11.5.09
8.5.09
Minha irmã não tem nome,
Tem poesia
Nem voz tem minha irmã,
Tem rimas ricas,
A sua alma nunca está vazia...
Tem frutas doces
Mesmo quando citricas...
Minha irmã não tem rosto
Tem sonetos,
E redondilhas,
E versos livres...
E brilho tem a minha irmã querida
Capaz de impressionar
Hábeis ourives...
Não tem familia,
Filhos,
Marido,
Tem beneficiários
Dos dons seus...
Nem é daqui minha irmã.
Ela é um Anjo
Daqueles que são
Próximos de Deus...
E eu daqui
Observando tudo
Tentando a inutil
Definição
Não percebi
Que a alma pobre
E fraca
Não sabe definir
O coração...
Então,
Sem defini-la,
E extasiado,
Tento um poema
Para minha irmã
Nessa manhã gentil de sexta feira,
Porque ela torna gentil
Essa manhã...
7.5.09
(de acordo com a ortografia dos Anjos)
Amar seu filho acima de tudo.
Brigar por esse amor com todas as forças do mundo.
Crescer como um gigante nos tempos de dificuldade.
Diminuir-se às vezes, como se não fosse um gigante.
Esperar a cada dia por dias melhores.
Falar usando a voz do coração.
Garantir a existencia do amanhã para a Humanidade inteira.
Habituar-se à entrega diária e sem cobranças.
Impor-se através da força invisivel do amor.
Jamais desistir.
Lamber a cria mil vezes por dia.
Mostrar-se sempre disponivel.
"Nada a temer senão o correr da luta"
Olhar com jeito de quem compreende até o incompreensivel.
Parar de viver a própria vida para viver a vida de seu filho.
Quem se atreve a julgar-se ser maior que uma Mãe?
Registrar cada dia em seu coração.
Saber sem precisar perguntar.
Ter sem precisar possuir.
Unica e para sempre.
Ver sem precisar enxergar.
Xodó de mãe não tem preço.
Zelar com amor e carinho pelo bem do seu filho.
21.4.09
Nomeio para meu representante
O verso brasileiro, residente
Da rima, comportada ou dissonante,
Que torna o poema mais coerente...
Nomeio o verso, de hoje em diante,
E que esse titulo dure eternamente,
O verso, meu fiel acompanhante,
O verso bom, meu Principe Regente...
A ele entrego, em paz e confiante,
O meu destino deselegante
E todos os meus dias pela frente...
O verso, meu parceiro mais constante,
O verso brasileiro, doravante
O meu representante. Eu presente...
Procura-se rima de boa casta,
De letra nobre, de sentido são,
De texto fácil, de significação vasta,
De conteudo sem nenhuma exatidão,
Procura-se rima inédita, ainda que gasta,
Que possua força e qualificação,
Que seja como um boato que se alastra,
E ao mesmo tempo contida como um grão,
Procura-se rima bem apessoada,
Que seja comedida e comportada,
E faça a descompostura valer à pena...
Procura-se rima livre e disponível,
Que trate o inacreditável como crível,
E saiba dissolver-se no poema...
20.4.09
11.4.09
O coração, espirito guardado,
Grande demais para ser seduzido,
Forte demais para ser desencorajado,
Extremamente audacioso para ser seguido,
Irriquieto demais para ser filmado,
Sagaz demais para ser distraido,
Extremamente incomum para ser fotografado,
Extremamente incomum pra ser servido,
Inédito, ágil, unico, escancarado,
Benéfico, espalhado, bem instruido,
Às vezes como um objeto não identificado,
Às vezes como um lugar não permitido,
O coração, cancela sem cadeado,
Tentar cercea-lo é causa sem sentido,
É livre o coração, mesmo trancado,
É fluido universal, mesmo contido,
Às vezes como um trem descarrilhado,
Às vezes suave, como um gemido,
Às vezes ruidoso como um brado,
Às vezes não como a flecha de um cupido,
O coração, cantado e decantado,
O coração, a quem tudo é permitido...
9.4.09
O coração, espírito incontido,
Grande demais para ser formatado,
Ou, muitas vezes, para ser compreendido,
E muitas outras para poder ser explicado,
Por isso, alto demais para ser medido,
Complexo demais para ser domesticado,
Imenso o coração para ser todo lido,
Quase sem fim para ser inteiro decorado,
Etéreo demais para ser tolido,
Ou para ser, o coração, desativado,
Convicto demais para ser banido,
Coerente demais para ser barrado,
Barulhento demais para ser esquecido,
Inalcançavel demais para ser arrastado,
Vivo demais para ser desaprendido,
Veloz demais para ser desacelerado,
Enorme para ser todo destruido,
Ou para ser, por conta disso, controlado,
O coração. Como um poema vivo...
Como um poema, o coração, alado...
7.4.09
5.4.09
Um vinho, um video, um jogo de xadrez,
Um fim de semana pescando em Cabedelo,
Um verso de Shakespeare original em ingles,
Um Chico: Budapeste, A Fazenda Modelo,
Um feriado no final do mes,
Fazer as unhas, cortar cabelo,
Sair para jantar no japones,
Levar o cachorro pra tosar o pelo,
E quase nada em qualquer lugar,
Qualquer coisinha pode curar
Sem nenhum misterio, sem nenhuma ciencia,
Qualquer coisinha. É só experimentar.
É tiro e queda. Basta beliscar.
Qualquer besteira cura a carencia...
4.4.09
24.3.09
Mundo, mundo,
Nem tão vasto assim...
E se eu me chamasse Joaquim?
Seria uma rima...
Uma das rimas mais usadas
No sertão...
E se eu me chamasse Olinto?
E se eu me chamasse Onofre?
E se eu me chamasse José Paulo Sebastião?
Mundo, mundo,
Nem tão vasto,
Nem tão vasto mas tão gasto,
Mundo, mundo, coitadinho,
E se eu me chamasse Zinho,
E se eu me chamasse, mundo, Gonzagão?
Mundo, mundo,
Vasto mundo,
Se eu me chamasse João de Barro
Não haveria nem rima
Nem solução...
Mundo, mundo,
Todo vasto,
E se eu me chamasse
Carlos Drummond
Ao invés de me chamar
Algum João?
Aí então, vasto mundo,
Quem sabe
Se lá no fundo
Da nascente onipotente
Da palavra,
A poesia
Não chegava
A uma conclusão?
21.3.09
(para Cacá Happy)
Conhecer voce, assim, me fez sonhar
Com doce de coco,
Com comer chuvisco,
Com beber cerveja junto,
Com caminhar,
Com contar piada,
Com pintar o sete,
Com apostar corrida
Na beira do mar,
Me fez sonhar com hakuna matata,
Com felicidade
De não se acabar,
Como poesia quando nasce o dia,
Com poesia
Antes de se deitar,
Conhecer voce me fez fazer folia
Do pensamento querer acreditar
Em ser feliz,
Como a segunda via
De um verso
Que já não era pra contar,
Com coca-cola, vinho,
Agua de coco,
Peixinho frito,
Abraço de apertar,
Com dedos passeando por seus dedos,
Olhares desvendando
Seu olhar,
Conhecer voce me deu uma vontade
De ir a Paraiba pra buscar
Um grupo de forró de pe de serra
Pra gente junto
Forrozear,
E mais um tanto assim de coisa boa,
Passeio de canoa,
Trabalhar,
Catar conchinha
Tirar cara e coroa,
Brincar de pique esconde,
Volitar,
Nadar de costas,
Comer pamonha,
Brigar,
Fazer as pazes,
Se atracar,
Fugir para Fernando de Noronha,
Pegar um onibus
Pra Madagascar,
De invadir alguma livraria,
Sair de lá com livros de poesia,
E alguns outros livros
Que ensinem a voar,
Me deu vontade de voltar no tempo
E desde o inicio poder contar
Com seu sorriso,
Com seu pensamento,
Com seu jeitinho livre de falar
Das coisas boas,
Das coisas tristes,
Das coisas que algum dia vão chegar,
Ai que vontade me deu,
Moça bonita,
De ser alguem que possa ser seu par
Num jogo de ping pong,
De peteca,
De voley de praia,
De tardes de brincar
De amarelinha,
Queimado,
Malha,
Pique,
Buraco,
Video-game
Até cansar...
E ir assim, como essa poesia
Que até parece que se nega
A terminar...
Me deu vontade
Ao conhecer voce,
De ser,
Permanecer,
Continuar...
20.3.09
(Lula diz: Crise é tsunami nos EUA e, se chegar ao Brasil, será 'marolinha')
Não é uma tsunami. É uma marolinha.
Não é uma tragédia. É uma coisa à toa.
Não é uma desgraça. É uma desgracinha
Que pode acometer qualquer pessoa.
Não é um Titanic afundando. É uma canoinha.
Uma canoinha que parece uma canoa.
Não é pure nem pirão. É só farinha.
Não é nenhum temporal. É só garoa.
Isso é porque é na sua vida. Não na minha
Que segue plácida e sossegadinha
E que de tão plácida, às vezes até me enjoa...
Crise? Que crise? A crise da vizinha?
Mas isso é lá com ela, coitadinha...
Tem nada a ver com a minha vida boa...
17.3.09
(para minha irmã Margarida no dia do seu aniversário)
Margarida significa dádiva,
Margarida significa vida,
Nenhuma duvida, entretanto,
Margarida significa...
Como pode,
Sendo tão frágil,
Ao mesmo tempo ser tão forte
E ser tão rica?
Margarida significa alivio, alento,
Margarida significa poesia...
Ternura, abrigo, afago, acolhimento,
Conhecimento,
Força,
Garantia...
Margarida significa escora,
Exemplo, molde, casa, inspiração,
Palavra mágica que não se explica,
Perfume doce que escapa e fica,
Margarida significa coração...
