3.2.12

A poesia


Eu sou pior do que os versos que eu crio,
Por isso passo meu tempo os observando.
Por que tão cheios de luz e eu tão vazio?
Por que tão inteiros e eu tão desmontando?

Por que tão dóceis e eu tão arredio?
Às vezes eu gasto meu tempo articulando
Palavras como se fosse um desafio,
Mas é o meu verso que vai me desafiando...

Eu sou pior do que os versos que eu consigo...
Mas se eles não ligam, eu também não ligo,
E continuo escrevendo...

Quem sabe um dia, sem que eu perceba,
A poesia inteira que eu bebi, me beba,
E eu vá, bebido de poesia, renascendo...

Acorda e segue

Eu sou pior que os pedaços de poesia
Que tento rabiscar diariamente.
Careço de versos mais leves, de harmonia,
De rima rica, de leitura fluente...

Minha vida é feita de letra mais vazia,
Restos de frase torta e inconsequente,
Formando poemas sem sumo, sem ousadia,
Poesias sem graça, coisa decadente...

E, por ser verso sem garantia,
Rima sem antidoto anti-desarmonia,
Discretos sinais de que vai um dia ser feliz,

Por isso mesmo é que o poema, complacente,
Permanece ao meu lado, paciente,
Dizendo pra mim: acorda e segue, Luis...

28.1.12

Significado

Para minha amiga Nancy Ribeiro, dançarina e poetisa.

Nancy significa dançarina,
Mas também significa poetisa.
Mistura ser mulher com ser menina,
Ser como o aço com ser como a brisa.

Nancy significa bailarina,
Parece que voa por onde pisa.
Mistura sonho com adrenalina,
Gesto improvisado com técnica precisa.

Nancy significa poesia
Escrita com frases de pura maestria,
Sonetos escritos com sutileza...
 
Nancy significa rima rica,
Escrita de um jeito que ninguém explica,
Nancy significa delicadeza.

27.1.12

Toma

(para minha amiga Renata)

Quer um carinho? Toma um carinho...
Quer um abraço? Toma um abraço...
Ninguém precisa sentir-se tão sozinho...
Ninguém precisa ocupar tão pouco espaço...

Quer um beijinho? Toma um beijinho...
Quer bem mais forte? Deixa que eu amasso...
Deixa que eu te protejo de mansinho...
Deixa que eu te acompanho passo a passo...

E pede qualquer coisa... Ta valendo...
E nem precisa me explicar, porque eu entendo...
Tem dias que a gente só precisa disso:

Carinho, dengo, amasso, proteção,
Recarregando a vida e o coração...
E ser feliz assim, sem compromisso...

22.1.12

Homem que é homem

Sabe aprender, tenta ensinar,
Reconhece que às vezes pode não conseguir
Vencer, fazer, dizer, pedir, postar,
Mas desconhece o que significa desistir,

Sabe que há musicas difíceis de cantar,
Escadas complicadas de subir,
Sabe que nem sempre é possível escapar,
Sabe que nem sempre é possível fingir,

E mesmo nos dias de falta de ar,
Nas horas proibitivas de sonhar,
Nas dores impossíveis de se traduzir,

Resiste, porque não conhece voltar,
Caminha, porque não conhece parar,
E segue, porque é o que sabe: seguir...

19.1.12

Luiza II (de volta ao Brasil)

E eu que já tava juntando uns trocados,
Economizando, tentando não gastar,
Já tava até com uns dólares guardados
Mas ai a Luiza resolveu voltar...

Até meus plantões eu já tinha trocado,
Meu FGTS acabado de sacar,
Eu confesso que eu tava animado...
Mas ai a Luiza resolveu voltar...

E agora? O que é que eu faço? Não viajo?
Vendo meus dólares com deságio?
Cancelo o pacote pro Canadá?

Eu que já tava gostando da piada,
Bagagem pronta, passagem comprada,
E agora, que a Luiza resolveu voltar?

Luiza I (no Canadá)

Tá todo mundo querendo saber,
Já comentou ou tá querendo comentar
A festa, o edredon, o estupro na TV,
Todo mundo, menos Luiza, que tá no Canadá...

Tá todo mundo esperando acontecer,
Tá todo mundo tentando adivinhar,
Tá todo mundo pagando pra ver,
Todo mundo, menos Luiza, que tá no Canadá...

Tá todo mundo no calçadão de Ipanema,
Tá todo mundo na fila do cinema,
Tá todo mundo que eu conheço indo malhar...

