3.2.10
Que graça a vida teria se não houvesse poesia?
Escrever prosa sem rima, palavra não versejada,
Acordar, dormir, comer, trabalhar sem garantia,
Beber cerveja, enfartar, namorar, jogar pelada...
Pagar imposto de renda, mandar um mail pra tia,
Tomar remedio de verme depois de comer empada,
Aprender a dedilhar no violão Leo e Bia,
Gastar o tempo corrido com a hora sempre atrasada,
Que graça teria a vida se não houvesse Bandeira?
Que coisa... O que é que seria de nossa segunda feira?
Para que é que serviriam os cadernos de escrever?
Se não houvesse Cecilia, se não houvesse Ferreira,
Será que a gente escreveria alegria de que maneira?
Se não houvesse a poesia como seria viver?
E se eu votasse no outro candidato?
E se eu me mudasse para Araraquara?
E se eu não assinasse esse contrato?
E se eu não me entregasse assim de cara?
E se eu deixasse comida no prato?
E se eu me apaixonsse pela Guanabara?
E se eu decidisse ir morar no mato?
E se eu comprasse a coleção da Nara?
E se eu quisesse declamar poesia?
E se eu perdesse o prazo de garantia?
E se eu cantasse pra poder dormir?
E se eu fosse dormir hoje mais cedo?
E se eu dormisse sem perder o medo?
E se meu sonho era voce sorrir?
Para M.
E se eu soubesse conquistar seu coração?
Se eu descobrisse como voce ficar bem?
Se eu inventasse canções como o Barão?
Se eu não deixasse voce nunca ficar sem?
E se eu não contasse pra ninguém não?
E se eu não me importasse com ninguém?
E se eu chegasse pela contra-mão?
Se eu não ligasse de perder o trem?
Se eu me virasse todo pelo avesso
Trocando o final do fim pelo começo
E o começo assim não tivesse fim?
E se eu fizesse um verso que nem esse,
E se eu mostrasse a voce, se voce lesse,
Voce diria será o que de mim?
2.2.10
A casa onde eu moro não tem parede,
Por não ter muros, não tem portão,
E por não ter parede, não tem rede,
Nem rua, nem quintal, nem céu, nem chão...
Tem agua boa pra matar a sede,
E pra matar a fome, muito pão,
Não é azul, não é branca, nem é verde,
Não é casinha nem é casarão...
Nem endereço tem a minha casa,
Enchente não enche, tufão não arrasa,
E olha que haja tufão...
Eu moro num lugar desconhecido,
Eu moro ali desde recem-nascido,
Eu moro dentro do meu coração...
1.1.10
Quem ousaria incomodá-lo, assim?
Que dor? Que movimento descuidado?
Que som abusivo? Que toque frio e ruim?
Que exagero de luz mal calculado?
Quem ousaria provocar o fim
Desse sono reparador tão delicado?
Suave como um piano de Jobim...
Discreto como um Quintana declamado...
Quem ousaria tamanha iniqüidade?
Separar mãe e filho: insanidade...
Atrapalhar esse vínculo sagrado...
Bem aventurado o colo que se entrega
Ao filho, bem aventurado, que se apega
A esse encontro bem aventurado.
31.12.09
Que nosso próximo 2000 seja bem 10,
Que a gente continue tentando ser feliz,
Que para a caminhada não nos faltem os pés,
Que não nos desestimulem os imbecis,
Que representemos bem nossos papéis,
Que duvidemos menos do que o próximo diz,
Que não nos canse nadar contra as marés,
Que a nossa prontidão venha com bis...
Que o nosso próximo 2000 seja alimento,
Preparação, substancia, refazimento,
Que a gente vá resistindo e vá tentando,
Verdadeiro como é uma criança quando ora,
Feliz como é possível ser aqui e agora,
Inominado, como é uma mãe amamentando...
15.12.09
Para Helder e Silvana em seus 25 anos de casado
Que seja de longe a palavra mais vivida,
A mais falada, cantada e declamada,
E porque mais falada, a mais sentida,
E porque mais sentida, a mais usada.
Que seja a palavra mais permitida,
Que nunca seja a palavra protelada,
Como fonte de luz, a mais bebida,
Como fonte da vida, a mais sonhada,
Que não se perca nunca distraida,
Que não se encontre nunca dividida,
Que não se esqueça nunca abandonada,
Que seja sempre e para toda a vida
Redesenhada, fortalecida,
A presença de Deus multiplicada...
Que dure para além da eternidade,
Que viva muito mais que a vida inteira,
Que não se contenha, como é a calamidade,
Que não se limite, como é a cachoeira,
E que transforme com facilidade
A vida comezinha e corriqueira
Como um poema descreve a eternidade,
Como um falcão sobrevoa a cordilheira...
Que esteja acima da felicidade,
Que não se curve ante a dificuldade,
Que não se renda às horas mais vazias,
Que seja para sempre então lembrada
Como era um dia quando foi provocada,
Doce como era nos primeiros dias...
11.12.09
Não tome a lágrima por coisa corriqueira,
Patética talvez, sem significancia,
Jamais a trate de qualquer maneira
Como coisinha assim, sem importancia.
Não caia, entretanto, dela, prisioneira,
Julgada e condenada em ultima instancia,
Não sofra dela a dor mais derradeira,
A que provoca a mágoa e atiça a ansia...
Aprenda dela as oportunidades
Como quem olha as próprias qualidades,
Como quem cava as portas de saida...
A lágrima assim, como reengenharia,
Acesso, senha, passe, vale, guia,
Caligrafia para a própria vida...
1.12.09
Cuida da sua lágrima com carinho...
Nunca trate-a como coisa sem valor...
Seja simpática... Trate-a com jeitinho...
Aproxime-se dela se preciso for...
Converse com ela pelo caminho
Sobre sua insatisfação, sobre sua dor,
Sobre as vezes em que seu coração sofreu sozinho,
Sobre as vezes em que ele caiu por tanto amor...
Não a despreze, nunca a recrimine,
Cuidar da própria lágrima não é crime,
É aprender a própria evolução...
A lágrima de dor, se bem cuidada
É como um bálsamo para a alma cansada,
É como um alívio para o coração...
4.11.09
Escrevo por um instante... Quase um cantico...
E a minha vida, nesse cantico, se completa...
Nem bem alegre nem triste nem romantico...
Quase uma senha secreta...
As vezes como um arqueólogo semantico,
As vezes igual, como uma linha reta...
As vezes básico demais, as vezes tantrico,
As vezes prosador, as vezes poeta...
E no instante em que escrevo, silencioso,
Esse silencio se assume poderoso
E desarruma meu coração.
E desse coração desarrumado
Vejo nascer o poema alinhavado
E não consigo encontrar explicação...
3.11.09
Eu canto porque o instante silencia
E a minha vida nessa hora se incomoda...
Não sou alegre nem sou triste, todavia
Eu canto sambas de roda...
