27.2.13

Palavras

No verso de um bloco de receituário
Escrevo palavras por pura distração.
Vou costurando-as, como um operário,
Com outras palavras que escapam da minha mão,

E chegam, quem sabe de qual imaginário,
E caem no papel, não sei com que intenção,
Palavras comuns, de uso mais que diário,
No verso de um bloco à sua disposição...

Palavras, como chuva, repentinas,
Que, através de sinapses bioquimicas,
Descem da idéia e chegam até o soneto,

Onde, após se assentarem, se conhecem,
E se tocam, e se guardam, e adormecem
Como se descansassem no seu leito...

Meus longos dias

Entre anamneses e ectoscopias,
Entre amigdalas hiperemiadas e hemogramas,
Eu passo meus dias, meus longos dias,
Que mais parecem, por isso, semanas,

Entre estertores e estreptococcias,
E linfadenites, e traumas, e hemangiomas,
Entre palavras impróprias pra poesias,
E estranhas, como se viessem de outros idiomas,

Entre encaminhamentos, receitas e prontuários,
Vou preenchendo assim os meus horários,
E escrevendo dessa forma a minha vida,

Que não se repete, nunca se copia,
Que às vezes é surpreendente, como é a poesia,
E outras tantas estupida, como é a talidomida...

27.1.13

Os filhos de Santa Maria

Deus abençoe os filhos de Santa Maria,
E traga paz a ses pais desesperados...
Deus amenize a dor desses meninos,
Deus conforte o coração dessas meninas,
E recosture seus sonhos desabados...


Deus de força aos filhos de Santa Maria,
E traga luz aos seus pais, inconformados,
E receba em seu Reino esses meninos,
E acolha em seu Reino essas meninas,
Tão novos, tão quase sem pecados...


Deus fique ao lado dos filhos de Santa Maria,
E tome as mãos de seus pais esfacelados...
Deus tome conta desses meninos,
Deus tome conta dessas meninas,
Para que nunca se sintam abandonados...

16.1.13

Plantão no feriado

Adoro dar plantão no feriado,
Ninguém parece doente de nada,
Nenhum menininho gripado,
Nenhuma menininha com garganta infectada.

Adoro feriado. Tudo tão parado....
A Unidade de Saude parece abandonada:
Só gente de branco de um lado pra outro lado,
Nenhuma criança... Cidade esvaziada...

E o plantãozinho, tradicionalmente movimentado,
Parece até um video congelado,
Uma tela de computador travada...

Adoro plantão nesse dia premiado.
É feriado. Todo mundo curado.
Somente a poesia inconformada...

PS: 15 de janeiro. Feriado municipal na minha cidade.
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31.12.12

Votos de ano novo...

Banhos de luz para olhos viciados,
Taças de paz pra corações entristecidos,
Brindes de otimismo para desenganados,
Carinhos para os que se sentem esquecidos,
 
Que possamos assim, juntos, misturados,
E apesar do cansaço, agradecidos,
Seguir em frente, ainda que cansados,
E que continuemos, mesmo enfraquecidos...

Que saibamos viver bem entre os pecados:
Os dos outros e os nossos, leves ou abusados,
Saindo deles fortalecidos...

E cada vez menos descuidados,
Sigamos menos errados,
Mais alinhados, menos distraidos...

23.12.12

Poema de Natal

I
Recorda a Humanidade, neste dia
Os fatos que cercaram Tua chegada:
O Anjo anunciando-Te a Maria,
José quando acolheu a sua amada.
 
De Nazaré a Belém, Tua romaria,
Onde não havia vaga na pousada,
O Teu nascimento numa estrebaria,
A manjedoura, Tua primeira morada...
 
Recorda a Humanidade, entre louvores,
Os Anjos anunciando-Te aos pastores,
Os magos e Herodes, a adoração e o medo...
 
Recorda a Humanidade nessa hora
Os primeiros movimentos da Tua história
Imensa e encantadora desde cedo...
 
