10.8.25

5 de agosto

Saudade deveria ter um nome 
Que explicasse aquela cadeira vazia, 
Essa mesa de café sem uma xícara, 
Um nome que não precisasse da poesia

Para explicar uma ausência 
Que agora vive em nossa companhia, 
Saudade deveria ter um nome,
Mas acho que nem a própria saudade aguentaria,

Por isso a gente chama só "saudade",
Dói menos assim, pra dizer a verdade 
E desse modo a gente consegue suportar 

A cadeira vazia, a xícara a menos, 
E alguns gestos diários tão pequenos 
Que somente a saudade seria capaz de lembrar...

Papai

Papai caminhando por meu coração
E me dizendo palavras de carinho,
Vai me levando sempre pela mão,
Papai, a segurança em meu caminho,

A minha força, sempre quando a vida não,
Sua presença, todas as vezes em que eu sozinho,
Papai me ensinando, uma a uma, cada lição,
Desde quando eu era pequenininho...

Papai, porque ele nunca se foi embora,
Manteve viva e presente a nossa história,
Que eu sinto: nunca vai se esfarelar...

Papai, sempre por perto em minha vida,
Papai: saudade, mas não despedida,
E que vez ou outra vem me visitar...

3.8.25

Domingo

Domingo. E a gente segue caminhando. 
Dias de sol. Outros de tempestade. 
É difícil. Mas a gente vai se equilibrando.
O nome disso é equanimidade. 

Viver não é fácil. Mas está sempre ensinando. 
A vida é uma grande universidade
Onde a gente está sempre debutando,
E onde o grande certificado é a liberdade.

Então é domingo. Por isso a poesia. 
Porque a poesia cabe em qualquer dia,
Mas aos domingos ela tem bem mais sabor.

Então é domingo. Sem despedidas.
Que Deus tome conta das nossas vidas,
E nos proteja com seu amor.

27.7.25

A poesia

Quando o coração acredita que vai morrer de saudade, 
Aparece a poesia em seu caminho: 
Se aquieta coração, dessa sua intensidade, 
Se aquieta, e vai vivendo a cada dia um tiquinho,
E a poesia, com empatia e com serenidade,
Vai envolvendo o coração com seu carinho,
E já aquietado, o coração, já mais sereno,
Não pensa mais em partir porque saudade,
Ao invés disso,
Revive as felicidades que recebeu no seu ninho,
As memórias de ir se tornando um pássaro de verdade,
O coração relembrando o seu caminho...
Então,
Todas as vezes em que coração acredita que vai morrer de saudade,
A poesia, como sua guardiã na eternidade,
Entra em ação, generosa e de mansinho:
Se aquieta coração de poeta, se aquieta,
E acolhe o coração, silenciosa e discreta, 
A poesia como um passarinho,
Tem sido assim a vida inteira em minha vida, 
Desde que eu era pequenininho.

23.7.25

A assinatura do poema

Para Edna David

Quando um poema não é assinado 
E segue, desse jeito, seu caminho, 
Como uma obra sem certificado, 
Como uma escultura faltando um pedacinho, 

Quando um poema assim mesmo é lançado, 
Desassinado, assim desse jeitinho,  
Não se preocupe: não há nada de errado,
Não se preocupe: nada em desalinho,

A assinatura de uma poesia 
É o jeito especial com que ela cria 
A ideia que ela quer comunicar, 

Por isso não existe poesia sem assinatura, 
Porque poesia é palavra com escritura,
Impressão digital que ninguém consegue copiar.

19.7.25

Mãe

O coração cheio de saudade.
A casa vazia. Hora de acordar. 
A vida chamando para a realidade 
Mostrando que tudo vai continuar,

Resta a poesia, que tem capacidade 
De fazer o meu coração se acalmar. 
A poesia, como necessidade, 
Convidando meu coração pra conversar,

E o coração, cheio de saudade e poesia,
Vai caminhando pela casa vazia, 
Enquanto sua ausência vai se transformando 

Nessa homenagem para sua presença,
Silenciosa e ao mesmo tempo imensa,
Nos sustentando, nos inspirando...

2.7.25

As canções que eu escrevi pra ela

Ela pedia,
Eu criava,
As canções para as peças de teatro que ela escrevia,
E as notas do meu violão adivinhava,
Ela pedia,
E eu que não faço músicas, não negava,
Porque ela já pedia sabendo que eu iria,
E eu fazia, e no final ela gostava,
Tistu, Pinoquio, era uma alegria 
A cada novo personagem que ela encontrava,
Havia coro de crianças, coreografia, 
E o respeitável público adorava, 
Eu nunca fiz músicas por mera cantoria,
E até as que eu fazia pra ela eu nem guardava,
Tudo que eu fiz, eu fiz porque ela pedia,
Cada acorde do violão, cada palavra, 
Tudo foi pra ela com alegria, 
Ela escrevia as peças,  eu musicava,
A melhor parceria,
A única em que eu acreditava,
As vezes uma pessoa ou outra me pedia
Uma canção. Confesso: eu enrolava.
Mas as canções que ela me mostrava que queria,
Essas eu dava.
Hoje, o violão, em silêncio, já não cria, 
Ela já não me pede mais as canções que eu entregava,
Mas o coração traz guardada uma alegria: 
A de ter feito todas as canções que conhecia,
E de ter deixado ela feliz assim, com quase nada.