Eu canto porque o instante, como um guia,
Me pede pra cantar, e não me poda...
Faço da musica agradável companhia,
Da voz, minha orquestra de cordas...
Eu canto: Chico, Zeca Pagodinho,
Misturo Bach com uns sambas de Paulinho
E assim a musica livre se completa...
Meu reino por uma cantoria, é o que eu diria...
Meu reino por uma cantoria,
Batuca meu coração de poeta...
20.10.09
Dize-me com que versos tu caminhas
E eu te direi o poeta que tu és...
A forma como tu rimas tuas linhas,
Os versos com que tu desenhas teus papéis...
Como tu tratas as coisas comezinhas,
De que maneira tu contas de um a dez,
Com que argumentos tu agradas as Rainhas,
Com que argumentos tu agradas as ralés...
Dize-me com que versos poemeias,
Espalhando poemas a mancheias
Como quem trama a revolução
E eu te direi o poeta em que te tornas
Cada vez que em palavras tu transformas
A corredeira de teu coração...
18.10.09
(Dia do Médico)
Gastrenterite aguda, pneumonia,
Abcesso, febre, vomitos, convulsão...
Palavras doentes por companhia,
Palavras pálidas por intima opção...
E desde o inicio quem arriscaria
De cada uma delas a significação?
Ptose, penfigo, hidrocefalia,
Apnéia, linfoma, decorticação...
Palavras doloridas e diárias,
Muitas vezes cruéis, como a urticária,
Outras tantas, gentis, como a amamentação...
Palavras que desenham seu caminho...
Quem dera escritas com o branco de seu linho...
Quem dera guardassem todas solução...
16.10.09
15.10.09
Dize-me com quem andas
E eu te direi um versinhoo:
Quem anda muito se perde,
As vezes, devagarinho...
Dize-me então com quem andas
E eu te contarei baixinho
O que aprendi com um verso de Drummond:
Tinha uma pedra no meio do caminho...
Então? Com quem é que andas?
Com quem vais por estas bandas?
Com quem divides teus pés?
Dize-me, e então de presente,
Eu saberei imediatamente
Por com quem andas, quem és...
(Para Roberta Profice)
Nunca chove na Cidade dos Anjos...
Na Cidade dos Anjos o vento nunca assusta...
Não há temporais, relampagos, trovoadas...
Nem raios além dos de um dia de sol...
Nunca chove lá como chove a chuva
Que alaga em poças
Nosso coração...
A Cidade dos Anjos traz suas praças
E calçadas
Trabalhadas com flores e borboletas
Além daqueles pequenos insetos multicoloridos
Da National Geograpihic
Cujo nome não sei dizer de cor...
Repleta de delicadezas,
A Cidade dos Anjos é um bordado
De sorrisos
Alinhavado
Com as malhas do coração gentil
De suas gentes...
Um dia,
Se eu tiver merecimento,
Quero pedir a Deus
Para visitar
A Cidade dos Anjos,
Onde moram os avós,
Os bisavós
E os velhinhos de nossa existencia...
Vou colher uma foto,
E depois de revelar
Colocarei ela num porta retratos
Ao lado da cabeceira da minha cama tosca
No meu quarto quase sem janelas
Onde venta lá fora
E chove as vezes,
E relampeja,
E trovoa...
E cada vez que eu olhar
Aquela foto colhida,
Eu me lembrarei
Do dia
Em que por bondade de Deus
Eu vi a Cidade dos Anjos
E por algum instante,
Entre Anjos,
Fui feliz...
6.9.09
06/09/1959 - 06/09/2009
Abro a janela. Observo a paisagem.
É o futuro aparentemente a se mostrar.
Abro a janela como quem segue própria viagem.
Abro a janela. O futuro a respirar.
Da janela o futuro diz sua imagem
E chega como um trem sempre a chegar.
O futuro, como uma grande tecelagem.
Da janela, o futuro a me olhar...
E como um indagador insaciável
Pergunto a esse futuro imponderável:
_Qual é o tempo ainda que me cabe?
E o futuro, inteiro e silencioso,
Responde-me, num sopro cuidadoso:
_Quem é que sabe? E outra vez: _Quem é que sabe?
25.8.09

Arrastre al pecho...
A pele pronta: cor, temperatura,
O cheiro, como o arquiteto da procura,
Os movimentos bem direcionados...
O olhar atento, a lingua canolada,
Exteriorizda, preparada,
O instinto dispensando aprendizados...
Ávido e lucido, o recem-nascido
Como se usasse um sexto sentido
Movimenta lentamente as mãos, o rosto,
E segue silencioso nessa entrega:
A entrega da busca a desaguar na pega
Do seio sob a gota de colostro...
13.7.09
A dificuldade é ter de explicar coisas tão basicas
Como se fossem códigos secretos...
Comportamentos comuns, coisinhas simples
Tratados como confusos dialetos...
Atitudes diárias tratadas com suspeita,
E sentimentos bons como dejetos...
A culpa aprisionando os pensamentos,
O estigma culpando os bons e os maus projetos...
Essa pra mim é a maior dificuldade...
Ter de provar mais que sinceridade...
Ter de provar inocencia...
Ver posta à prova sua vida, sua verdade,
Ver desprezada a sua capacidade
E abandonada a sua coerencia...
27.6.09
17.6.09
Prefere a clausura, nunca a complacencia,
Despreza a convivencia, abraçando a clausura,
Abandona o suave sabor da convivencia,
Adota a vida estéril, alheia e pura...
E ao preferir a reclusa como essencia,
Evita contatos, jamais se mistura,
Cultiva a intolerancia e a prepotencia,
E o isolamento como um icone de cultura...
Isola-se do mundo tanto e tanto,
Que é quase como um Deus, que é como um santo
Distante do outro mundo, o dos pecados...
Enclausurado, o eremita vive assim:
Ilha cercada de um entorno fraco e ruim,
Um Buda entre um bando de pobres coitados...
31.5.09
16.5.09
(à minha amiga Erika Márcia)
Erika Márcia e seus olhos fatais,
Desconcertantes, avassaladores,
Fontes de luz, córregos de paz,
Uma tsunami, um chamariz de amores...
Os olhos de Erika Márcia... Prá que mais?
Já estão lá neles todos os sabores,
Toda delicadeza e todo gás,
Todos os poemas, todos os louvores...
Olhar para esse olhar desconcertante
É como o gole de um vinho rascante:
Arranha ao mesmo tempo que inebria...
Sou seu fiel seguiidor, olhar de imã
Que atrai, desperta, desconcerta e anima
Meu coração e meu risco de poesia...
13.5.09
(à minha amiga Roseleni)
Ponha o seu coração na sua vida,
Fazendo a sua vida renascer...
Sem ele a vida é um beco sem saida...
É o coração, ele só, que a faz viver...
Tome pois isso como coisa decidida.
Não deixe sua decisão esmorecer...