II
Desde aqueles dias
Já se vão dois mil anos...
Do mesmo modo
Como os pastores,
Aqui estamos...
Soubemos da Boa Nova
E aqui viemos
Como fizeram os pastores
Há dois mil anos...
E, como os pastores,
Nós nos sabemos
Pobres seres humanos,
Nada possuímos
Nem trazemos,
Como os pastores
Há dois mil anos...
Não viemos,
Como os pastores,
Tão logo e assim que soubemos...
Nós nos atrasamos...
Mas aqui estamos
Na Tua presença e,
Por tão pequenos,
Silenciamos...
E assim, orando,
Nós nos ajoelhamos,
Como os pastores
Nós nos alegramos,
Como os pastores
Há dois mil anos...
 
III
E aqui estamos de mãos vazias...
O que intencionávamos trazer perdemos
Com companhias, com teorias,
Com coisas que valiam menos...
E aqui estamos.
Não trazemos nada.
O que tínhamos ficou pelo caminho.
Nós nos dispersamos pela caminhada
E caminhamos em desalinho...
E aqui estamos. Nada trazemos.
Nem mirra, nem ouro e nem incenso...
Pelo caminho nós os perdemos
E nos restou esse vazio imenso...
E aqui estamos.
Nós nos dispersamos.
Nós nos atrasamos.
Mas aqui viemos.
Já se passaram mais de dois mil anos
E ainda não aprendemos...
Aqui estamos.
Ajoelhados.
De mãos vazias.
Em pensamento.
Aqui estamos, muito cansados,
Diante do Teu nascimento.
 
IV
O ouro que traríamos,
Valioso,
Peça imponente,
Belíssima cor,
Recebeu tantas ofertas
Nesses dias
Que o trocamos
Sem nenhum pudor
Por bugigangas,
Quinquilharias,
Sem garantias,
Coisas sem valor:
Bijuterias,
Peças sem valia,
Pedras sem brilho
E sem nenhum teor...
Gastamos todo
Com ninharias,
Trocamos,
Demos
E esquecemos
De repor...
Hoje não temos
Mais do que a lembrança
Do que já tivemos
E, além disso,
Dor...
E porque gastamos,
E porque perdemos,
Comportamo-nos
Como o mau pastor
Que se descuida
Do que seria
Para cuidar
Como bom cuidador...
Aqui estamos
De mãos vazias,
Nada mais temos,
Nada nos restou...
De mãos vazias
Aqui estamos...
Vazios
Na presença Do Senhor...
 
V
O aroma leve de um suave incenso
Nós preparamos para trazer.
Aspecto doce, odor delicado,
Especificamente preparado
Para o menino que viemos ver.
Foi quando até aqui, pelo caminho,
Outros aromas doces conhecemos,
Por outros cheiros nos atraímos,
Outras essências sentimos,
Outras fragrâncias colhemos
E o aroma leve do incenso suave
Que preparamos foi se perdendo
E como a água quando escorre pelo ralo
Já não nos é possível agora identificá-lo...
_O que é que andamos fazendo?
Por outros cheiros nos seduzimos,
Outros perfumes vulgares,
Azedos, acres, fáceis, sedutores,
Odores oferecidos, maus odores,
Dezenas e centenas e milhares...
E assim o símbolo de tua espiritualidade
Contaminamos em nossa caminhada...
Estúpidos condutores, e descuidados,
E incautos, fomos contaminados
E hoje trazemos a alma infectada...
E o aroma suave do incenso doce
Já não possuímos nesse momento...
Envolve-nos, Senhor, com tua essência,
Ajoelhados, na Tua presença,
Reverenciando Teu nascimento...
 
VI
A mirra, preparamos com carinho
E embalamos cuidadosamente...
O sofrimento é parte do caminho...
A dor é sempre presente...
 
Mas donos de um cuidado tão mesquinho,
De um jeito tão displicente,
Bastou o primeiro copo de vinho
E o primeiro gole amargo de aguardente,
 
E a mirra a derramamos e a perdemos,
A dor embriagada dói bem menos...
Desrespeitamos Teu sofrimento...
 