13.3.09
(aos que acompanham este blog)
Descobrindo a rima pobre ainda escondida
No vão da telha, no ralo da calçada,
Na cantoria, no céu de Aparecida,
Na inconstencia da palavra dada,
Recolhendo a rima rica ainda perdida
No olhar sem rumo da moça abandonada,
No fundo do poço, no fim da vida,
No bebe que nasce com a clavicula fraturada,
Seguindo o verso que não foi escrito,
O excomungado, o fétido, o maldito,
O recuperado pelo toque da poesia,
Buscando o significado da palavra
Que o bisavo do meu avo gostava
De ler, às vezes, ao final do dia...
Quem vem comigo?
11.3.09
À minha amiga Carla Brasil
A brisa vai cansar e vai querer parar,
O mar, também cansado, igualmente vai querer
Parar de vir à praia e parar pra descansar,
E mesmo o sol é capaz de não querer nascer...
A poesia vai perder-se e deixar de rimar,
O ritimo e a métrica vão se desentender,
O pássaro cantor vai esquecer de cantar,
O repentista, num improviso, vai se perder...
O soneto vai amanhecer escancarado,
O cisne branco aparecer malhado,
A hora certa vai perder a hora,
"À cores" vai posar de "preto e branco",
A rima rica de verso manco,
Se algum dia voce, minha amiga, for embora...
10.3.09
Após ler comentário da Rosangela que diz: "Este blog não é "quase poesia"... é "mais que poesia"...É inalcançável! Escapa de nós. A Gente corre atrás, mas não alcança"
São só poesias escritas sem critérios,
Sem regras que não sejam o coração...
São como insights diários esses versos...
São quasepoesias... Poesias não...
2.3.09
27.2.09
Um verso pequeno,
De palavra incerta
E de significado
Insignificante,
É certamente um verso
Mais que suficiente
Pra ser como um Davi
Diante de um gigante...
Um verso minimo,
De palavra torta
E mal escolhida,
Tem o impressionante
Poder de conduzir
A carne morta
À vida além da vida
E mais adiante...
Um verso todo
De palavra quase,
Mesmo sem sentido,
Tem um tom triunfante...
26.2.09
Depois dos dias de samba e de doideira,
Nessa manhã de sol de quinta feira
A poesia voltou, timida e breve,
Num verso quase de eter, quase nada,
Pra contrastar com o ziruguidum da batucada
E com o batuque do coração de quem a escreve.
A volta silenciosa da palavra
Que longe de toda folia descansava
E longe de toda gente adormecia
É pois assim, silenciosa e etérea,
E imprevisível, como a bactéria,
A volta definitiva da poesia...
22.2.09
21.2.09
20.2.09
19.2.09
12.2.09
Sabe das letras o sentido inteiro,
E das palavras o significado.
Tem do poema o paladar e o cheiro,
Do verso tem o tom cadenciado.
Sabe do coração o paradeiro,
Do amor conhece o um lado e o outro lado,
Da dor já decorou todo tempero,
E traz o coração já estampado
Da multiplicidade de um salgueiro
E da ternura de um gesto abençoado.
A minha amiga do Rio de Janeiro
A quem esse versinho é dedicado...
6.2.09
Devagarinho...
Um dia
Eu tive pressa,
Já não tenho mais.
Perigo
Em cada encosta
Escondidinho,
Pra não falar
Do calor
Que às vezes faz...
E as vezes chove,
E outras
Um friozinho...
Tem dias que a fome
Não me deixa em paz...
E nada faz cansar,
Chutar o balde,
Ficar olhando
Insistente
Só prá trás...
É de amanhã,
É de sonho
Meu caminho,
Já foi um dia
Só espasmos
Cerebrais...
Hoje é semente,
O universo
Num grãozinho...
É quase nada...
Mas é todo gás...
O meu caminho...
5.2.09
3.2.09
Gastei rimas ricas
E pleonasmos
Tentando um verso
Gostoso de se ler...
Palavras disfarçadas
De poemas...
Disfarces
Dançarinos
Do escrever...
Gastei o que eu tinha,
O que eu pensei que eu tinha,
O que eu não tinha
E o que eu tentava ter...
Gastei oxitonos
E onomatopéias,
Metáforas
Que usei sem conhecer...
E o verso
Como sempre indiferente
Sumiu
Como quem morre
Sem nascer...
1.2.09
Gastei lapiseiras
Rascunhando versos
Que as letras não quiseram
Registrar...
Palavras,
Rimas,
Frases inteiras,
Quem há de compreender
A poesia?
Provoca,
Arrisca,
Finge que chega
E de repente
Dá de evaporar...
Sonetos,
Versos livres,
Quadras,
Frases,
E nada escrito
Só por ironia...
Onde é que o poema
Que avisa que vem
E se manda,
Onde é que esse poema
Vai morar?
30.1.09
Gastei meus rascunhos
Tentando um verso
Que a poesia
Me pediu para escrever...
Usufruindo
Da companhia
Das tantas coisas
Pra se dizer...
Tentei sonetos
E redondilhas,
E frases
E fonemas
Sem pecado...
Gastei meus rabiscos
Num palavreado
Que se perdeu
Sem se deixar ler...
Palavras desenhando
Aprendizados...
Versos inteiros
De não se conter...
27.1.09
10.1.09
A rede social Facebook resolveu tirar do ar fotos de mulheres amamentando seus filhos nas quais apareçam o bico do seio ou a auréola. A explicação oficial é que as fotos constituem pornografia, uma vez que mostram partes do seio consideradas obscenas.
Somos todos pornográficos, então:
As mães, os filhos, os apoiadores...
Fanáticos por peito, por pega, por sucção,
E pelos hormonios liberadores...
Somos os pornográficos da nova geração:
Os pornográficos sem falsos pudores,
Os sem pecado, e por isso sem perdão,
Apaixonados aconselhadores...
Somos os obscenos sem pecados,
Os pornograficos apaixonados,
Tirem-nos do ar... Mas não tem jeito...
Ainda assim continuaremos,
E cada vez mais fotografaremos
O bico do seio, a aréola e o leite do peito...
Dedicado à propaganda anti-amamentista espalhada pelo mundo...
Dói mais a omissão injustificada,
O silêncio daqueles que tem o que dizer,
Dói mais a inapetencia conformada
(o mesmo que a falta de fome de saber)
Dói mais a usura desenfreada,
A falta de vontade de aprender,
A propaganda mal intecionada
Que não se importa em mentir se é pra vender...
Dói mais a alma que se faz contaminada,
Que escolhe a escuridão escancarada
Como faz o que não é cego e nem quer ver...
Dói mais a morte da criança desmamada,
A vida humana desamparada,
Dói mais viver tudo isso e não se doer...
23.12.08
Aos familiares e aos bebes internados na UTI Neonatal Nicola Albano
Aqui estamos,
De longe viemos...
Um longo e cansativo itinerário...
Foram inúmeras as vezes que choramos,
Foram inúmeras as dores que sofremos,
E no entanto
Tudo parece ter sido Absolutamente necessário
Para que chegássemos até aqui:
As lágrimas, a aflição, o desespero,
As noites intermináveis sem dormir,
Os descaminhos sem sol por que passamos
E as fraquezas de quase desistir...
Tudo absolutamente necessário
Para que acabássemos por descobrir
Tantas lições de vida, acolhimento,
Amparo, apoio, sustentação,
Solidariedade abrandando o sofrimento,
Perseverança alimentando o coração...
Tudo absolutamente necessário,
E imaginar que imaginávamos o contrário
Quando a nossa vida cuidou de desabar...
Tudo em volta, de repente, sem sentido...
Faltou o chão, de repente, de pisar...
Foram dias inteiros tentando descobrir
E noites sem dormir nem acordar...
Um sofrimento diário
E no entanto
Parece que absolutamente necessário
Para que mobilizássemos nossas energias
Por dias e dias e dias e dias
E muitas vezes
Até por meses
Entre tomografias e ultra-sonografias,
Entre hipoglicemias e hiperglicemias,
E anemias e arritmias
E outros tantos sinônimos de dor...
Fomos bordando assim nosso calvário
E hoje
Parece que tudo
Foi absolutamente necessário
E nada absolutamente sem valor...
Porque a fraqueza nos fez fortalecidos,
A dor nos desenhou mais resistentes,
As ameaças tornaram-nos mais vivos
E tanta angustia, mais persistentes...
Tocaram-nos o afetos dos queridos:
Esposo, esposa, pais, irmãos, parentes...
Luzes para que não quedássemos perdidos,
Sustento para que não tombássemos descrentes...
E a dor que nos fez tantas vezes tão sozinhos,
Atormentando nossos caminhos,
Fazendo nosso coração passar tão mal,
É a mesma dor, condição transformadora,
Que com sua força renovadora
Nos traz aqui, nesse dia de Natal...
E a mesma dor que nos fez tão diminuídos
É a dor que nos tornou fortalecidos
E nos mostrou o caminho de saída,
E a mesma dor que tentou-nos derrotados
É a dor que nos traz hoje renovados
Valorizando mais que nunca a própria vida...
E a vida como uma dádiva sagrada
É o bem maior que em sua caminhada
Os nossos filhos vão preservando...
Vão resistindo, heróis, a tempestades,
Saindo ilesos de calamidades,
Salvando-se de enormes vendavais...
E a vida como uma graça alcançada
Por cada um deles nessa jornada
É o bem maior que cada um vai conquistando,
Vestidos de esperanças e vontades,
Superando, como heróis, dificuldades,
Conquistando, com sua dor, a própria paz...
Aqui estamos
Foi como se o coração parasse o calendário
E o tempo desistisse de passar...
E no entanto
Tudo parece ter sido absolutamente necessário
Para que chegássemos
A essa hora
E hoje, a esse dia,
Completa e inteiramente renovados
Dispostos como nunca a continuar...
Crescemos
Com a dor que enfrentamos, amadurecemos,
Amadurecidos, aprendemos a compartilhar
A nossa dor com a dor de toda gente,
E foi isso que nos fez seguir em frente
E nos deu força pra perseverar...