O coração faz a vida mais vivida...
O coração faz a vida acontecer...
Por isso não perca tempo e se decida,
Ponha o seu coração na sua vida
E desde ai faça por merecer
Toda paz, toda beleza escondida,
E toda delicadeza conhecida,
E a que ao homem ainda não é dado conhecer...
11.5.09
8.5.09
Minha irmã não tem nome,
Tem poesia
Nem voz tem minha irmã,
Tem rimas ricas,
A sua alma nunca está vazia...
Tem frutas doces
Mesmo quando citricas...
Minha irmã não tem rosto
Tem sonetos,
E redondilhas,
E versos livres...
E brilho tem a minha irmã querida
Capaz de impressionar
Hábeis ourives...
Não tem familia,
Filhos,
Marido,
Tem beneficiários
Dos dons seus...
Nem é daqui minha irmã.
Ela é um Anjo
Daqueles que são
Próximos de Deus...
E eu daqui
Observando tudo
Tentando a inutil
Definição
Não percebi
Que a alma pobre
E fraca
Não sabe definir
O coração...
Então,
Sem defini-la,
E extasiado,
Tento um poema
Para minha irmã
Nessa manhã gentil de sexta feira,
Porque ela torna gentil
Essa manhã...
7.5.09
(de acordo com a ortografia dos Anjos)
Amar seu filho acima de tudo.
Brigar por esse amor com todas as forças do mundo.
Crescer como um gigante nos tempos de dificuldade.
Diminuir-se às vezes, como se não fosse um gigante.
Esperar a cada dia por dias melhores.
Falar usando a voz do coração.
Garantir a existencia do amanhã para a Humanidade inteira.
Habituar-se à entrega diária e sem cobranças.
Impor-se através da força invisivel do amor.
Jamais desistir.
Lamber a cria mil vezes por dia.
Mostrar-se sempre disponivel.
"Nada a temer senão o correr da luta"
Olhar com jeito de quem compreende até o incompreensivel.
Parar de viver a própria vida para viver a vida de seu filho.
Quem se atreve a julgar-se ser maior que uma Mãe?
Registrar cada dia em seu coração.
Saber sem precisar perguntar.
Ter sem precisar possuir.
Unica e para sempre.
Ver sem precisar enxergar.
Xodó de mãe não tem preço.
Zelar com amor e carinho pelo bem do seu filho.
21.4.09
Nomeio para meu representante
O verso brasileiro, residente
Da rima, comportada ou dissonante,
Que torna o poema mais coerente...
Nomeio o verso, de hoje em diante,
E que esse titulo dure eternamente,
O verso, meu fiel acompanhante,
O verso bom, meu Principe Regente...
A ele entrego, em paz e confiante,
O meu destino deselegante
E todos os meus dias pela frente...
O verso, meu parceiro mais constante,
O verso brasileiro, doravante
O meu representante. Eu presente...
Procura-se rima de boa casta,
De letra nobre, de sentido são,
De texto fácil, de significação vasta,
De conteudo sem nenhuma exatidão,
Procura-se rima inédita, ainda que gasta,
Que possua força e qualificação,
Que seja como um boato que se alastra,
E ao mesmo tempo contida como um grão,
Procura-se rima bem apessoada,
Que seja comedida e comportada,
E faça a descompostura valer à pena...
Procura-se rima livre e disponível,
Que trate o inacreditável como crível,
E saiba dissolver-se no poema...
20.4.09
11.4.09
O coração, espirito guardado,
Grande demais para ser seduzido,
Forte demais para ser desencorajado,
Extremamente audacioso para ser seguido,
Irriquieto demais para ser filmado,
Sagaz demais para ser distraido,
Extremamente incomum para ser fotografado,
Extremamente incomum pra ser servido,
Inédito, ágil, unico, escancarado,
Benéfico, espalhado, bem instruido,
Às vezes como um objeto não identificado,
Às vezes como um lugar não permitido,
O coração, cancela sem cadeado,
Tentar cercea-lo é causa sem sentido,
É livre o coração, mesmo trancado,
É fluido universal, mesmo contido,
Às vezes como um trem descarrilhado,
Às vezes suave, como um gemido,
Às vezes ruidoso como um brado,
Às vezes não como a flecha de um cupido,
O coração, cantado e decantado,
O coração, a quem tudo é permitido...
9.4.09
O coração, espírito incontido,
Grande demais para ser formatado,
Ou, muitas vezes, para ser compreendido,
E muitas outras para poder ser explicado,
Por isso, alto demais para ser medido,
Complexo demais para ser domesticado,
Imenso o coração para ser todo lido,
Quase sem fim para ser inteiro decorado,
Etéreo demais para ser tolido,
Ou para ser, o coração, desativado,
Convicto demais para ser banido,
Coerente demais para ser barrado,
Barulhento demais para ser esquecido,
Inalcançavel demais para ser arrastado,
Vivo demais para ser desaprendido,
Veloz demais para ser desacelerado,
Enorme para ser todo destruido,
Ou para ser, por conta disso, controlado,
O coração. Como um poema vivo...
Como um poema, o coração, alado...
7.4.09
5.4.09
Um vinho, um video, um jogo de xadrez,
Um fim de semana pescando em Cabedelo,
Um verso de Shakespeare original em ingles,
Um Chico: Budapeste, A Fazenda Modelo,
Um feriado no final do mes,
Fazer as unhas, cortar cabelo,
Sair para jantar no japones,
Levar o cachorro pra tosar o pelo,
E quase nada em qualquer lugar,
Qualquer coisinha pode curar
Sem nenhum misterio, sem nenhuma ciencia,
Qualquer coisinha. É só experimentar.
É tiro e queda. Basta beliscar.
Qualquer besteira cura a carencia...
4.4.09
24.3.09
Mundo, mundo,
Nem tão vasto assim...
E se eu me chamasse Joaquim?
Seria uma rima...
Uma das rimas mais usadas
No sertão...
E se eu me chamasse Olinto?
E se eu me chamasse Onofre?
E se eu me chamasse José Paulo Sebastião?
Mundo, mundo,
Nem tão vasto,
Nem tão vasto mas tão gasto,
Mundo, mundo, coitadinho,
E se eu me chamasse Zinho,
E se eu me chamasse, mundo, Gonzagão?
Mundo, mundo,
Vasto mundo,
Se eu me chamasse João de Barro
Não haveria nem rima
Nem solução...
Mundo, mundo,
Todo vasto,
E se eu me chamasse
Carlos Drummond
Ao invés de me chamar
Algum João?
Aí então, vasto mundo,
Quem sabe
Se lá no fundo
Da nascente onipotente
Da palavra,
A poesia
Não chegava
A uma conclusão?
