13.12.11

É hoje...


É hoje o Dia Mundial da Alegria,
Dia de não tolerar a intolerância,
O Dia Internacional da Poesia,
O Dia Nacional de Proteção à Infância,

É hoje o Dia do NÃO à hipocrisia,
Dia de Ignorar a ignorância,
Dia de estar em boa companhia,
Dia de escrever poesia com elegância,

É hoje o dia, amanhã ninguém sabe.
Aproveite hoje antes que o dia acabe,
Que diz que eu estou errado não sabe o que diz.

É hoje o dia. Aproveite.  A hora é essa.
Felicidade às vezes também tem pressa.
É hoje seu dia de ser feliz.

6.12.11

Estrela


Estrela quando anoitece,
Estrela quando amanhece,
Estrela no inverno e no verão,
Estrela na prosa,
Estrela na poesia,
Estrela na mão e na contra mão,
Estrela que não falha,
Estrela que brilha,
Estrela de silêncio e sedução,
Estrela morena,
Estrela diária,
Estrela que mais se parece com um clarão,
Estrela se segunda,
Estrela de sexta,
Estrela de sábado, domingo e feriadão,
Estrela de manhã já bem cedinho,
Estrela iluminando meu caminho,
Estrela entrando no meu coração,
Estrela delicada como a brisa,
Estrela perigosa como a brasa,
Estrela Deusa: não provoca não,
Estrela que é só uma,
Estrela única,
Estrela misteriosa como a mimica,
Estrela como bolha de sabão,
Estrela calma,
Estrela terna,
Estrela eterna,
Estrela de ocasião,
Estrela que pode o que nenhuma pode,
Estrela que vai onde as outras nunca vão...

5.12.11

O poema em silencio

Ninguém por perto, aparentemente.
Sozinho, sem ter com quem conversar,
Como se eu fosse o unico sobrevivente
De um trágico naufrágio em alto mar...

Sozinho. Sem amigo. Sem parente.
Ninguém pra responder nem perguntar.
Longe de tudo, de toda gente,
Nada que tente me fazer falar...

E quando tudo se torna essa quietude,
A poesia toma uma atitude
E a palavra dá um jeito de se fazer escrever,

E escapa, descompacta, da caneta,
Para ir formando o verso letra a letra,
Fazendo o poema nascer...




2.12.11

Sonetinho farmacológico

A febre que não responde à dipirona,
A digitalização e o coração com insuficencia,
O broncoespasmo resistente à hidrocortisona,
O antibiograma e a multipla resistencia,

Usar ou não, e em que dose, a amiodarona,
O fenobarbital e os niveis de consciencia,
A hipersensibilidade à ceftriaxona,
Anafilaxia e adrenalina na emergencia...

O manual de Farmacologia...
Que bom se o Dr. Goodmam* me fizesse companhia
Ou se eu tivesse assistido a mais aulas do Lacaz**...

E eu que achava complicada a porfiria***...
Eu era feliz, hoje eu sei, e não sabia,
Há 30 anos atras...

* GOODMAN & GILMAN: MANUAL DE FARMACOLOGIA E TERAPÊUTICA, o livro clássico de farmacologia desde meus tempos de estudante (e permanece até hoje um clássico)

** Professor Paulo da Silva Lacaz, ilustre Catedrático de Bioquimica na UFRJ, possuidor de profundos conhecimentos e didática absolutamente pessoal de transmitir seus conhecimentos.

*** Uma hemoglobinopatia. As aulas do Professor Lacaz sobre as profirias eram antológicas, tamanha sua facilidade de visualizar e exemplificar em pleno (como se estivesse vendo a molécula. Incrivel) ar as caracteristicas bioquimicas da hemoglobina para espanto de todos.

Outro sonetinho ambulatorial

Começa o dia. A febre não para.
A dor não para. Resiste, insistente:
O edema, a ulcera, a escarlatina, a escara...
A dor tem muitos nomes diferentes...

Começa o turno. Fila logo de cara.
O exantema. A crise. O bebê gemente.
Penicilina procaina ou ampi e gara?
Anticonvulsivante? Antiácido? Compressa quente?

Começa o preenchimento da ROA vazia.
O longo desfile da dor durante o dia.
Os vários nomes da dor se apresentando.

Começa o dia da dor que não termina
Com analgésico nem com cefalotina
Enquanto o soneto passeia, observando...




1.12.11

Sonetinho ambulatorial

Pode entrar o primeirinho. O que é que ele ta sentindo?
Deita na cama. Abre a boca. Assim. Não precisa chorar.
Quando é que isso começou? Onde mais que ta saindo?
Tá dando pra ele o remedio que eu pedi pra voce dar?

O próximo. Oi. Boa tarde. Ta com febre? Ta tossindo?
Ta com o nariz entupido? Catarro? Falta de ar?
Ta coçando? Ta ardendo? Ta doendo? Ta sumindo
Depois daquela pomada que eu mandei manipular?

Manda entrar aquelezinho no colo da mãe, gemendo.
Oi, mãezinha, boa tarde. O que mais que ele ta tendo?
Tou pedindo um Raio X de tórax pro seu nenem...

Receitas. Carimbos. Gotas. Suspensão. Supositório.
Como são longas as tardes dos dias de ambulatório.
Por hoje é só. Por enquanto. Até semana que vem...

30.11.11

Às mães que tem seus filhos internados...

Às mães que tem seus filhos internados,
Trazendo seus corações diminuidos,
Seus sonhos, por assim dizer, danificados,
E os seus sorrisos, subtraidos...

Às mães de filhos hospitalizados
Entre injeções, punções e comprimidos,
A esses passaros de luz aprosionados,
A esses pedaços de paz perdidos,

Às mães que vivem a dor dos seus rebentos
Entregues a exames e medicamentos,
Reféns da doença e da internação,

Que Deus permaneça ao seu lado nesses dias
De arritimias e ultrassonografias,
E hipernatermias e hipotensão,

Que Deus permaneça ao seu lado nessa hora
Do choque, da palidez e da pletora,
Da drenagem da bolha, da estertoração,

Que Deus permaneça ao seu lado nesse instante
Da insuficiencia respiratória sibilante,
Da necessidade de ventilação,

Que Deus permaneça sempre ao seu lado
Nesses dias de prognóstico reservado,
De duvida, de dor e de aflição...

21.11.11

Facebookiana

No que voce está pensando? (pergunta o facebook)
Estou pensando numa poesia
Porque adoro postar de madrugada,
Ainda mais quando a madrugada é fria
E, porque fria, crua e abandonada...

Estou pensando se eu conseguiria
Fazer poesia sem pensar em nada,
Fazer poesia sem ter alegria,
Ou sem estar com a alma atormentada...

E o face quer saber: no que eu estou pensando?
Não estou pensando, face, estou tentando
Fazer poesia como quem não pensa...

Como quem vai, com a noite, madrugando,
Enquanto o dia vai se aproximando
Como quem entra sem pedir licença...

18.11.11

A palavra

Eu vou atrás da palavra camuflada,
Dessas que se enturmam sem se apresentar,
Como se desejassem dançar fantasiadas,
Como se tivessem necessidade de dançar...

Eu vou atrás da palavra disfarçada,
Dessas que falam como se tivessem nada pra falar,
Dessas que são ricas, mas como se não possuissem nada,
Eu vou atrás dessa palavra até encontrar...

E quando enfim essa palavra for localizada,
Eu vou cuidar para que ela seja bem cuidada
E esteja sempre por perto, e venha me visitar,

E assim essa palavra vá ficando acostumada,
Transformando-se em palavra descansada,
E queira nunca mais me abandonar...

