13.12.20

Vacina

Assim que chegar a vacina há tanto tempo esperada 
Vou procurar uma fila pra poder me vacinar,
Passar o dia inteiro em pezinho, sem sair dela pra nada,
Nem beber água ou comer um sanduíche e voltar,

Vou sair de casa cedo, vou chegar de madrugada,
Levar um pão com salame e um chiclete pra mascar,
Um livro de Mário Quintana pra dar uma aliviada,
Um Chico Buarque de Holanda pra ver a banda passar,

E assim que essa boa notícia for finalmente anunciada 
Eu falto o plantão, deixo a conta do condomínio atrasada,
Eu só não saio da fila, que é prá poder me curar 

Da pandemia, do medo, dessa rotina assustada,
Quero sorrir novamente com risada vacinada,
E só então nesse dia vou poder comemorar...

12.12.20

Diretivas

Eu na verdade, preferia não morrer,
Mas já que tenho que morrer, eu gostaria
De não sofrer, mas se eu tiver de sofrer,
Que eu sofra em paz, como sofre quem confia...

E entre escolher ser reanimado ou escolher
Não deixar interferir no coração em assistolia,
Eu escolho deixar o médico livre para fazer
O que estiver ao seu alcance nesse dia...

Porque eu já passei a vida inteira fazendo escolhas,
A maioria delas delas sob óticas caolhas,
Para tempos depois, desescolher, arrependido...

Então, pelo menos para morrer, não escolho nada,
Já ganhei a vida de mão beijada,
Por conta disso, um ultimo adeus agradecido...

7.12.20

Impermanência

Dias difíceis. Tristes esses dias,
Quando tudo parece desabar,
Dias pesados de atitudes frias,
Um pesadelo que se recusa a acordar,

Dias difíceis: chuva, ventania,
Parece que está tudo fora do lugar,
Expectativas secas e sombrias,
A impressão é de que pouca coisa vai sobrar,

Mas eis que a vida, com sua impermanência,
Aproxima-se, terá sido coincidencia?,
E me abraça, procurando me acalmar,

E me convence: tudo é passageiro,
A liberdade, o algoz e o cativeiro,
Respira fundo e acredite: vai passar...

28.11.20

O poema novo

Eu, desejando escrever uma poesia,
Mas sem motivo nenhum para escrever,
Tendo um computador por companhia,
E ao lado uns livros que comprei pra ler,

Tentei um verso, vi que cabia
No poema novo que eu desejava fazer,
E, ao trazer o verso do mundo da fantasia
Para o poema foi que eu pude ver

Que a poesia é ela mesma que se escreve,
Sempre na hora que ela acha que deve,
E não depende de ninguém querer,

Porque um poema novo, quando brota,
É como a agua da chuva que se solta
Das nuvens sem a gente perceber...


17.11.20

Gigantes

Aos bebês prematuros do mundo inteiro neste dia 17 de novembro, dia mundial da prematuridade 

Gigantes de poucos centímetros de comprimento,
De peso quase nenhum, e ainda assim gigantes,
Almas que enfrentam grandes desafios,
Vencendo tempos sombrios,
Vivendo histórias impressionantes...

Gigantes que deixam transparecer fragilidade, 
Que dependem de cuidado redobrado,
Mas com uma garra de sobrevivência que impressiona,
E comove, e inspira, e transforma, e emociona,
Mesmo o profissional mais experimentado...

Gigantes que precisam cercar-se de assistência,
Que muitas vezes respiram com dificuldade,
Mas que possuem poderes incríveis, 
E, acreditem, quase imbatíveis,
Disfarçados sob sua prematuridade...

Gigantes que desafiam a ciência,
Que movimentam profissionais mundo inteiro:
Estudos, cuidados, tecnologia,
Protocolos, dissertações e alguma poesia 
Para acalentar o coração desse  guerreiro...

Gigantes, mas não precisa chamá-los assim,
Pode chamá-los de heróis da resistência...
E por conta disso nunca desistam, mesmo nas horas mais pesadas,
Dessas pequeninas almas apressadas,
Que desafiam as letras da ciência...

Gigantes, porque é o que são desde que nascem,
Gigantes porque é o que nunca deixarão de ser,
Por isso essa homenagem nesse dia 
17 de novembro, com alegria,
Pelo que cada um deles nos diz, sem perceber...

