitos se foram, alguns com bem poucos anos,
E muitos outros com tanto para ensinar,  

Cem mil que se despediram de seus planos 
Sem despedidas, como seria correto imaginar,
Cem mil, um número em que às vezes nem acreditamos,
E ainda nem terminamos de contar,

Uma nação, como uma árvore desfolhada,
Ou como uma flor, pétala por pétala arrancada, 
Mas de raiz incansável, que resiste

Atordoada, e mesmo assim não se entrega,
Uma nação que agoniza, mas não quebra, 
E nem perde a esperança, ainda que triste.

4.8.20

Almas humanas

Almas humanas sendo apenas almas humanas 
Ao tocarem outras almas humanas, nada mais, 
Livres das suas vaidades levianas, 
Almas humanas, almas iguais,

Almas humanas, como Deuses à paisana,
Reconhecendo-se mortais entre os mortais, 
Suaves, como os poemas de Quintana, 
Gigantes, como as rolinhas e os pardais...

Almas humanas apenas, e mais nada,
As mesmas almas, a mesma caminhada, 
As mesmas criaturas, o mesmo fim,

Almas humanas, então tudo faz sentido
Quando esse toque assim é permitido, 
Apenas almas humanas, sendo assim...

31.7.20

A fotografia

O amor gosta de ser fotografado,
O amor combina com fotografias,
Porque só o amor torna leve o que é pesado,
E como precisamos de leveza nesses dias,

Somente o amor dá outro significado 
Aos dias tristes, às noites frias,
E é capaz de moldar um sorriso iluminado 
Ressignificando nossas alegrias...

Fotografar o amor que a gente sente 
Faz bem demais pro coração da gente 
E torna eternos os momentos delicados,

Fotografias do amor, multiplicadas,
Tornam mais leves nossas caminhadas,
Fotografias do amor não tem pecados...

30.7.20

Música cuida do coração da gente

Música cuida do coração da gente,
Musica diverte nossa alegria, 
Música empurra a gente sempre pra frente,
Música é quase sempre a melhor companhia,

Música barulhenta, feito uma enchente, 
Música leve, feito ler poesia, 
Desesperada, feito um sol quente, 
Descontraída, feito chuva fria,

Musica que quando acaba continua,
Música que quando não diz insinua,
Música que ensina como se pode voar,

Música melhor que a psiquiatria,
Música que nunca se copia,
Música que não tem hora nem lugar...

29.7.20

Noventa mil mortos

Somos noventa mil mortos desde o inicio,
Noventa mil que não mais irão voltar,
Um silêncio que é cada vez mais difícil
De imaginar, de entender, de acreditar...

Noventa mil, descaso e sacrifício,
Noventa mil, porque não aguentaram esperar,
Noventa mil condenados ao suplício,
Que não aprenderam como escapar...

Noventa mil mortos. E muitos nem perceberam 
A forma como se contaminaram e morreram,
Ou como se tornaram parte dessa conta:

Noventa mil mortos. E ainda não terminamos...
Como chegamos até aqui onde chegamos?
Por que esse futuro nos amedronta?

27.7.20

A compaixão dá conta de tudo

Ao professor José Carlos Safi


A compaixão dá conta de tudo:
Do que não tem remédio nem descanso,
Da morte, do desespero, da solidão,
Das noite sem esperanças e desses dias
Contaminados por notícias frias,
Não importa, dá conta de tudo a compaixão...

A compaixão dá conta de tudo:
Do que não tem conserto nem saída,
Da pena eterna, para a qual não tem perdão,
A compaixão dá conta do aconchego
Para o coração sem norte e sem sossego,
Porque dá conta de tudo a compaixão...

A compaixão dá conta de tudo:
Do medo, da saudade, da descrença,
Da crueldade, da ingratidão,
Da dor do corte, do sangramento,
E, mais do que da dor, do sofrimento,
Ela dá conta de tudo, a compaixão...

