27.9.04

O Candidato. Parte V
(Ou O Dia Seguinte)

Eu fui um candidato. Fiz comicio.
Peguei no colo muita criancinha.
Dei muito a mão aos pobres nesse oficio.
Beijei no rosto de muita velhinha.

Que gente feia abracei no sacrificio.
Que cara de pau essa minha.
Eu fiz da hipocrisia um atrificio
Pra obter o voto dessa gentinha.

Eu fui um candidato até o dia
Em que o povo que eu beijei, por ironia,
Me despachou como quem toca um cão...

Banquei o espertalhão. Não deu em nada.
Tentando ludibriar quem me enganava
Morri da minha própria má- intenção...


9.9.04

O Candidato. Parte IV
(ou Autoretrato)

Eu sou um candidato. Uma ameaça.
Eu vivo às custas do seu sofrimento.
Eu me aproveito da sua desgraça.
A sua dificuldade é o meu sustento.

Eu sou um candidato. A minha raça
Não tem pudor nem constrangimento.
Eu não me importo com o que você passa.
Eu quero é melhorar meu rendimento.

Eu sou um salafrário oficial.
Um clone exato do Lobo Mau.
A minha especialidade é a vovozinha.

Tudo que eu quero é me dar bem. Mais nada.
Sou um protótipo da coisa errada.
Eu sou uma erva daninha.


O Candidato. Parte III

Essa gente não recua.
Essa gente continua
Querendo fazer de um curral
Nossa cidade...
(lembrando Drummond)

Eu sou um candidato. Moral ilibada.
Passado probo. Individuo competente.
Eu quero ser um lutador, mais nada.
A voz que clama pela minha gente.

Eu sou um candidato. Voz pausada.
Terno. Gravata. Gesto convincente.
Pai de familia. Uma alma devotada
E um histórico de vida comovente.

Eu sou um candidato... Presepada
De atitude milimetricamente calculada.
Produto feito pra chegar na frente.

Eu sou uma arapuca especializada
Em pegar gente despreparada.
Um estelionatário inconsequente.
O Candidato. Parte II

A cidade está repleta de arapucas.
Gente ruim que se locupleta da miséria alheia se une a gente miserável que tenta acordo com mil algozes.
Não sinto ódio dessa gente.
Sinto poesia por ela.

Eu sou um candidato. Eu realizo.
Eu tenho planos para minha cidade.
Seu voto é tudo de que eu preciso
Para fazer do meu sonho realidade.

Eu sou um candidato serio, eu friso.
Nasci sob o signo da idoneidade.
Eu sei exatamente aonde é que eu piso.
Eu sou um defensor da civilidade.

Mas quando chego em casa e fecho a porta
Eu fico pensando na cor da nota
Que eu vou ganhar pra mim se eu for eleito.

Por isso eu peço a você: não me abandone.
Decore meu numero. Decore meu nome.
Eu preciso ficar rico nesse pleito.




1.9.04

O Candidato

Eu sou um candidato. Eu negocio.
Se o que é pro rio eu digo que é pro mar,
O que é pro mar eu digo que é pro rio...
É uma questão de negociar...

Um cacarejo eu trato como um pio.
Um pio eu lanço como um ronronar.
Se é dupla eu dexo registrado um trio.
Eu negocio sem pestanejar.

Eu sou um candidato. Eu troco. Eu crio.
Se eu digo que tá cheio e tá vazio
Aí é que eu prometo completar...

Sou como um rato dentro de um navio:
Se eu perco a vez aqui, ali me alio...
Resta é fazer alguém me acreditar...

25.8.04

Fingindo
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Autopsicografia, Fernando Pessoa


É quase poesia. É uma ousadia.
Parece. Tenta ter a mesma cor.
Até se esforça, como quem copia,
Ou como faz o pássaro cantor...

Mas assim com a canção que o pássaro cria
É quase uma canção, o trovador
Tenta a palavra em forma de poesia...
Por isso é que o poeta é um fingidor...

E finge o verso, ou quase o verso, e tenta,
Espera, espelha, espalha, experimenta,
E a poesia quase vai surgindo...

Mas, como um terno imitação de um Armani,
Este soneto, amigo, não se engane,
É só o poeta, um fingidor, fingindo...

18.8.04

O Enigma da Serpente
Este soneto é uma letra de musica.
Faz parte da trilha sonora que estou compondo para o musical infantil O Pequeno Principe.
Fala do encontro do Principezinho com a serpente no deserto.
Esta e as outras cações brevemente estarão disponiveis em mp3 em site brevemente divulgado.

Eu não vou muito longe, me arrastando.
Eu ando como quem arranha o chão.
Não sei andar correndo nem voando.
Eu ando quase como um arranhão.

E muita gente me acha um bicho estranho
E acha estranha a minha condição.
O meu caminho eu traço enquanto arranho
O chão como quem vai de escorregão.

Eu não vou muito longe. Mas cuidado.
Basta somente um beijo meu, gelado,
Somente um beijo pra te levar

Por mares nunca dantes navegados,
Por sonhos que jamais serão sonhados
E o coração não ousa imaginar...

12.8.04

A palavra certa

Compreender os designios de Deus
Não é questão de raciocinar...
Deus grava a escrita certa
Em linha certa...
A gente é que é incapaz de soletrar...

11.8.04

Cuidado quando voce for escrever poesia no Livro de Plantão
ou A fogueira da Inquisição não se apagou...

Não pode verso em Livro de Plantão.
Não pode rima em plena Portaria.
Nos corredores pode também nção.
Na Recepção não pode ter poesia.

Não pode verso escrito em receituário.
Versinhos causam grande confusão.
Seja discreto, portanto, em seu poemário,
E siga sempre o Manual de Instrução:

Não rime nada que comprometa.
Segure a onda da sua caneta.
Sonetos só se forem pra tapear.

Por isso evite escrever poesia.
Tome cuidado porque a Auditoria
Costuma, invariavelmente, não gostar...

6.8.04

A fraternidade em flocos

A fraternidade não se intimida.
Resiste à dor e à dificuldade.
Não capitula, ainda que ferida.
Serve de antídoto pra infelicidade.

Não esmorece quando coagida.
Não vive à cata de novidade.
Não queda desatenta ou distraida.
Não teme ou treme ante a fatalidade.

A fraternidade. Nunca dividida.
Nunca deixada prá trás. Nunca perdida.
Não faz acordos com a iniquidade.

Amor que dura por toda a vida.
A dracma que jamais será perdida.
O amor tem flocos de fraternidade.

A fraternidade

A fraternidade se diverte e brinca,
Faz coisas tolas parecerem sérias.
A fraternidade não tem limites:
Resiste aos virus e às bacterias.

E enquanto brinca e se diverte, cuida.
Como um remedio que os anjos dão.
E enquanto cuida com paciencia e zelo
Vai se tornando um só coração.

A fraternidade. Nada a copia:
Tratado, pensamento, poesia...
Nada contem tanta sinceridade...

Benditos sejam os irmãos que a vida
Faz com que vivam sem despedida...
Não há adeus na fraternidade...

4.8.04

O Papel Infeliz
Em Campos, minha cidade, há dois matutinos: a Folha da Manhã e O Diário.
Obedecem linhas politicas distintas e por vezes chegam a noticiar o mesmo fato como se fossem fatos diferentes.
Aos matutinos da minha cidade, o meu soneto.

Culpado! Culpado! Escreve a Folha...
É inocente! Garante O Diário...
Um jornalismo de multipla escolha
Feito pra um mundo todo ao contrário...

O objeto. Um assegura: é rolha.
O outro jura que é um dromedário.
Um diz que é culpa de uma abelha a bolha,
O outro, de um maníaco sanguinário.

Está criada a informação zarolha
Quando um jura que é toco, outro que é trolha
E onde nenhum dos dois admite falha...

E sob esse surrealismo extraordinário
Resta ao leitor esclarecido a encolha
Ou o papel infeliz do grande otário.

31.7.04

Adormecendo...
"Mano, aproveito a ocasião (inocência de Lucas) para a lhe pedir outra vez uma poesia sobre o sono das crianças."
De meu irmão Celso após ler O Pote de Ouro, aqui neste blog...

Desliga o fio da correria:
Escola, pipa, televisão...
Somente o sono por companhia:
O quarto de dormir do coração...

Desliga o som. Desfaz tudo. Esvazia
O pensamento. Guarda a respiração.
E após tudo vazio inventa e cria
Usando as letras da imaginação...

Desliga a luz e faz o faz de conta:
Inventa, molda, escreve, escolhe e apronta
De olhos fechados, pra ninguém ver...

Feito um segredo seu e do seu sono...
Feito uma idéia que não tem dono
E mora dentro do adormecer...

