16.12.08
Para Roberta Profice
Viver é reeditar-se diariamente
Entre palavras e gestos, renascendo
A cada dia, e sempre lentamente
Como uma criança crescendo...
E cada dia é um dia diferente
Por isso é que é vivendo e aprendendo...
Viver é reeditar-se avidamente
Como um riacho correndo...
Nada acontece da mesma maneira.
Uma segunda feira e outra segunda feira
Não são exatamente o mesmo dia...
Reeditar-se. E a unica certeza
É estar em paz com a própria natureza,
É estar de bem com a própria poesia...
6.12.08
A poesia, letra comezinha,
Não muita coisa além de um palavreado,
Mas com o mesmo efeito que a salsinha
Causa num belo prato de ensopado...
Nada demais. Palavra arrumadinha
Sem freio, sem portão e sem cadeado...
Pode conter um elefante, uma bimbinha,
Ou um mar todo nunca dantes navegado...
Por ser assim discreta e desregrada
Possui a força de uma enxurrada
E a delicadeza de uma brisa...
A poesia, letra abusada
Que quer ser mais que ser letra... Inconformada...
A poesia, fronteira sem divisa...
5.12.08
A poesia, palavra enfileirada
Por conta de um arranjo calculado
Gerando um som que geralmente agrada
À medida em que o poema é declamado...
E veja que não é preciso quase nada,
Basta que a gente coloque lado a lado
Muitas palavras de uma maneira arrumada,
Muitas palavras de um modo encadeado,
E é assim que a poesia ganha um aroma
Onde cada palavra é um som que soma
E é essa soma mágica que cria
A poesia, palavra penteada,
A poesia, palavra perfumada,
Prosa vestida de gala, a poesia...
4.12.08
Nada é tão frágil que não consiga crescer,
Nada é tão bom que não necessite mudar...
É tudo uma questão de perceber...
É tudo uma questão de acreditar...
Nada é tão "sonho" que não possa acontecer,
Nada é tão "hoje" que não mereça sonhar...
Tudo na vida é uma questão de fazer...
Tudo na vida é uma questão de tentar...
É amanhã o dia que há de ser,
Se ontem foi o tempo de aprender,
O hoje é a hora de se trabalhar...
É tudo uma questão de se envolver...
Nada é tão forte que não se possa vencer...
Nada é tão longe que não se possa alcançar...
2.12.08
A poesia, rima calculada,
Palavra articulada, a poesia,
Matematicamente desenhada,
Um exercicio de lógica, eu diria...
Milimétricamente metrificada,
Tática travestida de harmonia,
É técnica mesmo quando exagerada:
Nenhuma letra aonde não devia...
A poesia, frase articulada,
Fiel como é uma peça dissecada,
Ainda que sem destinação ou guia...
Letra estratégicamente alinhavada,
Pilula de emoção premeditada,
A poesia, pura engenharia...
A poesia, palavra ritimada,
Vestida toda de métrica e rima...
Para onde vai assim tão arrumada
Essa menina?
Possui ao mesmo tempo a voz calada
E a multipla atividade de uma enzima.
A poesia. Como a madrugada...
A poesia. Como a ocitocina...
Composta bem mais do éter que da letra,
Possui a efemeridade de um cometa
E a eternidade do infinito...
A poesia. Eterna e passageira.
Lampejo que perdura a vida inteira.
Eterna a poesia. Como um mito.
23.11.08
(para minha amiga Roberta Profice)
Se o coração não pensa antes de sentir
E quando sente é sempre por inteiro,
E não escolhe nunca pra onde ir,
E vai sempre pra onde pensou primeiro,
E quase nunca sabe decidir
Entre o que é falso e o que é verdadeiro,
E ao mesmo tempo não consegue se omitir
Nem tentar esconder o proprio cheiro,
Então também assim, amiga minha,
Quando disseres qualquer palavrazinha,
Antes de tudo, preste atenção
Pra que ela esteja sempre em sintonia
Com sua alma, com sua poesia,
Com sua vida e com seu coração...
21.11.08
Ao poeta Antonio Roberto Fernandes, falecido nas primeiras horas de hoje...
Não diga "morte" quando o poeta parte,
Posto que quando parte não se acaba
Mas dignifica a vida com sua arte,
Fazendo brotar vida da palavra...
Posto que a morte é apenas uma parte
Por meio da qual toda a vida se alinhava,
Resume tudo, como um estandarte
Bem justo quando ninguém imaginava...
Não diga "morte", portanto... Diga um verso...
O poeta não morreu... Está disperso
Inundando todos nós com os versos seus...
Não diga "morte"... Diga: "Até um dia
Quando conversaremos em poesia"...
Diga ao poeta: "Fica com Deus"...
14.11.08
Melhora, amigo, sua poesia
Faz falta nesse mundo tão mesquinho...
Vem logo para nossa companhia,
Ler um soneto, contar um versinho...
Tem gente contando nos dedos esse dia...
E cada dia falta menos um pouquinho...
Por que essa falta de pressa tão Bahia?
Por que tão assim devagar, devagarinho?
A vida é como um poema bem comprido
Que quase nunca termina de ser lido:
Há sempre um verso livre por dizer...
Os pratos de vovó estão esperando...
Vem, poeta, estamos te aguardando...
Fica com Deus, meu poeta... Até mais ver...
1.11.08
31.10.08
Ao poeta Antonio Roberto
Versos traçados em eletrocardiografia,
Sonetos feitos de venopunção,
Rimas fingindo-se antibioticoterapia,
Quadrinhas sustentando a intubação...
Redondilhas contornando a arritimia,
Sextetos comandando a oxigenação...
Rimas ricas para a hipocalcemia,
Metáforas estimulando o coração...
O poeta, entre potássios e glicoses,
Vai declamando seu verso a várias vozes
E não esmorece, absolutamente...
Traduz em poesia tudo em torno
E faz da própria vida um grande forno
Que prepara poesia eternamente...
22.10.08
(Poeminha após a leitura das explanações fonoaudiológicas sobre o reflexo da busca)
Eu não a imaginava assim, tão importante,
E nem sabia, sinceramente,
Que ela era um marco tão significante,
O começo de tudo, praticamente...
Dominado pelo estigma do eterno principiante,
Eu sempre vi nela um reflexo somente,
Primário como o de Moro, e desimportante,
E temporário, e menor, e inaparente...
Mas a vida, de forma delicada e brusca,
Tratou de me ensinar a compreender a busca
De uma maneira jamais por mim antes compreendida...
A busca além de um dos reflexos primitivos...
A busca além da busca que há nos livros...
A busca como preservação da própria vida...
7.8.08
Somos mamiferozinhos
Assim como são os gatinhos
E os cachorrinhos
E os filhotinhos das elefoas,
Como as oncinhas e os cavalinhos,
Como os bezerros e os macaquinhos,
Da mesma forma que os filhotes das leoas,
E as girafinhas e os canguruzinhos,
E como também são as ovelhinhas
Somos mamiferozinhos.
Mamamos do mesmo modo
Que os ursinhos,
Crescemos do mesmo jeito
Que os miquinhos,
Ficamos fortes
Como os tigrezinhos
Porque como esses bichinhos
Desde pequenininhos
Mamamos o leite de peito
Que a mamãe nos dá.
Mamiferozinhos nós somos.
Crescemos fortinhos
E desde miudinhos
Aprendemos, como eles, a falar:
Mamãe eu quero mamar
5.8.08
A minha amiga
Para Carla Brasil
Minha amiga doce e mais amada
E mais querida amiga e mais presente
E mais escrita amiga e mais lembrada
E mais suavemente transparente
Amiga tão gentil, tão educada
Quem olha quase não sabe o que ela sente
Quando esta triste sorri, a disfarçada,
Quando feliz, fala pausadamente
Amiga decidida e bem dosada
Não troca a coisa certa pela errada
Não vive a vida de modo inconsequente...
Não fosse real, seria um conto de fada,
Nem precisava ser tão iluminada
A minha amiga que eu amo imensamente...
16.7.08
Calúnia, infâmia, perseguição...
Que outros sinônimos tem a palavra roubalheira?
Desfalque, tombo, desvio... Quantos são?
Incorrigível essa política brasileira...
Os acusados negam a acusação...
A cidade assiste, assustada, à bandalheira...
Sobrou algum dinheiro? Quase não...
E olha que ainda era só segunda feira...
_Tudo mentira! Afirmam os aliados...
Habeas corpus - impetram os advogados...
Aonde afinal essa gente vai parar?
A lista quase sem fim dos envolvidos...
Tantos bilhões por tão poucos subtraidos...
Restou alguém em quem acreditar?
13.7.08
Cidade Pobre
Ah, Campos, cidade pobre...
Pobres por todos os lados...
É dessa forma, sem cobres,
Que seremos governados...
Por sermos tão pobrezinhos
Dinheiro aqui ninguém tem...
Que Deus abençoe os caminhos
Da cidade sem vintém...
Tão sem grana essa cidade
Que aguarda a felicidade
Enquanto a mesma não vem...
Ah, Campos, cidadezinha...
Ah, Campos, cidade minha
Governada por ninguém...
8.7.08
Versos para Eunice Begot
Quando tudo que há em volta é paz serena
E a brisa boa tem sabor de mar,
E quando a vida dessa forma vale à pena,
E nada em torno parece incomodar,
E nenhum rastro há de nenhum problema,
E nenhum saldo há de contas a pagar,
E a vida é bela, como no cinema,
E perfeita como uma musica de Bach,
É nessas horas que a maldade humana,
Hipócrita, cruel e leviana,
Costuma invariavelmente conspirar...
Mas Deus é mais que o mal. Então confia.
Nada é maior que a Sua companhia,
Nada é capaz de o desafiar...
Segue portanto, Eunice, a sua luta.
Supera com amor a força bruta
E o bem, por fim, há de triunfar...
9.6.08
A Natureza
E pouca coisa há tão impressionante
Maravilhosa, de gosto delicado,
E lúcida e limpa, feito um diamante
Que é lindo sem precisar ser lapidado,
E quase nada na vida é tão intrigante,
E a tantos tem desse modo maravilhado:
A natureza, que é assim como um gigante
E é como um sopro de brisa perfumado...
Nenhuma coisa no universo inteiro,
Nenhum poder militar, nenhum dinheiro,
Nenhuma dinastia ou realeza
Possui mais maravilhas que uma planta...