A compaixão dá conta de tudo,
Cuidando da dor que há por trás de toda dor,
E mesmo quando não se encontra explicação,
Como se fosse um manto, mais que a cura,
É como se fosse a mão firme que segura
O coração que sofre, a compaixão 

26.7.20

O tempo lá fora

Nada mais nesse mundo me apavora,
O ser humano perdeu o seu sentido,
E a cada dia que passa só piora,
Definitivamente, o bom senso anda esquecido,

Se havia algum pudor, jogou-se fora,
Um novo normal já está estabelecido,
Alguém abriu a Caixa de Pandora,
Não tem mais jeito, o mundo está perdido,

E ai de quem contestar os novos dias:
Vai ser massacrado por teorias 
Que não aceitam contestação...

É desse jeito. Ponto. E está acabado. 
Novos conceitos de certo e errado 
Vida que segue. Não tem solução.

23.7.20

Autobiografia

Um pediatra em fim de carreira,
Mas com o coração está nascendo agora...
Foi preciso durar uma vida quase inteira
Para finalmente ver chegada a hora

De ver a vida de uma outra maneira,
(Durar uma vida inteira, quanta demora)
Mas quando uma percepção é verdadeira,
A caminhada do tempo só melhora,

E nunca é tarde demais quando acontece,
Pois muitas vezes o atraso que parece
Uma falha, é como o pequeno grão e a plantação:

O tempo que passa inaparente e escondido
É o tempo necessário para o grão, amadurecido,
Brotar em folha, flor e fruto desde o chão...

19.7.20

As imprescindíveis

Inspirado num pensamento de Brecht 

Há mães que lutam por seus filhos um dia,
E estas são mães suficientemente boas, 
Há outras que lutam um ano por seus filhos, 
E são melhores, 
Há as que lutam muitos anos por seus filhos 
E são mães muito boas, 
Mas há aquelas lutam por eles durante toda a sua vida, 
E estas são as mães imprescindíveis.

16.7.20

O Prefeito

Era pra ser o melhor. Não conseguiu. 
Eleito prá governar, não governou.
O que era pra ter consertado, destruiu,
O que era pra ter arrumado, bagunçou.

Se recebeu bom conselho, não seguiu,
Ficou desorientado quando entrou,
Se era bem intencionado, desistiu, 
Achou muito complicado, se entregou,

Suas promessas de campanha, ele traiu,
Vovô fez praça. O que ele fez? Ninguém viu.
Em quatro anos o município afundou...

Se foi piada, uma pena, ninguém riu,
Só pode ter sido um primeiro de abril 
Que essa tal de fatalidade nos pregou.

13.7.20

Mudança de planos

Não possuímos nada que dizemos que temos,
Porque na verdade não temos, apenas usamos,
Até um dia, quando devolvemos
O que não era nosso, o que emprestamos...

Difícil, mas lá no fundo percebemos,
Ou fácil, mas geralmente complicamos,
Trazemos nada, um dia, de onde viemos,
E na despedida, outro dia, nada levamos,

E tudo que cerca esse pedaço de tempo que vivemos,
Diferentemente do modo como aprendemos,
Não nos pertence... Essa é a tralha que arrastamos,

A vida melhora, então, quando aprendemos
Que podemos ser bem mais, tendo bem menos,
E assim, mais leves, mudamos nossos planos...

Conversando sobre a vida em tempos de pandemia

Conversando sobre vida em tempos de pandemia 
Com ex-alunas da Casa do Cuidar,
Ciência temperada com poesia,
Porque a vida precisa continuar,

Então, conversar sobre a vida, que nos espia,
Compreendendo a vida sob um novo olhar,
Sob um olhar de quem cuida como quem cria
Uma nova história que a vida precisa contar...

Clarissa, Franciele, Milena e Rita,
Uma conversa com vocês possibilita 
A vida ser vista na sua versão mais inteira,

Em tempos de pandemia, ganha a vida
A chance de ser falada e compreendida
Na sua significação mais verdadeira...