Tá todo mundo querendo companhia...
Tá todo mundo compartilhando essa poesia...
Todo mundo, menos Luiza, que tá no Canadá...

15.1.12

10 anos

10 anos postando rimas, criando versos, inventando quadras,
10 anos, com ou sem motivos, procurando motivos pra escrever
Sonetos, poemas livres, palavras livres, rimadas,
10 anos como se o verso acabasse de nascer,

10 anos me surpreendendo com as coisas improvisadas,
Com os versos improvisados, banhados de bem querer,
Com as ironias discretas, com as ironias ousadas,
Com as ironias nem sempre tão fáceis de se compreender,

10 anos, pra poesia, quase tempo imperceptivel,
10 anos, como se fosse uma contagem impossivel,
10 anos como se o tempo não visse o tempo passar,

10 anos entre sonetos, quadras, livres, redondilhas,
10 anos como se fosse um pai cuidando das filhas,
10 anos como se a vida acabasse de começar...

2.1.12

2 de janeiro de 2012

Um poema para começar o dia.
Que seja feito de palavra reciclada,
Reformatando angustia em alegria
De forma alegre, original e ousada.

Um poema em manhã chuvosa e fria,
Como se a felicidade fosse aguada.
Um poema tolo a me indicar: sorria...
Um poema só... Não preciso de mais nada...

Então um poema , essa manhã chovendo,
E o tempo que faz com que eu vá envelhecendo,
E a vida, que enquanto isso, vai passando...

O poema, a vida, a chuva fria, a idade...
Goticulas de minha felicidade
Que segue assim, sempre me acompanhando...

13.12.11

É hoje...


É hoje o Dia Mundial da Alegria,
Dia de não tolerar a intolerância,
O Dia Internacional da Poesia,
O Dia Nacional de Proteção à Infância,

É hoje o Dia do NÃO à hipocrisia,
Dia de Ignorar a ignorância,
Dia de estar em boa companhia,
Dia de escrever poesia com elegância,

É hoje o dia, amanhã ninguém sabe.
Aproveite hoje antes que o dia acabe,
Que diz que eu estou errado não sabe o que diz.

É hoje o dia. Aproveite.  A hora é essa.
Felicidade às vezes também tem pressa.
É hoje seu dia de ser feliz.

6.12.11

Estrela


Estrela quando anoitece,
Estrela quando amanhece,
Estrela no inverno e no verão,
Estrela na prosa,
Estrela na poesia,
Estrela na mão e na contra mão,
Estrela que não falha,
Estrela que brilha,
Estrela de silêncio e sedução,
Estrela morena,
Estrela diária,
Estrela que mais se parece com um clarão,
Estrela se segunda,
Estrela de sexta,
Estrela de sábado, domingo e feriadão,
Estrela de manhã já bem cedinho,
Estrela iluminando meu caminho,
Estrela entrando no meu coração,
Estrela delicada como a brisa,
Estrela perigosa como a brasa,
Estrela Deusa: não provoca não,
Estrela que é só uma,
Estrela única,
Estrela misteriosa como a mimica,
Estrela como bolha de sabão,
Estrela calma,
Estrela terna,
Estrela eterna,
Estrela de ocasião,
Estrela que pode o que nenhuma pode,
Estrela que vai onde as outras nunca vão...

5.12.11

O poema em silencio

Ninguém por perto, aparentemente.
Sozinho, sem ter com quem conversar,
Como se eu fosse o unico sobrevivente
De um trágico naufrágio em alto mar...

Sozinho. Sem amigo. Sem parente.
Ninguém pra responder nem perguntar.
Longe de tudo, de toda gente,
Nada que tente me fazer falar...

E quando tudo se torna essa quietude,
A poesia toma uma atitude
E a palavra dá um jeito de se fazer escrever,

E escapa, descompacta, da caneta,
Para ir formando o verso letra a letra,
Fazendo o poema nascer...




2.12.11

Sonetinho farmacológico

A febre que não responde à dipirona,
A digitalização e o coração com insuficencia,
O broncoespasmo resistente à hidrocortisona,
O antibiograma e a multipla resistencia,

Usar ou não, e em que dose, a amiodarona,
O fenobarbital e os niveis de consciencia,
A hipersensibilidade à ceftriaxona,
Anafilaxia e adrenalina na emergencia...

O manual de Farmacologia...
Que bom se o Dr. Goodmam* me fizesse companhia
Ou se eu tivesse assistido a mais aulas do Lacaz**...

E eu que achava complicada a porfiria***...
Eu era feliz, hoje eu sei, e não sabia,
Há 30 anos atras...