E hoje aqui, não mais tão embriagados,
Postamo-nos diante de Ti, ajoelhados,
Diante do Teu nascimento...
 
VII
Submersos em trevas e isolados,
Por desacertos nos conduzimos...
Enfraquecidos, tolos, derrotados
Que a nós mesmos nos destruímos...
A sombra, como semente alimentada,
Cresceu e se espalhou, erva daninha...
A Humanidade quedou-se, acinzentada,
Perdeu o rumo, perdeu a linha...
O desafeto e o desamor, unidos,
Tornaram-se gestos diários
Que os homens fracos e os distraídos
Trataram como comportamentos necessários...
E assim, do desamor nasceram a usura,
A ira torpe, a falta de perdão,
O ódio entre a criatura e a criatura
E a rudeza do coração...
Mísseis cruzando os céus, caças insanos,
Botões dizimando nações sem piedade,
Homens selvagens, seres humanos
Vestidos de pura bestialidade...
A morte provocada pela guerra,
O lucro à custa da crueldade,
A sombra assustadora sobre a Terra
Ameaçando a Humanidade...
Flagelo.
Fome.
Miséria.
Medo.
Terror.
Suspeita.
Desamparo.
Dor.
O homem que vive entre feras desde cedo
Fica contaminado por esse horror.
A que chegamos...
Não sobrou nada.
Nenhuma luz.
Só ódio.
Só discórdia.
E uma Humanidade necessitada
Da Tua infinita Misericórdia.
E longe dela, ai de nós pelo que somos.
Pelo caminho ruim que caminhamos.
Pelo que fizemos.
Pelo que fomos
E pelo muito que erramos.
Longe da Tua Misericórdia, nada.
Ranger de dentes.
Choro.
Fome.
Frio.
A Tua Misericórdia é a luz da nossa estrada,
Cesto de peixe que nunca está vazio...
Aqui estamos, pois.
Muito cansados.
Já não suportamos tanto sofrimento.
Aqui estamos, ajoelhados,
Diante do Teu nascimento.
 
VIII
Mas é Natal, e assim,
Ecos dos Anjos
Ainda fazem-se ouvir
Em Seu Louvor...
Ecos que anunciam
A Boa Nova:
 _Eis que hoje vos nasceu O Salvador.
Eis que é Natal.
E as vozes dos Anjos vibram.
Cânticos de Anjos
Em Legião
Dizendo:
 _Hosana...
Nasceu Jesus,
Alegrai, pois,
Vosso coração...
Eis que é Natal
E, por aí, pastores
Ainda se alegram
Com a anunciação...
Vibram e falam
Uns para os outros,
E alguns se postam
Em oração...
Que delicado
O cântico dos Anjos,
Escuta-se ao longe
Um trecho seu:
_Glória a Deus nas alturas
E paz na Terra...
Jesus nasceu...
Santificada essa Boa Nova,
Iluminada essa hora
Como a esperança que se renova:
Toda alegria
Ao mesmo tempo
Agora...
É terna e pura a luz da Tua estrela,
Silenciosa e serena,
E vê quem tem olhos de ver seu brilho,
Como quem entende um poema...
Acolhedora a Tua manjedoura,
Tão pouco e ao mesmo tempo tanto, tanto...
Impressionantemente acolhedora
Como se fosse Teu manto...
Suave e belo o significado
Da Tua mensagem de amor,
Ao mesmo tempo imenso, delicado
E inexplicavelmente acolhedor...
Simples pastores por companhia,
Delicadeza, naturalidade...
De onde trouxeram tanta alegria
E tanta felicidade?
E a música que cantam, como um coro
De várias vozes e grande harmonia?
Como quem cuida um tesouro,
Como se fossem os próprios José e Maria...
A música que cantam... Que serena...
Retalhos inteiros feitos de paz...
Encantador recordar esta cena
Dos Teus primeiros Natais...
E a gruta acolhedora, Teu resguardo...
A manjedoura... Nenhuma ostentação...
Nem luz, nem brilho e, no entanto, nenhum fardo...
Nenhuma pena... Nenhum senão...
A gruta, feita de simplicidade...
Nenhum palácio significa tanto...
Não há vestígios de suntuosidade,
Há, sim, sinais de que é um lugar santo...
 
