15.10.12

Aos meus professores

Aos meus professores que me ensinaram
A necessidade incessante de aprender,
Aos que insistiram e nunca me deixaram,
Aos que evitaram que eu pudesse me perder,

Aos meus professores que nunca se cansaram
Desde os dias em que aprendi a ler,
Aos que me corrigiram quando me reprovaram,
Aos que me mostraram os caminhos de crescer,

Aos meus professores pelo tudo que fizeram,
Aos meus professores pelas notas que me deram,
Aos que me concederam perceber...

Aos meus professores, pelo que me permitiram,
Aos meus professores, porque não desistiram,
Aos guardiões do saber,

Minha poesia...

14.10.12

A mesma coisa

O que a maioria escreve normalmente,
Eu normalmente escrevo rimando,
Não penso muito, escrevo naturalmente,
E a poesia, naturalmente, vai gostando,

E eu não escrevo a palavra dissidente,
Mas a mesma palavra, só que combinando
A palavra de trás com a palavra da frente
Como se elas estivessem se abraçando.

O que eu escrevo é o que a maioria escreve,
A rima é que faz parecer mais leve,
Mas não há palavra ou significado diferente,

E embora a prosa seja esmagadora maioria,
Eu permaneço fiel à poesia,
Que é como a prosa, só que é mais saliente...

13.10.12

Verborragia

Às vezes eu tento escrever poesia,
Na maior parte das vezes sem saber como começar,
O poema é uma compra sem garantia
Feita por quem não sabe se vai ter como pagar.

Às vezes eu tento, já virou mania,
E sigo. Deixo a letra me levar:
Uma caneta, uma página vazia,
Um tempo livre, e eu começo a rabiscar...

Às vezes o poema sai como eu queria,
Outras, me envolve em sua verborragia
Antes que eu possa perceber ou concordar,

Por isso quase sempre eu nunca sei quem cria
O poema: se eu, que assumo sua autoria,
Ou essa força que eu não consigo controlar...

29.9.12

O tempo

Já não me resta tanto tempo pela frente,
Por isso, devo evitar, daqui pra diante,
Fazer besteiras, como fazia antigamente,
Contar vantagens, como se fosse um gigante,

Já não me resta tanto tempo, e, certamente,
O tempo esgota-se numa velocidade impressionante,
Devo tentar acertar mais que errar, pacientemente,
Tornando a vida assim mais interessante...
 
O tempo vai se esgotando, e eu, percebendo,
Devo errar menos, acertar mais, porque entendo
Que o tempo das irresponsabilidades já passou...
 
Quem sabe agindo assim vou aprendendo
A recuperar o tempo que andei perdendo
E a honrar o tempo que a vida me emprestou...

26.9.12

A rima (resposta a Carol)


Ao ler o poema A Rima (VI) no face, Carol me pergunta no seu comentário: "Para onde vai?"
Então, Carol, pra você a resposta:

Quem sabe Carol? Ela é autônoma e impulsiva,
E não gosta de dar satisfação a ninguém.
A rima é assim, extremamente criativa,
Vem pra cá, vai pra lá, desaparece além,

Por isso, Carol, é como uma água viva,
Que não queima e, pelo contrario, só faz bem,
Mas que do mesmo modo é subversiva,
E imprevisível, como choro de neném...

As vezes fica o tempo todo do seu lado,
E na hora que você tá mais precisado
A rima voa em pensamento pro Japão...

Por isso Carol, pra onde vai? Adivinha...
A rima é um trem que escreve a própria linha...
A rima é assim como é o coração...

A rima (VI)

Pra onde vai a rima quando distante?
Pra onde vai a a rima quando ausente?
Visitando um poema mais interessante?
Descansando numa banheira de água quente?

Pra onde vai a rima, espirito viajante,
Depois que desaparece da minha frente?
Conhecendo os cenários do inferno de Dante?
Banhando-se ao sol vermelho do oriente?

Por onde passeia? Por que poemas?
Por que Copacabanas e Ipanemas?
Com que significados? Com que nome?

Pra onde vai a rima depois de usada?
Rimar com que palavra nunca dantes navegada?
Pra onde vai a rima quando some?



25.9.12

A rima (V)

A rima tentou conversar, eu nem vi,
Eu nem prestei atenção,
A rima veio atrás de mim, nem percebi,
Deixando a rima com a cara no chão,

A rima insistiu e pediu, eu não ouvi,
Pra que eu deixasse ela falar, mas não,
Eu fui extremamente deselegante e dai
Que a rima foi-se embora. Que situação.