* GOODMAN & GILMAN: MANUAL DE FARMACOLOGIA E TERAPÊUTICA, o livro clássico de farmacologia desde meus tempos de estudante (e permanece até hoje um clássico)

** Professor Paulo da Silva Lacaz, ilustre Catedrático de Bioquimica na UFRJ, possuidor de profundos conhecimentos e didática absolutamente pessoal de transmitir seus conhecimentos.

*** Uma hemoglobinopatia. As aulas do Professor Lacaz sobre as profirias eram antológicas, tamanha sua facilidade de visualizar e exemplificar em pleno (como se estivesse vendo a molécula. Incrivel) ar as caracteristicas bioquimicas da hemoglobina para espanto de todos.

Outro sonetinho ambulatorial

Começa o dia. A febre não para.
A dor não para. Resiste, insistente:
O edema, a ulcera, a escarlatina, a escara...
A dor tem muitos nomes diferentes...

Começa o turno. Fila logo de cara.
O exantema. A crise. O bebê gemente.
Penicilina procaina ou ampi e gara?
Anticonvulsivante? Antiácido? Compressa quente?

Começa o preenchimento da ROA vazia.
O longo desfile da dor durante o dia.
Os vários nomes da dor se apresentando.

Começa o dia da dor que não termina
Com analgésico nem com cefalotina
Enquanto o soneto passeia, observando...




1.12.11

Sonetinho ambulatorial

Pode entrar o primeirinho. O que é que ele ta sentindo?
Deita na cama. Abre a boca. Assim. Não precisa chorar.
Quando é que isso começou? Onde mais que ta saindo?
Tá dando pra ele o remedio que eu pedi pra voce dar?

O próximo. Oi. Boa tarde. Ta com febre? Ta tossindo?
Ta com o nariz entupido? Catarro? Falta de ar?
Ta coçando? Ta ardendo? Ta doendo? Ta sumindo
Depois daquela pomada que eu mandei manipular?

Manda entrar aquelezinho no colo da mãe, gemendo.
Oi, mãezinha, boa tarde. O que mais que ele ta tendo?
Tou pedindo um Raio X de tórax pro seu nenem...

Receitas. Carimbos. Gotas. Suspensão. Supositório.
Como são longas as tardes dos dias de ambulatório.
Por hoje é só. Por enquanto. Até semana que vem...

30.11.11

Às mães que tem seus filhos internados...

Às mães que tem seus filhos internados,
Trazendo seus corações diminuidos,
Seus sonhos, por assim dizer, danificados,
E os seus sorrisos, subtraidos...

Às mães de filhos hospitalizados
Entre injeções, punções e comprimidos,
A esses passaros de luz aprosionados,
A esses pedaços de paz perdidos,

Às mães que vivem a dor dos seus rebentos
Entregues a exames e medicamentos,
Reféns da doença e da internação,

Que Deus permaneça ao seu lado nesses dias
De arritimias e ultrassonografias,
E hipernatermias e hipotensão,

Que Deus permaneça ao seu lado nessa hora
Do choque, da palidez e da pletora,
Da drenagem da bolha, da estertoração,

Que Deus permaneça ao seu lado nesse instante
Da insuficiencia respiratória sibilante,
Da necessidade de ventilação,

Que Deus permaneça sempre ao seu lado
Nesses dias de prognóstico reservado,
De duvida, de dor e de aflição...

21.11.11

Facebookiana

No que voce está pensando? (pergunta o facebook)
Estou pensando numa poesia
Porque adoro postar de madrugada,
Ainda mais quando a madrugada é fria
E, porque fria, crua e abandonada...

Estou pensando se eu conseguiria
Fazer poesia sem pensar em nada,
Fazer poesia sem ter alegria,
Ou sem estar com a alma atormentada...

E o face quer saber: no que eu estou pensando?
Não estou pensando, face, estou tentando
Fazer poesia como quem não pensa...

Como quem vai, com a noite, madrugando,
Enquanto o dia vai se aproximando
Como quem entra sem pedir licença...

18.11.11

A palavra

Eu vou atrás da palavra camuflada,
Dessas que se enturmam sem se apresentar,
Como se desejassem dançar fantasiadas,
Como se tivessem necessidade de dançar...

Eu vou atrás da palavra disfarçada,
Dessas que falam como se tivessem nada pra falar,
Dessas que são ricas, mas como se não possuissem nada,
Eu vou atrás dessa palavra até encontrar...

