18.4.12

A lama que te espera...


Acostuma-te com a lama que te espera:
O câncer, o aneurisma, a solidão,
A poluição destruindo a biosfera,
A vida morrendo pela poluição...

O infarto, o aborto, a dor que dilacera,
A estupidez humana, a ingratidão,
O homem e sua necessidade de ser fera,
O homem e sua ideia fixa por dominação...

Acostuma-te, não há outro jeito.
Fazes o que tem de ser feito
E tenta, apesar de tudo, sobreviver...

Acostuma-te, e segue sempre adiante,
Como um Davi diante de um gigante,
Porque de outra forma não pode ser...

13.4.12

13 de abril


(Ao meu pai, Clóvis Tavares)

I
13 de abril. O corpo já não respira.
Os olhos já não respondem nosso olhar,
Eu tentava acreditar que era mentira,
Eu juro que eu não queria acreditar

Naquele 13 de abril que não se expira,
Como uma fonte que recusa-se a secar,
Como um ponteiro do tempo que não gira,
Como um ruído que não me deixa sonhar.

13 de abril de 1984.
O volvo, imperdoável como um infarto,
Arruína suas possibilidades. Sem saida ...

13 de abril. Aquele dia ingrato
Era apenas o sinal de um novo ato
Do grande espetáculo que será sempre a sua vida.

II
Imagino sua visita inesperada,
Aquele seu jeito doce novamente,
A sua palavra boa na sua voz pausada,
A sua voz pausada, mas pungente,

Imagino sua visita assim, do nada,
Almoçando hoje de novo com a gente,
Aquela sua simplicidade exagerada,
Aquela sua simplicidade comovente,

Imagino sua visita nesse dia,
Inesperada alegria
Tomando conta do nosso coração...

Imagino sua visita e eu, de joelhos,
Silencioso, ouvindo seus conselhos,
Quase em silencio, pedindo seu perdão...

III
Mas sempre chega a hora de ir embora
Que é a mesma hora de recomeçar.
Faz tanto frio e insensatez lá fora,
Faz tanta falta ouvir sua voz falar...

Mas chega. E mesmo que fora de hora,
Despedir não é o mesmo que acabar.
Recomeçar é difícil. Às vezes demora,
Mas despedir é um convite pra continuar.

Saudades suas, meu pai. Recomeçamos.
Saudades feitas de perdas e danos.
Saudades suas, meu pai, meu professor.

Saudades em lagrimas que a poesia disfarçada
Transforma em palavra rimada...
Saudades suas, meu pai e meu amor...

11.4.12

Pedidinho à chuva


"Chuva irritante! Me deixa trabalhar?" (minha amiga Bruna Gama, no facebook, agora há pouco...)

Ei, chuva, você não devia irritar a Bruna,
Porque não deixa a Bruna trabalhar?
Porque não vai lá pra Saracuruna,
Tão precisando de você por lá...

Já experimentou desaguar em Inhauma?
Já conhece o interior do Ceará?
Ainda não? Então vai lá, se arruma,
E chove onde você precisa estar...

Mas Bruna quer trabalhar. Não atrapalha.
É pecado atrapalhar quem trabalha,
E eu sei, chuva, que você não quer pecar,

Quer só chover um pouquinho, chuva boa,
Então... Vai chover lá em João Pessoa,
Eu garanto que assim Bruna vai gostar...

8.4.12

A trangressão

I
A gente se acostuma com o silencio,
A gente se acostuma com a solidão,
A gente só não se acostuma com a maldade,
A gente só não se acostuma com a ingratidão,

A gente se acostuma com a falta de festa,
A gente se acostuma com a falta de pão,
A gente só não se acostuma com o veneno,
A gente só não se acostuma com a falsa acusação,

A gente se acostuma com a morte,
A gente se acostuma com o tumor maligno,
A gente se acostuma com a convulsão,

A gente só não se acostuma com o ódio barato,
A gente só não se acostuma com a prepotencia,
A gente só não se acostuma com a pedra no lugar do coração

II
Porque a morte, a dor de dente, a hipocondria,
A azia, a barriga vazia, a hipertensão,
A asma, a cegueira e a fratura da bacia
São parte da vida, não fazem mal não,

Mas, de outro modo, a frieza, a covardia,
A arrogancia, a perseguição,
A estupidez, a raiva e a antipatia
São como sinais de decomposição...

