23.9.12

Meu fim de semana

Meu fim de semana eu que faço acontecer,
Às vezes cai sábado, outras vezes, terça feira,
Às vezes demora um mês pra aparecer,
Outras vezes dura uma semana inteira,

Por vezes chega sem eu perceber,
De vez em quando, só depois de uma canseira,
Nem sempre é o mesmo, adora se esconder,
Meu fim de semana é assim dessa maneira,

Às vezes cai num fim de semana, outras não,
Às vezes a quinta é que é meu domingão,
Por isso eu vivo sem me preocupar...

Porque meu fim de semana pode ser qualquer dia,
Felicidade é assim: a gente cria
E arruma um jeito dela nunca se acabar...

20.9.12

O homem feliz

Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz
Maiakovski

Eu vi um homem feliz dias atras,
Não tinha cultura, não tinha dinheiro,
Mas com sua felicidade era capaz
De tentar fazer feliz o mundo inteiro...

Eu vi um homem feliz. Feliz demais.
Não lembro se em Campos ou no Rio de Janeiro.
Falava palavras de calma e paz
Porque era um homem feliz e verdadeiro...

Eu vi um homem feliz, faz alguns dias,
Não escondia suas alegrias,
Ao invés disso, as distribuía por ai...

Eu vi um homem feliz e necessário,
Pena que um homem raro e não um homem diário,
Eu vi um homem feliz, que bom que eu vi...



Tenta, garoto...

Tenta, garoto, rabiscar poesia,
Rimar cotia com tia mais um dia, tenta,
Porque rimando assim, cotia com tia,
É assim que a poesia se reinventa...

Por isso tenta, garoto, mais um dia,
Essa poesia que de alguma forma te sustenta,
Deixa que a rima tua alma guia,
Relaxa e confia, garoto, e experimenta...

A poesia, papel sem garantia...
Viagem longa sem companhia...
Talvez por isso pouca gente aguenta...

A poesia que nunca se esvazia...
Tenta, garoto, é pura regalia
Tentar a poesia que nunca se contenta...

O primeiro soneto

Primeiro soneto após a ambulatório...
Sobre o que eu escrevo, pra começar?
Não vou falar de febre ou de supositório,
Palavras assim não são pra poemar...

Primeiro soneto. Aciono meu sensório.
Algumas idéias começam a chegar.
O poema é o que dá vida ao ilusório
Que usa o poema para se encarnar...

Primeiro soneto. Difícil esse primeiro.
Comporta-se como um estranho forasteiro
Que não conhece bem como chegar...

Primeiro soneto. Que bom quando termina...
E essa descarga de ocitocina...
Soneto pronto. Pode relaxar...

Manhã de ambulatório

Passei a manhã inteira atendendo,
Miíase, escabiose, tosse, conjuntivite,
Criança a balde, criança que só vendo,
Criança a rodo, quase sem limite,

Criança espirrando, criança gemendo,
Criança que engoliu uma ponta de grafite,
Criança chorando, criança correndo,
Um formigueiro de crianças, acredite,

Passei a manhã inteira receitando...
Tanta criança doente precisando,
E eu precisando de alguém pra me ajudar...

O turno acaba. Hora de ir embora.
Não tem criança nenhuma mais lá fora...
Tá liberado, Doutor. Pode ir rimar...

13.9.12

Treze milhões

A OMS calcula a existência treze milhões de nascimentos prematuros a cada ano no planeta...

Somos treze milhões de almas apressadas,
Nascidas antes do tempo que era pra ser,

Treze milhões de alguma forma condenadas,
Um numero que não para de crescer,

Somos treze milhões de almas deportadas
Para um cárcere de onde não se vê o sol nascer,
Longe dos braços das nossas mães, desconsoladas,
Com medo do que nos possa acontecer...

Treze milhões de almas aprisionadas
Em casas de acrílico padronizadas,
Sozinhas, entristecidas de tanto sofrer...

Somos treze milhões de almas cansadas,
Precisando demais ser abraçadas,
Treze milhões querendo tanto viver...

10.9.12

Nada


Nada é tão grande que não precise crescer,
Nada é tão puro que não necessite filtrar...
É uma questão de amadurecer...
É uma questão de necessitar...

Nada é tão fácil que não se precise aprender,
Nem tão difícil que não se consiga estudar...
Tudo na vida é uma questão de querer...
Tudo na vida é uma questão de sonhar...

É amanhã o tempo de colher,
Se o ontem foi o tempo de querer fazer,
O hoje é a hora de se semear...

É tudo uma questão de perceber,
De “não esmorecer para não desmerecer”,
Nada é tão pronto que não se possa mudar..." 

2.9.12

É como se deve...


