24.2.11

Carta a uma mãe

Prezada senhora,

Bom dia.
Permita-me usar um pouco de poesia
Para uma quase nem tão breve assim explicação:
Se um dia desses acontecer
De eu estar na Emergência de plantão,
E nesse dia você trouxer a mim seu filho
Com febre alta de pneumonia
E tosse cheia de estertoração,
E ainda palidez, taquisfigmia,
Inapetência e desidratação,
Se nesse dia eu, respeitosamente,
Chamar você pelo nome,
Mas não por um nome qualquer,
Por qualquer nome,
Mas pelo seu próprio nome e sobrenome,
Pronunciado com exatidão,
Letra por letra, palavra por palavra,
Pronuncia exata e sem abreviação,
E se nesse dia dessa pneumonia
Em que eu chamar você, sem falhas de edição,
Pelo seu próprio nome, e por extenso,
Sem erros de dicção,
Bem nesse dia, e justo nesse dia,
Por pura estupidez e falta de noção,
Eu não olhar para o medo do seu rosto
E nem perceber o tremor da sua mão,
E não notar seu esposo aflito e atonito
Ou a lágrima nos olhos do outro irmão,
Não entender seu coração desabalado,
Nem me abalar com sua tensão,
Se nesse dia de pneumonia
Voce chorar
E eu nem notar a razão,
E mesmo que eu chame você pelo nome
E sobrenome, sem abreviação,
E mesmo que eu acerte na receita,
No diagnostico,
E na segurança com que eu avaliar
A possibilidade de internação,
Prezada Senhora, daqui eu pediria
Que nesse dia
Você não acreditasse na minha adequação,
Na minha fala burocraticamente fria,
Na minha frieza cheia de educação,
Na minha imperdoável hipocrisia,
Na minha falsa dedicação...
A educação inventou a poesia,
Mas o verso é da seguinte opinião:
O poema não é feito das suas rimas,
O poema é feito da sua empolgação...
Palavra pronunciada e não sentida
É como palavra sem vida,
É vida sem pulsação...
Então, nesse dia.
De tratamento politicamente correto,
Minha senhora,
Eu peço agora,
Não acredite em mim não:
Minha alma sofre de paresia,
De anestesia o meu coração,
Por isso as vezes a palavra fria,
Como uma caixa vazia,
Como se traduzisse solidão...
Mas se de uma outra vez,
Num outro dia,
Por conta de um episódio de disenteria
A gente se encontrar novamente e ai então
Eu perceber sua lagrima abafada
E o pavor que você tem de infecção,
E eu me sensibilizar com a sua voz pesada,
Trancada e gaguejada com razão,
Se eu esperar pra que você se acalme
Antes de continuar a orientação,
E tentar explicar a você com calma os riscos
No caso de uma desidratação,
Levar você até a Enfermaria,
Apresentar a você a Dra. Maria,
Nossa chefe do setor de Nutrição,
Se nesse dia de disenteria
Eu não deixar você até que você sorria,
E acalme a sudorese e a agitação,
Posto que uma boa conversa, segundo a medicina,
Faz mais efeito às vezes que a nifedipina
Para a hipertensão,
E se eu tratar seu esposo com respeito,
E o irmãozinho do seu filho com atenção,
Se eu perceber a lágrima do seus olhos,
Se eu me incomodar com o tremor da sua mão,
Se eu não disser: “para de bobagem,
Parece criança com medo de injeção
E ao invés disso eu repetir: “Coragem,
Viver é um teste de superação”...
Se nesse dia eu espantar seus medos
E contornar sua preocupação,
Se nesse dia, minha senhora,
Por conta certamente da danada da psora
Eu fugir da linha
E acabar chamando você de Mãezinha
Ou de qualquer outro nome que a equivalha,
Perdoa essa minha falha imperdoável,
Supera esse meu costume incorrigível,
E livra-me da condenação inapelável,
Eu sou terrível...
E acredite:
Justo nesse dia,
Ainda que falte nome e sobrenome,
Ainda que eu atropele a dicção,
E troque a preposição pelo pronome.
Não acredite nessa desatenção.
É que não prestei atenção no papel, minha senhora,
Prestei atenção no seu coração...
E ai toda Maria, toda Mara,
Toda Sebastiana e toda Nelly,
Toda Cristal, toda Dulce e toda Lara,
Não são Melissa pra mim, nem são Michelle,
E não importa se morena ou loura,
E tanto faz o seu tom de pele:
É a mesma mulher desesperada
Que independente da forma como é chamada
Quer ser afagada, acolhida,
E bem tratada,
E mais do que ser bem tratada, ser ouvida,
E mais do que ser ouvida
Ser cuidada...
Tudo mais em verdade são ruídos, bem disse Carlos Drummond,
Tudo mais são como musica sem som.
São conjecturas pra sábios,
São páginas para alfarrábios
E compêndios de psicologia...
Tudo mais em verdade são palavras
Para enriquecer as teses de doutorado
Que vêem pecado onde não há pecado
E contaminam o cuidado com teoria...
Por isso, minha senhora,
Se algum dia,
Por pneumonia ou disenteria,
Eu atender seu filho no plantão,
Presta atenção nos meus olhos
E repara pra onde volto minha atenção:
Se para os dados formais do prontuário
Ou para as vozes do seu coração,
Se pra seu nome correto e sobrenome
Ou pra seu medo de infecção,
Se pra sua vida e pra vida de seu filho
Ou se pras teses de dissertação...
Presta atenção nos meus olhos nesse dia
E tire a sua própria conclusão...
Tudo mais, como o Drummond diria,
São como concha vazia...
Coisa sem cor nem significação...