Uma coisa é o que é comum a toda gente,
A vida diária, aparentemente,
A vida e suas dores com ou sem solução,

Outra coisa é a vida morta e doentia,
O que se torna e nunca deveria,
A dor causada pela trangressão...

III
Por isso a gente se acostuma com a tristeza,
Com a enxaqueca e com a depressao...
Com o ódio ou com a intolerancia? Nunca...
Nem toda dor merece aceitação...

A gente se acostuma com o afogamento,
Com a morte causada pela infecção,
Mas com a dor resultante da calunia? Nunca...
Tem dor que não é digna de consideração...

Não causam mal as dores inevitáveis,
Dessas que não nos tornam miseráveis,
Nem nos transformam em montes de podridão...

Deus nos proteja das dores sem sentido,
As dores que não deveriam ter nascido,
As dores do mal sem nome e sem perdão...

7.4.12

Vinha de Luz

A poesia tem lugar pro medo,
A poesia tem lugar pra dor,
Pro homem do campo que acorda cedo,
Pro homem da cidade, sonhador,

Pra letra equivocada do samba-enredo,
Pra moça que motiva o cantador,
Pro bicho do pé na ponta do dedo,
Pro dedo sobre a pétala da flor,

A poesia tem lugar pra tudo:
Do cinema em 3D ao cinema mudo
A poesia sabe e traduz...

E não há nada que escapa à poesia,
Taça de tudo que nunca se esvazia,
Cheiro de uva da Vinha de Luz...

6.4.12

De todas as maneiras


A poesia é feita de desassossego,
De destempero, de hipocrisia,
De rima em tupi guarani, de verso em grego,
De escravidão, de carta de alforria,

Feita de desespero e desemprego,
Da tempestade em plena luz do dia,
Da explosão de uma cabeça de nego*,
Da distração do pássaro que assovia,

A poesia é feita da mãe que amamenta
O filho de colo que já se sustenta,
Mas nela cabem também as mamadeiras

Porque nada é estranho ou avesso à poesia,
A vida inteira é a sua garantia,
A poesia, de todas as maneiras...

* nome popular de um tipo de bomba de efeito sonoro estrondoso muito utilizada nas festas do interior e juninas na minha infancia, sem nenhuma referencia a qualquer forma de preconceito discriminação racial

O enforcado


E tendo ele atirado para dentro do santuário as moedas de prata, retirou-se, e foi enforcar-se (Mateus, 27:5)

O corpo de um homem
Morto,
Sem nome,
Dependurado,
Pálido,
Frio,
Pescoço torto,
E enrijecido,
E de olhar encovado,
O corpo de um homem
Morto,
Solitário,
Abandonado,
A morte, como se não existisse despedida,
O fim da vida, como se não fosse pecado,
Terá tirado de si mesmo a própria vida
Ou terá sido cruelmente assassinado?
O corpo de um homem morto,
Sozinho,
Desarrumado,
A alma aparentemente tão moída,
O corpo aparentemente tão magoado,
Como quem tenta se livrar de uma ferida,
E acaba pela ferida eliminado,
O corpo de um homem
Sem nome,
Sem vida,
Dependurado,
Terá buscado na morte descansar
Aliviado?
Terá de algum crime se arrependido?
De que terá se esquivado?
Seus olhos, por que parecem
Os de um menino assustado?
O que viram,
O que deram,
O que terão desejado?
Ouviu o que não queria?
Pediu e lhe foi negado?
Falou o que não poderia
Ter falado?
Os pés descalços do morto
Por onde terão andado?
Até quão longe seguiram?
Por que voltaram
Para morrerem com o homem,
Como se a morte apagasse
O percurso caminhado?
Porque o corpo do homem
Morto
Parece ali tão cansado?
Suas mãos, porque assim tão graves,
De aspecto tão pesado?
Que coisas trazia nelas
Que o teriam apavorado?
O que terão recebido?
O que terão entregado?
Que gestos terão livremente permitido?
Pra onde terão apontado?
E a boca morta do homem
Sem nome,
Dependurado,
Que coisas terá dito? E sobre quem?
Que acordos terá selado?
Qual foi seu ultimo grito?
Que coisas terá garantido pro seu bem?
Que gentes terá delatado?
Por que desejos inconfessos foi traído?
Por que gestos inconfessos foi culpado?
O corpo do homem morto,
O homem,
Resto,
Largado,
E umas moedas espalhadas pelo chão
Bem ao seu lado,
Será que as terá perdido
Ou terá delas se desinteressado?
Será que o corpo do morto
É o corpo de um bandido?
Será o corpo de um homem
Muito rico
Disfarçado?
E de que serviu,
Se bandido ou rico,
Aquele ouro espalhado,
Se em pouco tempo
Encontrado,
O ouro vai ser dividido,
E o corpo do homem morto
Não o terá levado...
O corpo do homem morto,
Sozinho,
Como um coitado,
Que terá afinal acontecido?
Que coisas terríveis terá testemunhado?
Que gente traiu?
Por que gente foi traído?
Que dor o terá frustrado?
Terá gritado?
Sofrido?
Quem o terá escutado?
Terá, de algum modo, se arrependido?
Terá se desesperado?
Quem o terá convencido?
Quem o terá apoiado?
Terá sido persuadido?
Terá sido contrariado?
Por que esse fim tão doído?
Que coisas terá vivido?
Com quem terá conversado?
Por quem terá se iludido?
Que culpas terá levado?
Que dores terá colhido?
Que dores terá plantado?
Algo o terá convencido
A morrer desse modo desgraçado?
Que culpa o terá ferido?
Que culpa o terá matado?
O que o terá induzido
Que não pudesse ter sido
Perdoado?
O corpo do homem,
Morto,
Entristecido,
Gelado,
O morto que desejou ser esquecido,
O homem que será pra sempre
Desse jeito
Recordado,
O homem,
Sem nome,
Morto,
O morto,
Dependurado,
O corpo do homem,
Roto
E mal vestido,
O gesto desiludido
No olhar desfigurado,
O homem morto
E seu corpo,
Destruído,
Amargurado,
Sem nome
O corpo do homem,
Coitado,
Morto,
O enforcado ...

