16.3.03

Carta ao Prefeito de Campos dos Goytacazes
Carta escrita para representar a equipe médica da Emergencia do Hospital Geral de Guarus em Campos, RJ, junto à Prefeitura após fracassarem inumeras tentativas de contato. Publicada na edição de hoje da Folha da Manhã, um dos principais jornais de nossa região.

Sr. Prefeito,
Desculpe-nos a forma inusitada e incomum de comunicação.
Mas reconheça:
Um Prefeito é mais difícil de ser encontrado
Do que um médico de plantão.
A gente bem que tentou, Sr. Prefeito,
Mas em vão.
Até documento assinado e carimbado
Foi devidamente por seu Gabinete protocolado
Mas nenhuma resposta chegou à nossa mão.
Por isso é que arriscamos essa carta inusitada
E nos organizamos para que fosse publicada
Nesse jornal de grande circulação.
É a sua ajuda que pedimos, Sr. Prefeito,
E a sua compreensão.
A gente tem trabalhado com presteza
Tentando estar à altura da grandeza
Do Hospital Geral de Guarus,
A menina dos olhos da sua gestão.
Mas não tem sido fácil, Sr. Prefeito.
É imenso e complicado e desgastante
O atendimento à população.
É gente grave que chega à cada instante
Precisando de atenção.
E a eficiência na forma do atendimento
Nem sempre é reconhecida
E nem sempre é tratada com gratidão.
É mais fácil para um Prefeito receber o reconhecimento
Do que para um médico de plantão.
Mas se é aqui que se diagnostica e trata, Sr. Prefeito,
O infarto, a arritmia, a hipertensão,
A hipofonese das bulhas,
A precordialgia e a fibrilação,
Se a gente não pode contar com o apoio
Daquele que é conhecido como o Prefeito do Coração
Com o apoio de quem a gente poderá contar então?
E não é muito o que a gente quer, Sr. Prefeito:
Somente conversar sobre a nossa complementação.
Um adicional qualquer sobre o salário
Que é ganho com tanto trabalho
E que merece uma compensação.
Por ser sincero nosso pedido
E delicada a nossa situação
Já recebemos o apoio da nossa Direção.
Igual apoio tivemos
Do Presidente da Fundação.
Todo esse apoio legitima nossa luta, Sr. Prefeito,
E reconhece que o salário que recebemos
Precisa de uma injeção.
Mas sem a sua palavra, Sr. Prefeito,
Sem a sua aprovação,
Tudo dito, nada feito,
Não há solução.
Por isso essa forma inusitada, Sr. Prefeito
Merecidamente eleito
Publicamente merecedor do conceito
De melhor Prefeito da Região,
Por isso esse pedido: Sr. Prefeito
Recebe nossa Comissão.
É de uma boa conversa
Que muitas vezes
Nasce a tranqüilidade e a harmonização.
Recebe nosso respeito,
Sr. Prefeito,
Nosso colega de profissão.
Agradecemos sua paciência
E desde já aguardamos a sua convocação.

6.3.03

A primeira vez que eu vi um anjo...
Ao meu irmão Carlinhos
Perdi de alguma maneira o meu irmão Carlinhos em fevereiro de 1973 aos 17 anos de idade. Aos 7 meses, de uma queda acidental de seu carrinho, foi ao chão. Acudiram-lhe dois anjos incansáveis: meu pai e minha mãe. Em 3 de março Carlinhos estaria fazendo 47 anos. Foi a primeira vez que vi um anjo...

I
Foi a primeira vez que eu vi um anjo.
Cabelos negros. Pele clara. E ria.
Ele falava sem usar palavra.
Trazia em seu olhar a sua energia.

E quase não se mexia e nem andava.
Não pronunciava as coisas que dizia.
Era a linguagem dos anjos que ele usava.
Era a voz do seu coração que a gente ouvia.

Talvez a linda negra cabeleira
E a pele branca e leve feito pêra
Deixassem sugerir fragilidade...

Foi a primeira vez que vi um anjo.
Eu sempre vi meu irmão dessa maneira.
Sem culpa. Sem pecado. Sem maldade.


II
Foi a primeira vez que vi um anjo.
De nome Carlos, mas que poderia
Chamar-se luminosidade, cântico,
Delicadeza, abnegação, poesia...

