5.5.21

Paulo Gustavo


Terá, no fim de tudo algum significado
Partir do mundo assim, banhado em dor?
Esperança... E no fim: a morte! Que pecado!
É sem sentido. É cruel. Devastador.

Tanta oração a Deus sem resultado.
Tanta suplica empenhada com fervor.
A cura! A cura! E no fim tudo é negado.
Tudo. Menos o seu ultimo estertor... 

Mas, uma voz da luz dos grandes mundos,
Em conceitos sublimes e profundos,
Respondeu-me em acentos colossais:

— “Verme que volves dos esterquilínios,
Cessa a miséria de teus raciocínios,
Não insultes as leis universais.”

Os dos tercetos finais do soneto são do soneto A LEI de Augusto dos Anjos , psicografados por Francisco Candido Xavier no Parnaso de Além Tumulo.

Ao ator Paulo Gustavo, com carinho.

3.5.21

Por tras de toda dor existe dor


A displicência esconde sofrimento,
A falta de cuidado, inquietação, 
O coração que não sara seu sangramento 
Não cuida bem de um outro coração, 

Não é uma decisão, é um desabamento,
O caminho de quem já não domina outra opção,
O sofrimento por trás de um comportamento,
A negligência, e por trás, a autodestruição,

Por trás de toda dor, por mais violenta,
Há uma outra dor de quem não se sustenta 
E não percebe o tamanho da própria dor,

Por trás de toda dor, por mais cruenta,
Há uma outra dor que não se aguenta,
E um coração que nem se percebe sofredor

2.5.21

Sala de parto


Quatro da manhã. Um nascimento. 
O parto normal está virando rotina. 
Cercado da família, esse momento 
É um banho de segurança e ocitocina.

Quatro da manhã. Chora o rebento. 
Toma a primeira dose de vitamina. 
Minutos depois, já tira o seu sustento
Do seio materno. Coisa mais fina.

E dai em diante é só tomar cuidado. 
Viver é evitar o rumo errado
E não apressar o rio, porque ele corre sozinho...

Quatro da manhã. Domingo frio. 
Eu não me esqueço: não apresse o rio,
E vou colhendo amor pelo caminho.

1.5.21

Primeiro de maio


Trabalhador, o primeiro a ser chamado,
E também o primeiro a ser esquecido,
Sempre o primeiro a ser encaminhado, 
Estranhamente o último a ser reconhecido,
Sempre o primeiro, quando tudo dá errado,
A ser culpado e também a ser punido,
A ver seu salario, que deveria ser sagrado,
Ser bloqueado, ser reduzido,
Ou a ter seu dia de pagamento adiado,
Como se isso fosse permitido,
Trabalhador,
O primeiro a ser listado,
E o ultimo da lista a ser ouvido, 
Porque o último a ser valorizado, 
Embora seja o mais comprometido,
O primeiro, quando o patrão está quebrado, 
A ser avisado que está despedido,
O primeiro a ficar desesperado 
Enquanto o patrão segue em frente, garantido,
Trabalhador, 
O primeiro a ser enganado,
O primeiro na conta a ser subtraído,
Sempre o primeiro a ser sacrificado,
Sempre o primeiro a ser substituído,
Como se fosse um pacote no mercado,
Um contratado só pra ser demitido,
E quando o lucro da empresa tiver multiplicado,
É o primeiro no papel do ilustre desconhecido.
Primeiro de maio. Trabalhador comemorado,
Mas a essa altura, quase nenhum iludido,
Porque o que o trabalhador precisa é ser vacinado,
E ser bem remunerado, e ser ouvido,
E não de flores para ser homenageado,
E nem de churrascos para ser iludido,
Precisa é de um ambiente de trabalho bem cuidado,
E de um plano de cargos reconhecido,
De um calendário de pagamento aprovado, 
Com reajuste real e merecido, 
Trabalhador precisa ser bem tratado,
Não é só servir bem, precisa ser bem servido,
Porque seu coração já está esgotado,
E não aguenta mais no seu ouvido 
Promessas de patrão mal intencionado,
Papinhos de político fingido, 
Projetos de um futuro do passado 
Sobre coisas que já deveriam ter acontecido,
Porque na hora em que o desafio é apresentado,
E nessa hora é preciso um esforço desmedido, 
O trabalhador é o primeiro a ser chamado,
O primeiro a ser escolhido, 
O primeiro imediatamente a ser escalado,
Mas o último a ser verdadeiramente reconhecido. 
Trabalhador, trabalhador, muito obrigado,
Recebe esse poema agradecido,
E lembre-se: trabalhador unido, como está gravado,
Jamais e em tempo nenhum será vencido. 