A frase nunca sai escrita errado
Quando é escrita com o coração,
Nada sai feio ou desarrumado,
Nada necessita de correção,

Não existe acento mal colocado,
Ponto estragando a pontuação,
Erro nenhum, nem termo inapropriado,
Pra mim é assim. Tem defeito não.

E se quem escreve bem, corretamente,
E enquanto escreve impecavelmente
Não tira da alma nada do que escreve,

Ainda que sem erros de gramatica,
Escreve letra moribunda e apática...
É o coração que torna a vida leve...

É o coração que escreve sem pecados,
Sem erros nem termos inadequados,
O coração... É assim que a gente deve...

16.8.12

Logo eu...


To tão feliz... E nem sei por que...
Não to apaixonado, não ganhei na loteria,
To rindo a toa, mesmo sem entender,
Uma forma qualquer de idiopatia...

To tão feliz, mesmo sem compreender
A causa dessa felicidade que me asfixia...
Não fui sorteado, não sai na TV,
E ainda falta tanto pra minha aposentadoria...

Mas to feliz... E se fico preocupado,
É que a felicidade às vezes deixa a gente abobado,
E incomoda demais os mal humorados...

Mas to feliz, e pronto. Muito feliz. E ponto.
E é tanta felicidade que nem te conto...
E logo eu, tão cheio de pecados...

A poesia

A poesia de madrugada,
A poesia quando o sono vai embora,
A poesia bem comportada,
A poesia, trem que não demora...

A poesia, às vezes van lotada,
As vezes moça que jura que me adora,
As vezes melhora, as vezes tão sem nada
Que nem adianta insistir senão piora...

A poesia madrugadeira...
Madrugadas assim dessa maneira
Nem se parecem com madrugadas...

A poesia, boa companhia,
As vezes a unica, a poesia,
Que gosta de passear comigo de mãos dadas...

A poesia

A poesia, visita distraída,
Não marca dia nem hora pra chegar,
Às vezes, mal chega e já está de saída,
Outras vezes nem pede licença pra entrar...

Às vezes, como uma mulher desinibida,
Fala de coisas que ninguém pediu pra ela falar,
Outras vezes, silenciosa, retraída,
Demora a dizer, não diz sem pensar...

A poesia, cofre sem segredo,
A poesia, e talvez seu único medo:
O de um dia não ter mais por onde se expressar...

Visita distraída, a poesia,
Inesperada, sem som nem garantia,
Que às vezes chega e me chama pra brincar... 

5.8.12

A minha mãe aos oitenta

Quando todo mundo se cansa, ela é quem segue,
E cresce a cada desafio que ela enfrenta,
Quando todo mundo desiste, ela consegue,
Quando todo mundo desaba, ela sustenta,
 
E quando todo mundo exige que ela negue,
Ela, ao contrario de toda gente, aguenta,
A sua fé faz com que ela não se entregue,
E minha mãe é assim, linda, aos oitenta:

Menina que sonha, que vive o que prega,
Menina que não se cansa e não sossega,
Que sabe como recarregar seu coração,

Menina aos oitenta, e cada vez mais menina,
Que aos oitenta auxilia, orienta, exemplifica e ensina,
Que aos oitenta faz da vida uma lição...
 

3.8.12

A mãe do mundo


A mãe coreana, a mãe tailandesa,
A mãe brasileira, a mãe americana,
A mãe nicaraguense, a mãe chinesa,
A mãe norueguesa, a mãe cubana,

A mãe espanhola, a mãe portuguesa,
A mãe argentina, a mãe peruana,
A mãe indiana, a mãe inglesa,
A mãe sudanesa, a mãe italiana,

A mãe que se entrega pacientemente,
A mãe que se dá silenciosamente,
A mãe que quase se esquece, se doando...

Que Deus a proteja, incondicionalmente,
Que Deus cuide dela pacientemente,
A mãe do mundo, serena, amamentando...

Desistência

Desisto de tentar compreender a espécie humana.
As vezes que tento vejo que tento em vão.
Eu devo possuir a alma insana,
A razão insana, insano o coração...

Desisto, prefiro um poema do Quintana,
Um show do Chico, um violão do João,
É muita estranha a minha espécie. E desumana.
Desisto de tentar explicação.

Espécie que se mata entre a fome africana
E a hipercolesterolemia americana
E não se define entre o marasmo e a indigestão...

Ah, pobre espécie infeliz que não me engana...
Desisto de compreende-la, doidivana,
Ah, pobre espécie em decomposição...

21.7.12

Prece para proteção contra os corruptos


Papai do Céu, protegei os cofres públicos
Das mãos desses meliantes saqueadores
Que dizem defender a lei, mas são corruptos,
Que dizem proteger a lei, mas são salteadores...