11.7.20

Gotas que importam

(Ao leite materno)


Gotas que importam. Por vezes, em enxurradas,
Outras vezes, complicadas, que teimam em não descer,
Gotas que escapam de mães esgotadas,
Gotas que jorram sem ninguém perceber,

Gotas que importam. Por vezes, apressadas,
Outras vezes, gotas que custam a aparecer,
Nascendo de mães que precisam ser cuidadas,
Mães que merecem compreender o seu poder,

Gotas que importam. Para as mamães, para os pais,
Para os bebês, para os profissionais,
E para a humanidade, que sobrevive, assim, às intempéries,

Gotas que importam, porque salvam vidas,
Vidas que importam, e seguem, engrandecidas
Por gotas que brotam do amor dessas mulheres...

10.7.20

Soneto pra minha cidade

Pensa num governo sem competência,
Multiplica isso por falta de qualidade,
Adiciona intolerância, prepotência,
E soma desprezo pela nossa cidade,

Cerca esse governo de gente sem experiência,
Escolhida por coleguismo e amizade, 
Cobre o mandato com falta de transparência 
E ausência de lisura e de verdade,

Pensa num governo em decadência,
Um governo mergulhado em inadimplência,
Um governo com gostinho de já vai tarde,

Que trata o servidor com displicência, 
Depois me conta se é penitência, 
Se é coincidência ou se é fatalidade. 

5.7.20

Minha cidade

Fim de um governo que nem devia ter começado,  
Fim de um governo que acabou antes do fim,
Governo fraco e mal intencionado, 
E inexperiente, e insensato e ruim,

Venceu com apoio de um servidor enganado, 
Que não fazia ideia que seria assim,
Acabou mal, sozinho e mal amado, 
Governo fraco, completamente chinfrim, 

E mesmo ainda falando quase nada,
Continua, essa administração atrapalhada,
A se perder em atos sem lisura. 

Vai morrer sem velório, esse governo, 
Sem alma, abandonado, frio, ermo,
Sem flores, sem pesar, sem sepultura...

29.6.20

O currículo

Um currículo mal elaborado 
Não diz quem você realmente é:
Se é graduado, se é pós graduado, 
Se só deu o primeiro pontapé, 

Porque um currículo precisa ser provado,
Não é sair dizendo o que quiser,
Senão o samba sai desafinado 
E isso acaba com o arrasta-pé...

Então tome cuidado com seu Lattes,
Não chame carambolas de abacates,
Se quis fazer mas não fez, conte a verdade,

Porque um dia, quando você virar Ministro,
Vão descobrir que você não tem registro,
Ou, bem pior, que lhe falta honestidade.

21.6.20

Cincoenta mil mortos

Cincoenta mil mortos. Difícil imaginar
Meio Maracanã hoje sem vida.
Cincoenta mil que não irão mais acordar.
Cincoenta mil mortos. Que nação sofrida.

Cincoenta mil. A gente custa a acreditar 
Na profundeza do corte dessa ferida. 
Uma ferida que não para de sangrar,
Uma nação que cai, subtraída.

Cincoenta mil mortos. Quem ousaria supor
O tamanho e a agressividade dessa dor,
Que às vezes se assemelha à indignidade.

Cincoenta mil. E virão muitos mil mais. 
Cincoenta mil mortos. Descansem em paz. 
E assim caminha, desfalcada, a humanidade...

A prorrogação dos mandatos

Se em quatro anos quase foi tudo destruido,
Mais dois e vai estar tudo acabado,
Um município completamente falido
Por um governo completamente abestado,

Seis anos de mandato. Isso não faz sentido.
Esse corona deixou o mundo aloprado.
É tempo demais prum governo tão descomprometido, 
Tempo demais prum governo tão mal intencionado,

São mais dois anos de um mandato fouxo,
Sao mais dois anos de um mandato mocho,
Um povo triste, sem rumo e maltratado, 

Se essa regra passar vai ser o fim da picada.
Os abutres famintos não vão deixar sobrar nada.
É o fim dos tempos, fato consumado. 