E numa madrugada, fevereiro,
Sobressaltado, acordei. Meu pai chorava.
Jesus chamou nosso anjo... ele dizia...
E a madrugada, longa, não passava.

Naquela noite eu pude ouvir um anjo
Chorando um outro anjo que partia,
Esvaziando aquela madrugada.

A noite mais cruel. A mais comprida.
A derradeira dor da despedida.
A curva anunciando a nova estrada.


III
Foi a primeira vez que vi um anjo.
Como era doce a cor do seu olhar.
Falava a língua dos anjos. Parecia
Que não precisava da voz para falar.

Que era a sua alma que sorria.
Que percorria tudo sem andar.
Um pássaro sem asas que sabia
Como voar e para onde voar.

Foi a primeira. A mais desconcertante.
A mais especial e impressionante.
Um sonho sem dormir nem acordar.

Foi a primeira vez que vi um anjo.
E hoje eu trago em mim a sua estória.
E guardo dentro de mim o seu olhar.

24.2.03

A palavra dada

Entra à vontade. A casa não tem portão.
Pode chegar.
Olhar não paga. Ficar não paga. Nem levar não.
Se quiser pode pegar
Porque não estraga.
Abre a boca. Abre os olhos. Abre a mão.
Se quiser pode copiar, clonar, distribuir.
Nem precisa pedir,
É só pegar.
Não desmonta, não desbota,
Não se gasta, não se esgota
E cabe em qualquer lugar:
Na cabeça, na viola,
Na hora de namorar,
Nas palavras do discurso de formatura,
No bar,
Na coisa não inventada,
Na conduta mais vulgar...
Pode entrar e pegar. Não paga nada.
Pode chegar e ficar.
Pode pegar só um terço ou só metade
Ou pode pegar inteira e ampliar.
Se não gostar, passsa a frente.
Se gostar, experimente
Rascunhar.
Não precisa ser moderna,
Nem careta, nem carente,
Nem católica, nem crente,
Basta ter necessidade de falar.
Não precisa ser perfeita,
Politicamente correta,
Sem defeito,
Pode ser só brincadeira de rimar.
Pode entrar. Fica à vontade.
E não repare na simplicidade
Do lugar.
Mas não estranha.
Tem dia
Que sair por ai pra ler poesia
Pode dar uma vontade de chorar...
Por isso não precisa disfarçar.
Pode entrar.
Pode pegar.
Selecionar,
Copiar,
Colar
E encaminhar.
Fique à vontade.
A poesia se chama liberdade
Ou companhia
Ou alimento...
E mesmo quando contém felicidade,
E mesmo quando é pedaços de lamento,
E mesmo quando se perde na saudade,
E mesmo quando disfarça o sofrimento,
E mesmo quando é metade,
E mesmo quando ultrapassa os cem por cento,
A poesia é assim:
Convidativa.
Não tem limite,
Nem hora,
Nem tem tempo
Nem lugar.
Não tem fronteira,
Nem freio,
Não tem hora de recreio,
Não tem muro
Mas tem mar.
Por isso pode chegar.
Fica à vontade.
Por distração ou por necessidade,
Por prazer ou por acaso, pode entrar...
Não paga nada.
A poesia é assim:
Prá ser escrita e lida e copiada.
Palavra feita prá criar palavra.
Palavra dada
Que não se pode privatizar.
Palavra dada
Que não se pode tomar.
Palavra dada
Fundamental feito o ar.
Palavra dada.
Não é preciso pedir.
Pode levar.









18.2.03

Poema non-sense

Quase nada no mundo me convence.
A vida é cheia de contradição.
Como pode ter Catullo da Paixão Cearense
Nascido no Maranhão?

17.2.03

Poema da Despedida
Escrito em dezembro de 1999 quando em meu coração chovia. Perdi este poema e hoje encontrei-o por acaso ao arrumar meus papéis. Sempre me intriga imaginar como tive o dominio para escrêve-lo num periodo em que me encontrava tão desencontrado. E hoje, sempre quando o releio, impressiona-me encontrar nele sinais de rumo, de recaminho, de recomeço naquele tempo de tanta aridez... Quem há de compreender a inspiração? Se o verso é calmo e a alma é tão aflita como é que o verso vem do coração?
Ei-lo.