Protegei desses, Papai do Céu, que não tem escrúpulos,
Salafrários, covardes, malfeitores,
Protegei desses, Papai do Céu, homens estúpidos,
Que não tem limites nem travas nem pudores,

Protegei os cofres públicos dessa gente
Que anda por ai e, livremente,
Corrói as esperanças da nação...

Protegei os cofres públicos desses bandoleiros
Que vendem suas almas por trinta dinheiros,
Livrai-nos da sua sede de corrupção...

Que assim seja.

28.6.12

O passado, o futuro...

Repensar o passado, planejando o futuro
Como se não houvesse outra opção,
Construindo, com velhos erros, novos rumos...
Que seja essa nossa vocação...

Aprender com o passado a escrever o futuro,
Tornando os dois parte da mesma construção,
Descobrindo possibilidades nunca dantes...
Criando caminhos de SIM onde antes NÃO...

Repensar o passado, refazendo teorias,
Reavaliando protocolos, garantias,
Trazendo à luz novos referenciais...

Planejar um futuro respeitoso,
Para que o bebe de ontem torne-se o idoso
De um amanhã de mais luz e de mais paz...

25.6.12

Sem medidas

O médico é um fingidor,
Finge tão completamente
Que chega a fingir a dor
Nos casos da dor ausente,

Um fingidor compulsivo,
Que tenta inconscientemente
Buscar a cura fingida
Da morte quase aparente...

Um fingidor sem medidas
Que finge ter varias vidas
E finge isso tão bem

Que vive as vidas que finge
Como um tinteiro que tinge
A propria vida que tem...

16.6.12

Quem cuida das mães de UTI?


Quem cuida das mães de UTI
Que esperam por seus filhos, assustadas?
Quem toma-lhes as mãos, frágeis e tremulas?
Quem seca-lhes as lágrimas sentidas?
Quem abranda-lhes as feições apavoradas,
E as suas noites de sono mal dormidas,
E os seus dias inteiros, pensativas,
E as suas horas inteiras, angustiadas?

Quem cuida das mães de UTI
Que oram por suas crianças internadas?
Quem descobre seus medos escondidos?
Quem compreende suas culpas descabidas?
Quem dá voz às suas vozes paralisadas?
E os seus corações que mal se aguentam,
Quem ouve, quem entende, quantos tentam?
Quem dá colo a sua dor desfigurada?

Quem cuida das mães de UTI
Que sabem pensar em seus filhos e em mais nada?
Quem oferece-lhes repouso e abrigo?
Quem dá-lhes um pouco de paz e de agua fresca?
Quem torna suas esperanças renovadas?
Quem mostra-lhes que há luz por entre os sustos?
Quem observa essa suavidade dos seus rostos?
Quem doa seu tempo a essas mães despedaçadas?

Quem cuida das mães de UTI
Que decoram de seus filhos suas risadas?
Que caminham lento por entre monitores,
Que esbarram em incubadoras, distraídas,
Que aprendem palavras estranhas, pouco usadas,
Que tocam seus bebes em berços aquecidos,
Que enxergam detalhes quase despercebidos,
Que cultivam felicidades adiadas?

Quem cuida das mães de UTI
Que vivem pros seus filhos, agoniadas?
Quem explica sua força contagiante
Capaz de faze-las sorrir, mesmo se tristes,
Esperançando as horas arrasadas?
Quem cuida das mães de UTI, mães silenciosas,
Quem cuida das mães de UTI, mães preciosas,
Quem cuida das mães de UTI, mães extremadas?

7.6.12

Amamentar

Amamentar faz bem. O leite do peito
É alguma coisa que beira à perfeição.
Dificuldades? Pra tudo tem jeito...
Problemas? Pra tudo tem solução... 

Porque amamentar é um ato perfeito,
É muito mais do que oferecer alimentação,
É uma mistura entre o que é dever e o que é direito,
Entre o que esgota e o que traz satisfação...

 Amamentar é assim: traz alegrias,
Alimenta teses de Doutorado e poesias,
Faz mães felizes, bebes maravilhados...

Amamentar por dois anos, por mais de dois anos...
Amamentar, esse amor que não faz planos...
Esse paraíso livre de pecados...






3.6.12

O filho pródigo

Juntou o que era seu, tomou o que era seu,
Partiu levando o que conseguiu juntar,
Dissolutamente partiu... E se perdeu...
Arrependido, resolveu voltar...

A dor, nascida das coisas que viveu,
Das coisas que decidiu experimentar,
Foi a mesma dor que de tanto que doeu
Trouxe ele de volta, cansado, para o lar...

Juntou o que tinha e o que pensou que tinha
E quando chegou, destruido, ao fim da linha,
A unica coisa que tinha realmente foi buscar:

O amor paterno, que não se cansa,
O amor paterno que nunca descansa,
O amor, que nunca deixa de esperar...