Nada no mundo dos homens, não adianta,
É mais perfeito que a natureza...
5.5.08
A mãe prematura
A mãe prematura do bebe prematuro
Nascida antes do que era para ser,
Como quem antecipa o seu futuro,
Como quem torna-se sem perceber...
A mãe prematura do bebe prematuro
E a luta por seu bebê sobreviver...
Às vezes tudo é tão sombrio e escuro...
Tudo tão frio, sem amanhecer...
A longa dor de quem aguarda a cura,
Como quem, sem saber o que, procura,
E assim, nessa procura, se desfaz...
Segura nas mãos de Deus, mãe prematura...
Segura nas mãos de Deus que te segura...
Segura nas mãos de Deus e segue em paz...
30.4.08
Uma Declaração Universal de Direitos para o Bebê Prematuro
Artigo I
Todos os prematuros nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência. Possuem vida anterior ao nascimento, bem como memória, aprendizado, emoção e capacidade de resposta e interação com o mundo em sua volta.
Artigo II
Todo prematuro tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.
Artigo III
Nenhum prematuro será arbitrariamente exilado de seu contexto familiar de modo brusco ou por tempo prolongado. A preservação deste vínculo, ainda quando silenciosa e discreta, é parte fundamental de sua vida.
Artigo IV
Todo prematuro tem direito ao tratamento estabelecido pela ciência, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. Sendo assim, todo prematuro tem o direito de ser cuidado por uma equipe multidisciplinar capacitada a compreendê-lo, interagir com ele e a tomar decisões harmônicas em seu beneficio e em prol de seu desenvolvimento.
Artigo V
Todo prematuro tem direito à liberdade de opinião e expressão, portanto deverá ter seus sinais de aproximação e afastamento identificados, compreendidos, valorizados e respeitados pela equipe de cuidadores. Nenhum procedimento será considerado ético quando não levar em conta para sua execução as necessidades individuais de contato ou recolhimento do bebê prematuro.
Artigo VI
Nenhum prematuro será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Sua dor deverá ser sempre considerada, prevenida e tratada através dos processos disponibilizados pela ciência atual. Nenhum novo procedimento doloroso poderá ser iniciado até que o bebê se reorganize e se restabeleça da intervenção anterior. Negar-lhe esse direito é crime de tortura contra a vida humana.
Artigo VII
Todo prematuro tem direito ao repouso, devendo por isso ter respeitados seus períodos de sono superficial e profundo que doravante serão tomados como essenciais para seu desenvolvimento psíquico adequado e sua regulação biológica. Interromper de forma aleatória e irresponsável sem motivo justificado o sono de um prematuro é indicativo de maus tratos.
Artigo VIII
Todo prematuro tem o direito inalienável ao silencio que o permita sentir-se o mais próximo possível do ambiente sonoro intra-uterino, em respeito a seus limiares e à sua sensibilidade. Qualquer fonte sonora que desrespeite esse direito será considerada criminosa, hedionda e repugnante.
Artigo IX
Nenhum prematuro deverá, sob qualquer justificativa, ser submetido a procedimento estressante aplicado de forma displicente e injustificada pela Equipe de Saúde, sob pena da mesma ser considerada negligente, desumana e irresponsável.
Artigo X
Todo prematuro tem direito a perceber a alternância entre a claridade e a penumbra, que passarão a representar para ele a noite e o dia. Nenhuma luz intensa permanecerá o tempo inteiro acesa e nenhuma sombra será impedida de existir sob a alegação de monitorização continua sem que os responsáveis por estes comportamentos deixem de ser considerados displicentes, agressores e de atitude dolosa.
Artigo XI
Todo prematuro tem o direito, uma vez atingidas as condições básicas de equilíbrio e vitalidade, ao amor materno, ao calor materno e ao leite materno que lhe são oferecidos através do Método Mãe Canguru. Caberá à Equipe de Saúde prover as condições estruturais mínimas necessárias a esse vinculo essencial e transformador do ambiente prematuro. Nenhum profissional ou cargo de comando em nenhuma esfera tem a prerrogativa de impedir ou negar a possibilidade desse vinculo que é símbolo da ciência tecnocrata redimida.
Artigo XII
Todo prematuro tem o direito de ser alimentado com o leite de sua própria mãe ou, na falta desta, com o de uma outra mulher tão logo suas condições clinicas assim o permitirem. Deverá ter sua sucção corretamente trabalhada desde o inicio da vida e caberá à equipe de saúde garantir-lhe esse direito, afastando de seu entorno bicos de chupetas, chucas ou de qualquer outro elemento que venha interferir negativamente em sua sucção saudável, bem como assegurando seu acompanhamento por profissionais capacitados a facilitarem esse processo. Nenhum custo financeiro será considerado demasiadamente grande quando aplicado com esse fim. Nenhuma fórmula láctea será displicentemente prescrita e nenhum zelo será descuidadamente aplicado sem que isso signifique desatenção e desamparo. O leite materno, doravante, será considerado e tratado como parte fundamental da sua vida.
25.4.08
A pizzaria
Construíram uma imensa pizzaria
No coração da planície goitacá.
É casa cheia : o trenzinho da alegria
Não deixa a pizzaria esvaziar...
Sabor de tombo, de pilantraria,
Borda de recheio anti-liminar,
Só dá primeiro escalão: procuradoria,
Assessoria, vereadores, todos lá...
Tem pizza pro arquiteto e pra mocinha,
Tem pizza, dizem, de bananinha,
Quem come tá sempre querendo voltar...
Fizeram da minha cidade sem justiça
Uma imensa e imunda e incompreensível pizza
E a conta o povo é que vai pagar...
23.4.08
(para Margot)
A hora da poesia não tem hora,
É ao meio dia, é em plena madrugada,
É daqui a pouco, é amanhã, é agora,
É logo depois da próxima alvorada,
E por não ter hora, às vezes demora
Dias e dias, outras vezes nada...
Às vezes é quando todos vão embora,
Outras vezes é bem no meio da balada...
A hora da poesia é um parto e tanto,
É natural e ao som de um acalanto
Que embala a mãe amamentando a cria...
E não tem hora, definitivamente,
A poesia que alimenta a gente...
É toda hora a hora da poesia...
17.4.08
A falta
Ao meu pai Clóvis Tavares em lembrança de seus 24 anos de partida. 13 de abril 1984-13 de abril 2008
A boa palavra nunca mais escrita,
A frase boa nunca mais falada,
A boa conversa não mais repetida,
E, como a conversa, o olhar, a risada...
A personalidade do homem espírita
E uma vida inteira dedicada,
E a voz intensa, doce e às vezes aflita
Para a poesia belissimamente recitada...
O zelo, a perseverança, a inteligência,
A História, a poesia, o Cristianismo, a ciência
E uma presença desconcertante...
Ah, quanta falta, pai, do teu carinho...
E esse silencio que é escrever sozinho...
E essa saudade quase dissecante...
Capitulada
A minha cidade resiste à solidão,
Ao abandono, ao desespero, à mágoa,
Ao desencantamento, à ingratidão...
A minha cidade só não resiste à água...
Resiste à miséria, resiste à corrupção,
Ao poder publico submerso no atoleiro,
Ao grampo no telefone do ladrão...
A minha cidade só não resiste a um aguaceiro...
Resiste aos homens da Policia Federal,
Resiste ao camarote e ao carnaval
E ao rio das enchentes de águas turvas...
Resiste às pontes e aos golpes dos corruptos
E aos podres poderes dos homens estúpidos...
A minha cidade só não resiste às chuvas...
10.4.08
Se não tiver nessa padaria
Procure naquela outra logo adiante,
Mas se a prateleira também estiver vazia
Não troque ainda o seu sonho por um refrigerante.
Segue, e duas quadras depois da livraria
Uma confeitaria muito elegante
Também vende sonhos... Mas que ironia:
Acabou de ser comido o sonho gigante...
Mas não desista ainda. Vai em frente.
Sonho que é sonho é sempre persintente,
Por isso nunca deixe de sonhar...
Persiga seu sonho na confeitaria
Ou no imporoviso de alguma poesia...
Só toma cuidado na hora de acordar...
17.3.08
Seja bem vindo ao mar de lama obscura
Que fez morada na minha cidade
Transformando-a em estranha criatura
Mancomunada com a imoralidade...
Seja bem vindo ao mar de lama impura
Que encheu de sombra escura a claridade
Como se fosse uma doença sem cura,
Um cancer descoberto muito tarde...
Seja bem vindo à imensa lamaceira
Que fez da minha cidade uma lixeira
E hoje é parte da sua própria vida...
Seja bem vindo ao mar de lama, irmão...
É como se não houvesse outra opção...
É como se não houvesse outra saida...
16.3.08
Gritaram: pega ladrão...
Não sobrou um no lugar...
Anos a fio metendo a mão,
Já não sabiam parar...
Cidade imunda de corrupção...
Larápios a conjugar
O verbo da moda que faz o ladrão
O verbo da moda: roubar...
Cidade completamente corrompida...
Enlamearam a porta de saida,
Sujaram tudo, não sobrou ninguém...
Meu Deus, tem pena da minha cidade,
Antro imoral de toda iniquidade...
Quem vive aqui sabe bem...
1.3.08
Parou o coração, congestionado,
Enfraquecido, insuficiente,
Como um maratonista desarmado,
Como uma estrela cadente...
Parou o coração, desconfortado
Dentro de um mediastino incomplecente.
Cresceu, e o peito tornou-se-lhe apertado.
Cresceu demais, aparentemente...
Parou o coração, digitalizado,
Corretamente monitorado
E com um desfiblilador bem na sua frente...
Parou, a despeito de todo cuidado.
Parou sem perceber-se medicado.
Parou de vez o coração doente...
Parou o coração. E nem queria.
E se tentou se salvar, não conseguiu.
Parou vitimado por subita arritimia.
Como uma estátua de Trotsky, caiu.
Parou o coração naquele dia
Bem justo quando parecia estar a mil.
Massagem. Adrenalina intracardiaca.
E a vida que ali havia escapuliu.
Parou o coração, como constatado.
Já não é o mesmo o coração, parado.
Já não é o mesmo que era o que batia.
Parou o coração contra a própria vontade.
Parou vitimado de subita gravidade.
Parou quando ele nem percebia.
23.1.08
Parada cardíaca
Parou o coração, subitamente,
Congestionado de coisas por fazer.