Redesenhar os caminhos
Por sobre as águas do mar...
Redescobrir novos rumos
E navegar... Navegar...
Buscar pouso em terra firme.
Aprender como chegar.
Atravessar tempestades
Sem medo de naufragar.
Há muito deixei meu porto,
Minha cidade, meu lar...
Descobri novos poetas,
Novas formas de rimar,
Novas vozes, novos cantos,
Novo jeito de dançar.
Há muito deixei, eu lembro,
Meus amigos de brincar.
Conheci novas paisagens.
Vi vento novo soprar
Trazendo novos aromas
Gostosos de respirar.
Vivenciei esses dias
A ponto de me tornar
Autor de novas poesias
Que aprendi a rabiscar.
Mas de seguir navegando
Por sobre as águas do mar
Eu fui me desgovernando
Até me desgovernar.
Hoje, solto no oceano,
Ainda sei flutuar.
Ainda busco caminhos,
Ainda quero ancorar.
Ainda que mais sozinho
Do que fui ao começar,
Ainda que em desalinho,
Preciso lançar-me ao mar.
Redescobrir novos rumos,
Novos poemas criar,
Atravessando tormentas
Sem me desestruturar.
Recomeço a minha estória.
Desconheço onde vai dar.
Meu verso é a minha escora,
Meu lenço de não chorar.
Eu levo, na despedida,
Eterno recomeçar,
Lembranças da minha vida
Que o tempo não vai levar:
O carinho dos amigos,
O amor que me fez sonhar,
As horas tristes e as boas
De que aprendi a gostar.
As madrugadas em claro
Sem ver a luz do luar.
Os tantos versos escritos
Que eu não soube declamar.
Tantos fatos tão bonitos
Que já nem sei separar
O que é de mim, o que posso
E o que não posso levar.
Há muito deixei, tranquilo,
Na ânsia de navegar,
Meu porto, seguro e firme,
Mas muito menor que o mar.
E hoje, na despedida,
Não vou precisar chorar.
Ainda me resta a vida,
Ainda quero sonhar,
Ainda que enfraquecida
A voz ainda quer cantar,
Ainda que à deriva
Sobre a imensidão do mar,
A nau não está perdida
Porque sabe flutuar.
Nessa hora da partida
Ainda quero buscar
O canto dos novos rumos,
As notas de um novo lar,
Os versos de um novo tempo,
Poemas de renovar...
Meu pai tem muitas moradas,
Alguma há de me abrigar.
Ainda que faça noite...
Ainda que falte o ar...
Ainda que eu sinta frio...
Ainda que eu perca o mar...
Na despedida eu escrevo
Prá que eu possa me lembrar:
Redesenhar os caminhos
Por sobre as águas do mar...
Redescobrir novos rumos
E navegar... Navegar...
Da minha maneira...

Eu vou vivendo...
Às vezes fico meio chateado.
Às vezes fico meio sonolento.
Às vezes ando meio que de lado.
Às vezes quase parado.
Às vezes corro mais que o pensamento.
E vou levando.
Às vezes como quem vai se enganando.
Às vezes carregado de razão.
Às vezes é razão que vai me guiando.
Às vezes é o coração.
E vou dizendo.
Às vezes vou escrevendo.
Às vezes cantarolando.
Às vezes fico só observando.
Às vezes fico me intrometendo.
Às vezes fico sabendo.
Às vezes finjo que não estou entendendo.
Eu vou gostando.
Às vezes nem tanto.
Às vezes demais da conta.
Às vezes eu admito que me espanto
Com as contas que a vida apronta.
E vou colhendo.
Às vezes eu vou plantando.
Às vezes eu me pego prometendo.
Às vezes eu me apanho sonegando.
Às vezes eu me pego devolvendo.
Às vezes eu me pego despistando.
Às vezes eu me pego dependendo.
Eu vou tentando.
Às vezes é um toró que vai caindo.
Às vezes um friozinho incomodando.
Às vezes amanhece um sol tão lindo.
Às vezes anoitece trovejando.
Às vezes nem percebo e eu estou rindo.
Às vezes, sem motivo, estou chorando.
Às vezes, à tardinha, um vento frio.
Às vezes só calor e insolação.
Às vezes tudo em volta é tão vazio.
Vazando todo meu coração.
Mas eu vou bem.
Apesar do pesar do dia a dia.
Às vezes não preciso ver ninguém.
Às vezes eu procuro companhia.
Às vezes eu me faço de refém
Da poesia.
Às vezes numa folha de papel tudo é tão zen
Que eu nem sabia...
Quitanda de Versos
Escrito recuperado por acaso ao encontrar esta página inicial de uma compilação que tentei fazer dos meus escritos e que ao rele-lo resolvi dividi-lo aqui no blog...
Isso que dá entrar em férias, revisar e futucar papeladas que dormiam...


