18.2.14

O facebook

Tudo que você faz o facebook sabe,
Tudo que você pensa, tudo que você diz,
Se você está morto, se você está grave,
Se você está infeliz, se está feliz,

Se você está caidinho de saudade,
Se está em Guarus, se está em Paris,
Se está mentindo, se está falando a verdade,
Se está ouvindo uma musica de Elis,

Tudo que você faz o facebook conta,
Se você dá duro, se você apronta,
O facebook é pop: não poupa ninguém...

Até as coisas que você duvida
O facebook sai postando da sua vida,
Detalhes que nem o Barack Obama tem...

A Lei de Deus

O prematuro que não consegue respirar,
A gestante que morre na entrada do Hospital,
O operário que despenca do nono andar,
A modelo que é derrotada pelo tumor cerebral,

O empresário que acaba de se matar,
A família inteira levada pelo temporal,
O moço que não resiste à overdose ao se drogar,
O bebê que não acha vaga numa UTI Neonatal,

E a Lei de Deus, sem defeitos, sem rasuras,
Vai se cumprindo entre dores e amarguras,
Entre lamentos, lágrimas e feridas,

E embora às vezes nos confundindo,
Segue, intocada e pura, se cumprindo,
Dando outro significado às despedidas...

12.2.14

Por isso...

Porque é sábado cedinho, como agora,
Porque não tenho mais  nada pra escrever,
Porque ainda não chegou a minha hora,
Porque eu não sei outra maneira de dizer,

Porque daqui a pouco estou indo embora,
Muito bebê na UTI pra ver,
E eu nem reclamo, porque senão piora,
Bebê é um bichinho que não para de nascer,

Porque faz parte do meu dia a dia
Esse habito de tentar dizer poesia
Feita de coisas que ninguém presta atenção,

Porque é assim, e eu já estou acostumado
A escrever certo, a viver errado,
E a rabiscar o que vem do coração...

O sono perdido

Quem sabe um livro o encontra pra você?
Quem sabe um filme na televisão?
Quem sabe um mail que você precisa responder?
Quem sabe um cadinho de dedilhar violão?

Quem sabe alguma coisa pra comer:
Bolo, biscoito, torrada, café com pão?
Quem sabe um sonetinho pra escrever?
Quem sabe um golinho de conhaque de alcatrão?

Relaxa, porque se você perdeu o sono,
Quem sabe não seja você seu verdadeiro dono,
E essa coisa de dormir já não te pertença mais?

Então fica frio, escreve, inventa, brinca e deita:
Também é pra isso que a madrugada foi feita...
Cai dentro, relaxa, aproveita e dorme em paz...

31.1.14

Dias

Tem dias que são fáceis como um brinquedo,
Tem dias que são tensos como um furacão,
Outros difíceis, como guardar segredo,
Outros comuns, como como comer feijão,

Tem dias turvos que viram noite cedo,
Tem dias repletos de medo e solidão,
Tem dias acres, de sabor azedo,
Tem dias leves feito bolhas de sabão,

Dias alternando tristezas e alegrias,
Dias piores e melhores dias,
Dias inteiros para aprender

Que a vida é feita assim, aos pedacinhos,
E entre caminhos e descaminhos
É preciso ser forte pra viver...

Resiliencia

Você tomba e levanta, cai e cresce,
E volta da dor de alma fortalecida,
A gente é bem maior do que conhece,
A vida surpreende a própria vida.

É como se por dentro cada dor tivesse
Uma força de tamanho sem medida
Que brota sempre que a dor aparece
Como se já estivesse ali escondida...

Você tomba e levanta, e reanima,
E o que era à sua volta arraso e ruina
Parece aos poucos capaz de transformar

Tristeza e desespero em dor curada,
E dor curada em alma transformada,
E transformada, pronta pra continuar...