Receita para se tornar um Doutor Exemplar...
Uma homenagem à covardia e à omissão daquele que obedece, adubos do abuso, do desmando e da estupidez daquele que manda...

Sê bonzinho, Doutor, com quem te ofende,
E prá quem te ameaça diz: Amém!...
Bendito seja o Doutor quando ele atende
Numa só tarde quase ou mais de cem...

E não reclama, Doutor, mas sê bonzinho
Com quem te pune mesmo sem razão...
Um cordeirinho é sempre um cordeirinho...
Um tubarão é sempre um tubarão...

Com quem te explora, sê complacente...
Com quem te lesa, sempre sorridente...
Vai relegando tudo... Deixa estar...

Quem sabe um dia, porque Deus não falha,
Tu exibas, orgulhoso, uma medalha
De Honra ao Mérito, Doutor exemplar...

28.7.04

A tristeza diária
À minha amiga Bruna (www.fotolog.net/brubruzynha) após me pedir perdão pela tristeza diária...

Não te perdoo pela tristeza diária
Porque não há nada pra perdoar...
Tristeza não é pecado, moça linda,
Nem é pecado querer chorar...

Portanto fica assim do seu jeitinho...
Não precisa contar nem se explicar...
Estarei sempre por aqui, pertinho,
A porta sempre aberta. Pode entrar.

E não precisa dizer nem falar nada.
Pode ir deitar ou sentar-se, recostada.
Descansa o coração que tá tristinho...

Conta comigo, delicada amiga...
Se não quiser nada dizer, não diga...
Mas fica sempre com meu carinho...

27.7.04

O olhar da palavra

Tem gente que detesta poesia...
E não por não gostar, mas por ter medo...
Como quem morre de medo de bruxaria
Ou de os versos comentarem os seus segredos...

Tem gente que tem pavor, mas que ironia:
A poesia é leve feito um brinquedo,
Não tem pecado, a nada desafia,
E nunca fez ninguem morrer mais cedo...

É só palavra. E quem se arrepia
E teme os resultados que ela cria,
É porque andou, e como andou, pecando...

O que essa gente não desconfia
É que o mal não é o verso. É a hipocrisia.
O verso é só a palavra observando... 

26.7.04

Necessidade

Escrevo às vezes por sonoplastia...
Por ter vontade de batucar...
Pelo ritimo da palavra na poesia...
Escrevo às vezes por necessidade de sambar...

23.7.04

Aos donos do Poder
 
Quem pode, manda.
Quem tem juizo recorre se precisar.
Quem manda, até sem perceber, desmanda.
Quem tem juizo não morre por esperar.

Quem pode é sempre o que rege a Banda.
Quem tem juizo às vezes para prá escutar.
Quem pode é só a metade. É uma banda.
A outra, quem tem juizo pode mostrar.

Quem pode pensa que pode
Sem perceber que nem só de
Poder consiste o mandar...

Quem tem juizo não se desespera...
Quem tem juizo se prepara e espera
O tempo de quem manda terminar...

21.7.04

O Amor

Ah...Quando amares,
Ames assim:
Entrega inteira,
Sem faltar nada...
O amor é doce
Quando é fruto da alma
Completa e inteiramente apaixonada...

16.7.04

O pote de ouro
- Lucas, Lucas, venha ver o arco-íris!! - eu chamei meu irmão
- Hoje não choveu... Achei que só tivesse arco-íris quando chove...
in www.fotolog.net/marianaesuacam
 
Mariana,
Com 3 anos
É natural
Que seu irmão ainda não saiba:
Não é necessário,
Lucas,
Chover
Para ter arco-iris
No céu...
Um pote de ouro...
Isso sim
Faz os arco-iris
Acontecerem...

As varias formas de amar
 
Tem muita gente que ama assim:
Eu gosto de voce, mas gosto mais de mim...
Tem muita gente que ama assado:
Eu não sou ninguém sem voce do meu lado...
Tem muita gente que ama frito:
Voce é linda, mas eu sou mais bonito...
Tem muita gente que ama cozido:
Minha vida sem voce não tem sentido...
Tem muita gente que ama assim:
Um dia longe de voce é o fim...
Tem muita gente que ama assado:
Voce tem sorte por ter me encontrado...
Tem muita gente que ama frito:
O meu amor é maior que o infinito...
Tem muita gente que ama cozido:
Eu sou o que há de bom, não é, querido?
 
Assim, assado, frito, cozido:
O Amor é sempre crédito adquirido...
Cozido, frito ou assado, assim
A falta do amor é que é ruim...

15.7.04

Intimidade
Li em um banner promocional: Que momento, ao lado de seu pai, voce gostaria de ter gravado?
 
Hoje, cheio de saudade,
Sem ter momento nenhum pra recordar,
Sem ter imagem, sem ter sorriso,
Qualquer jeitinho bom de ele falar,
Eu so queria um minuto
Pertinho do pai querido
Que a saudade me levou,
Que o amor deixou comigo,
E de quem eu já nem sei
Me separar. 

14.7.04

O Coração Necessário

É necessário um Coração valente
Para vencer a escuridão da sombra...
O mal é quase sempre inconsequente,
Por isso assusta, e amedronta e assombra...

É necessário um Coração gigante
Feito um Colosso que nunca tomba...
Que não se curva à dor dilacerante
Nem capitula ante o ataque à bomba...

É necessário um Coração prudente
Que cruze intacto o Inferno de Dante...
O mal é sempre e cada vez mais mau...

É necessário um Coração paciente
Que siga sempre em frente e confiante
Até a vitória final...
Vozes
Para minha amiga Debora Assad

Às vezes cantam canções felizes,
Outras nem tanto,
Às vezes Cantos de Liberdade,
Outras em busca da absolvição,
Às vezes vozes que vem da boca,
Mas outras vezes, do coração.
Às vezes lentas,
Outras velozes,
As vezes meio assim:
Nem sim,
Nem não...
Às vezes saem meio preguiçosas,
Às vezes versos,
Às vezes prosas,
Às vezes pontos de interrogação...
Às vezes Carreras,
Às vezes João Gilberto,
Às vezes vozes de um cantar discreto,
As vezes de ouvir o mundo inteiro...
Às vezes vozes do interior mineiro,
Às vezes bem do Rio de Janeiro...
São como as vestes da canção as vozes...
São a maneira de Deus falar...
São o outro som do coração
E às vezes
Um jeito delicado de lutar...
Se a dor tem dias de nos visitar,
Ou se a alegria não sabe se conter,
Se a gente acorda com vontade de chorar
Ou com uma sede danada de viver,
Bastam as vozes
Como intrumento
Para o encantamento acontecer...
Vozes...
Distribuindo ao vento seus encantos...
Sem sem perceber,
Viver qualquer canção...
Do mesmo modo
Que ja dizia
Milton Nascimento:
"O que importa é ouvir a voz que vem do coração"...
Vozes
Veladas
Veludosas
Vozes
Tomem estes versos
Por gratidão...

13.7.04

A Poesia Escondida
Um soneto dedicado a meus dois fotologs:
www.fotolog.net/oprematuro
www.fotolog.net/diadebranco


Eu gosto de tirar fotografia:
Ela fala a verdade quando eu mostro...
A foto não contém hipocrisia
Nem subserviencia. Por isso eu gosto.

Eu gosto de brincar dessa mania:
Eu fotografo depois eu posto.
Eu nunca trago a máquina vazia
Mas sempre a cara e o coração expostos...

Como quem traz segredos de alquimia,
Como quem tira e leva mas não cria,
Como quem pega sem desfalcar,

Eu gosto de tirar fotografia
Por ter encontrado sinais de poesia
Na minha máquina de fotografar...

10.7.04

Por onde Chico?

Por onde Chico Buarque de Hollanda,
Seu verso e a sua voz encadeada?
Por onde passa, por onde anda
Espalhando a sua canção engatilhada?

9.7.04

A foto e o poema

Não era a foto da grosseria.
Não era a fotografia da agressão.
Não era a imagem da pancadaria.
Era uma foto de sangue sobre o chão.

Mas era foto. Não poesia.
A foto prova. A poesia não.
Por isso o medo da fotografia.
Por isso a imediata demissão

Não era sangue de hemofilia,
Nem gotas de trombocitopenia,
Mas sim, pingos de chute e de agressão.

Era a impressão digital da covardia...
Da violência... Da selvageria...
Da vida envergonhada pelo chão.


Desindividuos

Desindividuos são gentes sem postura...
Comportamento descomportado...
Seres humanos com vida e sem ternura
E um histórico de vida desbotado...

Desindividuos. Águas que evaporam.
Gentes que vão sem deixar saudade.
Por quem os sinos e os homens nem choram.
Pessoas sem personalidade...

Desindividuos. Seres diários
Que não constam sequer nos dicionários
Por serem coisas tão comezinhas...