Crescemos
A dor que um dia nos fez sentir pequenos
Foi a mesma que nos ensinou a caminhar...
Uma lição de se aprender diariamente...
Uma lição de durar eternamente...
Um aprendizado que se chama amar...
16.12.08
Para Roberta Profice
Viver é reeditar-se diariamente
Entre palavras e gestos, renascendo
A cada dia, e sempre lentamente
Como uma criança crescendo...
E cada dia é um dia diferente
Por isso é que é vivendo e aprendendo...
Viver é reeditar-se avidamente
Como um riacho correndo...
Nada acontece da mesma maneira.
Uma segunda feira e outra segunda feira
Não são exatamente o mesmo dia...
Reeditar-se. E a unica certeza
É estar em paz com a própria natureza,
É estar de bem com a própria poesia...
6.12.08
A poesia, letra comezinha,
Não muita coisa além de um palavreado,
Mas com o mesmo efeito que a salsinha
Causa num belo prato de ensopado...
Nada demais. Palavra arrumadinha
Sem freio, sem portão e sem cadeado...
Pode conter um elefante, uma bimbinha,
Ou um mar todo nunca dantes navegado...
Por ser assim discreta e desregrada
Possui a força de uma enxurrada
E a delicadeza de uma brisa...
A poesia, letra abusada
Que quer ser mais que ser letra... Inconformada...
A poesia, fronteira sem divisa...
5.12.08
A poesia, palavra enfileirada
Por conta de um arranjo calculado
Gerando um som que geralmente agrada
À medida em que o poema é declamado...
E veja que não é preciso quase nada,
Basta que a gente coloque lado a lado
Muitas palavras de uma maneira arrumada,
Muitas palavras de um modo encadeado,
E é assim que a poesia ganha um aroma
Onde cada palavra é um som que soma
E é essa soma mágica que cria
A poesia, palavra penteada,
A poesia, palavra perfumada,
Prosa vestida de gala, a poesia...
4.12.08
Nada é tão frágil que não consiga crescer,
Nada é tão bom que não necessite mudar...
É tudo uma questão de perceber...
É tudo uma questão de acreditar...
Nada é tão "sonho" que não possa acontecer,
Nada é tão "hoje" que não mereça sonhar...
Tudo na vida é uma questão de fazer...
Tudo na vida é uma questão de tentar...
É amanhã o dia que há de ser,
Se ontem foi o tempo de aprender,
O hoje é a hora de se trabalhar...
É tudo uma questão de se envolver...
Nada é tão forte que não se possa vencer...
Nada é tão longe que não se possa alcançar...
2.12.08
A poesia, rima calculada,
Palavra articulada, a poesia,
Matematicamente desenhada,
Um exercicio de lógica, eu diria...
Milimétricamente metrificada,
Tática travestida de harmonia,
É técnica mesmo quando exagerada:
Nenhuma letra aonde não devia...
A poesia, frase articulada,
Fiel como é uma peça dissecada,
Ainda que sem destinação ou guia...
Letra estratégicamente alinhavada,
Pilula de emoção premeditada,
A poesia, pura engenharia...
A poesia, palavra ritimada,
Vestida toda de métrica e rima...
Para onde vai assim tão arrumada
Essa menina?
Possui ao mesmo tempo a voz calada
E a multipla atividade de uma enzima.
A poesia. Como a madrugada...
A poesia. Como a ocitocina...
Composta bem mais do éter que da letra,
Possui a efemeridade de um cometa
E a eternidade do infinito...
A poesia. Eterna e passageira.
Lampejo que perdura a vida inteira.
Eterna a poesia. Como um mito.
23.11.08
(para minha amiga Roberta Profice)
Se o coração não pensa antes de sentir
E quando sente é sempre por inteiro,
E não escolhe nunca pra onde ir,
E vai sempre pra onde pensou primeiro,
E quase nunca sabe decidir
Entre o que é falso e o que é verdadeiro,
E ao mesmo tempo não consegue se omitir
Nem tentar esconder o proprio cheiro,
Então também assim, amiga minha,
Quando disseres qualquer palavrazinha,
Antes de tudo, preste atenção
Pra que ela esteja sempre em sintonia
Com sua alma, com sua poesia,
Com sua vida e com seu coração...
21.11.08
Ao poeta Antonio Roberto Fernandes, falecido nas primeiras horas de hoje...
Não diga "morte" quando o poeta parte,
Posto que quando parte não se acaba
Mas dignifica a vida com sua arte,
Fazendo brotar vida da palavra...
Posto que a morte é apenas uma parte
Por meio da qual toda a vida se alinhava,
Resume tudo, como um estandarte
Bem justo quando ninguém imaginava...
Não diga "morte", portanto... Diga um verso...
O poeta não morreu... Está disperso
Inundando todos nós com os versos seus...
Não diga "morte"... Diga: "Até um dia
Quando conversaremos em poesia"...
Diga ao poeta: "Fica com Deus"...
14.11.08
Melhora, amigo, sua poesia
Faz falta nesse mundo tão mesquinho...
Vem logo para nossa companhia,
Ler um soneto, contar um versinho...
Tem gente contando nos dedos esse dia...
E cada dia falta menos um pouquinho...
Por que essa falta de pressa tão Bahia?
Por que tão assim devagar, devagarinho?
A vida é como um poema bem comprido
Que quase nunca termina de ser lido:
Há sempre um verso livre por dizer...
Os pratos de vovó estão esperando...
Vem, poeta, estamos te aguardando...
Fica com Deus, meu poeta... Até mais ver...
1.11.08
31.10.08
Ao poeta Antonio Roberto
Versos traçados em eletrocardiografia,
Sonetos feitos de venopunção,
Rimas fingindo-se antibioticoterapia,
Quadrinhas sustentando a intubação...
Redondilhas contornando a arritimia,
Sextetos comandando a oxigenação...
Rimas ricas para a hipocalcemia,
Metáforas estimulando o coração...
O poeta, entre potássios e glicoses,
Vai declamando seu verso a várias vozes
E não esmorece, absolutamente...
Traduz em poesia tudo em torno
E faz da própria vida um grande forno
Que prepara poesia eternamente...
22.10.08
(Poeminha após a leitura das explanações fonoaudiológicas sobre o reflexo da busca)
Eu não a imaginava assim, tão importante,
E nem sabia, sinceramente,
Que ela era um marco tão significante,
O começo de tudo, praticamente...
Dominado pelo estigma do eterno principiante,
Eu sempre vi nela um reflexo somente,
Primário como o de Moro, e desimportante,
E temporário, e menor, e inaparente...
Mas a vida, de forma delicada e brusca,
Tratou de me ensinar a compreender a busca
De uma maneira jamais por mim antes compreendida...
A busca além de um dos reflexos primitivos...
A busca além da busca que há nos livros...
A busca como preservação da própria vida...
7.8.08
Somos mamiferozinhos
Assim como são os gatinhos
E os cachorrinhos
E os filhotinhos das elefoas,
Como as oncinhas e os cavalinhos,
Como os bezerros e os macaquinhos,
Da mesma forma que os filhotes das leoas,
E as girafinhas e os canguruzinhos,
E como também são as ovelhinhas
Somos mamiferozinhos.
Mamamos do mesmo modo
Que os ursinhos,
Crescemos do mesmo jeito
Que os miquinhos,
Ficamos fortes
Como os tigrezinhos
Porque como esses bichinhos
Desde pequenininhos
Mamamos o leite de peito
Que a mamãe nos dá.
Mamiferozinhos nós somos.
Crescemos fortinhos
E desde miudinhos
Aprendemos, como eles, a falar:
Mamãe eu quero mamar
5.8.08
A minha amiga
Para Carla Brasil
Minha amiga doce e mais amada
E mais querida amiga e mais presente
E mais escrita amiga e mais lembrada
E mais suavemente transparente
Amiga tão gentil, tão educada
Quem olha quase não sabe o que ela sente
Quando esta triste sorri, a disfarçada,
Quando feliz, fala pausadamente
Amiga decidida e bem dosada
Não troca a coisa certa pela errada
Não vive a vida de modo inconsequente...
Não fosse real, seria um conto de fada,
Nem precisava ser tão iluminada
A minha amiga que eu amo imensamente...
16.7.08
Calúnia, infâmia, perseguição...
Que outros sinônimos tem a palavra roubalheira?
Desfalque, tombo, desvio... Quantos são?
Incorrigível essa política brasileira...
Os acusados negam a acusação...
A cidade assiste, assustada, à bandalheira...
Sobrou algum dinheiro? Quase não...
E olha que ainda era só segunda feira...
_Tudo mentira! Afirmam os aliados...
Habeas corpus - impetram os advogados...
Aonde afinal essa gente vai parar?
A lista quase sem fim dos envolvidos...
Tantos bilhões por tão poucos subtraidos...
Restou alguém em quem acreditar?
13.7.08
Cidade Pobre
Ah, Campos, cidade pobre...
Pobres por todos os lados...
É dessa forma, sem cobres,
Que seremos governados...
Por sermos tão pobrezinhos
Dinheiro aqui ninguém tem...
Que Deus abençoe os caminhos
Da cidade sem vintém...
Tão sem grana essa cidade
Que aguarda a felicidade
Enquanto a mesma não vem...
Ah, Campos, cidadezinha...
Ah, Campos, cidade minha
Governada por ninguém...
8.7.08
Versos para Eunice Begot
Quando tudo que há em volta é paz serena
E a brisa boa tem sabor de mar,
E quando a vida dessa forma vale à pena,
E nada em torno parece incomodar,
E nenhum rastro há de nenhum problema,
E nenhum saldo há de contas a pagar,
E a vida é bela, como no cinema,
E perfeita como uma musica de Bach,
É nessas horas que a maldade humana,
Hipócrita, cruel e leviana,
Costuma invariavelmente conspirar...
Mas Deus é mais que o mal. Então confia.