21.3.09
(para Cacá Happy)
Conhecer voce, assim, me fez sonhar
Com doce de coco,
Com comer chuvisco,
Com beber cerveja junto,
Com caminhar,
Com contar piada,
Com pintar o sete,
Com apostar corrida
Na beira do mar,
Me fez sonhar com hakuna matata,
Com felicidade
De não se acabar,
Como poesia quando nasce o dia,
Com poesia
Antes de se deitar,
Conhecer voce me fez fazer folia
Do pensamento querer acreditar
Em ser feliz,
Como a segunda via
De um verso
Que já não era pra contar,
Com coca-cola, vinho,
Agua de coco,
Peixinho frito,
Abraço de apertar,
Com dedos passeando por seus dedos,
Olhares desvendando
Seu olhar,
Conhecer voce me deu uma vontade
De ir a Paraiba pra buscar
Um grupo de forró de pe de serra
Pra gente junto
Forrozear,
E mais um tanto assim de coisa boa,
Passeio de canoa,
Trabalhar,
Catar conchinha
Tirar cara e coroa,
Brincar de pique esconde,
Volitar,
Nadar de costas,
Comer pamonha,
Brigar,
Fazer as pazes,
Se atracar,
Fugir para Fernando de Noronha,
Pegar um onibus
Pra Madagascar,
De invadir alguma livraria,
Sair de lá com livros de poesia,
E alguns outros livros
Que ensinem a voar,
Me deu vontade de voltar no tempo
E desde o inicio poder contar
Com seu sorriso,
Com seu pensamento,
Com seu jeitinho livre de falar
Das coisas boas,
Das coisas tristes,
Das coisas que algum dia vão chegar,
Ai que vontade me deu,
Moça bonita,
De ser alguem que possa ser seu par
Num jogo de ping pong,
De peteca,
De voley de praia,
De tardes de brincar
De amarelinha,
Queimado,
Malha,
Pique,
Buraco,
Video-game
Até cansar...
E ir assim, como essa poesia
Que até parece que se nega
A terminar...
Me deu vontade
Ao conhecer voce,
De ser,
Permanecer,
Continuar...
20.3.09
(Lula diz: Crise é tsunami nos EUA e, se chegar ao Brasil, será 'marolinha')
Não é uma tsunami. É uma marolinha.
Não é uma tragédia. É uma coisa à toa.
Não é uma desgraça. É uma desgracinha
Que pode acometer qualquer pessoa.
Não é um Titanic afundando. É uma canoinha.
Uma canoinha que parece uma canoa.
Não é pure nem pirão. É só farinha.
Não é nenhum temporal. É só garoa.
Isso é porque é na sua vida. Não na minha
Que segue plácida e sossegadinha
E que de tão plácida, às vezes até me enjoa...
Crise? Que crise? A crise da vizinha?
Mas isso é lá com ela, coitadinha...
Tem nada a ver com a minha vida boa...
17.3.09
(para minha irmã Margarida no dia do seu aniversário)
Margarida significa dádiva,
Margarida significa vida,
Nenhuma duvida, entretanto,
Margarida significa...
Como pode,
Sendo tão frágil,
Ao mesmo tempo ser tão forte
E ser tão rica?
Margarida significa alivio, alento,
Margarida significa poesia...
Ternura, abrigo, afago, acolhimento,
Conhecimento,
Força,
Garantia...
Margarida significa escora,
Exemplo, molde, casa, inspiração,
Palavra mágica que não se explica,
Perfume doce que escapa e fica,
Margarida significa coração...
13.3.09
(aos que acompanham este blog)
Descobrindo a rima pobre ainda escondida
No vão da telha, no ralo da calçada,
Na cantoria, no céu de Aparecida,
Na inconstencia da palavra dada,
Recolhendo a rima rica ainda perdida
No olhar sem rumo da moça abandonada,
No fundo do poço, no fim da vida,
No bebe que nasce com a clavicula fraturada,
Seguindo o verso que não foi escrito,
O excomungado, o fétido, o maldito,
O recuperado pelo toque da poesia,
Buscando o significado da palavra
Que o bisavo do meu avo gostava
De ler, às vezes, ao final do dia...
Quem vem comigo?
11.3.09
À minha amiga Carla Brasil
A brisa vai cansar e vai querer parar,
O mar, também cansado, igualmente vai querer
Parar de vir à praia e parar pra descansar,
E mesmo o sol é capaz de não querer nascer...
A poesia vai perder-se e deixar de rimar,
O ritimo e a métrica vão se desentender,
O pássaro cantor vai esquecer de cantar,
O repentista, num improviso, vai se perder...
O soneto vai amanhecer escancarado,
O cisne branco aparecer malhado,
A hora certa vai perder a hora,
"À cores" vai posar de "preto e branco",
A rima rica de verso manco,
Se algum dia voce, minha amiga, for embora...
10.3.09
Após ler comentário da Rosangela que diz: "Este blog não é "quase poesia"... é "mais que poesia"...É inalcançável! Escapa de nós. A Gente corre atrás, mas não alcança"
São só poesias escritas sem critérios,
Sem regras que não sejam o coração...
São como insights diários esses versos...
São quasepoesias... Poesias não...
2.3.09
27.2.09
Um verso pequeno,
De palavra incerta
E de significado
Insignificante,
É certamente um verso
Mais que suficiente
Pra ser como um Davi
Diante de um gigante...
Um verso minimo,
De palavra torta
E mal escolhida,
Tem o impressionante
Poder de conduzir
A carne morta
À vida além da vida
E mais adiante...
Um verso todo
De palavra quase,
Mesmo sem sentido,
Tem um tom triunfante...
26.2.09
Depois dos dias de samba e de doideira,
Nessa manhã de sol de quinta feira
A poesia voltou, timida e breve,
Num verso quase de eter, quase nada,
Pra contrastar com o ziruguidum da batucada
E com o batuque do coração de quem a escreve.
A volta silenciosa da palavra
Que longe de toda folia descansava
E longe de toda gente adormecia
É pois assim, silenciosa e etérea,
E imprevisível, como a bactéria,
A volta definitiva da poesia...
22.2.09
21.2.09
20.2.09
19.2.09
12.2.09
Sabe das letras o sentido inteiro,
E das palavras o significado.
Tem do poema o paladar e o cheiro,
Do verso tem o tom cadenciado.
Sabe do coração o paradeiro,
Do amor conhece o um lado e o outro lado,
Da dor já decorou todo tempero,
E traz o coração já estampado
Da multiplicidade de um salgueiro
E da ternura de um gesto abençoado.
A minha amiga do Rio de Janeiro
A quem esse versinho é dedicado...
6.2.09
Devagarinho...
Um dia
Eu tive pressa,
Já não tenho mais.
Perigo
Em cada encosta
Escondidinho,
Pra não falar
Do calor
Que às vezes faz...
E as vezes chove,
E outras
Um friozinho...
Tem dias que a fome
Não me deixa em paz...
E nada faz cansar,
Chutar o balde,
Ficar olhando
Insistente
Só prá trás...
É de amanhã,
É de sonho
Meu caminho,
Já foi um dia
Só espasmos
Cerebrais...