Não deu sinais de parar. Foi de repente,
Como se estivesse saturado de viver.
E assim, súbita e definitivamente,
Pois não voltou a bater,
Parou, como se estivesse cansado do batente
Ou como se estivesse desistido de sofrer.
Guardou, com seu silencio, nomes, dias,
Desejos, desafetos, avarias,
Fragmentos da vida ainda por levar...
Parou o coração. Silencio. Nada.
A vida, vitima da súbita parada,
Escapuliu para nunca mais voltar...
25.11.07
Desculpe,
Mas não uso dicionário,
Meu dicionário é o meu coração,
Não há palavra que ele desconheça,
Não há nenhuma
Que lhe cause confusão,
E não importa a língua:
Inglês,
Nagô,
Castelhano,
Francês,
Turco,
Alemão,
O coração conhece,
Entende,
Fala,
Responde,
Escreve
E diz
Com perfeição...
Por isso é que eu não uso Dicionário,
O dicionário
Não cabe
Na minha mão,
Prossegue além da letra,
Da palavra,
Do significado
E da razão,
E não tem regras,
Nem páginas,
Nem índice,
Nem letras,
Nem pecado,
Nem perdão...
Eu não preciso de dicionários,
Todos turvos...
Meu dicionário
É o meu coração...
11.10.07
Para minha irmãzinha Rose in http://www.eternessencias.blogspot.com/
Por ter achado aqui morada boa,
Terreno fertil para se plantar,
Casa de campo deliciosa,
A poesia, que não se perdoa,
Vai se vestir de letra preguiçosa
E entrar aqui para descansar...
Por ter achado aqui alivio e alento,
Reparo, amparo, refazimento,
E principalmente boa companhia,
A poesia, mal acostumada,
Vai ficar viciada...
Ai ai ai ai coitada da poesia...
29.9.07
É como se fosse um verso de Drummond,
Uma letra pra Chico Buarque musicar,
É como se fosse uma musica do Tom,
Esse seu olhar...
É como se fosse um passatempo bom
Que não deixasse o tempo passar,
É como Caetano criando um som,
Esse seu olhar...
É como se fosse coisa de cinema,
Raio de lua, risco de poema,
Banho de rio, beira de mar...
É como um doce que não termina,
Bela menina,
Esse seu olhar...
28.9.07
A coisa que valoriza uma pessoa
Não é a idade e o sexo que ela tem,
Não é se o beijo é bom, se a boca é boa,
Não é o namorado dela é quem...
Não é se é nova demais ou se é coroa,
Se tem seu carro, se ganha bem,
Se é rico, e porque é rico, se ri à toa,
Se tá sempre faturando algum de alguém,
A coisa que valoriza o ser humano
Longe de ser o carro do ano,
É a consciencia tranquila, é a paz serena,
É errar e redimir-se diariamente,
Seguindo devagar e lentamente
Abandonando o que não vale à pena...
Eu adiciono gente bonita
E gente feia, e gente nem tanto,
Gente tristinha, gente esquisita,
Gente que acredita em Pai de Santo,
Eu adiciono. Isso não me irrita.
Gente é bom demais. Eu não me espanto,
É como receber uma visita,
E se a conversa tá chatinha eu canto...
Eu adiciono quase toda gente
Triste, pra lá de baixo astral, contente,
Gente que vive com sono...
Eu não me importo com mesquinharias...
Não coleciono quinquilharias...
Não penso duas vezes... Adiciono...
Eu sempre adiciono os curiosos,
Os irremediaveis fofoqueiros,
Os insensatos, os maliciosos,
E os da própria inveja prisioneiros...
Adiciono profiles mentirosos,
Adiciono profiles interesseiros,
Adiciono profiles perigosos,
Adiciono profiles passageiros,
Eu sempre adiciono. E não me importo
Se é verdadeiro ou não o texto, a foto,
Se cada palavra contem sinceridade...
Eu simplesmente vou adicionando
Como que segue colecionando
Sementes pequenininhas de amizade...
Orkutiana II
Eu sempre adiciono caucasianos,
Mulatos, afros, índios, orientais,
Paranaenses, pernambucanos,
Nascidos em Quito, criados em La Paz,
Fãs de Cauby Peixoto ou Los Hermanos,
De Chico Buarque ou Science, tanto faz,
Gente com mais de cinqüenta anos,
Gente novinha demais...
Canhotos, destros, desajeitados,
Tímidos, loucos, bem apessoados,
Ricos, famosos e desconhecidos...
Os impacientes e os apressados,
Os que chegarem de todos os lados
Eu sempre os adiciono como amigos...
14.9.07
O Aleitamento materno
Ao mesmo tempo alimento e poesia,
Fermento sólido para a maternagem,
Para a articulação temporo-mandibular, um guia,
Para a família, motivo de tietagem,
Tese de doutorado para a Pediatria,,
Prova de fogo para a equipe de Enfermagem,
Para os alunos , uma minimonografia,
Para a mãe o pai e o filho, uma viagem...
Ao mesmo tempo poético e cientifico,
Instintivo, cultural, técnico, mítico,
É um misto de vontade com virtude...
Fonte da vida por ele preservada,
Força titânica em veste delicada,
Mapa da fonte da juventude...
O amor sem fim
Para Luisa
Por quanto tempo o amor que não termina?
A entrega total mais arrebatadora?
E o coração, por quanta adrenalina
Jura a jura de amor mais duradoura?
E a paixão mais pura e cristalina,
A mais incrivelmente arrasadora,
Em quanto tempo vira purpurina,
Resto de coisa própria pra vassoura?
E o que era absolutamente inseparável,
Inconfundivelmente inquebrantável
Em quanto tempo torna-se assim:
Pedaço, resto, lixo, pó, espuma,
Pedaço de nada, coisa nenhuma?
Quanto tempo dura o amor sem fim?
5.9.07
Idade nova chegando...
Menos tempo, de hoje em diante, para errar...
Já faz bastante tempo, confesso, venho errando,
E já não há mais tanto tempo pra gastar...
Idade nova se completando...
E já sem tempo prá desperdiçar...
Desde que aqui cheguei fui me adaptando
Mas já está chegando a hora de voltar...
Idade nova, e eu fico imaginando
Que é como se a gente fosse se cansando
De querer tanto e de nunca se bastar...
Idade nova... Tempo de ir deixando
As vaidades de lado e ir caminhando
Até a idade do tempo se esgotar...
26.8.07
Os que atentaram
Quantos, exatamente, os que morreram?
Quantos aqueles os que atentaram?
Quantos mandaram? Quantos obedeceram?
Que coisas quantos deles combinaram?
Porque seus nomes jamais apareceram?
Com medo de que fardo se ocultaram?
Por que atrás de Herodes se esconderam
Ou livres de que penas se julgaram?
Que fatos não sabemos, mas aconteceram?
Quantos deles se arrependeram
Ou quantos outros jamais confessaram?
Desejavam vencer, mas não venceram...
Não poderiam perder... Mas se perderam...
Tiveram a honra de crer, mas fracassaram...
Assim que os anjos se foram...
E ouvindo isso, rapidamente seguiram
Para Belém, onde o procuraram...
Perguntaram a uns sobre o que viram,
E sobre o que ouviram, a outros perguntaram,
Até que num estábulo o descobriram,
Envolto em panos, numa manjedoura o encontraram...
Fizeram silencio,
Se aproximaram,
Olharam o menino
E se entreolharam...
E, assim, silenciosos,
Reconheceram
O menino de que os Anjos
Lhes falaram...
Quem sabe lhe trouxeram
Lã e leite,
Quem sabe queijo fresco
Lhe ofertaram...
Na sua pobreza,
Os pastores perceberam
O que o menino e seus pais
Passaram...
Assim que souberam
Vieram,
Maravilhados,
Sem se distraírem,
O adoraram,
Alguns fizeram preces
E sorriram,
Outros sorriram
Ao mesmo tempo
Que choraram...
Um se encantaram muito
Com o que viram,
Com o que ouviram,
Com o que lhes fora
Revelado...
Outros se extasiaram,
Agradecidos,
Com todas as coisas
Que presenciaram...
Algum tempo depois
Alguns saíram,
Outros, emocionados,
Continuaram...
Agradeceram a Deus
Que os fez lembrados,
Permanecendo um tempo ainda
Ajoelhados...
Até que todos
Se retiraram,
Absolutamente
Magnificados...
Sorriam
Enquanto iam,
E conversavam,
Pareciam nem sentir
O frio gelado...
Conta-se que disso
Nunca se esqueceram...
Mil vezes repetiram,
Outras mil contaram,
Dizendo dos Anjos
Que em Legião desceram,
Falando das musicas
Que os Anjos cantaram,
Contando da Boa Nova
Que os trouxeram
E do menino
Que visitaram,
Do Salvador
Que pessoalmente
Conheceram
Por terem sido
Pelos Anjos
Convidados...
Dizem que alguns
Nunca mais beberam...
Dizem que alguns
Nunca mais pecaram,
Dizem que alguns
Que viram e creram
De tal maneira
Se modificaram
Que seus amigos
Nunca entenderam
Porque mudaram...
Os pastores que os Anjos
Escolheram...
Os Pastores,
Os primeiros
Que o encontraram...
13.7.07
Somos mamiferos
Do mesmo modo que o são
O cão e o gato,
A ovelha, o coelho, o lobo,
O lince, a vaca,
O canguru, a paca,
O leão,
O chimpanzé e o rato...
Mamiferos,
Dependentes dos ductos lactíferos
Do mesmo modo que o são os dromedários,
Nossos irmãos de hábitos mamários,
Como também o camelo,
O leão-marinho,
A anta,
O mico-leão-dourado,
A onça parda,
A onça pintada,
O quati,
O tamanduá
E o leopardo...
Que coisa boa:
Mamiferos como a leitoa
E os bacurinhos,
E quase, como eles, tão lindinhos...
Somos mamiferos
Como o elefante africano,
Da mesma forma que o rinoceronte...
Alimentamo-nos da mesma fonte
Que o texugo mama
E onde também a lhama...
Dependuramo-nos na mesma mama...
Irmãos da mesma livre demanda
Da ratazana,
Da jaguatirica,
Do gato do mato
E do urso panda...
E embora apaixonados por teorias,
Por técnicas, controversias, prós e contras,
Somos mamiferos
Como são os lobos, quem diria,
E os hipopótamos,
Os javalis e as lontras...