Nada é maior que a Sua companhia,
Nada é capaz de o desafiar...
Segue portanto, Eunice, a sua luta.
Supera com amor a força bruta
E o bem, por fim, há de triunfar...
9.6.08
A Natureza
E pouca coisa há tão impressionante
Maravilhosa, de gosto delicado,
E lúcida e limpa, feito um diamante
Que é lindo sem precisar ser lapidado,
E quase nada na vida é tão intrigante,
E a tantos tem desse modo maravilhado:
A natureza, que é assim como um gigante
E é como um sopro de brisa perfumado...
Nenhuma coisa no universo inteiro,
Nenhum poder militar, nenhum dinheiro,
Nenhuma dinastia ou realeza
Possui mais maravilhas que uma planta...
Nada no mundo dos homens, não adianta,
É mais perfeito que a natureza...
5.5.08
A mãe prematura
A mãe prematura do bebe prematuro
Nascida antes do que era para ser,
Como quem antecipa o seu futuro,
Como quem torna-se sem perceber...
A mãe prematura do bebe prematuro
E a luta por seu bebê sobreviver...
Às vezes tudo é tão sombrio e escuro...
Tudo tão frio, sem amanhecer...
A longa dor de quem aguarda a cura,
Como quem, sem saber o que, procura,
E assim, nessa procura, se desfaz...
Segura nas mãos de Deus, mãe prematura...
Segura nas mãos de Deus que te segura...
Segura nas mãos de Deus e segue em paz...
30.4.08
Uma Declaração Universal de Direitos para o Bebê Prematuro
Artigo I
Todos os prematuros nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência. Possuem vida anterior ao nascimento, bem como memória, aprendizado, emoção e capacidade de resposta e interação com o mundo em sua volta.
Artigo II
Todo prematuro tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.
Artigo III
Nenhum prematuro será arbitrariamente exilado de seu contexto familiar de modo brusco ou por tempo prolongado. A preservação deste vínculo, ainda quando silenciosa e discreta, é parte fundamental de sua vida.
Artigo IV
Todo prematuro tem direito ao tratamento estabelecido pela ciência, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. Sendo assim, todo prematuro tem o direito de ser cuidado por uma equipe multidisciplinar capacitada a compreendê-lo, interagir com ele e a tomar decisões harmônicas em seu beneficio e em prol de seu desenvolvimento.
Artigo V
Todo prematuro tem direito à liberdade de opinião e expressão, portanto deverá ter seus sinais de aproximação e afastamento identificados, compreendidos, valorizados e respeitados pela equipe de cuidadores. Nenhum procedimento será considerado ético quando não levar em conta para sua execução as necessidades individuais de contato ou recolhimento do bebê prematuro.
Artigo VI
Nenhum prematuro será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Sua dor deverá ser sempre considerada, prevenida e tratada através dos processos disponibilizados pela ciência atual. Nenhum novo procedimento doloroso poderá ser iniciado até que o bebê se reorganize e se restabeleça da intervenção anterior. Negar-lhe esse direito é crime de tortura contra a vida humana.
Artigo VII
Todo prematuro tem direito ao repouso, devendo por isso ter respeitados seus períodos de sono superficial e profundo que doravante serão tomados como essenciais para seu desenvolvimento psíquico adequado e sua regulação biológica. Interromper de forma aleatória e irresponsável sem motivo justificado o sono de um prematuro é indicativo de maus tratos.
Artigo VIII
Todo prematuro tem o direito inalienável ao silencio que o permita sentir-se o mais próximo possível do ambiente sonoro intra-uterino, em respeito a seus limiares e à sua sensibilidade. Qualquer fonte sonora que desrespeite esse direito será considerada criminosa, hedionda e repugnante.
Artigo IX
Nenhum prematuro deverá, sob qualquer justificativa, ser submetido a procedimento estressante aplicado de forma displicente e injustificada pela Equipe de Saúde, sob pena da mesma ser considerada negligente, desumana e irresponsável.
Artigo X
Todo prematuro tem direito a perceber a alternância entre a claridade e a penumbra, que passarão a representar para ele a noite e o dia. Nenhuma luz intensa permanecerá o tempo inteiro acesa e nenhuma sombra será impedida de existir sob a alegação de monitorização continua sem que os responsáveis por estes comportamentos deixem de ser considerados displicentes, agressores e de atitude dolosa.
Artigo XI
Todo prematuro tem o direito, uma vez atingidas as condições básicas de equilíbrio e vitalidade, ao amor materno, ao calor materno e ao leite materno que lhe são oferecidos através do Método Mãe Canguru. Caberá à Equipe de Saúde prover as condições estruturais mínimas necessárias a esse vinculo essencial e transformador do ambiente prematuro. Nenhum profissional ou cargo de comando em nenhuma esfera tem a prerrogativa de impedir ou negar a possibilidade desse vinculo que é símbolo da ciência tecnocrata redimida.
Artigo XII
Todo prematuro tem o direito de ser alimentado com o leite de sua própria mãe ou, na falta desta, com o de uma outra mulher tão logo suas condições clinicas assim o permitirem. Deverá ter sua sucção corretamente trabalhada desde o inicio da vida e caberá à equipe de saúde garantir-lhe esse direito, afastando de seu entorno bicos de chupetas, chucas ou de qualquer outro elemento que venha interferir negativamente em sua sucção saudável, bem como assegurando seu acompanhamento por profissionais capacitados a facilitarem esse processo. Nenhum custo financeiro será considerado demasiadamente grande quando aplicado com esse fim. Nenhuma fórmula láctea será displicentemente prescrita e nenhum zelo será descuidadamente aplicado sem que isso signifique desatenção e desamparo. O leite materno, doravante, será considerado e tratado como parte fundamental da sua vida.
25.4.08
A pizzaria
Construíram uma imensa pizzaria
No coração da planície goitacá.
É casa cheia : o trenzinho da alegria
Não deixa a pizzaria esvaziar...
Sabor de tombo, de pilantraria,
Borda de recheio anti-liminar,
Só dá primeiro escalão: procuradoria,
Assessoria, vereadores, todos lá...
Tem pizza pro arquiteto e pra mocinha,
Tem pizza, dizem, de bananinha,
Quem come tá sempre querendo voltar...
Fizeram da minha cidade sem justiça
Uma imensa e imunda e incompreensível pizza
E a conta o povo é que vai pagar...
23.4.08
(para Margot)
A hora da poesia não tem hora,
É ao meio dia, é em plena madrugada,
É daqui a pouco, é amanhã, é agora,
É logo depois da próxima alvorada,
E por não ter hora, às vezes demora
Dias e dias, outras vezes nada...
Às vezes é quando todos vão embora,
Outras vezes é bem no meio da balada...
A hora da poesia é um parto e tanto,
É natural e ao som de um acalanto
Que embala a mãe amamentando a cria...
E não tem hora, definitivamente,
A poesia que alimenta a gente...
É toda hora a hora da poesia...
17.4.08
A falta
Ao meu pai Clóvis Tavares em lembrança de seus 24 anos de partida. 13 de abril 1984-13 de abril 2008
A boa palavra nunca mais escrita,
A frase boa nunca mais falada,
A boa conversa não mais repetida,
E, como a conversa, o olhar, a risada...
A personalidade do homem espírita
E uma vida inteira dedicada,
E a voz intensa, doce e às vezes aflita
Para a poesia belissimamente recitada...
O zelo, a perseverança, a inteligência,
A História, a poesia, o Cristianismo, a ciência
E uma presença desconcertante...
Ah, quanta falta, pai, do teu carinho...
E esse silencio que é escrever sozinho...
E essa saudade quase dissecante...
Capitulada
A minha cidade resiste à solidão,
Ao abandono, ao desespero, à mágoa,
Ao desencantamento, à ingratidão...
A minha cidade só não resiste à água...
Resiste à miséria, resiste à corrupção,
Ao poder publico submerso no atoleiro,
Ao grampo no telefone do ladrão...
A minha cidade só não resiste a um aguaceiro...
Resiste aos homens da Policia Federal,
Resiste ao camarote e ao carnaval
E ao rio das enchentes de águas turvas...
Resiste às pontes e aos golpes dos corruptos
E aos podres poderes dos homens estúpidos...
A minha cidade só não resiste às chuvas...
10.4.08
Se não tiver nessa padaria
Procure naquela outra logo adiante,
Mas se a prateleira também estiver vazia
Não troque ainda o seu sonho por um refrigerante.
Segue, e duas quadras depois da livraria
Uma confeitaria muito elegante
Também vende sonhos... Mas que ironia:
Acabou de ser comido o sonho gigante...
Mas não desista ainda. Vai em frente.
Sonho que é sonho é sempre persintente,
Por isso nunca deixe de sonhar...
Persiga seu sonho na confeitaria
Ou no imporoviso de alguma poesia...
Só toma cuidado na hora de acordar...
17.3.08
Seja bem vindo ao mar de lama obscura
Que fez morada na minha cidade
Transformando-a em estranha criatura
Mancomunada com a imoralidade...
Seja bem vindo ao mar de lama impura
Que encheu de sombra escura a claridade
Como se fosse uma doença sem cura,
Um cancer descoberto muito tarde...
Seja bem vindo à imensa lamaceira
Que fez da minha cidade uma lixeira
E hoje é parte da sua própria vida...
Seja bem vindo ao mar de lama, irmão...
É como se não houvesse outra opção...
É como se não houvesse outra saida...
16.3.08
Gritaram: pega ladrão...
Não sobrou um no lugar...
Anos a fio metendo a mão,
Já não sabiam parar...
Cidade imunda de corrupção...
Larápios a conjugar
O verbo da moda que faz o ladrão
O verbo da moda: roubar...
Cidade completamente corrompida...
Enlamearam a porta de saida,
Sujaram tudo, não sobrou ninguém...
Meu Deus, tem pena da minha cidade,
Antro imoral de toda iniquidade...
Quem vive aqui sabe bem...