5.4.12

Amanhecendo quinta...


Adoro quando vai amanhecendo quinta,
Adoro quando
A hora vai beirando as 5 e 30,
E a quinta vai aos pouquinhos acordando.

Não é que eu ache que a sexta feira minta,
Ou que a quarta passe o dia me enganando,
Ou que eu pense que a segunda, quando pinta,
Traz a semana inteira me encarando,

Mas quinta quando chega, desde manhãzinha,
É como o cheiro do café lá na cozinha
Me chamando:

_Acorda menino, já são quase seis,
_Acorda menino, não dorme outra vez,
_O fim de semana já vem chegando...

4.4.12

As noites das quartas...


As noites quentes das quartas feiras,
Especialmente as noites das quartas,
São invariavelmente espreguiçadeiras,
Propicias pros sonetos e pras cartas

De amor eterno, de paixões passageiras,
Pra todos os nomes, com todas as datas,
As noites quentes, como as chaleiras,
As noites escuras, como os grãos de zaatar...

Eu gosto das quartas, quando a noite chega,
Trazendo palavras leves como a seda,
Tocando o coração do trovador,

Que, como um parteiro, vê nascer o verso
Inteiro, enxuto, quase sem excesso,
Das noites quentes das quartas sem dor...

As vésperas de feriado...


As vésperas de feriado são apropriadas
Para escrever sonetos sem maldade,
São como adubos pras frases inventadas,
São como doces para a mocidade,

Parecem naturalmente temperadas,
Provocam na gente uma necessidade
De ir escrevendo palavras rimadas,
É própria delas essa facilidade...

As vésperas de feriado, datas próprias,
São como rabiscos sem cópias:
Não se repetem, não se imitam,

A nada se comparam as vésperas de feriado,
São como cristal encantado
Para aqueles que acreditam...

3.4.12

As crianças

As crianças com febre, as encatarradas,
As com broncoespasmo, as com anemia,
As bem cuidadas, as mal cuidadas,
As vitimadas pela paralisia,

As crianças politraumatizadas,
As com purpura por trombocitopenia,
As sindromicas, as mortas, as desenganadas,
As desaparecidas de cada dia,

As prematuras, as malformadas,
As crianças filhas de mães drogadas,
As internadas por disenteria,

Por serem crianças, necessitam ser tradadas
Como pedras preciosas lapidadas,
Absolutamente próprias pra poesia...

A poesia às terças...

As manhãs das terças feiras, todas elas,
São próprias pra fazer versos brincando,
Como as couves são próprias pras panelas,
E as cordas, pro violonista ir dedilhando.