Hoje é semente,
O universo
Num grãozinho...
É quase nada...
Mas é todo gás...
O meu caminho...
5.2.09
3.2.09
Gastei rimas ricas
E pleonasmos
Tentando um verso
Gostoso de se ler...
Palavras disfarçadas
De poemas...
Disfarces
Dançarinos
Do escrever...
Gastei o que eu tinha,
O que eu pensei que eu tinha,
O que eu não tinha
E o que eu tentava ter...
Gastei oxitonos
E onomatopéias,
Metáforas
Que usei sem conhecer...
E o verso
Como sempre indiferente
Sumiu
Como quem morre
Sem nascer...
1.2.09
Gastei lapiseiras
Rascunhando versos
Que as letras não quiseram
Registrar...
Palavras,
Rimas,
Frases inteiras,
Quem há de compreender
A poesia?
Provoca,
Arrisca,
Finge que chega
E de repente
Dá de evaporar...
Sonetos,
Versos livres,
Quadras,
Frases,
E nada escrito
Só por ironia...
Onde é que o poema
Que avisa que vem
E se manda,
Onde é que esse poema
Vai morar?
30.1.09
Gastei meus rascunhos
Tentando um verso
Que a poesia
Me pediu para escrever...
Usufruindo
Da companhia
Das tantas coisas
Pra se dizer...
Tentei sonetos
E redondilhas,
E frases
E fonemas
Sem pecado...
Gastei meus rabiscos
Num palavreado
Que se perdeu
Sem se deixar ler...
Palavras desenhando
Aprendizados...
Versos inteiros
De não se conter...
27.1.09
10.1.09
A rede social Facebook resolveu tirar do ar fotos de mulheres amamentando seus filhos nas quais apareçam o bico do seio ou a auréola. A explicação oficial é que as fotos constituem pornografia, uma vez que mostram partes do seio consideradas obscenas.
Somos todos pornográficos, então:
As mães, os filhos, os apoiadores...
Fanáticos por peito, por pega, por sucção,
E pelos hormonios liberadores...
Somos os pornográficos da nova geração:
Os pornográficos sem falsos pudores,
Os sem pecado, e por isso sem perdão,
Apaixonados aconselhadores...
Somos os obscenos sem pecados,
Os pornograficos apaixonados,
Tirem-nos do ar... Mas não tem jeito...
Ainda assim continuaremos,
E cada vez mais fotografaremos
O bico do seio, a aréola e o leite do peito...
Dedicado à propaganda anti-amamentista espalhada pelo mundo...
Dói mais a omissão injustificada,
O silêncio daqueles que tem o que dizer,
Dói mais a inapetencia conformada
(o mesmo que a falta de fome de saber)
Dói mais a usura desenfreada,
A falta de vontade de aprender,
A propaganda mal intecionada
Que não se importa em mentir se é pra vender...
Dói mais a alma que se faz contaminada,
Que escolhe a escuridão escancarada
Como faz o que não é cego e nem quer ver...
Dói mais a morte da criança desmamada,
A vida humana desamparada,
Dói mais viver tudo isso e não se doer...
23.12.08
Aos familiares e aos bebes internados na UTI Neonatal Nicola Albano
Aqui estamos,
De longe viemos...
Um longo e cansativo itinerário...
Foram inúmeras as vezes que choramos,
Foram inúmeras as dores que sofremos,
E no entanto
Tudo parece ter sido Absolutamente necessário
Para que chegássemos até aqui:
As lágrimas, a aflição, o desespero,
As noites intermináveis sem dormir,
Os descaminhos sem sol por que passamos
E as fraquezas de quase desistir...
Tudo absolutamente necessário
Para que acabássemos por descobrir
Tantas lições de vida, acolhimento,
Amparo, apoio, sustentação,
Solidariedade abrandando o sofrimento,
Perseverança alimentando o coração...
Tudo absolutamente necessário,
E imaginar que imaginávamos o contrário
Quando a nossa vida cuidou de desabar...
Tudo em volta, de repente, sem sentido...
Faltou o chão, de repente, de pisar...
Foram dias inteiros tentando descobrir
E noites sem dormir nem acordar...
Um sofrimento diário
E no entanto
Parece que absolutamente necessário
Para que mobilizássemos nossas energias
Por dias e dias e dias e dias
E muitas vezes
Até por meses
Entre tomografias e ultra-sonografias,
Entre hipoglicemias e hiperglicemias,
E anemias e arritmias
E outros tantos sinônimos de dor...
Fomos bordando assim nosso calvário
E hoje
Parece que tudo
Foi absolutamente necessário
E nada absolutamente sem valor...
Porque a fraqueza nos fez fortalecidos,
A dor nos desenhou mais resistentes,
As ameaças tornaram-nos mais vivos
E tanta angustia, mais persistentes...
Tocaram-nos o afetos dos queridos:
Esposo, esposa, pais, irmãos, parentes...
Luzes para que não quedássemos perdidos,
Sustento para que não tombássemos descrentes...
E a dor que nos fez tantas vezes tão sozinhos,
Atormentando nossos caminhos,
Fazendo nosso coração passar tão mal,
É a mesma dor, condição transformadora,
Que com sua força renovadora
Nos traz aqui, nesse dia de Natal...
E a mesma dor que nos fez tão diminuídos
É a dor que nos tornou fortalecidos
E nos mostrou o caminho de saída,
E a mesma dor que tentou-nos derrotados
É a dor que nos traz hoje renovados
Valorizando mais que nunca a própria vida...
E a vida como uma dádiva sagrada
É o bem maior que em sua caminhada
Os nossos filhos vão preservando...
Vão resistindo, heróis, a tempestades,
Saindo ilesos de calamidades,
Salvando-se de enormes vendavais...
E a vida como uma graça alcançada
Por cada um deles nessa jornada
É o bem maior que cada um vai conquistando,
Vestidos de esperanças e vontades,
Superando, como heróis, dificuldades,
Conquistando, com sua dor, a própria paz...
Aqui estamos
Foi como se o coração parasse o calendário
E o tempo desistisse de passar...
E no entanto
Tudo parece ter sido absolutamente necessário
Para que chegássemos
A essa hora
E hoje, a esse dia,
Completa e inteiramente renovados
Dispostos como nunca a continuar...
Crescemos
Com a dor que enfrentamos, amadurecemos,
Amadurecidos, aprendemos a compartilhar
A nossa dor com a dor de toda gente,
E foi isso que nos fez seguir em frente
E nos deu força pra perseverar...
Crescemos
A dor que um dia nos fez sentir pequenos
Foi a mesma que nos ensinou a caminhar...
Uma lição de se aprender diariamente...
Uma lição de durar eternamente...
Um aprendizado que se chama amar...
16.12.08
Para Roberta Profice
Viver é reeditar-se diariamente
Entre palavras e gestos, renascendo
A cada dia, e sempre lentamente
Como uma criança crescendo...