Como o morcego lanudo
E o ratinho caseiro,
Somos da mesma forma atraidos pelo cheiro
Do leite de peito.
E não tem jeito:
Somos mamiferos.
Alimentamo-nos das mesmas mamas cheias
Do modo como se alimentam as baleias,
E da mesma maneira
Que alimentam-se a toupeira
O gorila
E o boto,
E o rato-do-campo-de-rabo-curto,
O tatu-peba, se não me engano,
E ainda o tigre siberiano...
Do mesmo modo que eles
Nós mamamos...
Mesma atração instintiva por mamilos
Que possuem os veados e os esquilos,
E da mesma forma que a baleia-anã,
Nossa irmãzinha,
Somos os filhos da apojadura
Como o arminho,
Como a doninha,
Como a fuinha...
Somos os donos da proxima mamada
Como os sacarrabos,
Como os gatos bravos,
Como a onça bastarda...
Somos mamiferos,
E como nossos irmãos de peito
Sobrevivemos aos milenios do mesmo jeito:
Ninho, aconchego, calor,
E leite quente,
Naturalmente...
E muito embora
Aparentemente
Mais inteligentes,
Nós, homo-sapiens,
Não nos enganemos:
Do mesmo modo que os irmãos que temos,
Que mamam da mesma forma que o fazemos,
E crescem do mesmo modo que crescemos,
A mesma mama,
A mesma sucção,
Por que é que ainda não nos convencemos?
Somos mamiferos...
Por que é que tanta gente acha que não?
9.7.07
Que graça teria a vida
Se não houvesse a poesia?
Nascer, viver, morrer,
Misturar-se à terra fria,
Tornar-se um Fisico, um Quimico,
Um Doutor em Pediatria,
Um Pós-graduado em Farmácia,
Um Professor de Biologia,
Our concour em Matemática,
Um Mestre em Fisioterapia,
Que graça, me diz, que graça
Se não houvesse a poesia?
Ganhar bastante dinheiro,
Trabalhar dia após dia,
Fazer amigos, casar-se,
Ver aumentar a familia,
Viajar o mundo inteiro
Numa imensa romaria:
Ir do Rio à Nova Iorque,
De Nova Iorque à Bahia,
Da Bahia ao Himalaia,
Do Himalaia à Hungria,
Da Hungria à Machu Picchu,
De Machu Picchu à Turquia,
Da Turquia até Passargada,
De Passargada à Utopia,
De Utopia à Montes Claros,
Dali à Santa Maria,
Aprender mil idiomas,
Mil costumes, mil manias,
Conhecer gentes e modas
Saber de Reis e Rainhas,
Fotografar paisagens
Que jamais ninguém havia...
Trazer o mundo no bolso...
Mas que graça isso teria
Sem a graça de poder
Rimar cotia com tia,
Ler um verso de Quintana,
Ter Castro Alves como guia,
Carlos Drummond como amigo,
Ferreira como companhia,
Chico Buarque como Mestre,
Vinicius como Sinfonia,
Bandeira como delirio,
Pessoa como terapia,
Mário de Andrade como ouro,
Gulherme de Almeida como prataria,
Augusto dos Anjos como astro,
Cecilia como maravilha...
Que graça teria a vida
Se a vida tivesse tudo
Mas caminhasse esquecida
Da poesia?
29.6.07
Deixa que o tempo resolve tudo:
Carencia, ódio, desencanto, dor.
Ele age sempre bem, e, embora mudo,
É dono de um rugido assustador...
Deixa que o tempo resolve, sem descuido,
Até a morte, se preciso for...
O tempo é sempre o maior escudo,
Sempre o melhor cobertor...
Não tente resolver tudo sozinho...
Lembra-te desse bom companheirinho,
O tempo, que te segue e te acompanha...
Deixa, porque o tempo, bom companheiro,
É o teu melhor conselheiro...
Adota o tempo. Eu garanto: é causa ganha...
17.6.07
Recordo-me, menino ainda assustado,
De ter tomado nas mãos aquele livro
Cuja autoria maior era inequívoca...
Recordo-me, menino impressionado,
Das primeiras leituras, sem motivo,
E da impressão que me causou, magnífica.
Era um menino
De muitos sonhares,
Muitos poemas por escrever,
De um dia conhecer muitos lugares,
E muitas gentes para conhecer.
Era um menino
Cheio de perguntas
Que os outros meninos não sabiam responder.
E eram tantas, cada vez mais muitas,
Que eu insistia em fazer.
Era um menino
Ainda, quando um dia,
Tomei aquele livro em minha mão
Como se fosse um clarão na noite fria
Iluminando a minha escuridão.
E assustado, o menino, ao folheá-lo,
E antes que eu percebesse ou concordasse,
Aquele livro foi me convencendo.
E sem que ninguém me pedisse que o lesse,
E sem que ninguém me obrigasse,
Aquele livro foi me envolvendo.
Que é Deus? Decidido, perguntava.
Que se deve entender por Infinito?
É dado ao homem conhecer o princípio das coisas? continuava,
E o menino lia tudo, aflito...
Quando começou a Terra a ser povoada?
De onde vieram para a Terra os seres vivos?
E a cada pergunta formulada,
Respostas. Ensinamentos expressivos.
E as dúvidas que tem a alma encarnada
Formavam as respostas desse livro.
Que sucede à alma no instante da morte?
Como se explica a vida intra-uterina?
Em que consiste a missão dos espíritos encarnados?
E, como lista sem fim que não termina,
Do mesmo modo que o Mestre quando ensina,
A responderam espíritos abnegados.
Era uma onda imensa e benfazeja,
De luz intensa, arrebatadora,
Era o alicerce de uma nova igreja,
Sem rituais, sem reis, mas reveladora.
Recordo-me, menino ainda assustado,
Como colhido por um redemoinho,
Que já não me era possível mais fugir.
Recordo-me, absolutamente extasiado,
Daquele grande mapa do caminho
Do qual era impossível desistir.
Hoje, o menino de ontem, já crescido,
Ao deparar-se com aquelas mesmas letras,
Confessa-se ainda emocionado
Ao compreender-se um recém-nascido,
Um pó na infinitude dos planetas
E pela mesma grande Lei subjugado.
Hoje, o menino de ontem, quase nada,
Toma nas mãos o Livro dos Espíritos
E para si mesmo diz: Tudo o que eu sei
Vai nestas letras atribuídas a Kardec:
Nascer, viver, morrer,
Renascer ainda
E progredir continuamente,
Esta é a lei.
3.5.07
Ao saber da noticia da morte de Herodes, a mãe do menino por ele assassinado se perturba e ora...
A mãe do menino morto
Quando soube do ocorrido,
Quedou-se tremula e pálida
Como um pássaro ferido...
E ainda pálida e tremula
Mal conseguiu escutar
A noticia do Rei morto
Que vieram lhe contar.
Gelou a mão nessa hora,
E, sem conseguir falar,
Desatinada da vida
Desconsolou-se a chorar...
No instante em que lhe contaram
Do Rei cruel que morrera
Seus olhos se encheram d’água
Pelo filho que perdera
Naquela noite sem nome,
Aqueles gritos de não,
A dor, o sangue, a tragédia
Sem nenhuma explicação...
Reviu o filho no colo
Que a morte veio buscar
Seu corpo desfalecido,
Sua vida a lhe escapar,
O choro do desespero,
A crueza do soldado,
Os restos mortais do filho
Sem vida, despedaçado...
A mãe do menino, atônita,
Chorou, dor desconsolada...
Ali perdera sua vida
Na que se lhe fora roubada,
Ali secara-lhe o animo,
E a sua esperança inteira,
Sua dor, sua fome, seu sono,
Seu nome quase esquecera,
A mãe do menino, em pranto,
Naquela hora, atordoada,
Reviu a imagem do filho
Reviu o corte da espada,
Perdeu a voz, já sem forças,
Sentou-se ao lado da esteira
No mesmo triste cantinho
Onde seu filho morrera,
Sentou sozinha e em silencio,
Sentiu um breve arrepio,
Abraçou o próprio colo
Sem percebê-lo vazio,
Lembrou ali do menino,
Das risadas que ele dava,
Das farras que ele fazia,
Das noites que ele chorava,
Lembrou das horas de febre,
Das dores de vez em quando,
Das noites de sono leve,
Dos dias de amamentando...
A mãe do menino morto,
Sem que pudesse entender,
Trazia o filho em seus braços
E viu seu filho morrer...
Daquela hora em diante
Também aos poucos morreu,
Sem filho, ficou sozinha,
Sem luz, tudo escureceu,
Seu sorriso foi-se embora,
Sua vida, abandonada,
Perdeu sua identidade,
Sua forca, esvaziada...
Naquela hora tão triste
Viu morrer sua alegria,
Quis lutar, mas não lutava,
Gritar, mas não conseguia,
Quis brigar... Mas de que jeito?
Fugir... Mas para onde iria?
Quis fazer voltar o tempo...
Quis morrer... Mas não sabia...
Foram tempos de silencio,
De luto, de depressão,
Desencanto, sofrimento,
Desalento, solidão,
Ate que aquela noticia
Trazida não sei por quem,
Tocou a mãe tão sofrida
Do menino de Belém...
Morrera o Rei desumano...
Seu nome, ela não dizia...
Sua lei, não questionava...
Sua ordem, não discutia...
Sobre ele não falava,
Comentários não ouvia,
Pois morto ele já estava
E mais morto aquele dia...
Chorando, a mãe do menino
Ao saber do acontecido,
Orou a Deus, recordando
Seu filho morto querido,
Rogou a Deus, comovida
Na oração que ela fazia,
Improvisando uma prece
Que, mais ou menos, dizia:
“Senhor, que de hoje em diante
E por toda a eternidade
A ira seja asfixiada
Pelas mãos da piedade.
Que o ódio seja banido
Desde esse dia em diante
Transformando horror e medo
Em amor ao semelhante,
A crueldade impostora
Que seja desmascarada
Tornando-se auxilio e apoio
Para cada alma cansada,
Que a lamina fria da espada
Deixe assim de existir
E cada mãe assustada
Possa voltar a sorrir,
Que cada filho levado
Pelos soldados sem Deus
Seja tido como um Anjo
Um mensageiro dos Céus,
E o Rei, já depois de morto
Vendo essa transformação
Caia em si, desesperado,
E aprenda a grande lição:
Que suplique por piedade,
Mergulhado em sofrimento,
Sofrendo cada maldade,
Vivendo cada lamento,
Cada dor, cada crueldade,
Cada morte encomendada,
Que assim viva intensamente
Ate não restar mais nada
E quando não mais houver
Nenhuma dor não sentida,
Nenhuma morte ignorada,
Nenhuma lagrima esquecida,
Então que a Misericórdia
Divina aja em seu favor
E aceite o arrependimento
Revelado pela dor,
E livre de sua miséria,
E longe do seu poder.