1.3.08
Parou o coração, congestionado,
Enfraquecido, insuficiente,
Como um maratonista desarmado,
Como uma estrela cadente...
Parou o coração, desconfortado
Dentro de um mediastino incomplecente.
Cresceu, e o peito tornou-se-lhe apertado.
Cresceu demais, aparentemente...
Parou o coração, digitalizado,
Corretamente monitorado
E com um desfiblilador bem na sua frente...
Parou, a despeito de todo cuidado.
Parou sem perceber-se medicado.
Parou de vez o coração doente...
Parou o coração. E nem queria.
E se tentou se salvar, não conseguiu.
Parou vitimado por subita arritimia.
Como uma estátua de Trotsky, caiu.
Parou o coração naquele dia
Bem justo quando parecia estar a mil.
Massagem. Adrenalina intracardiaca.
E a vida que ali havia escapuliu.
Parou o coração, como constatado.
Já não é o mesmo o coração, parado.
Já não é o mesmo que era o que batia.
Parou o coração contra a própria vontade.
Parou vitimado de subita gravidade.
Parou quando ele nem percebia.
23.1.08
Parada cardíaca
Parou o coração, subitamente,
Congestionado de coisas por fazer.
Não deu sinais de parar. Foi de repente,
Como se estivesse saturado de viver.
E assim, súbita e definitivamente,
Pois não voltou a bater,
Parou, como se estivesse cansado do batente
Ou como se estivesse desistido de sofrer.
Guardou, com seu silencio, nomes, dias,
Desejos, desafetos, avarias,
Fragmentos da vida ainda por levar...
Parou o coração. Silencio. Nada.
A vida, vitima da súbita parada,
Escapuliu para nunca mais voltar...
25.11.07
Desculpe,
Mas não uso dicionário,
Meu dicionário é o meu coração,
Não há palavra que ele desconheça,
Não há nenhuma
Que lhe cause confusão,
E não importa a língua:
Inglês,
Nagô,
Castelhano,
Francês,
Turco,
Alemão,
O coração conhece,
Entende,
Fala,
Responde,
Escreve
E diz
Com perfeição...
Por isso é que eu não uso Dicionário,
O dicionário
Não cabe
Na minha mão,
Prossegue além da letra,
Da palavra,
Do significado
E da razão,
E não tem regras,
Nem páginas,
Nem índice,
Nem letras,
Nem pecado,
Nem perdão...
Eu não preciso de dicionários,
Todos turvos...
Meu dicionário
É o meu coração...
11.10.07
Para minha irmãzinha Rose in http://www.eternessencias.blogspot.com/
Por ter achado aqui morada boa,
Terreno fertil para se plantar,
Casa de campo deliciosa,
A poesia, que não se perdoa,
Vai se vestir de letra preguiçosa
E entrar aqui para descansar...
Por ter achado aqui alivio e alento,
Reparo, amparo, refazimento,
E principalmente boa companhia,
A poesia, mal acostumada,
Vai ficar viciada...
Ai ai ai ai coitada da poesia...
29.9.07
É como se fosse um verso de Drummond,
Uma letra pra Chico Buarque musicar,
É como se fosse uma musica do Tom,
Esse seu olhar...
É como se fosse um passatempo bom
Que não deixasse o tempo passar,
É como Caetano criando um som,
Esse seu olhar...
É como se fosse coisa de cinema,
Raio de lua, risco de poema,
Banho de rio, beira de mar...
É como um doce que não termina,
Bela menina,
Esse seu olhar...
28.9.07
A coisa que valoriza uma pessoa
Não é a idade e o sexo que ela tem,
Não é se o beijo é bom, se a boca é boa,
Não é o namorado dela é quem...
Não é se é nova demais ou se é coroa,
Se tem seu carro, se ganha bem,
Se é rico, e porque é rico, se ri à toa,
Se tá sempre faturando algum de alguém,
A coisa que valoriza o ser humano
Longe de ser o carro do ano,
É a consciencia tranquila, é a paz serena,
É errar e redimir-se diariamente,
Seguindo devagar e lentamente
Abandonando o que não vale à pena...
Eu adiciono gente bonita
E gente feia, e gente nem tanto,
Gente tristinha, gente esquisita,
Gente que acredita em Pai de Santo,
Eu adiciono. Isso não me irrita.
Gente é bom demais. Eu não me espanto,
É como receber uma visita,
E se a conversa tá chatinha eu canto...
Eu adiciono quase toda gente
Triste, pra lá de baixo astral, contente,
Gente que vive com sono...
Eu não me importo com mesquinharias...
Não coleciono quinquilharias...
Não penso duas vezes... Adiciono...
Eu sempre adiciono os curiosos,
Os irremediaveis fofoqueiros,
Os insensatos, os maliciosos,
E os da própria inveja prisioneiros...
Adiciono profiles mentirosos,
Adiciono profiles interesseiros,
Adiciono profiles perigosos,
Adiciono profiles passageiros,
Eu sempre adiciono. E não me importo
Se é verdadeiro ou não o texto, a foto,
Se cada palavra contem sinceridade...
Eu simplesmente vou adicionando
Como que segue colecionando
Sementes pequenininhas de amizade...
Orkutiana II
Eu sempre adiciono caucasianos,
Mulatos, afros, índios, orientais,
Paranaenses, pernambucanos,
Nascidos em Quito, criados em La Paz,
Fãs de Cauby Peixoto ou Los Hermanos,
De Chico Buarque ou Science, tanto faz,
Gente com mais de cinqüenta anos,
Gente novinha demais...
Canhotos, destros, desajeitados,
Tímidos, loucos, bem apessoados,
Ricos, famosos e desconhecidos...
Os impacientes e os apressados,
Os que chegarem de todos os lados
Eu sempre os adiciono como amigos...
14.9.07
O Aleitamento materno
Ao mesmo tempo alimento e poesia,
Fermento sólido para a maternagem,
Para a articulação temporo-mandibular, um guia,
Para a família, motivo de tietagem,
Tese de doutorado para a Pediatria,,
Prova de fogo para a equipe de Enfermagem,
Para os alunos , uma minimonografia,
Para a mãe o pai e o filho, uma viagem...
Ao mesmo tempo poético e cientifico,
Instintivo, cultural, técnico, mítico,
É um misto de vontade com virtude...
Fonte da vida por ele preservada,
Força titânica em veste delicada,
Mapa da fonte da juventude...
O amor sem fim
Para Luisa
Por quanto tempo o amor que não termina?
A entrega total mais arrebatadora?
E o coração, por quanta adrenalina
Jura a jura de amor mais duradoura?
E a paixão mais pura e cristalina,
A mais incrivelmente arrasadora,
Em quanto tempo vira purpurina,
Resto de coisa própria pra vassoura?
E o que era absolutamente inseparável,
Inconfundivelmente inquebrantável
Em quanto tempo torna-se assim:
Pedaço, resto, lixo, pó, espuma,
Pedaço de nada, coisa nenhuma?
Quanto tempo dura o amor sem fim?
5.9.07
Idade nova chegando...
Menos tempo, de hoje em diante, para errar...
Já faz bastante tempo, confesso, venho errando,
E já não há mais tanto tempo pra gastar...
Idade nova se completando...
E já sem tempo prá desperdiçar...
Desde que aqui cheguei fui me adaptando
Mas já está chegando a hora de voltar...
Idade nova, e eu fico imaginando
Que é como se a gente fosse se cansando
De querer tanto e de nunca se bastar...
Idade nova... Tempo de ir deixando
As vaidades de lado e ir caminhando
Até a idade do tempo se esgotar...
26.8.07
Os que atentaram
Quantos, exatamente, os que morreram?
Quantos aqueles os que atentaram?
Quantos mandaram? Quantos obedeceram?
Que coisas quantos deles combinaram?
Porque seus nomes jamais apareceram?
Com medo de que fardo se ocultaram?
Por que atrás de Herodes se esconderam
Ou livres de que penas se julgaram?
Que fatos não sabemos, mas aconteceram?
Quantos deles se arrependeram
Ou quantos outros jamais confessaram?
Desejavam vencer, mas não venceram...
Não poderiam perder... Mas se perderam...
Tiveram a honra de crer, mas fracassaram...
Assim que os anjos se foram...
E ouvindo isso, rapidamente seguiram
Para Belém, onde o procuraram...
Perguntaram a uns sobre o que viram,
E sobre o que ouviram, a outros perguntaram,
Até que num estábulo o descobriram,
Envolto em panos, numa manjedoura o encontraram...
Fizeram silencio,
Se aproximaram,
Olharam o menino
E se entreolharam...
E, assim, silenciosos,
Reconheceram
O menino de que os Anjos
Lhes falaram...
Quem sabe lhe trouxeram
Lã e leite,
Quem sabe queijo fresco
Lhe ofertaram...
Na sua pobreza,
Os pastores perceberam
O que o menino e seus pais
Passaram...
Assim que souberam
Vieram,
Maravilhados,
Sem se distraírem,
O adoraram,
Alguns fizeram preces
E sorriram,
Outros sorriram
Ao mesmo tempo
Que choraram...
Um se encantaram muito
Com o que viram,
Com o que ouviram,
Com o que lhes fora
Revelado...
Outros se extasiaram,
Agradecidos,
Com todas as coisas
Que presenciaram...
Algum tempo depois
Alguns saíram,
Outros, emocionados,
Continuaram...
Agradeceram a Deus
Que os fez lembrados,
Permanecendo um tempo ainda
Ajoelhados...
Até que todos
Se retiraram,
Absolutamente
Magnificados...
Sorriam
Enquanto iam,
E conversavam,
Pareciam nem sentir
O frio gelado...
Conta-se que disso
Nunca se esqueceram...
Mil vezes repetiram,
Outras mil contaram,
Dizendo dos Anjos
Que em Legião desceram,
Falando das musicas
Que os Anjos cantaram,
Contando da Boa Nova
Que os trouxeram
E do menino
Que visitaram,
Do Salvador
Que pessoalmente
Conheceram
Por terem sido
Pelos Anjos
Convidados...