10.2.11

A trajetória

I
No inicio era um sonho,
Risonho.
No inicio era um sonho
Contagiante.
No inicio era o inicio do inicio
Daquela data em diante.
Mas aquele inicio,
Como todo inicio,
Foi dificil
Como qualquer inicio.
E, como qualquer inicio,
Desafiante.
No inicio era um sonho
Medonho,
Mas era um sonho,
No inicio,
Brilhante.

II
Passados os primeiros dias
Após os primeiros planos
Colecionadas as primeiras alegrias,
Contabilizados os primeiros desenganos,
O tempo seguiu
E o que era um tiquinho cresceu
A criança, ativa,
Virou gente grande,
Adolesceu.
Depois dos primeiros dias,
Apos os primeiros danos,
Desfeitas as primeiras fantasias,
Como acontece, geralmente, com os humanos...

III
Chegaram
As primeiras chuvas
Os primeiros raios,
As primeiras perdas,
Os primeiros ventos,
As primeiras provas,
As primeiras quebras,
Os primeiros trancos
E tormentos...

IV
Depois chegaram mais tempestades:
O tempo ruim nunca vem sozinho...
Uns julgam ser fruto da fatalidade
Despertar dentro de um redemoinho...

V
No inicio era um sonho
Risonho,
Inocente,
No inicio era um grande futuro...
E as nuvens pesadas no céu
De repente
Mostrando pra gente
O tempo escuro...

VI
E uma hora as coisas começaram a ficar feias
As caixas das contas a vencer, mais cheias,
As do que havia pra receber,
Cheias de não...
E nessa hora de indefinição
Uns desistiram,
Outros nem voltaram,
Alguns se julgaram
Cobertos de razão,
Muitos mentiram,
Alguns se aproveitaram,
Uns poucos nem retornaram,
Passado o verão...

VII
Mas houve uns poucos
Que aprenderam a nadar na contra mão,
Acostumados a transformar o NÃO em SIM
E a superar, assim, qualquer senão...
Permaneceram,
Ficaram,
Não reclamaram
Nem esmoreceram,
Não desmereceram,
Lutaram,
Perderam muito
Mas não se perderam...
Seguiram, sem questionar, seu coração...
Houve esses poucos
A quem poderiamos chamar:
Superação...
Não desistiram.
Sofreram.
Não imaginem voces o quanto choraram...
Mas não perderam sua convicção...

VII
Havia muita chuva ainda por vir,
E muito atalho ainda pra pegar,
Muita luta pra não deixar a peteca cair,
Só não havia tempo pra se lamentar...
Só não havia tempo pra desistir,
Só havia uma palavra: superar...
Era preciso, na crise, prosseguir,
Na crise, era preciso se organizar...
E as vezes, no meio da calmaria,
Quando parece que acabou a ventania,
E tudo em volta parece se ajeitar,
Parece que, exatamente nesse dia,
O destino, carregado de ironia,
Arruma um jeito de atrapalhar
O resto que ainda resta de fantasia,
O força que ainda resta pra sonhar,
Traz sempre um jeito de incomodar,
E incomoda,
Como se colocasse a gente no centro da roda
E começasse a rodar,
E ai, no meio da poesia,
Tem sempre um verso que não consegue rimar...

