16.7.08
Calúnia, infâmia, perseguição...
Que outros sinônimos tem a palavra roubalheira?
Desfalque, tombo, desvio... Quantos são?
Incorrigível essa política brasileira...
Os acusados negam a acusação...
A cidade assiste, assustada, à bandalheira...
Sobrou algum dinheiro? Quase não...
E olha que ainda era só segunda feira...
_Tudo mentira! Afirmam os aliados...
Habeas corpus - impetram os advogados...
Aonde afinal essa gente vai parar?
A lista quase sem fim dos envolvidos...
Tantos bilhões por tão poucos subtraidos...
Restou alguém em quem acreditar?
13.7.08
Cidade Pobre
Ah, Campos, cidade pobre...
Pobres por todos os lados...
É dessa forma, sem cobres,
Que seremos governados...
Por sermos tão pobrezinhos
Dinheiro aqui ninguém tem...
Que Deus abençoe os caminhos
Da cidade sem vintém...
Tão sem grana essa cidade
Que aguarda a felicidade
Enquanto a mesma não vem...
Ah, Campos, cidadezinha...
Ah, Campos, cidade minha
Governada por ninguém...
8.7.08
Versos para Eunice Begot
Quando tudo que há em volta é paz serena
E a brisa boa tem sabor de mar,
E quando a vida dessa forma vale à pena,
E nada em torno parece incomodar,
E nenhum rastro há de nenhum problema,
E nenhum saldo há de contas a pagar,
E a vida é bela, como no cinema,
E perfeita como uma musica de Bach,
É nessas horas que a maldade humana,
Hipócrita, cruel e leviana,
Costuma invariavelmente conspirar...
Mas Deus é mais que o mal. Então confia.
Nada é maior que a Sua companhia,
Nada é capaz de o desafiar...
Segue portanto, Eunice, a sua luta.
Supera com amor a força bruta
E o bem, por fim, há de triunfar...
9.6.08
A Natureza
E pouca coisa há tão impressionante
Maravilhosa, de gosto delicado,
E lúcida e limpa, feito um diamante
Que é lindo sem precisar ser lapidado,
E quase nada na vida é tão intrigante,
E a tantos tem desse modo maravilhado:
A natureza, que é assim como um gigante
E é como um sopro de brisa perfumado...
Nenhuma coisa no universo inteiro,
Nenhum poder militar, nenhum dinheiro,
Nenhuma dinastia ou realeza
Possui mais maravilhas que uma planta...
Nada no mundo dos homens, não adianta,
É mais perfeito que a natureza...
5.5.08
A mãe prematura
A mãe prematura do bebe prematuro
Nascida antes do que era para ser,
Como quem antecipa o seu futuro,
Como quem torna-se sem perceber...
A mãe prematura do bebe prematuro
E a luta por seu bebê sobreviver...
Às vezes tudo é tão sombrio e escuro...
Tudo tão frio, sem amanhecer...
A longa dor de quem aguarda a cura,
Como quem, sem saber o que, procura,
E assim, nessa procura, se desfaz...
Segura nas mãos de Deus, mãe prematura...
Segura nas mãos de Deus que te segura...
Segura nas mãos de Deus e segue em paz...
30.4.08
Uma Declaração Universal de Direitos para o Bebê Prematuro
Artigo I
Todos os prematuros nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência. Possuem vida anterior ao nascimento, bem como memória, aprendizado, emoção e capacidade de resposta e interação com o mundo em sua volta.
Artigo II
Todo prematuro tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.
Artigo III
Nenhum prematuro será arbitrariamente exilado de seu contexto familiar de modo brusco ou por tempo prolongado. A preservação deste vínculo, ainda quando silenciosa e discreta, é parte fundamental de sua vida.
Artigo IV
Todo prematuro tem direito ao tratamento estabelecido pela ciência, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. Sendo assim, todo prematuro tem o direito de ser cuidado por uma equipe multidisciplinar capacitada a compreendê-lo, interagir com ele e a tomar decisões harmônicas em seu beneficio e em prol de seu desenvolvimento.
Artigo V
Todo prematuro tem direito à liberdade de opinião e expressão, portanto deverá ter seus sinais de aproximação e afastamento identificados, compreendidos, valorizados e respeitados pela equipe de cuidadores. Nenhum procedimento será considerado ético quando não levar em conta para sua execução as necessidades individuais de contato ou recolhimento do bebê prematuro.
Artigo VI
Nenhum prematuro será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Sua dor deverá ser sempre considerada, prevenida e tratada através dos processos disponibilizados pela ciência atual. Nenhum novo procedimento doloroso poderá ser iniciado até que o bebê se reorganize e se restabeleça da intervenção anterior. Negar-lhe esse direito é crime de tortura contra a vida humana.
Artigo VII
Todo prematuro tem direito ao repouso, devendo por isso ter respeitados seus períodos de sono superficial e profundo que doravante serão tomados como essenciais para seu desenvolvimento psíquico adequado e sua regulação biológica. Interromper de forma aleatória e irresponsável sem motivo justificado o sono de um prematuro é indicativo de maus tratos.