Dizem que alguns
Nunca mais beberam...
Dizem que alguns
Nunca mais pecaram,
Dizem que alguns
Que viram e creram
De tal maneira
Se modificaram
Que seus amigos
Nunca entenderam
Porque mudaram...
Os pastores que os Anjos
Escolheram...
Os Pastores,
Os primeiros
Que o encontraram...
13.7.07
Somos mamiferos
Do mesmo modo que o são
O cão e o gato,
A ovelha, o coelho, o lobo,
O lince, a vaca,
O canguru, a paca,
O leão,
O chimpanzé e o rato...
Mamiferos,
Dependentes dos ductos lactíferos
Do mesmo modo que o são os dromedários,
Nossos irmãos de hábitos mamários,
Como também o camelo,
O leão-marinho,
A anta,
O mico-leão-dourado,
A onça parda,
A onça pintada,
O quati,
O tamanduá
E o leopardo...
Que coisa boa:
Mamiferos como a leitoa
E os bacurinhos,
E quase, como eles, tão lindinhos...
Somos mamiferos
Como o elefante africano,
Da mesma forma que o rinoceronte...
Alimentamo-nos da mesma fonte
Que o texugo mama
E onde também a lhama...
Dependuramo-nos na mesma mama...
Irmãos da mesma livre demanda
Da ratazana,
Da jaguatirica,
Do gato do mato
E do urso panda...
E embora apaixonados por teorias,
Por técnicas, controversias, prós e contras,
Somos mamiferos
Como são os lobos, quem diria,
E os hipopótamos,
Os javalis e as lontras...
Como o morcego lanudo
E o ratinho caseiro,
Somos da mesma forma atraidos pelo cheiro
Do leite de peito.
E não tem jeito:
Somos mamiferos.
Alimentamo-nos das mesmas mamas cheias
Do modo como se alimentam as baleias,
E da mesma maneira
Que alimentam-se a toupeira
O gorila
E o boto,
E o rato-do-campo-de-rabo-curto,
O tatu-peba, se não me engano,
E ainda o tigre siberiano...
Do mesmo modo que eles
Nós mamamos...
Mesma atração instintiva por mamilos
Que possuem os veados e os esquilos,
E da mesma forma que a baleia-anã,
Nossa irmãzinha,
Somos os filhos da apojadura
Como o arminho,
Como a doninha,
Como a fuinha...
Somos os donos da proxima mamada
Como os sacarrabos,
Como os gatos bravos,
Como a onça bastarda...
Somos mamiferos,
E como nossos irmãos de peito
Sobrevivemos aos milenios do mesmo jeito:
Ninho, aconchego, calor,
E leite quente,
Naturalmente...
E muito embora
Aparentemente
Mais inteligentes,
Nós, homo-sapiens,
Não nos enganemos:
Do mesmo modo que os irmãos que temos,
Que mamam da mesma forma que o fazemos,
E crescem do mesmo modo que crescemos,
A mesma mama,
A mesma sucção,
Por que é que ainda não nos convencemos?
Somos mamiferos...
Por que é que tanta gente acha que não?
9.7.07
Que graça teria a vida
Se não houvesse a poesia?
Nascer, viver, morrer,
Misturar-se à terra fria,
Tornar-se um Fisico, um Quimico,
Um Doutor em Pediatria,
Um Pós-graduado em Farmácia,
Um Professor de Biologia,
Our concour em Matemática,
Um Mestre em Fisioterapia,
Que graça, me diz, que graça
Se não houvesse a poesia?
Ganhar bastante dinheiro,
Trabalhar dia após dia,
Fazer amigos, casar-se,
Ver aumentar a familia,
Viajar o mundo inteiro
Numa imensa romaria:
Ir do Rio à Nova Iorque,
De Nova Iorque à Bahia,
Da Bahia ao Himalaia,
Do Himalaia à Hungria,
Da Hungria à Machu Picchu,
De Machu Picchu à Turquia,
Da Turquia até Passargada,
De Passargada à Utopia,
De Utopia à Montes Claros,
Dali à Santa Maria,
Aprender mil idiomas,
Mil costumes, mil manias,
Conhecer gentes e modas
Saber de Reis e Rainhas,
Fotografar paisagens
Que jamais ninguém havia...
Trazer o mundo no bolso...
Mas que graça isso teria
Sem a graça de poder
Rimar cotia com tia,
Ler um verso de Quintana,
Ter Castro Alves como guia,
Carlos Drummond como amigo,
Ferreira como companhia,
Chico Buarque como Mestre,
Vinicius como Sinfonia,
Bandeira como delirio,
Pessoa como terapia,
Mário de Andrade como ouro,
Gulherme de Almeida como prataria,
Augusto dos Anjos como astro,
Cecilia como maravilha...
Que graça teria a vida
Se a vida tivesse tudo
Mas caminhasse esquecida
Da poesia?
29.6.07
Deixa que o tempo resolve tudo:
Carencia, ódio, desencanto, dor.
Ele age sempre bem, e, embora mudo,
É dono de um rugido assustador...
Deixa que o tempo resolve, sem descuido,
Até a morte, se preciso for...
O tempo é sempre o maior escudo,
Sempre o melhor cobertor...
Não tente resolver tudo sozinho...
Lembra-te desse bom companheirinho,
O tempo, que te segue e te acompanha...
Deixa, porque o tempo, bom companheiro,
É o teu melhor conselheiro...
Adota o tempo. Eu garanto: é causa ganha...
17.6.07
Recordo-me, menino ainda assustado,
De ter tomado nas mãos aquele livro
Cuja autoria maior era inequívoca...
Recordo-me, menino impressionado,
Das primeiras leituras, sem motivo,
E da impressão que me causou, magnífica.
Era um menino
De muitos sonhares,
Muitos poemas por escrever,
De um dia conhecer muitos lugares,
E muitas gentes para conhecer.
Era um menino
Cheio de perguntas
Que os outros meninos não sabiam responder.
E eram tantas, cada vez mais muitas,
Que eu insistia em fazer.
Era um menino
Ainda, quando um dia,
Tomei aquele livro em minha mão
Como se fosse um clarão na noite fria
Iluminando a minha escuridão.
E assustado, o menino, ao folheá-lo,
E antes que eu percebesse ou concordasse,
Aquele livro foi me convencendo.
E sem que ninguém me pedisse que o lesse,
E sem que ninguém me obrigasse,
Aquele livro foi me envolvendo.
Que é Deus? Decidido, perguntava.
Que se deve entender por Infinito?
É dado ao homem conhecer o princípio das coisas? continuava,
E o menino lia tudo, aflito...
Quando começou a Terra a ser povoada?
De onde vieram para a Terra os seres vivos?
E a cada pergunta formulada,
Respostas. Ensinamentos expressivos.
E as dúvidas que tem a alma encarnada
Formavam as respostas desse livro.
Que sucede à alma no instante da morte?
Como se explica a vida intra-uterina?
Em que consiste a missão dos espíritos encarnados?
E, como lista sem fim que não termina,
Do mesmo modo que o Mestre quando ensina,
A responderam espíritos abnegados.
Era uma onda imensa e benfazeja,
De luz intensa, arrebatadora,
Era o alicerce de uma nova igreja,
Sem rituais, sem reis, mas reveladora.
Recordo-me, menino ainda assustado,
Como colhido por um redemoinho,
Que já não me era possível mais fugir.
Recordo-me, absolutamente extasiado,
Daquele grande mapa do caminho
Do qual era impossível desistir.
Hoje, o menino de ontem, já crescido,
Ao deparar-se com aquelas mesmas letras,
Confessa-se ainda emocionado
Ao compreender-se um recém-nascido,
Um pó na infinitude dos planetas
E pela mesma grande Lei subjugado.
Hoje, o menino de ontem, quase nada,
Toma nas mãos o Livro dos Espíritos
E para si mesmo diz: Tudo o que eu sei
Vai nestas letras atribuídas a Kardec:
Nascer, viver, morrer,
Renascer ainda
E progredir continuamente,
Esta é a lei.
3.5.07
Ao saber da noticia da morte de Herodes, a mãe do menino por ele assassinado se perturba e ora...
A mãe do menino morto
Quando soube do ocorrido,
Quedou-se tremula e pálida
Como um pássaro ferido...
E ainda pálida e tremula
Mal conseguiu escutar
A noticia do Rei morto
Que vieram lhe contar.
Gelou a mão nessa hora,
E, sem conseguir falar,
Desatinada da vida
Desconsolou-se a chorar...
No instante em que lhe contaram
Do Rei cruel que morrera
Seus olhos se encheram d’água
Pelo filho que perdera
Naquela noite sem nome,
Aqueles gritos de não,
A dor, o sangue, a tragédia
Sem nenhuma explicação...
Reviu o filho no colo
Que a morte veio buscar
Seu corpo desfalecido,
Sua vida a lhe escapar,
O choro do desespero,
A crueza do soldado,
Os restos mortais do filho
Sem vida, despedaçado...
A mãe do menino, atônita,
Chorou, dor desconsolada...
Ali perdera sua vida
Na que se lhe fora roubada,
Ali secara-lhe o animo,
E a sua esperança inteira,
Sua dor, sua fome, seu sono,
Seu nome quase esquecera,
A mãe do menino, em pranto,
Naquela hora, atordoada,
Reviu a imagem do filho
Reviu o corte da espada,
Perdeu a voz, já sem forças,
Sentou-se ao lado da esteira
No mesmo triste cantinho
Onde seu filho morrera,
Sentou sozinha e em silencio,
Sentiu um breve arrepio,
Abraçou o próprio colo
Sem percebê-lo vazio,
Lembrou ali do menino,
Das risadas que ele dava,
Das farras que ele fazia,
Das noites que ele chorava,
Lembrou das horas de febre,
Das dores de vez em quando,
Das noites de sono leve,
Dos dias de amamentando...