Desindividuos. Gentes estranhas.
Quem há de compreende-los? A as suas manhas?
E a sua forma de vida tão mesquinha?

7.7.04

Um Anjo chamado Angela
Para Angela Sarmet, minha amiga, poetisa e pediatra...
Exatamente nessa ordem...


E Angela, sem asas, consultando...
Dizendo: Vinde a mim as criancinhas...
E as criancinhas amam Angela, um Anjo
De jeito maternal. E sem asinhas.

E atende como quem rima brincando...
São poesias suas receitinhas.
E o Anjo Angela vai receitando
Dizendo: Vinde a mim as dodoizinhas...

Sem asas, Angela, sobrevoando,
Vai se entregando, vai se entregando,
Vai semeando perolazinhas...

Adoro estar com Angela trabalhando...
Parece Deus ali, abençoando,
Dizendo: Vinde a mim as doentinhas...

6.7.04

O nome da flor
Um Chico modificado para uma autentica Margarida.
Minha irmã honra a delicadeza da flor que leva em seu nome...


O seu coração tem serenos jeitos
Modos suaves... Saberes modestos...
De tal maneira que priduz, perfeitos,
A intenção e a perfeição do gestos...

29.6.04

O Coronel e o Inferno

_Poeta, Poeta!!! Não me mande para o Inferno!!!
Disse-me uma vez um Coronelzinho...
Mas como eu faria isso se o Inferno
É um lugar pra onde se vai sozinho?

Tem gente que vai pra ele bem depressa...
Tem gente que vai bem devagarinho...
Tem gente que já segue em linha reta...
Tem gente se perde no caminho...

O fato é que o Poeta não condena...
Um poeminha é coisa tão pequena...
Diante de um Inferno é tão fraquinho...

Pro inferno vai quem planta o pecado
Aonde era pro bem ter sido semeado...
Mas ele ainda não sabe... Coitadinho...

25.6.04

Distraçao
Para Bruna, Santa Maria, RS, apos sua foto passeando na beira mar admirando surfistas... (www.fotolog.net/brubruzynha)

O surfista, dentro d'agua,
Tentando a sua onda cheia,
Vagueia velozmente, feito arraia...
Distraido, nao repara na Sereia
Maravilhosa e divina que passeia
Na beira
Da areia
Da praia...

Sonetinho cheio de Saudade
Para minha amiga Carla Cristina (www.fotolog.net/anginhaa)

Se eu fosse fazer silencio da saudade que te sinto,
Seria o certo nunca mais falar,
Silencio imenso, fundo e duradouro,
Silencio quase de nem respirar...

Se eu fosse fazer silencio do tamanho da saudade
Seria assim, como me ausentar,
Silencio feito o silencio de quem dorme
Um sono leve e calmo... E sem roncar...

Por isso troco o silencio por riminhas,
Dessas riminhas de agradar anginhas...
O verso diz ser ter que pronunciar...

Mas se eu fosse fazer verso a cada saudade, guria,
Eu não parava mais de escrever poesia...
E ai sim, voce ia se cansar...

21.6.04

O Dia da Colheita
Versos para a ingratidão...

A colheita acabou. Não sobrou nada.
Um cheiro ácido. Um sabor estranho.
Um gosto cru de terra desmatada,
De agua pouca e ruim e imprópria ao banho.

E o que era a colheita planejada,
Safra multiplicada, lucro, ganho,
O tempo fez tornar-se terra amarga,
Deserto inominado e sem tamanho...

A colheita acabou. Restou o luto.
A folha seca no lugar do fruto,
E, no lugar do adubo, a folha morta...

A semente parecia tão bonita...
Mas era só casca... Mas era só fita...
Mas era só coisa feia e torta...

17.6.04

Oração pelas criancinhas

Pai do Céu, protegei os nossos filhos,
E os nossos netos, e os nossos sobrinhos,
E as criancinhas carentes de afetos,
E as criancinhas dos nossos vizinhos,

E as menininhas da Guatemala,
E os menininhos do Paquistão,
E as criancinhas filhas de ouro e gala,
E as criancinhas filhas do Alcorão,

Crianinhas pretas, brancas, amarelas,
Abençoai-as, Pai, e as das favelas,
E as que padecem nos Hospitais,

Abençoai, Senhor, as criancinhas,
As bem nascidas e as prematurinhas
E as que não sabem o que é ter paz.

16.6.04

Dias assim

Os dias nublados parecem tristes.
Parecem dias que não tem cor.
As nuvens perdem os seus contrastes.
Olhar o céu perde seu sabor.

São tristes dias os de céu nublado.
São feitos de horas quase sem fim
Aonde o azul, quase acinzentado,
Parece pronunciar um nome ruim.

Por tão nublados, nem parecem dias.
Tempos propícios às ventanias.
Murmurios convidando à solidão.

Dias nublados parecem longe,
Lembrando um céu quando o céu se esconde
Dentro de gotas feitas de não...
Sonetinho aos intolerantes...
A intolerancia assassinou Cristo.
Semente do holocausto nazista, a intolerancia morrerá um dia do próprio veneno...


Tem gente que não tolera poesia.
Tem gente que não tolera a coisa certa.
Tem gente que não tolera a luz do dia.
Tem gente que não tolera a casa aberta.

Tem gente que não tolera companhia.
Tem gente que não tolera a linha reta.
Tem gente que não tolera a própria cria.
Tem gente que não tolera a própria meta.

Tem gente que não tolera, então conspira.
Tem gente que não tolera, então atira.
Tem gente que não tolera, e discrimina.

Tem gente que não tolera e se condena.
Tem gente que não tolera e se envenena.
Tem gente que não tolera e se elimina.

15.6.04

A neblina

Quem espalhou a neblina em meu caminho?
Quem embaçou, desse modo, a minha visão?
E assim também essa falta de carinho
Com que direito me embaça o coração?

7.6.04

Resposta à Rita
Ao ler o poema Versos para os urubus uma leitora, Rita, pergunta em seus comentários:
E será que vale a pena ter coração?!
E para que não fique sem resposta...


Não vale à pena ter coração.
Diz a razão que não vale à pena.
O coração é que é o grande senão
E ao mesmo tempo é como um poema:
É quase feito de fragilidade,
Depositário de coisa pequena,
Caminha com grande dificuldade
E passa a vida a nos causar problema.
Por isso, respondendo à sua razão
Para que conste no seu teorema:
Não vale à pena ter coração.
Mas ninguem é feliz pela razão.
Esse é o dilema.
A razão pode trazer conforto,
Um bem estar qualquer de coisa amena.
Felicidade não. Pois é. Que Pena.
O coração, por sua vez, é um azarão
Que chega de repente e rouba a cena.
Nenhuma razão imita
Essa simplicidade extrema:
O coração, por nunca ter razão,
Caminha acima do valer à pena.
Por isso é que valendo à pena ou não
Ainda que incomode a sua razão
O coração é lei que tem por lema
Permanecer além da conclusão,
Ser a condenação do que o condena,
Ser muito além dessa inutil discussão,
Pois se a razão condenou,
O coração
Foi quem tratou com perdão à Madalena.

Voce pergunta se vale a pena
Ter coração...
E eu te respondo em forma de poema:
Pode ser que valha não...
Mas cara Rita,
A razão sem coração
Parece coisa tão tola
E tão pequena...

4.6.04

Versos para os urubus

I
Os urubus se alimentam de restos e sobras,
Pedaços de visceras, postas de mão,
Os urubus se contentam com partes e lascas,
Os urubus se contentam com podridão...

Procuram a matéria apodrecida e fria,
Procuram a matéria em decomposição,
Ou urubus preferem a porcaria,
Os urubus desprezam o coração...

E assim, vivendo de resto e posta,
Se alimentando do que ninguem gosta,
Os urubus e sua condição...

Buscam o resto, o infecto, o putrefeito,
Os urubus e seu soturno jeito,
Buscando o nojo. O perfeito não.

II
E o coração que os urubus recusam
Na sua vida de danação,
É o que escapa, e permanece intacto,
É o que resiste à degradação.

E o coração, intacto e recusado
Por não ser troço em decomposição,
Por não ser resto, por não ser lixo,
Por não ser musculo em putrefação,

Acaba por tornar-se um gem guardado,
O germen do futuro, preservado,
A resistencia, que é nunca em vão...

O coração do corpo destroçado.
O coração, tesouro resguardado.
Semente de esperança, o coração...

III
O coração que os urubus recusam.
O coração que permanece inteiro.
O coração, quase despercebido.
O coração, quase como um guerreiro.

O coração que os urubus ignoram.
O coração, presença diminuta.
O coração, morada dos que choram.
O coração e sua força absoluta.

O coração que os urubus nem sabem
Porque no peito de urubus nem cabem
O coração e a sua força imensa.