24.1.14

Tolice

Ninguém é o dono do que supõe possuir,
Do que presume, por tolice, ter,
O verdadeiro dono um dia vem pedir,
E a gente necessariamente vai ter que devolver.

Ninguém precisa mais que se vestir,
Que ter onde dormir e o que comer,
Tolice guardar o que é pra dividir,
Tentar trancar o que não nasceu pra ser,

E não me venha com recibos, atestados...
Escrituras são papéis equivocados,
Ninguém é o dono de absolutamente nada aqui.

A gente só usa. Um dia a vida toma.
Ninguém é o dono. A vida é a única dona.
Tolice discordar ou resistir...

30.12.13

Despedidas

Tem dias que os plantões são despedida
Porque a vida quer sempre continuar,
E por que quer continuar, a vida
Convida de vez em quando a gente pra mudar,
 
E quando chega o dia da partida
Bate aquela vontade apertada de ficar.
Saudade às vezes é um beco sem saída
Tentando fazer o coração voltar...

Mas tem plantões assim que não tem jeito:
A razão não mora dentro do peito,
E às vezes ela sabe bem melhor mandar...

Plantões de despedida. Inevitáveis.
Como se fossemos copinhos descartáveis
Que pensam-se capazes de caber o mar...

Poema de Ano Novo

2013 já vai indo embora,
2014 tentando se chegar,
2013 fica triste e chora,
2014 querendo se assanhar,

2013 já pôs um pé pro lado de fora,
2014 tá pedindo para entrar,
2013 tá percebendo sua hora,
2014 tá desejando começar...

2013 acabando, quem diria,
E se indo assim, ao som da poesia,
Como se estivesse desistindo de morrer...

2014, porque o tempo não para,
Querendo mostrar pra gente a sua cara,
Como um bebê doidinho pra nascer...

21.12.13

Poema de Natal


Poema de Natal

Transcrição para a linguagem da poesia da “Oração de Natal”, publicada originalmente em “Um poema para o Natal”,

I
Recorda a Humanidade, neste dia
Os fatos que cercaram Tua chegada:
O Anjo anunciando-Te a Maria,
José quando acolheu a sua amada.
De Nazaré a Belém, Tua romaria,
Onde não havia vaga na pousada,
O Teu nascimento numa estrebaria,
A manjedoura, Tua primeira morada...
Recorda a Humanidade, entre louvores,
Os Anjos anunciando-Te aos pastores,
Os magos e Herodes, a adoração e o medo...
Recorda a Humanidade nessa hora
Os primeiros movimentos da Tua história
Imensa e encantadora desde cedo...
 
II
Desde aqueles dias
Já se vão dois mil anos...
Do mesmo modo
Como os pastores,
Aqui estamos...
Soubemos da Boa Nova
E aqui viemos
Como fizeram os pastores
Há dois mil anos...
E, como os pastores,
Nós nos sabemos
Pobres seres humanos,
Nada possuímos
Nem trazemos,
Como os pastores
Há dois mil anos...
Não viemos,
Como os pastores,
Tão logo e assim que soubemos...
Nós nos atrasamos...
Mas aqui estamos
Na Tua presença e,
Por tão pequenos,
Silenciamos...
E assim, orando,
Nós nos ajoelhamos,
Como os pastores
Nós nos alegramos,
Como os pastores
Há dois mil anos...
 
III
E aqui estamos de mãos vazias...
O que intencionávamos trazer perdemos
Com companhias, com teorias,
Com coisas que valiam menos...
E aqui estamos.
Não trazemos nada.
O que tínhamos ficou pelo caminho.
Nós nos dispersamos pela caminhada
E caminhamos em desalinho...
E aqui estamos. Nada trazemos.
Nem mirra, nem ouro e nem incenso...
Pelo caminho nós os perdemos
E nos restou esse vazio imenso...
E aqui estamos.
Nós nos dispersamos.
Nós nos atrasamos.
Mas aqui viemos.
Já se passaram mais de dois mil anos
E ainda não aprendemos...
Aqui estamos.
Ajoelhados.
De mãos vazias.
Em pensamento.
Aqui estamos, muito cansados,
Diante do Teu nascimento.
 