VIII
Chega uma hora
Em que a palavra é desacreditada,
A hora em que o desespero
Faz toda gente desesperançada,
Chega uma hora
Em a história inteira parece estar contada,
E pro futuro
Uma palavra apenas reservada:
NADA...
Chega uma hora
Em que a esperança parece estar perdida,
A coisa tão sonhada, destruida,
A fé, mal construida, espatifada...
Chega uma hora
Que é uma hora
Danada...

IX
Era preciso um coração valente
Vestido de fios de luz e dor,
Um coração confiante, resistente,
Vestido de fibas de destemor,

Um coração feito completamente
De amor imenso, o mais genuino amor,
Um coração contagiante e ardente,
Era preciso um assim, desbravador,

Um coração pra conduzir a gente
Que desandava, descrente,
Como um pedaço de nada, sem sabor...

Um coração confiante e coerente,
Um coração que nunca se mostrou ausente,
Que nunca se tornou um desesrtor...

X
E hoje aqui estamos
Sobrevivemos às tempestades...
Não nos rendemos às desconfianças,
Não nos curvamos às dificuldades...
Não aderimos às desesperanças...
Não confirmamos as fatalidades...
Aqui chegamos.
Existe um sonho esperando ser sonhado.
Existe um futuro para ser construido.
Existe uma lição aprendida no passado.
E o dia apos dia para ser aprendido.
Mas cá estamos.
De alguma forma, não nos dispersamos.
De alguma maneira, não nos destruimos.
Na data de hoje nos reencontramos.
Comemoramos a alegria que sentimos
Porque de alguma forma não entregamos
A história que de algum modo construimos.
Cansados, mas felizes, aqui estamos...
Felizes, mas dispostos, assumimos...
As lutas que ate agora nós travamos
Que seja o combustivel de que necessitamos
Para crescer...
É só o inicio. Mal começamos.
É só o inicio. Aqui estamos.
Depende de nós para o resto acontecer...

XI
O reinicio de um sonho,
Risonho.
Um sonho que permanece
Contagiante.
No inicio era o inicio do inicio,
Agora o reinicio
É dessa data em diante.
E esse reinicio,
Como todo reinicio,
Não vai ser facil
Como qualquer sacrificio,
Mas, como qualquer reinicio,
Vai ser um reinicio
Desafiante.
Esse reinicio é um sonho
Medonho,
Mas é um sonho
Com reinicio
Seguramente
Brilhante.

Dedicado à minha mãe, Hilda Mussa Tavares, de coração valente, e à sua perseverança na condução acertada à frente do Colegio Anglo Campos.

6.2.11

A metade do caminho

Se voce obedecer todas as regras vai perder a diversão,
Se desobedecer todas, vai correr perigo...
É preciso equilibrar-se entre a paz no coração
E aquele friozinho no umbigo...

É desafiador caminhar na contra-mão,
É patético viver sob um abrigo...
O que tempera a vida é a emoção,
Saber reconhecer o joio e o trigo...

É sempre assim: a metade do caminho...
De um lado a brisa, do outro o torvelinho,
Adrenalina pura e calmaria...

Seguir em bando ou decidir sozinho
Se bebe agua ou se bebe vinho
Escrevinhando a própria poesia...




1.2.11

Constatação

Uma andorinha só não faz verão,

Um verso sozinho não sabe como rimar,
Um coração quer sempre outro coração
Para abraçar...

31.1.11

Para Miss Charada

Vc diz: Me chame de quantos nomes vc quizer... pois todos os dias sou uma mulher diferente...
Li e gostei disso, e escrevi esse soneto pra voce:

Vou te chamar de moça delicada,
De moça especial logo em seguida,
Uns dias te chamarei moça estressada,
Outros dias, moça feliz da vida...

Domingo à tarde, moça comportada,
Segunda feira, moça bem vestida,
Sabado à noite, moça de balada,
Diariamente: moça crescida...

Vou te chamar de moça que me agrada,
De moça que não precisa dizer nada
Pra se tornar essa moça tão querida...

Ah, moça que parece um conto de fada...
Ah, moça misteriosa, Miss Charada...
Ah, moça que me deixa sem saida...

21.1.11

O amor

Estrada estranha, atraente estrada,
Mal desenhada, mal definida,
As vezes de aparencia abandonada,
Algumas outras, interrompida...