O coração, gigante adormecido,
Que é pelos urubus despercebido.
O coração que faz a diferença.




A Felicidade que nunca cessa...

A minha felicidade escapa à toa...
Escapa à toa e permanece em mim
Assim como é a Fonte de água boa,
Como é o sol... Mais ou menos assim...

A minha felicidade escapa e fica,
E cada vez que escapa, aumenta mais...
Como a bactéria que se multiplica,
Do jeito como quando escapa o gás...

Feito um esguicho de chafariz,
A felicidade que me faz feliz
Do mesmo modo faz feliz quem me rodeia...

Felicidade que escapa e permanece,
Do mesmo modo que é o poder da prece,
Da mesma forma que a Lua Cheia...

2.6.04

Oração pelas fofoqueiras
Há os que trabalham em Hospitais e passam seu tempo trabalhando.
E há os que não tem ou não sabem o que ou como fazer e passam seu tempo fofocando...



Senhor,
Abençoai o Corpo de Enfermagem,
Dai luz às faxineiras e às copeiras,
Cuidai dos funcionários da Triagem
Mas dai um jeito nas fofoqueiras...

Guiai, Senhor, nossos motoristas,
Curai os abcessos e as frieiras,
Abençoai as nossas Nutricionistas
Mas dai um jeito nas fofoqueiras...

Iluminai nossos Diretores,
Guiai a mão dos nossos Doutores,
Evitai brigas e choradeiras...

E protegei nossos pacientes,
Cuidai da ira dos descontentes
Mas dai um jeito nas fofoqueiras...
Amém...

31.5.04

A Greve
Dedicado à paralisação dos Setores de Emergencia da Prefeitura de Campos em 26/05/2004

A greve não é sinonimo de rebeldia.
Não pode ser confundida com agressão,
Nem com desrespeito para com a Chefia,
Nem com insulto ou insubordinação...

A greve não é sinonimo de anarquia.
Não pode ser tomada como agitação.
Não é desmando a greve. E nem folia.
E nem pecado. E nem má intenção.

A greve é o escudo do atingido,
A voz de quem se quer fazer ouvido
Pelo Prefeito, pelo Patrão...

É o engasgo do sapo na garganta.
É a internação quando a injeção já não adianta.
É por um pé prá fora da prisão.

10.5.04

A Primeira vez que um Anjo me tocou...
À minha Mãe Hilda, no seu dia...

A primeira vez que um Anjo me tocou
Eu nem notei quando falou: Meu filho...
Eu senti fome: me amamentou...
Eu senti sono: o Anjo me abraçou...
E me aqueceu quando eu senti frio...

A primeira vez que um Anjo me tocou
Eu nem notei o Anjo cuidar de mim...
Me acompanhou nos deveres da Escola,
E me ensinou a tocar cantarola
E a suportar o temporal ruim...

A primeira vez que um Anjo me tocou
Nem reparei na sua delicadeza
Capaz de me contar, feito párabolas,
Estórias, contos, poesias, fábulas
E os misterios sem fim da Natureza...

A primeira vez que um Anjo me tocou
Eu nem observei seu braço forte
Reinventando o curso dos rios,
Iluminando os dias mais sombrios
E me ajudando a escapar da morte...

A primeira vez que um Anjo me tocou
Eu não notei ter sido tocado...
Mas, desde então, quando há ventania,
Eu uso o vento pra fazer poesia
E o Anjo fica sempre do meu lado...

A primeira vez que um Anjo me tocou
Eu recebi desse Anjo a minha vida...
E hoje, quase velho e já cansado,
Ainda sinto o seu toque encantado
Cicatrizando a minha ferida...

A primeira vez que um Anjo me tocou
Foi de uma forma definitiva...
E desde então o Anjo em meu caminho...
E desde então o Anjo e seu carinho...
E desde então o Anjo em minha vida...

8.5.04

Ainda sobre a Felicidade...
Sobre um poema escrito para /anginhaa

A Felicidade é um chafariz distante
Onde alguns poucos vão se molhar...
É um doce inteiro feito para os Anjos
Que Deus nos permitiu experimentar...

É uma raspinha da perfeição...
Gole do bule de bem-estar...
É aonde quer chegar o coração...
É onde o amor resolveu morar...

Às vezes nem precisa motivos pra ser...
Às vezes chega perto sem dizer...
Às vezes faz a gente descansar...

A Felicidade... Tão procurada...
Tão poucas vezes identificada...
Tão evidente em todo lugar...

4.5.04

O Doce dos Anjos
Para www.fotolog.net/anginhaa, minha amiguinha gaucha...

Às vezes, quando vejo o teu sorriso,
Alguma coisa me faz pensar:
Teu riso é um doce feito para os Anjos
Que Deus nos permitiu experimentar...

26.4.04

A Palavra vã

Quando a palavra perde o sentido
E torna-se palavra sem valor,
É como um verso, quando esquecido,
Canção que já não canta o trovador..

Quando as palavras perdem verdade
E já não tocam seu coração
Por não trazerem sinceridade
E por dizerem sim querendo não,

Busca, em seu coração, seu dicionário...
Faz uma cata em seu vocabulário...
Outras palavras virão te visitar

Mais delicadas, mais convincentes,
E a carencia que há na alma dos carentes
Essas novas palavras vão curar...

23.4.04

Essencial
Para www.fotolog.net/monikabreu que postou em seu flog um lindo beijo que recebeu de seu amigo Vinicius
O poema foi meu comment.


Amigo é coisa pra se guardar
Do lado esquerdo do peito
Mas se guardar do lado direito
Também tá perfeito...
Amigo é coisa pra se postar...
Não parar pra reparar se tem defeito...
Amigo é coisa pra se beijar
De um jeito
De não ter como negar...
Amigo é coisa pra se guardar...
Coisa pra se preservar...
Coisa pra sempre se ver...
As vezes chove,
As vezes faz sol,
As vezes relampeja pra valer...
Mas um amigo faz sempre,
E não as vezes...
Amigo é a melhor coisa de se ter...
A Derrota

Não há derrota em cair ferido...
Não há derrota em tombar, decapitado...
Não há derrota em ter sido subtraido,
Esquartejado, morto, bombardeado...

Não há derrota em ter sido traido...
Nem é derrota ter sido crucificado...
Não é derrota ter sido substituido
Ou, na camara de gás, envenenado...

Derrota é a vitória sem sentido.
É o espirito de vingança do atingido.
É o louro adquirido com o pecado.

É o ódio que habita o coração doído.
É não se conformar por ter perdido.
É não saber ter sido derrotado

13.4.04

Meus Sentimentos

Por vezes velozes...
Por vezes lentos...
Meus sentimentos...
Por vezes dores atrozes...
Por vezes doces momentos...
Meus sentimentos...
Por vezes guardados
Feito tesouros...
Por vezes espalhados pelos ventos...
Meus sentimentos...

31.3.04

A Vaga

Cheguei ao Hospital de manhã cedo.
Tentei estacionar: mas que suplicio...
Encontrar vaga pra parar, que enredo...
Questão de sorte. Quase um sacrificio.

Quatro milhões de carros amontoados
De todas as maneiras pelo chão...
Quatorze fuscas enfileirados
Em frente a um Audi... Que situação...

Doze ambulancias comunitárias,
Outras dezoito da Prefeitura,
Imensa movimentação diária,
Um alvoroço sem noção nem cura...

Tentei, no entanto, seguir meu caminho,
Achar a vaga tão desejada
Pra não ter que parar o meu carrinho
Do outro lado da rua, na calçada...

Que sorte grande: bem na minha frente
A vaga... A vaga... Cheguei primeiro...
Mas esse mundo de Deus é incoerente:
Perdi a vaga para um Enfermeiro...

Mais adiante uma outra vaga havia
Em frente à Emergencia do Hospital.
Tentei. Corri. Mas... Pura ironia...
Tomou-a uma Assistente Social...

Mas era meu dia de sorte e mais adiante
A vaga que eu pedi a Deus... Porreta!!!
Mas que situação decepcionante:
Perdi a vaga pruma fisioterapeuta...

Uma outra vaga ali... Que coisa boa...
Ja imaginava o fim desse monólogo...
Mas isso estressa qualquer pessoa:
Perder a vaga para um Psicólogo...

Dei mais um giro... Tudo lotado...
Mas de repente, não mais que de repente,
Aquela ali... Mas algo deu errado...
Perdi a vaga pro meu paciente...

Mas não desisto fácil. Fui seguindo.
Incorporei Cabral e: Vaga a vista!!!!
E quando eu tava quase conseguindo
Perdi a vaga pruma Nutricionista...

Outra pro Segurança, pro Copeiro,
Pro Academico, pro Administrador,
Pra todo mundo, pro mundo inteiro,
Pro Cozinheiro, pro Padre, pro Pastor...