Agora eu fico aqui, verso isolado,
Com medo de me sentir abandonado:
Fazer versos sem rimas não tem graça nenhuma...

Da próxima vez vou ficar mais esperto
E cuidar bem da rima pra te-la por perto,
Fazendo de tudo pra que ela não suma...

A rima (IV)


Ta vendo, rima? Você vai embora
E olha o soneto como é que fica:
"Parece um moleque desengonçado",
Nem fica parecendo poesia...

Por isso é que eu peço: fica por perto,
Passargada sem rima é um areal...
Sem rima o poema às vezes quase acerta,
Mas no final alguma coisa engasga...

Agora sim, eu não disse? Coisa boa...
Já to me sentindo até outra pessoa...
Voce é demais, rima... Impressionante...

Viu como tudo com você da certo?
Viu como é bom ter você por perto?
Viu como o soneto fica elegante?

24.9.12

A rima (III)


Ta vendo rima como eu tenho razão?
Tudo se ajeita quando você colabora,
A poesia abre um baita sorrisão,
A esquisitice enrustida vai embora...

Ta vendo porque eu faço tanta questão
De ter você por perto, como agora?
Voce é assim, não tem complicação.
Decide o jogo. Faz gol na hora.

Que bom contar com você nos meus sonetos,
Nos meus versos brancos, nos meus versos pretos,
Que bom amiga, quando você está...

Obrigado por temperar minhas poesias,
Obrigado por estas pequenas alegrias
Maiores do que você pode imaginar...

A rima (II)


Confessa-me, rima, fala a verdade:
Tu bem que gostas quando eu vou te procurar.
É nessa hora que tu te escondes com vontade,
Deixando-me um dia inteiro a te esperar.

Tu bem que gostas de me causar dificuldade,
Tornando improvável acontecer de eu te encontrar,
Tu me provocas e somes, pura maldade,
E se eu fico aflito, tu pareces gostar...

Tudo bem, eu entendo. Tudo bem, eu aceito.
É teu temperamento. Ninguém é perfeito.
Mas saibas que eu te adoro mesmo assim:

Fugidia, provocadora, irreverente,
Autoritária, decididamente,
Mas que eu não quero longe de mim...

23.9.12

A rima

Ei, rima, me diz: cade voce?
Onde é que, fugitiva, foi parar?
Por que é que voce ta tentando se esconder?
Por que demora tanto a se mostrar?

Ei, rima, pode aparecer...
Aparece, pra gente poder brincar...
Eu sei que voce deve ter muito o que fazer,
É normal, eu sei, às vezes, se atrasar...

Mas rima, concorde comigo: tá na hora,
Porque o soneto, quando voce demora,
Fica tentando um meio de escapar...

Então chega logo, carissima senhora...
Ou eu termino esse soneto agora
Ou voce vai conseguir me atrapalhar...

Meu fim de semana

Meu fim de semana eu que faço acontecer,
Às vezes cai sábado, outras vezes, terça feira,
Às vezes demora um mês pra aparecer,
Outras vezes dura uma semana inteira,

Por vezes chega sem eu perceber,
De vez em quando, só depois de uma canseira,
Nem sempre é o mesmo, adora se esconder,
Meu fim de semana é assim dessa maneira,

Às vezes cai num fim de semana, outras não,
Às vezes a quinta é que é meu domingão,
Por isso eu vivo sem me preocupar...

Porque meu fim de semana pode ser qualquer dia,
Felicidade é assim: a gente cria
E arruma um jeito dela nunca se acabar...

20.9.12

O homem feliz

Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz
Maiakovski

Eu vi um homem feliz dias atras,
Não tinha cultura, não tinha dinheiro,
Mas com sua felicidade era capaz
De tentar fazer feliz o mundo inteiro...

Eu vi um homem feliz. Feliz demais.
Não lembro se em Campos ou no Rio de Janeiro.
Falava palavras de calma e paz
Porque era um homem feliz e verdadeiro...

Eu vi um homem feliz, faz alguns dias,
Não escondia suas alegrias,
Ao invés disso, as distribuía por ai...

Eu vi um homem feliz e necessário,
Pena que um homem raro e não um homem diário,
Eu vi um homem feliz, que bom que eu vi...



Tenta, garoto...

Tenta, garoto, rabiscar poesia,
Rimar cotia com tia mais um dia, tenta,
Porque rimando assim, cotia com tia,
É assim que a poesia se reinventa...