Estrada estranha, sem ponto de entrada,
Estrada sem atalho de saida,
As vezes alimenta, outras, desagrada,
E as vezes dá sentido à própria vida...

Estranha estrada, estreita e desejada,
Temida, distraida, romanceada,
Desperdiçada, evidente, perseguida...

Estranha estrada, o amor, desenganada,
Sozinha, mesmo quando acompanhada,
Estranha estrada, o amor, desconhecida...

20.1.11

A necessidade
(inspirado no poema Versos Intimos de Augusto dos Anjos)

O homem, que nessa Terra miserável,
Vive entre feras, sob a estupidez,
Sujeito à discriminação abominável,
Escravo da usura e da insensatez,

Este mesmo homem, que nessa Terra instável
Acostuma-se a varias dores de uma vez,
E sofre, como sofre o colon irritavel,
E faz sua morte, sem perceber que a fez,

Este pobre homem, da solidão inseparável,
De uma forma estranhamente inevitável,
Já não confia em mais nada, e nada espera...

E rendendo-se, esse homem, à cruel fatalidade,
Sob o dominio da brutalidade,
Sente a necessidade de também ser fera...   

31.12.10

Conte com a gente

Em 2011 conte com a gente
Pra estudar,
Pra discutir,
Pra discordar,
E viver,
Pra concordar,
Pra prosseguir,
Pra amamentar,
Pra nascer,
Pra apaziguar,
Pra insistir,
Pra fomentar,
Pra crescer,
Pra provocar,
Pra fugir
Quando ficar
For morrer,
Conte com a gente em 2011
Do mesmo modo que em 2010,
Com os mesmos olhos,
Com as mesmas mãos,
Com os mesmos pés...
Conte com a gente então,
O resto é nada,
Viver é compartilhar
Sem possuir,
Quem pensa que proprietário
É um grande otário,
O sinonimo de ter
É dividir...
Por isso em 2011
Conte com a gente,
Mesmo que triste,
Desesperado,
Quero chegar a 2012
Menos cansado,
Mas sei exatamente que pra isso
Preciso trabalhar mais
Contra o desanimo,
Contra o cansaço,
Contra o rancor,
Que é o ladrão da paz...
Então é assim:
Conte sempre comigo.
Amigo que é amigo
Não disfarça...
Feliz 2011...
Não perca a cabeça...
E nem a poesia...
E nem a graça...

25.12.10

Autonomia
(para Camyla)

O coração não obedece a horário:
Não tem que ser hoje, não tem que ser amanhã,
Não segue um roteiro, como um aeroviário:
Colombia, Bruxelas, Amsterdã...

Não tem medida, nem regra, pouso ou páreo,
Tentar domina-lo? Tentativa vã...
Desafia o império, escapa ao corsário,
Transcende à fé budista e à fé cristã...

O coração tem um nome: autonomia.
Segue seu rumo sem fio guia,
Descobre e traça o tom da própria estrada...

Redige a sua própria carta de alforria,
É seu próprio credor, fiador e garantia
E a vida inteira vai nele impregnada...

 

24.12.10

Pedido em forma de poeminha para Splanchnizomai

Prezada leitora atenta e verborragica,
Observadora e simpática leitora,
Tão realista que chega a ser dramática,
E objetiva, porque observadora,

As vezes tento entender a sua tática
Como um aluno que tenta aprender com a professora,
Mas logo perco o folego, como a criança asmática,
E falho, como a feiticeira sem vassoura...

Por isso, minha leitora extravagante,
Permita-se, da data de hoje em diante,
De alguma maneira ser localizada:

Um mail, um blog, um flog, um facebook,
Um msn, uma comunidade do orkut,
Pra que as minhas respostas possam ser postadas,

E assim, por entre replicas e treplicas,
Possamos trocar conversas quilometricas
No reino das frases inesgotadas...