E quando eu tava quase desistindo
De achar lugar pra estacionar,
Quando eu já tava quase me sentindo
Um sem vaga, e meu carro, um sem lugar,

Muita calma nessa hora, eu ponderei...
Quem sabe dessa vez ela aparece...
Cincoenta e cinco voltas depois cansei...
Estacionar aqui ninguem merece...

Uma hora e meia... O tanque já sem saldo...
Decidi, atrasado e quase morto:
Ou uso a vaga do Doutor Geraldo
Ou vou estacionar no heliporto...


28.3.04

O Silencio
À todos os prematuros que nos deixam mais sozinhos...

Agora só o silencio ocupa o espaço
Aonde o bebê prematuro agonizava,
Como se fosse o sono de um cansaço,
Um verso inteiro escrito sem palavra...

Agora só o silencio, absoluto
Aonde tudo em torno se agitava...
Silencio castigante. O som do luto.
O sofrimento quando se calava.

Ventilação, ambu, adrenalina,
Laringoscópio, tubo, dopamina...
Os convidados para a despedida...

Agora só o silencio. O resto cessa.
Já não há correria. Não há pressa.
Silencio onde ainda há pouco havia vida...

23.3.04

Os Anjos Moram Em Santa Maria, RS
Para Carlinha

A cada dia um carinho, uma mensagem,
um mail, um verso, uma palavra boa...
E pouco a pouco aquela sua imagem
Vai se tornando pra mim outra pessoa...

Um anjo que encontrei no meu caminho
Como eu pensei que nunca ia encontrar...
Um anjo que me trata com carinho
Como faz tempo ninguem vem me tratar...

Santa Maria... Porque tão distante?
Não podia ser logo ali adiante?
Porque tão longe, anjinho, sua morada?

Deve ser porque os anjos moram
Onde os meus pensamentos nunca choram...
Um beijo, anjinho. Um beijo. E só. Mais nada.

Para Carlinha
Que sem saber foi ficando meu anjo
E sem saber mora em meu coração.
Para Carlinha esse soneto tolo.
E meu carinho. E minha saudade.
E uma vontade de beber um chimarrão...

21.3.04

Falando do Amor
De uma carta para Carlinha, linda amiga...

Eu te diria que eu não soube amar
Nem conservar o amor que eu conquistei.
Por conta disso eu me perdi num mar
De desamor... Foi quando eu me afoguei...

E acrescentaria: eu tentei me salvar.
E ao tentar salvar-me, eu me enganei.
Eu juro que eu tentei, sem descansar,
Salvar meu coração... Como eu tentei...

Confessaria que eu não soube. Eu fui
Feito um balão que se perdeu no espaço,
Um pássaro sem asas prá voar...

Feito um Castelo à beira-mar que rui,
Feito um desenho resumido a um traço,
Feito uma carta de ninguém mandar...

14.3.04

Um poema para o Dia Nacional da Poesia
Em 1847, 14 de Março, nasceu Antonio de Castro Alves, o Poeta dos Escravos.
O Dia 14 de março é o Dia Nacional da Poesia.
À Castro Alves, poeta imortal e sempre presente em minha vida...


Um poema para o Dia
Nacional da Poesia
Chamando a rima suave
Para a nossa companhia,
Trazendo a letra caliente
Para a nossa vida fria,
Infusão deliciosa
De cor e perfumaria...

Um poema para o Dia
Nacional da Poesia
Que secasse os malfeitores
E abolisse a hipocrisia,
Desmascarasse os falsários,
Que tombasse a dinastia
Do larápio que roubou
Nossa alegria...

Um poema para o Dia
Nacional da Poesia
Tecido com rima leve,
Sutil feito um fio guia,
Oásis de letra boa,
Recarga prá alma vazia,
Repouso para a cansada,
Sabor prá monotonia...

Um poema para o Dia
Nacional da Poesia...
Um poema... Ah, se eu soubesse
Eu tentaria...

10.3.04

A Prematuridade
Aos meus prematurinhos registrados em www.fotolog.net/oprematuro, aos som de Aguas de Março.

O olhar capaz
De julga-la incapaz
Por tão somente
Ver nela os sinais
De delicadeza
E fragilidade,
Deixa escapar,
Por olhar sem olhar,
E de perceber
O que há de melhor
Na prematuridade:
O gigante escondido
Em corpo frágil,
A persistencia
Ante a desolação,
A Resistencia,
A vontade,
O banho de animo
E a promessa de vida
Que mora
Em seu coração...

7.3.04

O por do Sol
À minha irmã, após visitar seu post de hoje em www.fotolog.net/foradapista

O sol se pondo parece o sol nascendo.
E como o sol é o nosso dia a dia:
A gente pensa que está morrendo...
Que o mundo inteiro está se acabando...
Mas de repente, eis que a poesia...
O Poema impedivel

Não peça que eu escreva nenhum verso.
Eu nunca escrevo verso. É o coração
Que tem a idéia e me traz a letra
E põe a letra pronta em minha mão...

Por isso, não... Não peça... Eu não escrevo...
Adoraria. Mas não sei não.
É o coração quem colhe a palavra
E tece a rima feito um artesão...

E quando ele se cala, e não diz nada,
E a poesia queda calada,
E faz silencio como quem termina,

É que a palavra, quando gestada,
Simula o som sutil da madrugada
Preparando a manhã que se aproxima...

Por isso não espere que eu escreva.
Eu não escrevo nada. É impressão.
Quem tem a idéia e burila a letra
E prepara o verso é meu coração...

5.3.04

Sobre ser seu amigo...
Para Drikaper

Ser amigo seu deve ser facil.
E delicioso. Também deve ser bom.
Feito musica de Chico
E voz de Caetano
Em verso de Drummond...
Saudade
Para Tahiana Fernandes

A saudade é assim:
A gente sente,
Ela aumenta.
A gente esquece,
Ela passa.
E quando a gente finge que não lembra
Ela persiste, oculta, feito traça.
Saudade.
Que traz presente quem vai distante.
Balde gigante onde cabe o mundo inteiro...
Por conta da saudade
Estar alhures
É como estar no Rio de Janeiro.
O furto
A Marcos Caiado após leitura de seu poema LAMENTO. (www.marcoscaiado.blogger.com.br)

O furto feito
A dor proporcionada
Não acrescentam nada
Ao que roubou...
O amor não cessa
E ter a impressão de que se acaba
É feito olhar
E não conseguir absorver
O amor...

13.2.04

A Minha Cidade
Escrito em um Cyber Cafe de Buenos Aires durante a visita a uma foto da minha cidade postada hoje em http://www.fotolog.net/cityflashes

A minha cidade parece cansada...
Parece que se cai, desiludia...
Resiste, mas parece abandonada...
Parece morta, mas ainda tem vida...

A minha cidade parece esvaziada...
Parece uma cidadela perdida...
Nao morre, mas parece anemiada...
E dorme, feito a Bela Adormecida...

7.2.04

Comentário

A poesia não serve prá nada,
Pataca pouca de qualquer valor...
Mas dizem que seu Reino é em Passárgada
E que seu coração é um trovador...
Há coisas que a gente só vê por aqui.
Ou
Há uma balança escondida dentro do banheiro do consultório de pediatria do HGG.


Já vi champanhe saindo do chuveiro,
Chover o ano inteiro no sertão,
Já vi comendador virar padeiro,
Soldado raso virar capitão,
Vi lanterninha chegar primeiro,
Muito reserva golear timão,
Mas esconder balança no banheiro
Eu juro, eu nunca tinha visto não...

Já vi até perfume perder cheiro,
Já vi bicheiro dentro da prisão,
Muito político distribuir dinheiro,
Muito pastor vendendo salvação,
Vi muito bom aluno baderneiro,
Muito inventor vender sua invenção,
Mas esconder balança no banheiro
Eu juro, eu nunca tinha visto não...

Já vi bastante amigo interesseiro,
Muito dinheiro virar tostão,
Já vi chutinho enganar goleiro,
Muito atrilheiro chutar o chão,
Incendiário vestido de bombeiro
E muito pit-bull lamber sabão...
Mas esconder balança no banheiro
Eu juro, eu nunca tinha visto não...

Paulista tirar sarro de Mineiro,
Baiano fazer pose de machão,
Gaúcho andar no Rio de Janeiro
Com sua bombacha e bebendo chimarrão,
Machão virar dondoca em fevereiro
E Marinheiro virando a mão,
Mas esconder balança no banheiro
Eu juro, eu nunca tinha visto não...

Eu já vi Bush ao sol de Varadero,
Fidel bebendo Coca no Japão,
Sadam Houssaim saindo de um bueiro,
Bin Laden pilotando um avião,
Eu já vi Jackson tocar pandeiro,
Bill Gates inventar um programão,
Mas esconder balança no banheiro
Eu juro, eu nunca tinha visto não...