IX
E dois mil longos anos se passaram...
Aqueles que, como nós, Te conheceram,
Durante esse tempo se desviaram
E após tantos desvios se perderam...
 
E em dois mil longos anos que afastaram
Da Tua presença os que viram e não creram,
Multiplicaram-se os que Te negaram,
Espalharam-se os que não Te receberam...
 
E dois mil anos não foram bastante
Para que nós chegássemos aqui diante
De Ti como em outra época Simeão...
 
Os nossos olhos, endurecidos,
Envoltos em trevas, escurecidos,
Ainda não compreenderam a Tua lição...
 
X
Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo,
Caminho, Verdade, Vida,
Recebe nossa alma vazia nessa hora,
Pela Tua Misericórdia, estremecida...
E permanece nosso pensamento assim:
Magnificado e em lágrimas submergido...
Deixamos lá fora as sandálias, o pó ruim,
Trazemos o pensamento enternecido,
Extasiado com Tua singeleza,
Complexa, imensa e cheia de verdade,
Admirados com a força gigantesca
Da Tua aparente fragilidade...
Trazemos, humilhado,
O coração cansado,
Trazemos, destruído,
O coração sofrido,
Trazemos, derrotado,
O coração errado,
Trazemos, combalido,
O coração doído...
 
XI
Insufla nossa boca
Com Teu sopro santo,
Fazendo-a cheia
Das palavras de Simeão:
Podemos partir,
Desde agora,
Porque nossos olhos
Viram A salvação...
 
XII
Senhor Jesus,
Feliz Natal!
Nos Céus Os Anjos Dizem: _Amém...
Cantando:
_Glória a Deus nas alturas
E Paz na Terra
Aos homens
A quem Ele quer bem...
 
 
Que assim seja...

17.12.12

Compensação

Ainda bem que há sempre outra saida,
Ainda bem que há vida além das crises,
Ainda bem que além das despedidas
Há dias mais tranquilos e felizes,

Ainda bem que além da dor sofrida,
Das desarrumações e dos deslizes,
Há vida, delicada e distraida,
Ar puro para além das hemoptises...

Para além do desespero, a poesia,
Para além da febre alta, a calmaria,
Para além da ventania, a brisa boa...

Compensação, para além do desespero,
Como o porto aguardando o marinheiro,
Como as asas guardando o passaro que voa...
 

16.12.12

O fim do mundo


Se o mundo acabar dentro de uma semana
Eu juro que paro de escrever poesia,
Dai eu fujo pra Copacabana
Um dia antes desse fatidico dia.

Se o mundo acabar (e o mundo não me engana
 Com essa história de que isso não passa de profecia),
Eu vou querer ver isso lá do Sana,
Porque da minha casa é covardia.

Eu vou levar comigo alguns escritos,
Mas nem tantos, não muitos, só os mais bonitos,
Que é pra ver se eu acabo impressionando...

Se o mundo acabar eu não fico. Eu vou-me embora,
Porque a coisa já ta feia e se acabar piora...
É o fim do mundo que está apenas começando...

5.12.12

Plantão dia de Natal

Dezembro. Cansaço do ano inteiro.
Dezembro. Vontade de comemorar.
Dezembro. Mas bem que podia ser janeiro.
Dezembro. Mas bem que podia ser o mar.

Dezembro. E é aí que chove um crianceiro.
Dezembro é mês de criança fervilhar.
Dezembro. E eu aqui, verso pensamenteiro.
Dezembro. Eterno recomeçar.

Dezembro. Ninguém parece sem dinheiro.
Dezembro. Dos meses do ano é o mês mais festeiro,
Pena que demora tanto pra chegar.