Manhãs das terças, quase sempre belas,
Quando não muito, vão se maquiando,
Como as moças solteironas nas janelas,
Como as meninas, nas praias, desfilando.

Por isso adoro as manhãs das terças feiras,
Feitas de versos de todas as maneiras:
Livres, metrificados, rimados ou não,

Dissonantes, certinhos, desconcertantes,
Subitos versos, diários, inconstantes,
Das manhãs das terças, pura distração...

31.3.12

Meu plantãozinho...

Entre nascimentos, videos e poesias
Eu passo meus sabados de plantão,
Vejo bebes em seus primeiros dias,
Converso com suas mães sobre a amamentação,

Trago alguns videos que me fazem companhia
Pras horas calmas da agitação,
De quebra as palavras, boas alegrias,
De quebra os versos, boa distração,

E assim meus sabados, entre nascimentos,
Videos e versos que experimento
E que não me deixam me sentir sozinho,

Passam felizes, seguem tranquilos
Entre dvds, poemas e mamilos,
Meus sabados em paz, meu plantãozinho...

Um poeminha pra Mila

Um versinho bobo pra linda Mila,
Porque a linda Mila é linda de viver.
Se a fila anda mesmo, Mila, eu to na fila,
Eu quero é mais botar a fila pra correr...

Um versinho bobo pra distrai-la,
Mila, um versinho só pra você,
E não pense, por favor, que a intenção é seduzi-la...
É só um versinho pra te entreter...

Linda Mila Mendez, minha favorita,
Parece uma musica de Chico, de tão bonita,
Parece um poema de Carlos Drummond...

Um poeminha pra Mila, minha amiga...
Um poeminha pra que ela nunca diga
Que eunucafizumpoemapraela.com

Inadiável...

A madrugada é propria pra poesia,
A rima é como o dia amanhecendo,
Urgente, muita vez, como a sangria,
Definitiva, como quem ta morrendo.

As vezes abusa da melancolia,
Da pieguice, da luz de quem vai lendo,
Não tem desculpas, não se sacia,
Precisa diariamente ir se escrevendo

As vezes facil, como a agua da pia,
Outras cruel, como a asfixia,
As vezes como um pária, se vendendo,

Ninguem sabe ao certo como ela se inicia,
A poesia, dor que não se adia,
Como a inadiável manhã que vai nascendo...




29.3.12

Mais nada

Eu desconheço a engenharia do argumento,
A tática precisa da discussão,
Embora equivocado muita vez, eu tento,
Como uma barca que perdeu a direção,

E falo coisas que me vem ao pensamento,
Dando espaço de sobra pro coração
Soltar-se, como se isso tivesse cabimento,
Argumentar-se, como quem pede atenção...

E assim, desconhecedor dessa engenharia,
A coerência me desafia,
E a meu favor, só a palavra desastrada...

Eu vou me embora. Passargada me espera.
Não quero mais ter razão. Isso é o que eu era.
Eu quero apenas ser feliz. Mais nada.

Eu

É porque eu só sei ser do jeito que eu sou,
E eu ser eu mesmo é o melhor que eu posso ser,
Qualquer outra possibilidade se esgotou
Bem antes mesmo de acontecer,

E é desse jeito que eu vou por onde eu vou,
E sei que ainda há muito pra crescer,
E olha que não foi fácil chegar aonde eu estou,
Aprendendo a fazer o que eu sei fazer...

Mas sei que caminho entre minhas próprias discordâncias,
E entre o que eu sou e o que eu quero há discrepâncias,
Distancias que eu preciso percorrer

Para amadurecer meu coração pequeno,
Para que eu possa ainda envelhecer sereno,
Para que eu não me arrependa de morrer...

28.3.12

Cabanão de novo...


Cabanão, mundão, cabanão, mundão,
Eu nem fui ainda a um show de João Gilberto,
Mal sei tocar Linha de Passe no violão,
Ainda nem vi a Torre Eiffel de perto,

Eu nunca vi um por do só no Maranhão,
Eu já comprei, mas ainda não chegou meu novo esteto,
Não vi o Brasil ser hexacampeão,
Falta tanto pra isso aqui ficar completo,

Porisso cabanão, mundão, dá mais um tempo,
Eu sei que nada na vida é cem por cento,
Mas eu ainda quero visitar Santa Maria,

Escrever mais um livro de poemas,
Então me dá mais um tempinho apenas,
Cabanão, mundão... Deixa pra outro dia...