4.11.20

Obrigado

Obrigado 
Por terem permanecido do meu lado,
Por não terem deixado eu me apavorar,
Pelas visitas,
Pelas mensagens,
Pelas chamadas de vídeo,
Pelas orações, pelos livros, obrigado,
Porque isso foi quase melhor que respirar,
Foi o que me manteve acordado 
Quando o corpo pedia pra desligar,
Bilhetes,
Até mesmo um pedaço de pizza com refrigerante gelado,
Um brownie,
Coisas diárias que eu nunca poderia imaginar 
O significado,
Porque a gente chega assustado,
Intimidado,
O virus faz questão de mostrar o seu lugar:
Ataca o pulmão,
Deixa o pulmão inflamado,
A vida dói,
Você não consegue evitar,
E sente medo, 
Um medo com o qual você não está acostumado,
Um medo de quem chega e não sabe se vai voltar:
Antibióticos, 
Tromboliticos,
Diuréticos,
Anti-inflamatórios,
Tudo em dose absurdamente cavalar...
O corpo cede:
Acessos venosos,
Exames seriados,
A ciência tentando tudo pra se safar,
Mas no meio  disso tudo,
Articulando calado
O tempo acabou se revelando meu principal aliado,
Desafiando aquilo que mais ninguém 
Teve capacidade de desafiar,
E a partir dai, a inflamação,
E a trombogenicidade,
E a febre,
E o medo,
E a falta de ar,
Sob a ação do tempo foram cedendo,
E perdendo sua capacidade de estragar 
A fisiologia,
O ânimo, 
A esperança,
E a vida foi retomando seu lugar, 
A dor foi se dirigindo pro passado, 
Da mesma forma que a dificuldade de respirar,
A inflamação,
O corpo cansado,
As coisas comuns que insistiam em incomodar,
Por isso é necessário deixar aqui registrado 
Meu muito obrigado,
Porque sozinho 
Eu não teria como lutar,
Vencer com o coração algemado,
Amordaçado seria impossível gritar,
Olhar pro alto com os olhos vendados,
Pedir ajuda sem ter com quem falar,
Então,
Cada carinho enviado 
Foi uma boia de não me deixar afundar,
Foi como uma ordem judicial: liberado,
Foi como um par de asas pra quem precisava voar,
O que passei vai permanecer arquivado,
São marcas que ninguém conseguirá apagar,
Mas cada vez que o coração 
Viver seu muito obrigado, 
A alma ficará mais leve
E seguirá pronta 
Pra recomeçar...

1.11.20

O remédio

O remédio 

Às vezes o nome dele é carinho,
Carinho que muita gente chama de atenção,
Outras vezes o remédio é um bilhetinho,
De vez em quando, uma ligação,

Quase sempre muito mais do que um sorinho,
O verdadeiro remédio é uma oração,
Que chega, gota a gota, de mansinho,
Numa outra espécie de bomba de infusão,

Por isso o remédio, muito mais que a cura,
É o alimento invisível que segura 
O pensamento, mais que a saturação... 

O remédio, que é para além dos prontuários,
Cujo significado escapa aos dicionários,
E faz morada no coração...

27.10.20

Oração

Papai do céu 

Livrai-nos das futilidades terapêuticas,
Dos tratamentos sem nenhuma serventia,
Das decisões protocolares e antiéticas,
Da negligência, da descortesia, 

Das técnicas desnecessárias e antipáticas,
Da comunicação vazia e fria, 
Que engessa e banaliza as nossas práticas,
E torna turvos nosso dia a dia... 

Protegei nosso bom senso da imprudência,
Nosso coração, da falta de paciência,
Livrai-nos do medo de aprender a amar, 

Cuidai dos nossos dias e dos dias
Daqueles que nos estendem as mãos vazias
Como um abraço, quando já não podem dar...

19.10.20

A dor

A dor. E seus vários significados. 
Da dor neurológica à dor social, 
A dor dos muitos sitios machucados,
O sofrimento, que é sempre individual.

Analgésicos, para corações despedaçados,
Não são o ponto final, 
Corações dolorosos precisam ser cuidados, 
Porque o cuidado é o que modifica todo o mal.

