21.7.13

Anunciação

Os teólogos da Grã Bretanha,
Depois de decadas discutindo,
Anunciaram, num Congresso na Alemanha:
O amor é lindo...

Descoberta

Os cientistas russos descobriram,
Depois de pesquizar anos a fio,
Que a cidade maravilhosa
É o Rio...

20.7.13

Acostumado

Você leva uma vida gosmenta
E reclama da vida gosmenta demais,
Mas por medo da vida não experimenta
Deixar essa vida gosmenta pra trás.

Você vive essa sua vida remelenta
E decididamente não tem paz...
E chora, e grita, e diz que já não aguenta,
E quer mudar de vida, mas não faz...

Reclama e diz que quer mudar de vida,
Mas quando encara a porta de saída
Não se decide, e volta pro atoleiro,

E chora, e sofre, e clama por piedade,
Mas da pra perceber que na verdade
Parece que já se acostumou ao gosmeiro...

9.7.13

O nojo

 (Algumas pessoas as  vezes sentem nojo de outras)

O nojo é o germe de toda tirania,
Da intolerância, da desumanidade,
É a antítese da luz e da poesia,
É o combustível da perversidade...

Destrói a alma, com a estafilococcia,
Veneno que asfixia a fraternidade,
O nojo é o que alimenta a covardia
E dá sentido ao ódio e à leviandade...

O nojo é fétido como é a ozena,
Tem a cor e o cheiro podre da gangrena
E o aspecto sombrio da sepultura,

O nojo algema a alma em cela fria,
O nojo é cruel, como a septicemia,
O nojo é como um mal que não tem cura...

8.7.13

O Ministério


O Ministério da Saúde não disfarça:
A medicina tá perdendo a graça,
E o ministro perdendo a compostura.
O Ministério da Saúde não dá uma dentro:
Usando o médico pra fazer experimento,
E o governo pra fazer diabrura...
 
O Ministério da Saúde está doente,
Está parecendo criança inconsequente,
Anda se comportando muito mal,
O Ministério da Saúde está perdido,
Ou mal intencionado, ou está vendido,
Ou precisando ser internado num Hospital...
 
O Ministério da Saúde, desastrado,
Está transformando o médico em culpado
Pela falta de saúde no país,
E o país, sem educação nem saneamento,
Sobra em doença o que falta em tratamento,
E culpa o médico por seu estado infeliz...
 
O Ministério da Saúde, endoidecido,
Vai se fazendo de desentendido,
E assim, humilhando o médico brasileiro...
O Ministério da Saúde sem saúde,
O Ministério e sua péssima atitude,
Mergulhando nossa esperança em atoleiro,
 
Perdendo tempo com ações insanas,
Tomando medidas espúrias e levianas,
Adoecendo a nação...
O Ministério que não tem escrúpulos,
O Ministério e seus atos pútridos,
O Ministério sem coração...

6.7.13

Virtude


O Ministério da Saúde não avisa,
Mas quem junta coisas de que não precisa,
E compra coisas que não vai usar,
E vive se cercando de gente que não soma,
E nunca tem tempo pra ver o tempo passar,
O Ministério da Saúde, ainda que negue,
Sabe que gente assim não fica alegre,
Não canta musica, não gosta de poesia,
Não aproveita uma boa companhia
Da forma como ela pode ser aproveitada:
Jogar conversa fora, dar risada,
Falar bobagem, andar de bicicleta,
Tocar violão em plena madrugada,
Escapulir da dieta...
O Ministério da Saúde não informa,
Mas quem vive a própria vida dessa forma
Morre um pouquinho e sempre a cada dia...
Então sorria,
Não perca tempo, viva,
Faça de conta que São Paulo é na Bahia,
Que Beirute fica em Tel Aviv

E o Piaui na Bolivia...
Abrace, cante, desapegue-se, ame,
Não faça da sua vida uma tsunami,
Relaxe e aprenda:
O Ministério da Saúde recomenda saúde...
Então faça poesia dos seus dias,
E dias, quando tornados poesias,
São sua grande virtude...

28.6.13

Experimente

Experimente dar plantão num hospital estragado,
Que não deixe você fazer o que precisa fazer,
Experimente assim, o corredor lotado,
Sem UTI pra quem corre o risco de morrer,

Experimente. Sem remédios, raios x quebrado,
Você sabendo fazer, mas sem poder,
Experimente. Estressado e com salario atrasado,
Sofrer pra tratar de quem quer parar de sofrer...

Contrate então médicos cubanos,
Espanhóis, portugueses, incas venusianos,
Experimente pra ver o que vai acontecer...

Desmoraliza e humilha o medico brasileiro
Que tem tentado o que pode o tempo inteiro...
Faz isso hoje e amanha vai se arrepender...

E se...

Em seu discurso à nação na sexta, 21 de junho, a Presidenta Dilma anuncia o anuncio da importação de milhares de médicos para resolver os problemas de saúde do Brasil...
 