Por isso tenta, garoto, mais um dia,
Essa poesia que de alguma forma te sustenta,
Deixa que a rima tua alma guia,
Relaxa e confia, garoto, e experimenta...

A poesia, papel sem garantia...
Viagem longa sem companhia...
Talvez por isso pouca gente aguenta...

A poesia que nunca se esvazia...
Tenta, garoto, é pura regalia
Tentar a poesia que nunca se contenta...

O primeiro soneto

Primeiro soneto após a ambulatório...
Sobre o que eu escrevo, pra começar?
Não vou falar de febre ou de supositório,
Palavras assim não são pra poemar...

Primeiro soneto. Aciono meu sensório.
Algumas idéias começam a chegar.
O poema é o que dá vida ao ilusório
Que usa o poema para se encarnar...

Primeiro soneto. Difícil esse primeiro.
Comporta-se como um estranho forasteiro
Que não conhece bem como chegar...

Primeiro soneto. Que bom quando termina...
E essa descarga de ocitocina...
Soneto pronto. Pode relaxar...

Manhã de ambulatório

Passei a manhã inteira atendendo,
Miíase, escabiose, tosse, conjuntivite,
Criança a balde, criança que só vendo,
Criança a rodo, quase sem limite,

Criança espirrando, criança gemendo,
Criança que engoliu uma ponta de grafite,
Criança chorando, criança correndo,
Um formigueiro de crianças, acredite,

Passei a manhã inteira receitando...
Tanta criança doente precisando,
E eu precisando de alguém pra me ajudar...

O turno acaba. Hora de ir embora.
Não tem criança nenhuma mais lá fora...
Tá liberado, Doutor. Pode ir rimar...

13.9.12

Treze milhões

A OMS calcula a existência treze milhões de nascimentos prematuros a cada ano no planeta...

Somos treze milhões de almas apressadas,
Nascidas antes do tempo que era pra ser,

Treze milhões de alguma forma condenadas,
Um numero que não para de crescer,

Somos treze milhões de almas deportadas
Para um cárcere de onde não se vê o sol nascer,
Longe dos braços das nossas mães, desconsoladas,
Com medo do que nos possa acontecer...

Treze milhões de almas aprisionadas
Em casas de acrílico padronizadas,
Sozinhas, entristecidas de tanto sofrer...

Somos treze milhões de almas cansadas,
Precisando demais ser abraçadas,
Treze milhões querendo tanto viver...

10.9.12

Nada


Nada é tão grande que não precise crescer,
Nada é tão puro que não necessite filtrar...
É uma questão de amadurecer...
É uma questão de necessitar...

Nada é tão fácil que não se precise aprender,
Nem tão difícil que não se consiga estudar...
Tudo na vida é uma questão de querer...
Tudo na vida é uma questão de sonhar...

É amanhã o tempo de colher,
Se o ontem foi o tempo de querer fazer,
O hoje é a hora de se semear...

É tudo uma questão de perceber,
De “não esmorecer para não desmerecer”,
Nada é tão pronto que não se possa mudar..." 

2.9.12

É como se deve...


A frase nunca sai escrita errado
Quando é escrita com o coração,
Nada sai feio ou desarrumado,
Nada necessita de correção,

Não existe acento mal colocado,
Ponto estragando a pontuação,
Erro nenhum, nem termo inapropriado,
Pra mim é assim. Tem defeito não.

E se quem escreve bem, corretamente,
E enquanto escreve impecavelmente
Não tira da alma nada do que escreve,

Ainda que sem erros de gramatica,
Escreve letra moribunda e apática...
É o coração que torna a vida leve...

É o coração que escreve sem pecados,
Sem erros nem termos inadequados,
O coração... É assim que a gente deve...

16.8.12

Logo eu...


To tão feliz... E nem sei por que...
Não to apaixonado, não ganhei na loteria,
To rindo a toa, mesmo sem entender,
Uma forma qualquer de idiopatia...

To tão feliz, mesmo sem compreender
A causa dessa felicidade que me asfixia...
Não fui sorteado, não sai na TV,
E ainda falta tanto pra minha aposentadoria...

Mas to feliz... E se fico preocupado,
É que a felicidade às vezes deixa a gente abobado,
E incomoda demais os mal humorados...

Mas to feliz, e pronto. Muito feliz. E ponto.
E é tanta felicidade que nem te conto...
E logo eu, tão cheio de pecados...