A dor e seus tentáculos perigosos,
Precisa de cuidados amorosos 
Para perder seu poder de maltratar,

E, no momento em que a dor tenta e não maltrata,
Ela evanesce, torna-se abstrata,
E segue, mas não consegue mais causar...

13.10.20

A poesia

É como um cobertor na noite fria,
É como um copo d'água no calor,
Um pão com queijo pra barriga vazia,
É como um machado pro lenhador,

Um pires de leite pro gato que mia,
Uma pista para o cão farejador,
É como o burrinho que levava José e Maria
Sem perceber que também levava o Salvador...

É hora estelar. Não se atrasa. Não se adia.
E quando você menos desconfia,
Ela se mostra com seu dom confortador.

Com poesia, o bom dia é mais bom dia,
E até a noite escura, com poesia,
É a nossa chance de escutar o criador...

Farmácia de poesia

Para a Casa do Cuidar

_Bom dia Doutor
_Bom dia, como passou a semana?
_Estou melhor, sim senhor,
Depois de Mário Quintana,

_Doutor, me ajuda,
Estou triste,
As vezes penso besteira
Eu não queria me sentir assim dessa maneira...
_Vou te passar um Thiago de Melo,
E antes de dormir, um Bandeira.

_Como vai?
_Melhor.
_ Maravilha.
_Pois é. Só notícia boa.
Não tem como ser diferente
Depois de Fernando Pessoa...

_Passou o enjoo?
_Mas claro, Doutor
Já estou bom.
Estou me sentindo mais leve
Depois de Carlos Drummond.

_Muito obrigado, Doutor,
Não uso mais fluoxetina,
Troquei aquelas caixinhas
Pela Cora Coralina.

_E Cecilia, tem usado
Pra aquela angústia que você sentia?
_Diariamente, Doutor,
Fiquei bom com poesia.

Vinicius me fez mais leve,
Manoel de Barros
Me devolveu a razão,
Mas foi com Augusto dos Anjos
Que eu consegui consertar meu coração...

Farmácia de poesia,
Todo dia
Poesia deixa a gente se curar.
Porque o verso, “caindo na alma,
É germe que faz a palma
É gota que faz o mar”

10.10.20

Um bebê que se vai

Um bebê que se vai é o amor de alguém, 
De uma mãe, de um irmão, de um avô, de um pai,
Não torna-se depois que se vai, um nada, um sem,
Segue como o amor de alguém, um bebê que se vai,

Um bebê, um amor, não importa de quem,
Que não se perde depois que a vida se desvai,
Nem se desfaz, de tanto amor que tem,
E de tanta vida que tem, não se desfaz,

É isso que as estatísticas não entendem, 
Os significados que transcendem
A esse amor que sobrevive às despedidas,

Um bebê, um amor, a eternidade, 
Essa outra face da maternidade
Ressignificando as nossas vidas...

9.10.20

Tradução

E não se engane: a vida vale à pena, 
E nem engane ninguém. Desnecessário. 
A vida é um grande e íntimo poema 
Da primeira à última página do nosso diário. 

Por isso não se engane,  adote o lema:
Viver sem necessitar de dicionário,
Porque o amor entende tudo, sem problema,
E não duvide, porque isso é extraordinário. 

E nem engane ninguém. Desenganado
É quem não precisa mais ser enganado, 
É quem aprendeu a mágica da vida, 

E a grande recompensa da procura 
É o outro significado que há na cura,
E a vida pode então ser traduzida.

4.10.20

Waze (meu coração)

Aonde eu quero chegar?
Por onde eu devo seguir?
Por quais esquinas eu não posso cruzar?
De que rotatórias é necessário fugir?

Em que momentos eu preciso acelerar?
Em que momentos eu preciso reduzir?
Como ter certeza de que eu não vou me atrasar
Ou chegar antes do portão abrir?

Como saber se alguém vai me esperar?
Como pedir se alguém pode me ensinar
A perder o medo de não conseguir?

E se eu decidir parar prá descansar?
E se a bateria acabar?
E se no meio do caminho eu desistir?