A mãe do menino morto,
Sem que pudesse entender,
Trazia o filho em seus braços
E viu seu filho morrer...
Daquela hora em diante
Também aos poucos morreu,
Sem filho, ficou sozinha,
Sem luz, tudo escureceu,
Seu sorriso foi-se embora,
Sua vida, abandonada,
Perdeu sua identidade,
Sua forca, esvaziada...
Naquela hora tão triste
Viu morrer sua alegria,
Quis lutar, mas não lutava,
Gritar, mas não conseguia,
Quis brigar... Mas de que jeito?
Fugir... Mas para onde iria?
Quis fazer voltar o tempo...
Quis morrer... Mas não sabia...
Foram tempos de silencio,
De luto, de depressão,
Desencanto, sofrimento,
Desalento, solidão,
Ate que aquela noticia
Trazida não sei por quem,
Tocou a mãe tão sofrida
Do menino de Belém...
Morrera o Rei desumano...
Seu nome, ela não dizia...
Sua lei, não questionava...
Sua ordem, não discutia...
Sobre ele não falava,
Comentários não ouvia,
Pois morto ele já estava
E mais morto aquele dia...
Chorando, a mãe do menino
Ao saber do acontecido,
Orou a Deus, recordando
Seu filho morto querido,
Rogou a Deus, comovida
Na oração que ela fazia,
Improvisando uma prece
Que, mais ou menos, dizia:
“Senhor, que de hoje em diante
E por toda a eternidade
A ira seja asfixiada
Pelas mãos da piedade.
Que o ódio seja banido
Desde esse dia em diante
Transformando horror e medo
Em amor ao semelhante,
A crueldade impostora
Que seja desmascarada
Tornando-se auxilio e apoio
Para cada alma cansada,
Que a lamina fria da espada
Deixe assim de existir
E cada mãe assustada
Possa voltar a sorrir,
Que cada filho levado
Pelos soldados sem Deus
Seja tido como um Anjo
Um mensageiro dos Céus,
E o Rei, já depois de morto
Vendo essa transformação
Caia em si, desesperado,
E aprenda a grande lição:
Que suplique por piedade,
Mergulhado em sofrimento,
Sofrendo cada maldade,
Vivendo cada lamento,
Cada dor, cada crueldade,
Cada morte encomendada,
Que assim viva intensamente
Ate não restar mais nada
E quando não mais houver
Nenhuma dor não sentida,
Nenhuma morte ignorada,
Nenhuma lagrima esquecida,
Então que a Misericórdia
Divina aja em seu favor
E aceite o arrependimento
Revelado pela dor,
E livre de sua miséria,
E longe do seu poder.
Possa o Rei tornar-se homem
E começar a viver...”
Foi quando a mãe do menino
Terminando, silenciou.
Seus olhos possuíam brilho
Quando a oração acabou.
Parecia enternecida,
Uma paz a dominava.
Já não trazia na face
O medo. Já não chorava.
E conta-se que depois disso,
Essa mãe, recuperada,
Fez-se mãe fortalecida,
Fez-se mãe modificada,
Daquele dia em diante
Passou a prestar auxilio
Às mães mais necessitadas
Em memória do seu filho,
Ofereceu sua ajuda
Às mães com filhos menores,
Tornando seus dias tristes
Dias um pouco melhores...
Recuperou seu sorriso,
Retomou a sua vida,
Arrumou a sua casa,
Retornou à sua lida,
Vivendo solidariedade,
Descobrindo comunhão,
Distribuindo amizade,
Disseminando perdão,
Reconstruindo sua paz
E a paz da sua vizinhança,
Deixando, pelo caminho,
Sinais de vida e esperança...
Depois dali, nunca mais
Tanta dor desabalada,
Tanta dor incompreendida,
Tanta dor inconformada,
Depois dali, e para sempre,
Se dor, desespero não,
Se desanimo, coragem,
Sempre luz, se escuridão,
Pois nenhuma tirania,
Nenhuma ordem ou poder,
Nenhum exercito insano
Tem força capaz de vencer
Nenhuma mãe
Companheira obstinada,
E o amor dessa mãe
Para com os seus...
“Mãe não tem limite
É tempo sem hora”,Imitação
Fiel
E essencial
De Deus...
5.4.07
A poesia, que ampara os tristes
E dá suporte aos desconsolados,
Que vale como um trago de carinho
Aos corações em dor, desamparados...
A poesia, que acolhe os fracos
E dá sustento aos corações cansados,
A poesia, unica companhia
Dos que se desesperam, isolados...
A poesia, que estanca as dores,
Que, como um bálsamo, ameniza horrores,
Que arranja um jeito pro que não tem jeito...
Como um milagre da vida, a poesia,
Como um Tratado de Psicologia,
A poesia, como o leite de peito...
3.4.07
Eu tornei poesia descontentamentos,
A alegria que eu tinha, eu tornei poesia,
Eu fiz versos dos restos dos meus pensamentos,
Da minha tristeza, da minha azia,
Dos meus desafetos, dos meus lamentos,
Dos meus episódios de taquicardia,
Disfarcei com poesia desapontamentos,
Desenhei com sonetos minha alma vazia,
Desde ai a poesia tornou-se a primeira,
A mais longa, sincera e fiel companheira
A me indicar o caminho de saida...
Desde ai, por não haver outra maneira,
Desde ai, a poesia inteira...
Desde ai a poesia, a minha vida...
26.3.07
Gostar é assim mesmo.
Indefinido.
Nem sempre dois e dois
Ali
São quatro.
Às vezes é tudo culpa do cupido.
Outras, do excesso de salto
No sapato.
Gostar é assim mesmo.
Ora atrevido.
Ora tão cheio de dedos
E recato.
Às vezes é como um naufrago
Perdido.
Às vezes è como um cisne
Amar um pato.
Gostar é assim então.
Complicadinho.
Tem quem goste só pouquinho
Mas tem quem goste
Pela vida inteira.
Gostar é por vezes
Cheio de carinho.
Por outras vezes
É gostar sozinho.
Mas sempre é bom.
De qualquer maneira.
17.3.07
Anjos não fazem aniversário.
Não surgem. Não vão embora.
Não são classificados pelo calendário.
Não tem data. Não tem dia. Não tem hora.
Anjos são simplesmente atemporais,
Não tem formato ou aspecto definido.
Anjos são todos iguais:
São assim mesmo, não fazem ruído...
Anjos padecem e superam crises,
Regeneram rapidamente cicatrizes,
As suas e as outras, dos queridos seus...
Anjos são sempre assim: leves, discretos,
Ao mesmo tempo suaves e diretos...
Anjos são Anjos. Acima deles, só Deus.
4.3.07
Durante sua longa jornada de Nazaré até Belém, José e Maria, esta grávida do menino Jesus, cruzam em seu caminho, a certa altura da estrada, com um caminheiro que deles se aproxima, olha-os de perto, troca com eles discreto cumprimento e segue adiante, mas não os reconhece...
Caminheiro, seguindo pela estrada,
Quando cruzares pelo caminho
Com um homem, uma mulher embarrigada
E um burrinho,
Se não notares, nessa hora, nada,
E prosseguires, sozinho,
Continuando tua caminhada
Devagarinho,
Terás perdido a chance a ti cedida,
Talvez a única da tua vida,
Talvez a mais importante...
Quando, de novo, José e Maria?
Quando, de novo, esse dia?
Quando, dali pra diante?
3.3.07
Naqueles dias, levantou-se Maria e foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá. Luc 1, 38
Assim que soube da historia do ocorrido,
Maria foi ter com Isabel, como relatado.
Por que com pressa Maria teria ido?
Que tempo juntas terão passado?
Apressadamente, teria Maria fugido?
Ou apressadamente, espírito extasiado?
Que coisas Maria com Isabel terá aprendido?
Que coisas Maria a Isabel terá ensinado?
Terão cortado e lavado que tecido?
Que alimentos terão preparado?
Que frutos terão colhido?
Que sementes semeado?
Terão os meninos, em seus ventres, remexido?
E os primos, nos ventres das primas, se agitado?
Que hinos, juntas, terão ouvido?
Que coisas belas terão cantado?
Que orações terão dito?
Que versos terão de clamado?
Quantas vezes a Deus terão bendito?
Quantas vezes a Deus magnificado?
Isabel e Maria... Como terá sido?
Como esse tempo terá passado?
Quantas noites de sono bem dormido?
Quantas de sonho acordado?
Ansiosas, terão emagrecido?
Encantadas, terão engordado?
Que coisas, nesse tempo, terão lido?
A quem terão visitado?
Quem as terá conhecido?
Terão com quem conversado?
Quem é que terá merecido
Esse agrado?
Com que gentes terão tido
Contato?
Quem soube do acontecido
E a quem terá revelado?
Que tantas coisas terão sentido?
Por que outras tantas terão passado?
Como terão convivido
Maria e Isabel, lado a lado?
Dois ventres pelo Espírito Santo concebidos...
Dois ventres absolutamente sem pecado...
Maria e o apoio do seu marido...
Isabel e o filho tão desejado...
Que coisas terão vivido?
Que coisas terão falado?
Que coisas terão permitido?
Que coisas terão recusado?
O que terá havido
Por aqueles lados?
O que as montanhas de Judá terão sabido?
O que as montanhas de Judá terão guardado?
Adaptação para estilo poético da "Oração de Natal" do volume "Um poema para o Natal", publicado em 2005 pela Editora Scortecci.
I
Recorda a Humanidade, neste dia
Os fatos que cercaram tua chegada:
O Anjo anunciando-te à Maria,
José quando acolheu a sua amada
De Nazaré a Belém, tua romaria,
Onde não havia vaga na pousada,
O teu nascimento numa estrebaria,
A manjedoura, tua primeira morada...
Recorda a Humanidade, entre louvores,
Os Anjos anunciando-te aos pastores,
Os magos e Herodes, a adoração e o medo...