23.6.25

Um novo dia

Um novo dia 
É sempre uma esperança,
Um sopro de vida 
Pro nosso coração, 
Que se reinventa,
Que se recria,
Um novo dia
Como uma revolução, 
O ontem passou,
O hoje é somente 
O tempo  de agora 
Em sua transformação, 
E nada permanece,
Tudo muda,
Exatamente como diz 
A letra da canção,
E para o coração cansado, 
Para a letra gasta,
Para esperança 
Que nada espera,
Palavra oca,
Sem nenhuma convicção,
Um novo dia
Pode ser a cura,
Trazendo reparo,
Outra solução,
Porque um novo dia
É uma segunda chance,
Oxigênio 
Para a respiração,
Descanso para os pés cansados,
Água 
Para o morto de sede,
E para o condenado,  
Algum perdão,
Para o doente,
A dose que lhe resta,
Para a gestante
A derradeira contração,
Para aquele que está aflito 
E sobrecarregado,
Um novo dia 
Pode ser seu tempo
De alívio, 
De leveza,
E de reconstrução, 
Por tudo isso,
E muitas vezes mais que isso,
Seja bem-vindo
Sempre, novo dia,
Como um pedacinho 
Escondido
Da perfeição...

21.6.25

Oração para quando eu estiver diante de alguém que está sofrendo

Senhor,
Quando eu estiver diante de alguém que está sofrendo,
Permita que o meu sofrimento não fale mais alto do que o daquele que estiver na minha frente,
Que a minha tristeza possa ser sublimada e transformada em apoio e carinho,
Que da minha boca saiam somente palavras de vida, mesmo quando o meu coração esteja cheio de palavras de dor,
Abre os meus olhos e faça eu entender que eu não posso estar diante de quem está sofrendo e isso me causar um sofrimento maior que o dele,
Então silencia o meu coração,
Apaga a minha euforia,
Permita que eu consiga entregar toda a paz que eu trago em mim quando eu estiver diante de alguém que está sofrendo,
Faça com que eu me apague, para que assim eu consiga tocar a dor de quem está sofrendo sem causar mais dor e mais sofrimento, e sem tirar do lugar o coração de quem está sofrendo, e sem incomodar ainda mais aquela dor,
Faça, Senhor, com que agindo assim, eu consiga abraçar e acalmar o coração de quem está sofrendo sem ferir as linhas da Sua grande Lei,
Que assim seja. 

20.6.25

Coragem

É preciso ter coragem pra gente enfrentar a vida,
A vida não faz perguntas quando se põe a cobrar,
O coração estremece, mas não há outra saída, 
É preciso ter coragem para poder enfrentar 

Os dias frios e os tristes, e as horas de despedida, 
E os sofrimentos que às vezes nada parece abrandar,
É preciso ter coragem, conquistada e merecida,
É preciso ter coragem pra quem quiser se salvar,

E às vezes nem a coragem parece ser o bastante 
Para enfrentar o destino doloroso e castigante,
Ou para soltar as amarras de quem quer se libertar,

E às vezes é necessário muito mais do que coragem 
Pra gente seguir em paz e sem dor a nossa viagem,
Até o dia em que a morte enfim nos vier levar...

A esperança

A esperança, esse delicioso alento,
Capaz de alimentar o coração,
Fazendo o coração bater ligeiro, 
Mais forte, resiliente, mais certeiro,
A esperança, como uma salvação, 

Espantando a tristeza do coração da gente, 
Firmando os nossos pés no nosso chão,
A esperança feito um abraço,
E o coração se refazendo a cada passo,
E retomando a sua direção, 

A esperança como um escudo,
Ou como um mapa de navegação, 
Luz na neblina, rota do caminho,
Fazendo a gente renascer devagarinho, 
A esperança, maior que a cerração...

17.6.25

As cinco pedrinhas

As cinco pedrinhas que eu carregava
Na minha vesícula biliar:
O silêncio que elas faziam me assustava,
Então o cirurgião resolveu tirar,

As cinco ali e eu nem imaginava, 
Até um exame de ultrassom me revelar,
Desculpem-me pedrinhas, mas não dava 
Pra essa situação continuar.

Anestesia, intubação, e a cirurgia,
E todas cinco que foram minhas um dia
Partiram, com vesícula e tudo, sem reclamar,

E agora, sem pedrinhas e sem vesícula,
Só me resta essa lembrancinha ridícula
Delas, que se foram pra nunca mais voltar...