A esperança

A esperança é a última que vai embora,
E quase sempre volta logo em seguida,
Cutuca o coração da gente toda hora,
Acompanha a gente durante toda a vida,

Fica escondida quando a gente chora,
Mas, fingindo-se de desentendida,
Espera a gente do lado de fora,
E não desiste da gente, decidida,

A esperança, como um sobrenome,
Indisfarçável sempre, como a fome,
Como um documento de identidade, 

Insubstituível, a esperança,
A gente se cansa, mas ela não se cansa,
E segue com a gente para além da eternidade...

3.10.20

O ruído desnecessário

A portinhola fechada de forma descuidada,
O tom de voz desmedido da pessoa,
O volume desrespeitoso da risada,
A palavra. sem sentido e dita à toa,

A cuba sobre a incubadora, quase nada
Além do som excessivo que ressoa,
A pequena bebê, dessaturada,
Não tendo como lutar, então perdoa...

Desnecessário,
Mais que excessivo, cruel e solitário,
O ruído, castigo análogo à tortura...

_Silencio!! Cantam os anjos e os poemas,
Silencio, apenas,
E, de algum modo, é por ai a cura...

2.10.20

A esperança


Vamos falar de esperança,
Vamos plantar esperança,
A esperança é toda feita
De pedacinhos de amor,
Sem esperança
O coração se cansa,
E o coração, cansado,
Sente dor...
Por isso, espalhar esperança
E dividir esperança,
Porque a esperança espalhada
Frutifica,
A esperança
É uma bem-aventurança,
E não custa nada a esperança,
Fica a dica...
O tempo é hoje,
Vamos cuidar da esperança,
Vamos tratar a esperança,
Como se fosse um poema autografado
De Chico Buarque,
De Carlos Drummond,
De Cecília,
De Mário,
De Vinicius,
De Adélia Prado,
Vamos seguir a esperança,
Compartilhar a esperança,
A esperança é assim:
Nunca se gasta,
Você entrega, ela sobra,
Você oferece, ela volta,
Como um perfume que é bom
Quando se alastra,
Vamos olhar com esperança,
Vamos viver com esperança,
Qualquer semelhança com a luz
É a pura realidade,
Não há nada mais doce
Em toda vizinhança,
A esperança é o que existe de melhor
Na humanidade...

24.9.20

Paliativas

Ana Michelle,
Mas não precisa chamá-la assim, 
Pode chamá-la de amor, se desejar, 
Amor que não se esgota, amor sem fim,
Amor como é o amor que sabe amar, 

E porque para ela não existe tempo ruim,
Espalha luz dizendo: "enquanto eu respirar"...
Ana Michelle, mas que se parece um Querubim
Desses com que Deus costuma nos presentear.

Ana Michelle, que é como um passarinho 
Sobrevoando as pedras do caminho 
Como se fosse o próprio poema de Quintana, 

Ana Michelle, e já não preciso de mais nada,
Inspiradora sua caminhada, 
Ah, como é grande o amor que habita em Ana.

17.9.20

As aulas da Ana

Parece uma melodia buarquiana,
Uma letra de Vinicius, de Gullar, 
Jobim passeando por Copacabana,
É quase como o Baden a dedilhar, 

É bom, como um poema de Quintana,
Alegre omo uma cantata de Bach,
É leve como é leve a voz da Nana, 
É livre, como um pássaro a voar,

E desafiador, como uma esfinge, 
Que lança, atiça, acende, mas não finge,
É como um rio que mais parece um mar, 

É como um veredito, é como um grito, 
É como o silêncio diante de um mito,
Ouvir Ana Cláudia falar...

8.9.20

A compaixão

A compaixão dá conta de tudo:
Do que se pode fazer, 
Do que se tenta,
E do que a gente tenta conseguir,
Não tem limites, a compaixão,
É sempre atenta,
Ela é caminho mais certo pra seguir,  
Às vezes a gente é fraco,
Quase não aguenta,
E nessas horas ela vem nos acudir,
Cuidando de quem cuida
De quem está mergulhado na tormenta,
A compaixão dá conta,
Sem desistir.
A compaixão dá conta de tudo, 
Até da lágrima,
Da saudade,
E do cair,
Mesmo da morte a compaixão dá conta,
Receita pronta:
Compaixão.
Não tem melhor remédio pra dormir.