30.4.21

A minha irmã morte


Ela me observa pela minha vida inteira,
Se aproxima e se vai logo em seguida,
É minha irmã, mas como gata borralheira,
Nunca se mostra, vive escondida...

De vez em quando me toca, sorrateira,
Sorri, mas ao ver que não é correspondida,
Afasta-se de mim, de tal maneira 
Que eu volto à minha vida distraída...

Porém a minha irmã morte, eu sei que um dia
Vai precisar da minha companhia, 
Porque nós somos filhos da mesma criação,

E nesse dia, em seu abraço derradeiro,
Ela me dirá, de modo desinteresseiro:
Fica comigo, eu te amo, meu irmão...

Os escotomas

Ah, essas luzinhas malditas que me cegam,
Que chegam antes da dor aparecer, 
Que vem do nada e de repente me pegam,
E brilham ao notar que vou sofrer.

Escotomas. Só eu enxergo. Os outros não enxergam,
Por isso ficam sem entender.
Eu tento, mas os meus gestos não negam:
Alguma coisa de mal vai acontecer.

Dai eles passam. Em minutos vão embora.
E antes que eu comemore, chega a hora
Da dor de cabeça, inimiga insuportável...

Lá se vão 40 anos com essas crises...
_Tem cura doutor?  O que me dizes? 
_Pergunta difici não. Seja razoável.


Kkkkk

27.4.21

A alegria empática


Não é a minha alegria. Nem é a sua alegria. 
Não fui eu e tampouco foi você quem a recebeu. 
Porque se você ficar feliz me faz ganhar meu dia,
Então seu coração feliz torna feliz o meu.

É como uma conexão que nos recria
E a gente não percebe como aconteceu. 
Alegria empática. Não a teoria. 
A prática. O que torna um só você e eu.

E a partir dai, alegrias misturadas,
Como se estivessem, de alguma forma, costuradas,
Geram mais luz aliadas que sozinhas,

Alegria empática. Esta na literatura. 
Mas ao vivo e à cores tem muito mais belezura
E mais poesia que essas pobres linhas

🌹

O medo


Bom dia. Mas eu vou logo avisando:
Às vezes o dia não sai como planejado,
A única saída é ir tentando,
E assim, tentar não ficar apavorado,

Afinal de contas, não é se apavorando 
Que o dia se torna menos complicado.
Respira fundo. Vai se conectando.
E escuta seu coração, seu aliado. 

É nessa hora que o coração vai se mostrando,
E ai convém fazer silêncio sempre quando 
O coração tiver sido convocado...

E na medida em que o dia vai passando,
Você aprende, simplesmente caminhando,
Que o medo não precisa deixar você paralisado.

25.4.21

Mãe


Mãe não tem limite. É tempo sem hora.
Tem mais poesia que Drummond e que Bandeira,
Carinho de mãe? Quem é que não adora?
Quem é que não quer ter pra vida inteira? 

Que outra palavra existe mais sonora,
Capaz de deixar o coração dessa maneira? 
Porque perto dela tudo melhora? 
Por que é que ela encara qualquer tranqueira?

Quando Deus criou o mundo em sete dias,
Mandou as mães para serem nossos guias,
E deu a elas, como missão,

Amar de um amor com toda intensidade,
Viver para sempre, por toda a eternidade,
E morar dentro do nosso coração.

A sala de parto

4 da manhã. Cesariana. 
Quem dormiu, dormiu. Quem não dormiu não dorme mais.
Madrugada. Domingo. Fim de semana. 
Mas pra quem está de sobreaviso, tanto faz.

4 da manhã. O hospital chama. 
Tomo um cafezinho e vou atrás. 
Sou o primeiro a chegar. O coração nem reclama. 
Com o tempo, qualquer prazer já satisfaz.