IV
O ouro que traríamos,
Valioso,
Peça imponente,
Belíssima cor,
Recebeu tantas ofertas Nesses dias
Que o trocamos
Sem nenhum pudor
Por bugigangas,
Quinquilharias,
Sem garantias,
Coisas sem valor:
Bijuterias,
Peças sem valia,
Pedras sem brilho
E sem nenhum teor...
Gastamos todo Com ninharias,
Trocamos,
Demos
E esquecemos De repor...
Hoje não temos
Mais do que a lembrança
Do que já tivemos
E, além disso,
Dor...
E porque gastamos,
E porque perdemos,
Comportamo-nos
Como o mau pastor
Que se descuida
Do que seria
Para cuidar
Como bom cuidador...
Aqui estamos
De mãos vazias,
Nada mais temos,
Nada nos restou...
De mãos vazias
Aqui estamos...
Vazios
Na presença Do Senhor...
 
V
O aroma leve de um suave incenso
Nós preparamos para trazer.
Aspecto doce, odor delicado,
Especificamente preparado
Para o menino que viemos ver.
Foi quando até aqui, pelo caminho,
Outros aromas doces conhecemos,
Por outros cheiros nos atraímos,
Outras essências sentimos,
Outras fragrâncias colhemos
E o aroma leve do incenso suave
Que preparamos foi se perdendo
E como a água quando escorre pelo ralo
Já não nos é possível agora identificá-lo...
_O que é que andamos fazendo?
Por outros cheiros nos seduzimos,
Outros perfumes vulgares,
Azedos, acres, fáceis, sedutores,
Odores oferecidos, maus odores,
Dezenas e centenas e milhares...
E assim o símbolo de tua espiritualidade
Contaminamos em nossa caminhada...
Estúpidos condutores, e descuidados,
E incautos, fomos contaminados
E hoje trazemos a alma infectada...
E o aroma suave do incenso doce
Já não possuímos nesse momento...
Envolve-nos, Senhor, com tua essência,
Ajoelhados, na Tua presença,
Reverenciando Teu nascimento...
 
VI
A mirra, preparamos com carinho
E embalamos cuidadosamente...
O sofrimento é parte do caminho...
A dor é sempre presente...
Mas donos de um cuidado tão mesquinho,
De um jeito tão displicente,
Bastou o primeiro copo de vinho
E o primeiro gole amargo de aguardente,
E a mirra a derramamos e a perdemos,
A dor embriagada dói bem menos...
Desrespeitamos Teu sofrimento...
E hoje aqui, não mais tão embriagados,
Postamo-nos diante de Ti, ajoelhados,
Diante do Teu nascimento...
 
VII
Submersos em trevas e isolados,
Por desacertos nos conduzimos...
Enfraquecidos, tolos, derrotados
Que a nós mesmos nos destruímos...
A sombra, como semente alimentada,
Cresceu e se espalhou, erva daninha...
A Humanidade quedou-se, acinzentada,
Perdeu o rumo, perdeu a linha...
O desafeto e o desamor, unidos,
Tornaram-se gestos diários
Que os homens fracos e os distraídos
Trataram como comportamentos necessários...
E assim, do desamor nasceram a usura,
A ira torpe, a falta de perdão,
O ódio entre a criatura e a criatura
E a rudeza do coração...
Mísseis cruzando os céus, caças insanos,
Botões dizimando nações sem piedade,
Homens selvagens, seres humanos
Vestidos de pura bestialidade...
A morte provocada pela guerra,
O lucro à custa da crueldade,
A sombra assustadora sobre a Terra
Ameaçando a Humanidade...
Flagelo.
Fome.
Miséria.
Medo.
Terror.
Suspeita.
Desamparo.
Dor.
O homem que vive entre feras desde cedo
Fica contaminado por esse horror.
A que chegamos...
Não sobrou nada.
Nenhuma luz.
Só ódio.
Só discórdia.
E uma Humanidade necessitada
Da Tua infinita Misericórdia.
E longe dela, ai de nós pelo que somos.
Pelo caminho ruim que caminhamos.
Pelo que fizemos.
Pelo que fomos
E pelo muito que erramos.
Longe da Tua Misericórdia, nada.
Ranger de dentes.
Choro.
Fome.
Frio.
A Tua Misericórdia é a luz da nossa estrada,
Cesto de peixe que nunca está vazio...
Aqui estamos, pois. Muito cansados.
Já não suportamos tanto sofrimento.
Aqui estamos, ajoelhados,
Diante do Teu nascimento.
 