11.6.25

A poesia

Todas as vezes em que a palavra elaborada
Acaba chegando em meu coração,
Nessas vezes uma simples leitura já me salva,
Fazendo o barulho de uma revolução,

Porque toda palavra carrega, disfarçada,
Uma surpresa, ou quase uma explosão,
Mesmo a palavra comum, a mais apagada,
Mesmo aquela palavra mais sem expressão, 

A poesia torna todas elas renovadas,
Palavras em poesia são como espadas,
Ou como escudos, dependendo da intenção,

Deixam de ser, assim, quaisquer palavras.
Poesia é a palavra preparada
Para provocar, em quem lê, inquietação...

8.6.25

Todas as vezes que eu leio poesia

Apos ler um poema de Rodrigo Ladeira 

Todas as vezes que eu leio poesia 
Uma alegria me escapa ao coração,
Uma alegria incomum, essa alegria,
Todas as vezes, mesmo por distração,  

Uma alegria que carrega uma energia,
Uma energia que atiça a inspiração,
Sempre que eu leio, pode ser qualquer dia,
Qualquer lugar, em qualquer ocasião,

E toda vez meu coração se agita,
Parece até que ele vê uma moça bonita,
Basta um poema cair na minha mão...

Então eu respiro e me acalmo quando leio,
A poesia para mim é um prato cheio,
Antídoto para toda solidão...

28.5.25

O encontro com Terezinha

Para Terezinha Matoso após o seu encontro sobre luto perinatal com mães de bebês nascidos com microcefalia 

Terezinha falava. As mães ouviam.
E Terezinha, enquanto falava, as encantava. 
Emocionava seus corações, que percebiam
Que era com o coração que ela falava. 

Pura emoção a medida que recebiam
Terezinha e a sua acolhida com a palavra.
Silêncio. Terezinha falava. As mães sentiam.
E o coração da gente se emocionava.

Dizem por ai que as mães, depois de Terezinha, 
Sempre que a dor vem, como erva daninha,
Abraçam o amor que trazem no coração, 

E seguem, com seus amores, abraçadas,
Mais protegidas, mais amparadas,
E depois daquele dia, nunca mais solidão...

29.4.25

A poesia

Ainda bem que existe a poesia. 
A poesia não conhece a solidão. 
É cobertor em meio à noite fria. 
É gole d'água em dia de verão. 

Ainda bem. Feito uma garantia 
Pra quem precisa de um aperto de mão. 
A rima é palavra cheia de magia
Que brota de dentro do coração.

Ainda bem que que ela nos chega, às vezes,
Como um garçom que serve seus fregueses,
Deixando nossos corações alimentados.

A poesia. Que bom que ela existe
Como um abraço quando a gente está triste,
Desses abraços bem apertados.

26.4.25

A vida é muito engraçada

Sábado. Era pra eu estar de plantão.
Mas eu não estou mais. Fui afastado.
Tudo por culpa de uma infecção de repetição,
Klebisiela, esse é o nome do culpado.

Mas na minha opinião foi armação:
A equipe bem que poderia ter esperado.
Afastar alguém assim, de supetão,
E num momento não delicado...

_Supera, moço,  já se passou um mês...
_Ah tá, é porque não foi com vocês,
Pimenta nos olhos dos outros não dói nada...

Era pra eu estar de plantão, mas outros planos
Nascendo, eu aos sessenta e cinco anos,
A vida é muito engraçada...

17.4.25

Véspera de feriado

Dia tranquilo. Véspera de feriado. 
Franguinho sendo preparado no fogão. 
O céu nublado. O coração nublado. 
A poesia tranquilizando o coração,

Como se cada verso rabiscado,
Trouxesse junto com ele uma condição 
Que deixasse o coração mais relaxado,
A poesia como uma forma de sedação... 

Dia tranquilo. Véspera de feriado. 
O verso esvaziando o coração pesado, 
E deixando leve o coração na mão, 

E o coração ficando tranquilo assim rimado,
Mais forte, mais suave e preparado, 
O coração com muito mais disposição.

15.4.25

A poesia respondendo a vida...

Para Rafaella e Terezinha 

A poesia respondendo a vida
Quando a vida faz perguntas sem parar,
A poesia não conhece despedidas,
E nem tem hora para começar,

A poesia respondendo a vida
Quando a vida está difícil de suportar,
A poesia levita, distraída, 
Fazendo o coração da gente levitar, 

A poesia respondendo a vida,
Diariamente encontrando uma saída,
Um tubo de ar para a gente respirar,

A poesia respondendo a vida,
E a vida respondendo agradecida
Com mais um poema para a vida colecionar...

O tempo

Metade do mês. Por isso esse versinho
Escrito de improviso no celular. 
O ano está passando rapidinho,
E mal dá tempo dá gente comemorar.

Ainda ontem era carnaval, no cavaquinho
Eu escolhia um Paulinho da Viola pra tocar,
Mas já é Páscoa, chocolate, coelhinho, 
E eu nem terminei ainda de sambar.

O ano tá passando bem depressa,
Ou será que é meu coração que tá sem pressa
E preferia um sambinha mais devagar?

Porém maio já surge no meu calendário,
Me lembrando que em setembro eu já faço aniversário,
O tempo passa. Resta pra gente aceitar.