14.11.11

Amanhecer

Onde a palavra exata pra poesia?
A rima pro soneto? O verso? O tema?
Na página em branco nenhuma garantia,
Nada que permita concluir um poema...

Onde a palavra que se escreveria
Pra fazer o poema valer à pena?
A cabeça tão cheia, a página tão vazia,
Quem sabe resolver esse problema?

Acordar a palavra que dorme escondida
Trazendo vida à página sem vida,
Permitindo ao verso respirar aliviado,

Ganhar de surpresa uma rima oportuna
E o poema, que era sem palavra alguma,
Respira, amanhece, feliz, acordado...


31.7.11

Sonhar 

É colocar a mão desnuda em fechaduras,
Ir destrancando portas bem trancadas...
As vezes abrindo salas muito escuras,
Outras vezes varandas ventiladas...

Nos mete as vezes em perigosas aventuras,
As vezes em delicadas enrascadas...
É o antidoto ideal pras amarguras,
É o bom descanso pras dores mal curadas...

É o mais necessario dos terriveis riscos,
O mais saboroso e suave dos petiscos,
A mais amarga e crucial das alegrias

Onde nada é intocável ou é impossivel,
Ou impensável, onde nada é desprezivel,

Nada mais necessário em nossos dias...

25.7.11

As 12000 mulheres
(Em 2010 12000 mulheres foram presas nos EUA por amamentar em publico)

12000 mulheres aprisionadas,
Tratadas como se fossem criminosas,
12000 mulheres desrespeitadas
Por 12000 acusações maldosas...

Como se fossem 12000 depravadas,
Perturbadoras da ordem, perigosas,
12000 mulheres sentenciadas,
12000 ordens de prisão maliciosas...

Como se o fato de possuirem glandulas mamárias
Fosse razão para as fazerem presidiárias,
Fosse argumento para trancá-las na prisão...

12000 mulheres humilhadas...
12000 sentenças contaminadas...
12000 motivos para lhes pedir perdão...

8.7.11

Ao bebe que viverá 100 anos
(Para o professor Marcus Renato e os participantes do Congresso Virtual de Aleitamento)

Proteção para o bebe que viverá 100 anos,
Para esse bebe centenário, proteção,
Para que os bicos não o afastem dos seus planos,
Para que as fórmulas não distraiam sua vocação,

Proteção para esse centenário entre os humanos.
Que faça 100 anos sem travar na contra-mão
Assediado por bicos ortodonticos insanos,
Desacatado por latas de pura perdição...

Proteção para o nosso bebe centenário
Contra a formula insana, contra o bico ordinário,
Contra o desmame precoce e sem razão...

Para que viva 100 anos livre da tortura
Da boca disforme, do bico sem cura,
Pelo leite materno ofertemos proteção...

17.6.11

O Ministerio da Saude


O Ministerio da Saude adverte:
Quem não se diverte não é feliz.
Divirta-se, portanto, todo dia,
Vestindo-se com retalhos de alegria,
O Ministerio da Saude apóia a poesia
Porque a poesia é mais iluminada que Paris.
O Ministerio da Saude admite:
O mau humor é mais contagioso que a meningite,
A negligencia, mais inoperavel que o tumor,
A displicencia deixa mais seqüelas que o derrame,
A tsunami é menos perigosa que o cinismo,
O alpinismo é menos arriscado que que a mentira,
A ira é a felicidade com defeito,
Bebe contente mama mais peito,
A ingratidão invariavelmente vira dor...
O Ministerio da Saude orienta:
A mãe que não amamenta merece apoio
Porque nem tudo que parece trigo é trigo,
Tem ramo que parece trigo, amigo,
E na verdade é joio...
O Ministerio da Saude adianta:
Ninguém colhe o que não planta,
Ninguém planta o que não traz no coração...
O Ministerio da Saude não discute:
O bom humor é mais delicioso que o iogurte,
O amor é a tábua da salvação...

11.6.11

A lata
Após o Curso de Monitoramento da NBCAL em Campos.
Para Fabiola, Jeanine e Rosana.

É de vaca o leite em pó armazenado
No interior metálico da lata,
É pó de leite, industrial, desidratado,
Mas nada mais do que um leite que é de vaca...

Ligeiramente doce e amarelado,
Independente da marca,
Parece inofensivo e bem-comportado
O leite de vaca em pó que não faz nata,

Mas que ameaça a saúde, o crescimento,
O vinculo, a boca, o desenvolvimento,
Castigando o bebe de uma maneira inteira...

A lata e sua utilização inadequada...
A lata e sua propaganda inapropriada
Desmamando a criança brasileira...

7.6.11

A Barbie siliconada
(a industria de brinquedos criou uma edição da Barbie com silicone)

Olha só pra Barbie siliconada:
Atá aonde vai a estupidez humana?
Quem é que ela encanta? Quem é que ela agrada?
Quem ela convence? A quem ela engana?

A Barbie siliconada. Adulterada.
Como se fosse uma pirua hollywoodiana.
Olha pra Barbie siliconada, coitada...
Meu Deus! Que brincadeira mais insana!

Não sei se turbinada ela tem um nome
Que a identifique: Barbie com silicone.
O peito sem respeito da boneca.

Que Deus proteja dela a nossa infancia,
Desalinho travestido de elegancia,
Contaminando nossa brinquedoteca...

6.6.11

A volta do pecador

O pecador voltou sem nunca ter partido,
Está de volta, por isso, o pecador,
São muitos os pecados que tem cometido,
Mas isso não o tornou um desertor...
 
Voltou o pecador sem nem ter ido,
Talvez para cuidar da própria dor,
Ser pecador não significa ser bandido,
Ninguem é inteiramente sem valor...
 
Por isso a volta, quase arrependido,
Do pecador distraido,
Mas que de seu pecado é sabedor...
 
A volta do pecador desinibido,
Desalinhado, auto-redimido
Por um soneto do qual é co-autor...

29.4.11

Eu toco sambinha
Para Vitor

Eu não toco violão. Eu toco sambinha.
Eu bem que adoraria saber tocar violão,
Mas eu só sei uma mesma batidinha
Como se eu fosse discipulo do João...

Tocar violão é uma vontade minha,
Mas eu só toco sambinha. Mais nada não.
É como se fosse uma mesma ladainha.
É como se fosse uma mesma oração:

Chega de Saudade. Injuriado. Eu vim da Bahia.
De volta ao samba. Vai passar. A Rita. Ligia.
Exaltação à Mangueira. Cartola. Adoniran.

O mesmo ritimo sempre. Como um missionário.
Como um peixinho dentro de um aquário.
Como se meu coração fosse um tantan...

Por isso não me peça por Lobão,
Adriana, Pato Fu, Legião, Peninha,
Adoro, mas não sei tocar Legião,
Ou toco, mas não sem perder a linha...

Por isso não me pergunte por Barão,
Renato Russo, Djavan ou A Galinha Pintadinha...
Sou samba de uma nota só, sou Samba do Avião,
Samba do Nelson, samba de Pixinguinha.

Assumo que eu não toco violão. Bem longe disso,
Eu toco sambinha: Sem Compromisso,
Eu toco sambinha: Mulata assanhada...

Toco sambinha como faz um batuqueiro,
Sou natural daqui do Rio de Janeiro,
Eu toco sambinha, mais nada...
Poema aéreo (entre Rios)
Escrito na manhã de 28/04, durante o voo entre Porto Alegre e Rio, parte da minha viagem de volta de Pelotas para Campos.

Entre o céu de Porto Alegre e o do Rio de Janeiro,
Sobre a Terra imensa que ficou distante,
Rascunho esse verso passarinheiro
Escrito antes da escala em Navegantes...