Artigo VIII
Todo prematuro tem o direito inalienável ao silencio que o permita sentir-se o mais próximo possível do ambiente sonoro intra-uterino, em respeito a seus limiares e à sua sensibilidade. Qualquer fonte sonora que desrespeite esse direito será considerada criminosa, hedionda e repugnante.
Artigo IX
Nenhum prematuro deverá, sob qualquer justificativa, ser submetido a procedimento estressante aplicado de forma displicente e injustificada pela Equipe de Saúde, sob pena da mesma ser considerada negligente, desumana e irresponsável.
Artigo X
Todo prematuro tem direito a perceber a alternância entre a claridade e a penumbra, que passarão a representar para ele a noite e o dia. Nenhuma luz intensa permanecerá o tempo inteiro acesa e nenhuma sombra será impedida de existir sob a alegação de monitorização continua sem que os responsáveis por estes comportamentos deixem de ser considerados displicentes, agressores e de atitude dolosa.
Artigo XI
Todo prematuro tem o direito, uma vez atingidas as condições básicas de equilíbrio e vitalidade, ao amor materno, ao calor materno e ao leite materno que lhe são oferecidos através do Método Mãe Canguru. Caberá à Equipe de Saúde prover as condições estruturais mínimas necessárias a esse vinculo essencial e transformador do ambiente prematuro. Nenhum profissional ou cargo de comando em nenhuma esfera tem a prerrogativa de impedir ou negar a possibilidade desse vinculo que é símbolo da ciência tecnocrata redimida.
Artigo XII
Todo prematuro tem o direito de ser alimentado com o leite de sua própria mãe ou, na falta desta, com o de uma outra mulher tão logo suas condições clinicas assim o permitirem. Deverá ter sua sucção corretamente trabalhada desde o inicio da vida e caberá à equipe de saúde garantir-lhe esse direito, afastando de seu entorno bicos de chupetas, chucas ou de qualquer outro elemento que venha interferir negativamente em sua sucção saudável, bem como assegurando seu acompanhamento por profissionais capacitados a facilitarem esse processo. Nenhum custo financeiro será considerado demasiadamente grande quando aplicado com esse fim. Nenhuma fórmula láctea será displicentemente prescrita e nenhum zelo será descuidadamente aplicado sem que isso signifique desatenção e desamparo. O leite materno, doravante, será considerado e tratado como parte fundamental da sua vida.
25.4.08
A pizzaria
Construíram uma imensa pizzaria
No coração da planície goitacá.
É casa cheia : o trenzinho da alegria
Não deixa a pizzaria esvaziar...
Sabor de tombo, de pilantraria,
Borda de recheio anti-liminar,
Só dá primeiro escalão: procuradoria,
Assessoria, vereadores, todos lá...
Tem pizza pro arquiteto e pra mocinha,
Tem pizza, dizem, de bananinha,
Quem come tá sempre querendo voltar...
Fizeram da minha cidade sem justiça
Uma imensa e imunda e incompreensível pizza
E a conta o povo é que vai pagar...
23.4.08
(para Margot)
A hora da poesia não tem hora,
É ao meio dia, é em plena madrugada,
É daqui a pouco, é amanhã, é agora,
É logo depois da próxima alvorada,
E por não ter hora, às vezes demora
Dias e dias, outras vezes nada...
Às vezes é quando todos vão embora,
Outras vezes é bem no meio da balada...
A hora da poesia é um parto e tanto,
É natural e ao som de um acalanto
Que embala a mãe amamentando a cria...
E não tem hora, definitivamente,
A poesia que alimenta a gente...
É toda hora a hora da poesia...
17.4.08
A falta
Ao meu pai Clóvis Tavares em lembrança de seus 24 anos de partida. 13 de abril 1984-13 de abril 2008
A boa palavra nunca mais escrita,
A frase boa nunca mais falada,
A boa conversa não mais repetida,
E, como a conversa, o olhar, a risada...
A personalidade do homem espírita
E uma vida inteira dedicada,
E a voz intensa, doce e às vezes aflita
Para a poesia belissimamente recitada...
O zelo, a perseverança, a inteligência,
A História, a poesia, o Cristianismo, a ciência
E uma presença desconcertante...
Ah, quanta falta, pai, do teu carinho...
E esse silencio que é escrever sozinho...
E essa saudade quase dissecante...
Capitulada
A minha cidade resiste à solidão,
Ao abandono, ao desespero, à mágoa,
Ao desencantamento, à ingratidão...
A minha cidade só não resiste à água...
Resiste à miséria, resiste à corrupção,
Ao poder publico submerso no atoleiro,
Ao grampo no telefone do ladrão...
A minha cidade só não resiste a um aguaceiro...
Resiste aos homens da Policia Federal,
Resiste ao camarote e ao carnaval
E ao rio das enchentes de águas turvas...
Resiste às pontes e aos golpes dos corruptos
E aos podres poderes dos homens estúpidos...
A minha cidade só não resiste às chuvas...