E quando enfim essa palavra for localizada,
Eu vou cuidar para que ela seja bem cuidada
E esteja sempre por perto, e venha me visitar,

E assim essa palavra vá ficando acostumada,
Transformando-se em palavra descansada,
E queira nunca mais me abandonar...

14.11.11

Amanhecer

Onde a palavra exata pra poesia?
A rima pro soneto? O verso? O tema?
Na página em branco nenhuma garantia,
Nada que permita concluir um poema...

Onde a palavra que se escreveria
Pra fazer o poema valer à pena?
A cabeça tão cheia, a página tão vazia,
Quem sabe resolver esse problema?

Acordar a palavra que dorme escondida
Trazendo vida à página sem vida,
Permitindo ao verso respirar aliviado,

Ganhar de surpresa uma rima oportuna
E o poema, que era sem palavra alguma,
Respira, amanhece, feliz, acordado...


31.7.11

Sonhar 

É colocar a mão desnuda em fechaduras,
Ir destrancando portas bem trancadas...
As vezes abrindo salas muito escuras,
Outras vezes varandas ventiladas...

Nos mete as vezes em perigosas aventuras,
As vezes em delicadas enrascadas...
É o antidoto ideal pras amarguras,
É o bom descanso pras dores mal curadas...

É o mais necessario dos terriveis riscos,
O mais saboroso e suave dos petiscos,
A mais amarga e crucial das alegrias

Onde nada é intocável ou é impossivel,
Ou impensável, onde nada é desprezivel,

Nada mais necessário em nossos dias...

25.7.11

As 12000 mulheres
(Em 2010 12000 mulheres foram presas nos EUA por amamentar em publico)

12000 mulheres aprisionadas,
Tratadas como se fossem criminosas,
12000 mulheres desrespeitadas
Por 12000 acusações maldosas...

Como se fossem 12000 depravadas,
Perturbadoras da ordem, perigosas,
12000 mulheres sentenciadas,
12000 ordens de prisão maliciosas...

Como se o fato de possuirem glandulas mamárias
Fosse razão para as fazerem presidiárias,
Fosse argumento para trancá-las na prisão...

12000 mulheres humilhadas...
12000 sentenças contaminadas...
12000 motivos para lhes pedir perdão...

8.7.11

Ao bebe que viverá 100 anos
(Para o professor Marcus Renato e os participantes do Congresso Virtual de Aleitamento)

Proteção para o bebe que viverá 100 anos,
Para esse bebe centenário, proteção,
Para que os bicos não o afastem dos seus planos,
Para que as fórmulas não distraiam sua vocação,

Proteção para esse centenário entre os humanos.
Que faça 100 anos sem travar na contra-mão
Assediado por bicos ortodonticos insanos,
Desacatado por latas de pura perdição...

Proteção para o nosso bebe centenário
Contra a formula insana, contra o bico ordinário,
Contra o desmame precoce e sem razão...

Para que viva 100 anos livre da tortura
Da boca disforme, do bico sem cura,
Pelo leite materno ofertemos proteção...

17.6.11

O Ministerio da Saude


O Ministerio da Saude adverte:
Quem não se diverte não é feliz.
Divirta-se, portanto, todo dia,
Vestindo-se com retalhos de alegria,
O Ministerio da Saude apóia a poesia
Porque a poesia é mais iluminada que Paris.
O Ministerio da Saude admite:
O mau humor é mais contagioso que a meningite,
A negligencia, mais inoperavel que o tumor,
A displicencia deixa mais seqüelas que o derrame,
A tsunami é menos perigosa que o cinismo,
O alpinismo é menos arriscado que que a mentira,
A ira é a felicidade com defeito,
Bebe contente mama mais peito,
A ingratidão invariavelmente vira dor...
O Ministerio da Saude orienta:
A mãe que não amamenta merece apoio
Porque nem tudo que parece trigo é trigo,
Tem ramo que parece trigo, amigo,
E na verdade é joio...
O Ministerio da Saude adianta:
Ninguém colhe o que não planta,
Ninguém planta o que não traz no coração...
O Ministerio da Saude não discute:
O bom humor é mais delicioso que o iogurte,
O amor é a tábua da salvação...

11.6.11

A lata
Após o Curso de Monitoramento da NBCAL em Campos.
Para Fabiola, Jeanine e Rosana.

É de vaca o leite em pó armazenado
No interior metálico da lata,
É pó de leite, industrial, desidratado,
Mas nada mais do que um leite que é de vaca...