Possa o Rei tornar-se homem
E começar a viver...”
Foi quando a mãe do menino
Terminando, silenciou.
Seus olhos possuíam brilho
Quando a oração acabou.
Parecia enternecida,
Uma paz a dominava.
Já não trazia na face
O medo. Já não chorava.
E conta-se que depois disso,
Essa mãe, recuperada,
Fez-se mãe fortalecida,
Fez-se mãe modificada,
Daquele dia em diante
Passou a prestar auxilio
Às mães mais necessitadas
Em memória do seu filho,
Ofereceu sua ajuda
Às mães com filhos menores,
Tornando seus dias tristes
Dias um pouco melhores...
Recuperou seu sorriso,
Retomou a sua vida,
Arrumou a sua casa,
Retornou à sua lida,
Vivendo solidariedade,
Descobrindo comunhão,
Distribuindo amizade,
Disseminando perdão,
Reconstruindo sua paz
E a paz da sua vizinhança,
Deixando, pelo caminho,
Sinais de vida e esperança...
Depois dali, nunca mais
Tanta dor desabalada,
Tanta dor incompreendida,
Tanta dor inconformada,
Depois dali, e para sempre,
Se dor, desespero não,
Se desanimo, coragem,
Sempre luz, se escuridão,
Pois nenhuma tirania,
Nenhuma ordem ou poder,
Nenhum exercito insano
Tem força capaz de vencer
Nenhuma mãe
Companheira obstinada,
E o amor dessa mãe
Para com os seus...
“Mãe não tem limite
É tempo sem hora”,Imitação
Fiel
E essencial
De Deus...
5.4.07
A poesia, que ampara os tristes
E dá suporte aos desconsolados,
Que vale como um trago de carinho
Aos corações em dor, desamparados...
A poesia, que acolhe os fracos
E dá sustento aos corações cansados,
A poesia, unica companhia
Dos que se desesperam, isolados...
A poesia, que estanca as dores,
Que, como um bálsamo, ameniza horrores,
Que arranja um jeito pro que não tem jeito...
Como um milagre da vida, a poesia,
Como um Tratado de Psicologia,
A poesia, como o leite de peito...
3.4.07
Eu tornei poesia descontentamentos,
A alegria que eu tinha, eu tornei poesia,
Eu fiz versos dos restos dos meus pensamentos,
Da minha tristeza, da minha azia,
Dos meus desafetos, dos meus lamentos,
Dos meus episódios de taquicardia,
Disfarcei com poesia desapontamentos,
Desenhei com sonetos minha alma vazia,
Desde ai a poesia tornou-se a primeira,
A mais longa, sincera e fiel companheira
A me indicar o caminho de saida...
Desde ai, por não haver outra maneira,
Desde ai, a poesia inteira...
Desde ai a poesia, a minha vida...
26.3.07
Gostar é assim mesmo.
Indefinido.
Nem sempre dois e dois
Ali
São quatro.
Às vezes é tudo culpa do cupido.
Outras, do excesso de salto
No sapato.
Gostar é assim mesmo.
Ora atrevido.
Ora tão cheio de dedos
E recato.
Às vezes é como um naufrago
Perdido.
Às vezes è como um cisne
Amar um pato.
Gostar é assim então.
Complicadinho.
Tem quem goste só pouquinho
Mas tem quem goste
Pela vida inteira.
Gostar é por vezes
Cheio de carinho.
Por outras vezes
É gostar sozinho.
Mas sempre é bom.
De qualquer maneira.
17.3.07
Anjos não fazem aniversário.
Não surgem. Não vão embora.
Não são classificados pelo calendário.
Não tem data. Não tem dia. Não tem hora.
Anjos são simplesmente atemporais,
Não tem formato ou aspecto definido.
Anjos são todos iguais:
São assim mesmo, não fazem ruído...
Anjos padecem e superam crises,
Regeneram rapidamente cicatrizes,
As suas e as outras, dos queridos seus...
Anjos são sempre assim: leves, discretos,
Ao mesmo tempo suaves e diretos...
Anjos são Anjos. Acima deles, só Deus.
4.3.07
Durante sua longa jornada de Nazaré até Belém, José e Maria, esta grávida do menino Jesus, cruzam em seu caminho, a certa altura da estrada, com um caminheiro que deles se aproxima, olha-os de perto, troca com eles discreto cumprimento e segue adiante, mas não os reconhece...
Caminheiro, seguindo pela estrada,
Quando cruzares pelo caminho
Com um homem, uma mulher embarrigada
E um burrinho,
Se não notares, nessa hora, nada,
E prosseguires, sozinho,
Continuando tua caminhada
Devagarinho,
Terás perdido a chance a ti cedida,
Talvez a única da tua vida,
Talvez a mais importante...
Quando, de novo, José e Maria?
Quando, de novo, esse dia?
Quando, dali pra diante?
3.3.07
Naqueles dias, levantou-se Maria e foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá. Luc 1, 38
Assim que soube da historia do ocorrido,
Maria foi ter com Isabel, como relatado.
Por que com pressa Maria teria ido?
Que tempo juntas terão passado?
Apressadamente, teria Maria fugido?
Ou apressadamente, espírito extasiado?
Que coisas Maria com Isabel terá aprendido?
Que coisas Maria a Isabel terá ensinado?
Terão cortado e lavado que tecido?
Que alimentos terão preparado?
Que frutos terão colhido?
Que sementes semeado?
Terão os meninos, em seus ventres, remexido?
E os primos, nos ventres das primas, se agitado?
Que hinos, juntas, terão ouvido?
Que coisas belas terão cantado?
Que orações terão dito?
Que versos terão de clamado?
Quantas vezes a Deus terão bendito?
Quantas vezes a Deus magnificado?
Isabel e Maria... Como terá sido?
Como esse tempo terá passado?
Quantas noites de sono bem dormido?
Quantas de sonho acordado?
Ansiosas, terão emagrecido?
Encantadas, terão engordado?
Que coisas, nesse tempo, terão lido?
A quem terão visitado?
Quem as terá conhecido?
Terão com quem conversado?
Quem é que terá merecido
Esse agrado?
Com que gentes terão tido
Contato?
Quem soube do acontecido
E a quem terá revelado?
Que tantas coisas terão sentido?
Por que outras tantas terão passado?
Como terão convivido
Maria e Isabel, lado a lado?
Dois ventres pelo Espírito Santo concebidos...
Dois ventres absolutamente sem pecado...
Maria e o apoio do seu marido...
Isabel e o filho tão desejado...
Que coisas terão vivido?
Que coisas terão falado?
Que coisas terão permitido?
Que coisas terão recusado?
O que terá havido
Por aqueles lados?
O que as montanhas de Judá terão sabido?
O que as montanhas de Judá terão guardado?
Adaptação para estilo poético da "Oração de Natal" do volume "Um poema para o Natal", publicado em 2005 pela Editora Scortecci.
I
Recorda a Humanidade, neste dia
Os fatos que cercaram tua chegada:
O Anjo anunciando-te à Maria,
José quando acolheu a sua amada
De Nazaré a Belém, tua romaria,
Onde não havia vaga na pousada,
O teu nascimento numa estrebaria,
A manjedoura, tua primeira morada...
Recorda a Humanidade, entre louvores,
Os Anjos anunciando-te aos pastores,
Os magos e Herodes, a adoração e o medo...
Recorda a Humanidade nessa hora
Os primeiros movimentos da tua estória
Imensa e encantadora desde cedo...
II
Desde aqueles dias
Já se vão dois mil anos...
Do mesmo modo
Como os pastores,
Aqui estamos...
Soubemos da Boa Nova
E aqui viemos
Como fizeram os pastores
Há dois mil anos...
E, como os pastores,
Nós nos sabemos
Pobres seres humanos,
Nada possuímos
Nem trazemos,
Como os pastores
Há dois mil anos...
Não viemos,
Como os pastores,
Tão logo e assim que soubemos...
Nós nos atrasamos...
Mas aqui estamos
Na tua presença e,
Por tão pequenos,
Silenciamos...
E assim, orando,
Nós nos ajoelhamos,
Como os pastores
Nós nos alegramos,
Como os pastores
Há dois mil anos...
III
E aqui estamos de mãos vazias...
O que intencionávamos trazer perdemos
Com companhias, com teorias,
Com coisas que valiam menos...
E aqui estamos. Não trazemos nada.
O que tínhamos ficou pelo caminho.
Nós nos dispersamos pela caminhada
E caminhamos em desalinho...
E aqui estamos. Nada trazemos.
Nem mirra, nem ouro e nem incenso...
Pelo caminho nós os perdemos
E nos restou esse vazio imenso...
E aqui estamos. Nós nos dispersamos.
Nós nos atrasamos. Mas aqui viemos.
Já se passaram mais de dois mil anos
E ainda não aprendemos...
Aqui estamos. Ajoelhados.
De mãos vazias. Em pensamento.
Aqui estamos, muito cansados,
Diante do teu nascimento.
IV
O ouro que traríamos,
Valioso,
Peça imponente,
Belíssima cor,
Recebeu tantas ofertas
Nesses dias
Que o trocamos
Sem nenhum pudor
Por bugigangas,
Quinquilharias,
Sem garantias,
Coisas sem valor:
Bijouterias,
Peças sem valia,
Pedras sem brilho
E sem nenhum teor...
Gastamos todo
Com ninharias,
Trocamos,
Demos
E esquecemos
De repor...
Hoje não temos
Mais do que a lembrança
Do que já tivemos
E, alem disso,
Dor...
E porque gastamos,
E porque perdemos,
Comportamo-nos
Como o mau pastor
Que se descuida
Do que seria
Para cuidar
Como bom cuidador...
Aqui estamos
De mãos vazias,
Nada mais temos,
Nada nos restou...
De mãos vazias
Aqui estamos...
Vazios
Na presença
Do Senhor...
V
O aroma leve de um suave incenso
Nós preparamos para trazer.