6.2.04

Tá errado

Manifesto contra a obrigatoriedade do relógio de ponto para os médicos da Emergencia do Hospital de Guarus.

Eu não aceito. Isso é um boi na pista.
Eu vou marcar porque não sou lesado.
Mas vigiar ponto de socorrista
Tá errado, ta errado, ta errado...

Eu nunca fui contra a obediencia
E isso não me faz um desmiolado,
Mas marcar ponto estando na Emergencia
Tá errado, tá errado, tá errado...

Ordens são ordens. Se estabelecidas
Têm mais que se fazerem obedecidas,
E desobedece-las é pecado...

Eu obedeço. Não sou leviano.
Mas o relógio de ponto é desumano.
E tá errado, tá errado, tá errado...

5.2.04

Essencial

A poesia não serve prá nada...
Não tem nenhum valor a poesia...
Mas dizem que lutou na Nicarágua
E derrubou um Rei na Alexandria...

Puro capricho. Palavra aguada.
Coisa miuda de pouco valor.
Mas eu ouvi da boca de uma escrava:
Foi o poema quem me libertou...

A poesia: jogo de palavra,
Brinquedo bom com que Drummond brincava.
Mais quase nada. Pura alegoria.

Mas dizem que Bandeira embelezou-a,
Ouvi alguns chamando-a de Pessoa...
Ah... Eu não sei viver sem poesia...

4.2.04

A poesia não serve prá nada

A poesia não serve prá nada.
Não tem nenhum valor a poesia.
É feito gnomo, gelfo, duende... É feito fada...
Coisa do mundo da fantasia.

A poesia não serve prá nada.
É só palavra formando rima.
É coisa de garota apaixonada.
Rabisco de caderno de menina...

A poesia não serve prá nada.
Só prá namorada, madrugada,
Lua, criança, distração, mania...

A poesia não serve pra nada...
É feito folha desidratada...
Mas eu não sei viver sem poesia...
Seguindo a vida

Eu não sei porque voce foi embora...
Porque partiu assim da minha vida...
Fez como alguem quando joga fora
O pouco resto da maçã mordida...

Eu não sei porque voce foi um dia...
Porque não quis ficar com meu carinho...
Porque deixou minha companhia...
Me desprezou no meio do caminho...

Tanta entrega deixou voce cansada?
Não sei... Voce não disse nada...
Seguiu seu rumo como bem quis...

Não sei porque, mas voce foi embora...
Desde então sou quem epera a hora
Que é de reaprender a ser feliz...

1.2.04

A Segunda Vez que eu Vi um Anjo
Para Beta
www.fotolog.net/botan


A segunda vez que eu vi um anjo
Eu não sabia: era real ou sonho...
Tinha os cabelos avermelhados...
Tinha um olhar, eu percebi, tristonho...

A segunda vez que eu vi um anjo
Eu nem acreditei: ela existia...
Tinha um olhar delicado... Um jeito manso...
Parecia poesia...

A segunda vez... E eu nem imaginava
Que anjo agora fotologava
Fazendo poses cheias de charminho...

A segunda vez... E eu quase me assustei...
Foi heresia, mas eu pensei:
Eita, pedaço de mal caminho...

Para Beta com carinho.
A Primeira vez que eu vi um anjo é o nome de um poema que dediquei a meu irmão em www.quasepoesia.blogspot.com

23.1.04

Ai que Caô...
Dando sequencia à serie As Mais Maravilhosas e Estupefantes Marchinhas de Carnaval de Todos os Tempos...
Em Homenagem aos colegas do Hospital de Guarus que lutaram o ano inteiro por aumento salarial e so receberam promessas vazias...
Para que esse ano a gente não saia novamente de palhaço...


Ai que Caô ôôô ôôô
Ai que Caô ôôô ôôô
Lutei o ano inteiro
Por aumento de salário
Chegou o CCarnaval
E eu com essa cara de Otário...

Ai que Caô ôôô ôôô
Ai que Caô ôôô ôôô
A complementação
Que o prefeito disse que dava
Virou cachê de um show
Na praia, onde a galera eestava...

Ai que Caô ôôô ôôô
Ai que Caô ôôô ôôô
Trabalho pra caramba
É uma fila que não para...
Eu tenho a impressão
Que tão zuando a minha cara...

21.1.04

Pra brincar o carnaval...
Iniciando a série As Mais Famosas Marchinhas de Carnaval de Todos os Tempos.
Dedicado aos funcionários do Hospital Geral de Guarus que após um ano de promessas estéreis continuam sem receber sua complementação pelo trabalho realizado.
Prá ver se esse ano a gente não sai de palhaço...

_Oh, funcionário, porque estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?

_É o complemento do nosso salário
Que o Prefeito disse
Que ia dar e não deu...

Ah, seu Prefeito...
Cade o valor
Do funcionário que lutou e que venceu?
Ve se paga o complemento
Como voce prometeu...

20.1.04

Cantada

Todo mundo quer ficar com Veronica:
Ela é graciosa demais.
Tem um jeitinho de mulher bionica
E um tom de voz de quem fala e faz...

Todo mundo quer ficar com Veronica
Mas ninguém sabe do que ela é capaz...
A sua velocidade é supersonica...
Ela é tão cheia de gás...

Todo mundo quer ficar com Veronica...
Nobreza faraonica e voraz...
E já ninguém fala mais de Carla e Monica...
Só de Veronica... E cada vez mais...

Todo mundo quer ficar com Veronica...
Eu olho todo mundo e sigo atrás...
Ah... Se eu pudesse eu também ficava com Veronica
Pra tentar encontrar nela a minha paz...

25.12.03

Da série : cada um tem a Canção de Natal que merece...
Em 2003, depois de muita luta e muita promessa politica de oferecer ao grupo de médicos da Emergencia do HGG uma complementação salarial, chegamos ao Natal so com palavras vazias dos que deveriam honrar o que prometem. Dai a canção, dedicada a Papai Noel...

Entrei devagarinho
Na Emergencia do Hospital.
Pedi a Papai Noel
Um presente de Natal.
Como é que Papai Noel
Não se esquece de ninguem
Se deixou o meu presente
Prá entregar ano que vem?...

Mostrei meu salarinho
E o trabalho sem igual...
Papai Noel pediu
Pra deixar passar o Natal.
Como é que Papai Noel
Ta aprendendo a enganar bem...
Entra ano, acaba ano
E so promessa e nhem nhem nhem...

5.12.03

Recomeçando
Após ouvir uma canção de Chico Buarque

Amo tanto e de tanto amar
Eu adoeço.
Eu queria retornar
Ao meu começo
E aprender a amar
Sem adoecer,
Porque amar não foi feito
Prá morrer...

2.12.03

Não precisa responder
E eis que o primeiro relógio digital do mundo homenageado com um soneto deu defeito...

Talvez por não estar acostumado,
Talvez apavorado, e até com medo,
Talvez por ter sido tão criticado,
Ter sido causa de tanto enredo,

Talvez por isso, amanheceu quebrado
O aparelhinho que através do dedo
Sabia dedurar o atrasado
E o nome exato do que chegou cedo...

Talvez por ter sido tão comentado
Foi que, por tempo indeterminado,
O aparelhinho virou brinquedo...

E eu já tinha até me conformado...
Me diz, mas diz sem ser mal educado,
Me conta agora onde é que eu boto o dedo...

25.11.03

Sonetinho Desapontado
(ou: Cecilia Meirelles tinha razão...)

Foi instalado no Hospital de Guarus um relogio de ponto que funciona mediante registro da impressao digital dos funcionários. Um must de tecnologia num país de banguelas. A fila interminavel de funcionários que entravam e saiam do Hospital cruzando pela nova maquininha gerou o maior pandepá. E a poesia se fez presente. Ou o médico chega e começa o atendimento e esquece o ponto ou entra na fila do ponto e ignora o atendimento...

Se eu começo o atendimento, atraso o ponto...
Se eu bato o ponto, atraso o atendimento...
Se eu não passo o cartão, ganho um desconto...
Se eu não atendo é um descontentamento...

E assim eu sigo, um tanto o quanto tonto...
Uma dúvida atroz me rói por dentro:
Eu largo a Emergencia e marco o ponto
Ou largo o ponto e abaixo o vencimento?

O ponto ou a Emergencia? A febre ou o ponto?
O ponto digital ou o sangramento?
Ó duvida cruel... Eu não aguento...

Como é que eu faço? Com quem eu conto?
Será que tem que ser assim e pronto?
Quem é que muda esse regulamento?

19.11.03

O Coração

O coração, sem freio, sem cadeado,
Não reconhece mão ou contra-mão.
Não sabe nunca o que é certo e o que é errado.
Caminha por ai sem proteção.