23.12.10

João 3,16

Porque Deus amou o mundo,
Mas amou,
Não apenas simpatizou
Ou gostou muito,
Ou demonstrou alguma outra forma qualquer
De afinidade,
Mas amou o mundo,
Não este pedaço
Ou aquele,
Ou esta parte
Ou a outra,
Mas o mundo
Inteiro,
Sem paredes,
Sem muralhas,
Sem fronteiras,
Amou o mundo
Não de um amor passageiro,
Egoístico
Ou fugaz,
Mas amou de modo absoluto,
Completo
E único,
De tal maneira
Que deu a ele,
Mas deu,
Não apenas prometeu
Ou mostrou que tinha,
Ou emprestou,
Ou tão somente contou,
Mas deu a ele O Seu Filho,
Não o amigo do Seu Filho,
O primo próximo,
O filho do Seu Filho,
Mas Seu Filho,
Não o mais novo,
Não o mais forte,
Não o mais bonito, mas
Deu a ele o Seu Filho unigênito
Para que todo aquele,
Não um ou outro,
Ou este ou aquele,
Ou uns mais, uns menos,
Ou uns nem,
Mas, indistintamente
E sem reservas,
Todo aquele que nele crê,
Não que fala em nome Dele,
Não que prega o nome Dele,
Não que escreve o nome Dele,
Não que arrebata multidões em nome Dele,
Não que grita: Senhor, Senhor,
Mas todo aquele que Nele crê
Não pereça,
Ainda que enfraqueça, não pereça,
Ainda que caia,
Ainda que padeça, não pereça,
Ainda que sofra,
Ainda que esmoreça, não pereça,
Ainda que amargue,
Não pereça
Mas tenha vida,
Não glória,
Metal,
Poder,
Ou honrarias de Estado,
Não fama,
Nome,
Prestígio,
Ou bem estar social,
Mas vida,
Não pequenina,
Passageira,
De efemeridade
Cercada pelas paredes do tempo
Imperdoável,
Mas tenha vida
Eterna...

1.12.10

Afinidades

Eu me dou bem com as faltas de importancia,
Com os desinteresses em geral,
Com as coisas simples, sem relevancia,
Comuns, como biscoitos de agua e sal,

E vejo, onde ninguem ve elegancia,
Rabiscos de elegancia sem igual,
Eu me dou bem com o vento desde a infancia,
E com a formiga, com a folha, com a roupa no varal...

Não vivo a perseguir titularias...
Em vez de titulos, as rimas das poesias
Sabem fazer melhor a minha cabeça...

Eu me dou bem desde miudo entre as miudezas...
Sinto-me em casa entre as delicadezas...
Tomara Deus, por fim, que eu nunca cresça...

26.11.10

A espera (o poeta)

Passei uma hora tentando, esperando,
Arrodeando o poema por uma hora e meia,
Rabiscando um verso inutil, mas tentando,
E inalcançável, como a lua cheia...

Tentando me aproximar, me arrodeando,
Como se eu fosse uma teia,
Como quem nem sabe a letra e vai cantando,
Inconsistente, como um grão de areia...

E ali, por essa mais do que uma hora,
Como um viajante que não vai embora
Mesmo sem ter a chave do portão,

Tentei o poema com fibra de insistente,
Sonhando em recebe-lo de presente,
Ou por piedade, ou sinal de gratidão...
A espera (o poema)

O poema tentou uma hora me esperando,
Ou me arrodeou por uma hora e meia,
Tentando, sempre em silencio, mas tentando,
Inconfundivel, como uma lua cheia...

O poema, por mais de uma hora me arrodeando,
Como se fosse uma teia,
Cantando seu verso em silencio, mas cantando,
Imperceptivel, como um grão de areia...

E ali, por essa mais do que uma hora,
Como um carteiro que não vai embora
E permanece próximo ao portão,

O poema me esperou, verso insistente,
E trouxe-me esse soneto de presente
Que eu tento registrar, por gratidão...

30.10.10

Um poeminha pra Suelen

Eu te faria um poeminha assim
Escrito todo de palavra boa
Dessas palavras que se espalham num jardim,
Ou caem das asas de um passaro quando voa,

Eu te faria um poeminha assim
Porque tu és um docinho de pessoa
Que faz aparecer palavra em mim
E eu tento rabiscar um verso a toa

E eu te faria esse poeminha
Feito de letra delicadinha
Um verso pra tentar te fazer um bem

Um poeminha bobinho, eu te faria
Feito de vento, de luz, de fantasia,
Feito de palavrinha de nenem…

27.10.10

O seu sorriso
Para Camila Mendez

Não é somente um tempero pro seu rosto,
É um verso doce, sem tradução,
Não tem pecado, exala bom gosto,
Enigma que não tem explicação. 

É como um pássaro sempre bem disposto,
Discreto como bolha de sabão,
Como se o próprio coração exposto,
O seu sorriso é todo pulsação...

O seu sorriso é fermento pra quem mira,
É grave, como a mentira,
Oportunista, como um goleador,

Gigante como a Baia da Guanabara,
Intenso como a chuva que não para,
E quase inconfundivel, como o amor...