VIII
Mas é Natal, e assim,
Ecos dos Anjos
Ainda fazem-se ouvir
Em Seu Louvor...
Ecos que anunciam
A Boa Nova:
 _Eis que hoje vos nasceu O Salvador.
Eis que é Natal.
E as vozes dos Anjos vibram.
Cânticos de Anjos
Em Legião
Dizendo:
 _Hosana...
Nasceu Jesus,
Alegrai, pois,
Vosso coração...
Eis que é Natal
E, por aí, pastores
Ainda se alegram
Com a anunciação...
Vibram e falam
Uns para os outros,
E alguns se postam Em oração...
Que delicado
O cântico dos Anjos,
Escuta-se ao longe
Um trecho seu:
_Glória a Deus nas alturas
E paz na Terra...
Jesus nasceu...
Santificada essa Boa Nova,
Iluminada essa hora
Como a esperança que se renova:
Toda alegria
Ao mesmo tempo
Agora...
É terna e pura a luz da Tua estrela,
Silenciosa e serena,
E vê quem tem olhos de ver seu brilho,
Como quem entende um poema...
Acolhedora a Tua manjedoura,
Tão pouco e ao mesmo tempo tanto, tanto... Impressionantemente acolhedora
Como se fosse Teu manto...
Suave e belo o significado
Da Tua mensagem de amor,
Ao mesmo tempo imenso, delicado
E inexplicavelmente acolhedor...
Simples pastores por companhia,
Delicadeza, naturalidade...
De onde trouxeram tanta alegria
E tanta felicidade?
E a música que cantam, como um coro
De várias vozes e grande harmonia?
Como quem cuida um tesouro,
Como se fossem os próprios José e Maria...
A música que cantam... Que serena...
Retalhos inteiros feitos de paz...
Encantador recordar esta cena
Dos Teus primeiros Natais...
E a gruta acolhedora, Teu resguardo...
A manjedoura... Nenhuma ostentação...
Nem luz, nem brilho e, no entanto, nenhum fardo...
Nenhuma pena... Nenhum senão...
A gruta, feita de simplicidade...
Nenhum palácio significa tanto...
Não há vestígios de suntuosidade,
Há, sim, sinais de que é um lugar santo...
 
IX
E dois mil longos anos se passaram...
Aqueles que, como nós, Te conheceram,
Durante esse tempo se desviaram
E após tantos desvios se perderam...
E em dois mil longos anos que afastaram
Da Tua presença os que viram e não creram,
Multiplicaram-se os que Te negaram,
Espalharam-se os que não Te receberam...
E dois mil anos não foram bastante
Para que nós chegássemos aqui diante
De Ti como em outra época Simeão...
Os nossos olhos, endurecidos,
Envoltos em trevas, escurecidos,
Ainda não compreenderam a Tua lição...
  