Parece que daqui da pra ver o mundo inteiro.
Depois de hoje as nuvens nunca mais serão como antes.
Como é bom escrever um verso voadeiro
Como se as nuvens fossem Espumas Flutuantes...

Entre o céu de Porto Alegre e o céu do Rio,
Um verso que eu escrevo... E enquanto eu crio,
O Rio de Janeiro se aproxima...

Fica distante o céu de Porto Alegre
À medida em que o verso se descreve
E eu fico espiando daqui de cima...

1.4.11

Madrugada

Em plena madrugada, atendimento...
Parece que a doença nunca para...
A febre é plena, madrugada adentro,
Parece que a saude é coisa rara...

Em plena madrugada o batimento
Das aletas nasais, a dor, a escara,
Desesperança, descontentamento,
Esse padecimento que não sara...

Em plena dor respira a madrugada
Como se a morte espreitasse na calada
Da noite a sua vitima distraida...

Madrugada plena, dor escancarada,
Pedaço de vida sem sono, amedrontada,
Pedaço de asa quebrada da vida...

24.2.11

Carta a uma mãe

Prezada senhora,

Bom dia.
Permita-me usar um pouco de poesia
Para uma quase nem tão breve assim explicação:
Se um dia desses acontecer
De eu estar na Emergência de plantão,
E nesse dia você trouxer a mim seu filho
Com febre alta de pneumonia
E tosse cheia de estertoração,
E ainda palidez, taquisfigmia,
Inapetência e desidratação,
Se nesse dia eu, respeitosamente,
Chamar você pelo nome,
Mas não por um nome qualquer,
Por qualquer nome,
Mas pelo seu próprio nome e sobrenome,
Pronunciado com exatidão,
Letra por letra, palavra por palavra,
Pronuncia exata e sem abreviação,
E se nesse dia dessa pneumonia
Em que eu chamar você, sem falhas de edição,
Pelo seu próprio nome, e por extenso,
Sem erros de dicção,
Bem nesse dia, e justo nesse dia,
Por pura estupidez e falta de noção,
Eu não olhar para o medo do seu rosto
E nem perceber o tremor da sua mão,
E não notar seu esposo aflito e atonito
Ou a lágrima nos olhos do outro irmão,
Não entender seu coração desabalado,
Nem me abalar com sua tensão,
Se nesse dia de pneumonia
Voce chorar
E eu nem notar a razão,
E mesmo que eu chame você pelo nome
E sobrenome, sem abreviação,
E mesmo que eu acerte na receita,
No diagnostico,
E na segurança com que eu avaliar
A possibilidade de internação,
Prezada Senhora, daqui eu pediria
Que nesse dia
Você não acreditasse na minha adequação,
Na minha fala burocraticamente fria,
Na minha frieza cheia de educação,
Na minha imperdoável hipocrisia,
Na minha falsa dedicação...
A educação inventou a poesia,
Mas o verso é da seguinte opinião:
O poema não é feito das suas rimas,
O poema é feito da sua empolgação...
Palavra pronunciada e não sentida
É como palavra sem vida,
É vida sem pulsação...
Então, nesse dia.
De tratamento politicamente correto,
Minha senhora,
Eu peço agora,
Não acredite em mim não:
Minha alma sofre de paresia,
De anestesia o meu coração,
Por isso as vezes a palavra fria,
Como uma caixa vazia,
Como se traduzisse solidão...
Mas se de uma outra vez,
Num outro dia,
Por conta de um episódio de disenteria
A gente se encontrar novamente e ai então
Eu perceber sua lagrima abafada
E o pavor que você tem de infecção,
E eu me sensibilizar com a sua voz pesada,
Trancada e gaguejada com razão,
Se eu esperar pra que você se acalme
Antes de continuar a orientação,
E tentar explicar a você com calma os riscos
No caso de uma desidratação,
Levar você até a Enfermaria,
Apresentar a você a Dra. Maria,
Nossa chefe do setor de Nutrição,
Se nesse dia de disenteria
Eu não deixar você até que você sorria,
E acalme a sudorese e a agitação,
Posto que uma boa conversa, segundo a medicina,
Faz mais efeito às vezes que a nifedipina
Para a hipertensão,
E se eu tratar seu esposo com respeito,
E o irmãozinho do seu filho com atenção,
Se eu perceber a lágrima do seus olhos,
Se eu me incomodar com o tremor da sua mão,
Se eu não disser: “para de bobagem,
Parece criança com medo de injeção
E ao invés disso eu repetir: “Coragem,
Viver é um teste de superação”...
Se nesse dia eu espantar seus medos
E contornar sua preocupação,
Se nesse dia, minha senhora,
Por conta certamente da danada da psora
Eu fugir da linha
E acabar chamando você de Mãezinha
Ou de qualquer outro nome que a equivalha,
Perdoa essa minha falha imperdoável,
Supera esse meu costume incorrigível,
E livra-me da condenação inapelável,
Eu sou terrível...
E acredite:
Justo nesse dia,
Ainda que falte nome e sobrenome,
Ainda que eu atropele a dicção,
E troque a preposição pelo pronome.
Não acredite nessa desatenção.
É que não prestei atenção no papel, minha senhora,
Prestei atenção no seu coração...
E ai toda Maria, toda Mara,
Toda Sebastiana e toda Nelly,
Toda Cristal, toda Dulce e toda Lara,
Não são Melissa pra mim, nem são Michelle,
E não importa se morena ou loura,
E tanto faz o seu tom de pele:
É a mesma mulher desesperada
Que independente da forma como é chamada
Quer ser afagada, acolhida,
E bem tratada,
E mais do que ser bem tratada, ser ouvida,
E mais do que ser ouvida
Ser cuidada...
Tudo mais em verdade são ruídos, bem disse Carlos Drummond,
Tudo mais são como musica sem som.
São conjecturas pra sábios,
São páginas para alfarrábios
E compêndios de psicologia...
Tudo mais em verdade são palavras
Para enriquecer as teses de doutorado
Que vêem pecado onde não há pecado
E contaminam o cuidado com teoria...
Por isso, minha senhora,
Se algum dia,
Por pneumonia ou disenteria,
Eu atender seu filho no plantão,
Presta atenção nos meus olhos
E repara pra onde volto minha atenção:
Se para os dados formais do prontuário
Ou para as vozes do seu coração,
Se pra seu nome correto e sobrenome
Ou pra seu medo de infecção,
Se pra sua vida e pra vida de seu filho
Ou se pras teses de dissertação...
Presta atenção nos meus olhos nesse dia
E tire a sua própria conclusão...
Tudo mais, como o Drummond diria,
São como concha vazia...
Coisa sem cor nem significação...

10.2.11

A trajetória

I
No inicio era um sonho,
Risonho.
No inicio era um sonho
Contagiante.
No inicio era o inicio do inicio
Daquela data em diante.
Mas aquele inicio,
Como todo inicio,
Foi dificil
Como qualquer inicio.
E, como qualquer inicio,
Desafiante.
No inicio era um sonho
Medonho,
Mas era um sonho,
No inicio,
Brilhante.

II
Passados os primeiros dias
Após os primeiros planos
Colecionadas as primeiras alegrias,
Contabilizados os primeiros desenganos,
O tempo seguiu
E o que era um tiquinho cresceu
A criança, ativa,
Virou gente grande,
Adolesceu.
Depois dos primeiros dias,
Apos os primeiros danos,
Desfeitas as primeiras fantasias,
Como acontece, geralmente, com os humanos...

III
Chegaram
As primeiras chuvas
Os primeiros raios,
As primeiras perdas,
Os primeiros ventos,
As primeiras provas,
As primeiras quebras,
Os primeiros trancos
E tormentos...