A poesia

A poesia de madrugada,
A poesia quando o sono vai embora,
A poesia bem comportada,
A poesia, trem que não demora...

A poesia, às vezes van lotada,
As vezes moça que jura que me adora,
As vezes melhora, as vezes tão sem nada
Que nem adianta insistir senão piora...

A poesia madrugadeira...
Madrugadas assim dessa maneira
Nem se parecem com madrugadas...

A poesia, boa companhia,
As vezes a unica, a poesia,
Que gosta de passear comigo de mãos dadas...

A poesia

A poesia, visita distraída,
Não marca dia nem hora pra chegar,
Às vezes, mal chega e já está de saída,
Outras vezes nem pede licença pra entrar...

Às vezes, como uma mulher desinibida,
Fala de coisas que ninguém pediu pra ela falar,
Outras vezes, silenciosa, retraída,
Demora a dizer, não diz sem pensar...

A poesia, cofre sem segredo,
A poesia, e talvez seu único medo:
O de um dia não ter mais por onde se expressar...

Visita distraída, a poesia,
Inesperada, sem som nem garantia,
Que às vezes chega e me chama pra brincar... 

5.8.12

A minha mãe aos oitenta

Quando todo mundo se cansa, ela é quem segue,
E cresce a cada desafio que ela enfrenta,
Quando todo mundo desiste, ela consegue,
Quando todo mundo desaba, ela sustenta,
 
E quando todo mundo exige que ela negue,
Ela, ao contrario de toda gente, aguenta,
A sua fé faz com que ela não se entregue,
E minha mãe é assim, linda, aos oitenta:

Menina que sonha, que vive o que prega,
Menina que não se cansa e não sossega,
Que sabe como recarregar seu coração,

Menina aos oitenta, e cada vez mais menina,
Que aos oitenta auxilia, orienta, exemplifica e ensina,
Que aos oitenta faz da vida uma lição...
 

3.8.12

A mãe do mundo


A mãe coreana, a mãe tailandesa,
A mãe brasileira, a mãe americana,
A mãe nicaraguense, a mãe chinesa,
A mãe norueguesa, a mãe cubana,

A mãe espanhola, a mãe portuguesa,
A mãe argentina, a mãe peruana,
A mãe indiana, a mãe inglesa,
A mãe sudanesa, a mãe italiana,

A mãe que se entrega pacientemente,
A mãe que se dá silenciosamente,
A mãe que quase se esquece, se doando...

Que Deus a proteja, incondicionalmente,
Que Deus cuide dela pacientemente,
A mãe do mundo, serena, amamentando...

Desistência

Desisto de tentar compreender a espécie humana.
As vezes que tento vejo que tento em vão.
Eu devo possuir a alma insana,
A razão insana, insano o coração...

Desisto, prefiro um poema do Quintana,
Um show do Chico, um violão do João,
É muita estranha a minha espécie. E desumana.
Desisto de tentar explicação.

Espécie que se mata entre a fome africana
E a hipercolesterolemia americana
E não se define entre o marasmo e a indigestão...

Ah, pobre espécie infeliz que não me engana...
Desisto de compreende-la, doidivana,
Ah, pobre espécie em decomposição...

21.7.12

Prece para proteção contra os corruptos


Papai do Céu, protegei os cofres públicos
Das mãos desses meliantes saqueadores
Que dizem defender a lei, mas são corruptos,
Que dizem proteger a lei, mas são salteadores...

Protegei desses, Papai do Céu, que não tem escrúpulos,
Salafrários, covardes, malfeitores,
Protegei desses, Papai do Céu, homens estúpidos,
Que não tem limites nem travas nem pudores,

Protegei os cofres públicos dessa gente
Que anda por ai e, livremente,
Corrói as esperanças da nação...

Protegei os cofres públicos desses bandoleiros
Que vendem suas almas por trinta dinheiros,
Livrai-nos da sua sede de corrupção...

Que assim seja.

28.6.12

O passado, o futuro...

Repensar o passado, planejando o futuro
Como se não houvesse outra opção,
Construindo, com velhos erros, novos rumos...
Que seja essa nossa vocação...

Aprender com o passado a escrever o futuro,
Tornando os dois parte da mesma construção,
Descobrindo possibilidades nunca dantes...
Criando caminhos de SIM onde antes NÃO...

Repensar o passado, refazendo teorias,
Reavaliando protocolos, garantias,
Trazendo à luz novos referenciais...