Não tem defesa. Não é murado.
Vai desarmado. É a sua condição.
Não leva má intenção e é descuidado.
Escolhe sempre errado o sim e o não.

Não tem palavras. Bate calado
Dentro do peito, trancado
Feito um inconfidente na prisão...

Por não ter muros, vive espalhado...
Por não ter freios, desabalado...
Por não ter olhos, não tem perdão

16.11.03

Um poeminha

Eu faço verso de um palavreado.
Que é coisa breve, Quase sem som.
De rima improvisada e sem pecado.
De um pensamento de desejo bom.

Eu faço verso de não dizer nada.
Nenhuma novidade. Nenhum brilho.
Como quem reinventa a caminhada.
Como quem redescobre o próprio trilho.

Eu faço verso de pequena rima,
De poesia tosca e pequenina,
De pés descalços, tocando o chão...

Eu faço verso de motivo aguado
Que não tem tranca nem cadeado
E nem tem freios no coração...

10.11.03

O pomar
Após escutar o novo CD de Lô Borges

Um dia, se eu tiver merecimento,
E for morar em Milton Nascimento,
Eu vou catar um cesto só de acordes
No pomar de Lô Borges...

4.11.03

As trinta gramas
João Geraldo nasceu com aproximadamente 1200 gramas. Nos 10 primeiros dias de vida chegou a pouco mais de um quilo. Hoje, por volta de 1350 gramas, percorre um lento caminho até a alta. À nosso pequeno homenzinho, este poema.

Mil trezentos e vinte... Mil trezentos e cincoenta...
As trinta gramas essenciais...
A progressão, que é vagarosa e lenta...
As trinta gramas a mais...

Sessenta, setenta, oitenta... Então noventa...
Tão pouco e tanta diferença faz...
Como se fosse a medalha de quem tenta...
As trinta gramas fundamentais...

E a cada grama, um Everest inteiro...
Como quem cruza a fronteira... Como quem chega em primeiro...
Como quem ganha a carta de alforria...

As trinta gramas de felicidade...
As trita gramas buscando a liberdade...
As trinta gramas a mais de cada dia...

31.10.03

Como se fosse

Eu faço verso como quem esbarra
Num balde d'água, lavando o chão
Do corredor,
Da sala,
Da varanda,
Do quarto,
Do interior do coração...

Eu faço verso como quem pesca...
Como quem lança o anzol e a isca ao mar...
Eu nunca sei
Que forma,
Conteudo,
Som,
Palavra,
Idéia
Eu vou pescar...

26.10.03

Nova Súplica ao Poema

Trazei-me, Poesia, a boaventura...
A que há em toda parte e falta em mim...
Contaminai-me com a tua alma pura...
Com teus caminhos cheios de sim...

Banhai-me, Poesia, com a ternura,
Daquelas ternuras que não tem fim...
Como se fosse uma infusão que cura...
Gosto de fruta... Cheiro de alecrim...

E fica, assim, comigo, poesia...
Clareza misturada à luz do dia...
Delicadeza misturada ao vento...

Cuida de mim como quem cuida a cria...
Fica comigo e em minha companhia...
Descansa e brinca no meu pensamento...

19.10.03

O Poema
Revisado

Quando estou triste o poema me alimenta...
Desesperado, o poema me contém...
Se estou carente, o poema me sustenta...
Quando estou mal o poema me faz bem...
Se o dia é feio, o poema o reinventa...
Se falta todo mundo, o verso vem...
A minha garrafinha de agua benta...
Meu lugarzinho no trem...

Quando estou bem, o poema me acalanta...
Feliz da vida, o poema é quem me traz...
Se estou em paz, a palavra se agiganta...
Se estou mais leve, a palavra me refaz...
Se tudo em volta é luz, o verso canta...
Se tudo é só sorriso, o verso é mais...
O meu tapete voador... Meu mantra...
Meu pedacinho de paz...

17.10.03

Voce é assim
Poema revisado.
Ao rever alguns poemas escritos há algum tempo, encontrei este.
O que a principio era só uma cantada ganhou um verso no final que acaba sendo um elogio e uma defesa da amamentação.
Eis ai duas das varias funções do aleitamento que não estão nos livros.
A cantada.
E o poema.
E cada vez que se estudar esse tema, a amamentação, e se propuserem novos angulos de visão e entendimento de sua complexidade, ainda assim a cantada e a poesia surpreenderão os que consideravam o assunto esgotado.
Aos bebes, às suas nutrizes e a seus particisuperpais meu agradecimento e minha poesia...
Ou quasepoesia...


Mais deliciosa que escrever poesia.
Mais limpa do que a voz de João Gilberto.
Voce é mais gostosa que a Bahia.
Mais clássica que um Lawrence no deserto...

Mais fotogenica que o Rio Guaiba.
Mais delicada do que chuva fina.
Melhor do que um forró na Paraiba.
Taquicardiza mais que a adrenalina.

Mais firme do que o som de Luiz Gonzaga.
Melhor do que escutar Chico cantando.
Bem mais desconcertante que Ipanema.

Possui mais poesia que Passargada.
Mais vida que um bebe amamentando.
Por isso é que eu te fiz esse poema.

13.10.03

O Coração
O Coração tem um sereno jeito... Fado Tropical/Chico Buarque-Ruy Guerra

O Coração tem um sereno jeito
E ao mesmo tempo um jeito intempestivo...
Vive buscando achar o amor perfeito
Enquanto perde-o, mesmo sem motivo...

O Coração, Nação sem preconceito...
Incoerente... Persuasivo...
Ao mesmo tempo que vai dentro do peito
Se atira ao mundo, quase obsessivo...

O Coração, com seu jeito sereno,
É feito o soro contra o veneno,
É o que há por trás de toda conclusão...

Sereno jeito, Coração insano,
Que busca o céu e que é tão leviano...
Terra misteriosa, o Coração...

9.10.03

Torpedo

Você mora no meu pensamento.
Você vive no meu coração.
Carrego seu nome escrito nas linhas
Da palma da minha mão...

8.10.03

Embuçado

Em que lugar mora o verso não escrito?
Deita as palavras em que lugar?
Em que pedaço intocado do infinito
Que não se deixa ver nem desvendar?

4.10.03

Autonomia

As vezes a poesia fica assim:
Presa na minha alma, que é ruim,
Ou solta, esparsa, na imensidão...
Quero tomá-la de volta...
Não consigo...
Acho que ela é como é o meu coração
Desencontrado

A poesia, sem contar, saiu
Levando os versos que eu tinha pra escrever...
Deixou meu coração cheio de estórias
Mas sem palavras de poder dizer...
Quando o verso vai embora a alma fica
Como um navio quando se perdeu...
Estou sentado... Beira do porto...
Espero a volta do verso que era meu...

28.9.03

A forma leve de amar você
Tati é um anjo. E anjos são livres por definição. E mesmo os anjos que não tem asas nem vestidinhos brancos nem tocam trombetas nem moram nas nuvens, mesmo estes, são livres, porque voar e ser livre é coisa dos anjos. Amar um anjo não pode ser amar assim, de qualquer jeito. Amar um anjo deve ser leve feito espuma, embora imenso feito o mar. Amar um anjo é aprender a forma leve que há de amar.

É não precisar se ver a toda hora:
Pode ser se ver agora
Mas pode ser ficar uma semana sem se olhar...
É não cercar seu caminho...
É ter que às vezes ficar sozinho
Pra ficar sempre
Sem se cansar.
É não passar torpedo o dia inteiro
Porque o amor, quando é verdadeiro,
Não depende de um torpedo
Pra durar.
E se chegar sexta feira
E der vontade de fazer besteira,
Andar a toa,
De passear,
E justo nesse dia você resolver voar,
É ter paciência...
Tomar um gole de tolerância...
Amar é mais que estar na sua presença...
Amar é imenso, mesmo que à distancia...
É não ficar preso.
Nada dessa coisa de fixação...
É como dar um pouco de desprezo...
É dar um pouco de desatenção...
Mas é amar também com lealdade,
Amar é feito de fidelidade
E de vontade de ser feliz...
Mas o caminho da felicidade
É feito as ruas da grande cidade:
Tem setas, placas, pontes, guardas, curvas,
E a contramão,
E o fino por um triz...
Amar assim é leve feito a espuma
Embora enorme feito o grande mar.
É quase nada, feito um grão de areia,
E ao mesmo tempo imenso feito o ar...
Quase apagado, como a lua nova,
Que é a mesma lua cheia das noites de luar...
É aprender a não ser pra ser...
Não precisar dizer pra dizer...
Não precisar tocar pra tocar...
É aprender a forma leve que há de amar.
O perfume
Ontem pela manhã eu tive a nítida impressão de um fim de história.
Um fim tão delicado quanto seu inicio.
E como todo fim delicado deixa um perfume, também este fim deixou um aroma suave de perfume.
Um poema?
Ah... Uma estória que começa em poesia não pode ter um fim, ainda que suposto, sem poesia...
Mas foi apenas uma impressão que não se cumpriu...
E que deixou um poema que aqui segue.