X
Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo,
Caminho, Verdade, Vida,
Recebe nossa alma vazia nessa hora,
Pela Tua Misericórdia, estremecida...
E permanece nosso pensamento assim:
Magnificado e em lágrimas submergido...
Deixamos lá fora as sandálias, o pó ruim,
Trazemos o pensamento enternecido,
Extasiado com Tua singeleza,
Complexa, imensa e cheia de verdade,
Admirados com a força gigantesca
Da Tua aparente fragilidade...
Trazemos, humilhado,
O coração cansado,
Trazemos, destruído,
O coração sofrido,
Trazemos, derrotado,
O coração errado,
Trazemos, combalido,
O coração doído...
 
XI
Insufla nossa boca
Com Teu sopro santo,
Fazendo-a cheia
Das palavras de Simeão:
Podemos partir,
Desde agora,
Porque nossos olhos
Viram A salvação...
 
XII
Senhor Jesus,
Feliz Natal!
Nos Céus Os Anjos Dizem: _Amém...
Cantando:
_Glória a Deus nas alturas
E Paz na Terra
Aos homens
A quem Ele quer bem...
 
 
Que assim seja...

O Pai Compassivo

 I

A casa de meu pai

 

A casa de meu pai: apoio e abrigo,
Abrigo e cuidado, cuidado e acolhimento,
Proteção contra toda sorte de perigo,
Alivio para todo desconforto e sofrimento...
 
A casa de meu pai, meu bom amigo,
Meu conselheiro para todo momento,
Meu mapa de separar o joio do trigo,
Minha respiração, meu alimento...
 
A casa de meu pai, a brisa, a vinha,
A que também era a casa que era minha,
E mais do que minha casa, minha escora,
 
A casa de meu pai, minha garantia,
A casa que deixei para trás um dia,
Em que sem olhar para trás eu fui-me embora...
 
II
A partida

Meu pai, dá-me parte dos bens que me toca, eu pedi,
Dá-me parte, eu pedi, e meu pai me atendeu,
Dá-me parte dos bens, eu vou partir,
E meu pai me entregou o que chamei de meu...
 
Não tentou, o meu pai, me fazer desistir,
Não tentou me diminuir, não se escondeu,
Repartiu o que tinha e me deixou seguir,
E o que eu pedi a meu pai, meu pai me deu...
 
E assim, nesse dia, abastecido
Da minha parte que eu havia recebido,
Foi que eu deixei para trás a casa de meu pai,
 
Que me atendeu, quem sabe, inconformado,
E me viu partir com minha parte e meu pecado,
E seguir pra onde o pecado chama e vai...
 
III
A gastança
 
Longe de casa, num país distante,
Após dias e dias viajando,
Tudo me parecia interessante,
E de casa coisa que eu via ia gostando...
 
E, fascinado por aqueles dias,
Tudo se me apresentava impressionante:
As casas, as coisas, as companhias,
As experiências desconcertantes,
 
E como fossem dias sem limites,
Sem regras ou normas para obedecer,
Eu fui aceitando, aqui e ali, convites,
E as coisas começaram a acontecer:
 
Os bens que eu trouxe comigo fui gastando
Com coisas, gentes e lugares sem pensar,
Eu ia me divertindo e ia gostando,
E quanto mais eu gastava mais queria gastar
 
Com hábitos, com roupas, coisas divertidas,
O mundo parecia feito só para mim,
Experiências até então para mim desconhecidas,
Um mundo diferente do mundo de onde eu vim.
 
Foi quando então, nesse país distante,
A grande fome chegou, sem que eu notasse,
Arrastando esse longínquo viajante
Como se me consumisse e me secasse,
 
E nessa hora, sem que eu percebesse,
Eu já não tinha mais bens para gastar,
Eu não evitei que isso acontecesse,
Estava ali, muito longe do meu lar...
 
E as coisas e os dias de fartura e as gentes,
Como num passe de mágica, sumiram,
E os novos dias chegaram diferentes,
E foram de dor os dias que se seguiram...
 
E as experiências que me aconteceram,
Amigos que me pareciam tão reais,
Da mesma forma que vieram, desapareceram,
Deixando as festas para nunca mais...
 