Dezembro. E eu daqui sentindo o cheiro
Da ceia de Natal, mas que tempero...
Eu de plantão... Então... Quem quer trocar?

A poesia

Ninguém para atender. A poesia,
Por isso mesmo, vem me visitar.
Ela se sabe boa companhia,
Com ela eu gosto de conversar.

Ninguém para atender: disenteria,
Prurido, piodermite, falta de ar...
Somente a poesia ainda me espia,
Esperando a hora de poder entrar.

Ninguém para atender. Eu cá, sozinho,
Não fosse a poesia em meu caminho,
Confesso não saberia o que fazer

Nas horas aparentemente tão vazias
Das tardes quentes e das noites frias
Quando não há ninguém para atender...
 
 

Dezembro


Dezembro. A cidade movimentada.
Dezembro. De onde veio tanta gente?
Dezembro. A cidade em luzes enfeitada,
E tanto quanto enfeitada, impaciente.

Dezembro. A festa. A ceia planejada.
Dezembro. Papai Noel. Tanto presente.
Dezembro. A excitação da criançada.
Dezembro. Nada lhe escapa, indiferente.

Dezembro. Festa de sinos, guizos, hinos,
De mesas fartas, sabores finos.
Dezembro inteiro saboreado com alegria.

Nem sei porque, caríssimo dezembro,
No meio disso tudo ainda me lembro:
"Não havia lugar para eles na hospedaria"...
 

Sorria, você está sendo filmado

Sorria, você está sendo filmado.
Cuidado, você está sendo seguido.
Repare, você está sendo enganado.
Assuma, você está sendo comprado.
Não grite, você esta sendo vendido.

Silencio, você está sendo ignorado.
Coitado, você está sendo ofendido.
Respire, você está sendo tragado.
Sai fora, você está sendo tapeado.
Disfarça, você está sendo seguido.

Não olhe, você está sendo observado.
Repita, você está sendo instruído.
Aceite, você está sendo moldado.
Reflita, você está sendo cooptado.
Em suma, você está sendo esculpido.

Concorde, você é um teleguiado.
Assine, você tem telhado de vidro.
Confesse, você está vivendo em pecado.
Continência, você é um mané pau mandado.
 Que pena, você tem um lindo sorriso...

21.11.12

A folha

Dou de cara com a folha de papel vazia,
A folha, como se estivesse a me esperar...
Vazia, a folha curiosa que me espia
Como se quisesse me provocar...

Mas sou em quem a provoco com minha caligrafia,
Palavras livres de se rabiscar...
A folha, provocada, quem diria,
Aos poucos, parece, começa a gostar...

Até quando, já suficientemente rabiscada,
A folha me agradece, encabulada,
Mostrando-me esse soneto escrito aqui,

E me sorri, tímida e maquiada,
Em forma de poesia improvisada
Que faz a folha tímida sorrir...

30.10.12

Na casa do meu Pai

Hoje recebi a noticia da partida do nosso querido Mário, esposo da amiga Gabriela por longos e longos anos.
Aos queridos Gabriela Dorothy Carvalho e Mário, agora unidos pela saudade, nosso carinho e nossa poesia.


Na casa do meu Pai há muitas moradas,
Um dia sempre chega a hora de partir,
De seguir viagem por novas estradas,
De experimentar outras formas de existir...

Na casa do meu Pai há muitas moradas,
Por isso esses dias de se despedir...
Despedidas são felicidades adiadas,
Encontros marcados para o porvir...

Na casa do meu Pai há muitas moradas
Em que viver é feito de temporadas,
E onde a misericórdia de Deus não se distrai,

E segue abençoando nossas vidas
Com seu amor que sobrevive às despedidas
Nas muitas moradas da casa de meu Pai...

21.10.12

A palavra compartilhada

A palavra, depois de escrita, não tem dono,
Se fica guardada, não tem serventia,
Guardar a palavra é condena-la ao abandono,
Guardar a palavra é subtrair-lhe a poesia...