E cada dia é um dia diferente
Por isso é que é vivendo e aprendendo...
Viver é reeditar-se avidamente
Como um riacho correndo...
Nada acontece da mesma maneira.
Uma segunda feira e outra segunda feira
Não são exatamente o mesmo dia...
Reeditar-se. E a unica certeza
É estar em paz com a própria natureza,
É estar de bem com a própria poesia...
6.12.08
A poesia, letra comezinha,
Não muita coisa além de um palavreado,
Mas com o mesmo efeito que a salsinha
Causa num belo prato de ensopado...
Nada demais. Palavra arrumadinha
Sem freio, sem portão e sem cadeado...
Pode conter um elefante, uma bimbinha,
Ou um mar todo nunca dantes navegado...
Por ser assim discreta e desregrada
Possui a força de uma enxurrada
E a delicadeza de uma brisa...
A poesia, letra abusada
Que quer ser mais que ser letra... Inconformada...
A poesia, fronteira sem divisa...
5.12.08
A poesia, palavra enfileirada
Por conta de um arranjo calculado
Gerando um som que geralmente agrada
À medida em que o poema é declamado...
E veja que não é preciso quase nada,
Basta que a gente coloque lado a lado
Muitas palavras de uma maneira arrumada,
Muitas palavras de um modo encadeado,
E é assim que a poesia ganha um aroma
Onde cada palavra é um som que soma
E é essa soma mágica que cria
A poesia, palavra penteada,
A poesia, palavra perfumada,
Prosa vestida de gala, a poesia...
4.12.08
Nada é tão frágil que não consiga crescer,
Nada é tão bom que não necessite mudar...
É tudo uma questão de perceber...
É tudo uma questão de acreditar...
Nada é tão "sonho" que não possa acontecer,
Nada é tão "hoje" que não mereça sonhar...
Tudo na vida é uma questão de fazer...
Tudo na vida é uma questão de tentar...
É amanhã o dia que há de ser,
Se ontem foi o tempo de aprender,
O hoje é a hora de se trabalhar...
É tudo uma questão de se envolver...
Nada é tão forte que não se possa vencer...
Nada é tão longe que não se possa alcançar...
2.12.08
A poesia, rima calculada,
Palavra articulada, a poesia,
Matematicamente desenhada,
Um exercicio de lógica, eu diria...
Milimétricamente metrificada,
Tática travestida de harmonia,
É técnica mesmo quando exagerada:
Nenhuma letra aonde não devia...
A poesia, frase articulada,
Fiel como é uma peça dissecada,
Ainda que sem destinação ou guia...
Letra estratégicamente alinhavada,
Pilula de emoção premeditada,
A poesia, pura engenharia...
A poesia, palavra ritimada,
Vestida toda de métrica e rima...
Para onde vai assim tão arrumada
Essa menina?
Possui ao mesmo tempo a voz calada
E a multipla atividade de uma enzima.
A poesia. Como a madrugada...
A poesia. Como a ocitocina...
Composta bem mais do éter que da letra,
Possui a efemeridade de um cometa
E a eternidade do infinito...
A poesia. Eterna e passageira.
Lampejo que perdura a vida inteira.
Eterna a poesia. Como um mito.
23.11.08
(para minha amiga Roberta Profice)
Se o coração não pensa antes de sentir
E quando sente é sempre por inteiro,
E não escolhe nunca pra onde ir,
E vai sempre pra onde pensou primeiro,
E quase nunca sabe decidir
Entre o que é falso e o que é verdadeiro,
E ao mesmo tempo não consegue se omitir
Nem tentar esconder o proprio cheiro,
Então também assim, amiga minha,
Quando disseres qualquer palavrazinha,
Antes de tudo, preste atenção
Pra que ela esteja sempre em sintonia
Com sua alma, com sua poesia,
Com sua vida e com seu coração...
21.11.08
Ao poeta Antonio Roberto Fernandes, falecido nas primeiras horas de hoje...
Não diga "morte" quando o poeta parte,
Posto que quando parte não se acaba
Mas dignifica a vida com sua arte,
Fazendo brotar vida da palavra...
Posto que a morte é apenas uma parte
Por meio da qual toda a vida se alinhava,
Resume tudo, como um estandarte
Bem justo quando ninguém imaginava...
Não diga "morte", portanto... Diga um verso...
O poeta não morreu... Está disperso
Inundando todos nós com os versos seus...
Não diga "morte"... Diga: "Até um dia
Quando conversaremos em poesia"...
Diga ao poeta: "Fica com Deus"...
14.11.08
Melhora, amigo, sua poesia
Faz falta nesse mundo tão mesquinho...
Vem logo para nossa companhia,
Ler um soneto, contar um versinho...
Tem gente contando nos dedos esse dia...
E cada dia falta menos um pouquinho...
Por que essa falta de pressa tão Bahia?
Por que tão assim devagar, devagarinho?
A vida é como um poema bem comprido
Que quase nunca termina de ser lido:
Há sempre um verso livre por dizer...
Os pratos de vovó estão esperando...
Vem, poeta, estamos te aguardando...
Fica com Deus, meu poeta... Até mais ver...
1.11.08
31.10.08
Ao poeta Antonio Roberto
Versos traçados em eletrocardiografia,
Sonetos feitos de venopunção,
Rimas fingindo-se antibioticoterapia,
Quadrinhas sustentando a intubação...
Redondilhas contornando a arritimia,
Sextetos comandando a oxigenação...
Rimas ricas para a hipocalcemia,
Metáforas estimulando o coração...
O poeta, entre potássios e glicoses,
Vai declamando seu verso a várias vozes
E não esmorece, absolutamente...
Traduz em poesia tudo em torno
E faz da própria vida um grande forno
Que prepara poesia eternamente...
22.10.08
(Poeminha após a leitura das explanações fonoaudiológicas sobre o reflexo da busca)
Eu não a imaginava assim, tão importante,
E nem sabia, sinceramente,
Que ela era um marco tão significante,
O começo de tudo, praticamente...
Dominado pelo estigma do eterno principiante,
Eu sempre vi nela um reflexo somente,
Primário como o de Moro, e desimportante,
E temporário, e menor, e inaparente...
Mas a vida, de forma delicada e brusca,
Tratou de me ensinar a compreender a busca
De uma maneira jamais por mim antes compreendida...
A busca além de um dos reflexos primitivos...
A busca além da busca que há nos livros...
A busca como preservação da própria vida...
7.8.08
Somos mamiferozinhos
Assim como são os gatinhos
E os cachorrinhos
E os filhotinhos das elefoas,
Como as oncinhas e os cavalinhos,
Como os bezerros e os macaquinhos,
Da mesma forma que os filhotes das leoas,
E as girafinhas e os canguruzinhos,
E como também são as ovelhinhas
Somos mamiferozinhos.