IV
Depois chegaram mais tempestades:
O tempo ruim nunca vem sozinho...
Uns julgam ser fruto da fatalidade
Despertar dentro de um redemoinho...

V
No inicio era um sonho
Risonho,
Inocente,
No inicio era um grande futuro...
E as nuvens pesadas no céu
De repente
Mostrando pra gente
O tempo escuro...

VI
E uma hora as coisas começaram a ficar feias
As caixas das contas a vencer, mais cheias,
As do que havia pra receber,
Cheias de não...
E nessa hora de indefinição
Uns desistiram,
Outros nem voltaram,
Alguns se julgaram
Cobertos de razão,
Muitos mentiram,
Alguns se aproveitaram,
Uns poucos nem retornaram,
Passado o verão...

VII
Mas houve uns poucos
Que aprenderam a nadar na contra mão,
Acostumados a transformar o NÃO em SIM
E a superar, assim, qualquer senão...
Permaneceram,
Ficaram,
Não reclamaram
Nem esmoreceram,
Não desmereceram,
Lutaram,
Perderam muito
Mas não se perderam...
Seguiram, sem questionar, seu coração...
Houve esses poucos
A quem poderiamos chamar:
Superação...
Não desistiram.
Sofreram.
Não imaginem voces o quanto choraram...
Mas não perderam sua convicção...

VII
Havia muita chuva ainda por vir,
E muito atalho ainda pra pegar,
Muita luta pra não deixar a peteca cair,
Só não havia tempo pra se lamentar...
Só não havia tempo pra desistir,
Só havia uma palavra: superar...
Era preciso, na crise, prosseguir,
Na crise, era preciso se organizar...
E as vezes, no meio da calmaria,
Quando parece que acabou a ventania,
E tudo em volta parece se ajeitar,
Parece que, exatamente nesse dia,
O destino, carregado de ironia,
Arruma um jeito de atrapalhar
O resto que ainda resta de fantasia,
O força que ainda resta pra sonhar,
Traz sempre um jeito de incomodar,
E incomoda,
Como se colocasse a gente no centro da roda
E começasse a rodar,
E ai, no meio da poesia,
Tem sempre um verso que não consegue rimar...

VIII
Chega uma hora
Em que a palavra é desacreditada,
A hora em que o desespero
Faz toda gente desesperançada,
Chega uma hora
Em a história inteira parece estar contada,
E pro futuro
Uma palavra apenas reservada:
NADA...
Chega uma hora
Em que a esperança parece estar perdida,
A coisa tão sonhada, destruida,
A fé, mal construida, espatifada...
Chega uma hora
Que é uma hora
Danada...

IX
Era preciso um coração valente
Vestido de fios de luz e dor,
Um coração confiante, resistente,
Vestido de fibas de destemor,

Um coração feito completamente
De amor imenso, o mais genuino amor,
Um coração contagiante e ardente,
Era preciso um assim, desbravador,

Um coração pra conduzir a gente
Que desandava, descrente,
Como um pedaço de nada, sem sabor...

Um coração confiante e coerente,
Um coração que nunca se mostrou ausente,
Que nunca se tornou um desesrtor...

X
E hoje aqui estamos
Sobrevivemos às tempestades...
Não nos rendemos às desconfianças,
Não nos curvamos às dificuldades...
Não aderimos às desesperanças...
Não confirmamos as fatalidades...
Aqui chegamos.
Existe um sonho esperando ser sonhado.
Existe um futuro para ser construido.
Existe uma lição aprendida no passado.
E o dia apos dia para ser aprendido.
Mas cá estamos.
De alguma forma, não nos dispersamos.
De alguma maneira, não nos destruimos.
Na data de hoje nos reencontramos.
Comemoramos a alegria que sentimos
Porque de alguma forma não entregamos
A história que de algum modo construimos.
Cansados, mas felizes, aqui estamos...
Felizes, mas dispostos, assumimos...
As lutas que ate agora nós travamos
Que seja o combustivel de que necessitamos
Para crescer...
É só o inicio. Mal começamos.
É só o inicio. Aqui estamos.
Depende de nós para o resto acontecer...

XI
O reinicio de um sonho,
Risonho.
Um sonho que permanece
Contagiante.
No inicio era o inicio do inicio,
Agora o reinicio
É dessa data em diante.
E esse reinicio,
Como todo reinicio,
Não vai ser facil
Como qualquer sacrificio,
Mas, como qualquer reinicio,
Vai ser um reinicio
Desafiante.
Esse reinicio é um sonho
Medonho,
Mas é um sonho
Com reinicio
Seguramente
Brilhante.

Dedicado à minha mãe, Hilda Mussa Tavares, de coração valente, e à sua perseverança na condução acertada à frente do Colegio Anglo Campos.

6.2.11

A metade do caminho

Se voce obedecer todas as regras vai perder a diversão,
Se desobedecer todas, vai correr perigo...
É preciso equilibrar-se entre a paz no coração
E aquele friozinho no umbigo...

É desafiador caminhar na contra-mão,
É patético viver sob um abrigo...
O que tempera a vida é a emoção,
Saber reconhecer o joio e o trigo...

É sempre assim: a metade do caminho...
De um lado a brisa, do outro o torvelinho,
Adrenalina pura e calmaria...

Seguir em bando ou decidir sozinho
Se bebe agua ou se bebe vinho
Escrevinhando a própria poesia...




1.2.11

Constatação

Uma andorinha só não faz verão,

Um verso sozinho não sabe como rimar,
Um coração quer sempre outro coração
Para abraçar...

31.1.11

Para Miss Charada

Vc diz: Me chame de quantos nomes vc quizer... pois todos os dias sou uma mulher diferente...
Li e gostei disso, e escrevi esse soneto pra voce:

Vou te chamar de moça delicada,
De moça especial logo em seguida,
Uns dias te chamarei moça estressada,
Outros dias, moça feliz da vida...

Domingo à tarde, moça comportada,
Segunda feira, moça bem vestida,
Sabado à noite, moça de balada,
Diariamente: moça crescida...

Vou te chamar de moça que me agrada,
De moça que não precisa dizer nada
Pra se tornar essa moça tão querida...

Ah, moça que parece um conto de fada...
Ah, moça misteriosa, Miss Charada...
Ah, moça que me deixa sem saida...

21.1.11

O amor

Estrada estranha, atraente estrada,
Mal desenhada, mal definida,
As vezes de aparencia abandonada,
Algumas outras, interrompida...

Estrada estranha, sem ponto de entrada,
Estrada sem atalho de saida,
As vezes alimenta, outras, desagrada,
E as vezes dá sentido à própria vida...

Estranha estrada, estreita e desejada,
Temida, distraida, romanceada,
Desperdiçada, evidente, perseguida...

Estranha estrada, o amor, desenganada,
Sozinha, mesmo quando acompanhada,
Estranha estrada, o amor, desconhecida...

20.1.11

A necessidade
(inspirado no poema Versos Intimos de Augusto dos Anjos)

O homem, que nessa Terra miserável,
Vive entre feras, sob a estupidez,
Sujeito à discriminação abominável,
Escravo da usura e da insensatez,

Este mesmo homem, que nessa Terra instável
Acostuma-se a varias dores de uma vez,
E sofre, como sofre o colon irritavel,
E faz sua morte, sem perceber que a fez,

Este pobre homem, da solidão inseparável,
De uma forma estranhamente inevitável,
Já não confia em mais nada, e nada espera...

E rendendo-se, esse homem, à cruel fatalidade,
Sob o dominio da brutalidade,
Sente a necessidade de também ser fera...   