E desde ali nunca mais os rostos novos,
E desde ali nunca mais festas e vinhos,
As roupas, as comidas, os convites, os jogos,
E desde ali, definitivamente, outros caminhos...
 
IV
A miséria
 
Vieram os dias difíceis,
De não ter o que comer,
De não ter o que vestir,
De não ter o que beber,
 
Os dias de dor imensa,
Os dias de danação,
De mal estar, de doença,
De frio, de solidão,
 
Os dias de gosto azedo,
Os dias de desamor,
Da morte em vida, do medo,
Da vida feita de dor,
 
Vieram os dias de fome,
Vieram os dias sem pão,
De comer o que um porco come,
Repartindo o mesmo chão,
 
Exalando o mesmo cheiro,
Dormindo no mesmo lixo,
Valendo o mesmo dinheiro,
Parecendo o mesmo bicho,
 
Vieram os dias escuros,
Os dias de dor, mais nada,
Dias longos, dias duros,
Da alma cair, cansada,
 
Da alma desesperada,
Da alma morta de dor,
Da alma mortalizada,
Os dias de acre sabor...
 
Foi quando nessa hora, em desespero,
E por absoluta falta de opção,
Fechei meus olhos,
E sem pensar em mais nada,
Ouvi a voz do meu coração...
 
V
A culpa
 
E nessa hora eu decidi retornar,
Permanecer daquele modo era um pouco morrer,
Foi assim que eu encontrei forças para recomeçar,
Foi assim que eu encontrei forças para entender
 
Que eu pequei contra Deus, eu sei, sem hesitar,
E diante de meu pai, e isso me fez sofrer,
E foi necessário eu sofrer para eu me encontrar,
E eu me encontrar para eu me arrepender...
 
Entendi que não era mais digno de ser chamado
De filho do meu pai por ter pecado,
E que era preciso, ainda assim, voltar,
 
Se não como um filho, como um empregado,
E receber novamente de meu pai seu cuidado,
Seu calor, seu carinho e as bênçãos do seu lar...
 
VI
O retorno
 
Assim,
Comecei minha longa viagem de volta
Deixando para trás aqueles tristes dias,
E fui levando comigo quase nada
Além da alma cansada, machucada,
Arrependida, e minhas mãos vazias.
 
E a longa viagem de volta, solitária,
Era a viagem de volta para o meu inicio,
E a cada passo crescia a ansiedade,
E agora o que mais me doía era a saudade...
Partir ou retornar: o que era mais difícil?
 
E eu vinha, ainda longe e bem distante,
Quando meu pai me viu e se encheu de compaixão,
E veio até a mim, meu pai, correndo,
E me beijou, e me abraçou, me recebendo,
E me acolhendo com seu coração.
 
Não me pediu que eu explicasse nada,
Não exigiu que eu implorasse o seu perdão,
Mas antes mesmo que eu o visse, ele, me vendo,
Alegrou seu coração, compreendendo,
No meu retorno a minha condição.
 
Foi quando eu disse:
Pai
Pequei contra o Céu e diante de ti.
Já não sou digno de ser chamado teu filho.
 
E como se ele não me escutasse,
Ou como se escutasse e não devesse,
Ou como quem simplesmente me interrompesse
E não me ouvisse,
Ordenou a seus servos que trouxessem
A melhor roupa e imediatamente me vestissem,
E me pusessem
Anéis nos dedos,
Sandálias nos pés,
E preparassem
O novilho cevado,
E que comêssemos,
E que regozijássemos,
Porque seu filho
Estava morto e viveu,
Estava perdido esse filho
E foi achado...
Então todos se alegraram,
E dançaram,
E sorriram,
E todos naquela hora festejaram,
E todos naquela hora cantaram,
E todos naquela hora comeram,
E todos naquela hora sorriram...
 