Planejar um futuro respeitoso,
Para que o bebe de ontem torne-se o idoso
De um amanhã de mais luz e de mais paz...

25.6.12

Sem medidas

O médico é um fingidor,
Finge tão completamente
Que chega a fingir a dor
Nos casos da dor ausente,

Um fingidor compulsivo,
Que tenta inconscientemente
Buscar a cura fingida
Da morte quase aparente...

Um fingidor sem medidas
Que finge ter varias vidas
E finge isso tão bem

Que vive as vidas que finge
Como um tinteiro que tinge
A propria vida que tem...

16.6.12

Quem cuida das mães de UTI?


Quem cuida das mães de UTI
Que esperam por seus filhos, assustadas?
Quem toma-lhes as mãos, frágeis e tremulas?
Quem seca-lhes as lágrimas sentidas?
Quem abranda-lhes as feições apavoradas,
E as suas noites de sono mal dormidas,
E os seus dias inteiros, pensativas,
E as suas horas inteiras, angustiadas?

Quem cuida das mães de UTI
Que oram por suas crianças internadas?
Quem descobre seus medos escondidos?
Quem compreende suas culpas descabidas?
Quem dá voz às suas vozes paralisadas?
E os seus corações que mal se aguentam,
Quem ouve, quem entende, quantos tentam?
Quem dá colo a sua dor desfigurada?

Quem cuida das mães de UTI
Que sabem pensar em seus filhos e em mais nada?
Quem oferece-lhes repouso e abrigo?
Quem dá-lhes um pouco de paz e de agua fresca?
Quem torna suas esperanças renovadas?
Quem mostra-lhes que há luz por entre os sustos?
Quem observa essa suavidade dos seus rostos?
Quem doa seu tempo a essas mães despedaçadas?

Quem cuida das mães de UTI
Que decoram de seus filhos suas risadas?
Que caminham lento por entre monitores,
Que esbarram em incubadoras, distraídas,
Que aprendem palavras estranhas, pouco usadas,
Que tocam seus bebes em berços aquecidos,
Que enxergam detalhes quase despercebidos,
Que cultivam felicidades adiadas?

Quem cuida das mães de UTI
Que vivem pros seus filhos, agoniadas?
Quem explica sua força contagiante
Capaz de faze-las sorrir, mesmo se tristes,
Esperançando as horas arrasadas?
Quem cuida das mães de UTI, mães silenciosas,
Quem cuida das mães de UTI, mães preciosas,
Quem cuida das mães de UTI, mães extremadas?

7.6.12

Amamentar

Amamentar faz bem. O leite do peito
É alguma coisa que beira à perfeição.
Dificuldades? Pra tudo tem jeito...
Problemas? Pra tudo tem solução... 

Porque amamentar é um ato perfeito,
É muito mais do que oferecer alimentação,
É uma mistura entre o que é dever e o que é direito,
Entre o que esgota e o que traz satisfação...

 Amamentar é assim: traz alegrias,
Alimenta teses de Doutorado e poesias,
Faz mães felizes, bebes maravilhados...

Amamentar por dois anos, por mais de dois anos...
Amamentar, esse amor que não faz planos...
Esse paraíso livre de pecados...






3.6.12

O filho pródigo

Juntou o que era seu, tomou o que era seu,
Partiu levando o que conseguiu juntar,
Dissolutamente partiu... E se perdeu...
Arrependido, resolveu voltar...

A dor, nascida das coisas que viveu,
Das coisas que decidiu experimentar,
Foi a mesma dor que de tanto que doeu
Trouxe ele de volta, cansado, para o lar...

Juntou o que tinha e o que pensou que tinha
E quando chegou, destruido, ao fim da linha,
A unica coisa que tinha realmente foi buscar:

O amor paterno, que não se cansa,
O amor paterno que nunca descansa,
O amor, que nunca deixa de esperar...

12.5.12

Às Mães de UTI

Papai do Céu, toma conta das mães de UTI,
Cuida de aliviar seu sofrimento,
Faz com que nunca desistam de sorrir,
E traz para elas alivio e alento...

Papai do Céu, não as permita nunca desistir,
Faz da sua fé seu alimento,
Prepara seus corações para o que há de vir,
Envolve-as com ternura e acolhimento,

E abençoa suas vidas, Pai amado,
Que é uma só com a do filho internado
Esperando a cura, esperando a volta ao lar...