O tempo passa. A equipe vai chegando. 
O pai, assustado, me conta, quase chorando,
Que o seu primeiro filho daqui a pouquinho vai nascer...

6 da manhã agora, de volta pra minha cama,
Rabisco esse poema, de pijama,
Enquanto observo o dia amanhecer...

Bom dia...

22.4.21

O sono

Meu sono viajou. Foi pro Japão. 
Mas talvez tenha ido pro Pará. 
Fez as malas. Pegou o primeiro avião 
E avisou que não ia mais voltar 

Deixou pra mim de presente a televisão 
E alguns comprimidinhos pra eu tomar,
Mas ele sabia que não era solução,
Sabia e preferiu não me contar...

De vez em quando eu lembro do meu sono
Que foi morar nos braços de outro dono 
E me deixou nessa melancolia,

Mas graças a Deus ainda existe o vinho,
E alguns amigos bons pelo caminho,
Mas graças a Deus existe a poesia...

Alberto Mussa

Parece que sou eu, mas não sou eu,
É um primo meu, e isso é muito divertido:
Alberto foi o nome que o meu pai me deu
Quando meu primo não tinha nem nascido,

Daí, depois, quando meu primo nasceu,
Não sei por que motivo isso teria acontecido,
Seus pais lhe deram um nome igual ao meu,
Aliás, igual não, só muito parecido,

E foi assim que tudo aconteceu,
Nenhuma das duas famílias recorreu,
E o Alberto Mussa pros dois foi decidido. 

Passou o tempo. A gente cresceu. 
E cada um carregou consigo o Alberto seu,
Espero que todos tenham compreendido...

19.4.21

O meu poema

Um pouco falar, um pouco ser escutado,
Um pouco escrevê-lo sem ser interrompido,
Ou ser interrompido sem ser prejudicado,
Ou ser prejudicado pra depois fortalecido,

Um pouco mostrá-lo, um pouco deixá-lo guardado,
Um pouco depois saber que foi distribuído,
Um pouco para ser perdido, um pouco para ser plantado,
Um pouco para ser lembrado, outro para ser esquecido,

O meu poema, sempre um significado,
Pedacinho que mostro do que há em mim sagrado,
Lugares em que eu nunca imaginei ter ido,

Mas eis que quando o poema está gravado,
Eu fico imaginando: de onde foi tirado?
E nenhuma resposta, pra mim, me faz sentido...

13.4.21

Hoje contém esperança

O dia de hoje contém esperança 
Porque nele tudo pode acontecer:
Amar e pedir perdão e, na mesma dança,
O sol nascer, e em seguida se esconder,

Unidos, numa legítima aliança,
A dor e o alivio quando a dor doer,
Por isso contém esperança: se o mal avança 
O bem sabe bem como nos defender.

Contém esperança os dias nublados,
Quando os dias de sol ficam guardados
Porque a natureza sabe economizar... 

Hoje contém esperança, use a vontade,
Como um escudo contra o frio e a insanidade,
Como um tesouro que cabe em qualquer lugar...

11.4.21

Comunhão

Dividir é quase o mesmo que somar,
Doar é um dos sinônimos de receber,
Receber tem o mesmo sentido de entregar,
E guardar é quase a mesms coisa que não ter,

Viver é bom quando a palavra compartilhar 
É dita mais vezes do que a palavra reter,
Porque o melhor do rio é se dar ao mar 
E o mar se dar às ondas com prazer...

As mãos abertas, durante a jornada,
São a possibilidade da semente ser semeada,
E ao mesmo tempo a chance de colher o pão,

As mãos fechadas não semeiam nada,
Fazem perder o melhor da caminhada,
E o que há de bom na vida em comunhão

10.4.21

O chaveiro

Algumas portas muito bem trancadas,
Outras empoeiradas, esquecidas,
Umas com fechaduras enferrujadas,
Outras com dobradiças enrijecidas,

Portas estrategicamente localizadas
Em corredores e áreas proibidas,
Bem escondidas e mal iluminadas,
Portas fechadas, obstruidas,

Então a compaixão, como um chaveiro,
Como quem desmantela um cativeiro,
Permite que elas se abram, sem doer,

A compaixão, mostrando suas chaves,
Abrindo portas, desfazendo traves,
A compaixão mostrando seu poder...