Mas ainda assim eu sabia,
E olhando para o meu pai, me repetia:
Eu pequei contra o céu e diante de ti e não sou digno de ser chamado teu filho,
Por ter pecado,
Por ter partido,
Por ter errado
E justamente por isso, ter sofrido,
Por ter abandonado a casa do meu pai,
Por conta disso quase me destruído,
Por ter deixado o apoio do meu lado
Pra tomar um caminho por mim mesmo escolhido...
 
E ainda hoje
Apesar do retorno,
Apesar da mudança,
Apesar do perdão,
Apesar do meu pai,
Homem bom, compassivo,
E apesar do tamanho
Da tua compaixão,
Ainda hoje
Essas palavras acompanham minha vida
Como uma frase nunca esquecida,
Como se fossem para minha vida um estribilho:
Pai, eu pequei contra o céu e diante de ti e não sou digno de ser chamado teu filho...
 
 
VII
O meu irmão
 
Algum tempo depois,
O meu irmão chegando
Em casa após passar o dia trabalhando,
Ao perceber que eu havia retornado
E por isso a festa que meu pai estava dando,
Ficou indignado,
E não queria entrar em casa, contrariado,
E disse ao meu pai em tom bastante magoado:
 
Permaneci do seu lado,
Não me afastei de sua companhia,
Dei duro, trabalhei sério e pesado,
Dedicando meu tempo ao trabalho dia a dia,
Nenhuma ordem sua eu transgredi,
Bem antes disso, obedeci e servi,
E quase que nem acredito,
Nunca ganhei nem a carne de um cabrito,
Nem alegria
Ou comemoração,
Enquanto esse meu irmão mais novo desajuizado,
Depois de ter se comportado tão errado,
Depois de ter se afastado,
Sumido,
Pecado,
Esse irmão descuidado recebe uma festa,
Com musica e dança e o novilho cevado...
 
E dizendo isso, calou-se, decepcionado...
 
E meu pai,
Sempre sereno e com convicção
Respondeu dessa forma ao meu irmão:
 
Filho,
Estás comigo,
Tudo o que é meu é teu,
O alimento,
O conforto,
A casa,
O campo,
A musica,
A alegria,
Tudo que é meu, acredite,
Até mesmo o novilho cevado que morreu,
Mas teu irmão,
Ele não,
Teu irmão estava morto e reviveu,
Teu irmão estava perdido e foi achado,
Teu irmão desgarrado se arrependeu,
E agora já não está mais desgarrado,
Tudo que eu tenho, meu filho, é teu,
E nada do que é teu te foi tomado,
Mas teu irmão estava morto e reviveu,
Teu irmão estava perdido e foi achado...
 
VIII
O que aprendi
 
Mais certo que o fundo do poço é o reinicio,
Maior do que a estupidez humana é o amor do pai,
Mais importante que a queda é o recomeço,
Mais forte que o pecado é a compaixão,
 
Mais firme que o medo será sempre a luz,
Que o desespero, sempre a esperança,
Maior que a perdição é o mapa do caminho,
Mais certo que a dor, a reparação...
 
Mais forte que a insensatez e que o pecado,
Que o desrespeito, o erro, o desalinho,
A treva, a obscuridade, a danação,
 
Mais forte é o amor do pai quando perdoa,
Mais forte é a força do perdão do pai que ama,
O pai compassivo transbordando compaixão...

19.12.13

Preparação

Viver aos poucos, pausadamente,
Viver sem pressa de terminar,
Viver sem precisar sem como a enchente,
Viver sem necessariamente transbordar,

Como uma veia de rio que segue em frente
Na esperança vã de ver o mar,
Viver sem precisar atropeladamente,
Viver com calma, como um menino a brincar,

Porque um dia, quando não se espera,
A vida chama a gente pra outra esfera,
E quem fica, fica sem saber o que fazer,

Por isso, viver a vida como um exercício
Às vezes muito fácil, às vezes mais difícil,
Para o dia quando já não poderemos ser...