Feliz aniversário

Para Chico Buarque pelo seu aniversário (19 de junho)

Feliz aniversário, Chico Buarque de Hollanda,
Francisco soberano, artista brasileiro,
Hoje é seu dia, hoje você é quem manda,
Chico Buarque do Rio de Janeiro,

A sua poesia, desde lá de A Banda
Ganhou o coração do mundo inteiro,
Por conta disso é que a minha gente hoje anda
Cantando suas canções, meu poeta primeiro,

Pra escapar do mal tempo e do nevoeiro,
Pra viajar no samba verdadeiro,
E pra ver a banda passar

Falando de amor e esbanjando poesia...
Feliz aniversário poeta, hoje é seu dia,
Por isso a barra do dia pedindo pra gente cantar...

Sumiço

Para meu grupo de poesia que anda meio silencioso 

Saudades das poesias que brincavam aqui...
Será que elas desistiram brincar?
Poesias, eu sei, gostam de escapulir, 
Por conta disso, me perdoem confessar,

Mas sinto falta de poesias pra sentir, 
Ainda mais nesses tempos de falta de ar,
Poesias de respirar e abstrair 
O coração, mesmo o que não parece se cansar...

Saudade das poesias. Eu gostava de vir 
E ler, e descobrir, e traduzir,
E às vezes, muitas, me impressionar,

Com aquelas poesias, que hoje andam distantes,
Mas que se comportam, às vezes, como amantes 
Que não conseguem por muito tempo se afastar...

19.6.20

Chico Buarque de Hollanda faz 76

Feliz aniversário, Chico Buarque de Hollanda,
Francisco soberano, artista brasileiro,
Hoje é seu dia, hoje você é quem manda,
Chico Buarque do Rio de Janeiro,

A sua poesia, desde lá de A Banda
Ganhou o coração do mundo inteiro,
Por conta disso é que a minha gente hoje anda
Cantando suas canções, meu poeta primeiro,

Pra escapar do mal tempo e do nevoeiro,
Pra viajar no samba verdadeiro,
E pra ver a banda passar

Falando de amor e derramando poesia...
Feliz aniversário poeta, hoje é seu dia,
Por isso a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar...

17.6.20

A poesia, como a madrugada

Se um dia você acordar de madrugada 
E perceber que não tem nada pra fazer:
Casa arrumada, gaveta arrumada, 
Na geladeira, nada pra beber,

No celular, nenhuma alma acordada,
Nenhuma live pra você ver,
Se acontecer de não estar acontecendo nada 
Que você esperava que fosse acontecer, 

Tente uma poesia, pode ser usada,
Uma daqueles livros de página amarelada,
Porque o poema não costuma envelhecer,

E leia, depois releia. E olha que ue coisa engraçada:
A poesia, como a madrugada, 
Acontecem sem a gente perceber...

15.6.20

Vidas importam

Nem pretos. Nem brancos. Dividos,
Somos menores do que podemos ser:
Humanos. O resto são vestidos. 
É a embalagem que temos pra viver. 

Judeus. Cristãos. Hindus. Somos parecidos:
Nascemos. Vivemos. Vamos morrer. 
Temos fome. Ficamos aborrecidos. 
Gastamos das coisas que nos dão prazer. 

Vidas importam. Brancas. Pretas. Amarelas.
Não faz sentido dividir em aquarelas
As coisas que pertencem ao coração.

Vidas importam. O resto não interessa. 
Somos todos iguais, pra começo de conversa. 
O resto é o banho de cal no paredão.

13.6.20

Teremos

Teremos impeachment. Teremos vacina.
Teremos de volta nossa felicidade.
Vamos voltar a produzir ocitocina,
Esquecer esse tempo de obscuridade.

Teremos a vida de volta. E a vida ensina
Que a noite nunca vence a claridade.
Será como achar o mapa da mina
A vida livre de brutalidade.

Teremos poesia. Música. Mesa posta.
É disso que a gente gosta.
É disso que tá todo mundo precisando.