Cuida das mães de UTI, mães preciosas,
Cuida das mães de UTI, mães dolorosas,
Mães que precisam tanto de seu cuidar...

24.4.12

A poesia

A poesia sopra onde quer,
Não obedece hora nem lugar,
Não pertence ao homem, não é da mulher,
A poesia é de quem sabe escutar...

A poesia é livre, haja o que houver,
Nada a consegue calar,
Vive da forma e pelo tempo que quizer,
Escolhe o próprio tempo de acabar...

A poesia caminha sem fonteiras,
Entre improvisos e rimas faladeiras,
Entre paragrafos e descobertas...

Sopra onde quer e quer o inesperado,
Como um soneto que não estava programado,
Movimentando a vida dos poetas...

19.4.12

O silencio

(para o silencio de Carol)

Eu hoje não quero dizer de nada,
Preciso um pouco de me silenciar.
A voz, às vezes, é agua contaminada
Que a gente dá, sem querer, de se afogar.

Por isso prefiro assim: voz silenciada.
Às vezes é preciso silencio pra escutar.
A voz, usada demais, fica cansada,
E fala coisas que não eram pra falar...

Silencio então. A voz, quando calada,
É mais facil de ser ouvida que a falada
E as vezes mais simples de se interpretar...

Silencio. Como uma musica imaginada...
Silencio. Como uma criança amamentada.
Silencio. Como parar de respirar.

A segunda chance

(Arrependimento e perdão)
(Para minha amiga Renata Estrela Sturião)


Não nasce ou vive de um se arrepender,
Não frutifica de um não mais errar,
Embora isso é o que possa parecer,
Embora isso é o que se tente provar,
Mas não é isso que a faz nascer,
Mas não é isso que a faz vingar,
Não dá de alimentar, não faz crescer,
Arrepender-se não é o que faz voltar...

Uma segunda palavra tem o poder
De fazer essa segunda chance perdurar,
De deixar essa segunda chance acontecer,
De permitir a essa segunda chance se firmar,
Uma segunda palavra é a que vai dizer,
A que traz o significado de mostrar
As possibilidades de viver,
As possibilidades de durar...

Uma palavra que é mais que se arrepender...
Uma segunda palavra: perdoar

18.4.12

A lama que te espera...


Acostuma-te com a lama que te espera:
O câncer, o aneurisma, a solidão,
A poluição destruindo a biosfera,
A vida morrendo pela poluição...

O infarto, o aborto, a dor que dilacera,
A estupidez humana, a ingratidão,
O homem e sua necessidade de ser fera,
O homem e sua ideia fixa por dominação...

Acostuma-te, não há outro jeito.
Fazes o que tem de ser feito
E tenta, apesar de tudo, sobreviver...

Acostuma-te, e segue sempre adiante,
Como um Davi diante de um gigante,
Porque de outra forma não pode ser...

13.4.12

13 de abril


(Ao meu pai, Clóvis Tavares)

I
13 de abril. O corpo já não respira.
Os olhos já não respondem nosso olhar,
Eu tentava acreditar que era mentira,
Eu juro que eu não queria acreditar

Naquele 13 de abril que não se expira,
Como uma fonte que recusa-se a secar,
Como um ponteiro do tempo que não gira,
Como um ruído que não me deixa sonhar.

13 de abril de 1984.
O volvo, imperdoável como um infarto,
Arruína suas possibilidades. Sem saida ...

13 de abril. Aquele dia ingrato
Era apenas o sinal de um novo ato
Do grande espetáculo que será sempre a sua vida.

II
Imagino sua visita inesperada,
Aquele seu jeito doce novamente,
A sua palavra boa na sua voz pausada,
A sua voz pausada, mas pungente,

Imagino sua visita assim, do nada,
Almoçando hoje de novo com a gente,
Aquela sua simplicidade exagerada,
Aquela sua simplicidade comovente,

Imagino sua visita nesse dia,
Inesperada alegria
Tomando conta do nosso coração...

Imagino sua visita e eu, de joelhos,
Silencioso, ouvindo seus conselhos,
Quase em silencio, pedindo seu perdão...

III
Mas sempre chega a hora de ir embora
Que é a mesma hora de recomeçar.
Faz tanto frio e insensatez lá fora,
Faz tanta falta ouvir sua voz falar...

Mas chega. E mesmo que fora de hora,
Despedir não é o mesmo que acabar.
Recomeçar é difícil. Às vezes demora,
Mas despedir é um convite pra continuar.