Não espere encontrar numa quitanda o artigo fino que você procura.
Procure ali ovo da roça, a goiabada caseira, o feijão, a fruta colhida do pé...
A mercadoria comum. O diário. O simples. O fácil. O óbvio.
Foi assim que acabei fazendo destas páginas a minha Quitanda de Versos.
Gravando nelas minha letra comum, diária, simples, fácil e exatamente óbvia.
Não sei escrever o verso elegante de Drummond, Bandeira, Mário, Gullar, Vinicius...
Não me reconheço como poeta.
Quasepoeta talvez, de algum modo, em alguns momentos.
Ficou guardado em mim o menino que aprendeu rimar com Castro Alves.
Que continua encantado pelos Laços de Fita.
Que encontrou um jeito pessoal de dizer Bom Dia diferente.
E as vezes nem bom dia, exatamente...
Mas reinventar a poesia diariamente...
E assim plantando a letra inconformada com a palavra escrita e ritimada, vai colhendo poesia em cada pagina de papel abandonada...
Não espere encontrar aqui a forma perfeita do verso correto, o poema completo...
Mas a palavra suave de uma pessoa comum que se esqueceu com dizer Bom Dia...
Por isso diz: poesia...
Simples, diária, fácil e exatamente óbvia...
Como é o dia quando a gente diz Bom Dia.
Como é o dia quando a gente faz poesia...
Como é a poesia todo dia...
Esta é a minha Quitanda de Versos...
Mais nada.
Campos, 30 de setembro de 2000
Convite

Tomar meu carinho,
Cruzar meu caminho,
Descansar no silencio do meu coração...
Deitar no meu ombro,
Brincar no meu colo,
Volitar nas palavras da minha canção...

Beber do meu copo,
Escutar o meu sopro,
Dizer sempre que sim, nunca dizer que não...
Adivinhar pensamentos,
Regar sentimentos,
Nunca mais as mazelas da desatenção...

Sonhar acordada,
Virar madrugada,
Deitada, dormir descansada no chão...
Andar de mão dada,
Alma acompanhada,
Desaprender a palavra solidão...
A Moeda
Uma pessoa, que sempre se passou por amiga, tomou-me por emprástimo um valor que eu iria precisar logo adiante. Esquecendo todas as regras de decencia e gratidão, essa pessoa resolveu não me devolver o valor emprestado, causando-me dificuldades, e não me apresentar quaisquer justificativa além de me evitar. À ela, meu poema.

Eu te ajudei quando tu precisaste.
Não fiz questão nenhuma de ajudar.
Tomaste-me emprestado aquele dia
A moeda cuja falta de fazia.
Eu te ajudei sem nada perguntar.

E nada eu te emprestei das minhas sobras
Mas do que eu ia, em breve, precisar.
Levaste a moeda inteira que pediste.
Pegaste a moeda. Depois sumiste.
Tomaste-me emprestado sem pagar.

Mas nada te entreguei do que sobrava,
Do que eu podia desperdiçar...
E já sabias, desde o teu pedido
Prontamente atendido,
Que eu te emprestei sem poder emprestar.

Mas mesmo assim não destes mais noticias.
O que emprestei não era prá te dar.
Eu nada te passei do que sobrava.
Somente te ajudei. Não precisava,
Por pagamento, me prejudicar.

Tomaste-me a moeda. A que querias.
Respeito? Gratidão? Decencia? Nada.
Não percebeste, entretanto, que a moeda
Que tu levaste é a que trará a tua queda
E que por ela serás condenada.