31.12.10

Conte com a gente

Em 2011 conte com a gente
Pra estudar,
Pra discutir,
Pra discordar,
E viver,
Pra concordar,
Pra prosseguir,
Pra amamentar,
Pra nascer,
Pra apaziguar,
Pra insistir,
Pra fomentar,
Pra crescer,
Pra provocar,
Pra fugir
Quando ficar
For morrer,
Conte com a gente em 2011
Do mesmo modo que em 2010,
Com os mesmos olhos,
Com as mesmas mãos,
Com os mesmos pés...
Conte com a gente então,
O resto é nada,
Viver é compartilhar
Sem possuir,
Quem pensa que proprietário
É um grande otário,
O sinonimo de ter
É dividir...
Por isso em 2011
Conte com a gente,
Mesmo que triste,
Desesperado,
Quero chegar a 2012
Menos cansado,
Mas sei exatamente que pra isso
Preciso trabalhar mais
Contra o desanimo,
Contra o cansaço,
Contra o rancor,
Que é o ladrão da paz...
Então é assim:
Conte sempre comigo.
Amigo que é amigo
Não disfarça...
Feliz 2011...
Não perca a cabeça...
E nem a poesia...
E nem a graça...

25.12.10

Autonomia
(para Camyla)

O coração não obedece a horário:
Não tem que ser hoje, não tem que ser amanhã,
Não segue um roteiro, como um aeroviário:
Colombia, Bruxelas, Amsterdã...

Não tem medida, nem regra, pouso ou páreo,
Tentar domina-lo? Tentativa vã...
Desafia o império, escapa ao corsário,
Transcende à fé budista e à fé cristã...

O coração tem um nome: autonomia.
Segue seu rumo sem fio guia,
Descobre e traça o tom da própria estrada...

Redige a sua própria carta de alforria,
É seu próprio credor, fiador e garantia
E a vida inteira vai nele impregnada...

 

24.12.10

Pedido em forma de poeminha para Splanchnizomai

Prezada leitora atenta e verborragica,
Observadora e simpática leitora,
Tão realista que chega a ser dramática,
E objetiva, porque observadora,

As vezes tento entender a sua tática
Como um aluno que tenta aprender com a professora,
Mas logo perco o folego, como a criança asmática,
E falho, como a feiticeira sem vassoura...

Por isso, minha leitora extravagante,
Permita-se, da data de hoje em diante,
De alguma maneira ser localizada:

Um mail, um blog, um flog, um facebook,
Um msn, uma comunidade do orkut,
Pra que as minhas respostas possam ser postadas,

E assim, por entre replicas e treplicas,
Possamos trocar conversas quilometricas
No reino das frases inesgotadas...

23.12.10

João 3,16

Porque Deus amou o mundo,
Mas amou,
Não apenas simpatizou
Ou gostou muito,
Ou demonstrou alguma outra forma qualquer
De afinidade,
Mas amou o mundo,
Não este pedaço
Ou aquele,
Ou esta parte
Ou a outra,
Mas o mundo
Inteiro,
Sem paredes,
Sem muralhas,
Sem fronteiras,
Amou o mundo
Não de um amor passageiro,
Egoístico
Ou fugaz,
Mas amou de modo absoluto,
Completo
E único,
De tal maneira
Que deu a ele,
Mas deu,
Não apenas prometeu
Ou mostrou que tinha,
Ou emprestou,
Ou tão somente contou,
Mas deu a ele O Seu Filho,
Não o amigo do Seu Filho,
O primo próximo,
O filho do Seu Filho,
Mas Seu Filho,
Não o mais novo,
Não o mais forte,
Não o mais bonito, mas
Deu a ele o Seu Filho unigênito
Para que todo aquele,
Não um ou outro,
Ou este ou aquele,
Ou uns mais, uns menos,
Ou uns nem,
Mas, indistintamente
E sem reservas,
Todo aquele que nele crê,
Não que fala em nome Dele,
Não que prega o nome Dele,
Não que escreve o nome Dele,
Não que arrebata multidões em nome Dele,
Não que grita: Senhor, Senhor,
Mas todo aquele que Nele crê
Não pereça,
Ainda que enfraqueça, não pereça,
Ainda que caia,
Ainda que padeça, não pereça,
Ainda que sofra,
Ainda que esmoreça, não pereça,
Ainda que amargue,
Não pereça
Mas tenha vida,
Não glória,
Metal,
Poder,
Ou honrarias de Estado,
Não fama,
Nome,
Prestígio,
Ou bem estar social,
Mas vida,
Não pequenina,
Passageira,
De efemeridade
Cercada pelas paredes do tempo
Imperdoável,
Mas tenha vida
Eterna...

1.12.10

Afinidades

Eu me dou bem com as faltas de importancia,
Com os desinteresses em geral,
Com as coisas simples, sem relevancia,
Comuns, como biscoitos de agua e sal,

E vejo, onde ninguem ve elegancia,
Rabiscos de elegancia sem igual,
Eu me dou bem com o vento desde a infancia,
E com a formiga, com a folha, com a roupa no varal...

Não vivo a perseguir titularias...
Em vez de titulos, as rimas das poesias
Sabem fazer melhor a minha cabeça...

Eu me dou bem desde miudo entre as miudezas...
Sinto-me em casa entre as delicadezas...
Tomara Deus, por fim, que eu nunca cresça...

26.11.10

A espera (o poeta)

Passei uma hora tentando, esperando,
Arrodeando o poema por uma hora e meia,
Rabiscando um verso inutil, mas tentando,
E inalcançável, como a lua cheia...

Tentando me aproximar, me arrodeando,
Como se eu fosse uma teia,
Como quem nem sabe a letra e vai cantando,
Inconsistente, como um grão de areia...

E ali, por essa mais do que uma hora,
Como um viajante que não vai embora
Mesmo sem ter a chave do portão,

Tentei o poema com fibra de insistente,
Sonhando em recebe-lo de presente,
Ou por piedade, ou sinal de gratidão...
A espera (o poema)

O poema tentou uma hora me esperando,
Ou me arrodeou por uma hora e meia,
Tentando, sempre em silencio, mas tentando,
Inconfundivel, como uma lua cheia...

O poema, por mais de uma hora me arrodeando,
Como se fosse uma teia,
Cantando seu verso em silencio, mas cantando,
Imperceptivel, como um grão de areia...

E ali, por essa mais do que uma hora,
Como um carteiro que não vai embora
E permanece próximo ao portão,

O poema me esperou, verso insistente,
E trouxe-me esse soneto de presente
Que eu tento registrar, por gratidão...

30.10.10

Um poeminha pra Suelen

Eu te faria um poeminha assim
Escrito todo de palavra boa
Dessas palavras que se espalham num jardim,
Ou caem das asas de um passaro quando voa,

Eu te faria um poeminha assim
Porque tu és um docinho de pessoa
Que faz aparecer palavra em mim
E eu tento rabiscar um verso a toa

E eu te faria esse poeminha
Feito de letra delicadinha
Um verso pra tentar te fazer um bem

Um poeminha bobinho, eu te faria
Feito de vento, de luz, de fantasia,
Feito de palavrinha de nenem…

27.10.10

O seu sorriso
Para Camila Mendez

Não é somente um tempero pro seu rosto,
É um verso doce, sem tradução,
Não tem pecado, exala bom gosto,
Enigma que não tem explicação. 

É como um pássaro sempre bem disposto,
Discreto como bolha de sabão,
Como se o próprio coração exposto,
O seu sorriso é todo pulsação...

O seu sorriso é fermento pra quem mira,
É grave, como a mentira,
Oportunista, como um goleador,

Gigante como a Baia da Guanabara,
Intenso como a chuva que não para,
E quase inconfundivel, como o amor...

12.10.10

Às mães de UTI
(Às mães das crianças internadas na UTI Nicola Albano)

Mães delicadas, maravilhosas,
Mães heroinas do meu coração,
Mães dedicadas, mães cuidadosas,
Mães que são feitas todas de paixão...