9.4.21

As notícias difíceis

Aa notícias difíceis só são noticias difíceis
Porque são noticias complicadas de se dar,
Como uma carta escrita em letras ilegíveis
Que a gente precisa entender e entregar...

Notícias difíceis de efeitos irreversíveis,
Não há como ler para depois apagar,
Noticias difíceis, porque os caminhos não são fáceis,
Nem fácil é o jeito de caminhar...

Noticias difíceis, mas porque necessárias,
É necessário compreender as várias
Formas de transmiti-las com leveza...

Noticias difíceis, como são os enigmas,
Notícias difíceis, como são os estigmas,
Um exercício improvável de delicadeza...

5.4.21

A cidade asfixiada

Hoje minha cidade deveria estar parada
E o virus impedido de ter por onde andar,
Aqui ninguém, naquela esquina nada,
Porque ninguém mais pode se contaminar,

O médico está cansado, a UTI lotada,
E a enfermeira com vontade de chorar,
Pára, cidade, sua saude está quebrada,
Seu oxigênio já começa a escassear...

Silencio, cidade. Mais de trezentos mil mortos.
Não há sepultura para tantos corpos.
A esperança precisa dar um jeito de voltar,

Porque hoje, minha cidade asfixiada,
Ou você para, ou acaba sepultada,
Não há nenhuma outra forma de escapar...

28.3.21

As fotografias

Eu precisava tanto
Ver as fotografias
Das UTIs vazias 
E dos vários monitores ociosos,
Dos medicos e enfermeiros não fazendo nada,
Da maca desocupada,
Da maleta de reanimação fechada,
E das cadeiras sobrando na recepção,
Eu precisava tanto
Ver as fotografias
Das balas de oxigênio ainda lacradas,
Das quipes nas emergências contando piadas,
E das bombas infusoras desligadas por ninguém precisar de bombas de infusão,
Ampolas de pancuronio engavetadas
E faceshields descansando no balcão,
Ver funerárias de portas cerradas,
Precisava ver gentes sorrindo
E contando seus causos de recuperação...
Eu precisava tanto ver fotografias
Que desmentissem as notícias que passam na televisão,
Ver ambulâncias paradas nas garagens,
E não em remoções de vida ou morte,
Cortando caminho pela contramão...
Brava gente brasileira,
Queridissimos irmãos,
Obedeçam as ordens do chefe da nação:
Invadam postos e hospitais vazios,
E mostrem para mim médicos sadios
E de braços cruzados,
Porque eu quero ver leitos desocupados,
E preciso muito acreditar nessa versão:
É tudo mentira,
Coisa de jornalista esquerdinha e traira
Pra meter medo na população...
Não deixem que eles continuem espalhando isso não,
Enviem fotos
De nossa pátria amada,
Idolatrada,
E bem cuidada,
Mostrem pra mim que não está acontecendo nada,
Porque eu preciso ter certeza de que tudo isso não passa de invenção,
Deixem o número de óbitos pros pessimistas,
Sejamos imperialistas,
Sigamos o exemplo do capitão,
Contem pra mim que essa dor nunca existiu,
São fantasias
De alguns filhos desvairados
De seu solo, oh, mãe gentil,
Patria amada,
Brasil,
Por isso eu precisava muito ver essas fotografias,
Mostrem pra mim,
Porque já não cabe tanto medo
E tanta dor
No que restou
Do meu cansado coração...

23.3.21

A balada

Na balada sempre cabe mais um. Na UTI não. 
O som que rola na UTI é diferente:
Na balada, o som que agrada é o batidão,
Na UTI é o respirador que embala a gente. 

Na balada tem sempre lugar prum valentão, 
Na UTI é bem mais difícil ser valente:
Aminas, cateteres, intubação,
A morte gritando bem ali na sua frente...

É muito bom passar a noite na balada,
Mas lembre-se de que prudência desprezada
É uma armadilha de onde é difícil escapar,

Então, se você quer fugir dessa ratoeira,
Apascenta essa sua alma baladeira, 
E espera em casa o temporal passar...