8.2.03

A Fortaleza do Ceará
Escrito em fevereiro de 2003, durante uma visita à Fortaleza, CE.
Dedicado ao povo cearense.
Os primeiros versos deste poema rascunhei no livro de visitas do Museu Histórico de Fortaleza


Donde Ceará que vem
A Fortaleza desse lugar?
De que brisa pequenina?
De que solina gigante,
Deliciosa feito o suco da cajuína
E impressionante?
Vem do passeio de jegue?
Vem do passeio de jipe?
Vem de Canoa Quebrada?
Das velas do Mucuripe?
Da Broadway de Canoa, nouveau-hippie?
Vem da castanha de caju torrada?
Do Padre Tito?
De Patativa?
Da força da poesia de cordel?
Vem de Cumbuco? Vem da paçoca?
Da tapioca?
Da virgem dos lábios de mel?
Do canto da graúna, delicado?
Do ritmo do forró de pe de serra?
Desse seu jeito de falar cantado?
Daonde a Fortaleza da sua terra?
Das romarias em Juazeiro?
Do seu Santo Padim Ciço milagreiro?
Do fôlego sem fim da sua embolada?
Do repentista? Do violeiro?
Do boiadeiro?
Da sua sanfona de voz forrozeada?
Vem do repente? Do mote? Do motivo?
Da poesia que brota da sua gente?
Do seu encanto sem adjetivo?
Da sua fala malemolente?
Vem do sabor dos lábios de Iracema?
Da tanta vida que há na carnaúba?
Da sua gente de pele morena?
Da sua dose de pinga que derruba?
Das suas fontes?
Das suas pontes?
Do seu gosto de castanha?
Desse seu modo moleque arrodiado?
Do seu humor arretado?
Da sua ginga com mandinga e manha?
Vem do baião que é de dois mesmo sozinho?
Do doce da rapadura?
Da sua cerveja com sabor de vinho?
Do seu sertão tão sofrido de secura?
Donde Ceará que tanta força brota?
De Canoa? Da Serra? Da Aldeota?
Do lamento sertanejo?
Do sol que nunca se esconde?
Ceará de onde?
Da quinta com caranguejo?
Daonde essa energia contagiante
Que vem de dentro da sua gente?
Daonde? Desse jeito cativante
De se seguir adiante e sempre em frente,
Superando a dureza castigante,
Transformando em canção a dor pungente,
Fazendo a poesia impressionante
Que sai da alma de um povo crente?
Daonde é que vem? Me conta,
Me aponta,
Pra que eu possa só olhar...
A Fortaleza, nome da cidade
Que de hoje em diante significa ingenuidade...
A Fortaleza... De onde Ceará?

3.2.03

Poema Aéreo
Escrito hoje em algum lugar do céu brasileiro entre Rio e Ceará.

_Janela ou corredor,
Senhor?
_Que é isso, dona?
Eu preferia mesmo uma poltrona!!!

2.2.03

Poema Mudo

Há um silencio na morte,
Estranho,
Silencio semelhante à noite escura.
Silencio do coração apertando
Ao ver o corpo descer a sepultura.

24.1.03

Prá não dizer que não falei de coisa alguma na hora da despedida.
Em novembro de 2002 deixei a Santa Casa de Misericórdia de Campos apos 16 anos de trabalho como médico plantonista. Durante esse período exerci também as funções de Chefe de Serviço de Pediatria, Assessor da Direção Clínica e Definidor.

Santa Casa, eu vou-me embora dos seus corredores.
Nunca mais frequentarei as suas enfermarias.
Nunca mais meus desatinos nem seus dissabores.
Nunca mais meus prematuros, suas pneumonias.

Vou-me embora, Santa Casa, das suas escadas.
Dos seus caminhos, meia noite, silenciosos.
Nunca mais suas intermináveis madrugadas.
Nunca mais no pátio os muitos gatos preguiçosos.

Nunca mais a lentidão dos seus elevadores.
Nunca mais a subserviência dos seus funcionários.
Nunca mais a impaciência dos seus Diretores.
Nunca mais a longa espera pelos seus salários.