Mães que são como o perfume das rosas:
Mexem com a nossa emoção...
Mães privilegiadas, mães dadivosas,
Tão lindas que não tem explicação...

Que Deus esteja sempre do seu lado
Mantendo esse coração iluminado
Que ensina o que é o amor à Terra inteira...

Muito obrigado por tudo, mães queridas
Que tocam com seu amor as nossas vidas
E com sua força tão verdadeira...

3.10.10

Refugio
(À Escola Jesus Cristo em seu aniversario: 27/out/2010)

E quando tudo em volta é ameaça,
Hipocrisia, maledicencia,
Como uma tempestade que não passa,
Como uma cólica que ataca com insistencia,

E quando em volta a vida perde a graça:
Angustia, dor, falta de transparencia,
Miséria, mágoa, desespero, farsa,
Desatenção, descuido, negligencia,

E quando tudo em volta não ajuda,
Como uma febre absurda
Que desconhece o caminho de ceder,

A Escola é o meu refugio verdadeiro,
Repouso generoso e companheiro,
Colo materno a me proteger...

(A Escola é o meu refugio preferido,
Meu significado, meu sentido,
Meu bálsamo de não esmorecer...)

6.8.10

Aos oitenta
(À minha mãe)

Experimente fazer oitenta
Como se estivesse contornando os vinte:
Maravilhosa,
Doce,
Delicada,
Segura,
Forte,
Leve,
E com requinte...
Experimente,
E o faça com elegancia,
Como quem sonha
Com o dia seguinte...
Experimente fazer oitenta
Como quem faz dez,
Como quem faz vinte e tres...
Como quem põe os pés
Em terra firme,
Como quem prometeu
A Deus
Fazer
E fez...
Experimente fazer oitenta
E soltar-se soberana por ai,
Como se fosse branda bailarina,
Um rio doce,
Um anjo que sorri...
Experimente,
Tente,
Nem é facil,
Eu sei,
Mas voce pode conseguir...
Mais do que ler e escrever
Aprenda a ouvir,
Mais do que somar e ter,
Aprenda a dar
Mais que multiplicar,
Aprenda a dividir
E se entregando,
Aprenda asim,
Doando-se,
A ganhar
Não a moeda
Misera, avarenta,
Outra riqueza sim,
Maior que o mar,
E a não ter nada
Como quem se agrada
Com o pão de cada dia
Conquistado,
A roupa do corpo,
Não muito mais,
E muita paz,
E o coração alinhado...
Experimente
Fazer oitenta
Como quem faz
Quatro ou cinco,
Ou desessete...
Como quem, soberana,
Não se rende,
Icaro que não se derrete...
Experimente,
E chegue aos seus oitenta
Com a poesia
De um recem-nascido...
Como se fosse
Mágica dos Anjos...
Experimente...
Voce não sairá arrependido...

6.6.10

Descobrimento

Tanta palavra,
Tanto trabalho,
Tanto diagnostico
Avassalador,
Tanta cultura
Entre a dor e a cura,
Tanta procura
Pelo fim da dor,
Tanta rotina,
Tanto envolvimento,
Tanto equipamento
De alto valor,
E nada disso
Garante um cuidador...
É necessário
Mais do que leitura,
Mais do que máquina
Ou do que o titulo
De Doutor...
A técnica
Não acaba com a tristeza,
O antibiótico
Não cura o sofredor...
É necessário
Mais do que o salário,
É necessário
Uma fonte de calor
Que afaste o medo
E faça companhia
Sem se importar
Com nome, idade ou cor...
É o amor...
Só ele o que nos basta.
Sem ele tudo é fraco
E enganador.
Experimente algum dia
Não ter nada,
Além de seu olhar
Confortador,
Além de um aperto de mão
Ou de um sorriso,
Além de um gesto
Doce e apoiador...
Experimente nesse dia
Não ter nada
E esse dia será
Revelador
Porque não será preciso
Mais que nada
Se, tendo nada,
Você tiver amor...
Porque a vida sem amor
É uma roubada
E é sempre transformada
Pelo amor...
Amor que é tudo de bom,
Que a tudo agrada...
Amor essencial...
Profundo amor...

5.6.10

Aritimética

Quem divide felicidade, multiplica felicidade,
Felicidade não ocupa lugar no coração.
Quer ser feliz? Seja feliz à vontade.
É só querer. É só não dizer não...

E dai se existe a dificuldade,
O desafeto, o ciume, a perseguição?...
A noite é só a metade.
A outra metade é o sol. É a claridão.

Por isso é que felicidade espalhada
Significa felicidade multiplicada
E aumenta suas chances de ser feliz...

Por isso é que é assim: nunca termina.
É como aquele restinho de purpurina
Grudada no seu nariz... 

4.6.10

Amamentar


Amamentar é um ato psíquico,


Indiscutivelmente, um ato político,

Seguramente, um gesto psicológico...

Amamentar é um momento magnífico,

Traduz, decerto, um posicionamento critico,

Amamentar é um ícone ecológico...

Para muitas mães, traduz um ato prático,

Para muitos bebes, um exercício rítmico,

Talvez, dos movimentos, o mais democrático,

Dos comportamentos, o mais mítico...

Amamentar é fantástico...

É o antídoto contra o bico plástico,

É mais antigo que o homem paleolítico,

Definitivamente o encontro mais romântico,

Possivelmente o termo mais poético,

Provavelmente o contato mais intimo,

E embora às vezes ganhe um tom dramático,

Não há como negar-lhe o lado místico...

Não há como não ver seu lado lúdico,

De significado tão elástico,

Coerente como um calculo aritmético.

Por isso um gesto sempre tão simpático,

Por isso nunca de um padrão estático,

Por isso quase sempre um gosto estético...

22.5.10

Poema Alagoano

Ao sopro da brisa entre a Ponta Verde e a Pajuçara
Escrevo um verso de um poema alagoano...
As nuvens impedem o sol na minha cara,
A praia tenta desviar meu plano:

Um verso alagoano... E o tempo para...
O pensamento parece um aeroplano.
A praia entre a Ponta e a Pajuçara é rara,
E o verso atonito escapa, doidivano...

Um poema alagoano que eu queria
Como um brinquedo pra minha poesia,
Um verso inteiro escrito em Alagoas

Como se eu estivesse deitado numa rede
Ao sopro da brisa entre a Pajuçara e a Ponta Verde,
E que trouxesse ao coração só coisas boas...
Poema aéreo (II)
Escrito em 16 de maio de 2010 em algum lugar no céu do Brasil entre Rio e Maceió, já quase aterrisando.

Cade a rima de que eu precisava
Para escrever esse poema aéreo?
Tentei daqui de cima uma palavra
Que respeitasse esse unico critério:

Que fosse aquela de que eu necessitava...
Não era pra me levar tão a sério...
Era só uma rima o que eu buscava...
Não um império...

O comandante anuncia a aterrissagem...
Já vai chegando ao fim a minha viagem
E a rima brincando de esconde-esconde...

E escapa para longe do soneto,
Quase gorando esse ultimo terceto...
Será que essa danada foi pra onde...
Poema aéreo
Escrito em 16 de maio de 2010 em algum lugar no céu do Brasil entre Rio e Maceió.


A rima escrita daqui de cima
A centenas de quilometros do chão,
Pode até parecer a mesma rima
Mas não é não...

E pode até parecer, porque combina,
A mesma rima, escrita num avião,
Mas certamente possui mais adrenalina
E um toque especial de inspiração...

A rima escrita daqui de tanta altura
Parece um gole puro de agua pura,
Não é a rima usual do dia a dia...