Recorda a Humanidade nessa hora
Os primeiros movimentos da tua estória
Imensa e encantadora desde cedo...
II
Desde aqueles dias
Já se vão dois mil anos...
Do mesmo modo
Como os pastores,
Aqui estamos...
Soubemos da Boa Nova
E aqui viemos
Como fizeram os pastores
Há dois mil anos...
E, como os pastores,
Nós nos sabemos
Pobres seres humanos,
Nada possuímos
Nem trazemos,
Como os pastores
Há dois mil anos...
Não viemos,
Como os pastores,
Tão logo e assim que soubemos...
Nós nos atrasamos...
Mas aqui estamos
Na tua presença e,
Por tão pequenos,
Silenciamos...
E assim, orando,
Nós nos ajoelhamos,
Como os pastores
Nós nos alegramos,
Como os pastores
Há dois mil anos...
III
E aqui estamos de mãos vazias...
O que intencionávamos trazer perdemos
Com companhias, com teorias,
Com coisas que valiam menos...
E aqui estamos. Não trazemos nada.
O que tínhamos ficou pelo caminho.
Nós nos dispersamos pela caminhada
E caminhamos em desalinho...
E aqui estamos. Nada trazemos.
Nem mirra, nem ouro e nem incenso...
Pelo caminho nós os perdemos
E nos restou esse vazio imenso...
E aqui estamos. Nós nos dispersamos.
Nós nos atrasamos. Mas aqui viemos.
Já se passaram mais de dois mil anos
E ainda não aprendemos...
Aqui estamos. Ajoelhados.
De mãos vazias. Em pensamento.
Aqui estamos, muito cansados,
Diante do teu nascimento.
IV
O ouro que traríamos,
Valioso,
Peça imponente,
Belíssima cor,
Recebeu tantas ofertas
Nesses dias
Que o trocamos
Sem nenhum pudor
Por bugigangas,
Quinquilharias,
Sem garantias,
Coisas sem valor:
Bijouterias,
Peças sem valia,
Pedras sem brilho
E sem nenhum teor...
Gastamos todo
Com ninharias,
Trocamos,
Demos
E esquecemos
De repor...
Hoje não temos
Mais do que a lembrança
Do que já tivemos
E, alem disso,
Dor...
E porque gastamos,
E porque perdemos,
Comportamo-nos
Como o mau pastor
Que se descuida
Do que seria
Para cuidar
Como bom cuidador...
Aqui estamos
De mãos vazias,
Nada mais temos,
Nada nos restou...
De mãos vazias
Aqui estamos...
Vazios
Na presença
Do Senhor...
V
O aroma leve de um suave incenso
Nós preparamos para trazer.
Aspecto doce, odor delicado,
Especificamente preparado
Para o menino que viemos ver.
Foi quando ate aqui, pelo caminho,
Outros aromas doces conhecemos,
Por outros cheiros nos atraímos,
Outras essências sentimos,
Outras fragrâncias colhemos
E o aroma leve do incenso suave
Que preparamos foi se perdendo
E como a água quando escorre pelo ralo
Já não nos é possível agora identificá-lo...
_O que é que andamos fazendo?
Por outros cheiros nos seduzimos,
Outros perfumes vulgares,
Azedos, acres, fáceis, sedutores,
Odores oferecidos, maus odores,
Dezenas e centenas e milhares...
E assim o símbolo de tua espiritualidade
Contaminamos em nossa caminhada...
Estúpidos condutores, e descuidados,
E incautos, fomos contaminados
E hoje trazemos a alma infectada...
E o aroma suave do incenso doce
Já não possuímos nesse momento...
Envolve-nos, Senhor, com tua essência,
Ajoelhados, na tua presença,
Reverenciando teu nascimento...
VI
A mirra, preparamos com carinho
E embalamos cuidadosamente...
O sofrimento é parte do caminho...
A dor é sempre presente...
Mas dono de um cuidado tão mesquinho,
De um jeito tão displicente,
Bastou o primeiro copo de vinho
E o primeiro gole amargo de aguardente
E a mirra a derramamos e a perdemos,
A dor embriagada dói bem menos...
Desrespeitamos teu sofrimento...
E hoje aqui, não mais tão embriagados,
Postamos-nos diante de ti, ajoelhados,
Diante do teu nascimento...
VII
Submersos em trevas e isolados,
Por desacertos nos conduzimos...
Enfraquecidos, tolos, derrotados
Que a nós mesmos nos destruímos...
A sombra, como semente alimentada,
Cresceu e se espalhou, erva daninha...
A Humanidade quedou-se, acinzentada,
Perdeu o rumo, perdeu a linha...
O desafeto e o desamor, unidos,
Tornaram-se gestos diários
Que os homens fracos e os distraídos
Trataram como comportamentos necessários...
E assim, do desamor nasceram a usura,
A ira torpe, a falta de perdão,
O ódio entre a criatura e a criatura
E a rudeza do coração...
Mísseis cruzando os céus, caças insanos,
Botões dizimando nações sem piedade,
Homens selvagens, seres humanos
Vestidos de pura bestialidade...
A morte provocada pela guerra,
O lucro à custa da crueldade,
A sombra assustadora sobre a Terra
Ameaçando a Humanidade...
Flagelo. Fome. Miséria. Medo.
Terror. Suspeita. Desamparo. Dor.
O homem que vive entre feras desde cedo
Fica contaminado por esse horror.
A que chegamos... Não sobrou nada.
Nenhuma luz. Só ódio. Só discórdia.
E uma Humanidade necessitada
Da tua infinita Misericórdia.
E longe dela, ai de nós pelo que somos.
Pelo caminho ruim que caminhamos.
Pelo que fizemos. Pelo que fomos
E pelo muito que erramos.
Longe da tua Misericórdia, nada.
Ranger de dentes. Choro. Fome. Frio.
A tua Misericórdia é a luz da nossa estrada,
Cesto de peixe que nunca está vazio...
Aqui estamos, pois. Muito cansados.
Já não suportamos tanto sofrimento.
Aqui estamos, ajoelhados,
Diante do teu nascimento.
VIII
Mas é Natal, e assim,
Ecos dos Anjos
Ainda fazem-se ouvir
Em seu Louvor...
Ecos que anunciam
A Boa Nova:
_Eis que hoje vos nasceu
O Salvador.
Eis que é Natal.
E as vozes dos Anjos vibram.
Cânticos de Anjos
Em Legião
Dizendo:
_Hosana... Nasceu Jesus,
Alegrai, pois,
Vosso coração...
Eis que é Natal
E, por ai, pastores
Ainda se alegram
Com a anunciação...
Vibram e falam
Uns para os outros,
E alguns se postam
Em oração...
Que delicado
O cântico dos Anjos,
Escuta-se ao longe
Um trecho seu:
_Gloria a Deus nas alturas
E paz na Terra...
Jesus nasceu...
Santificada essa Boa Nova,
Iluminada essa hora
Como a esperança que se renova:
Toda alegria
Ao mesmo tempo
Agora...
É terna e pura a luz da tua estrela,
Silenciosa e serena,
E vê quem tem olhos de ver seu brilho,
Como quem entende um poema...
Acolhedora a tua manjedoura,
Tão pouco e ao mesmo tempo tanto, tanto...
Impressionantemente acolhedora
Como se fosse teu manto...
Suave e belo o significado
Da tua mensagem de amor,
Ao mesmo tempo imenso, delicado
E inexplicavelmente acolhedor...
Simples pastores por companhia,
Delicadeza, naturalidade...
De onde trouxeram tanta alegria
E tanta felicidade?
E a musica que cantam, como um coro
De varias vozes e grande harmonia,
Como quem cuida um tesouro,
Como se fossem os próprios José e Maria?
A musica que cantam... Que serena...
Retalhos inteiros feitos de paz...
Encantador recordar esta cena
Dos teus primeiros Natais...
E a gruta acolhedora, teu resguardo...
A manjedoura... Nenhuma ostentação...
Nem luz, nem brilho e, no entanto, nenhum fardo...
Nenhuma pena... Nenhum senão...
A gruta, feita de simplicidade...
Nenhum Palácio significa tanto...
Não há vestígios de suntuosidade,
Há, sim, sinais de que é um lugar santo...
IX
E dois mil longos anos se passaram...
Aqueles que, como nós, te conheceram,
Durante esse tempo se desviaram
E após tantos desvios se perderam...
E em dois mil longos anos que afastaram
Da tua presença os que viram e não creram,
Multiplicaram-se os que te negaram,
Espalharam-se os que não te receberam...
E dois mil anos não foram bastante
Para que nós chegássemos aqui diante
De ti como em outra época Simeão...
Os nossos olhos, endurecidos,
Envoltos em trevas, escurecidos,
Ainda não compreenderam a tua lição...
X
Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo,
Caminho, verdade, vida,
Recebe nossa alma vazia nessa hora,
Pela tua Misericórdia, estremecida...
E permanece nosso pensamento assim:
Magnificado e em lagrimas submergido...
Deixamos lá fora as sandálias, o pó ruim,
Trazemos o pensamento enternecido,
Exatasiado com tua singeleza,
Complexa, imensa e cheia de verdade,
Admirados com a força gigantesca
Da tua aparente fragilidade...
Trazemos, humilhado,
O coração cansado,
Trazemos, destruído,
O coração sofrido,
Trazemos, derrotado,
O coração errado,
Trazemos, combalido,
O coração doído...
XI
Insufla nossa boca
Com teu sopro santo,
Fazendo-a cheia
Das palavras de Simeão:
Podemos partir,
Desde agora,
Porque nossos olhos
Viram
A salvação...
XII
Senhor Jesus,
Feliz Natal.
Nos Céus
Os Anjos
Dizem:
_Amém...
Cantando:
_Glória a Deus nas alturas
E Paz na Terra
Aos homens
A quem ele quer bem...
Que assim seja...