Nunca mais a hiperplasia dos seus Provedores
E a inoperância do seu Definitório.
Nunca mais a inaceitável lista de favores
Que são cobrados no consultório.

Nunca mais as reuniões do seu Centro de Estudos.
Nunca mais as assembléias livres, soberanas,
Derrubando Provedores, corrigindo absurdos.
Enfrentando as normas toscas e levianas.

Nunca mais seu Estatuto, folha ultrapassada,
Autoritária, doente, obsoleta.
Palavra cheia de si, mas condenada
Pelo veneno imbecil da própria letra.

Nem a Roda dos Expostos de tantas estórias,
Nem os velhos quadros do tempo do Império.
Nem seus Barões de nomes e de glórias
Que hoje enfeitam o cemitério.

Vou-me embora, Santa Casa. Em paz.
Bebi seu fel. Provei da sua luz.
Talvez lembranças, por nunca mais
Seus prematuros, meus cangurus,

Suas crianças, meu aprendizado,
Sua miséria, minha tolerancia.

Talvez vontade de ter arriscado.
Talvez, em nome da sua infancia.

Eu vou e levo comigo tanta gente.
Que de hoje em diante chamarei: saudade.
Eu vou-me embora, tranquilamente,
Porque não cometi iniquidade.

Não fiz dinheiro do seu sofrimento.
Não me prevaleci da dor alheia.
Não fiz motivos de arrependimento
Porque eu não te trai na Ultima Ceia.

Eu vou-me embora certo da partida:
Não há retorno para a correnteza.
Eu vou-me embora sem despedida.
Não deixo carta alguma sobre a mesa.

E assim como num dia triste e escuro,
Em sua maca o meu pai morria,
Talvez eu volte, quem sabe, num futuro,
A ver de perto sua Enfermaria.

Mas nesse dia não trarei risada
Serei ali o resto que há de vida.
Talvez eu volte, casca agonizada,
Somente para a nossa despedida.

Como meu pai, talvez eu volte um dia,
Mas sem reconhecer ninguém nem nada.
Talvez eu torne à sua companhia
Talvez, antes da hora imaginada...

Santa Casa, eu vou-me embora das suas memórias.
Não deixo sombra, nem resto, nem nada.
Não farei parte mais das suas estórias,
Como quem segue a luz da própria estrada.

Por isso nunca mais o pensamento.
Por isso nunca mais o coração.
Não há nada mais forte do que o tempo
Não há nada mais frágil que a emoção.

Por isso, Santa Casa, a despedida.
Sem desencanto. Sem desalento.
Que Deus proteja e guarde a sua vida
E amenize o seu sofrimento.

20.1.03

Paratudo
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro...
Paratodos - Chico Buarque


Pros dias de grandes dificuldades
Use o Chico Buarque de As Cidades.
E para os dias de enganos e de engodos
Chico Buarque de Paratodos.
Praqueles dias cheios de perigos
Use o Chico de Meus Caros Amigos.
Pros dias icompreensíveis feito certos crimes
Experimente o Chico de As Vitrines.
Nos dias feitos prá se preparar
Chico de Quando o Carnaval Chegar.
Pros dias de ir aos trancos e barrancos
Chico Buarque de Os Saltimbancos.
Pros dias claros, com muito sol,
Tome Chico Buarque em espanhol.
E pros dias cinzentos, sem nenhum palpite,
Chico Buarque ao vivo em Paris no Le Zenith.
Praqueles dias de menor dano
Experimente Chico e Caetano.
E para os dias em que a estupidez se assanha
Fique com Chico de Chico e Betania.
Pros dias em que a gente pega, esfrega, nega mas não lava,
Chico Buarque de Uma Palavra.
Nos dias em que a gente sente o baque
Somente Chico Buarque de Almanaque.
Pros dias quietos, de solidão,
Chico Buarque de Construção.
Nos outros dias cheios de mágoa
Chico Buarque de Gota d água.
Naqueles dias feitos prá arriscar
Chico Buarque de Calabar.
Porque quando fugir não adianta
Ai só Chico de Chicocanta.
Pros dias de tomar todo cuidado
Chico Buarque de Sinal Fechado.
E para aqueles de correr risco
Tome o Chico Buarque de Francisco.
Praqueles dias em que a gente vai levando
Chico Buarque de A Ópera do Malandro.
E para os dias que não tem saida
Chico Buarque de Vida.
Pros dias feitos prá ficar na sua
Chico de A Dança da Meia Lua.
Pros dias longos, de grande calor,
Chico de Para Viver um Grade Amor.
E para os dias em que o amor é como um raio
Tente o Chico Buarque de Cambaio.
Por isso faça o que eu faço,
Por isso escute o que eu digo:
Para os dias de fuxico,
Para os dias de futrico,
Pros dias de mexerico,
Tome Chico,
Cante Chico,
Escute Chico
Que, no convés, vai sombrio,
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais...