A rima escrita daqui da aeronave
É mais sutil, mais sensivel, é mais suave,
E é mais propicia para a poesia...

1.4.10

Quem foi que disse que pra ta junto precisa ta perto?
Para M.
Depois de ouvir a musica Pensa em Mim no CD Cheiro de Amor Acustico.

Naqueles dias quando estou sozinho,
Exatamente desacompanhado,
Eu sempre arrumo um jeito do meu caminho
Trazer voce do meu lado,

Seja no pensamento, de levinho,
Seja no celular, por um recado,
Seja num gesto feito de carinho,
Seja num mimo por um agrado,

E nesses dias sem voce por perto
Sua presença me afasta do deserto
E torna acompanhada a minha vida,

E eu respiro tranquilo e aliviado
Sem voce por perto mas com voce do meu lado
Fazendo a minha estrada mais querida...

30.3.10

Ao meu irmão Celsinho por ocasião de seus 49 anos em 21/03/10

É uma honra ter-te como irmão
Sincero, amigo, amável, camarada,
Inteiro feito só de coração
E de alma integra e dedicada

É uma honra sem comparação
A vida já não me deve mais nada.
Tenho por ti um rio de gratidão
E uma vida gratificada.

Feliz aniversário, bom menino.
Que Deus cubra de bençãos seu destino
E faça da tua vida um milagre diário...

Feliz aniversário, meu irmãozinho...
É o pique.. é hora... Palmas pra Celsinho...
Deus te abençoe. Feliz Aniversário!!!
Ao meu irmão Flávio, por ocasião de seus 51 anos em 05/09/09

Ja passa dos cincoenta esse menino
Que não desiste de sua mocidade...
Parece coisa magica do destino
Ou fruto doce da fatalidade:

Passar dos 50 e permanecer tão fino
Balde que transborda cordialidade...
51 mantendo-se um bambino,
Um bom menino, diga-se de passagem...

E não foi pouca vida essa vivida
Por esse menino cinquentão, e a lida
Não foi coisa menor, pouquinha coisa não...

Meu irmão, irmão cinquentenário...
Feliz irmão... Feliz aniversário...
Que Deus te proteja e guarde, meu irmão...

4.3.10

Saudade


Que graça teria a vida se não houvesse a saudade,
Se não houvesse a vontade de querer rever alguém,
Se não coubesse na alma da gente essa necessidade,
Se não houvesse esse incomodo da gente se sentir tão sem?

Que graça teria a vida sem essa outra metade
Que quando acaba consegue fazer tudo ficar tão bem?
Que graça teria a vida sem essa tristeza que invade
O coração de quem sente saudade... E o de mais ninguém...

Que graça teria a vida sem a sua companhia,
Saudade, que é castigante como chuva em noite fria,
Que é como um gosto vinagre, que é como um mundo sem cor?

Por isso é que me pergunto que graça a vida teria
Saudade, sem suas brasas pra fornalha da poesia,
Que graça teria a vida, saudade, sem sua dor?

26.2.10

Constatação
para M.

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana
Ferreira Gullar in Cantada

Voce é mais bonita do que um céu azulado,
Mais bonita do que uma tarde à beira-mar,
Voce é mais bonita do que um abraço apertado,
Mais bonita do que um verso de Gullar...

Voce é mais bonita do que um beijo roubado,
Mais bonita que o azul de Avatar,
Mais bonita do que eu teria imaginado,
Mais bonita do que eu saberia explicar...

Voce é mais bonita que a lua cheia
Espalhando prateados pela areia,
Desestabilizando o céu azul escuro...

Voce é mais bonita do que uma noite estrelada,
E diria a poesia, encabulada ,
Quase tão bonita quanto um bebe prematuro...
Oferenda

Não posso te oferecer o mundo inteiro,
Tudo que der na imaginação:
Um caminhão cheinho de dinheiro,
Milhões de premios num grande caminhão,

A paisagem do Rio de Janeiro,
A lua cheia pra iluminação,
Passagens prum passeio de cruzeiro,
Milhões de lojas em liquidação...

Não posso te oferecer porque primeiro:
Seria acusado logo de exagero,
Segundo: não teria a minima condição...

Por isso procuro ser mais verdadeiro,
E se não posso dar-te o mundo inteiro,
Entrego inteiro a ti meu coração...

3.2.10

A duvida

Que graça a vida teria se não houvesse poesia?
Escrever prosa sem rima, palavra não versejada,
Acordar, dormir, comer, trabalhar sem garantia,
Beber cerveja, enfartar, namorar, jogar pelada...

Pagar imposto de renda, mandar um mail pra tia,
Tomar remedio de verme depois de comer empada,
Aprender a dedilhar no violão Leo e Bia,
Gastar o tempo corrido com a hora sempre atrasada,

Que graça teria a vida se não houvesse Bandeira?
Que coisa... O que é que seria de nossa segunda feira?
Para que é que serviriam os  cadernos de escrever?

Se não houvesse Cecilia, se não houvesse Ferreira,
Será que a gente escreveria alegria de que maneira?
Se não houvesse a poesia como seria viver?
E se (ainda)...

E se eu votasse no outro candidato?
E se eu me mudasse para Araraquara?
E se eu não assinasse esse contrato?
E se eu não me entregasse assim de cara?

E se eu deixasse comida no prato?
E se eu me apaixonsse pela Guanabara?
E se eu decidisse ir morar no mato?
E se eu comprasse a coleção da Nara?

E se eu quisesse declamar poesia?
E se eu perdesse o prazo de garantia?
E se eu cantasse pra poder dormir?

E se eu fosse dormir hoje mais cedo?
E se eu dormisse sem perder o medo?
E se meu sonho era voce sorrir?
E se...
Para M.

E se eu soubesse conquistar seu coração?
Se eu descobrisse como voce ficar bem?
Se eu inventasse canções como o Barão?
Se eu não deixasse voce nunca ficar sem?

E se eu não contasse pra ninguém não?
E se eu não me importasse com ninguém?
E se eu chegasse pela contra-mão?
Se eu não ligasse de perder o trem?

Se eu me virasse todo pelo avesso
Trocando o final do fim pelo começo
E o começo assim não tivesse fim?

E se eu fizesse um verso que nem esse,
E se eu mostrasse a voce, se voce lesse,
Voce diria será o que de mim?

2.2.10

A casa

A casa onde eu moro não tem parede,
Por não ter muros, não tem portão,
E por não ter parede, não tem rede,
Nem rua, nem quintal, nem céu, nem chão...

Tem agua boa pra matar a sede,
E pra matar a fome, muito pão,
Não é azul, não é branca, nem é verde,
Não é casinha nem é casarão...

Nem endereço tem a minha casa,
Enchente não enche, tufão não arrasa,
E olha que haja tufão...

Eu moro num lugar desconhecido,
Eu moro ali desde recem-nascido,
Eu moro dentro do meu coração...

1.1.10


O bebe canguru

Quem ousaria incomodá-lo, assim?
Que dor? Que movimento descuidado?
Que som abusivo? Que toque frio e ruim?
Que exagero de luz mal calculado?

Quem ousaria provocar o fim
Desse sono reparador tão delicado?
Suave como um piano de Jobim...
Discreto como um Quintana declamado...

Quem ousaria tamanha iniqüidade?
Separar mãe e filho: insanidade...
Atrapalhar esse vínculo sagrado...

Bem aventurado o colo que se entrega
Ao filho, bem aventurado, que se apega
A esse encontro bem aventurado.

31.12.09

Desejo

Que nosso próximo 2000 seja bem 10,
Que a gente continue tentando ser feliz,
Que para a caminhada não nos faltem os pés,
Que não nos desestimulem os imbecis,

Que representemos bem nossos papéis,
Que duvidemos menos do que o próximo diz,
Que não nos canse nadar contra as marés,
Que a nossa prontidão venha com bis...