Saudades suas, meu pai. Recomeçamos.
Saudades feitas de perdas e danos.
Saudades suas, meu pai, meu professor.

Saudades em lagrimas que a poesia disfarçada
Transforma em palavra rimada...
Saudades suas, meu pai e meu amor...

11.4.12

Pedidinho à chuva


"Chuva irritante! Me deixa trabalhar?" (minha amiga Bruna Gama, no facebook, agora há pouco...)

Ei, chuva, você não devia irritar a Bruna,
Porque não deixa a Bruna trabalhar?
Porque não vai lá pra Saracuruna,
Tão precisando de você por lá...

Já experimentou desaguar em Inhauma?
Já conhece o interior do Ceará?
Ainda não? Então vai lá, se arruma,
E chove onde você precisa estar...

Mas Bruna quer trabalhar. Não atrapalha.
É pecado atrapalhar quem trabalha,
E eu sei, chuva, que você não quer pecar,

Quer só chover um pouquinho, chuva boa,
Então... Vai chover lá em João Pessoa,
Eu garanto que assim Bruna vai gostar...

8.4.12

A trangressão

I
A gente se acostuma com o silencio,
A gente se acostuma com a solidão,
A gente só não se acostuma com a maldade,
A gente só não se acostuma com a ingratidão,

A gente se acostuma com a falta de festa,
A gente se acostuma com a falta de pão,
A gente só não se acostuma com o veneno,
A gente só não se acostuma com a falsa acusação,

A gente se acostuma com a morte,
A gente se acostuma com o tumor maligno,
A gente se acostuma com a convulsão,

A gente só não se acostuma com o ódio barato,
A gente só não se acostuma com a prepotencia,
A gente só não se acostuma com a pedra no lugar do coração

II
Porque a morte, a dor de dente, a hipocondria,
A azia, a barriga vazia, a hipertensão,
A asma, a cegueira e a fratura da bacia
São parte da vida, não fazem mal não,

Mas, de outro modo, a frieza, a covardia,
A arrogancia, a perseguição,
A estupidez, a raiva e a antipatia
São como sinais de decomposição...

Uma coisa é o que é comum a toda gente,
A vida diária, aparentemente,
A vida e suas dores com ou sem solução,

Outra coisa é a vida morta e doentia,
O que se torna e nunca deveria,
A dor causada pela trangressão...

III
Por isso a gente se acostuma com a tristeza,
Com a enxaqueca e com a depressao...
Com o ódio ou com a intolerancia? Nunca...
Nem toda dor merece aceitação...

A gente se acostuma com o afogamento,
Com a morte causada pela infecção,
Mas com a dor resultante da calunia? Nunca...
Tem dor que não é digna de consideração...

Não causam mal as dores inevitáveis,
Dessas que não nos tornam miseráveis,
Nem nos transformam em montes de podridão...

Deus nos proteja das dores sem sentido,
As dores que não deveriam ter nascido,
As dores do mal sem nome e sem perdão...

7.4.12

Vinha de Luz

A poesia tem lugar pro medo,
A poesia tem lugar pra dor,
Pro homem do campo que acorda cedo,
Pro homem da cidade, sonhador,

Pra letra equivocada do samba-enredo,
Pra moça que motiva o cantador,
Pro bicho do pé na ponta do dedo,
Pro dedo sobre a pétala da flor,

A poesia tem lugar pra tudo:
Do cinema em 3D ao cinema mudo
A poesia sabe e traduz...

E não há nada que escapa à poesia,
Taça de tudo que nunca se esvazia,
Cheiro de uva da Vinha de Luz...

6.4.12

De todas as maneiras


A poesia é feita de desassossego,
De destempero, de hipocrisia,
De rima em tupi guarani, de verso em grego,
De escravidão, de carta de alforria,

Feita de desespero e desemprego,
Da tempestade em plena luz do dia,
Da explosão de uma cabeça de nego*,
Da distração do pássaro que assovia,

A poesia é feita da mãe que amamenta
O filho de colo que já se sustenta,
Mas nela cabem também as mamadeiras

Porque nada é estranho ou avesso à poesia,
A vida inteira é a sua garantia,
A poesia, de todas as maneiras...