E se ao invés de médicos, paciência?
E se ao invés de médicos, credibilidade?
Quem e que acredita nessa incoerência?
Quem tem paciência com tanta leviandade?

E se ao invés de médicos, decência
E alguns containers com moralidade?
E desse jeito: imediatamente e com urgência,
Tamanha é a nossa necessidade...

E se ao invés de médicos, Deputados,
Visto que os nossos parecem infectados
De um mal que não tem cura ou livramento?

E se ao invés de médicos, Presidenta,
Porque e que Vossa Excelência não experimenta
Importar um outro pronunciamento?

25.6.13

E agora, Doutor?


(Sobre o poema José de Carlos Drummond de Andrade)
 
E agora, Doutor?
A ilusão acabou,
a luz apagou,
o povo chiou,
a noite esfriou,
e agora, Doutor?
e agora, você?
você que é sem prestigio,
que socorre os outros,
que faz o que pode,
que diagnostica, prescreve?
e agora, Doutor?

Está sem dormir,
está sem saúde,
está sem autoridade,
já não pode tratar,
já não adianta insistir,
transferir já não pode,
a noite chegou,
o substituto não veio,
o parecer não veio,
o exame não veio,
não veio a esperança
e a adrenalina acabou
e o culpado fugiu
e o futuro mofou,
e agora, Doutor?

E agora, Doutor?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a resposta nas mãos
quer abrir caminhos,
não existem caminhos;
quer reanimar,
mas desanimou;
quer ainda tentar,
chances não há mais.
Doutor, e agora?

Se você lutasse,
se fizesse greve,
se você fugisse
pro pantanal matogrossense,
se você desistisse,
se você parasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, Doutor!

Sozinho no escuro
de seu consultório,
sem ter esperança,
sem ter alegria
para trabalhar,
sem saber que caminhos
seguir, desnorteado
você marcha, Doutor!
Doutor, para onde?

22.6.13

É o que basta...

Pra me representar não precisa ser letrado,
Nem ser inteligente, nem ter dinheiro,
Nem ser esperto, nem andar todo arrumado,
Nem ser repentista, nem ser pagodeiro...

Pra me representar não precisa ser meu aliado,
Nem concordar comigo o tempo inteiro,
Também não precisa colar do meu lado
Como um fiel escudeiro...

E não pode ser raivoso, intolerante,
Incomplacente, deselegante,
Bajulador, baba-ovo, baderneiro...

Tem é que querer ser feliz dia após dia,
E nem precisa gostar de poesia,
Precisa gostar é de ser brasileiro...

Simples assim...

Chico Buarque me representa,
Também a poesia. de Vinícius de Moraes,
Da mesma forma a mãe prematura que amamenta,
E meus irmãos, e meus pais,

E a minha praia de Atafona que me alenta,
E os versos que eu escrevo, tolos demais,
E a Escola Jesus Criso, que minha família frequenta,
E os meus amigos de décadas atrás...

Agora: gente que se revela intolerante,
Gente irritada, gente arrogante,
Gente que parece que tem o rei na barriga,

Gente assim eu não curto nem adiciono,
Nem deixo que me faça perder o sono,
Nem permito que me oriente ou que me siga...

3.4.13

A palavra

Ama com fé e orgulho a poesia,
A rima, o ritmo, a palavra boa,
De Castro Alves a Drummond, boa companhia,
De Augusto dos Anjos a Pessoa...

Ama a palavra que nunca se esvazia,
Que sem luz, brilha, que sem asas, voa...
Imprevisível, com a estafilococcia,
Incontrolável, como a garoa...

Ama a palavra que nunca esfria,
Que assina a própria carta de alforria,
Que nunca foi rica e assim mesmo ri à toa...

Ama a palavra com o amor que não se adia,
Palavra além da que vende a livraria,
Orgulhe-se do amor da palavra que se doa...

Está escrito

Ainda bem que existem outros começos
E outras "parte dois" antes do fim,
Outras segundas chances pros tropeços,
Outros açucares pro sabor ruim...

Ainda bem que há outros endereços:
Passargada, Cuba, Quixeramobim,
E outras mercadorias, e outros preços,
E sempre foi e será sempre assim...

Por isso não se irrite nem perca a paciência:
Não é considerado crime a persistência,
A perseverança não é um delito...

Segue adiante, há sempre outro caminho,
Mas cuidado com as rosas que não tem espinho...
E seja feliz... Porque assim está escrito...

2.4.13

Os olhos de Fernanda

Para Fernanda Sá,
Enfermeira,
Fotógrafa,
Não necessariamente nesta ordem.

Seus olhos são delicados como as lentes
Da sua máquina de fotografar,
Veem por trás dos corações das gentes,
Dão voz ao que não tem voz para falar...

Seus olhos são como máquinas potentes
Com zoons e megapixels de sobrar,
Olhos brilhantes, suaves, diferentes,
Como se olhar fossem outro modo de cuidar...