Vivi dias felizes do seu lado...
(e eu nem sonhava quando te encontrei)
Foi algo assim como um tempo encantado...
Eu era um pária e me tornei um Rei...

Olhei para um futuro iluminado
E eu quis ter o futuro que eu sonhei...
Mas o futuro passou... virou passado...
Passou... mas foi verdade o que provei...

Saboreei poesias deliciosas...
Um mar de rosas maravilhosas
Depois de tanto tempo sem carinho...

Passou. Não quis ficar. Voou, que pena,
Deixando o seu perfume em meu poema
E as marcas dos seus pés no meu caminho...

Passou. Não quis ficar. Mas o perfume
Traz o sabor suave do seu nome...
De um tempo bom quando eu não fui sozinho...

26.9.03

Voce é um anjo...

Você é um anjo? Responde...
Caiu do céu? Diz pra mim...
Conta-me: foi quando? aonde?
No meio de que jardim?
Caiu do céu por acaso
Ou veio aqui cumprir uma missão?
Chegou bem na hora? Houve atraso?
Alguma antecipação?
Como cruzou meu caminho
Descobrindo onde é que eu tava,
Oferecendo o carinho
De que eu tanto precisava?
E porque não foi embora
Logo depois que me viu?
Porque mudou minha estória?
Porque é que não desistiu?
Porque é que não sentiu medo?
Porque ficou do meu lado?
Porque contou seu segredo?
Porque aprendeu meu passado?
Porque fez planos futuros?
Porque tentou me ajudar?
Brilhou meus dias escuros
E me ensinou a voar...
Porque me estendeu seu braço?
Porque tocou minha mão?
Porque curou meu cansaço
Da vida, da ingratidão?
Porque pediu um poema?
Porque me olhou delicada?
Porque essa voz tão serena
E essa pele amorenada?
Você é um anjo, confessa...
Caiu do céu feito um passe...
Como quem chega sem pressa...
Como quem pousa com classe...
Disse-me coisas de um jeito
Saboroso de falar...
Tomou conta do meu peito
De um jeito bom de tomar...
Ficou comigo. E, brincando,
Transformou a minha vida...
Eu nem vi você chegando...
Eu nem penso em despedida...
Um anjo bom, certamente...
Um anjo que me envolveu...
Entrou na minha vida lentamente...
Um anjo bom... Que bom que Deus me deu...
Amigas
Para Tati e Silvana

Basta um olhar. E é como a frase inteira...
Basta um sorriso, mais nada...
Amigas: Deus as fez dessa maneira...
Amigas: donas da mesma risada...
Gostosa essa amizade verdadeira...
Cumplicidade compartilhada...
Amigas: Deus as quis dessa maneira...
Amigas: que expressão mais delicada...

22.9.03

A Palavra Ruim

Eu disse coisas que não deveria...
A hora errada... a palavra errada...
Eu falhei justo quando não podia...
Eu fiz a coisa toda desastrada...

Em vez de me alegrar na sua alegria,
Em vez de participar da sua risada,
Eu fui indelicado aquele dia
Deixando a sua alma magoada...

Naquela hora, eu não percebia,
E, sem perceber, eu quase te perdia
Como quem perde uma jóia lapidada...

Minha indelicadeza te ofendia...
Minha palavra ruim te entristecia...
Eu fiz besteira aquela madrugada...

19.9.03

Os Sonetos Imperfeitos
Já há algum tempo eu comecei a tentar escrever sonetos. O máximo que consegui foi escrever estruturas imperfeitas que apavorariam Bilac. Chamei-os uma vez de sonetos imperfeitos, dado o numero abusivo de quebra das regras da criação dos sonetos. Como não escrevo seguindo mapas, decidi continuar a escreve-los assim, barbarizando as regras sem me arvorar a contesta-las. É apenas um modo de escrever poemas. Me desculpem os puristas mas arriscar é essencial. Este poeminha nasceu hoje entre as consultas de um ambulatório do SUS em Tocos, Distrito de Campos. Não sei porque exato esse tema veio me caçar ali na roça. Mas ai esta mais um soneto imperfeito feito de supetão...

Sonetos imperfeitos, como os faço,
Com cada verso escrito em um tamanho...
É essa a característica do meu traço...
E eu confesso: já nem acho estranho...

Sonetos imperfeitos como escrevo...
Que vem naturalmente de onde vem...
Depois de prontos é que eu percebo
A graça que cada um deles guarda e tem...

Sonetos imperfeitos. Nem sonetos,
Nem imperfeitos. Simplesmente feitos
Sem dar aviso... De supetão...

Sonetos imperfeitos que me cercam...
São feito gotas de óleo que não secam
E lubrificam meu coração...

17.9.03

As três formas de amar

Amar
Primeira forma

Primeiro eu. Segundo eu. Depois você.
Você me pediu pra amar assim.
Mas como, se eu não sei como fazer
Deixar você pra cuidar de mim?

Se o seu sorriso é que me faz sorrir
E a sua paz é a minha felicidade,
Falta aprender como não sentir
Tanta necessidade

De entregar tudo pra você primeiro
Para que assim sobre o mundo inteiro
Pra conquistar do seu lado.

Primeiro você. Isso é tão verdadeiro.
Segundo nós. Tem mais sabor e cheiro.
Terceiro eu. É bem mais reservado.


Amar
Segunda forma

Primeiro você. Segundo você. Depois eu.
Você falou que é assim que sabe amar.
Eu aceitei. Você me convenceu.
Ninguém entrega o que não pode dar.

Ninguém garante nada sem certeza.
Não compra nada sem ter pra pagar.
Sua verdade, a sua delicadeza...
Foi como isca de me pescar.

E não me importo em ser o terceiro.
O ultimo, às vezes, chega em primeiro.
Tem tantas voltas pro mundo dar...

Aceito o seu amor. Ele é sincero.
Sabor do doce que há muito espero.
Te amar é bom em qualquer lugar.


Amar
Terceira forma

Primeiro nós. Segundo Nós. Depois nós.
É aí que eu quero poder chegar.
Como duas vozes cantando a mesma voz.
Como a areia da praia guarda o mar.

Primeiro nós. Segundo nós. Depois o mundo
Inteiro só pra gente conquistar.
Nem um nem outro em primeiro ou em segundo,
Mas feito as duas asas de voar...

Mas feito a tinta e a tela... O carro e a estrada ...
A lua e a viola enluarada...
A rima e o poema pra rimar...

Num tempo quase sem diferença.
Entrega inteira... Integração imensa...
Num tempo suave que se chama amar...
A batida do coração

O coração de toda gente
Bate assim: tum-ta... tum-ta...
E é nesse batucar
Que segue em frente...
Mas a batida do meu é diferente:
Batuca assim: tum-tati...
E nesse ritimo ele bate
Enquanto eu vou tateando o que ele sente...

12.9.03

O passo do tempo
Escrevi esse poemito tolo há mais de 20 anos. Fazia parte de meu caderninho de versos dos tempos da Medicina no Fundão. Tolo, jamais o publicaria. Uma foto-imagem guardada em www.dialomagem.blogger.com.br me o fez recordar. Nada. Quase nada. Um canto de um garoto ainda. Atonito com a velocidade da vida. Não fosse a imagem deliciosa do blog visitado, permaneceria comigo. Eu o reparto. Como quem dividia biscoito Maria e ki-suco no primário. Nada demais nesse verso. So comunhão.


O tempo passa depressa...
Tão depressa... Ninguem vê...
Pergunto: Que pressa é essa?
E o tempo, com muita pressa,
Não para pra responder...

11.9.03

A fração de um segundo

Ontem voce me disse assim: te amo...
Foi sem querer. Mas aconteceu.
Tentou mudar. Pode ter sido engano.
Mas voce sabe bem: falou, valeu...

Ontem voce escapou dizer: te amo...
Trocou pra eu te adoro assim que percebeu.
Mas depois que a bomba explodiu, causando o dano,
Não tem mais jeito... Já aconteceu...

Não era pra dizer. Mas voce disse.
Falou como quem diz uma tolice.
Eu te amo. Escapou. Foi de repente.

Quem sabe alguma coisa ai dentro
Ta balançando seu pensamento
Modificando o que voce sente?

Voce me disse eu te amo . E num segundo
Eu me senti como quem ganha o mundo.
Voce me deu a vida de presente.

8.9.03

Razão nenhuma

O coração, astuto e arredio,
Passeia livre da exatidão.
Vive desafiando o desafio
Com seu comportamento sem razão.
O coração... Que nunca está vazio...
Que nunca tem razão... O coração...