Ligeiramente doce e amarelado,
Independente da marca,
Parece inofensivo e bem-comportado
O leite de vaca em pó que não faz nata,

Mas que ameaça a saúde, o crescimento,
O vinculo, a boca, o desenvolvimento,
Castigando o bebe de uma maneira inteira...

A lata e sua utilização inadequada...
A lata e sua propaganda inapropriada
Desmamando a criança brasileira...

7.6.11

A Barbie siliconada
(a industria de brinquedos criou uma edição da Barbie com silicone)

Olha só pra Barbie siliconada:
Atá aonde vai a estupidez humana?
Quem é que ela encanta? Quem é que ela agrada?
Quem ela convence? A quem ela engana?

A Barbie siliconada. Adulterada.
Como se fosse uma pirua hollywoodiana.
Olha pra Barbie siliconada, coitada...
Meu Deus! Que brincadeira mais insana!

Não sei se turbinada ela tem um nome
Que a identifique: Barbie com silicone.
O peito sem respeito da boneca.

Que Deus proteja dela a nossa infancia,
Desalinho travestido de elegancia,
Contaminando nossa brinquedoteca...

6.6.11

A volta do pecador

O pecador voltou sem nunca ter partido,
Está de volta, por isso, o pecador,
São muitos os pecados que tem cometido,
Mas isso não o tornou um desertor...
 
Voltou o pecador sem nem ter ido,
Talvez para cuidar da própria dor,
Ser pecador não significa ser bandido,
Ninguem é inteiramente sem valor...
 
Por isso a volta, quase arrependido,
Do pecador distraido,
Mas que de seu pecado é sabedor...
 
A volta do pecador desinibido,
Desalinhado, auto-redimido
Por um soneto do qual é co-autor...

29.4.11

Eu toco sambinha
Para Vitor

Eu não toco violão. Eu toco sambinha.
Eu bem que adoraria saber tocar violão,
Mas eu só sei uma mesma batidinha
Como se eu fosse discipulo do João...

Tocar violão é uma vontade minha,
Mas eu só toco sambinha. Mais nada não.
É como se fosse uma mesma ladainha.
É como se fosse uma mesma oração:

Chega de Saudade. Injuriado. Eu vim da Bahia.
De volta ao samba. Vai passar. A Rita. Ligia.
Exaltação à Mangueira. Cartola. Adoniran.

O mesmo ritimo sempre. Como um missionário.
Como um peixinho dentro de um aquário.
Como se meu coração fosse um tantan...

Por isso não me peça por Lobão,
Adriana, Pato Fu, Legião, Peninha,
Adoro, mas não sei tocar Legião,
Ou toco, mas não sem perder a linha...

Por isso não me pergunte por Barão,
Renato Russo, Djavan ou A Galinha Pintadinha...
Sou samba de uma nota só, sou Samba do Avião,
Samba do Nelson, samba de Pixinguinha.

Assumo que eu não toco violão. Bem longe disso,
Eu toco sambinha: Sem Compromisso,
Eu toco sambinha: Mulata assanhada...

Toco sambinha como faz um batuqueiro,
Sou natural daqui do Rio de Janeiro,
Eu toco sambinha, mais nada...
Poema aéreo (entre Rios)
Escrito na manhã de 28/04, durante o voo entre Porto Alegre e Rio, parte da minha viagem de volta de Pelotas para Campos.

Entre o céu de Porto Alegre e o do Rio de Janeiro,
Sobre a Terra imensa que ficou distante,
Rascunho esse verso passarinheiro
Escrito antes da escala em Navegantes...

Parece que daqui da pra ver o mundo inteiro.
Depois de hoje as nuvens nunca mais serão como antes.
Como é bom escrever um verso voadeiro
Como se as nuvens fossem Espumas Flutuantes...

Entre o céu de Porto Alegre e o céu do Rio,
Um verso que eu escrevo... E enquanto eu crio,
O Rio de Janeiro se aproxima...

Fica distante o céu de Porto Alegre
À medida em que o verso se descreve
E eu fico espiando daqui de cima...

1.4.11

Madrugada

Em plena madrugada, atendimento...
Parece que a doença nunca para...
A febre é plena, madrugada adentro,
Parece que a saude é coisa rara...

Em plena madrugada o batimento
Das aletas nasais, a dor, a escara,
Desesperança, descontentamento,
Esse padecimento que não sara...

Em plena dor respira a madrugada
Como se a morte espreitasse na calada
Da noite a sua vitima distraida...

Madrugada plena, dor escancarada,
Pedaço de vida sem sono, amedrontada,
Pedaço de asa quebrada da vida...