A palavra, se guardada, é um Rei sem trono,
É Pedro Alvares Cabral sem a Bahia.
A palavra espalhada perde o sono,
Disseminada, cai na folia...

Compartilhar a palavra é um mandamento
Que permite à palavra o livramento,
Que tempera a palavra com alegria...

Compartilhar a palavra, incondicionalmente,
É permitir-lhe a liberdade inconsequente,
É entregar-lhe a sua carta de alforria...

 

15.10.12

Aos meus professores

Aos meus professores que me ensinaram
A necessidade incessante de aprender,
Aos que insistiram e nunca me deixaram,
Aos que evitaram que eu pudesse me perder,

Aos meus professores que nunca se cansaram
Desde os dias em que aprendi a ler,
Aos que me corrigiram quando me reprovaram,
Aos que me mostraram os caminhos de crescer,

Aos meus professores pelo tudo que fizeram,
Aos meus professores pelas notas que me deram,
Aos que me concederam perceber...

Aos meus professores, pelo que me permitiram,
Aos meus professores, porque não desistiram,
Aos guardiões do saber,

Minha poesia...

14.10.12

A mesma coisa

O que a maioria escreve normalmente,
Eu normalmente escrevo rimando,
Não penso muito, escrevo naturalmente,
E a poesia, naturalmente, vai gostando,

E eu não escrevo a palavra dissidente,
Mas a mesma palavra, só que combinando
A palavra de trás com a palavra da frente
Como se elas estivessem se abraçando.

O que eu escrevo é o que a maioria escreve,
A rima é que faz parecer mais leve,
Mas não há palavra ou significado diferente,

E embora a prosa seja esmagadora maioria,
Eu permaneço fiel à poesia,
Que é como a prosa, só que é mais saliente...

13.10.12

Verborragia

Às vezes eu tento escrever poesia,
Na maior parte das vezes sem saber como começar,
O poema é uma compra sem garantia
Feita por quem não sabe se vai ter como pagar.

Às vezes eu tento, já virou mania,
E sigo. Deixo a letra me levar:
Uma caneta, uma página vazia,
Um tempo livre, e eu começo a rabiscar...

Às vezes o poema sai como eu queria,
Outras, me envolve em sua verborragia
Antes que eu possa perceber ou concordar,

Por isso quase sempre eu nunca sei quem cria
O poema: se eu, que assumo sua autoria,
Ou essa força que eu não consigo controlar...

29.9.12

O tempo

Já não me resta tanto tempo pela frente,
Por isso, devo evitar, daqui pra diante,
Fazer besteiras, como fazia antigamente,
Contar vantagens, como se fosse um gigante,

Já não me resta tanto tempo, e, certamente,
O tempo esgota-se numa velocidade impressionante,
Devo tentar acertar mais que errar, pacientemente,
Tornando a vida assim mais interessante...
 
O tempo vai se esgotando, e eu, percebendo,
Devo errar menos, acertar mais, porque entendo
Que o tempo das irresponsabilidades já passou...
 
Quem sabe agindo assim vou aprendendo
A recuperar o tempo que andei perdendo
E a honrar o tempo que a vida me emprestou...

26.9.12

A rima (resposta a Carol)


Ao ler o poema A Rima (VI) no face, Carol me pergunta no seu comentário: "Para onde vai?"
Então, Carol, pra você a resposta:

Quem sabe Carol? Ela é autônoma e impulsiva,
E não gosta de dar satisfação a ninguém.
A rima é assim, extremamente criativa,
Vem pra cá, vai pra lá, desaparece além,

Por isso, Carol, é como uma água viva,
Que não queima e, pelo contrario, só faz bem,
Mas que do mesmo modo é subversiva,
E imprevisível, como choro de neném...

As vezes fica o tempo todo do seu lado,
E na hora que você tá mais precisado
A rima voa em pensamento pro Japão...

Por isso Carol, pra onde vai? Adivinha...
A rima é um trem que escreve a própria linha...
A rima é assim como é o coração...