Mamamos do mesmo modo
Que os ursinhos,
Crescemos do mesmo jeito
Que os miquinhos,
Ficamos fortes
Como os tigrezinhos
Porque como esses bichinhos
Desde pequenininhos
Mamamos o leite de peito
Que a mamãe nos dá.
Mamiferozinhos nós somos.
Crescemos fortinhos
E desde miudinhos
Aprendemos, como eles, a falar:
Mamãe eu quero mamar
5.8.08
A minha amiga
Para Carla Brasil
Minha amiga doce e mais amada
E mais querida amiga e mais presente
E mais escrita amiga e mais lembrada
E mais suavemente transparente
Amiga tão gentil, tão educada
Quem olha quase não sabe o que ela sente
Quando esta triste sorri, a disfarçada,
Quando feliz, fala pausadamente
Amiga decidida e bem dosada
Não troca a coisa certa pela errada
Não vive a vida de modo inconsequente...
Não fosse real, seria um conto de fada,
Nem precisava ser tão iluminada
A minha amiga que eu amo imensamente...
16.7.08
Calúnia, infâmia, perseguição...
Que outros sinônimos tem a palavra roubalheira?
Desfalque, tombo, desvio... Quantos são?
Incorrigível essa política brasileira...
Os acusados negam a acusação...
A cidade assiste, assustada, à bandalheira...
Sobrou algum dinheiro? Quase não...
E olha que ainda era só segunda feira...
_Tudo mentira! Afirmam os aliados...
Habeas corpus - impetram os advogados...
Aonde afinal essa gente vai parar?
A lista quase sem fim dos envolvidos...
Tantos bilhões por tão poucos subtraidos...
Restou alguém em quem acreditar?
13.7.08
Cidade Pobre
Ah, Campos, cidade pobre...
Pobres por todos os lados...
É dessa forma, sem cobres,
Que seremos governados...
Por sermos tão pobrezinhos
Dinheiro aqui ninguém tem...
Que Deus abençoe os caminhos
Da cidade sem vintém...
Tão sem grana essa cidade
Que aguarda a felicidade
Enquanto a mesma não vem...
Ah, Campos, cidadezinha...
Ah, Campos, cidade minha
Governada por ninguém...
8.7.08
Versos para Eunice Begot
Quando tudo que há em volta é paz serena
E a brisa boa tem sabor de mar,
E quando a vida dessa forma vale à pena,
E nada em torno parece incomodar,
E nenhum rastro há de nenhum problema,
E nenhum saldo há de contas a pagar,
E a vida é bela, como no cinema,
E perfeita como uma musica de Bach,
É nessas horas que a maldade humana,
Hipócrita, cruel e leviana,
Costuma invariavelmente conspirar...
Mas Deus é mais que o mal. Então confia.
Nada é maior que a Sua companhia,
Nada é capaz de o desafiar...
Segue portanto, Eunice, a sua luta.
Supera com amor a força bruta
E o bem, por fim, há de triunfar...
9.6.08
A Natureza
E pouca coisa há tão impressionante
Maravilhosa, de gosto delicado,
E lúcida e limpa, feito um diamante
Que é lindo sem precisar ser lapidado,
E quase nada na vida é tão intrigante,
E a tantos tem desse modo maravilhado:
A natureza, que é assim como um gigante
E é como um sopro de brisa perfumado...
Nenhuma coisa no universo inteiro,
Nenhum poder militar, nenhum dinheiro,
Nenhuma dinastia ou realeza
Possui mais maravilhas que uma planta...
Nada no mundo dos homens, não adianta,
É mais perfeito que a natureza...
5.5.08
A mãe prematura
A mãe prematura do bebe prematuro
Nascida antes do que era para ser,
Como quem antecipa o seu futuro,
Como quem torna-se sem perceber...
A mãe prematura do bebe prematuro
E a luta por seu bebê sobreviver...
Às vezes tudo é tão sombrio e escuro...
Tudo tão frio, sem amanhecer...
A longa dor de quem aguarda a cura,
Como quem, sem saber o que, procura,
E assim, nessa procura, se desfaz...
Segura nas mãos de Deus, mãe prematura...
Segura nas mãos de Deus que te segura...
Segura nas mãos de Deus e segue em paz...
30.4.08
Uma Declaração Universal de Direitos para o Bebê Prematuro
Artigo I
Todos os prematuros nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência. Possuem vida anterior ao nascimento, bem como memória, aprendizado, emoção e capacidade de resposta e interação com o mundo em sua volta.
Artigo II
Todo prematuro tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.
Artigo III
Nenhum prematuro será arbitrariamente exilado de seu contexto familiar de modo brusco ou por tempo prolongado. A preservação deste vínculo, ainda quando silenciosa e discreta, é parte fundamental de sua vida.
Artigo IV
Todo prematuro tem direito ao tratamento estabelecido pela ciência, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. Sendo assim, todo prematuro tem o direito de ser cuidado por uma equipe multidisciplinar capacitada a compreendê-lo, interagir com ele e a tomar decisões harmônicas em seu beneficio e em prol de seu desenvolvimento.
Artigo V
Todo prematuro tem direito à liberdade de opinião e expressão, portanto deverá ter seus sinais de aproximação e afastamento identificados, compreendidos, valorizados e respeitados pela equipe de cuidadores. Nenhum procedimento será considerado ético quando não levar em conta para sua execução as necessidades individuais de contato ou recolhimento do bebê prematuro.
Artigo VI
Nenhum prematuro será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Sua dor deverá ser sempre considerada, prevenida e tratada através dos processos disponibilizados pela ciência atual. Nenhum novo procedimento doloroso poderá ser iniciado até que o bebê se reorganize e se restabeleça da intervenção anterior. Negar-lhe esse direito é crime de tortura contra a vida humana.
Artigo VII
Todo prematuro tem direito ao repouso, devendo por isso ter respeitados seus períodos de sono superficial e profundo que doravante serão tomados como essenciais para seu desenvolvimento psíquico adequado e sua regulação biológica. Interromper de forma aleatória e irresponsável sem motivo justificado o sono de um prematuro é indicativo de maus tratos.
Artigo VIII
Todo prematuro tem o direito inalienável ao silencio que o permita sentir-se o mais próximo possível do ambiente sonoro intra-uterino, em respeito a seus limiares e à sua sensibilidade. Qualquer fonte sonora que desrespeite esse direito será considerada criminosa, hedionda e repugnante.
Artigo IX
Nenhum prematuro deverá, sob qualquer justificativa, ser submetido a procedimento estressante aplicado de forma displicente e injustificada pela Equipe de Saúde, sob pena da mesma ser considerada negligente, desumana e irresponsável.
Artigo X
Todo prematuro tem direito a perceber a alternância entre a claridade e a penumbra, que passarão a representar para ele a noite e o dia. Nenhuma luz intensa permanecerá o tempo inteiro acesa e nenhuma sombra será impedida de existir sob a alegação de monitorização continua sem que os responsáveis por estes comportamentos deixem de ser considerados displicentes, agressores e de atitude dolosa.