Aspecto doce, odor delicado,
Especificamente preparado
Para o menino que viemos ver.
Foi quando ate aqui, pelo caminho,
Outros aromas doces conhecemos,
Por outros cheiros nos atraímos,
Outras essências sentimos,
Outras fragrâncias colhemos
E o aroma leve do incenso suave
Que preparamos foi se perdendo
E como a água quando escorre pelo ralo
Já não nos é possível agora identificá-lo...
_O que é que andamos fazendo?
Por outros cheiros nos seduzimos,
Outros perfumes vulgares,
Azedos, acres, fáceis, sedutores,
Odores oferecidos, maus odores,
Dezenas e centenas e milhares...
E assim o símbolo de tua espiritualidade
Contaminamos em nossa caminhada...
Estúpidos condutores, e descuidados,
E incautos, fomos contaminados
E hoje trazemos a alma infectada...
E o aroma suave do incenso doce
Já não possuímos nesse momento...
Envolve-nos, Senhor, com tua essência,
Ajoelhados, na tua presença,
Reverenciando teu nascimento...
VI
A mirra, preparamos com carinho
E embalamos cuidadosamente...
O sofrimento é parte do caminho...
A dor é sempre presente...
Mas dono de um cuidado tão mesquinho,
De um jeito tão displicente,
Bastou o primeiro copo de vinho
E o primeiro gole amargo de aguardente
E a mirra a derramamos e a perdemos,
A dor embriagada dói bem menos...
Desrespeitamos teu sofrimento...
E hoje aqui, não mais tão embriagados,
Postamos-nos diante de ti, ajoelhados,
Diante do teu nascimento...
VII
Submersos em trevas e isolados,
Por desacertos nos conduzimos...
Enfraquecidos, tolos, derrotados
Que a nós mesmos nos destruímos...
A sombra, como semente alimentada,
Cresceu e se espalhou, erva daninha...
A Humanidade quedou-se, acinzentada,
Perdeu o rumo, perdeu a linha...
O desafeto e o desamor, unidos,
Tornaram-se gestos diários
Que os homens fracos e os distraídos
Trataram como comportamentos necessários...
E assim, do desamor nasceram a usura,
A ira torpe, a falta de perdão,
O ódio entre a criatura e a criatura
E a rudeza do coração...
Mísseis cruzando os céus, caças insanos,
Botões dizimando nações sem piedade,
Homens selvagens, seres humanos
Vestidos de pura bestialidade...
A morte provocada pela guerra,
O lucro à custa da crueldade,
A sombra assustadora sobre a Terra
Ameaçando a Humanidade...
Flagelo. Fome. Miséria. Medo.
Terror. Suspeita. Desamparo. Dor.
O homem que vive entre feras desde cedo
Fica contaminado por esse horror.
A que chegamos... Não sobrou nada.
Nenhuma luz. Só ódio. Só discórdia.
E uma Humanidade necessitada
Da tua infinita Misericórdia.
E longe dela, ai de nós pelo que somos.
Pelo caminho ruim que caminhamos.
Pelo que fizemos. Pelo que fomos
E pelo muito que erramos.
Longe da tua Misericórdia, nada.
Ranger de dentes. Choro. Fome. Frio.
A tua Misericórdia é a luz da nossa estrada,
Cesto de peixe que nunca está vazio...
Aqui estamos, pois. Muito cansados.
Já não suportamos tanto sofrimento.
Aqui estamos, ajoelhados,
Diante do teu nascimento.
VIII
Mas é Natal, e assim,
Ecos dos Anjos
Ainda fazem-se ouvir
Em seu Louvor...
Ecos que anunciam
A Boa Nova:
_Eis que hoje vos nasceu
O Salvador.
Eis que é Natal.
E as vozes dos Anjos vibram.
Cânticos de Anjos
Em Legião
Dizendo:
_Hosana... Nasceu Jesus,
Alegrai, pois,
Vosso coração...
Eis que é Natal
E, por ai, pastores
Ainda se alegram
Com a anunciação...
Vibram e falam
Uns para os outros,
E alguns se postam
Em oração...
Que delicado
O cântico dos Anjos,
Escuta-se ao longe
Um trecho seu:
_Gloria a Deus nas alturas
E paz na Terra...
Jesus nasceu...
Santificada essa Boa Nova,
Iluminada essa hora
Como a esperança que se renova:
Toda alegria
Ao mesmo tempo
Agora...
É terna e pura a luz da tua estrela,
Silenciosa e serena,
E vê quem tem olhos de ver seu brilho,
Como quem entende um poema...
Acolhedora a tua manjedoura,
Tão pouco e ao mesmo tempo tanto, tanto...
Impressionantemente acolhedora
Como se fosse teu manto...
Suave e belo o significado
Da tua mensagem de amor,
Ao mesmo tempo imenso, delicado
E inexplicavelmente acolhedor...
Simples pastores por companhia,
Delicadeza, naturalidade...
De onde trouxeram tanta alegria
E tanta felicidade?
E a musica que cantam, como um coro
De varias vozes e grande harmonia,
Como quem cuida um tesouro,
Como se fossem os próprios José e Maria?
A musica que cantam... Que serena...
Retalhos inteiros feitos de paz...
Encantador recordar esta cena
Dos teus primeiros Natais...
E a gruta acolhedora, teu resguardo...
A manjedoura... Nenhuma ostentação...
Nem luz, nem brilho e, no entanto, nenhum fardo...
Nenhuma pena... Nenhum senão...
A gruta, feita de simplicidade...
Nenhum Palácio significa tanto...
Não há vestígios de suntuosidade,
Há, sim, sinais de que é um lugar santo...
IX
E dois mil longos anos se passaram...
Aqueles que, como nós, te conheceram,
Durante esse tempo se desviaram
E após tantos desvios se perderam...
E em dois mil longos anos que afastaram
Da tua presença os que viram e não creram,
Multiplicaram-se os que te negaram,
Espalharam-se os que não te receberam...
E dois mil anos não foram bastante
Para que nós chegássemos aqui diante
De ti como em outra época Simeão...
Os nossos olhos, endurecidos,
Envoltos em trevas, escurecidos,
Ainda não compreenderam a tua lição...
X
Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo,
Caminho, verdade, vida,
Recebe nossa alma vazia nessa hora,
Pela tua Misericórdia, estremecida...
E permanece nosso pensamento assim:
Magnificado e em lagrimas submergido...
Deixamos lá fora as sandálias, o pó ruim,
Trazemos o pensamento enternecido,
Exatasiado com tua singeleza,
Complexa, imensa e cheia de verdade,
Admirados com a força gigantesca
Da tua aparente fragilidade...
Trazemos, humilhado,
O coração cansado,
Trazemos, destruído,
O coração sofrido,
Trazemos, derrotado,
O coração errado,
Trazemos, combalido,
O coração doído...
XI
Insufla nossa boca
Com teu sopro santo,
Fazendo-a cheia
Das palavras de Simeão:
Podemos partir,
Desde agora,
Porque nossos olhos
Viram
A salvação...
XII
Senhor Jesus,
Feliz Natal.
Nos Céus
Os Anjos
Dizem:
_Amém...
Cantando:
_Glória a Deus nas alturas
E Paz na Terra
Aos homens
A quem ele quer bem...
Que assim seja...
16.2.07
Para minha amiga Carla Brasil
Longe é um lugar que não existe,
Mas se existisse eu ia lá te ver,
Brincar e correr pra nunca te ver triste
E inventar mil coisas pra fazer:
Catar coquinho, pentear macaco,
Amolar o bode, ir passear na esquina,
Levar-te até a praia pra cavar um buraco
Que nos levasse até a China...
Longe é um lugar aqui bem pertinho...
Pega uma estrada, vai até Carinho,
Mais uma curva e chegamos na Emoção...
Longe é um lugar? E fica aonde?
Não sei, mas se é por lá que tu te escondes,
Longe é um pedaço do meu Coração...
15.2.07
Para Maria Ninha que em seu www.fotolog.com/maria_ninha declara: Cansei!!!! O Amor que me encontre...
Cansou?
O amor que te encontre?
Eu nunca tinha lido assim
Algo tão certo...
E acredite,
Maria Ninha,
Quando o julgamos longe
Ele está perto...
Se achamos que ele foi
Pro Paquistão
Ele nos chega
Em forma de um cartão,
Se o vemos
Lindo
Num buque de flores,
É mais provavel
Que esteja
Já
Em Açores...
Então voce tá certa...
Não procure.
O que é seu tá guardado
(diz o povo)...
E ainda que demore,
Custe,
Dure,
Ele te encontra...
E eis Maria Ninha
De amor novo...
14.2.07
Homenagem aos familiares do pequeno João Hélio Fernandes, recebido por Deus na sua grandeza, como um Anjo...
Porque João era um Anjo...
Imensa é a dor quando é da despedida,
A dor das "alegrias nunca mais"...
O fim da luz... A morte... O fim da vida...
A dor dilacerante... A dor sem paz...
Imensa é a dor... Profunda... Comovida...
Perder um anjo por modos tão brutais...
Sem piedade, a vida subtraida
Por bestas apocalipticas tão boçais...
Imensa a dor que dilacera o peito
A dor que não dá tregua e não tem jeito
A dor imensa que não quer passar...
Imensa a dor...E o coração, estreito,
Como se houvesse inda algo pra ser feito,
Encontra forças pra continuar...
9.2.07
A poesia, palavra dada,
Depois de lida, som que nao tem dono,
Depois de escrita, moça sem morada,
Sonho sem rumo que nao tem sono...
A poesia, escrava libertada,
Rainha que escapou do próprio trono,
Intensa, feito coisa desejada,
Definitiva, feito o abandono...
A poesia, terra sem fronteiras,
Palavra dita de várias maneiras
Tentando o mesmo significado...
E assim, sem dono, absoluta e boa,
Ave ligeira e soberana, voa,
Letra sem trava, cancela sem cadeado...
20.1.07
(20 de janeiro, aniversário de nascimento de meu pai, Sebastião Clóvis Tavares)
Olha por nós, teus filhos reincidentes,
Desaprendizes da tua lição,
Teimosos, errados, renitentes,
Mas filhos do teu coração...
Olha por nós, Pai, filhos carentes,
Que nos soltamos da tua mão...
Perdidos, como alunos repetentes,
Desarvorados, náufragos sem chão...