12.10.10

Às mães de UTI
(Às mães das crianças internadas na UTI Nicola Albano)

Mães delicadas, maravilhosas,
Mães heroinas do meu coração,
Mães dedicadas, mães cuidadosas,
Mães que são feitas todas de paixão...

Mães que são como o perfume das rosas:
Mexem com a nossa emoção...
Mães privilegiadas, mães dadivosas,
Tão lindas que não tem explicação...

Que Deus esteja sempre do seu lado
Mantendo esse coração iluminado
Que ensina o que é o amor à Terra inteira...

Muito obrigado por tudo, mães queridas
Que tocam com seu amor as nossas vidas
E com sua força tão verdadeira...

3.10.10

Refugio
(À Escola Jesus Cristo em seu aniversario: 27/out/2010)

E quando tudo em volta é ameaça,
Hipocrisia, maledicencia,
Como uma tempestade que não passa,
Como uma cólica que ataca com insistencia,

E quando em volta a vida perde a graça:
Angustia, dor, falta de transparencia,
Miséria, mágoa, desespero, farsa,
Desatenção, descuido, negligencia,

E quando tudo em volta não ajuda,
Como uma febre absurda
Que desconhece o caminho de ceder,

A Escola é o meu refugio verdadeiro,
Repouso generoso e companheiro,
Colo materno a me proteger...

(A Escola é o meu refugio preferido,
Meu significado, meu sentido,
Meu bálsamo de não esmorecer...)

6.8.10

Aos oitenta
(À minha mãe)

Experimente fazer oitenta
Como se estivesse contornando os vinte:
Maravilhosa,
Doce,
Delicada,
Segura,
Forte,
Leve,
E com requinte...
Experimente,
E o faça com elegancia,
Como quem sonha
Com o dia seguinte...
Experimente fazer oitenta
Como quem faz dez,
Como quem faz vinte e tres...
Como quem põe os pés
Em terra firme,
Como quem prometeu
A Deus
Fazer
E fez...
Experimente fazer oitenta
E soltar-se soberana por ai,
Como se fosse branda bailarina,
Um rio doce,
Um anjo que sorri...
Experimente,
Tente,
Nem é facil,
Eu sei,
Mas voce pode conseguir...
Mais do que ler e escrever
Aprenda a ouvir,
Mais do que somar e ter,
Aprenda a dar
Mais que multiplicar,
Aprenda a dividir
E se entregando,
Aprenda asim,
Doando-se,
A ganhar
Não a moeda
Misera, avarenta,
Outra riqueza sim,
Maior que o mar,
E a não ter nada
Como quem se agrada
Com o pão de cada dia
Conquistado,
A roupa do corpo,
Não muito mais,
E muita paz,
E o coração alinhado...
Experimente
Fazer oitenta
Como quem faz
Quatro ou cinco,
Ou desessete...
Como quem, soberana,
Não se rende,
Icaro que não se derrete...
Experimente,
E chegue aos seus oitenta
Com a poesia
De um recem-nascido...
Como se fosse
Mágica dos Anjos...
Experimente...
Voce não sairá arrependido...

6.6.10

Descobrimento

Tanta palavra,
Tanto trabalho,
Tanto diagnostico
Avassalador,
Tanta cultura
Entre a dor e a cura,
Tanta procura
Pelo fim da dor,
Tanta rotina,
Tanto envolvimento,
Tanto equipamento
De alto valor,
E nada disso
Garante um cuidador...
É necessário
Mais do que leitura,
Mais do que máquina
Ou do que o titulo
De Doutor...
A técnica
Não acaba com a tristeza,
O antibiótico
Não cura o sofredor...
É necessário
Mais do que o salário,
É necessário
Uma fonte de calor
Que afaste o medo
E faça companhia
Sem se importar
Com nome, idade ou cor...
É o amor...
Só ele o que nos basta.
Sem ele tudo é fraco
E enganador.
Experimente algum dia
Não ter nada,
Além de seu olhar
Confortador,
Além de um aperto de mão
Ou de um sorriso,
Além de um gesto
Doce e apoiador...
Experimente nesse dia
Não ter nada
E esse dia será
Revelador
Porque não será preciso
Mais que nada
Se, tendo nada,
Você tiver amor...
Porque a vida sem amor
É uma roubada
E é sempre transformada
Pelo amor...
Amor que é tudo de bom,
Que a tudo agrada...
Amor essencial...
Profundo amor...