Que o nosso próximo 2000 seja alimento,
Preparação, substancia, refazimento,
Que a gente vá resistindo e vá tentando,

Verdadeiro como é uma criança quando ora,
Feliz como é possível ser aqui e agora,
Inominado, como é uma mãe amamentando...

15.12.09

O Amor
Para Helder e Silvana em seus 25 anos de casado


Que seja de longe a palavra mais vivida,
A mais falada, cantada e declamada,
E porque mais falada, a mais sentida,
E porque mais sentida, a mais usada.

Que seja a palavra mais permitida,
Que nunca seja a palavra protelada,
Como fonte de luz, a mais bebida,
Como fonte da vida, a mais sonhada,

Que não se perca nunca distraida,
Que não se encontre nunca dividida,
Que não se esqueça nunca abandonada,

Que seja sempre e para toda a vida
Redesenhada, fortalecida,
A presença de Deus multiplicada...

Que dure para além da eternidade,
Que viva muito mais que a vida inteira,
Que não se contenha, como é a calamidade,
Que não se limite, como é a cachoeira,

E que transforme com facilidade
A vida comezinha e corriqueira
Como um poema descreve a eternidade,
Como um falcão sobrevoa a cordilheira...

Que esteja acima da felicidade,
Que não se curve ante a dificuldade,
Que não se renda às horas mais vazias,

Que seja para sempre então lembrada
Como era um dia quando foi provocada,
Doce como era nos primeiros dias...

11.12.09

Mais da lágrima

Não tome a lágrima por coisa corriqueira,
Patética talvez, sem significancia,
Jamais a trate de qualquer maneira
Como coisinha assim, sem importancia.

Não caia, entretanto, dela, prisioneira,
Julgada e condenada em ultima instancia,
Não sofra dela a dor mais derradeira,
A que provoca a mágoa e atiça a ansia...

Aprenda dela as oportunidades
Como quem olha as próprias qualidades,
Como quem cava as portas de saida...

A lágrima assim, como reengenharia,
Acesso, senha, passe, vale, guia,
Caligrafia para a própria vida...

1.12.09

A lágrima

Cuida da sua lágrima com carinho...
Nunca trate-a como coisa sem valor...
Seja simpática... Trate-a com jeitinho...
Aproxime-se dela se preciso for...

Converse com ela pelo caminho
Sobre sua insatisfação, sobre sua dor,
Sobre as vezes em que seu coração sofreu sozinho,
Sobre as vezes em que ele caiu por tanto amor...

Não a despreze, nunca a recrimine,
Cuidar da própria lágrima não é crime,
É aprender a própria evolução...

A lágrima de dor, se bem cuidada
É como um bálsamo para a alma cansada,
É como um alívio para o coração...

4.11.09

Cantoria II

Escrevo por um instante... Quase um cantico...
E a minha vida, nesse cantico, se completa...
Nem bem alegre nem triste nem romantico...
Quase uma senha secreta...

As vezes como um arqueólogo semantico,
As vezes igual, como uma linha reta...
As vezes básico demais, as vezes tantrico,
As vezes prosador, as vezes poeta...

E no instante em que escrevo, silencioso,
Esse silencio se assume poderoso
E desarruma meu coração.

E desse coração desarrumado
Vejo nascer o poema alinhavado
E não consigo encontrar explicação...

3.11.09

Cantoria

Eu canto porque o instante silencia
E a minha vida nessa hora se incomoda...
Não sou alegre nem sou triste, todavia
Eu canto sambas de roda...

Eu canto porque o instante, como um guia,
Me pede pra cantar, e não me poda...
Faço da musica agradável companhia,
Da voz, minha orquestra de cordas...

Eu canto: Chico, Zeca Pagodinho,
Misturo Bach com uns sambas de Paulinho
E assim a musica livre se completa...

Meu reino por uma cantoria, é o que eu diria...
Meu reino por uma cantoria,
Batuca meu coração de poeta...

20.10.09

A corredeira

Dize-me com que versos tu caminhas
E eu te direi o poeta que tu és...
A forma como tu rimas tuas linhas,
Os versos com que tu desenhas teus papéis...

Como tu tratas as coisas comezinhas,
De que maneira tu contas de um a dez,
Com que argumentos tu agradas as Rainhas,
Com que argumentos tu agradas as ralés...

Dize-me com que versos poemeias,
Espalhando poemas a mancheias
Como quem trama a revolução

E eu te direi o poeta em que te tornas
Cada vez que em palavras tu transformas
A corredeira de teu coração...

18.10.09

18 de outubro
(Dia do Médico)

Gastrenterite aguda, pneumonia,
Abcesso, febre, vomitos, convulsão...
Palavras doentes por companhia,
Palavras pálidas por intima opção...

E desde o inicio quem arriscaria
De cada uma delas a significação?
Ptose, penfigo, hidrocefalia,
Apnéia, linfoma, decorticação...

Palavras doloridas e diárias,
Muitas vezes cruéis, como a urticária,
Outras tantas, gentis, como a amamentação...

Palavras que desenham seu caminho...
Quem dera escritas com o branco de seu linho...
Quem dera guardassem todas solução...

16.10.09

Sexteto para Lislie

Provavelmente nunca desmamada
Quem foi por 52 meses amamentada...
O leite materno... Abundancia de vida...
Nunca portanto a ultima mamada,
Porque esta amamentação foi sublimada:
O peito tornou-se o amor da mãe querida...

15.10.09

A melhor amiga
Para Carla Brasil

Se eu desculpasse sua existencia,
Ou se voce não existisse
O que eu seria?
Um perfume sem essencia...
Um Pais das Maravilhas sem Alice...
Um Vinicius de Moraes sem poesia...
A companhia

Dize-me com quem andas
E eu te direi um versinhoo:
Quem anda muito se perde,
As vezes, devagarinho...

Dize-me então com quem andas
E eu te contarei baixinho
O que aprendi com um verso de Drummond:
Tinha uma pedra no meio do caminho...

Então? Com quem é que andas?
Com quem vais por estas bandas?
Com quem divides teus pés?

Dize-me, e então de presente,
Eu saberei imediatamente
Por com quem andas, quem és...
A Cidade dos Anjos
(Para Roberta Profice)

Nunca chove na Cidade dos Anjos...
Na Cidade dos Anjos o vento nunca assusta...
Não há temporais, relampagos, trovoadas...
Nem raios além dos de um dia de sol...

Nunca chove lá como chove a chuva
Que alaga em poças
Nosso coração...
A Cidade dos Anjos traz suas praças
E calçadas
Trabalhadas com flores e borboletas
Além daqueles pequenos insetos multicoloridos
Da National Geograpihic
Cujo nome não sei dizer de cor...

Repleta de delicadezas,
A Cidade dos Anjos é um bordado
De sorrisos
Alinhavado
Com as malhas do coração gentil
De suas gentes...

Um dia,
Se eu tiver merecimento,
Quero pedir a Deus
Para visitar
A Cidade dos Anjos,
Onde moram os avós,
Os bisavós
E os velhinhos de nossa existencia...

Vou colher uma foto,
E depois de revelar
Colocarei ela num porta retratos
Ao lado da cabeceira da minha cama tosca
No meu quarto quase sem janelas
Onde venta lá fora
E chove as vezes,
E relampeja,
E trovoa...

E cada vez que eu olhar
Aquela foto colhida,
Eu me lembrarei
Do dia
Em que por bondade de Deus
Eu vi a Cidade dos Anjos
E por algum instante,
Entre Anjos,
Fui feliz...