10.4.08
Se não tiver nessa padaria
Procure naquela outra logo adiante,
Mas se a prateleira também estiver vazia
Não troque ainda o seu sonho por um refrigerante.
Segue, e duas quadras depois da livraria
Uma confeitaria muito elegante
Também vende sonhos... Mas que ironia:
Acabou de ser comido o sonho gigante...
Mas não desista ainda. Vai em frente.
Sonho que é sonho é sempre persintente,
Por isso nunca deixe de sonhar...
Persiga seu sonho na confeitaria
Ou no imporoviso de alguma poesia...
Só toma cuidado na hora de acordar...
17.3.08
Seja bem vindo ao mar de lama obscura
Que fez morada na minha cidade
Transformando-a em estranha criatura
Mancomunada com a imoralidade...
Seja bem vindo ao mar de lama impura
Que encheu de sombra escura a claridade
Como se fosse uma doença sem cura,
Um cancer descoberto muito tarde...
Seja bem vindo à imensa lamaceira
Que fez da minha cidade uma lixeira
E hoje é parte da sua própria vida...
Seja bem vindo ao mar de lama, irmão...
É como se não houvesse outra opção...
É como se não houvesse outra saida...
16.3.08
Gritaram: pega ladrão...
Não sobrou um no lugar...
Anos a fio metendo a mão,
Já não sabiam parar...
Cidade imunda de corrupção...
Larápios a conjugar
O verbo da moda que faz o ladrão
O verbo da moda: roubar...
Cidade completamente corrompida...
Enlamearam a porta de saida,
Sujaram tudo, não sobrou ninguém...
Meu Deus, tem pena da minha cidade,
Antro imoral de toda iniquidade...
Quem vive aqui sabe bem...
1.3.08
Parou o coração, congestionado,
Enfraquecido, insuficiente,
Como um maratonista desarmado,
Como uma estrela cadente...
Parou o coração, desconfortado
Dentro de um mediastino incomplecente.
Cresceu, e o peito tornou-se-lhe apertado.
Cresceu demais, aparentemente...
Parou o coração, digitalizado,
Corretamente monitorado
E com um desfiblilador bem na sua frente...
Parou, a despeito de todo cuidado.
Parou sem perceber-se medicado.
Parou de vez o coração doente...
Parou o coração. E nem queria.
E se tentou se salvar, não conseguiu.
Parou vitimado por subita arritimia.
Como uma estátua de Trotsky, caiu.
Parou o coração naquele dia
Bem justo quando parecia estar a mil.
Massagem. Adrenalina intracardiaca.
E a vida que ali havia escapuliu.
Parou o coração, como constatado.
Já não é o mesmo o coração, parado.
Já não é o mesmo que era o que batia.
Parou o coração contra a própria vontade.
Parou vitimado de subita gravidade.
Parou quando ele nem percebia.
23.1.08
Parada cardíaca
Parou o coração, subitamente,
Congestionado de coisas por fazer.
Não deu sinais de parar. Foi de repente,
Como se estivesse saturado de viver.
E assim, súbita e definitivamente,
Pois não voltou a bater,
Parou, como se estivesse cansado do batente
Ou como se estivesse desistido de sofrer.
Guardou, com seu silencio, nomes, dias,
Desejos, desafetos, avarias,
Fragmentos da vida ainda por levar...
Parou o coração. Silencio. Nada.
A vida, vitima da súbita parada,
Escapuliu para nunca mais voltar...
25.11.07
Não uso dicionário...
Meu dicionário é meu coração.
Não há palavra que ele desconheça,
Não há nenhuma
Que cause confusão.
E não importa a língua
Ingles, Nagô,
Castelhano,
Francês,
Turco, Alemão...
O coração conhece,
Entende,
Fala,
Responde,
Escreve
E diz
Com perfeição...
Por isso é que eu não uso
Dicionário.
Meu dicionário
Não cabe
Na minha mão...
Prossegue além da letra,
Da palavra,
Do significado
E da razão...
E não tem regras,
Nem páginas,
Nem índice,
Nem letras,
Nem pecado,
Nem perdão...
Eu não preciso de dicionários,
Turvos...
Meu dicionário
É meu coração...
11.10.07
Para minha irmãzinha Rose in http://www.eternessencias.blogspot.com/
Por ter achado aqui morada boa,
Terreno fertil para se plantar,
Casa de campo deliciosa,
A poesia, que não se perdoa,
Vai se vestir de letra preguiçosa
E entrar aqui para descansar...
Por ter achado aqui alivio e alento,
Reparo, amparo, refazimento,
E principalmente boa companhia,
A poesia, mal acostumada,
Vai ficar viciada...
Ai ai ai ai coitada da poesia...
29.9.07
É como se fosse um verso de Drummond,
Uma letra pra Chico Buarque musicar,
É como se fosse uma musica do Tom,
Esse seu olhar...
É como se fosse um passatempo bom
Que não deixasse o tempo passar,
É como Caetano criando um som,
Esse seu olhar...
É como se fosse coisa de cinema,
Raio de lua, risco de poema,
Banho de rio, beira de mar...
É como um doce que não termina,
Bela menina,
Esse seu olhar...