* nome popular de um tipo de bomba de efeito sonoro estrondoso muito utilizada nas festas do interior e juninas na minha infancia, sem nenhuma referencia a qualquer forma de preconceito discriminação racial

O enforcado


E tendo ele atirado para dentro do santuário as moedas de prata, retirou-se, e foi enforcar-se (Mateus, 27:5)

O corpo de um homem
Morto,
Sem nome,
Dependurado,
Pálido,
Frio,
Pescoço torto,
E enrijecido,
E de olhar encovado,
O corpo de um homem
Morto,
Solitário,
Abandonado,
A morte, como se não existisse despedida,
O fim da vida, como se não fosse pecado,
Terá tirado de si mesmo a própria vida
Ou terá sido cruelmente assassinado?
O corpo de um homem morto,
Sozinho,
Desarrumado,
A alma aparentemente tão moída,
O corpo aparentemente tão magoado,
Como quem tenta se livrar de uma ferida,
E acaba pela ferida eliminado,
O corpo de um homem
Sem nome,
Sem vida,
Dependurado,
Terá buscado na morte descansar
Aliviado?
Terá de algum crime se arrependido?
De que terá se esquivado?
Seus olhos, por que parecem
Os de um menino assustado?
O que viram,
O que deram,
O que terão desejado?
Ouviu o que não queria?
Pediu e lhe foi negado?
Falou o que não poderia
Ter falado?
Os pés descalços do morto
Por onde terão andado?
Até quão longe seguiram?
Por que voltaram
Para morrerem com o homem,
Como se a morte apagasse
O percurso caminhado?
Porque o corpo do homem
Morto
Parece ali tão cansado?
Suas mãos, porque assim tão graves,
De aspecto tão pesado?
Que coisas trazia nelas
Que o teriam apavorado?
O que terão recebido?
O que terão entregado?
Que gestos terão livremente permitido?
Pra onde terão apontado?
E a boca morta do homem
Sem nome,
Dependurado,
Que coisas terá dito? E sobre quem?
Que acordos terá selado?
Qual foi seu ultimo grito?
Que coisas terá garantido pro seu bem?
Que gentes terá delatado?
Por que desejos inconfessos foi traído?
Por que gestos inconfessos foi culpado?
O corpo do homem morto,
O homem,
Resto,
Largado,
E umas moedas espalhadas pelo chão
Bem ao seu lado,
Será que as terá perdido
Ou terá delas se desinteressado?
Será que o corpo do morto
É o corpo de um bandido?
Será o corpo de um homem
Muito rico
Disfarçado?
E de que serviu,
Se bandido ou rico,
Aquele ouro espalhado,
Se em pouco tempo
Encontrado,
O ouro vai ser dividido,
E o corpo do homem morto
Não o terá levado...
O corpo do homem morto,
Sozinho,
Como um coitado,
Que terá afinal acontecido?
Que coisas terríveis terá testemunhado?
Que gente traiu?
Por que gente foi traído?
Que dor o terá frustrado?
Terá gritado?
Sofrido?
Quem o terá escutado?
Terá, de algum modo, se arrependido?
Terá se desesperado?
Quem o terá convencido?
Quem o terá apoiado?
Terá sido persuadido?
Terá sido contrariado?
Por que esse fim tão doído?
Que coisas terá vivido?
Com quem terá conversado?
Por quem terá se iludido?
Que culpas terá levado?
Que dores terá colhido?
Que dores terá plantado?
Algo o terá convencido
A morrer desse modo desgraçado?
Que culpa o terá ferido?
Que culpa o terá matado?
O que o terá induzido
Que não pudesse ter sido
Perdoado?
O corpo do homem,
Morto,
Entristecido,
Gelado,
O morto que desejou ser esquecido,
O homem que será pra sempre
Desse jeito
Recordado,
O homem,
Sem nome,
Morto,
O morto,
Dependurado,
O corpo do homem,
Roto
E mal vestido,
O gesto desiludido
No olhar desfigurado,
O homem morto
E seu corpo,
Destruído,
Amargurado,
Sem nome
O corpo do homem,
Coitado,
Morto,
O enforcado ...

5.4.12

Amanhecendo quinta...


Adoro quando vai amanhecendo quinta,
Adoro quando
A hora vai beirando as 5 e 30,
E a quinta vai aos pouquinhos acordando.

Não é que eu ache que a sexta feira minta,
Ou que a quarta passe o dia me enganando,
Ou que eu pense que a segunda, quando pinta,
Traz a semana inteira me encarando,

Mas quinta quando chega, desde manhãzinha,
É como o cheiro do café lá na cozinha
Me chamando:

_Acorda menino, já são quase seis,
_Acorda menino, não dorme outra vez,
_O fim de semana já vem chegando...