Ilhados das próprias enchentes,
Levados pelas correntes
Que levam os brincalhões sem atenção,
Pouco a pouco tornamo-nos doentes...
Fica conosco, filhos inconseqüentes,
Derrama sobre nós tua proteção...
13.11.06
A Poesia passeando pela Feira,
Lendo poemas, por distração,
Colhendo um livro na prateleira,
Folheando um outro, sobre o balcão...
Suavemente passeadeira
A Poesia, pelo Calçadão,
Como se fosse um verso de Bandeira
Ou Vinicius dedilhando um violão...
A Feira de Livros de Porto Alegre
Desatenta, não percebe
A Poesia visitando a Exposição...
A delicada Poesia que passeia
Maravilhosa, como a Lua Cheia,
Vertendo versos do coração...
3.11.06
Os que partiram desta vida e, com saudade,
Deixaram os seus queridos nesta vida,
E caminharam para a eternidade
Apos essa aparente despedida,
E assim seguindo para outra realidade,
Transformando-se em recordacao querida,
Ao experimentarem a imortalidade
Nessa jornada sem volta e sem saida
Vivem agora alem do pensamento
E seguem, caminhando vida adentro,
Filhos da Grande Lei que nos governa...
E permanecem, para alem, vivendo,
E de algum modo compreendem que morrendo
E que se vive para a vida eterna...
31.10.06
Ela é Mariana, a que não é Marina,
(Quem confundiu Marina com Mariana?)
Tão bela assim, quem ve logo imagina
Que ela é carioca... Mas é paulistana...
Ela é Mariana. Vive Medicina.
Nem sabe mais o que é fim de semana.
Sorriso calmo, aparencia fina,
E quase loura... Mas isso é filigrana...
Mariana, a que parece uma menina,
O mesmo nome ela tem da minha prima,
A mesma delicadeza da minha mana...
Ela é Mariana, a transbordar rima
Com a sutileza da ocitocina
E a perfeição dos versos de Quintana...
17.10.06
(Para Alberto Santos Dumont)
_O homem voa?
_Voa...
_Voa nada...
O homem foi feito pra caminhada,
Pisar a terra,
Passear no chão.
Voar é próprio pra passarada,
Voar é coisa pro gavião...
Dizer que o homem voa é coisa errada,
Coisa completamente sem noção.
_O homem voa?
_Voa...
_Que tolice...
Quem foi que disse
Que o homem é de voar?
Se não tem asas, mas pés de andar na terra,
Como é que poderia, ele, alcançar
As nuvens distraídas sobre a serra
E os pássaros que passeiam sobre o mar?
Por não ter duas asas
Mas duas pernas,
Tudo que o homem sabe
E pode é andar.
_ O homem voa?
_Voa..
_Voa não....
Só nas histórias da imaginação,
Só nos delírios da fantasia,
Porque sem asas, com que condição?
Porque sem elas, como poderia?
Voar é coisa de contos de ficção,
Palavra criada pra escrever poesia,
Por isso quem tentou, tentou em vão
Por isso é que ninguém conseguiria...
_ O homem voa?
_Voa...
E o menino não percebia,
Mas enquanto ele respondia, decolava,
Possivelmente porque enquanto respondia
Trazia um coração que volitava
Levando o menino, que por isso já sabia
Desde quando ninguém ainda sonhava....
O coração do menino era o seu guia
E o menino ia para onde o coração levava..
“O homem voa?” E o menino respondia
“Voa” à pergunta que o professor perguntava.
Não era ali o menino o que aprendia
Posto que era o menino o que ensinava.
_O homem voa?
_Voa
Naquela hora
Daquele dia
Já desde ali o homem então voava...
(Para minha amiga Val)
Ah,
Eu seria capaz,
Como seria,
De fazer versos sem rima
Tentando fazer poesia,
De ir a China
Atrás de uma guria,
De assoviar
E ao mesmo tempo
Chupar cana,
Mas acredite:
Absolutamente incapaz
De resistir
A um verso de Quintana...
Seria capaz de cantar
Musica chilena,
Musica gauchesca,
Mil balalaikas,
Musica cubana...
De ir acampar no Alasca,
De passar o mes sem grana,
Seria capaz,
Eu juro
De beber chimarrão puro
(ai que drama)
Mas
Jamais
De resistir
A um verso de Quintana...
Seria sim
Capaz
De falar de amamentação
E me esquecer
De como é
Que um bebe mama...
Seria capaz
De dar plantão
Em fim de semana,
De matar aula
E achar isso bacana,
De beber uma Skol
E achar que bebi uma Brahma...
Mas quem te disse
Que eu resisto
A um verso
De Quintana?
14.10.06
Quando um poema é mal dedicado
E o seu destinatário o desmerece inteiro,
E o que era doce torna-se salgado
E o que era aromático, sem cheiro,
E se o que foi carinhosamente preparado
Como se fosse um exótico tempero
Torna-se azedo, destemperado
E de aspecto ruim, feito um atoleiro,
Então é necessário ao poema errado
Mais que imediatamente ser trocado
Como quem troca de cela um prisioneiro,
E enquanto um novo poema é rabiscado,
Verso nenhum é melhor que um mal versado
Até que um verso novo e um novo herdeiro...
13.10.06
20.9.06
Durante as 1001 atracoes do IX ENAM tive o prazer inominado de conhecer e conversar com Fernanda Sa, Enfermeira e Fotografa do Aleitamento que tem a capacidade impar de colher emocoes em sua maquina.Fiquei de escrever um poema para algumas de suas fotos, mas de forma diferente do que mira e clica, o que pensa e escreve acaba frente a frente com um texto que nao planejara...Esta e uma homenagem a Fernanda Sa, tecnica, e a sua tecnica fotografica e a seu poder de nos encantar...:)
A perfeição da técnica fotográfica
Sob a visão da técnica obstétrica.
A Enfermeira por trás da maquina,
A sensibilidade muito mais que a técnica...
A técnica apurada como tática,
Como se a foto tivesse rima e métrica,
E a Enfermeira, cuja foto matemática
Revela-se belíssima e poética...
A Enfermeira e a fotografia,
Ciência amamentada com poesia
Materializando técnica e paixão...
A técnica fotográfica apurada,
A Enfermeira, técnica iluminada,
E esse soneto por contemplação...
14.8.06
10.8.06
Para os amigos Gabriela e Mário...
Mãos que atravessam a vida se entregando,
E se doando, E se oferecendo,
Sem se importar com o como, o onde, o quando,
Ou se o que entregam é o que vão perdendo...
Mãos sempre abertas, nunca se fechando,
E assim, abertas, sempre crescendo,
E quanto maiores, mais vão se dando,
Alheias ao que alguns outros vão dizendo...
Mãos sempre abertas porque não tem medo
De darem-se inteiramente e desde cedo,
Por não saberem outra felicidade...
Que Deus as permaneça sempre assim
Nessa semeadura que é sem fim
E as abençoe por toda a eternidade...
21.7.06
A rima rica, ostentadora rima,
É como a rima pobre e maltrapilha
Tem do poeta a mesma grande estima
Assim como é o amor de pai pra filha.
E, sendo assim, tanto faz clima com lima,
Ou, de outra forma, Emilia com matilha,
A rima é sempre superior, pra cima,
E imprevisivel, como uma armadilha...
E tanto faz se ela é rica, ostentadora,
Ou pobre a rima, moça sonhadora,
Nascida nas elites ou no gueto,
A rima é feito o fio da meada,
É o que da vida à palavra dada,
Mãe generosa pra qualquer soneto...
Eu sempre adiciono quem conheço
Quem não conheço, também, de vez em quando
E embora tudo na vida tenha um preço
Não cobro nada para ir adicionando...
E assim eu adiciono. É um bom começo
O resto é só depois que vai brotando.
É como a vida: começa pelo berço
E o tempo ensina a seguir engatinhando.
Por isso mesmo eu sempre adiciono
Quem não quer ser maior nem mais nem dono
Quem fala a língua da simplicidade.
Eu sempre adiciono assim, então:
Sinceridade, a única condição.
Eu planto aqui sementes de amizade
20.7.06
Amigo. Sempre bom te-lo por perto,
Como uma escora, como uma canoa,
Como uma concha dágua no deserto,
Como um pedaço bom da fruta boa,
Amigo. Sempre um reforço certo
Nunca é qualquer coisinha ou coisa à toa...
Suavidade feita de concreto,
É um bem estar pra qualquer pessoa...
Amigo. É sempre bom traze-lo junto
De cada dia, foto, verso, mail, assunto,
De cada hora ruim de despedida...
Amigo. A endorfina para a dor do corte,
A vida que resiste além da morte,
Delicadeza para toda vida...
14.7.06
Eu já não tenho mais meu coração,
Perdi-o para sempre para a eternidade.
No lugar dele, um corte, um arranhão,
E alguns sinais profundos de amizade...
Ja tive um dia. Tenho mais não.
No lugar dele, a saudade,
As marcas de gratidão e ingratidão,
E uns restos de boa e má vontade...
Já tive um dia. Perdi. Não tenho mais.
Meu coração preferiu deixar-me em paz
E o que guardei pra mim já não doi tanto...
Hoje, em silencio, da minha escotilha,
Caminho pelos versos de Cecilia:
Não sou alegre. Não sou triste. Sou poeta. Eu canto.
5.7.06
16.6.06
7.6.06
Naco do tempo onde tudo é pertmitido,
Sentença onde qualquer delito é perdoado,
Alivio pra todo amor desiludido,
Descanso pra todo mal inconformado,
Peça de pano pra qualquer vestido,
Tecido próprio pra qualquer bordado,
Lápis de cor pra qualquer colorido,
Agua de rio pra qualquer pescado,
A madrugada. Mãe de toda tribo.
Negociação sem recibo.
A indulgencia pra todo pecado.
A madrugada. Teor não traduzido
Onde todo significado faz sentido,
Onde qualquer sentido é relevado...
A poesia às vezes sai de perto
Tornando-se inalcançável, a poesia...
Como uma gota d' água no deserto,
Como uma serpentina na folia...
Afasta-se sem dar obediencia
E some como num passe de magia
Deixando um vazio, uma ausencia,
Uma palavra em que ninguém confia...
E assim comporta-se a poesia, às vezes...
E esse sumiço pode durar meses
Ou alguns dias ou toda a eternidade...
A poesia às vezes evapora
Como um brilhante jogado fora
Deixando o poeta em dificuldade...