Por isso seus olhos, Fernanda, brilham,
E nos cutucam, e, lindos, compartilham
A beleza que veem com toda a humanidade...

Fernanda fotografa, Fernanda Enfermeira,
Fernanda poesia para a vida inteira,
Fernanda e seus olhos cheios de verdade... 

Autonomia

Não quero nada que eu já não possua:
Sossego, trabalho, sonho, poesia,
A certeza de que a vida continua,
Uma lerdeza que até parece a Bahia...

Não quero nada que precise vir da rua:
Pacotes, sacolas, má companhia...
A mesmice é quase sempre nua e crua,
Carecendo de detalhes de alegria...

Por isso eu não procuro feito um tonto
Bobagens e besteiras que eu encontro
Muito mais suaves por onde ando...

Por isso eu penso que eu não quero nada.
Pra mim já basta o dia, a madrugada,
E os bons amigos de vez em quando...

Mercado livre

Eu vendo o que eu sei,
Eu vendo o que eu faço,
Eu vendo a ajuda que posso te dar:
Uma palavra amiga,
Um auxilio,
Um abraço,
Tem algum dinheiro?
Pode comprar.
Pode porque eu vendo
Palavras sinceras,
Teses de Doutorado,
Poemas infantis...
Historias de fadas
E belas, e feras,
Eu vendo formulas
De fazer você feliz...
De tudo um pouco:
Cultura,
Ornamentos,
Arte,
Letra,
Musica,
Casinhas na praia,
Eu vendo descontos:
De mil por trezentos,
Eu vendo de Nelson Sargento
A Tim Maia.
E vai de tudo um pouco,
Eu não nego nada:
Das drogas licitas,
Aos filmes de ação,
Dos livros de protesto,
Às figurinhas,
Da Bíblia Sagrada
Até o Alcorão...
Eu vendo.
Me paga e ceu entrego na hora.
Satisfação garantida
Ou seu dinheiro de volta.
Indiana Jones,
300,
O Senhor dos Anéis,
E a coleção completa
De John Travolta.
Me pede.
Eu entrego.
Me compra.
Eu envio.
A vida é um mercado
Em liquidação
Onde se compra e se vende de tudo.
Ou quase de tudo.
O coração não.

A poesia

A poesia é assim: não se aprende nem se ensina,
As vezes ninguém nem lê, e ela nem liga...
As vezes foge da métrica, outras, escapa da rima,
As vezes quer paz e amor, outras, quer briga...

A poesia é assim: não morre nem desanima,
As vezes dá um friozinho na barriga...
Tem dias que ela acorda em Teresina,
Tem noites que ela se esconde no Bixiga...

A poesia é assim: às vezes silenciosa...
Tem dias que ela é comum como uma prosa,
Tem dias que ela já chega Bilaqueando...

A poesia é assim: surpreendente...
Às vezes tensa, como a dor de dente...
As vezes leve, como o dia clareando...

1.4.13

A Grande Lei

Quem pode, pode, quem não pode, chia,
Quem podem,tenta, quem não pode, não,
Quem pode, passa a Semana Santa na Bahia,
Quem não pode, passa a Semana Santa de plantão.

Quem pode, escreve, quem não, copia,
Quem pode almoça, quem não pode come pão,
Quem pode tenta desvendar poesia,
Quem não pode reclama de tudo sem razão...

Quem pode cutuca, curte e compartilha
Porque sabe que homem nenhum é uma ilha,
E que sozinho não se vai a nenhum lugar,

Por isso quem pensa que não pode também pode,
Da Grande Lei da Vida nem ninguém foge,
É tudo uma questão de acreditar...

Cada um na sua

Cada um acredita no que quer,
Cada um vê a vida da forma que acredita:
Tem homem que acredita que é mulher,
Tem mulher que acredita que é bonita.

Tem gente que acredita nos hippies de Hair,
Tem gente que nos ricos da Arabia Saudita,
Tem gente que acredita em tudo que eu disser,
Tem gente que só na dissidente cubanita.

Tem gente que acredita em Coelhinho da Páscoa,
Tem gente que acredita que não exista o Alasca,
Nem que o homem um dia tenha chegado à Lua...

Cada um acredita nas verdades que aceita...
Viver é um livro em branco, sem receita...
E assim seguimos... Cada um na sua...

6.3.13

Silencio

Eu gosto quando a alma silencia
Como se estivesse, em silencio, meditando,
Silencio, às vezes, é boa companhia
Pro pensamento agitado ir se acalmando...
 
Por isso eu gosto dessa calmaria:
A alma, como se estivesse descansando...
Silencio, o mesmo usado na poesia...
Silencio, o mesmo do cerebro pensando...
 
Então eu gosto da alma assim, calada,
Não fala nada, não responde nada,
Como se fosse pra sempre se calar,
 
Até que o silencio se rompe, e disso em diante
A alma volta inteira e interessante
Como é o leite materno a transbordar...