Teremos pão e circo. E consciência.
O tempo da delicadeza e da decência.
É isso que a gente anda tramando...

Mortos

Meus mortos versus seus mortos.
Tantos mortos. De quem são?
Depende de quanto pagam:
Duzentos mil? Um milhão?

Meus mortos versus seus mortos.
Quem se importa aonde estão?
Depende de quanto custam 
Nesse ano de eleição. 

Milhares. Não conseguiram,
Lutaram, até que cairam,
Tornando-se projeção,

Estatísticas e curvas,
Deixando as águas mais turvas...
Quem vai lhes pedir perdão?

Vamos passear no shopping?

Vamos passear no shopping? Sem juízo?
Vamos perder a vergonha e a proteção?
Vamos desobedecer aquele aviso
Que dizia "fique em casa"? Partiu aglomeração?

Vamos passear no paraíso?
Vamos comprar a morte no cartão?
Vamos? Ou tem alguém que ainda tá indeciso?
Isolamento? Já deu. Não dá mais não.

Enquanto passeamos, nas UTIs lotadas,
Entre famílias inteiras, desesperadas,
O número de mortes não para de aumentar...

Vamos perder a vergonha? Quem se importa?
A era do bom senso já está morta.
O último a sair encoste a porta. Vamos passear. 

10.6.20

A casa do meu pai

As pessoas tem andado muito chatas,
Exigindo muitas coisas que nem são,
Apostando na lisura que nem tem,
Não confiando em ninguém,
E sem distribuir seu coração.

Talvez por isso, tem andado mal humoradas, 
Acusando o mundo inteiro, sem notar 
Que o mau humor que vivem espalhando 
Faz a vida ir aos poucos se azedando,
Até a hora que ninguém mais puder provar.

Se isso não bastasse, sem esperanças:
O mundo é hoje. Agora é o que interessa.
E perdem, assim, a chance da semente 
Que vive seu hoje enquanto olha pra frente,
Porque sabe que a felicidade não tem pressa.

E já não param pra escrever poesia, 
E já não gostam mais de olhar o mar,
E ja não tem tempo, porque gastam seu tempo
Nas coisas que asfixiam o pensamento,
E não deixam o pensamento respirar.

Mas não são todas assim. Ainda existem 
As pessoas que se importam, que se dão,
Que sofrem, e apesar disso, se superam,
Que tentam, e não desistem enquanto esperam,
Que vivem sempre em constante reinvenção.

E assim segue a vida, seus azares
E as suas causas. Vida que vai.
Na casa do meu pai há muitas moradas...
Sigamos, sabendo que todas as estradas 
No final vão nos levar para uma das casas do pai. 

8.6.20

O contracheque

O contracheque vale como recibo 
Do mes corretamente trabalhado.
É a prova do que não pode mais ser esquecido.
Não é o valor. É o trabalho registrado. 

É o registro impresso do dever cumprido. 
É a tradução do empenho demonstrado. 
Não é o valor do salário recebido,
Mas o sinal do compromisso honrado.

Mas quando o contracheque é omitido, 
É como se o trabalhador fosse ofendido,
E seu trabalho desprestigiado.

O contracheque não pode ser retido. 
Deixar de disponibilizá-lo não faz sentido, 
A não ser para o patrão mal intencionado.

3.6.20

Soneto completamente amedrontado


Inspirado no relato de um colega de plantão 




Será que o dia vai ser tumultuado?
Será que vai ter vaga se precisar internar?
Será que o paciente já chegou parado?
Será que adianta tentar reanimar?

Será que dessa vez eu fui contaminado?
Será que hoje vai ter máscara para usar?
Será que o plantão ainda vai estar desfalcado?
Será que a ambulância vai demorar pra voltar?

Será que ainda tem adrenalina?
Será que isso que eu faço é fazer medicina?
Isolamento? Será que tem?

Será que adianta usar capote reaproveitado?
Será que adianta eu dizer, amedrontado,
Que eu só quero que o plantão acabe bem?