Artigo XI
Todo prematuro tem o direito, uma vez atingidas as condições básicas de equilíbrio e vitalidade, ao amor materno, ao calor materno e ao leite materno que lhe são oferecidos através do Método Mãe Canguru. Caberá à Equipe de Saúde prover as condições estruturais mínimas necessárias a esse vinculo essencial e transformador do ambiente prematuro. Nenhum profissional ou cargo de comando em nenhuma esfera tem a prerrogativa de impedir ou negar a possibilidade desse vinculo que é símbolo da ciência tecnocrata redimida.
Artigo XII
Todo prematuro tem o direito de ser alimentado com o leite de sua própria mãe ou, na falta desta, com o de uma outra mulher tão logo suas condições clinicas assim o permitirem. Deverá ter sua sucção corretamente trabalhada desde o inicio da vida e caberá à equipe de saúde garantir-lhe esse direito, afastando de seu entorno bicos de chupetas, chucas ou de qualquer outro elemento que venha interferir negativamente em sua sucção saudável, bem como assegurando seu acompanhamento por profissionais capacitados a facilitarem esse processo. Nenhum custo financeiro será considerado demasiadamente grande quando aplicado com esse fim. Nenhuma fórmula láctea será displicentemente prescrita e nenhum zelo será descuidadamente aplicado sem que isso signifique desatenção e desamparo. O leite materno, doravante, será considerado e tratado como parte fundamental da sua vida.
25.4.08
A pizzaria
Construíram uma imensa pizzaria
No coração da planície goitacá.
É casa cheia : o trenzinho da alegria
Não deixa a pizzaria esvaziar...
Sabor de tombo, de pilantraria,
Borda de recheio anti-liminar,
Só dá primeiro escalão: procuradoria,
Assessoria, vereadores, todos lá...
Tem pizza pro arquiteto e pra mocinha,
Tem pizza, dizem, de bananinha,
Quem come tá sempre querendo voltar...
Fizeram da minha cidade sem justiça
Uma imensa e imunda e incompreensível pizza
E a conta o povo é que vai pagar...
23.4.08
(para Margot)
A hora da poesia não tem hora,
É ao meio dia, é em plena madrugada,
É daqui a pouco, é amanhã, é agora,
É logo depois da próxima alvorada,
E por não ter hora, às vezes demora
Dias e dias, outras vezes nada...
Às vezes é quando todos vão embora,
Outras vezes é bem no meio da balada...
A hora da poesia é um parto e tanto,
É natural e ao som de um acalanto
Que embala a mãe amamentando a cria...
E não tem hora, definitivamente,
A poesia que alimenta a gente...
É toda hora a hora da poesia...
17.4.08
A falta
Ao meu pai Clóvis Tavares em lembrança de seus 24 anos de partida. 13 de abril 1984-13 de abril 2008
A boa palavra nunca mais escrita,
A frase boa nunca mais falada,
A boa conversa não mais repetida,
E, como a conversa, o olhar, a risada...
A personalidade do homem espírita
E uma vida inteira dedicada,
E a voz intensa, doce e às vezes aflita
Para a poesia belissimamente recitada...
O zelo, a perseverança, a inteligência,
A História, a poesia, o Cristianismo, a ciência
E uma presença desconcertante...
Ah, quanta falta, pai, do teu carinho...
E esse silencio que é escrever sozinho...
E essa saudade quase dissecante...
Capitulada
A minha cidade resiste à solidão,
Ao abandono, ao desespero, à mágoa,
Ao desencantamento, à ingratidão...
A minha cidade só não resiste à água...
Resiste à miséria, resiste à corrupção,
Ao poder publico submerso no atoleiro,
Ao grampo no telefone do ladrão...
A minha cidade só não resiste a um aguaceiro...
Resiste aos homens da Policia Federal,
Resiste ao camarote e ao carnaval
E ao rio das enchentes de águas turvas...
Resiste às pontes e aos golpes dos corruptos
E aos podres poderes dos homens estúpidos...
A minha cidade só não resiste às chuvas...
10.4.08
Se não tiver nessa padaria
Procure naquela outra logo adiante,
Mas se a prateleira também estiver vazia
Não troque ainda o seu sonho por um refrigerante.
Segue, e duas quadras depois da livraria
Uma confeitaria muito elegante
Também vende sonhos... Mas que ironia:
Acabou de ser comido o sonho gigante...
Mas não desista ainda. Vai em frente.
Sonho que é sonho é sempre persintente,
Por isso nunca deixe de sonhar...
Persiga seu sonho na confeitaria
Ou no imporoviso de alguma poesia...
Só toma cuidado na hora de acordar...
17.3.08
Seja bem vindo ao mar de lama obscura
Que fez morada na minha cidade
Transformando-a em estranha criatura
Mancomunada com a imoralidade...
Seja bem vindo ao mar de lama impura
Que encheu de sombra escura a claridade
Como se fosse uma doença sem cura,
Um cancer descoberto muito tarde...
Seja bem vindo à imensa lamaceira
Que fez da minha cidade uma lixeira
E hoje é parte da sua própria vida...
Seja bem vindo ao mar de lama, irmão...
É como se não houvesse outra opção...
É como se não houvesse outra saida...
16.3.08
Gritaram: pega ladrão...
Não sobrou um no lugar...
Anos a fio metendo a mão,
Já não sabiam parar...
Cidade imunda de corrupção...
Larápios a conjugar
O verbo da moda que faz o ladrão
O verbo da moda: roubar...
Cidade completamente corrompida...
Enlamearam a porta de saida,
Sujaram tudo, não sobrou ninguém...
Meu Deus, tem pena da minha cidade,
Antro imoral de toda iniquidade...
Quem vive aqui sabe bem...
1.3.08
Parou o coração, congestionado,
Enfraquecido, insuficiente,
Como um maratonista desarmado,
Como uma estrela cadente...
Parou o coração, desconfortado
Dentro de um mediastino incomplecente.
Cresceu, e o peito tornou-se-lhe apertado.
Cresceu demais, aparentemente...
Parou o coração, digitalizado,
Corretamente monitorado
E com um desfiblilador bem na sua frente...
Parou, a despeito de todo cuidado.
Parou sem perceber-se medicado.
Parou de vez o coração doente...
Parou o coração. E nem queria.
E se tentou se salvar, não conseguiu.
Parou vitimado por subita arritimia.
Como uma estátua de Trotsky, caiu.
Parou o coração naquele dia
Bem justo quando parecia estar a mil.
Massagem. Adrenalina intracardiaca.
E a vida que ali havia escapuliu.
Parou o coração, como constatado.
Já não é o mesmo o coração, parado.
Já não é o mesmo que era o que batia.
Parou o coração contra a própria vontade.
Parou vitimado de subita gravidade.
Parou quando ele nem percebia.