15.1.03

A Ameaça
Durante as suas atividades de plantão no Setor de Emergencia de um Hospital minha colega Mércia foi injustamente ameaçada e intimidada sem que tivesse provocado, por um individuo arrogante. Até quando?

Como se não bastasse o mau salário
E a pouca refeição do refeitório,
E a rigidez vigiada do horário,
E as confusões em frente ao consultório,
E os exageros do vocabulário,
E os muitos casos de ambulatório,
E o trabalho, feito o de um operário,
E a falta da TV no dormitório,
Cumprir semanalmente esse calvário
Por um salário tão irrisório,
Como se não bastasse, um usuário,
Conforme escrito no relatório,
Ameaça uma colega de trabalho
Que, sem ter culpa alguma no cartório,
Cumpria, trabalhando, o seu horário
Em troca de um valor tão irrisório,
Sem regalias, feito um operário,
Sem mordomias no seu dormitório,
Sem gentilezas por parte do usuário,
Desprotegida em seu consultório,
Como se não bastasse o mau salário
E a pouca refeição do refeitório...

Até quando aceitar tudo ao contrário:
Poder o Céu e morar no purgatório?


11.1.03

O Teu Nome

O amor está escrito no teu nome,
Amanda.
Por isso quando quase tudo chia,
E quase tudo é quase que só fome,
E o mundo todo desanda,
Como se fosse um toque de poesia,
O amor, porque se esconde no teu nome.
Trata de ser a bóia em tua vida
E água e sombra na tua estrada...
A dor imensa agora é a dor mais branda,
A cicatriz cuidando da ferida,
E o que era tudo agora é quase nada...
O meio dia em plena madrugada...
Porque o amor, que mora no teu nome,
É o que te faz completa e preparada,
Amanda...

6.1.03

Poeminha maneirinho pra minha maninha mineirinha

Minas Gerais já nos deu Tiradentes...
Depois Drummond...
E Milton Nascimento...
Depois nos deu e nos levou Tancredo...
E nos tem dado muito pão de queijo...
E muito, muito, muito pão de queijo...
Mas desde quando ela nos deu voce,
Paolinha,
Minas merece finalmente um beijo...

1.1.03

Resolução de Ano Novo

Viver como se fosse o dia derradeiro...
Amar com é quem ama em seu primeiro dia...
Aqui como se fosse o Rio de Janeiro...
Um dedo de prosa como um balde de poesia...

30.12.02

A lenta caminhada
Depois de escutar as canções de Todo Caetano...

"Às vezes é solitário viver"...
Às vezes é impossivel voltar...
Às vezes, imprevisível saber...
Às vezes, maravilhoso sonhar...
Às vezes é necessário crescer...
Às vezes muito dificil falar...
Às vezes imprescindivel escrever...
Às vezes desnecessário rimar...
Às vezes é complicado morrer...
Às vezes mais triste é continuar...
Às vezes é muito para aprender...
Às vezes nadica para ensinar...
Ás vezes só tempo prá perceber...
Às vezes segundos para acabar...
Às vezes há tanto prá se fazer...
Às vezes é tão cruel acordar...
Às vezes é solidário poder
Dividir, dar, distribuir, entregar...
Às vezes é solitário fazer...
Às vezes é necessário chorar...

27.12.02

O Mapa do Lugar

Um dia, se eu tiver merecimento,
Devo ir morar em Milton Nascimento...
Morando lá, uma vez cada semana
Eu vou passear em Herbert Vianna
Que com certeza, se eu não me engano,
Fica pertinho de onde fica Caetano...