1.6.06
Às vezes cruel como o corte de uma espada,
Às vezes lenta, feito uma goteira,
Às vezes matematicamente calculada,
Às vezes subita, como a ratoeira,
Às vezes como coisa inadequada,
Às vezes como a carta derradeira,
Às vezes como a dor da punhalada,
Às vezes como a graça da roseira,
A morte... Quase sempre inesperada,
Como um buraco na estrada,
A polpa podre no melhor da pera...
A morte. Sempre a unica culpada...
Visita assustadora e indesejada...
Mas não podia ser de outra maneira...
Por esta, frio, insegurança, medo,
Por esta outra, flagelação...
Passando aquela, um ingreme rochedo
Como a gritar-me um estrondoso não...
Aquela ali, facil como um brinquedo...
Aquela outra, como um arranhão...
Por uma, angustia, solidão, degredo,
Por outra, noite, cor de carvão...
A porta. Às vezes escancarada.
A porta. Às vezes muito bem trancada
Limitando os espaços da minha vida...
A porta. A carta certa embaralhada,
Como uma senha codificada...
Apenas uma porta de saida.
21.5.06
A rima é o piercing no umbiguinho na palavra,
É o brinco de ouro na orelhinha da Princesa,
É a outra voz dentro da mesma oitava,
Não é o Pato com laranja. É a sobremesa.
É a ponte entre Itaipu e Itaipava,
É o que dá vida ao verso, e ligeireza,
E outra profundidade à poça rasa,
E empresta à podridão delicadeza...
A rima é a gota exata do tempero,
É o Redentor pro Rio de Janeiro,
É Dorival Caymmi pra Bahia...
É como o drible de Garrincha, a rima,
Não é o Mapa do Tesouro. É a Mina...
A rima é a sístole da poesia.
19.5.06
17.5.06
De pele clara como um nevoeiro,
De voz suave como uma balada,
De pensamento ligeiro
E deliciosa risada,
Tijucana do Rio de Janeiro
Sempre discreta, lucida e delicada,
Parecia pertencer ao mundo inteiro
Aquela minha amiga mais amada...
Um dia a minha amiga, pele clara,
Discreta, delicada, suave, rara,
Seguiu viagem... Foi morar no Céu...
"Eu te amo para sempre", amiga pura,
Mistura de saudade com ternura...
Fica com Deus, Izabel...
Às vezes a poesia, companheira,
Permanece em silencio do meu lado
Como se fosse, umas vezes, minha esteira,
Como se fosse, outras vezes, meu estrado.
Calada e ao mesmo tempo faladeira,
Fonte sem fim do meu palavreado,
A poesia, incansável conselheira,
Minha Arca do Tesouro sem cadeado...
Que outro amigo ama assim dessa maneira,
O tempo inteiro, pela vida inteira,
Integralmente e o tempo inteiro dado?
A poesia, amiga verdadeira
Como uma Guarda Costeira
Por quem eu vou, pra sempre, acompanhado...
11.5.06
A poesia volta, vez em quando,
Discretamente, a me provocar,
Como um zumbido, um pingo de chuva,
Uma goteira a pingar,
Discretamente, vez em quando, volta,
Como quem sente medo de acabar,
E faz um verso desses, sem motivo,
E em tudo ve um motivo de rimar...
E volta sempre, a mesma poesia
Como a manhã que volta a cada dia,
Como um pedaço de cachoeira.
Que volte sempre então. Que sempre venha
Imponderável, como é a ordenha,
Eterna, ainda que apenas passageira...
9.5.06
Às vezes a poesia, brincalhona,
Brincando de fazer versos sem sentido,
Busca palavras como prednisolona
Só para agradar nosso ouvido,
E rima Chico Buarque com Madonna,
Ou, sem razão, rajada com rugido...
E ri, como quem curte da poltrona
Da sala o seu seriado preferido...
Esmera-se, essas vezes, em ser nada
Similando o ziriguidum da batucada
Que agrada mas não tem significação...
A poesia por pura brincadeira,
Batucada de ritmos passageira
Sem dolo, sem disfarce e sem perdão...
8.5.06
Às vezes a poesia, estabanada,
E absolutamente sem cuidado,
Desenha a rima errada, a letra errada,
O verso errado, o soneto errado...
Talvez por se sentir imunizada,
Rima sem dolo, ritmo sem pecado,
Palavra livre, forma liberada,
Sem culpa por seu verso mais ousado...
A poesia, às vezes, sem limites,
Como quem não precisa de convites,
Diz o que quer, sem perceber se agrada...
E segue, imune, a poesia, a tudo,
Usando o proprio verso como escudo,
E a rima como marca imaculada...
3.5.06
Às vezes a poesia, disfarçada,
Dissimulada, vem me visitar...
E vem assim, como uma convidada
Que não precisa de convite para entrar...
E sem convite, a poesia, dada,
Como se fosse a dona do lugar,
Segura a minha mão encabulada
Fazendo o verso da mão escorregar...
Às vezes a poesia, de mansinho,
Como quem faz um carinho,
Enrosca-se na folha de papel
E deita, e dorme a poesia, assim,
Que disfarçada, às vezes chega a mim
Como uma gota de mel...
Às vezes a poesia me alimenta
Como se fosse fonte de energia...
Palavra integra que me sustenta
E me faz companhia...
E me resguarda do mal que tenta
Asfixiar-me em espasmos de agonia...
Às vezes a poesia me orienta
Imunizando-me dessa asfixia...
Às vezes a poesia, barulhenta,
Incomodada, não se contenta
Em ser somente letra muda e fria...
Escapa da palavra e me acalenta
E cuida, como governanta atenta,
Da minha vida inteira, a poesia...
2.5.06
Às vezes a poesia, letra lúcida,
Vem de onde eu não sei onde me acudir.
Conhece o que eu não ousaria perceber
Percebe o que eu não imaginaria pressentir
E as coisas todas que eu jamais diria
Nem arriscaria assumir
Pegam carona na poesia e saem
Espalhando coerências por ai...
Às vezes a poesia, letra lírica,
Banha em seu éter a palavra histérica
Tornando doce toda amargura...
A poesia, lúcida e precisa,
Segue alinhando tufão e brisa
E rascunhando a morte com doçura...
24.4.06
(título de meu próximo livro)
Sonetos completamente sem maldade,
Palavras absolutamente distraídas,
Frases inteiras sem leviandade
Que quase se dissolvem quando lidas...
Versos de rimas sem complexidade
Matematicamente distribuídas
Como se fossem rios, sem alarde,
Irrigando e mantendo nossas vidas...
Sonetos feito quase de ternuras,
Olhos abertos, mãos puras,
Palavras puras, puro coração...
E outros poemas, igualmente ingênuos,
Às vezes até demais, outras bem menos,
Letras escritas quase nunca em vão...
29.3.06
De que adianta ao homem ter dinheiro,
Falar dificil, vestir-se bem,
Andar de carro importado o ano inteiro,
Ter sempre mais que o seu vizinho tem,
De que adianta ao homem Faculdade,
Falar Ingles, ir conhecer a Espanha,
Viver a vida sem dificuldade,
Ganhar bem mais que o seu vizinho ganha,
De que adianta colecionar tanto
E um belo dia, pra seu espanto,
Sentir-se mergulhado em solidão?
De que adianta tanto ouro e linho
E um belo dia acordar sozinho
E perceber tão pobre o coração?
24.3.06
6.2.06
Faz tempo a poesia foi-se embora
Deixando sozinho meu coração...
Levou suas rimas, aquela senhora,
A poesia, sem compaixão...
E foi-se como quem não se demora,
Como quem vai ali comprar um pão,
E quando alcança o mundo que há la fora
Segue adiante, quer voltar mais não...
Faz tempo a poesia bateu asas
Tornando meus rios poços de águas rasas,
Tornando quase tudo solidão...
Hoje eu espero um sinal, que ela apareça
Numa tarde qualquer de alguma terça,
Como um adubo alimentando o chão...
22.1.06
Faz algum tempo que eu não faço um verso,
Que eu não escrevo alguma poesia...
Se meu nome fosse sangue, por certo
Eu me chamaria anemia...
Porque faz tempo que eu não consigo
Fazer como até um tempo atrás eu ainda fazia:
Um verso pra cada motivo,
Um motivo qualquer pra cada dia...
Faz tempo que eu já não escrevo nada,
Faz tempo que a poesia vai, calada,
Silenciando meu coração...
Por isso essa palavra improvisada,
Resto de letra, eu creio, inconformada
Por tanto tempo sob essa condição...
30.12.05
Felicidade sempre.
Mesmo quando rala,
Quando longe,
Quando triste,
Mesmo quando a gente
Acha que não existe,
Felicidade sempre,
Vitaminada,
Purpurinada,
Reluzente,
Trazendo um Ano Novo
So pra gente,
E ainda que isso seja só poesia,
E ainda hoje em dia
Todo dia seja igual
A todo dia,
E ainda que a felicidade
Esteja ausente,
Eu te desejo sempre
Felicidade,
E sempre,
Porque a felicidade
É geralmente
Persistente,
Reticente,
Paciente,
Coerente
E intermitente...
Portanto,
Experimente
Simpresmente
Felicidade
Que é uma vez
E é para sempre...
9.12.05
O coração é assim:
Desatinado,
Desinibido,
Descontraido,
Desabalado...
Às vezes crê no que não faz sentido...
Às vezes foge pelo lado errado...
Às vezes morre da flexa de um cupido...
Às vezes foge de um anjo alado...
O coração é assim:
Às vezes julga-se um senhor sabido...
Às vezes sente-se um pobre coitado...
O coração é assim:
Inesgotável,
Mágico,
Indefinido...
Eternamente
Desconcertado...
5.12.05
Ao escutar, dia desses, Chopin, recordei-me da minha infancia, da minha mãe ao piano, de como eu era feliz...
E chorei...
O piano Essenfelder na sala da frente
Da nossa casa, na Rua Benta Pereira,
Tocando Chopin delicadamente...
A minha mãe, assim, dessa maneira,
Ao piano da sala, docemente,
Por dedicação ou por brincadeira
Tocava Chopin pra gente
Na nossa casa, por nossa infancia inteira...
Noturnos clareando aqueles dias,
Berceuses como se fossem poesias,
Todos os sabados pela manhã...
O piano na sala e, delicado,
O coração da minha mãe, emocionado,
Ouvindo a minha mãe tocar Chopin...